quinta-feira, 30 de abril de 2015

AH, O EXCESSO DE RECLAMAÇÃO >> Mariana Scherma

Eu acredito que, todo dia, quando acordamos escolhemos se vamos ser bons ou ruins, bem-humorados ou totalmente mal amados e, desse jeito, podemos melhorar ou piorar um bocado o dia dos outros e o nosso mesmo. Talvez essa escolha não seja assim tão óbvia e, quando você se der conta, já está fazendo chateações ou bondades. Mas todo mundo pode se controlar, não?

O texto de hoje é inspirado em duas senhoras que fazem hidroginástica no mesmo horário em que faço natação. Nós dividimos o banheiro e a cada dia fico mais pasma com a opção pra chatear que elas escolheram. Se a vida fosse uma novela, elas seriam a Carminha da ruindade. Se a vida fosse um filme, elas seriam o Pinguim do Batman, e por aí vai. O primeiro sinal que elas mandaram de que não eram lá essas flores foi quando reclamaram na recepção da academia de que outra senhora ocupava um banco todo com sua bolsa e roupas enquanto se trocava. Não seria mais fácil resolver pedindo um espacinho no banco? Sei lá, eu resolveria assim ou mudaria de banco. Depois, as mesmas duas sujeitas reclamaram de outra fulana que não era nem da natação nem da ginástica mas usava o banheiro das piscinas. Oi? O banheiro é delas? Por que tanta reclamação?

O ápice foi quando, num dia frio, depois da hidro, o banheiro estava congelante e elas saíram deixando o ventilador ligado, pra esfriar um pouco mais para as outras alunas que vinham na sequência. Eu, inclusive, que fui desligar o bendito ventilador. É muita ruindade. E eu fico incomodada como algumas pessoas ficam matutando o que fazer pra piorar a vida alheia. Minha mãe sempre me ensinou que o que vai volta. Eu tenho um pouco de medo de quando as coisas voltarem pra elas. Ou talvez já tenha voltado, porque elas chegam todo dia com cara de quem chuparam limão misturado com água sanitária.

A última das fulanas evil foi reclamar tanto de um professor que, hoje, depois de dar uma aula, ele se despediu da gente, avisando que era o último dia por lá. Por coincidência, a fulana mais briguenta não foi hoje. As outras alunas estão todas chateadas porque, na próxima aula, ela vai se sentir uma vitoriosa. Mas duvido um pouco de que pessoas tão reclamonas sosseguem em algum momento. Muito em breve o problema delas será outro aluno ou professor. Sim, porque pessoas que reclamam demais têm esse problema grave de cegueira: não veem que a origem de tudo está nelas mesmas, poxa. Às vezes, se o mundo inteiro está contra você, talvez seja melhor ficar a favor do mundo.


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quarta-feira, 29 de abril de 2015

O OBSERVÁVEL >> Carla Dias >>

“O que vale na vida não é o ponto
de partida e sim a caminhada. Caminhando
e semeando, no fim terás o que colher.”
Cora Coralina


Muitos de nós definimos a vida como “plantar e colher”. Se aqui se faz, aqui se paga, ou mesmo se toda ação gera uma reação, são os entremeios que definem a colheita. As entrelinhas que colaboram com os desfechos.

Não há novidade a respeito disso, que todos nós estamos sujeitos ao toma-lá-dá-cá que a vida nos oferece, e que dinamiza a nossa existência. Ainda assim, muitos ainda insistem em não aceitar que essa é condição sobre a qual não temos qualquer poder. Aceitá-la no momento em que ela nos beneficia e descartá-la quando somos avessos ao seu resultado, não adianta. É até possível protelar o resultado, mas eventualmente ele se apresentará.

Resultado é o tipo de coisa que sofre com a nossa tendência a distorcer para caber em aprazimento próprio. Mesmo no plantar e colher, nem sempre a colheita é a dos benefícios. Fosse assim, ninguém morreria de fome ou por falta de respeito e consideração. Às vezes, resultado é o que há para o dia, com o que devemos nos virar, apesar de termos feito o melhor cultivo de todos os tempos.

Nosso caminho nessa vida é composto por resultados.

Não adianta culpar o universo, maldizer a Deus e favorecer ao diabo com um requintado repertório de indignações, nem mesmo convalescer de ódio mortal pelos envolvidos na sua colheita ruim. Plantar e colher pode reger essa sinfonia que é a vida da gente, mas nem sempre o resultado traz boa música ou primorosa execução. Ainda assim, é preciso continuar a cultivar.

O caminho que trilhamos tende a nos ensinar que somos indivíduos, mas também integrantes de uma sociedade. Nossas ações geram reações não somente a nós mesmos, mas aos que nos cercam. Nem todos compreendem isso.

A vida é complicada. Nós não somos nada simples. Porém, acredito na possibilidade de, dia desses, cultivarmos a consciência sobre o que fazemos e como nos comportamos como integrantes de uma sociedade, e a ponto de aceitarmos que, se nossas ações não forem meramente individualistas, se pudermos pensar no outro com o respeito com o qual devemos tratar a nós mesmos, poderemos celebrar reações muito mais nobres. A partir daí, o coletivo será tratado com justiça e discernimento.

Inspire-se a partir da fonte que mais lhe apetece: religião, política, ciência, arte. Importante é compreender que nós podemos escolher ficar a sós, mas não sozinhos. Não quando se trata do coletivo.

Independente da classe social, do quanto, financeiramente, cada um dispõe para sobreviver e viver, quando se trata de sociedade, a decisão é abrangente. Em momentos como este, melhor mesmo plantar diálogos e colher decisões que beneficiem a todos, ainda que elas não sejam as que, como indivíduos, julgamos serem as ideais.

Nosso caminho é o que nos define, mas principalmente enriquece quem somos com as redefinições que nos permite abraçar. Plantamos expectativas, caminhamos para adquirir experiências e colhemos a naturalidade de aprendermos com a vida ao vivê-la.

Plantar, caminhar e colher.



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sexta-feira, 24 de abril de 2015

WILLIAM, O ORDINÁRIO - ÚLTIMA PARTE >> Zoraya Cesar

clique aqui para ler William, o Ordinário parte I

clique aqui para ler William, o Ordinário, parte II


A última incursão do ano tinha que ser primorosa, para coroar um ano de êxitos durante o qual matara e fugira, impune e tranquilamente. 

Preparou-se para dali a dois dias, quando ocorreria, segundo todos os informes meteorológicos, uma chuva torrencial, a última da estação. Resolveu usar a  linha de ônibus e as roupas que utilizara da primeira vez, fechar o ano em grande estilo.

Na noite esperada, olhou-se no espelho antes de sair. William, o Extraordinário, pensou, satisfeito consigo mesmo, com sua vida, com sua argúcia. Uma pena, refletiu, antes de sair, não ter com quem dividir sua glória, a quem mostrar o quanto era especial. Se contasse para alguém teria que matá-lo em seguida, pois ele suportaria tudo, menos ser preso ou voltar à vida ordinária de antes. 

William sentiu um frisson ainda mais poderoso do que sentira em todas as outras empreitadas, como se algo inexplicável e incomum estivesse para acontecer.

A CAÇADA - Sentou-se, como sempre, no fundo do ônibus, fingindo dormir enquanto observava as passageiras. As ruas foram se sucedendo, as pessoas saltando, sem que ele avistasse a mulher ideal. Começou a sentir-se verdadeiramente incomodado. Será que teria de voltar para casa de mãos abanando? Sem fechar sua sequencia de assassinatos bem sucedidos? 

Estava quase desistindo quando ela se levantou. William prendeu a respiração, a adrenalina acelerou seu coração, sua boca ficou seca, as pupilas dilataram. Ela era perfeita.

Baixa, tão magra que parecia um osso para cachorro roer. Os cabelos desalinhados estavam amarrados em um rabo de cavalo mal feito, vestia-se muito simplesmente, parecia humilde e achatada pela vida. A bolsa – o verdadeiro cartão de visitas de uma mulher - era velha e muxibenta. Não usava maquiagem e tinha fundas olheiras, destacadas em sua tez amarela-escritório. Parecia uma boneca quebradiça. William teve um estranho sentimento por ela, como se experimentasse compaixão; ele sabia o que era ser ignorado, o que era ser comum. Admirou-a, extasiado, sentindo uma fibra desconhecida bater em seu coração. Parecia daquelas mulheres cuja idade permanece indefinida ao longo dos anos, que trazem em si um mistério a ser desvendado. Seu aspecto lembrou a William o de uma pequena fada cansada. 

Ele se apaixonou nesse mesmo instante. 

