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Mostrando postagens de Setembro, 2015

COM OS OUVIDOS NA TOMADA >> Carla Dias >>

Essa minha cabeça é palco. Tudo que me falta, esparrama-se nela. Pensamentos produzem verdadeiros festivais de cinema e música. Já fiz filmes: história com começo, meio e fim e cast dos bons, atores e atrizes brasileiros e estrangeiros, mas estrangeiros de todos os cantos desse mundo. Ricardo Darín e Jean-Huges Anglade que o digam. Quer dizer, não dirão. Eles não sabem de mim e dos meus filmes imaginários.
Os shows que acontecem nesse palco são sortimentos. Há cores, ou tons, ou a tal da pluralidade de estilos. Os shows que acontecem nesse palco permitem jam sessions de fazer meu coração bater mais rápido, em ritmo de samba, funk, rock’n’roll. Nesse clube eu sou VIP.
Quando não há silêncio, e sim barulhos que não me interessam, toco uma playlist de músicas de artistas variados na minha cabeça. Porém, nessa semana tem sido diferente. Apeguei-me ao disco novo de um artista que adoro. Desde então, ele está no repeat.
A primeira vez que escutei Filipe Catto, também foi quando caí de amor…

MINHA FAMÍLIA >> Whisner Fraga

Era muito gente boa, mas também mimado, um filho de mãe, como diziam. Um filho de mãe era aquele indivíduo apegado à figura materna, protegido debaixo das asas sempre aquecidas da genitora. Um filho de mãe era também o camarada que vinha de uma família estruturada, tradicional, católica, com pais celebrando bodas de prata e tudo bonito por natureza, mas que beleza. E que morava com a família e que tinha um amigo apelidado de Bug, que era dono de um apartamento na avenida Augusta, perto da Paulista.

Também tinha o lance de querer ensinar os fumantes a tragarem. Porra, ninguém ali queria saber o jeito certo de tragar. As pessoas queriam curtir. De forma que matávamos as aulas quase todas as noites para jogar sinuca. Jogar sinuca era muito mais produtivo do que assistir à mesma lengalenga repetida durante quinze anos ou mais sobre Aristóteles. Caramba, estava tudo nos livros e eu podia muito bem ler em casa. O curso de Letras me preocupava: mais um pouco e eu podia sucumbir às amarras da…

HABILIDADES DOMÉSTICAS >> Sergio Geia

Na sexta-feira, meu filho chega de São Paulo carregando uma mala entupida de roupa suja. No final de semana, ele toma de assalto a máquina de lavar. Gira os botões como quem gira o botão do fogão, ou aumenta o volume do rádio do carro, ou coisa parecida; uma familiaridade irritante, inaceitável e incompreensível. Despeja o sabão em pó, que não é mais em pó, mas líquido, o amaciante, e ainda me avisa que o “Omo tá acabando, pai!”
Depois põe a geringonça pra funcionar que é uma beleza. Uma, duas, três, nem sei quantas vezes. Dois varais com camisas, jeans, lençóis, bermudas, meias. No final do domingo, carrega tudo de volta pra mala, que irá levar de volta a São Paulo, para mais uma semana de labuta. O elefante branco de outros carnavais, que me assustou quando vim morar sozinho, tornou-se para o jovem de 18 anos um simples e inofensivo gatinho. Se aos 45 eu nunca tinha apertado um botão sequer de uma máquina dessas, ele, aos 18, já domina a técnica com maestria, que o tornará por certo …

CHAMAS >> Zoraya Cesar

Não era o sujeito mais brilhante do mundo; era, até, meio bronco, mas Gilmar conseguiu passar na prova para o Corpo de Bombeiros. Raspando. O que o salvou foi a prova física, na qual tirou nota máxima.
Um uniforme, vocês sabem, atrai mulheres como formigas no pão doce. E Gilmar era calmo, pacato. Não gostava de farras, jogatinas, churrascadas.
Não à toa, portanto, que Lucinha, a meiga, simples, sonhadora Lucinha, de crespos cabelos negros e grandes olhos castanhos, apaixonou-se por ele. O bombeiro, como sabemos, era meio devagar para perceber as coisas, mas os amigos, esses o alertaram que a moça mais bonita e valorosa da região estava a fim de um relacionamento sério.
Casaram-se. Casaram-se e tiveram uma filha. Lucinha trabalhava de doceira, quituteira e, eventualmente, faxineira. Tudo pela família, para ajudar nas contas e crescer na vida com seu amado Gilmar. 
A vida seguia tranquila. A vida sempre segue tranquila até deixar de seguir, não é mesmo?
Pois teve uma noite em que a equ…

