quarta-feira, 23 de setembro de 2015

AQUI >> Carla Dias >>


Venho aqui, não sei se suficientemente delicadamente, ou se com o charme imprescindível para fazer esse feito necessário. Ainda não sei se a minha mente está no lugar a ela reservada ou se perdida no aconchego de um engano aparente, sujeitada ao cargo de produto recém-lançado exposto em expositor requintado de supermercado.

Acontece que aqui estou e com gana de quem deseja profundamente encher de flores qualquer antessala. Anteceder azedume para curá-lo em tempo com bala de café. Benzer a fronte do deus mais humilde que a vida — ou Hollywood — há de criar.

Venho aqui, porque ali meus pés queimaram em terreno descampado de delícia, e diferente do que dizem os pudicos, delícia é bom de um jeito...

Deliciar-se é imperativo.

Depois de reverberar uma delícia, o ser, ele que há tempo indefinido estava preso entre os dentes da lugubridade, ilumina recintos como se fosse farol indicando caminho. Seu corpo se esquiva da curvatura, aprumando-se como só são capazes de se aprumar os que não têm medo de correr o risco de embebedar-se de felicidade. E se você abriu a boca para soltar palavras contestadoras da existência da felicidade, peço gentilmente, de gentileza empertigada, que as engula. Não em engasgo, mas em reconhecimento de que você, tampouco eu, não somos donos da verdade.

Você pode até não entender bem aonde quero chegar. Quanto a isso, despreocupe-se. Tampouco eu sei aonde esse tempo me levará, ou essa busca, essa vontade singela de me espreguiçar, então me deitar e dormir para visitar sonhos, e neles encontrar aqueles que ainda não conheço acordada, mas que me enchem de um abrandamento necessário para encarar realidade quando ela dá de ser desmedida e salafrária. Tampouco eu sou graduada na ciência da compreensão imediata a respeito de profundidade nada geográfica. Sobre geografia sou teórica, às vezes imprópria, em outras, insana. Meus pés andam raízes, desde que nasci. Gasto quilômetros em passos nos mesmos espaços, desde sempre. Já a alma, essa vive de viagens.

Venho aqui, porque não me incomoda se o seu pensamento diverge do meu, e nem sempre de maneira bem-educada. Nem mesmo se você acha que sou menos que você, fazendo essa conta sobre o que nunca foi contável. Ainda que grite inverdades, a fim de corroborar impropérios, ah, eu venho desarmada para observar essa relutância em compreender matizes, que sempre fui apegada à ousadia emocional.

Quando se trata de pessoas, gosto de observar de perto. Às vezes, é impossível não sofrer um tanto que seja e ter de experimentar da deselegância de quem não sabe pedir ao outro que se retire sem que seja aos berros. Em outras, eu tenho sorte, e alguém me convida para ficar.

Eu fico até chegar a hora de seguir adiante.

Venho aqui, não sei se serenamente como deveria, trazendo esperança de companhia, em nome do que me espera adiante. Esse meu lugar de sempre, de ruas reconhecidas diariamente, pelas quais desfilo a atualidade da minha alma itinerante. Onde me sento no meio-fio para observar os que passam, trazendo novidades e palavras para eu pronunciar pela primeira vez.

Imagem © Berény Róbert

carladias.com



Partilhar

4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que venham e continuem vindo essas lindezas bem-vindas...

Zoraya disse...

Cada vez melhor, Carla. Venha sempre aqui, como quem vc quiser, é sempre uma delícia, e estamos precisados de delícias.

Lilu disse...

Amei essa realidade quando dá de ser desmedida e salafrária. Amei outros muitos pedaços também. Grata.

Carla Dias disse...

Eduardo... Amém :)

Zoraya... Aqui eu voltarei sempre!

Lilu... Obrigada!