terça-feira, 15 de dezembro de 2009

FRANCAMENTE...
(UMA CRÔNICA COM PÉSSIMA MEMÓRIA)
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Como será o amanhã,
Responda quem puder...
O que irá me acontecer?
O meu destino será como Deus quiser...
(João Sérgio)


Tenho talento para muita coisa; principalmente para esquecer aniversário. É minha especialidade. Também não sou ruim em confundir pessoas, e tenho certa aptidão para perder papéis importantíssimos. E assim é a vida... Esquecendo e perdendo, vou, mal ou bem, vivendo.

Certa vez, porém, meu talento se superou. Uma overdose de talento. Vai ser brilhante assim no inferno! O caso é este, simples e tosco: esqueci meu aniversário. Esqueci mesmo, juraria com a mão na bíblia, se houvesse bíblia por aqui.

Atendo ao telefone, bem cedinho, com um alô desconfiado. Do outro lado, uma ex-namorada:

— Dia especial, né?

— É?

— Hum... Engraçadinho. Onde é a farra?

— Aqui em casa, você vem?

Falei assim, sem dar conta do caso. Achei que era uma cantada em hora imprópria, mas devidamente aceita. Depois, com as cantadas se multiplicando, comecei a achar que estava no paraíso astral, até que minha mãe ligou, e tive que admitir que as conversas eram parecidas. Descartada a hipótese de cantada materna, sobrou o aniversário, logo confirmado por minha mãe com parabéns, muitas felicidades, etc.

Acho que quem esquece o próprio aniversário deveria ser anistiado do esquecimento de aniversários alheios. Afinal, o que são as datas? Uma combinação de números, pouco ou nada mais. Vamos que tenha um valor simbólico. Concordo. Mas esquecer o dia não diminui o sentimento, não acham? Não, não acham...

Está visto que peço indulto em causa própria. Legislo pensando em mim. Porque já esqueci datas importantes e antevejo esquecimentos futuros. Singular talento, que tende a se aprimorar com o tempo. E, francamente, injustificável. Hoje é tudo tão fácil... Agenda eletrônica, computador portátil, celular. Tudo muito simples, tudo muito prático. Se eles ficassem pertos de mim. Sim, porque também consigo perdê-los com rara maestria.

Otto Lara Resende certa vez reclamou: "Devemos a Graham Bell o fato de estarmos em qualquer lugar do mundo e alguém poder nos chatear pelo telefone". Ah, ingênuo Otto, abençoado seja o seu tempo, cujos dias não conheceram o celular. Aí sim, você ia ser apresentado à chateação...

Não que não goste da modernidade, gosto. Há coisas maravilhosas, como, por exemplo, poder desligar o celular. A teoria não é minha, é do velho Machado. Não foi ele quem disse que a melhor coisa do mundo são botas apertadas? Sim, porque, descalçando-as, ah, que alívio e prazer. Atualizando o exemplo... Os celulares são botas apertadas, cuja maior virtude é ficar bem quietinho, desligado e calado.

Pois é... As datas não lembram de mim, nem eu delas. Que mal há nisso? Esqueci meu aniversário, admito. Não me quero mal. Acho até que me quero bem. Meu querer bem é assim, desajeitado e trapalhão.

Meus detratores, eu sei, espalham calúnias. Malvados! Dizem, com veneno escorrendo do canto da boca, que eu faltei, há uns anos, à minha festa de aniversário. E a calúnia ganhou corpo e versões diferenciadas. Já soube do seguinte diálogo, em roda de remotos conhecidos:

— Claro que você conhece, o Felipe!

— Ah, o que faltou ao próprio aniversário? Sim, sei quem é.


Já vou avisando: não adianta reclamar. Nem precisa. Eu me encarrego, com eficiência, da tarefa. Sei reclamar de várias coisas, mas fiz pós-graduação em auto-reclamação. Nem eu agüento. Se eu pudesse, já tinha me despachado. Tinha-me mandado reclamar em outra freguesia.

