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A HORA DO CHÁ >> Zoraya Cesar

O homem era magro e se vestia comumente — calças jeans usadas e em bom estado, tênis, camiseta azul marinho sem estampa e jaqueta preta, nada de grife. Os cabelos negros, cortados à escovinha, encimavam uma tez branco-pálida. Na multidão, confundido entre todos os outros homens da rua, era apenas mais um. 

À primeira vista.

Pois, se você o observasse por miúdo, repararia que ele parecia um gato em terreno estranho, cauteloso, disfarçadamente olhando tudo ao redor, como que temendo ser atacado de surpresa. Veria que, apesar de magro, seus músculos eram firmes e o corpo, flexível, como o de um atleta de alta performance. Caminhava sempre junto a pequenos grupos de transeuntes, jamais sozinho. Você, porém, passa batido, sem notar nada disso, e é bom que seja assim. Há coisas que é melhor não saber: quem é ele e o que faz ali.

No Centro da cidade, algumas confeitarias mantêm o charme de épocas antigas, com mesas de tampo de mármore e bases de ferro, lustres de cristal, espelhos bisotados e garçons engalanados. Cafeterias que são, por sua antiguidade, bom gosto e relevância histórica, pontos para turistas, encontros românticos, amantes do belo e saudosistas da Belle Époque. São pontos de interesse para muita gente, inclusive para aquele homem. 

Em cada uma delas, entrava, silencioso e discreto, sentando-se de modo a vislumbrar todo o salão. Pedia café com torradas e geléia, e os consumia com as pálpebras semi-cerradas, observando cada freguês. Ali ficava, por mais ou menos quinze minutos, pagava a conta — sempre em dinheiro — e seguia para a próxima, repetindo o ritual com a calma de quem parece não ter outra coisa a fazer na vida. 

Entrou na última confeitaria. A hora do chá estava por terminar sem que ele encontrasse quem procurava. Teria de recomeçar o périplo pelas confeitarias no dia seguinte. Estava cansado, os 19° de temperatura ainda eram infernalmente quentes para ele, acostumado aos ventos gelados e ao frio cortante das ilhas britânicas. E não podia prescindir da jaqueta, onde sua arma estava guardada. Respirou fundo, impaciência era para os fracos. Na sua profissão, qualquer mínima desatenção poderia ser fatal. 

O local estava lotado, ele não pôde escolher o lugar ideal, mas não se importou, qualquer posto de observação é bom para o profissional experiente. A confeitaria era em estilo europeu do final do século XIX, guardanapos de pano, louça inglesa. Um pianista tocava, apropriadamente, Chopin, preenchendo o silêncio entre as conversas. Tudo recendia tradição, até os garçons, grisalhos e circunspectos. O cansaço é um inimigo perigoso. Mas o orgulho é um pecado capital, principalmente para quem está há tanto tempo no ramo.

Ele estava entediado, e achava a missão aquém de sua capacidade, mesmo sendo, o alvo, um mito. Mas ordens são ordens e dinheiro é sempre bem vindo. 

Cometia ele a principal infração às regras do jogo: deixar-se vencer pelo cansaço e pelo orgulho. O garçom trouxe o pedido. Ele bebeu, fez uma careta e colocou mais açúcar, mas o café continuou amargo em demasia. Bebera demais, pensou, talvez as papilas gustativas estivessem muito sensíveis. Sorveu o café em pequenos goles, sem reclamar, para não chamar a atenção. Discrição era uma das chaves do sucesso em seu negócio. 

Rodando os olhos pelo salão, relaxado, viu o garçom que o atendera levar um copo com um líquido que parecia leite até... ela! Uma velha senhora, ereta e elegante em seu vestido preto e colar de pérolas, sentada a uma mesa no centro do salão, sobre a qual viam-se muffins, pequenos sanduíches, uma chávena de chá. Uma grande bengala, de madeira maciça, finamente entalhada, repousava na cadeira ao lado. Ele sabia que, em seu interior, havia uma lâmina, forjada pelo melhor fabricante de Toledo. E que a bebida não era leite, mas ouzo puro. Sentiu um arrepio. Aquela mulher era uma lenda. Mas estava velha. E ele iria segui-la e matá-la, forjando um acidente, tal qual era sua especialidade. 

Fez menção de pedir a conta, para sair antes dela e não levantar suspeitas. O braço, no entanto, parecia pesar uma tonelada. Ele se sentiu tonto e enjoado. O que estava acontecendo? Olhou para a velha senhora, que, sorrindo de lábios cerrados, tocou, com a ponta das unhas curtas, a própria xícara de chá. 

Seu coração falhou duas batidas ao compreender o que acontecera. De caçador, virara caça. O café fora envenenado, daí o estranho gosto que sentira. Que estúpido! Como...? O garçom! 

Seus músculos enrijeciam rapidamente, sua mente embaciava-se. Vou morrer, concluiu, bastante acertadamente, enquanto tentava pegar a arma, os dedos entorpecidos. Lembrou-se da primeira lição que recebera no treinamento: não ser arrogante — jamais negligencie a vigilância ou subestime a argúcia do inimigo. O alvo, enganara-se ele, por perigosa e experiente que fosse, não passava de uma velha, não seria páreo para um jovem, com muitos anos de profissão e inúmeras missões bem sucedidas. Caiu sobre a xícara de café, manchando de marrom escuro a branca toalha de linho, os olhos arregalados naquele estupor de quem morre sem entender como aquilo fora acontecer.

Na confusão que se sucedeu, o garçom levou o corpo inerte para os fundos e a adorável velhinha retirou-se do salão para o fim da tarde. Ela sorriu, rememorando a lição que seu mestre lhe ensinara há tantos, tantos anos, sob um céu parecido com aquele, avermelhado e luminoso, aos pés do Κιθαιρών, o monte Citéron: a missão está cumprida quando o alvo for eliminado e você chegar em casa incólume; o resto era ανοησία, baboseira. 

Marta Atanasiou sorriu ainda mais amplamente, mostrando dentes naturais e perfeitos, feliz por não ter precisado recorrer à Glock modelo G21 gen4, adequada para canhotos, guardada em sua bolsa. Ela sempre cumprira suas missões, e manter-se viva era uma delas. Voltou para casa, apreciando a luz do ocaso. Incólume.

Leia a primeira aventura de Marta Atanasiou:


Comentários

Clarisse Amador disse…
Sou fã dessa senhora, Zô, sempre surpreendendo!
Cristiane disse…
Tão velha... e tão inteligente... já tinha até esquecido a senhorinha tão fraca e indefesa... rsrsrs. Sempre nos surpreendendo né?! Bjs.
Erica disse…
Ei! Eu lembro dessa bengala com lâmina dentro! Qual era a outra história que tinha essa velhinha "indefesa" mesmo? Minha memória só funciona em doses homeopáticas rsrs Isso vai acabar virando uma coleção de livros de suspense rs
Ana Luzia disse…
ah, como os espertos subestimam os sábios!!!

há muito mais do que habilidade em questão, quando se trata de enfrentar a experiência...

Anônimo disse…
Como faço para contratá-la? preciso me livrar de alguns desafetos... hahaha
Muito bem construído, Zoraya!
Anônimo disse…
Li esse e o outro, não conhecia esse personagem. Muito bom. Podia virar romance. Angelo

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