O AMOR QUE TU ME TINHAS >> Analu Faria

Sempre que um relacionamento termina, terminam sonhos. Não sonhos futuros, planos de viagem, filhos, casa, essas coisas. Terminam o “volta logo” na despedida do aeroporto, o “vou aonde você for” quando se anuncia uma possível mudança de cidade; termina a sensação de que o mundo é melhor quando a gente ouve o “eu te amo” dele/dela. Isso tudo que é bom demais no cotidiano, e que a gente trata com trivialidade, é sonho. E vai embora com o “adeus”.
Esta crônica é uma homenagem ao adeus de um relacionamento a dois. Porque o fim é tão bonito quanto o começo. As dores, é claro, são diferentes. A dor da incerteza, no começo, é quase um prazer. A dor do fim é quase um precipício. Mesmo assim, o fim é um filme que começa com ele subindo em uma árvore — para pegar aquela folha com cheiro de eucalipto que ela ia gostar —, passa por ela pensando “meu Deus, tô fodida, vou me apaixonar”, destaca a cena em que ele, dislexo, demora duas horas para escrever o bilhete pedindo-a em namoro, tem o ápice n…

AQUI >> Carla Dias >>

Venho aqui, não sei se suficientemente delicadamente, ou se com o charme imprescindível para fazer esse feito necessário. Ainda não sei se a minha mente está no lugar a ela reservada ou se perdida no aconchego de um engano aparente, sujeitada ao cargo de produto recém-lançado exposto em expositor requintado de supermercado.

Acontece que aqui estou e com gana de quem deseja profundamente encher de flores qualquer antessala. Anteceder azedume para curá-lo em tempo com bala de café. Benzer a fronte do deus mais humilde que a vida — ou Hollywood — há de criar.

Venho aqui, porque ali meus pés queimaram em terreno descampado de delícia, e diferente do que dizem os pudicos, delícia é bom de um jeito...

Deliciar-se é imperativo.

Depois de reverberar uma delícia, o ser, ele que há tempo indefinido estava preso entre os dentes da lugubridade, ilumina recintos como se fosse farol indicando caminho. Seu corpo se esquiva da curvatura, aprumando-se como só são capazes de se aprumar os que não têm …

MEDINHO DE NADA >> Clara Braga

Essa última semana descobri um novo medo. Na verdade, meu medo de altura não é tão novo assim, mas eu nunca tinha me testado a ponto de descobrir que o medinho que eu achava que tinha era um pouco mais grave que isso.
Nunca deixei de ir a lugares altos ou de fazer algo que evolvesse uma certa altura. Sempre senti aquele frio na barriga, sempre evitei chegar muito na beira da varanda do apartamento do meu amigo que mora no 15 andar, mas achava que era só um medo normal diante de uma possível situação de risco. Tanto achava que era algo tranquilo que já cheguei a fazer planos para saltar de paraquedas, imagina! Todo mundo que salta diz que não existe sensação igual, que é uma experiência única, fiquei curiosa! Mas a curiosidade sumiu por completo e já me conformei que meu lugar é com meu pezinho o mais próximo do chão possível.
Semana passada, ficamos dois dias em um hotel fazenda com os alunos da escola, fazendo várias provas da gincana anual. Entre as provas, estava o tal do arvorism…

A PENÚLTIMA PALAVRA >> Eduardo Loureiro Jr.

Eu já fui um sujeito muito polêmico, daqueles que têm a última palavra. Minha chatice argumentativa era mais ingênua que beligerante. Pensamentos e ideias sempre foram para mim uma espécie de brincadeira, feito peteca que não se deve deixar cair. Réplicas, tréplicas, quadréplicas... eram só uma forma de manter os pensamentos e as ideias em movimento.

