quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

SEM LAÇO >> Carla Dias >>


"Tem mais presença em mim
o que me falta."
Manoel de Barros



Presente bom, muitas vezes, é presença. Vale agradecer pelas presenças que não partem de nós, independente dos humores, dos desabafos, das erradas. Presente de estar, sem data para sair de cena, sem tendência a deixar na mão.

Quem é presente sabe quando calar, mas também quando colocar a boca no trombone. Estabelecem-se nessa relação – metaforicamente falando, meus caros - os tais tapas e beijos da canção.

Se o profeta se fizesse presente, certamente perceberia dar aquele nó nos seus pensamentos sempre tão profundos. Na teoria, a sabedoria pode ser extremamente elegante, dotada de todos os preceitos da etiqueta. Porém, na prática ela é da simplicidade das salas cheias de gente batendo papo sobre quem, como e quando, despreocupados com previsões, cometendo gafes em favor da benquerença. E ao mesmo tempo, curando o espírito dolente sobre o qual o profeta tece as teorias de fim do mundo, início da era. Sobre os recomeços dos quais fala a poesia tagarela.

Presentes permanecem os que não abrem mão do outro ao sinal de dificuldades. Quem não adota a mentira como fio condutor da união das suas histórias. Ser presente não é tarefa fácil, ainda mais em tempos em que a individualidade impera, apesar de tocantes e constantes ações voluntárias, e das reações aos distúrbios que acossam nossa humanidade.

Ser presente é coisa para quem não se importa em correr o risco de se apaixonar pela pessoa ou pela ideia, quem não cultiva temor por ser assimétrico demais para caber na simetria dos planos traçados.

Porque planos traçados são apenas corrimões na escadaria da nossa vivência. Às vezes nos sustentam no caminho, impedindo-nos de ir de vez ao chão, mas em outras são apenas apoios, uma segurança mínima no momento das escolhas determinantes.

Quem é presente é presente também. Pode não vir com laço, embrulhado em papel colorido. Pode nem mesmo ser tão sorridente quanto como ficamos ao desembrulhar o pacote. Porém é presente de um jeito que às vezes nos dá nó na garganta, tamanha emoção é tê-lo assim: presente.

Para os que apreciam as festas: brindes sinceros. Para os que preferem o seu canto em casa: bons filmes. Para as crianças: playmobil. Para todos: presenças que sejam presentes.

www.carladias.com


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6 comentários:

albir disse...

Presenças presentes pra você também, Carla.
E obrigado pelos presentes semanais.

pensandoemfamilia disse...

Gostei tanto dessa crônica que me farei presente entre os amigo através dela. É lógico, com seus créditos.
Parabéns por este presente.
Se desejar vc me encontará no blog: http:pensandoemfamilia.com.br/blog
Será um prazer.

Anônimo disse...

obrigada pelo presente.

klaudya

Elenise Evaristo disse...

Ausência é saber estar...lindo texto, que me remete à Drummond:

A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, adorei o playmobil. :) Você é um presentão! :)

Carla Dias disse...

Albir... Nós fazemos troca de presentes semanais, certo? Então, obrigada também!

Pensandoemfamilia... Me peguei pensando sobre qual é o seu nome : )
Fico feliz em saber que minha crônica será presente aos seus. E já anotei o site... Vou aproveitar as férias para conferir, ok? Abraços!

Klaudya... Obrigada pela presença : )

Elenise... Lembrança boa essa de Drummond. Obrigada por fisgá-la e trazê-la aqui.

Eduardo... Playmobil é legal mesmo, né? Ah... Você também é um presente e tanto!