ESTRANHAS FORMAS DE AMAR -Sentiu-se feliz como nunca na vida pensara ser possível. Sentiu que o amor e a morte eram parceiros inseparáveis e era aquilo que procurara por toda sua vida. Teve, então, uma curiosa certeza, que lhe causou tristeza tão profunda, que quase o afogou: aquela seria a sua última vítima. Nenhuma outra jamais lhe bastaria.

Quem sabe, se a tivesse encontrado em outras circunstâncias... Agora era tarde, um verdadeiro caçador não perde o foco de sua presa. Seus sofrimentos, pensou William olhando-a amorosamente, estão prestes a acabar. 

Ela saltou, cabisbaixa, delicada, indefesa. William sentiu vontade de abraçá-la, acabar com aquela angústia. 

Chovia muito, a natureza derramando, talvez, lágrimas pela brevidade da vida, pela veleidade do amor, pelo inescrutável destino.

Ao contrário das outras, essa mulher não correu para escapar do vento frio. Andava lentamente, como que a esperar alguma coisa. William agarrou-a por trás e apertou sua traquéia firme, mas sem a violência que aplicara nas vítimas anteriores. Queria olhá-la de frente, com os olhos ainda vivos, dizer-lhe palavras de conforto antes do aperto final.  

O golpe foi rápido e eficiente, na altura do seu rim direito. Embora a roupa grossa tenha amortecido a dor, o impacto foi forte o suficiente para que ele soltasse as mãos e se afastasse. titubeante e surpreso. 

A frágil fada reagira! 

Ela deu um passo para trás e puxou uma arma. Como pudera escondê-la, pensou ele, magra daquele jeito? William sentiu um assomo de orgulho, não se apaixonara por uma qualquer. A luz do único poste a iluminava, molhada, olhos esbugalhados, cabelo ainda mais desalinhado, a boca aberta, tentando aspirar todo o ar que escapara na curta refrega, o rosto crispado de medo e susto. Em outras circunstâncias, talvez... Mas nada disso importava agora. William tinha de tomar uma decisão: matar ou correr. 

Pare ou eu atiro, gritou ela. 

William decidiu-se. Jamais seria preso. E avançou, gritando, ele também. 

Ela atirou. Uma, duas vezes.

William foi atirado longe, os pulmões se enchendo rapidamente de sangue, os ouvidos ribombando pelo som do revólver, a consciência se dando conta do que acontecera. Só queria poder dizer o quanto estava feliz por morrer pelas mãos da mulher de sua vida, vida essa que para ele, no fim, fez todo o sentido.

COISAS DA VIDA - Horas depois, o lugar parecia um set cinematográfico, lotado de policiais, jornalistas, curiosos. A moça, ainda trêmula, contava ao inspetor como todo o plano dera certo.

Não, pensou Felipe Espada. Nada dera certo. Mulheres indefesas morreram inutilmente até que chegassem ao assassino dos becos. Sua pupila mais bem treinada poderia ter morrido, pois os agentes que deveriam dar-lhe suporte não chegaram antes que ela tivesse que atirar. Por ele, a jovem policial jamais passaria pela experiência de matar outro ser humano, e o tal sujeito, William, estaria vivo, para pagar com sua liberdade pela morte de pessoas inocentes. 

Não, suspirou o policial responsável pela investigação que encontrou o assassino. As coisas não saíram do jeito que ele queria.

Mas não era assim, a vida?



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quarta-feira, 22 de abril de 2015

A SENHORA DE PIJAMA >> Carla Dias >>


Acredita que nada do que disser servirá para lapidar a ideia do outro. Que sua opinião sobre assuntos diversos não é capaz de influenciar qualquer mudança na certeza alheia. Ele é uma pausa constante, adepto do sedentarismo intelectual.

A solidão faz parte do seu ser, que sabe bem que se envolver em grupos de pessoas pode levá-lo a quebrar promessa feita a si, a de se manter fiel à incapacidade de se tornar autor de consequências. Obviamente, a tática não é completamente eficaz. Às vezes, sem querer, ele esbarra em escolhas que tem de fazer e que respingam na realidade do outro.

Saiu de casa para fazer a compra do mês, que antecipou em cinco dias, pois acabou a cerveja. Ele é web designer conhecido do meio, principalmente por manter quase nenhum contato com o cliente e sempre entregar um trabalho impecável. Ninguém se importa em não encontrá-lo pessoalmente, porque ele sempre cumpre muito bem o seu papel.

Fosse levar à risca seu desejo em viver longe do mundo, cancelaria as compras do mês no supermercado. Por que não fazer as compras online, como qualquer pessoa normal? Mas acontece que ele gosta desse passeio mensal pelos corredores do supermercado. Apreciar aqueles produtos todos ao alcance de suas mãos, não apenas adequadamente visualizados em uma tela. Às vezes, ele aprecia esbarrar o carrinho no de outro cliente, cometer o pecado de comprar um pote de sorvete completamente impróprio para um diabético.

A fila longa o exaspera um tanto. A lentidão com a qual o caixa passa os produtos pelo leitor de código de barras, a criança choramingando por causa de um chocolate caro e oco, a mãe entretida com a revista de fofocas exposta. Por que ele se permite passar por isso uma vez ao mês, já que parece que as pessoas são muitas e as mesmas?

Cutucam-lhe o ombro e ele se vira, dando de cara com uma senhora miúda, com grandes óculos e cabelos meio bagunçados, segurando um pacote de feijão e uma garrafa de vinho. Vê-se que a possível sexagenária não se importa com o visual, já que usa pijama, pantufas e um longo penhoar. “O que diabos estamos fazendo aqui, meu jovem? Veja bem, eu gosto de pessoas, mas toda vez que venho ao supermercado, eu passo a odiá-las... Ao menos até chegar a minha vez no caixa”.

Ele não é de jogar conversa fora, por isso a cara de bravo. Ainda assim, a senhora parece nem se importar com isso, e segue falando sobre a lerdeza do caixa, a criança birrenta, a mãe distraída. Mediante o silêncio dele - e as várias vezes em que ele tenta se desconectar dela, dando-lhe as costas -, a senhora lhe toca o braço, pedindo atenção, e lhe conta histórias sobre quando era jovem, e sobre a velha que se tornou. É assim que ela consegue fisgá-lo, mas de um jeito, que ela é que tem de avisá-lo quando a fila anda.

“É uma questão de perspectiva, meu jovem. Eu sou uma mulher que tem histórias pra contar, porque mergulhei nessa vida, engoli água, até me afoguei, mas olha só! Aqui estou...”

A cada passo que o aproxima do caixa, seu coração se apequena. A senhora, à qual outros da fila lançam olhares curiosos e censores - que onde já se viu vir ao supermercado vestida desse jeito! -, tem tantas histórias hilárias para contar, que ele nem se importa se são verdadeiras ou inventadas. Ela dá vários conselhos a ele: “saia de casa ao menos uma vez na semana. Sei que ficar sozinho em casa é muito bom, mas não podemos ignorar o mundo, não é mesmo? Eu vou ao cabeleireiro uma vez por semana. Tem uma moça lá que vive com problemas familiares e amorosos, e precisa de quem a escute, nem que seja uma vez por semana. Por que não?”

Depois de ser atendido, esperou a senhora passar o pacote de feijão e a garrafa de vinho. Então, ele a acompanhou até a casa dela, duas quadras dali; cinco quadras de sua casa. Ela não aceitou quando ele pediu para carregar sacola dela. Aparentemente, há certa dignidade em carregar suas próprias compras.

A frente da casa da senhora é bem estreita, “mas é comprida pra dedéu...”, tem dois quartos, sala, cozinha, dois banheiros e um quintal com árvore. Antes de entrar, despediu-se dele com um sorriso incitador. “Quem sabe, dia desses, você me conta algumas das suas histórias.” Entrou em casa e ele ficou lá, em pé, fascinado pelas histórias da senhora de pijama.

A compra do mês se tornou a da semana. Uma vez por semana ele vai ao supermercado, esperando encontrá-la novamente. Desde aquele dia, seus pensamentos andam eriçados, desejosos de adquirem mais inspiração. Os clientes têm lhe parabenizado, que apesar de seu trabalho sempre ter sido impecável, pela primeira vez ele também se mostra fascinante.

No caixa, passando barras chocolate nada indicadas aos diabéticos, observa ao redor, buscando por ela. O caixa, o mesmo de sempre, que de horário ele não muda, diz que ela não veio mais, desde o dia em que eles se encontraram. Ele sorri, ensaca suas compras e segue confiante até a casa da senhora. Em pé, à porta dela, ainda leva um tempo até tocar a campainha. Quem lhe atende é um rapaz, lá com seus vinte e poucos anos, o olhar tão azul quanto o da senhora. Pergunta por ela, “a senhora de pijama”, e o outro pergunta quem é ele. “Eu a conheci no supermercado...” O moço lhe devolve um fiapo de sorriso.

