domingo, 13 de setembro de 2015

OS SEM-NOÇÃO >> Whisner Fraga

Não é fácil a gente se descobrir um sem-noção. Aliás, eu acho que nem é possível. O que acontece, com mais frequência, é que alguém descobre pela gente. Do nada a gente faz uma merda e um espectador nos alerta: puxa, que sem-noção. Praticamente toda a humanidade é sem-noção. Aí, julgo importante algum pesquisador bolar uma escala para classificar os níveis de discernimento de um indivíduo.

Como adiantei no primeiro parágrafo, sou um sem-noção. E bastaram pouco mais de dez anos de vida para eu constatar isso. Desde então, acho que, de vez em quando me divirto em ser assim. Faço brincadeiras muito idiotas em horas indevidas. Como quando contei uma piada no velório de meu tio. Muita gente riu, o que, de certo modo, me absolveu um pouco. Ou quando falei para uma grávida que o mundo está muito populoso e que não é mais sustentável.

Mesmo quando o assunto é política, sou um sem-noção. Aliás, todo idealista é sem-noção por definição, porque vive em um mundo que jamais existirá a não ser em sua cabeça labiríntica e estúpida. Política é uma merda, porque os políticos a transformam nisso. Política é a arte de ferrar o próximo em prol da ascensão do próprio umbigo. E, quando digo “política”, me refiro a praticamente toda forma de relacionamento humano. Se vou à padaria e pergunto ao caixa como foi o dia, como está a família, se teve um dia difícil, para logo em seguida pechinchar, estou fazendo política. Ruim, baixa, amadora, mas ainda política.

Agora, eu não sei se é pior do que o sem-noção que vai para a Paulista e convida o amigo, argumentando que a avenida estará cheia de gatinhas e que será um domingo e tanto para flertes. Para depois tirar selfies com a tropa de choque e balançar pixulecos de dez reais. Até parlamentares posaram segurando o boneco. Política é isso: marketing, manipulação de resultados, gente bonita na rua, construção de praças e protesto pacífico.

Acho que algumas pessoas que vão para as manifestações estão um nível acima. Como estavam os cara-pintadas do século passado. No mau sentido. Porque, vamos lá, são manipuladas exatamente como naquela música do Zé Ramalho. Vida de gado, povo marcado e povo feliz. E não estão nem aí para nada além da viagem trimestral para Miami, para o escândalo dos salários das domésticas e para as bolsas Louis Vuitton. Está em andamento um golpe de estado e os sem-noção estão achando que a vida pós-sedição será linda, maravilhosa, que o dia seguinte trará de volta o dólar a 2 reais e a classe média recuperará a autoestima, doa a quem doer, doa ao pessoal da periferia, que está sem água há quase um ano.

Política é a briga pela manutenção e ampliação do status quo. Quando ouço esse termo, me vem imediatamente a figura de um sujeito furando o barco de um lado e de outro vindo atrás, tirando a água e tampando os rombos. O que fura é o político e o que tampa é o sem-noção. Ou vice-versa.

Partilhar

2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Como o pesquisador sem-noção pode geral uma escala ainda mais sem-noção, fico aqui como um humilde sem-noção. Gostei da crônica. :)

whisner disse...

Grande Eduardo, meu caro. um abraço!