terça-feira, 22 de setembro de 2015

MEDINHO DE NADA >> Clara Braga

Essa última semana descobri um novo medo. Na verdade, meu medo de altura não é tão novo assim, mas eu nunca tinha me testado a ponto de descobrir que o medinho que eu achava que tinha era um pouco mais grave que isso.

Nunca deixei de ir a lugares altos ou de fazer algo que evolvesse uma certa altura. Sempre senti aquele frio na barriga, sempre evitei chegar muito na beira da varanda do apartamento do meu amigo que mora no 15 andar, mas achava que era só um medo normal diante de uma possível situação de risco. Tanto achava que era algo tranquilo que já cheguei a fazer planos para saltar de paraquedas, imagina! Todo mundo que salta diz que não existe sensação igual, que é uma experiência única, fiquei curiosa! Mas a curiosidade sumiu por completo e já me conformei que meu lugar é com meu pezinho o mais próximo do chão possível.

Semana passada, ficamos dois dias em um hotel fazenda com os alunos da escola, fazendo várias provas da gincana anual. Entre as provas, estava o tal do arvorismo. Desde que falaram que tinha arvorismo eu já fiquei animada, já tinha feito uma vez, mas não tão alto quanto esse! Aliás, quando me deparei com o tal do percurso, descobri que o que eu tinha feito não era nem tão alto, nem tão instável, muito menos tão longo! Talvez o nome nem fosse arvorismo, eu que batizei assim, vai saber! Só sei que tinha gente levando 30, 40 minutos para concluir o percurso completo! Isso, quando se está nas alturas pendurado por uma cordinha de nada, parece uma vida!

Só de subir a escada para chegar à primeira estação, já mal sentia minhas pernas, elas tremiam tanto que parecia que estava tendo um terremoto. Passei pela primeira estação, alívio! Quase não consigo passar pela segunda, mas passei! Na terceira estava determinada, nada me faria desistir! Na quarta, quando tentei fixar o pé e não consegui, percebi que meus braços já estavam extremamente cansados e eu já nem abria a mão direito de tanta força que estava fazendo para me segurar. Era a hora de desistir!

Tem pessoas que dizem que é preciso muita coragem para desistir de algo. Eu digo que essa pessoa não conhece o poder do medo! Gritei para o responsável e falei que queria descer. Nesse mesmo momento, já entrei em pânico, pois antes de subir eu havia feito uma burrada, falei para esse mesmo homem, o responsável por me tirar dali, que eu tinha medo de altura, então que com certeza eu pediria para descer antes de terminar, mas que ele não deixasse, só me tirasse dali quando eu chegasse ao final do percurso. Que burra! Comecei a rezar para santos que eu nem conheço e pedir que ele não tivesse me levado a sério. Ele até titubeou, perguntou se eu tinha certeza mesmo de que queria desistir, mas acho que ele soube reconhecer um rosto em pânico!

Quando vi que ele estava subindo para me tirar dali, achei que o pior já havia passado! HA HA HA! ENGANO MEU! O cara subiu, me prendeu em uma corda e disse a pior frase que eu já ouvi na minha vida: "Pronto, agora para descer é só segurar a corda e pular fazendo rapel!"

Comecei a rir, podia jurar que ele estava de sacanagem com a minha cara, mas era sério! Então eu questionei:

— Moço, se eu estou desistindo porque não me aguento mais de tanto medo, você acha mesmo que eu vou conseguir fazer rapel? RAPEL?

— Consegue, eu te seguro!

Fiquei com dó dele, ele quis me passar segurança com essa frase, mas ele estava muito longe de parecer o herói que vai salvar a mocinha em apuros. Então eu disse:

— Ah tá! Com todo respeito, acho que você não é tão forte assim.

Nesse momento, ele virou para um grupo de alunos que assistia a tudo de camarote e gritou: "Algum homem forte ai embaixo pode me ajudar a segurar a corda? É bom para dar maior estabilidade para ela!" Então virou para mim e disse: "Pronto, agora não tem erro, você está segura!" Olhei para ele, um mero desconhecido, olhei para baixo e vi meu aluno peso pena que bate no meu ombro e, não sei explicar exatamente como, mas uma lágrima rolou no meu rosto. A lágrima era a única parte do meu corpo que se movia, eu estava completamente dura e em pânico. A única coisa que consegui dizer foi: "Moço, acho que essa é a hora em que você começa a me contar sobre a sua vida. Não sairemos daqui tão cedo, seremos amigos íntimos!"

O homem riu, mas era nítido que ele estava puto da vida! Devia estar pensando: se sabia que tinha medo, porque diabos decidiu fazer isso?! Mas não posso reclamar, ele foi muito simpático e até me desceu por uma escada. A maior escada da minha vida. Deu a impressão de que eu estava descendo a árvore de João e o Pé de Feijão. Enquanto descia, tentava engolir o choro para não ser tão zoada pelos meus alunos, mas confesso que pisar em solo firme de novo foi tão bom que eu quis com todas as forças dar uma de papa e beijar o chão! Só não fiz isso pois essa semana preciso ter moral suficiente para entrar em sala e pedir silêncio sem ser sacaneada por adolescentes infernais… acho que cavei minha própria cova.


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Clara, pedindo perdão ao seu medo, confesso que me diverti MUITO ao ler sua crônica. Aventura bem vivida e bem contada. :)