A senhora de pijama passou uma semana inteirinha falando sobre ele para a sua família: três filhos e sete netos. Todos ficaram impressionados sobre como ela se tornou falante, já que parecia que jamais se recuperaria da morte do marido, alguns meses antes. A casa parecia estar em festa, os filhos estavam sempre por perto e adoravam trazer as crianças.

Sentado no sofá, defronte aos três filhos da senhora, todos com os olhos azuis, feito os dela, meio chorosos, ele escuta agradecimentos sobre o que ele não sabia ter feito. “Obrigado por ter escutado as histórias dela. Nós já as conhecíamos, e como nosso pai já não estava entre nós, ela não podia contá-las como se ele ainda não tivesse partido”.

Maria Amélia Ferraz de Souza, a senhora de pijama, faleceu há alguns dias, mas foi tudo muito tranquilo. Contou aos filhos que conhecera um jovem amuado, de olhar triste, alma reverberando solidão, e que confidenciou a ele as histórias de sua família. A gentileza do moço em escutá-la, sem se defender da velha doida, como escutou alguns a chamarem, naquele dia, transformou aquele olhar. E as histórias eram todas verdadeiras, até as mais surreais. Aparentemente, antes de se enfiar em pijama e beber uma garrafa de vinho por dia, ela e seu marido viveram muitas aventuras.

Volta para casa, uma tristeza lhe cutucando a alma. Volta aos seus afazeres, impecáveis, sempre. Volta ao silêncio, que é quebrado, vez ou outra, por música. Volta ao pensamento sobre sua existência significar nada para o outro.

Só que ele não se sente mais uma pausa constante. Dentro dele, a vida começa a reverberar diferente. Solta um fiapo de sorriso, lembrando-se da gargalhada tão miúda quanto ela. Faz a compra do mês pela internet, depois sai para uma volta pelo bairro.

Imagem: Le Double Secret © René Magritte

carladias.com



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terça-feira, 21 de abril de 2015

CRIANÇAS SENDO CRIANÇAS >> Clara Braga

Já tem um tempo, comprei um livro encantador chamado Casa das Estrelas, aquele que as crianças definem diversas palavras da forma como as entendem. Algumas definições são mais explicativas do que o próprio dicionário, me lembrou muito aquele livro Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento, da Adriana Falcão, tão encantador quanto, imagino que seja porque a Adriana tem esse lado criança ainda muito aflorado, coisa que a gente infelizmente vai perdendo e ainda acha comum que seja assim.

Já mais recentemente, vi um vídeo de uma campanha lançada pela Noémi, uma associação para pessoas com deficiências múltiplas, que convidava pais e filhos para um experimento. Eles entram em uma sala e ficam separados por um tapume enquanto assistem vídeos de pessoas fazendo caretas. Conforme as pessoas fazem as caretas nos vídeos, a família tem que imitar a careta que estão vendo. Em certo momento, uma garota com deficiência múltipla aparece fazendo uma careta, os adultos imediatamente param de imitar, enquanto as crianças continuam se divertindo com a brincadeira como se nada tivesse acontecido. Então, a associação conclui e convida a todos a olharem para o mundo com os olhos de uma criança. É uma campanha muito delicada, muito bonita, e que faz a gente repensar algumas posturas, vale a pena ver o vídeo.

Alguns dias depois de ver o vídeo dessa campanha, li um texto sobre o garoto que foi contar para o irmão mais novo, contra a vontade dos pais, que ele era gay. Os adultos ficavam receosos da confusão que essa informação poderia causar na cabeça da criança, mas a surpresa foi do lado contrário, quando perguntou ao irmão: você sabe o nome que se dá para pessoas que gostam de pessoas do mesmo sexo? a resposta foi direta e reta: amor!

Poderia seguir com uma lista gigante de vídeos, textos, livros e relatos interessantes que envolvem crianças. Tem a palestra maravilhosa do menino que decidiu estudar na vida e parar de ir para a escola, da menina que dá uma lição de moral sobre a beleza dos cabelos crespos, o experimento que pede que crianças corram como meninas e elas seguem correndo do mesmo jeito, sem clichês, e assim por diante. O que essas crianças tem em comum é uma certa ingenuidade, mas não essa ingenuidade que a gente conhece. A gente fala de ingenuidade como algo pejorativo, mas é isso que faz com que as crianças consigam olhar o mundo sem preconceitos e pré-conceitos. 

Na verdade, o que me pergunto é porque a gente insiste que ainda tem tanto para ensinar para as crianças e não se abre mais para aprender com elas?


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segunda-feira, 20 de abril de 2015

RUSIVEL E AS PASSEATAS - Final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 06 de abril de 2015) 


Agora, ao ouvir os televisivos convites para a manifestação - não os pichados em muros durante a madrugada ou em panfletos mimeografados – Rusivel sente brotar o patriotismo, começa a entender a democracia e cantarola o hino nacional.

Rusivel não gostava de política e ainda não gosta. Afinal, a vida o esfregou na política de maneira muito dolorosa. Tentava entender esse ou aquele episódio, mas sem sucesso. Nunca compreendeu esse negócio de esquerda e direita. Um amigo, metido a leituras, falou coisas sobre revolução francesa, jacobinos e girondinos sentados à esquerda e à direita no parlamento, mas isso confundiu ainda mais sua cabeça.

Menos ainda entendia a questão das cores: camisa vermelha, camisa da seleção, partidos azuis, partidos vermelhos, para ele eram apenas cores. É por isso que nenhuma ideologia inspirou a escolha da roupa para a manifestação. O manto sagrado, como ele diz, esteve presente nas grandes emoções de sua vida. A de hoje é a camisa número 3 da coleção flamengo 2015 – toda vermelha com escudo branco em cima do coração.

Um arrepio lhe percorre o corpo ao ver aquele mar de gente gritando palavras de ordem. Não parece perigoso. Não são cabeludos e desgrenhadas com cara de assustados. São famílias inteiras, sorridentes, levando os filhos às costas. É a polícia fazendo cordão para proteger, sendo aplaudida pelos manifestantes e tirando fotos com eles. Nada pode dar errado.

E lá vai ele com o peito estufado de orgulho flamenguista para sua primeira passeata como protagonista, e não como vítima. Nem notou os olhares atravessados e os gestos hostis. Estava de bem com a vida, e achou que aquelas roupas eram um desagravo ainda pelos sete a um da Copa.

O que não dava era pra resistir a uma camisa da seleção por aquele preço – e logo a número dez de Pelé, Zico e Neymar! No momento em que recebia a gloriosa, um manifestante mais exaltado rosnou-lhe gratuitamente:

- Mas que merda é você?

Rusivel pensou que era algum vascaíno ou argentino despeitado. Estava feliz e nenhum raivoso ia estragar o seu dia. Vestiu a camisa por cima da vermelha e ganhou de brinde uma bandeirinha do Brasil.

Longe de ser um provocador, mas perto de alguns provocadores, Rusivel, com camisa vermelha aparecendo por baixo da canarinho, não precisou abrir a boca para atrair impropérios.

- Esse cara é infiltrado! É traidor! É bolivariano! – acusaram alguns.

- Isso não me engana. É coxinha, golpista disfarçado! – responderam outros.

Os xingamentos viraram empurrões e bandeiradas, socos e pontapés. A gloriosa camisa dez foi rasgada porque aquele comuna não merecia vesti-la. A polícia militar, que tinha lá suas preferências, não reconheceu naquele maltrapilho ninguém que merecesse ser protegido. E o cassetete cantou solenemente nas suas costas.

Mancando, com um galo na cabeça e as costas ardendo, Rusivel escapou de sua segunda passeata em 40 anos. E se foi, lembrando da infância e das sábias palavras de sua vovozinha:


- Quem procura o que não guarda, quando acha não conhece!


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sábado, 18 de abril de 2015

QUARTO DE BONECA >> Sergio Geia

Justin abraça um violão preto. Mas o que me chama a atenção mesmo é uma menininha de roxo, bumbum arrebitado, sentada num carrinho de bebê — a imagem é meio turva, eu não enxergo direito. Não. Não dá. Fere a lógica. Naquela posição, não. Sem contar o carrinho. Já teria descido. Espatifado rua abaixo. A artista desprezou as leis da física. Mas tudo bem.

