domingo, 27 de setembro de 2015

MINHA FAMÍLIA >> Whisner Fraga

Era muito gente boa, mas também mimado, um filho de mãe, como diziam. Um filho de mãe era aquele indivíduo apegado à figura materna, protegido debaixo das asas sempre aquecidas da genitora. Um filho de mãe era também o camarada que vinha de uma família estruturada, tradicional, católica, com pais celebrando bodas de prata e tudo bonito por natureza, mas que beleza. E que morava com a família e que tinha um amigo apelidado de Bug, que era dono de um apartamento na avenida Augusta, perto da Paulista.

Também tinha o lance de querer ensinar os fumantes a tragarem. Porra, ninguém ali queria saber o jeito certo de tragar. As pessoas queriam curtir. De forma que matávamos as aulas quase todas as noites para jogar sinuca. Jogar sinuca era muito mais produtivo do que assistir à mesma lengalenga repetida durante quinze anos ou mais sobre Aristóteles. Caramba, estava tudo nos livros e eu podia muito bem ler em casa. O curso de Letras me preocupava: mais um pouco e eu podia sucumbir às amarras da facilidade. Às fórmulas. À Síndrome de Estocolmo.

Aprendi muito mais vendo Bento apreciar solitário seu uísque ali ao lado. Parecia assistir às nossas jogadas. Nunca o convidei a se juntar a nós e é um dos poucos arrependimentos que carrego. Pouco depois ele morreria, sob o provincianismo e o sol achincalhante de São Carlos, a capital do clima. Bento Prado Jr, acho que ficou meio óbvio que era ele, não? Os papos com Deonísio da Silva, que valiam muito mais do que qualquer aula de Teoria da Literatura. As conversas no quiosque, extraclasse, lógico. Embora vira e mexe eu comparecesse às suas palestras sobre literatura brasileira contemporânea. Era o único professor com coragem para ler contos de Lygia Fagundes Telles na academia. Luiz Vilela e coisa e tal.

Mas apesar de meu amigo ser mimado, não tinha essa coisa canhestra e assustadora de hoje de querer definir o que é família. Família é o que chamamos de família, sou obrigado a defender, quase vinte anos depois, quando supostamente a sociedade estaria mais justa e esperta. Meu amigo era filho de mãe, mas um dia fui à sua mansão e lá rolava um jantar entre amigos e havia muitas famílias reunidas, entre casais de homossexuais. Aliás, “casais de homossexuais” cheira a preconceito. Casais.

Eu espalhava que não queria largar nunca esse ambiente universitário, embora reconhecesse que havia um ranço de retrocesso se espalhando pelos estacionamentos recheados de carros do ano e pelos pátios em que desfilavam cocotas empunhando seus celulares da moda. E olha que smartphones eram tema de ficção científica. Bento já se ruborizava, mas não imaginava que o retrocesso pudesse ir tão longe.

Meu amigo era mimado, mas nunca quis fazer valer sua opinião em detrimento das demais. Gostava da discussão, do debate. Vencido, voltava atrás. Jamais ganhou nada no grito, até porque raramente levantava a voz além do audível. Meu amigo era mimado, mas sabia que religiões eram o grande mal da sociedade e que levá-las para a política era pior ainda. Naquela época, ele já poderia ensinar bastante a esses senhores da bancada evangélica. Hoje nos distanciamos, não sei onde se encontra este colega mimado, mas tenho certeza que ele não aceitaria estar em uma roda em que se o tema fosse conceituar família.

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