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Mostrando postagens de Abril, 2015

AH, O EXCESSO DE RECLAMAÇÃO >> Mariana Scherma

Eu acredito que, todo dia, quando acordamos escolhemos se vamos ser bons ou ruins, bem-humorados ou totalmente mal amados e, desse jeito, podemos melhorar ou piorar um bocado o dia dos outros e o nosso mesmo. Talvez essa escolha não seja assim tão óbvia e, quando você se der conta, já está fazendo chateações ou bondades. Mas todo mundo pode se controlar, não?
O texto de hoje é inspirado em duas senhoras que fazem hidroginástica no mesmo horário em que faço natação. Nós dividimos o banheiro e a cada dia fico mais pasma com a opção pra chatear que elas escolheram. Se a vida fosse uma novela, elas seriam a Carminha da ruindade. Se a vida fosse um filme, elas seriam o Pinguim do Batman, e por aí vai. O primeiro sinal que elas mandaram de que não eram lá essas flores foi quando reclamaram na recepção da academia de que outra senhora ocupava um banco todo com sua bolsa e roupas enquanto se trocava. Não seria mais fácil resolver pedindo um espacinho no banco? Sei lá, eu resolveria assim ou m…

O OBSERVÁVEL >> Carla Dias >>

“O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher.” Cora Coralina

Muitos de nós definimos a vida como “plantar e colher”. Se aqui se faz, aqui se paga, ou mesmo se toda ação gera uma reação, são os entremeios que definem a colheita. As entrelinhas que colaboram com os desfechos.

Não há novidade a respeito disso, que todos nós estamos sujeitos ao toma-lá-dá-cá que a vida nos oferece, e que dinamiza a nossa existência. Ainda assim, muitos ainda insistem em não aceitar que essa é condição sobre a qual não temos qualquer poder. Aceitá-la no momento em que ela nos beneficia e descartá-la quando somos avessos ao seu resultado, não adianta. É até possível protelar o resultado, mas eventualmente ele se apresentará.

Resultado é o tipo de coisa que sofre com a nossa tendência a distorcer para caber em aprazimento próprio. Mesmo no plantar e colher, nem sempre a colheita é a dos benefícios. Fosse assim, ninguém morreria de fome ou por f…

WILLIAM, O ORDINÁRIO - ÚLTIMA PARTE >> Zoraya Cesar

clique aqui para ler William, o Ordinário parte I

clique aqui para ler William, o Ordinário, parte II


A última incursão do ano tinha que ser primorosa, para coroar um ano de êxitos durante o qual matara e fugira, impune e tranquilamente. 
Preparou-se para dali a dois dias, quando ocorreria, segundo todos os informes meteorológicos, uma chuva torrencial, a última da estação. Resolveu usar a  linha de ônibus e as roupas que utilizara da primeira vez, fechar o ano em grande estilo.
Na noite esperada, olhou-se no espelho antes de sair. William, o Extraordinário, pensou, satisfeito consigo mesmo, com sua vida, com sua argúcia. Uma pena, refletiu, antes de sair, não ter com quem dividir sua glória, a quem mostrar o quanto era especial. Se contasse para alguém teria que matá-lo em seguida, pois ele suportaria tudo, menos ser preso ou voltar à vida ordinária de antes. 
William sentiu um frisson ainda mais poderoso do que sentira em todas as outras empreitadas, como se algo inexplicável e incom…

A SENHORA DE PIJAMA >> Carla Dias >>

Acredita que nada do que disser servirá para lapidar a ideia do outro. Que sua opinião sobre assuntos diversos não é capaz de influenciar qualquer mudança na certeza alheia. Ele é uma pausa constante, adepto do sedentarismo intelectual.

A solidão faz parte do seu ser, que sabe bem que se envolver em grupos de pessoas pode levá-lo a quebrar promessa feita a si, a de se manter fiel à incapacidade de se tornar autor de consequências. Obviamente, a tática não é completamente eficaz. Às vezes, sem querer, ele esbarra em escolhas que tem de fazer e que respingam na realidade do outro.

Saiu de casa para fazer a compra do mês, que antecipou em cinco dias, pois acabou a cerveja. Ele é web designer conhecido do meio, principalmente por manter quase nenhum contato com o cliente e sempre entregar um trabalho impecável. Ninguém se importa em não encontrá-lo pessoalmente, porque ele sempre cumpre muito bem o seu papel.