Antes o problema fosse esse. Tudo bobagem. Bobagens. Como bobagem é a imensidão rosa que me cerca. Um quarto de boneca. Um quarto de boneca que me abriga temporariamente. Mas o que importa são as páginas, as páginas visitadas. Ou revisitadas. Não. Isso não importa. Quer dizer, isso é o que importa, mas o que eu estava pensando no momento não é no que importa, mas no problema que reduz acentuadamente o problema do quarto de boneca. Essas batidas. Essas batidas irregulares, fora de hora, que martelam os miolos.

São dez e vinte e seis. Da noite. Uma noite mais fria que as últimas, véspera de um feriado qualquer. Debaixo do cobertor, eu tento voltar às páginas, ao que realmente importa. O artista fala do mar. E de um homem. Um homem e o mar. Que combinação! De sua varanda, ele observa. O homem está a nadar. A primeira vez que deixei meus olhos deitarem na imagem foi em Ubatuba. E me apaixonei. Naquela costa, mar lindo é o que não falta. Bom lugar para se apaixonar. Agora, de novo. Mas não há mais o mar, nem o homem; cá está outro homem, não com suas braçadas pausadas e fortes, mas com suas marteladas, não tão pausadas, mas fortes de arrancar os miolos. A sensibilidade que se multiplica em um, tão ausente noutro.

Eu desvio o olhar por um instante. Volto para Justin. Para o violão. Para a menina de roxo que, apesar do perigo, mostra os dentes numa alegria tipicamente juvenil. Penso em desligar as páginas. Em ligar a música. Em me desligar. E desligar a visão do quarto rosa, do quadro da menina, da fotografia do Justin, das bonequinhas perfiladas que agora, só agora, percebo sobre a mesa. Mas ligaram a furadeira. Ou será uma cortadora de cerâmica?

 O vento é nordeste e pequenas espumas nascem e somem. O homem lá. Nadando. Sem imaginar que alguém, de sua varanda, o observa serenamente, encantado com os movimentos. Sem imaginar que alguém de longe, de muito longe, o imagina flutuando em águas macias, solitário, na bela tarde de sol emoldurando uma praia deserta. Não. Aí eu não sei. O escritor não falou. Falou que o sol resplandecia. Que não havia ninguém na praia. Que o vento era nordeste. Que as espumas nasciam e sumiam. Mas não falou se era uma manhã ou uma tarde de sol.

Não importa. O que importa é que a imagem que eu formo nesta noite fria de marteladas e afins é a imagem de uma tarde de sol. E basta. Não. Não basta. Na verdade, imagino o fim de uma tarde de sol, o vento crispando as ondas, o homem lá, a nadar, a cumprir a sua missão, o seu destino, destino de personagem e autor de sua própria história, personagem real das histórias do mundo. E da minha história.

São dez e quarenta e um. Ao som que gostaria fosse o do mar, das ondas que vem e vão, do nordeste a sacudir folhagens, mas não é, eu desligo. Desligo as páginas. O Justin. A menina. A visão do quarto de boneca. Ou tento.

 


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sexta-feira, 17 de abril de 2015

VALE-CRÔNICA >> Paulo Meireles Barguil

Para ajudar a classe trabalhadora a andar de ônibus, em 1985, a Lei nº 7.418 instituiu o Vale-Transporte.

Para incentivar a permanência das crianças na escola, a Lei nº 10.219/2001 criou a Bolsa Escola.

Para matar a fome, foi criada, pela Medida Provisória nº 2.206, de 2001, a Bolsa-Alimentação.

Em 2002, o Auxílio-Gás, mediante a Lei nº 10. 453, de 2002, incentivou a comida feita no fogão.

Ainda bem que não inventaram o Vale-Lenha!

A festa ficou mais animada com o Programa Nacional de Acesso à Alimentação, conforme a Lei nº 10.689, de 2003.

Em 2004, os quatro programas recentes foram aglutinados na mais famosa brasileira, a Bolsa Família, a teor da Lei nº 10.836.

Eles ficaram um tempo sem inventar nada, até que, em 2012, foi estabelecido, conforme a Lei nº 12.761, o Vale-Cultura.

Nos últimos anos, para impulsionar as vendas, sob o título de incentivos fiscais, eles criaram o Vale-Carro e o Vale-Eletrodomésticos.

A bonança, que tinha data para acabar, final de outubro de 2014, foi boa enquanto durou!

Ainda não inventaram o Vale-Sexo, talvez porque, para alguns, no sexo vale tudo...

Há rumores de que a ideia desse abono foi recentemente considerada, mas, diante da constatação de que haveria muita fraude no cadastro, resolveram abortá-la!

Fica aqui minha sugestão para os zelosos governantes proporem os ecológicos Vale-Ar e Vale-Água.

Eu já estou criando o Vale-Crônica...

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quinta-feira, 16 de abril de 2015

DESESPERO 2.0 >> Mariana Scherma

Meu último sábado fez questão de explodir toda a minha programação matinal. Eu tinha programado até o tempo que levaria pra cada tarefa, mas o controlador de agendas do universo resolveu me zoar. Pra bagunçar meeesmo, meu primeiro plano já foi tchibum abaixo, o que comprometeu todos os seguintes. Ao mesmo tempo, eu saí de mim pra assistir meu leve desespero: bati os pés no chão e fiquei levemente descabelada – mas eu tô sempre descabelada, então, ok. Só consegui pensar: e agora?

A vida anda lotada de planos B, C, D,... Z. Mas quando a gente ficava exageradamente focada e quase noiada numa determinada obrigação, parece que as portas não se abrem, as alternativas deixam de existir. Bem-vindo ao caos das pessoas detalhistas, certinhas e adoradoras de uma ordem. No dia em que meus planos entraram no Titanic, eu custei a rebolar e fazer tudo voltar ao normal. A única certeza que tive foi a de que não quero ser mais assim. Ou não quero ser mais tão assim. Mudar em 180 graus não é das tarefas mais fáceis, não.

Ter sempre uma saída alternativa é necessário pra quase tudo na vida, mas, pra que elas aparecem, a mente precisa de ventilação. Ficar fechada em uma programação não ajuda em absolutamente nada. Naquele sábado, eu custei a me reprogramar, não foi automático como atualizações de aplicativo. E morri de raiva de mim mesma por ser tão metódica. Justo eu, que sempre achei péssimo ser metódica. E desde então, achei bom tomar algumas atitudes, como:

Fazer um plano A e B ao mesmo tempo. Mas tudo bem se der vontade de não seguir nenhum deles ou inventar o C no meio do caminho.

Parar de cronometrar as tarefas. A não ser quando o deadline bata na porta. Não é mais legal aproveitar o caminho, caramba?

Ter foco e saber que perder o foco pode ser importante. A criatividade nem sempre tem hora marcada pra chegar.

Rir do próprio desespero. Depois que o sufoco passa, chega a ser engraçado. Então, porque não pode ser engraçado durante?

Pensar no seu dia como um programa de computador. Sempre aparece uma atualização que vai fazer com que ele rode melhor.


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quarta-feira, 15 de abril de 2015

PALAVRAS E SILÊNCIO >> Carla Dias >>


Vendo a menina crescer assim, saudável, e até bem servida de inteligência e ótima nas tarefas que pedem pela percepção apurada, os pais nunca imaginaram que ela mergulharia naquele mundo íntimo, no qual não cabiam palavras ditas.

Apaixonada pelas palavras ela sempre foi. Aprendeu a ler com muita facilidade, a escrever com apuramento. Ela escrevia cartas porque gostava de escrevê-las, mas os destinatários eram personagens que inventava, porque é um desafio fazer amigos se não falar com eles. Assim, ela as escrevia em um caderninho encapado com papel kraft - que sempre teve uma queda pelo rústico -, sóbrio em nome da beleza que abrigava. Cada caderno guardava as cartas que ela escrevia a um mesmo personagem.

O silêncio dela não se devia a qualquer questão física, de acordo com o diagnóstico de dezenas de médicos que os pais procuraram, quando ainda se agarravam à esperança de escutar a voz da filha. “Parece-me que sua filha escolheu não dizer palavras”, manifestou-se o Sr. Arnaldo, morador do apartamento 34, ex-tarólogo e ainda atuante guru de vários ilustres artistas. “Um dos meus clientes fez isso, certa vez. Decidiu não dizer palavras e se calou por três dias”.

Agarrada à desolação, a mãe ruminou o pensamento: o que são três dias se comparados a uma vida?

Ela foi menina feliz, de sorriso aparente. Tornou-se moça dedicada, apaixonada por etimologia. Os pais, mais conformados com o silêncio escolhido, não compreendiam seu entusiasmo pela origem das palavras combinado à negação em pronunciá-las. A esperança de escutar a voz da filha se dissipara.

