terça-feira, 8 de dezembro de 2009

UM GENTIL FAVOR DIVINO
>> Felipe Peixoto Braga Netto

"A Minas Gerais, (devo) a minha sede, o jeito oblíquo e contraditório, os movimentos de bondade (todos), o hábito de andanças pela noite escura (da alma, naturalmente), a procrastinação interminável, como um negócio de cavalos à porta de uma venda".
(Paulo Mendes Campos)

Coração bobo é assim. Cai de quatro até por um ponto no mapa, com latitudes e longitudes definidas. Bem que podiam inventar um remédio inibidor de paixão. Não sei se tomaria, mas me acalmaria saber que ele existe. Porque eu, meu Deus, me apaixono com a mesma facilidade com que as pessoas tomam ônibus, trocam de roupa. E se fosse só por doces desconhecidas, vá lá! Mas não, também os lugares têm a irritante facilidade de me cativar.

Lembro a primeira vez que vim. Foi, aliás, no meu primeiro dia em Minas. Fiquei num hotel, aqui na Serra, e à noite, com dois amigos forasteiros, conheci esse lugar tão caracteristicamente mineiro: Cozinha de Minas. Minas, nele, está em tudo, não só no nome. Nas paredes, nessa casinha com grandes janelas e bananeiras plantadas na porta; nos pratos nas paredes, com recados de artistas boêmios; nessa esquina tão inclinada, que sempre soube inclinar meu coração.

Lá se vão quase três anos. De lá para cá, tantas e tantas vezes almocei, sozinho, aqui. É um ritual, e um feliz ritual. Saio do trabalho, ando pelo mesmo caminho, e de longe já vejo a casinha na esquina, com sua arquitetura que não sei definir, mas que me diz belas verdades mineiras. Chego, e tudo me acolhe bem, tudo combina comigo, com uma parte boa de mim.

Trabalho próximo, a breves minutos de uma agradável caminhada. Por isso venho tanto. Atravesso a rua Pouso Alto, minha velha amiga, vizinha à rua do Ouro; passo devagar pela praça cujo nome nunca soube, com a gentileza de suas árvores, e chego no Cozinha de Minas, depois de atravessar a avenida do Contorno. E gosto de vir sozinho, admito. Não que os convites fossem desagradáveis; não eram. É que sozinho posso aproveitar o lugar, e pensar em silêncio bobagens mineiras. Agradeço os bons caminhos; penso nos caminhos a trilhar.

São instantes de intenso prazer. De comunhão com Minas Gerais. E a comida... Ah, essa merece um tratado à parte. Uma prova incontestável da existência de Deus. E de que Deus nos fez para a felicidade. Só pode. Com uma comida dessas, sabemos que a infelicidade é uma grande mentira. Que a verdade grande, com v maiúsculo, está na alegria, e comer é um favor divino para nós, pobres criaturas humanas.

Tive muitas mesas prediletas. De uns tempos para cá, no entanto, escolhi com quem casar. Era uma mesinha charmosa, com vista para a rua Gonçalves Dias, de onde almoçava na companhia de duas adoráveis senhoras árvores.

À noite, é engraçado, vim poucas vezes, quase nenhuma. Outros foram meus destinos. Minhas experiências aqui foram diurnas, formam essa coisa banal, mas valiosa, que é o dia-a-dia. Não terá sido aqui que aprendi que a rotina, embora veloz, pode trazer alguma poesia?

Sim, leitores, bem sei que a ninguém interessa meu almoço. Admito que devia me conter, deixar de lado essa mania irritante de querer me contar. Essa confissão envergonhada é, na verdade, um bilhetinho de despedida. Escrevo porque, ao pagar, escuto sem querer uma conversa ao lado. O quê? Vão fechar?

— É, hoje é o último dia de funcionamento.

— Por quê? — indago disfarçando o choque.

— É que vão construir um prédio aqui.

Deviam prender quem fica melancólico ao saber que um restaurante vai mudar de ponto. Mas eu fiquei. Não deve ser sinal de saúde mental, ou deve ser, sei lá, sinal gravíssimo de alguma coisa má. Não sei. Sei que sofri, dignamente, calado. Brigar com prédios não vale a pena. Há até o consolo de que ele continuará em outro lugar. Pode ser. Mas acho que o caminhão de mudança não carregará, junto com as mesas, minhas lembranças. Essas carrego eu; não alugo nem vendo. Quando Deus quiser me mudar de ponto, pedirei (não sei se mereço) uma mesinha lá no céu, parecida com essa onde fui feliz, e lá me sentarei, calado e contente, me irmanando a um divino tutu com celestial couve, vinda de Minas para um saudoso habitante das nuvens.




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5 comentários:

Ricardo G. Falco disse...

Olá Felipe!
Parabéns pela crônica!
Gostei bastante de sua prosa; deu até vontade de voltar a visitar este estado tão receptivo e repleto de características bem marcantes (adjetivos qualitativos), que teimam em fixar-se em nossas memórias.
Quem nunca foi à Minas não faz idéia do que está perdendo...
Ou melhor, agora já dá para saber um pouquinho...!
(rs!)

Grande abraço!

Paz e Bem!

Juliêta Barbosa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Juliêta Barbosa disse...

Felipe,

Saudade é sinônimo de felicidade... E nada melhor que o cotidiano e as suas certezas, para nos proporcionar esse estado permanente da alma. Sempre que alguém escreve um texto com tanta sensibilidade quanto o seu, lembro das ruas da minha cidade e os seus odores que, ainda hoje, caminham dentro de mim. Obrigada, por trazer à tona as minhas saudades esquecidas.

Sam Green disse...

Nossa Felipe, seus textos sempre me deixam tão saudosista da minha terra natal. Que saudade de Minas!
Também sou assim, sabia? Fico mal só de ver aquelas lindas construções antigas dando lugar Àqueles prédios enormes e sem mágica. Mesmo que eu nunca tenha entrado em uma dessas casinhas e nem tenha lembranças concretas delas, mas só de poder passar na frente delas todos os dias e contemplar aquela arquitetura, que já é tão rara nos grandes centros, já estava bom.
Como sempre, adoro seus textos. Parabéns! Continue me trazendo boas lembranças de Minas.

Debora Bottcher disse...

Valha-me... Tomara eu possa me sentar junto, um dia, nessa mesinha celestial ouvindo e partilhando essas e tantas mais histórias...
Beijo pra vc.