Fosse levar à risca seu desejo em viver longe do mundo, cancelaria as compras d…

CRIANÇAS SENDO CRIANÇAS >> Clara Braga

Já tem um tempo, comprei um livro encantador chamado Casa das Estrelas, aquele que as crianças definem diversas palavras da forma como as entendem. Algumas definições são mais explicativas do que o próprio dicionário, me lembrou muito aquele livro Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento, da Adriana Falcão, tão encantador quanto, imagino que seja porque a Adriana tem esse lado criança ainda muito aflorado, coisa que a gente infelizmente vai perdendo e ainda acha comum que seja assim.
Já mais recentemente, vi um vídeo de uma campanha lançada pela Noémi, uma associação para pessoas com deficiências múltiplas, que convidava pais e filhos para um experimento. Eles entram em uma sala e ficam separados por um tapume enquanto assistem vídeos de pessoas fazendo caretas. Conforme as pessoas fazem as caretas nos vídeos, a família tem que imitar a careta que estão vendo. Em certo momento, uma garota com deficiência múltipla aparece fazendo uma careta, os adultos imediatamente param de imitar, en…

RUSIVEL E AS PASSEATAS - Final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 06 de abril de 2015) 

Agora, ao ouvir os televisivos convites para a manifestação - não os pichados em muros durante a madrugada ou em panfletos mimeografados – Rusivel sente brotar o patriotismo, começa a entender a democracia e cantarola o hino nacional.
Rusivel não gostava de política e ainda não gosta. Afinal, a vida o esfregou na política de maneira muito dolorosa. Tentava entender esse ou aquele episódio, mas sem sucesso. Nunca compreendeu esse negócio de esquerda e direita. Um amigo, metido a leituras, falou coisas sobre revolução francesa, jacobinos e girondinos sentados à esquerda e à direita no parlamento, mas isso confundiu ainda mais sua cabeça.
Menos ainda entendia a questão das cores: camisa vermelha, camisa da seleção, partidos azuis, partidos vermelhos, para ele eram apenas cores. É por isso que nenhuma ideologia inspirou a escolha da roupa para a manifestação. O manto sagrado, como ele diz, esteve presente nas grandes emoções de sua vida. A de hoje é …

QUARTO DE BONECA >> Sergio Geia

Justin abraça um violão preto. Mas o que me chama a atenção mesmo é uma menininha de roxo, bumbum arrebitado, sentada num carrinho de bebê — a imagem é meio turva, eu não enxergo direito. Não. Não dá. Fere a lógica. Naquela posição, não. Sem contar o carrinho. Já teria descido. Espatifado rua abaixo. A artista desprezou as leis da física. Mas tudo bem.
Antes o problema fosse esse. Tudo bobagem. Bobagens. Como bobagem é a imensidão rosa que me cerca. Um quarto de boneca. Um quarto de boneca que me abriga temporariamente. Mas o que importa são as páginas, as páginas visitadas. Ou revisitadas. Não. Isso não importa. Quer dizer, isso é o que importa, mas o que eu estava pensando no momento não é no que importa, mas no problema que reduz acentuadamente o problema do quarto de boneca. Essas batidas. Essas batidas irregulares, fora de hora, que martelam os miolos.
São dez e vinte e seis. Da noite. Uma noite mais fria que as últimas, véspera de um feriado qualquer. Debaixo do cobertor, eu tent…

VALE-CRÔNICA >> Paulo Meireles Barguil

Para ajudar a classe trabalhadora a andar de ônibus, em 1985, a Lei nº 7.418 instituiu o Vale-Transporte.

Para incentivar a permanência das crianças na escola, a Lei nº 10.219/2001 criou a Bolsa Escola.

Para matar a fome, foi criada, pela Medida Provisória nº 2.206, de 2001, a Bolsa-Alimentação.

Em 2002, o Auxílio-Gás, mediante a Lei nº 10. 453, de 2002, incentivou a comida feita no fogão.

Ainda bem que não inventaram o Vale-Lenha!

A festa ficou mais animada com o Programa Nacional de Acesso à Alimentação, conforme a Lei nº 10.689, de 2003.

Em 2004, os quatro programas recentes foram aglutinados na mais famosa brasileira, a Bolsa Família, a teor da Lei nº 10.836.