“O mundo é barulhento.” Assim ela iniciou a carta número 1.234, escrevendo em um dos caderninhos encapados com papel kraft que ela, caprichosamente, guardava em um baú, aos pés da cama. O mundo é barulhento, as pessoas disputam espaço na percepção do outro aumentando significantemente a sua voz, praticamente aos berros, na verdade. Usam as palavras mais gentis imbuídas em ironias, no desejo nada secreto de ofender o outro. E quando se trata de ofensa, não há quem tenha razão. A ofensa nunca tem razão, mesmo quando saliva verdade.

Não que ela desgoste do som da palavra dita, ao contrário. Aprecia quando elas expõem um pensamento, filosofam sobre qualquer assunto, inclusive os indigestos. Para ela, preferível é admirar quem diz a palavra sendo fluente e justo no dizer.

Mesmo quando os pais morreram, em um acidente de carro, ela disse palavra. Escreveu para cada um deles uma longa carta sobre a felicidade que eles proporcionaram a ela e com tamanha gentileza. Colocou as cartas junto aos corpos, beijou-lhes a testa e, silenciosamente, despediu-se deles.

Chegou o dia em que acordou e sentiu a necessidade de mudança lhe tomar.  Primeiramente, tinha de se desfazer do passado no qual se mantinha ancorada. Foi ao quarto, espalhou os cadernos-carta no chão, contou cento e cinquenta e quatro... Cento e cinquenta e quatro pessoas que não eram pessoas, mas tinham nome. Melhor coisa era arrumar para cada uma delas um endereço.

Sr. Arnaldo, apesar de debilitado pela saúde frágil e a idade avançada, ajudou a moça a escolher as pessoas. Ela escreveu uma carta-explicação e, caprichosamente, envelopou os cadernos, em envelopes de papel kraft, escrevendo nome e endereço de remetente e destinatário. Assim, em alguns dias seus cadernos ganharam um novo código postal.

O ex-tarólogo, depois de décadas longe das cartas, fez um jogo para ela. “É o último dessa vida, que já estou em ponto de descanso.” Durante a leitura, ela se sentiu profundamente agradecida pela gentileza daquele homem que a conhecia desde sempre, e o único a nunca ter lhe pedido para dizer palavra. De certa forma, ele apreciava e compreendia o que silêncio dela dizia.

Durante a sua vida, a moça disse palavra nenhuma. Os únicos sons que ela não pôde deixar de emitir foram o do choro, o da gargalhada e o da dor. Dos cento e cinquenta e quatro cadernos-carta que espalhou pelo mundo, trinta e sete pessoas lhe responderam. Doze delas para contar como se desfizeram do caderno recebido: fogueira no quintal, lago no fundo da casa, trilho em estação de metrô, aterro sanitário e etc. Vinte e quatro pessoas agradeceram, pois acharam as palavras escritas profundamente emocionantes, e juraram guardar seu caderno-carta com o maior carinho. Uma pessoa escreveu e pediu resposta a sua carta. Assim, pela primeira vez, ela postou uma carta e fez um amigo. Pela primeira vez, a pessoa não era personagem.

A carta da mudança.

Imagem: The Letter © Haynes King

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domingo, 12 de abril de 2015

MANIFESTO EM FAVOR DO AUMENTO DA MAIORIDADE PENAL >> Whisner Fraga

Não sei se é correta a estimativa de que apenas 0,5% da população de 12 a 18 anos cometeu crimes em 2011. Uma pesquisa na Internet não permite que se decifrem esses números. Também não consegui saber se procede a estimativa de que 70% dos presos são reincidentes. Então não vou falar de números aqui, mas sim de fatos. Parece-me, para começar, que ninguém hoje mais duvida da superlotação de nossas prisões. E parece também ser mais ou menos consenso que as cadeias são as melhores escolas para bandidos.

Daí que querem colocar um adolescente junto de adultos, dividindo a mesma cela. Isso diminuirá a violência em nosso país? Certamente que não. Isso posso afirmar, porque li alguns estudos realizados em países de primeiro mundo que chegam a essa conclusão. Estudos convincentes, com dados concretos. O brasileiro em geral, que tanto gosta de se achar inferior ao resto do mundo, deveria analisar algum deles. E seguir um exemplo de tendência mundial: a de manter a maioridade penal em 18 anos.

Sim, eu entendo perfeitamente a dor de uma pessoa que teve um amigo ou mesmo um familiar vítima de um adolescente. Mas também entendo a dor dos amigos e familiares dos mais de vinte adolescentes e crianças que são assassinados todos os dias no Brasil. Para reeducar os infratores e tentar reinseri-los na sociedade, nossos legisladores criaram, em 1990, o ECA. Deveria ser leitura obrigatória para todos. Todavia, o executivo não concedeu as condições para que o ECA fosse, de fato, executado até hoje. A Fundação Casa, por exemplo, que deveria ser, como se autointitula, um centro de atendimento socioeducativo ao adolescente, nada mais é do que uma prisão disfarçada. Todos são vítimas: algozes e presas.

Quem são os jovens infratores? Em sua maioria cidadãos vulneráveis, que não têm acesso aos direitos básicos para viverem uma vida minimamente digna. Por que então o Estado não investe para que esses meninos experimentem o sentimento de respeito e valorização? Somente a educação pode mostrar a esses jovens que esse ciclo vicioso da banalização da violência deve acabar, que não tem sentido. Mas uma educação de qualidade, aquela emancipadora.

E é preciso que o Estado garanta o acesso e a permanência na escola desses cidadãos. O que significa transporte, comida e outros materiais. Isso, evidentemente, custa caro. Uma cadeia superlotada sai muito mais em conta, óbvio. E aprovar a redução da maioridade penal é um meio que os políticos encontraram de engambelar o povo: quando descobrir que a violência continua, já terá reeleito muito deputado e governador por aí. Quando perceber que deu carta branca para a polícia atuar mais violentamente, não poderá voltar atrás. O leite já terá sido derramado.

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sexta-feira, 10 de abril de 2015

WILLIAM, O ORDINÁRIO. PARTE II >> Zoraya Cesar



William escolheu uma noite de chuva. E que chuva, aquela, que se derramou num grande clichê cinematográfico, cheia de trovões, relâmpagos, rajadas de vento frio. Ele tremia de excitação. O tempo oferecia a situação ideal para se aproximar de uma mulher, talvez oferecer-lhe ajuda e, quem sabe, perpetrar o seu intento.

Preparou o chá da velha mãe, como sempre fizera. Ou não, não exatamente. Dessa vez, colocou uma dose extra de calmante. Pelos seus cálculos – e ele se orgulhava de seus cálculos perfeitos -, ela dormiria direto até bem tarde da manhã seguinte. Esperou que a bebida fizesse efeito, e saiu.

Andou pelas ruas quase vazias até encontrar o ponto de ônibus que lhe convinha. Pagou em dinheiro, para seu RioCard não ser rastreado, e sentou-se atrás, a fim de ter uma visão privilegiada. Havia ainda muitos passageiros, apesar do horário tardio, era só esperar para escolher. E, enquanto esperava, pôs-se a resolver complicadas equações contábeis, tentando se acalmar.

William estava nervoso. Afinal, seria sua primeira vez.

A PRIMEIRA VEZ - Finalmente, ele a viu. Uma mulher magra, de aspecto pobre e ar cansado, levantou-se para saltar, sozinha, naquele lugar deserto, mal iluminado, perfeito. William, rapidamente, passou-lhe à frente, não fosse ela suspeitar daquele homem dentuço, de óculos, próteses que ele comprara para mudar sua fisionomia, conforme aprendera nos manuais de disfarce que procurara na internet.

Desceu ele, desceu ela, amiudada frente à violência do frio e da chuva. Ele não se abalou, protegido que estava em seu impermeável, um dos melhores do mercado (ele se regozijou, não passara semanas se preparando à toa).

A mulher caminhou para um lado, William seguiu alguns passos para o outro, como última precaução, para não deixá-la em estado de alerta. Poucos metros depois, ele correu em sua direção, seus sapatos especiais silenciosos, seus passos inaudíveis.

A refrega foi rápida, e a mulher, magra, cansada, pega de surpresa, não teve chance com o homem mais forte que ela, mais senhor de si, mais imbuído de um propósito. Ele catou dinheiro e documentos de dentro da bolsa, que largou junto ao corpo.