Mas comecei a perceber que as pessoas se irritavam. E se tem gente que perde o amigo, mas não a piada, eu preferia perder o argumento a perder a amizade. Decidi, então, limitar o número de vezes que argumento a respeito de qualquer coisa. Mesmo que o assunto não seja polêmico, e esteja longe de gerar qualquer tipo de competitividade desconfortável, procuro reduzir minhas falas a duas ou, no máximo, três. E faço o possível para que a derradeira não seja provocativa.

E se o leitor discordar, meu silêncio há de lhe dar razão...

PECADO CAPITAL >> Paulo Meireles Barguil

 Esse era o título de uma novela há 40 anos, inspirado em música homônima composta por Paulinho de Viola, que começava assim: "Dinheiro na mão é vendaval / É vendaval!...".
Durante os últimos anos, milhões de brasileiros acharam que tinham encontrado a árvore que jorrava dinheiro ininterruptamente. Ao mesmo tempo, poucos, bem poucos, sabiam que chegaria o minuto em que o embuste seria quebrado. As badaladas estão soando...
Quem quer ouvir a verdade? E mais, quem tem a coragem de enunciá-la? A massa, atônita e perplexa com a realidade, que começa a ser desvelada, comporta-se tal qual uma criança mimada, que se recusa a ouvir um não e exige a perpetuação e a ampliação de direitos incongruentes. Enquanto uns querem jogar pedra na Geni, outros querem retirá-la, como se ela fosse a culpada pelo esfarelamento da ilusão. Quem quer ouvir a verdade? E mais, quem tem a coragem de enunciá-la? A situação é bem simples de ser entendida: o que acontece quando se gasta mais do que se gan…

INSISTENTES E PERSISTENTES >> Mariana Scherma

As pessoas não têm muito a noção exata do que é insistir e persistir. Insistir é ser chato, persistir é ser corajoso. Pra mim, pelo menos. Insistência tem a ver com não aceitar o não ou uma condição e querer mudar o imutável. Meio impossível. Persistência é sinônimo de ter fé e noção, lutar pelo que faz sentido. Tô errada?
Dia desses, um fulano do trabalho virou e me perguntou: “Quem você acha que ganha hoje?”. Pra mim, essa coisa de ganhar tem a ver com esporte e ponto. Por isso a minha resposta: “Mas o Corinthians joga hoje, é?”. O cara riu e disse: “Não, no MasterChef”. Sério, me senti uma ET. Sei tanto desse reality show quanto de física quântica, vidas passadas e como mandar bem no churrasco. Quem me conhece sabe: entendo zero de tudo isso. Eu respondi ao cara que nunca tinha assistido e ele me virou: “Mas você estava dizendo esses dias que não queria spoiler do MasterChef”. Eu não disse isso, avisei. Até porque tanto faz spoiler de algo que nunca vi, mas ele insistiu que eu tinha…

LUGARES INTERIORES >> Carla Dias >>

Amanhece com o dia ainda no prefácio. Gosta de recebê-lo com olhar a se perder em horizonte. Não é de longas noites de bom sono, mas de poucas horas de olhos fechados e raros momentos de silêncio, quando seus pensamentos se acalmam, assim como sua respiração, e ele consegue se misturar ao silêncio da madrugada.

Ano passado, perdeu emprego e esposa, nessa ordem mesmo. Era bom no que fazia... Não, era ótimo no que fazia. Era tão ótimo que chegou o dia em que aquilo já não fazia mais sentido e não havia como seguir adiante. Não havia promoção, plano de carreira ou o que fosse que acenasse com o próximo passo. E para ele o próximo passo era necessário. Aos poucos, toda excitação de ser quem era foi se esvaecendo. Tudo foi ficando fácil, mas de um jeito tirano.