Eles ficaram um tempo sem inventar nada, até que, em 2012, foi estabelecido, conforme a Lei nº 12.761, o Vale-Cultura.

Nos últimos anos, para impulsionar as vendas, sob o título de incentivos fiscais, eles criaram o Vale-Carro e o Vale-Eletrodomésticos.

A bonança, que tinha data para acabar, final de outubro de 2014, foi bo…

DESESPERO 2.0 >> Mariana Scherma

Meu último sábado fez questão de explodir toda a minha programação matinal. Eu tinha programado até o tempo que levaria pra cada tarefa, mas o controlador de agendas do universo resolveu me zoar. Pra bagunçar meeesmo, meu primeiro plano já foi tchibum abaixo, o que comprometeu todos os seguintes. Ao mesmo tempo, eu saí de mim pra assistir meu leve desespero: bati os pés no chão e fiquei levemente descabelada – mas eu tô sempre descabelada, então, ok. Só consegui pensar: e agora?
A vida anda lotada de planos B, C, D,... Z. Mas quando a gente ficava exageradamente focada e quase noiada numa determinada obrigação, parece que as portas não se abrem, as alternativas deixam de existir. Bem-vindo ao caos das pessoas detalhistas, certinhas e adoradoras de uma ordem. No dia em que meus planos entraram no Titanic, eu custei a rebolar e fazer tudo voltar ao normal. A única certeza que tive foi a de que não quero ser mais assim. Ou não quero ser mais tão assim. Mudar em 180 graus não é das tarefas…

PALAVRAS E SILÊNCIO >> Carla Dias >>

Vendo a menina crescer assim, saudável, e até bem servida de inteligência e ótima nas tarefas que pedem pela percepção apurada, os pais nunca imaginaram que ela mergulharia naquele mundo íntimo, no qual não cabiam palavras ditas.

Apaixonada pelas palavras ela sempre foi. Aprendeu a ler com muita facilidade, a escrever com apuramento. Ela escrevia cartas porque gostava de escrevê-las, mas os destinatários eram personagens que inventava, porque é um desafio fazer amigos se não falar com eles. Assim, ela as escrevia em um caderninho encapado com papel kraft - que sempre teve uma queda pelo rústico -, sóbrio em nome da beleza que abrigava. Cada caderno guardava as cartas que ela escrevia a um mesmo personagem.

O silêncio dela não se devia a qualquer questão física, de acordo com o diagnóstico de dezenas de médicos que os pais procuraram, quando ainda se agarravam à esperança de escutar a voz da filha. “Parece-me que sua filha escolheu não dizer palavras”, manifestou-se o Sr. Arnaldo, mor…

MANIFESTO EM FAVOR DO AUMENTO DA MAIORIDADE PENAL >> Whisner Fraga

Não sei se é correta a estimativa de que apenas 0,5% da população de 12 a 18 anos cometeu crimes em 2011. Uma pesquisa na Internet não permite que se decifrem esses números. Também não consegui saber se procede a estimativa de que 70% dos presos são reincidentes. Então não vou falar de números aqui, mas sim de fatos. Parece-me, para começar, que ninguém hoje mais duvida da superlotação de nossas prisões. E parece também ser mais ou menos consenso que as cadeias são as melhores escolas para bandidos.

Daí que querem colocar um adolescente junto de adultos, dividindo a mesma cela. Isso diminuirá a violência em nosso país? Certamente que não. Isso posso afirmar, porque li alguns estudos realizados em países de primeiro mundo que chegam a essa conclusão. Estudos convincentes, com dados concretos. O brasileiro em geral, que tanto gosta de se achar inferior ao resto do mundo, deveria analisar algum deles. E seguir um exemplo de tendência mundial: a de manter a maioridade penal em 18 anos.