Durante o período que levou se preparando para o grande momento, William percorrera incontáveis vezes diversos percursos, gravando em sua memória quase fotográfica todos os meandros, desvãos, becos, saídas estratégicas. Evadiu-se pelas ruas desertas, onde não havia almas outras que não as penadas.

Ao chegar em casa, queimou os documentos e o dinheiro tirados da vítima e vomitou violentamente, as pernas bambas, o corpo trêmulo, numa espécie de reação retardada à toda excitação. Tomou banho, lavou a roupa, os sapatos, as luvas. Mas não dormiu. Passou a limpo cada detalhe, procurando falhas, e rememorando, prazerosamente, a sensação da mulher estertorando em suas mãos, frágil, indefesa, morta. O poder, oh, o poder absoluto que sentiu inflamar seu sangue, ele também poderia ter morrido lá, de puro êxtase.

Amanheceu febril e, pela primeira vez em todos aqueles anos, faltou ao trabalho. Pelos dias subsequentes comprou todos os jornais, procurando por notícias. Encontrou apenas uma pequena nota, num desses periódicos da imprensa marrom, que só publica as desgraças ocorridas com gente pobre e desassistida. A polícia não tinha pistas e cogitava num latrocínio. E nada mais foi publicado sobre o assunto.

William nunca se sentira tão pleno, tão seguro, tão... feliz.

A VIDA CONTINUA – Os dias passaram sem que nada acontecesse.

Era outro homem. Tinha um segredo, um segredo incomum, que o fazia sentir-se superior àqueles que o cercavam. Os colegas notaram que ele, embora continuasse caladão, estava mais afável, comparecia aos encontros sociais. Andava, agora, ereto, a cabeça erguida, um semi-sorriso flutuava constantemente em seu rosto.

Não se incomodava mais com o cotidiano vulgar, o trabalho monótono, a mãe andando molambenta de lá pra cá dentro de casa, a solidão, nada. Preenchia-o a memória daquela noite, à qual afagava como a um ente querido.

Até que isso começou a não lhe bastar. William queria mais que uma memória. Queria uma vida diferente.

UMA VIDA DEDICADA À MORTE – Decidiu, então, que aquele seria seu hobby, sua razão de viver, seu segredo formidável. Começou a planejar outra caçada, nos mesmos moldes da primeira, que dera tão certo.

A noite perfeita chegou – chuva torrencial, vento, raios e trovões. Outras noites perfeitas chegaram, e William aproveitou-as quase todas, sempre cuidadoso, sempre meticuloso, sempre bem sucedido. Por bem sucedido, entendamos, mulheres mortas e a polícia pensando tratar-se de latrocínios isolados, jamais a atuação de um serial killer, que isso era coisa de filme americano.

Da segunda vez em diante ele não teve mais febre, tremores, vômitos. Chegava em casa e dormia, exausto e feliz.

O tempo passou, o clima mudou e as noites de chuva rarearam. William acompanhava as previsões meteorológicas, impaciente, quase desesperado.  Não podia deixar sua vida voltar a ser o que era.

Resolveu que esperaria por mais uma noite de chuva e, depois, tiraria um período sabático. Talvez até mudasse seu modus operandi, ponderou, antes que a estúpida polícia fizesse alguma ilação que o pusesse em perigo. Descansaria por alguns meses, estudaria novos métodos de perseguição, novos trajetos, aprimoraria suas técnicas. Estava tudo na internet, era só estudar, ter método. E William era muito metódico, isso ele era. Tanto que não levava em conta o imponderável, o fortuito, o acaso.

Se tudo dera certo até então, pensava, não havia por que ser diferente. Ele se sentia confiante, seguro de si, extraordinário.

A terceira e última parte será publicada no dia 24 de abril







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quarta-feira, 8 de abril de 2015

O DIA EM QUE MORRI >> Carla Dias >>


Um dia como qualquer dia outro. Eu faço quase as mesmas coisas de ontem, anteontem. A rotina não me aborrece, dou-me bem com ela, mesmo quando ela exige que eu pratique o lidar com o que não me apetece.

O tempo se arrastando me aborrece, que mesmo quando ele abarca felicidade, perde o brilho na sofreguidão de ter de repetir lembrança para alimentar contentamento. É como se a minha memória sofresse de esquecimento. A felicidade desbotada, de tanto uso, desilude-me amplamente.

Há tempos não me perguntam sobre o que me faz bem. Eu mesmo perdi o talento de discursar a respeito. Perguntas fazem parte da minha lida, requintam minha existência. As respostas são uma centelha de fascínio, que minha alma mastiga por segundos, antes que ele se desvaneça.

Se me perguntarem, serei honesto ao responder que a minha história é de enredo sem pontos de virada. Pouco acontece na minha biografia e preencher o tempo é o que mais me dá trabalho. Há dias em que leio, em outros, eu caminho sem hora para voltar. Já aconteceu de eu me sentar em lugar qualquer e gastar tempo esperando o inesperado. Estava certo de que algo aconteceria e me exasperaria de tanta novidade. Horas depois, caminhei de volta para casa, o corpo necessitado de se deitar, o estômago zunindo fome.
Já me perguntaram sobre o dia mais importante da minha vida. Veja bem, que já são mais de quatro décadas de vida. Ainda assim, foi fácil responder: foi o dia em que eu morri. Não do jeito que você está pensando, tampouco de forma poética.

De antes desse dia, de nada eu me lembro. Dizem que eu era um rapaz engajado, acostumado às festas e celebrações, com fortes laços familiares. E amava a moça de três casas adiante da minha, que meu casamento era um acontecimento aguardado como costumava ser o Natal.

Então, eu morri.

Quando voltei, a morte havia roubado de mim a consciência sobre o que, até então, era importante para mim. Eu me tornei aquela tela em branco que as pessoas gostam de citar ao mencionarem recomeços. No meu caso, foi começo mesmo.

Desde então, a rotina me mantém no ritmo. Laços familiares e seus nós, conviver com quem não conheço, porque eles me conhecem e sabem quem eu sou e o que desejo... Se isso ainda fosse verdade, mas não.

Aos poucos, tornei-me esse fantasma vagueando pela cidade. Minha mãe ainda insiste, chamando-me filho, mesmo eu não atendendo. A moça com a qual casaria se mudou da cidade, que não suportou tal abandono.

Preencher o tempo ainda é um desafio. Imagino até quando, se haverá o dia em que, sem que eu perceba, haja uma história que seja a minha.

Imagem: Riding With Death © Jean-Michel Basquiat

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terça-feira, 7 de abril de 2015

CADA ESCOLHA É UMA... >> Clara Braga

Quer me deixar desnorteada é só dizer: é livre! ou então: escolhe um! Eu consigo escolher uns três, quatro, mas um só é tortura. Aquelas lembrancinhas de viagem que família trás igual para todo mundo, só fala para cada um escolher a cor que quer, aquilo é um tormento! Como eu vou escolher o vermelho se o azul também está lindo? E se você escolher o roxo, no segundo seguinte vai descobrir que a cor do ano é o laranja, deu na TV que quem usar sempre algo laranja esse ano vai ter sorte no amor, no dinheiro, no jogo, em tudo que tiver direito!

Qual sua música favorita? Qual sua blusa predileta? Qual restaurante você mais gosta? Qual sua comida predileta? Qual sua cor favorita? Que estilo de música você mais gosta? Para uma pessoa que fez duas tatuagens de uma vez só porque não conseguia escolher só um desenho para fazer, a resposta para todas essas perguntas é uma só: não sei, depende!

Sei que para algumas situações não conseguir escolher algo é comum, por exemplo, atire a primeira pedra quem nunca experimentou mais de uma roupa enquanto se vestia para uma ocasião especial ou pediu opinião na hora de comprar um presente para alguém querido e ainda saiu na dúvida se tinha de fato feito a melhor escolha! Mas reconheço que meu caso é exagerado, talvez fosse até o caso de procurar uma ajuda, não sei, talvez uma terapia, dizem que mal não faz. Para entenderem o nível, de todas as frases que ouvi na faculdade, a que mais me marcou, sem a menor sombra de dúvidas, foi quando uma professora, em um desses meus surtos de indecisão, me disse: é Clara, cada escolha uma renúncia, não é mesmo?