A esposa, que lhe acompanhara durante longos e aventureiros quinze anos, sentiu essa onda de esmaecimento e se aborreceu profundamente. Para ela a vida ainda reservava uma série de próximos passos. O seguinte ela deu na companhia d…

OS SEM-NOÇÃO >> Whisner Fraga

Não é fácil a gente se descobrir um sem-noção. Aliás, eu acho que nem é possível. O que acontece, com mais frequência, é que alguém descobre pela gente. Do nada a gente faz uma merda e um espectador nos alerta: puxa, que sem-noção. Praticamente toda a humanidade é sem-noção. Aí, julgo importante algum pesquisador bolar uma escala para classificar os níveis de discernimento de um indivíduo.

Como adiantei no primeiro parágrafo, sou um sem-noção. E bastaram pouco mais de dez anos de vida para eu constatar isso. Desde então, acho que, de vez em quando me divirto em ser assim. Faço brincadeiras muito idiotas em horas indevidas. Como quando contei uma piada no velório de meu tio. Muita gente riu, o que, de certo modo, me absolveu um pouco. Ou quando falei para uma grávida que o mundo está muito populoso e que não é mais sustentável.

Mesmo quando o assunto é política, sou um sem-noção. Aliás, todo idealista é sem-noção por definição, porque vive em um mundo que jamais existirá a não ser em s…

O VENTO >> Sergio Geia

Estava caminhando em direção ao Fritz quando fui acarinhado por um ventinho suave. Lembrei-me na hora de um pedaço de crônica da Cristiana Moura. Foi uma das primeiras que li da Cris e que me fez ficar apaixonado pelo seu estilo.
No bar, a caneca de chope brilhando na mesa, fui pro celular encontrar “Um sopro na tarde”: “Era manhã de domingo. Ele tinha cinco ou seis anos. Saímos do mar correndo como numa brincadeira que se pensasse eterna. Sempre que saio do mar me sinto como que emergindo do útero da Terra. Ele fechou os olhos e depois de um curto silêncio disse quase em sussurro, como quem revela um segredo ainda sem a certeza de que pudesse ser revelado: — Mãe, o vento tá fazendo carinho no meu rosto! — Pois deixa ele carinhar meu filho, deixa ele carinhar” – Cristiana Moura.
Era manhã de domingo, mas eu não tinha o mar. Mas tinha o vento, e uma caneca de chope trincando na minha frente. Bebi o chope feliz da vida por aquele instante mágico, as palavras da Cris me inundando com a ma…

A HORA DO CHÁ >> Zoraya Cesar

O homem era magro e se vestia comumente — calças jeans usadas e em bom estado, tênis, camiseta azul marinho sem estampa e jaqueta preta, nada de grife. Os cabelos negros, cortados à escovinha, encimavam uma tez branco-pálida. Na multidão, confundido entre todos os outros homens da rua, era apenas mais um. 
À primeira vista.
Pois, se você o observasse por miúdo, repararia que ele parecia um gato em terreno estranho, cauteloso, disfarçadamente olhando tudo ao redor, como que temendo ser atacado de surpresa. Veria que, apesar de magro, seus músculos eram firmes e o corpo, flexível, como o de um atleta de alta performance. Caminhava sempre junto a pequenos grupos de transeuntes, jamais sozinho. Você, porém, passa batido, sem notar nada disso, e é bom que seja assim. Há coisas que é melhor não saber: quem é ele e o que faz ali.
No Centro da cidade, algumas confeitarias mantêm o charme de épocas antigas, com mesas de tampo de mármore e bases de ferro, lustres de cristal, espelhos bisotados…

CAPA E ESPADA >> Analu Faria

Estamos cansados da crise política, do trabalho acumulado em cima da mesa, do domingo sem nada de interessante para fazer. Queremos filmes, queremos bons livros de ficção.E para que essa ficção não seja apenas uma cópia da nossa realidade, queremos seres mitológicos, queremos fantasia, faz de conta, queremos heróis de capa e espada.