Também pudera... Tudo é relativo nessa vida. Tempo, espaço, a beleza das moças... Por que que diabo só as datas são preto no branco, precisas e fatais? Por que não abrasileirar as datas? Sim, conceder um desconto — uma semana, digamos — para as datas importantes. Uma espécie de moratória no calendário. Ou um santo para os distraídos.

Eu não entendo patavina de astrologia. Sei que sou de leão. É o que dizem. Soube, faz pouco tempo, que meu ascendente (acho) é libra. Deduzi que quem é assim precisa escrever, pois o "único antídoto para a rigidez e a depressão librianas é a arte. Ela dá sentido e propósito à determinação saturnina de construir um mundo de formas perfeitas e relacionamentos ideais". É o que está escrito no mapa astral que me foi presenteado.

Nasci em 10 de agosto. A certidão diz que às 8 da manhã. Há controvérsias em família. Mas sou assim. Acho que o mapa astral está muito justo. Talvez se dissesse o contrário, também acharia. Sempre que leio qualquer coisa acho que é pra mim. Sou um sujeito impressionável.

Talvez se pudesse inserir o dia da minha morte, o mapa astral ficasse mais preciso. Esse dia não sei. Espero que esteja longe, pois ainda há o que fazer. Se bem que... É... sabendo quando nasci e quando morrerei, o que sobraria de revelação fantástica para o pobre do mapa astral? Talvez dissesse que meu esquecimento crônico tem fundamentos astrais. Seria coisa útil. Esquecido um aniversário, mandaria um bilhetinho, logicamente atrasado, com pungidas desculpas, com uma cópia do meu mapa astral, dizendo-me inimputável.

E não é que a idéia é boa? Pode escrever aí, astrólogo amigo: os nascido em 10 de agosto apresentam curiosíssima compulsão para esquecer datas. Compreende-se: segundo decanato; Júpiter em oposição a Vênus; às oito da manhã, estranhíssima configuração astral. Melhor não nascer nessa hora. Nasceu? Boa sorte. Deus olha por todos.

Nasci, meus amigos, e venho vivendo. Até admito que gosto da coisa. Então, se algum astrólogo, desses bem precisos e exatos, souber, por Saturno ou Marte, quando morrerei, por favor, deixe isso em segredo entre os astros. De Plutão ou Júpiter não entendo, embora lhes ache poéticos os nomes. Nem da lua entendo muito; só espero que ela faça a gentileza de estar bem lunática, branquinha e inteira, no dia da minha morte, clareando meu caminho no meio do mar.

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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Felipe, sua crônica bem-humorada e bem escrita me fez lembrar de outra criatura que também escrevi bem e com humor, cutucando os astros:

Astrologia
(Mário Quintana)


Minha estrela não é a de Belém:
A que, parada, aguarda o peregrino.
Sem importar-se com qualquer destino
A minha estrela vai seguindo além...

— Meu Deus, o que é que esse menino tem? —
Já suspeitavam desde eu pequenino.
O que eu tenho? É uma estrela em desatino...
E nos desentendemos muito bem!

E quando tudo parecia a esmo
E nesses descaminhos me perdia
Encontrei muitas vezes a mim mesmo...

Eu temo é uma traição do instinto
Que me liberte, por acaso, um dia
Deste velho e encantado Labirinto .

Lucas Conrado disse...

Isso me fez pensar no último dia 13, que foi o aniversário da minha primeira professora, eu sabia disso, mas tava com preguiça de dar os parabéns... dá pra entender?

Anônimo disse...

Pode dar a mão a uma amiga minha....tb já esqueceu seu aniversário....rssss
Dos amigos então, nem precisa falar,desses sou eu que tenho que lembrá-la....rsssss

bjo

klaudya

Flávia disse...

Nossa muito boa sua crônica, bem humorada e muito bem estruturada!Muito boa ADOREI