Já fiquei tão paranóica com o fato de não conseguir escolher algumas coisas que teve uma fase que encarei isso como um grande problema, então comecei um auto tratamento e me passei um exercício: decidir um favorito de tudo que fosse possível, como se estivesse naquela entrevista no De Frente com Gabi, cantora favorita: Joss Stone; escritora favorita: Adriana Falcão; livro favorito: Luna Clara e Apolo Onze (tem muitos anos que li, mas ainda não decidi de quanto em quanto tempo posso mudar o livro favorito para não parecer indecisa); filme favorito: Psicose; comida predileta: strogonofe (mas a nutricionista mandou mudar, talvez para alface); CD favorito: estou entre LP1 e Mind Body and Soul da Joss Stone; o que mais gosto de fazer no tempo livre: ainda não sei, essa é difícil, mas estou tendendo a escolher assistir filme; que curso teria feito se não tivesse me formado em artes plásticas: estou entre música, dança, cinema e museologia, já consegui eliminar os que não eram muito dentro dessa área…

Como puderam ver, o exercício ainda está caminhando. É difícil escolher, mas pelo menos eu já sei que o difícil em escolher é saber que quando você escolhe uma coisa, outra está sendo deixada de lado. Mas já não tenho encarado a dificuldade da escolha como um problema tão grande, outro dia ouvi um grande baterista falar quando foi perguntado sobre quem era seu baterista brasileiro predileto: eu não tenho um predileto de nada, acho que isso é se fechar demais e eu gosto de estar sempre aberto à novas escolhas/oportunidades! Depois ele disse: como vou escolher um se não conheço todos?

Essas duas frases me marcaram muito! Não acho que seja um problema ter um favorito, mas não significa que o cargo não possa mudar, temos que estar sempre abertos a conhecer novidades. Ou então ter vários favoritos, qual o problema? Cada um para a sua devida hora e momento!

Calma, não pretendo usar essas frases como desculpa para a minha dificuldade e ficar rodando que nem doida em um estacionamento vazio sem conseguir escolher uma vaga para não me fechar para as oportunidades! Por via das dúvidas, vou continuar com meu exercício, que eu nem sei se de fato funciona para alguma coisa, mas sempre tendo em mente que o que não podemos nunca é nos fecharmos para as novidades, as renuncias vão fazer parte, mas elas também podem ser só momentâneas.


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segunda-feira, 6 de abril de 2015

RUSIVEL E AS PASSEATAS >> Albir José Inácio da Silva

Bombardeado pelas recentes conclamações às passeatas, Rusivel sentiu nostalgia do que não viveu. Ou melhor, viveu, mas não como queria. Não como protagonista.

Nada boas as lembranças dessas manifestações. Tudo o que sabia de política naquele início dos setenta, quando cruzava o centro do Rio como office-boy, vinha do sussurro das ruas ou dos fardados comunicados oficiais.

A princípio olhava com curiosidade os cabeludos e as mocinhas, tão jovens ainda para ser bandidos, que desafiavam cargas de cavalaria, blindados e baionetas, em meio às nuvens de gás. Por que não estavam na praia ou no cinema naquela tarde linda?

Eram terroristas. Sabia deles pelas manchetes, pronunciamentos na televisão, e já tinha visto os cartazes de “procura-se” na Central do Brasil.

Parece que foi ontem, as bombas explodindo na Rio Branco. Barbudos e descabeladas passam correndo com lenços, blusas e até saias cobrindo o nariz. Cavalaria vai pelo asfalto e soldados pela calçada. Sai fumaça do bueiro e Rusivel sente a garganta fechar, segura o pescoço e encosta na porta de uma loja, a essa altura abaixada.

- Corre garoto, vai embora daí! – grita a vendedora pela grade. Mas ele não consegue se mexer, nem respirar.

Dois soldados se aproximam, um traz o fuzil com baioneta e o outro um cassetete. O do cassetete pega Rusivel pela camisa e levanta a mão armada. Reunindo forças e oxigênio, nosso herói tenta falar:

- Eu sou... eu sou... – como a voz se recusa, ele puxa a carteira profissional no bolso de trás.

- Pra mim você é um merda! – responde o soldado. – E olha o que eu faço com isto! – rasga a carteira em duas e joga no chão.


Rusivel tem uma crise, tosse, engasga, fica vermelho e sacode o corpo em convulsões. Isso parece acalmar o soldado que o segura. O outro grita:

- Larga esse lixo, que ele ainda morre na tua mão com as pessoas olhando!

O soldado larga, mas dá duas botinadas e três golpes de cassetete. Rusivel se arrasta de quatro pela Treze de Maio e foge aproveitando os tapumes da obra do metrô.

Não preciso dizer que ficou traumatizado. Tiros, bombas e soldados o assustavam até em filmes da televisão. Manteve-se distante desses movimentos por décadas. Não tomou conhecimento de “diretas já”, “fora Collor”, “black blocks” e coisas que tais.

Mas isso são águas passadas. Rusivel se recuperou dos pesadelos políticos e o Brasil também. O Brasil já pode suportar manifestações contra e a favor porque a democracia está amadurecida pelo mais longo período de normalidade institucional da sua história.

Agora, ao ouvir os televisivos convites para a manifestação - não os pichados em muros durante a madrugada ou em panfletos mimeografados - Rusivel sente brotar o patriotismo, começa a entender a democracia e cantarola o hino nacional.


(Continua em 15 dias)


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sábado, 4 de abril de 2015

OS NOSSOS SANTOS >> Sergio Geia

Digo isso com a mais fina das convicções: se existe uma coisa de que brasileiro pode se orgulhar, essa coisa se chama futebol.

Tudo bem, eu também não esqueci aquela fatídica terça-feira, o hino nacional cantado a plenos pulmões, a rapaziada toda vestindo amarelo canarinho, pronta para empurrar nossa seleção pra cima dos branquelos que até outro dia mal sabiam jogar futebol, dominavam a bola com as canelas e só faziam gol de chuveirinho; a bola pipocando na nossa área, ziguezagueando na frente da nossa defesa, balançando a nossa rede, nosso time assistindo a tudo indiferente, só assistindo, uma beleza.

Está certo, meu amigo, não vamos ficar remoendo essa tragédia. Acho que não foi uma boa ideia começar falando de futebol. Mesmo porque eu não queria falar de futebol. Na verdade, eu só queria introduzir o assunto, entende? A gente faz assim: introduz o assunto com alguns derivativos, fica margeando, andando pelas beiradas, depois vai ao âmago. Eu só queria falar de algo que é orgulho para a Nação, afinal, somos pentacampeões do mundo ou não somos?

Esquece, vai. Vamos falar de vôlei. Lembro-me muito bem daquela partida memorável contra os Estados Unidos nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984. O Brasil massacrou os americanos na casa deles com um sonoro três a zero. Ficou claro que o Brasil tinha um time de respeito e foi ali que tudo começou. De lá pra cá são cinco medalhes olímpicas, duas de ouro, em Barcelona e Atenas; três de prata, em Los Angeles, Pequim e Londres. Cinco campeonatos mundiais, sendo três medalhas de ouro conquistadas na Argentina, Japão e Itália; e duas de prata conquistadas na Argentina e Polônia. Na Copa do Mundo o Brasil possui cinco medalhas, duas de ouro e três de bronze. Nos Jogos Pan Americanos nem se fala, são quatro de ouro, seis de prata e quatro de bronze. O feminino não fica atrás: nossa seleção é bicampeã olímpica. Ou seja, o vôlei é motivo de orgulho para nós brasileiros e não há como contestar, certo?

Além do vôlei, do futebol, temos o Guga, o Medina, o Sebastião Salgado, O Gil, a Gi, a Paola Oliveira, e tanta gente porreta em tantos segmentos que dá até pra escrever um livro só com o nome desses brasileiros cabras da peste. Só me incomoda a falta de brasileiros notáveis num segmento: se você chegar ao céu, amigo, vai sentir um estrangeiro num país inóspito; vai encontrar santidade de tudo quanto é lugar, menos do Brasil, o que é uma lástima. São mais de 10 mil santos e beatos católicos, e apenas um vestindo verdadeiramente a amarelinha.

Dizem por aí que temos três santos brasileiros: Madre Paulina, José de Anchieta e Frei Galvão. Tá, só que Amabile Lucia Visintainer, a Santa Paulina, nasceu na Itália ou na Áustria, depende do ponto de vista; José de Anchieta nasceu na Espanha e Frei Galvão nasceu em Guaratinguetá (ufa!). Mas o incrível é que até no segmento santidade nós conseguimos pecar, dando um jeitinho brasileiro de se apoderar dos santos dos outros.

No Brasil já ocorreram muitos milagres que produziram a canonização de muitos santos estrangeiros, vide Santa Madre Carmem Sallés ou Beata Jeanne Emilie de Villeneuve. Na nossa terrinha nascem milagres, mas santo que é bom mesmo, dessa terra não brota, ah, não brota! Algum palpite?

P.S.: Dia desses, na padaria, a mocinha serviu meu café acompanhado de um pote bojudo de açúcar. Santa Crônica “ACÚCAR!!!”.