Queremos mocinhos e mocinhas que sejam delicados, corajosos, impetuosos, justiceiros, sábios, divertidos, que gostem da vida, que não deem passos em falso — mas se derem, a gente perdoa —, que assumam suas fraquezas, que consigam rir dos próprios erros, que sejam do bem, e que tenham aqueles pequenos defeitos essenciais para que não os achemos chatos.  E queremos que eles enfrentem monstros em terras distantes, bandidos sem escrúpulos, escroques, governantes corruptíveis, os poderosos indiferentes e os vizinhos que não dão “bom dia”.

Mais do que “enfrentar”, queremos que eles vençam. Depois de quase perderem. Depois de anos presos em masmorras ou em solitá…

O TRISTE >> Carla Dias >>

Sim, ele é triste.

Ser triste é o que lhe confere o direito de ser pessoa, já que as outras pessoas não sabem reconhecê-lo de outra forma. É triste de tristeza sombria, das que levam sua vítima ao cúmulo da solidão.

Muitos querem entender como uma pessoa pode ser assim tão triste. Há quem passe horas a aconselhá-lo, que melhor seria se ele mudasse de ares, talvez de país. Quem sabe terapia, grupo de apoio, tarja preta, intervenção religiosa... Esportes? Teve até quem garantisse que isso era falta de intimidade e lhe oferecesse o décimo terceiro salário inteirinho para que ele, o triste, sofresse da alegria de se esparramar nos braços de uma mulher.

Aquele ser triste embrutecia o dia dos felizes de plantão, eles que nem conseguiam sorrir mediante a tristeza que possuía aquele ser. A tristeza dele se tornou tópico de todo o tipo de reunião, principalmente de condomínio.

Mediante o desejo pungente de consertá-lo, o triste até tentou e participou de uma série de eventos: churrascos aos s…

SURDEZ MUSICAL >> Clara Braga

Não importa o quão bem você escuta, com certeza seu ouvido já te pregou algumas peças e a maioria com certeza rendeu boas risadas. O meu clássico engano foi com um famoso ditado popular: "Quem canta seus males espanta"! Passei nem sei quantos anos da minha vida dizendo: "Quem canta seus mares espanta!" Um erro bobo, mas que faria muita gente surtar sem saber o que escolher: lavar a alma cantando junto às alturas aquela música predileta e nunca mais dar um alô para Iemanjá ou curtir uma prainha ouvindo um ipod tímido só batendo o pezinho no ritmo.
Mas nem só de ditado popular errado vive o homem, no caso, eu. Músicas também são alvos constantes de mudanças drásticas. Costumo me apropriar de uma piada de um desses humoristas e dizer que o parâmetro para saber se você tem ou não ouvido bom são as músicas do Djavan. Não entendeu? Eu explico.
Minha falha mais “grave” até hoje foi com uma música do Capital Inicial. Não vou falar quantos anos da minha vida passei cantand…

ACORDA, MENINO! >> Albir José Inácio da Silva

O que diz o menino que dorme na praia? Talvez fale dos perigos do mar, da displicência dos pais. Ou de um assassinato a ser esclarecido.

Mas é só um menino. Não deveria nos dar esta sensação de naufrágio da humanidade. Há dias, não adianta acusar governos, etnias, religiões, porque a falta de ar não cessa.

É lágrima que não pinga, não seca nem escorre. É mais que um cadáver, é um assombro, uma dor insepulta de que tentamos nos livrar.

E ainda suspeitamos de nós mesmos.

Em nome dos deuses fazemos coisas que até o diabo duvida. Duvida e se defende, dizendo que não chegaria a tanto, embora comemore o resultado.

Queríamos não ter visto nem sabido — maldito fotógrafo, maldita web e maldita imagem que, mesmo escorraçada da memória, dorme no tapete da sala e à noite repousa no nosso travesseiro, naquela pose mesmo que o mar beijava.

Fica-nos a sensação de que Alá deu de ombros, Jeová lavou as mãos e, embriagados na bacanal do Olimpo, os outros também ignoraram o presente de grego numa praia …

O ÍNTIMO DAS COISAS >> Eduardo Loureiro Jr.

As coisas também têm seu íntimo.

Antigamente, eu me sentava aqui, ou acolá, e escrevia uma crônica em vinte minutos, assim como quem abre a torneira e a deixa aberta enquanto escova os dentes ou faz a barba. Era uma mistura de crença na abundância com tolice despreocupada.