Si…

WILLIAM, O ORDINÁRIO. PARTE II >> Zoraya Cesar

Clique aqui para ler a parte I
William escolheu uma noite de chuva. E que chuva, aquela, que se derramou num grande clichê cinematográfico, cheia de trovões, relâmpagos, rajadas de vento frio. Ele tremia de excitação. O tempo oferecia a situação ideal para se aproximar de uma mulher, talvez oferecer-lhe ajuda e, quem sabe, perpetrar o seu intento.
Preparou o chá da velha mãe, como sempre fizera. Ou não, não exatamente. Dessa vez, colocou uma dose extra de calmante. Pelos seus cálculos – e ele se orgulhava de seus cálculos perfeitos -, ela dormiria direto até bem tarde da manhã seguinte. Esperou que a bebida fizesse efeito, e saiu.
Andou pelas ruas quase vazias até encontrar o ponto de ônibus que lhe convinha. Pagou em dinheiro, para seu RioCard não ser rastreado, e sentou-se atrás, a fim de ter uma visão privilegiada. Havia ainda muitos passageiros, apesar do horário tardio, era só esperar para escolher. E, enquanto esperava, pôs-se a resolver complicadas equações contábeis, tentando …

O DIA EM QUE MORRI >> Carla Dias >>

Um dia como qualquer dia outro. Eu faço quase as mesmas coisas de ontem, anteontem. A rotina não me aborrece, dou-me bem com ela, mesmo quando ela exige que eu pratique o lidar com o que não me apetece.

O tempo se arrastando me aborrece, que mesmo quando ele abarca felicidade, perde o brilho na sofreguidão de ter de repetir lembrança para alimentar contentamento. É como se a minha memória sofresse de esquecimento. A felicidade desbotada, de tanto uso, desilude-me amplamente.

Há tempos não me perguntam sobre o que me faz bem. Eu mesmo perdi o talento de discursar a respeito. Perguntas fazem parte da minha lida, requintam minha existência. As respostas são uma centelha de fascínio, que minha alma mastiga por segundos, antes que ele se desvaneça.

Se me perguntarem, serei honesto ao responder que a minha história é de enredo sem pontos de virada. Pouco acontece na minha biografia e preencher o tempo é o que mais me dá trabalho. Há dias em que leio, em outros, eu caminho sem hora para vol…

CADA ESCOLHA É UMA... >> Clara Braga

Quer me deixar desnorteada é só dizer: é livre! ou então: escolhe um! Eu consigo escolher uns três, quatro, mas um só é tortura. Aquelas lembrancinhas de viagem que família trás igual para todo mundo, só fala para cada um escolher a cor que quer, aquilo é um tormento! Como eu vou escolher o vermelho se o azul também está lindo? E se você escolher o roxo, no segundo seguinte vai descobrir que a cor do ano é o laranja, deu na TV que quem usar sempre algo laranja esse ano vai ter sorte no amor, no dinheiro, no jogo, em tudo que tiver direito!
Qual sua música favorita? Qual sua blusa predileta? Qual restaurante você mais gosta? Qual sua comida predileta? Qual sua cor favorita? Que estilo de música você mais gosta? Para uma pessoa que fez duas tatuagens de uma vez só porque não conseguia escolher só um desenho para fazer, a resposta para todas essas perguntas é uma só: não sei, depende!
Sei que para algumas situações não conseguir escolher algo é comum, por exemplo, atire a primeira pedra…

RUSIVEL E AS PASSEATAS >> Albir José Inácio da Silva

Bombardeado pelas recentes conclamações às passeatas, Rusivel sentiu nostalgia do que não viveu. Ou melhor, viveu, mas não como queria. Não como protagonista.
Nada boas as lembranças dessas manifestações. Tudo o que sabia de política naquele início dos setenta, quando cruzava o centro do Rio como office-boy, vinha do sussurro das ruas ou dos fardados comunicados oficiais.
A princípio olhava com curiosidade os cabeludos e as mocinhas, tão jovens ainda para ser bandidos, que desafiavam cargas de cavalaria, blindados e baionetas, em meio às nuvens de gás. Por que não estavam na praia ou no cinema naquela tarde linda?
Eram terroristas. Sabia deles pelas manchetes, pronunciamentos na televisão, e já tinha visto os cartazes de “procura-se” na Central do Brasil.
Parece que foi ontem, as bombas explodindo na Rio Branco. Barbudos e descabeladas passam correndo com lenços, blusas e até saias cobrindo o nariz. Cavalaria vai pelo asfalto e soldados pela calçada. Sai fumaça do bueiro e Rusivel se…

OS NOSSOS SANTOS >> Sergio Geia

Digo isso com a mais fina das convicções: se existe uma coisa de que brasileiro pode se orgulhar, essa coisa se chama futebol.

