sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

1 e 70 >> Leonardo Marona

Andando na rua. Faz um calor desértico. Tenho as virilhas em carne viva. As coisas ainda poderiam ser piores – eu já sabia disso. Mas, ao me deparar com um homem muito alto, desajeitado, como que deslocado num mundo fora dos seus ajustes, tão mais perto do sol que eu, com a testa brilhando e a cara de pavor canônico, tenho de repente a nítida sensação de que, sim, o mundo havia sido feito para os meus parâmetros.

Pobres seres gigantes, que se cansam tão rápido de sobrevoar o mundo. Ficamos mais por aqui, por entre pêlos e pátios. Os mictórios – aleluia! – ajustam-se às nossas necessidades. E os peitorais não convidam constantemente à tontura ou ao suicídio. São verdadeiros parapeitos, dissuadem o pulo único.

Pela altura – talvez a visão fragmentada, dissolvida nas multidões em polvorosa – seja um perfeito soldado, a média do homem mundano sem deus ou justificativas, a forma da besta milenar. Colho flores, chupo mangas como qualquer um. Apenas me joguem um par de tênis, serei médio, farei com que sirva. Pedirei licença às velhinhas, farei com que me vejam. Entre as migalhas de um mundo esmurrado, sentarei no meio-fio, as pernas ajustadas à exatidão do suplício, verei facilmente calcinhas, terei idéias com que me ocupar.

Foi andando na rua, debaixo de sol forte, que pela primeira vez me senti completamente inserido, uma referência finalmente do tradicional homo sapiens. Os passos não são imensas aventuras cósmicas, são duros, secos, sub-reptícios, escorregam metalicamente pelas calçadas em chamas.

A melancolia vasta de estar sempre pela metade, na média do todo, a aflição leve de ser despossuído de extremos, isto, convenhamos, é realmente de lascar. Mas é recompensador enxergar as plantas distantes da compreensão dos olhos. Automaticamente elas ganham grandeza, e nós, um pouco de humildade.

Chama atenção como, nos veículos muito ligeiros, posso me agarrar ao puta-que-pariu sem tirar o cotovelo da janela.

Tudo bem que Julio Cortázar e Samuel Beckett fossem homens enormes, e que o próprio Ernest Hemingway não fosse nenhum anão de circo, mas sinto que mais pessoas de 1 e 70 conseguem atingir o equilíbrio da vida, que constitui basicamente em não se suicidar e, se for possível, manter o mínimo do que os sensíveis chamam joie de vivre. Cabe às vezes usar uma escada.


www.omarona.blogspot.com



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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito boa essa crônica do homem médio, Léo. :)