Pular para o conteúdo principal

CAPA E ESPADA >> Analu Faria

Estamos cansados da crise política, do trabalho acumulado em cima da mesa, do domingo sem nada de interessante para fazer. Queremos filmes, queremos bons livros de ficção.E para que essa ficção não seja apenas uma cópia da nossa realidade, queremos seres mitológicos, queremos fantasia, faz de conta, queremos heróis de capa e espada.

Queremos mocinhos e mocinhas que sejam delicados, corajosos, impetuosos, justiceiros, sábios, divertidos, que gostem da vida, que não deem passos em falso — mas se derem, a gente perdoa —, que assumam suas fraquezas, que consigam rir dos próprios erros, que sejam do bem, e que tenham aqueles pequenos defeitos essenciais para que não os achemos chatos.  E queremos que eles enfrentem monstros em terras distantes, bandidos sem escrúpulos, escroques, governantes corruptíveis, os poderosos indiferentes e os vizinhos que não dão “bom dia”.

Mais do que “enfrentar”, queremos que eles vençam. Depois de quase perderem. Depois de anos presos em masmorras ou em solitárias. Depois de, na prisão, perderem a vontade de contar os dias. Depois de perderem a fé e de esquecerem que já foram felizes. Queremos que nossos heróis vençam a pior escuridão que já se viu. E saiam dela maiores, melhores, mais fortes, como aqueles amigos que conseguem sair da depressão. Ou da faculdade de Engenharia.

Estamos cansados dos números da Economia e das barbaridades do Estado Islâmico. E de fanáticos por comida fit. E da falta de empatia. Precisamos urgentemente de nossos heróis. Ou de tirar as capas e espadas do armário.

Comentários

Zoraya disse…
Concordo plenamente, Analu!
Crônica clássica e perfeita, Analu! :)
Felipe disse…
Fantástico, obrigado por compartilhar!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …