terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A ARTE DE FICAR CALADO
>> Felipe Peixoto Braga Netto

"Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados".
Clarice Lispector

Saber ficar calado. É uma arte. Difícil, exige esforço e experiência. Não digo ficar calado sozinho, pois aí não há muita vantagem. Se sairmos a divagar, em voz alta, as perturbações que nos vão nos pensamentos, não demora estamos divagando num hospício.

Também não falo sobre ficar calado em público. Já fui mais calado em público, hoje nem tanto. Sou até, às vezes, o menos calado. Curioso, isso. Eu achava que era um caso perdido de timidez crônica, de incompatibilidade absoluta com a palavra oral, e hoje me pego, eventualmente, para meu espanto, falante e loquaz.

Queria mesmo abordar a difícil arte de ficar calado a dois. É disso, em essência, que trata a bela frase em epígrafe. Os jovens — falo por mim, pelo que lembro — não sabem, definitivamente, ficar calados a dois. É um desconforto terrível, uma absurda e incômoda sensação de mal-estar, aliada a um desespero tolo em busca de assunto.

Depois, com o tempo, passamos a ser menos severos conosco e nos permitimos, vez por outra, a falta de assunto. Aliás, que necessidade absurda é essa de falar por falar, sem parar? Escrevi, certa vez, uma frase que depois li curioso: "Demorei a perceber que são os calados que têm algo a dizer...".

Não sei que poeta falou — creio que o Quintana — que amizade é quando o silêncio a dois não se torna incômodo, e amor é quando o silêncio a dois torna-se prazeroso e íntimo. Algo assim, com outras palavras. Mas, no fundo, não é isso mesmo? Já experimentaram a sensação de ficar uns minutos calados, depois do amor? É uma conversa com Deus.




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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Trem bão é o silêncio! :)

Anônimo disse...

Tb acho edu. ;)

Clarissa B. disse...

Eu sinceramente não tenho essa sensação estranha...
Um tempo atrás conversava como um amigo sobre como eu me sentia bem em silêncio perto de um determinado "carinha"... e como esse mesmo "carinha" sempre me procurava qdo tava put* da vida e não queria conversar, mas queria alguém perto...

Acho que qdo a gente se sente seguro pra ser o q realmente é perto de alguém não há essa preocupação com o silêncio... é possível se comunicar com os olhos, com toques, com um simples sorriso...

Bjo.

Cláudia disse...

Felipe, belo exercício este do silêncio. Vou me esforçar...