Tudo bem, eu também não esqueci aquela fatídica terça-feira, o hino nacional cantado a plenos pulmões, a rapaziada toda vestindo amarelo canarinho, pronta para empurrar nossa seleção pra cima dos branquelos que até outro dia mal sabiam jogar futebol, dominavam a bola com as canelas e só faziam gol de chuveirinho; a bola pipocando na nossa área, ziguezagueando na frente da nossa defesa, balançando a nossa rede, nosso time assistindo a tudo indiferente, só assistindo, uma beleza.
Está certo, meu amigo, não vamos ficar remoendo essa tragédia. Acho que não foi uma boa ideia começar falando de futebol. Mesmo porque eu não queria falar de futebol. Na verdade, eu só queria introduzir o assunto, entende? A gente faz assim: introduz o assunto com alguns derivativos, fica margeando, andando pelas beiradas, depois vai ao âmago. Eu só queria falar de algo que é orgulho par…

DISCURSO OU PERCURSO: QUAL É A SUA PEDAGOGIA? >> Paulo Meireles Barguil

Afinal, como o Homem aprende? Nos primórdios, quando éramos poucos e vivíamos em bandos, aprendíamos o necessário na convivência: vendo, sentindo, ouvindo, falando, fazendo e registrando. O desenvolvimento de habilidades acontecia com todo o corpo, num processo dinâmico e interativo. Diante de um mundo repleto de mistérios, incertezas, belezas e ameaças, a Humanidade desenvolveu várias formas de interpretá-lo — Arte, Ciência, Filosofia e Religião — e expressar o elaborado. Nessa jornada, ampliamos exponencialmente os nossos saberes, com algumas pessoas ocupando, em variados espaços-tempos, diferentes papeis na divulgação do sabido: ancião, pajé, professor, sacerdote... O saber instituído nos possibilita poupar tempo e vida, mas, também, é capaz de nos privar de espaço, aventuras e descobertas. O conhecimento pode ser usado para tentar nos controlar, sufocar ou nos convidar à expansão. A realidade, contudo, não é apreendida diretamente pelo Sistema Nervoso Central, via informações re…

VOCÊ COME OU GUARDA O PUDIM? >> Mariana Scherma

Eu fui a um show no último final de semana e fiquei meio triste por conta do fulano na minha frente, que filmou o show INTEIRO. Não uma música que ele gostasse mais ou umas selfies com sua galera. Não, o show todinho na memória do celular. Aliás, fiquei com uma (mini) inveja dessa superbateria do celular dele e do tantão de memória. Mas também fiquei com dó, dele e de mais um tantão de gente que fazia questão de filmar e fotografar tudo (sem estar trabalhando na cobertura de imprensa).
Esse tanto de tecnologia na palma da nossa mão tem deixado a galera meio perdida e sem saber como viver direito. O desespero em registrar os momentos é tão enorme que as pessoas só os registram e se esquecem de vivê-los. O show que eu mencionei foi do Alceu Valença. Ele brincou, fez piada e nos deu um show que também parecia uma conversa na mesa de bar. Meus amigos e eu dançamos, rimos e ficamos admirados pelo sujeito que o Alceu é. O cara do celular gravou tudo e, quando rever o vídeo, suspeito eu, não …

O QUANTO >> Carla Dias >>

Conversando com um amigo, relembrei alguns momentos que pontuaram nossa amizade. Isso foi antes das mudanças representativas, de quando as estações de metrô entre nós não davam a impressão de que vivíamos em continentes distintos.

Nós conversávamos, sem correria. Na época, eu já batia minhas quase doze horas de trabalho por dia. Mas o tempo... Que gosto tinha? Era mais lento? Eu era menos atarefada? Acho que éramos mais gentis com o tempo, isso sim. Nós o apreciávamos reconhecendo a presença do outro. Nenhum Smartphone ou iPad se intrometia entre nós, e estou certa de que não apenas pelo fato de essas tecnologias não estarem disponíveis na época. A verdade é que adorávamos conversar, e as nossas conversas eram longas, e principalmente sobre música.

Eu já disse, e perdi a conta de quantas vezes e em quais ocasiões, que a música me permitiu ter amigos. Não fosse eu estar envolvida com ela, poucos dos amigos que são realmente presentes na minha vida sequer saberiam de mim.

Neste caso, a…