Hoje não é bem assim. Hoje eu me pergunto se devo mesmo abrir a torneira. Já tem tanta água desencanada por aí. Eu mesmo, se empregasse todos os meus dias lendo aquilo que quero ler, não daria conta em uma simples encarnação. Então para que acrescentar mais palavras a esse mundo? Não seria a palavra, assim como a água, um bem a ser preservado, a ser utilizado com parcimônia?

Tem dias em que sinto vontade de ficar parado, bem parado, e só espreitar o movimento de tudo ao meu redor. O passeio do Sol bem que merecia um espectador atento que aplaude só no final. Mas existe o íntimo das coisas, e, entre as coisas, eu mesmo.

Meu íntimo é um labirinto de canos percorrendo paredes, subsolos, desaguando em canos maiores, tam…

CONTAGEM AGRESSIVA >> Paulo Meireles Barguil

A primeira contagem que a gente aprende é a progressiva: 0, 1, 2, 3, 4, 5...

Ela nos permite quantificar objetos, brincar de se esconder...

Depois, a gente constrói a habilidade reversa, expressa na contagem regressiva.

Nos filmes, muitas vezes ela é mostrada quando é interrompida antes do seu final.

Há, também, a contagem agressiva, que é usada para mostrar a alguém a quantidade de coisas desagradáveis que ela, na perspectiva do contabilista, fez.

Ao avançar no tempo, cada pessoa está se aproximando do abismo, que é o passaporte para o próximo salto.

No anterior, choramos ao cruzar o despenhadeiro, enquanto os demais sorriam.

No próximo, quando estivermos atravessando o túnel, alguns chorarão.

Não por nós, mas por eles mesmos.

Desconfio que nessa viagem a gente sorri...

O PÉ DE MANJERICÃO >> Mariana Scherma

Toda vez que chego na casa dos meus pais, sou recepcionada por eles, claro. Mas também por um ser vivo que me comove e já virou o aroma lá de casa: um pé de manjericão. Eu saio do carro e ele está logo ali na rampa de entrada, pedindo pra que eu lhe dê aquele cheiro (alô, Bahia!) e eu dou um cheiro tão bem cheirado no manjericão que, praticamente, eu o inalo. Sim, eu cheiro manjericão. Mas é totalmente legal isso, confere?

Eu não lembro exatamente como aquele pé surgiu ali, de certo mami plantou uma mudinha que foi muito em frente. Mais em frente que eu no jornalismo, talvez. Ele é que deveria ser o orgulho da casa. No tempo seco, o pé dá uma murchada. No verão chuvoso, ele exala seu aroma de longe. De tão longe que chega até os vizinhos. E como minha casa não tem muro, os vizinhos vão lá pegar umas folhinhas para o molho e pizza de cada um. E você acha que o pé de manjericão se ressente de ser cutucado por quem não é de casa? Que nada! No dia seguinte, ele aparece ainda mais lindo e …

HOUSE >> Carla Dias >>

Eu sei que frequentemente volto para o mesmo ponto. Mas estou tranquila a respeito, que depois de tanta vida, não acho que mudar esse aspecto irá beneficiar a ninguém, tampouco a mim.

Há três semanas, estive com amigos e falávamos sobre tudo. É o que acontece quando encontro com os amigos: perco o limite e abro a boca, principalmente se houver doses de café envolvidas. Assim, de música a novela, de tragédias alheias a questões pessoais, da época da adolescência ao momento este, agorinha mesmo, enfim, de tudo um pouco entra na conversa.

E sempre falamos sobre House...


Depois desse dia, decidi assistir novamente à série. As que eu estava seguindo chegavam ao fim e eu precisava dar um tempo em toda a informação que pipocava na minha cabeça.

Minha cabeça é esse lugar onde está sempre acontecendo alguma coisa, tipo um salão gigante cheio de pessoas falando ao mesmo tempo, tendo ideias ao mesmo tempo, exigindo atenção ao mesmo tempo.

Decidi que pararia com toda a maluquice do momento, apen…