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sexta-feira, 3 de abril de 2015

DISCURSO OU PERCURSO: QUAL É A SUA PEDAGOGIA? >> Paulo Meireles Barguil


Afinal, como o Homem aprende?
 
Nos primórdios, quando éramos poucos e vivíamos em bandos, aprendíamos o necessário na convivência: vendo, sentindo, ouvindo, falando, fazendo e registrando.
 
O desenvolvimento de habilidades acontecia com todo o corpo, num processo dinâmico e interativo.
 
Diante de um mundo repleto de mistérios, incertezas, belezas e ameaças, a Humanidade desenvolveu várias formas de interpretá-lo — Arte, Ciência, Filosofia e Religião — e expressar o elaborado.
 
Nessa jornada, ampliamos exponencialmente os nossos saberes, com algumas pessoas ocupando, em variados espaços-tempos, diferentes papeis na divulgação do sabido: ancião, pajé, professor, sacerdote...
 
O saber instituído nos possibilita poupar tempo e vida, mas, também, é capaz de nos privar de espaço, aventuras e descobertas.
 
O conhecimento pode ser usado para tentar nos controlar, sufocar ou nos convidar à expansão.
 
A realidade, contudo, não é apreendida diretamente pelo Sistema Nervoso Central, via informações recebidas pelos nossos sentidos, mas por intermédio de complexas atividades simbólicas.
 
Um signo é composto de significante — é de domínio público (por exemplo, o nome das letras, dos algarismos, das formas geométricas, das notas musicais...) e pode ser ensinado, em virtude da sua natureza arbitrária — e de significado — é constituído por cada pessoa (a compreensão e a degustação da sonoridade e do registro da Língua Materna, da Matemática, da Música...), num processo de mediação social, onde a atividade do sujeito é imprescindível.
 
As revoluções epistemológicas ocorrem em virtude do questionamento do estabelecido e da alteração da capacidade de divulgar, mediante variadas tecnologias, convicções.
 
A crença de que vivemos numa sociedade do conhecimento é inadequada, seja porque informação é diferente de conhecimento, seja porque toda a História da Humanidade é caracterizada pela dilatação da compreensão do Cosmos.
 
Há bem pouco tempo, tínhamos a certeza de que a Terra estava no centro do Universo! 
 
Acreditávamos, também, que ele era bem menor do que é.
 
Esse exemplo, para mim, ilustra bem o quanto ignoramos!
 
Admito: não são poucas as pessoas que ainda acham que o mundo gira ao seu redor...
 
O excesso de informação não é suficiente para transformar a qualidade da vida do Homem, pois ele tanto precisa acessar boas fontes, bem como dispor de tempo para empreender as mudanças, internas e externas, necessárias.
 
Acredito, até, que a enxurrada de estímulos tem efeito contrário ao desejado, pois, sem o devido cuidado, ela nos distancia da nossa conexão com o Cosmos.
 
Bruner acredita que existem duas formas de se entender a aprendizagem: o “computacionalismo” — o Homem, tal como um computador, processa informações, as quais se apresentam a ele num código linguístico compreensível — e culturalismo — o Homem, como um ser simbólico, interpreta os fenômenos do mundo a partir de sua singular constituição, fruto do que vivenciou. 

Essas concepções geram práticas educacionais, na escola e fora dela, antagônicas.
 
No “computacionalismo”, o discurso de quem sabe e o silêncio e a inércia de quem ignora são as características dessa pedagogia, que se baseia na crença de que os aprendizes são tábulas rasas, vazias, ou seja, desprovidas de movimentos, sonoridades, sentimentos e pensamentos — saberes. Dessa forma, o que eles são é inútil e deve ser jogado fora...
 
Na escola, é responsabilidade do professor fornecer aos estudantes dados — significantes — para que esses executem os comandos cerebrais pertinentes e aprendam. 
 
No culturalismo, o sujeito e a sua realidade são o ponto de partida, o que coloca todas as pessoas em relativa igualdade, considerando a singularidade de ambos — indivíduo e contexto. 
 
É no percurso, portanto, que a ação educativa, seja escolar ou não, acontece, com a transformação, em ritmos ímpares, de todos os envolvidos, que se percebem aprendizes e, também, ensinantes.
 
No contexto acadêmico, é atribuição do professor instigar e acompanhar, mediante atividades diversificadas, o desenvolvimento integral de cada estudante, pois a compreensão — significado — de um mesmo acontecimento é única, considerando a especificidade pessoal.
  
Nas últimas décadas, a distância entre as formas de se aprender, fora e dentro da escola, aumentou consideravelmente, pois as Novas Tecnologias da Informação e Comunicação ampliaram, em qualidade e quantidade, o conhecimento elaborado pelo Homem e a sua difusão.
 
A permanência de ritos seculares na escola tem contribuído para que ela seja, cada vez mais, para muitos de seus agentes, um ambiente desagradável, inútil e, por vezes, hostil.
 
Paulo Freire denunciou a Educação bancária — na qual o conhecimento é “guardado” em gavetas pelo estudante, após a transmissão acrítica dos conteúdos pelo professor — e defendeu uma Educação libertadora, problematizadora — o conhecimento é entendido pelo estudante na sua dimensão histórica, contemplando a sua construção e a sua importância, e elaborando sentido sobre o saber instituído.
 
Nos multiplicamos, conforme orientação divina, e ocupamos quase toda a Terra, embora, por vezes, sem a atenção necessária!
 
Movidos pela compreensão de que a nossa morada aqui é finita e pela ousadia que nos caracteriza, já vislumbramos a colonização de outros planetas.
 
Em síntese: a Humanidade aprende porque, diante de um Mundo apinhado de segredos, tem a coragem de perguntar e buscar respostas.
 
O conhecimento, portanto, é fruto da interação desencadeada por um problema, um desafio, a vida.
 
Esse processo dura o tempo necessário para se encontrar uma solução considerada satisfatória e pode ser retomado a qualquer momento, quando os seus limites são descobertos.

Que esse meu discurso inspire o nosso percurso...
 
[Vestígios atávicos depois da chuva - 1934. Salvador Dali - 1904-1989]


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quinta-feira, 2 de abril de 2015

VOCÊ COME OU GUARDA O PUDIM? >> Mariana Scherma

Eu fui a um show no último final de semana e fiquei meio triste por conta do fulano na minha frente, que filmou o show INTEIRO. Não uma música que ele gostasse mais ou umas selfies com sua galera. Não, o show todinho na memória do celular. Aliás, fiquei com uma (mini) inveja dessa superbateria do celular dele e do tantão de memória. Mas também fiquei com dó, dele e de mais um tantão de gente que fazia questão de filmar e fotografar tudo (sem estar trabalhando na cobertura de imprensa).

Esse tanto de tecnologia na palma da nossa mão tem deixado a galera meio perdida e sem saber como viver direito. O desespero em registrar os momentos é tão enorme que as pessoas só os registram e se esquecem de vivê-los. O show que eu mencionei foi do Alceu Valença. Ele brincou, fez piada e nos deu um show que também parecia uma conversa na mesa de bar. Meus amigos e eu dançamos, rimos e ficamos admirados pelo sujeito que o Alceu é. O cara do celular gravou tudo e, quando rever o vídeo, suspeito eu, não terá as mesmas lembranças que minha turma e eu. A visão que tivemos era geral, ampla... Ele, por mais que a tela de seu celular fosse grandinha, só assistiu ao show dos 10cm X 8cm ou sei lá quanto media o smartphone dele.

Acho que a gente deveria se perguntar às vezes “pra que tanta lembrança se nem temos vivido esses momentos com gosto?”. Do que adianta guardar, se você não sentiu o gosto? Minha mãe diria “quer comer o pudim e guardar o pudim”. Não me leve a mal, eu sou super a favor de registrar momentos, mas só depois de aproveitá-los ao máximo. Sabe quando você se deparara com a paisagem mais linda? Primeiro, olhe-a, sinta-a, respire-a. Depois, pode vir a foto. Por mais lindo que seja o registro de uma paisagem, ele nunca vai ser igual a original, disso tenho certeza. Quando viajo e vou mostrar as fotos, as pessoas se admiram e eu penso “não é nem 10% do original”.

O vício de tanta foto e vídeo tem muito a ver com as redes sociais, todo mundo se mostrando a todo mundo, uma dependência absurda de ser visto e admirado. Sei lá, mas desde quando a gente passou a viver para os olhos dos outros? Sorte de quem tem na memória a maior quantidade de gigabytes possíveis e não precisa registrar ca-da pas-so pra mostrar que existe, é feliz, viaja, vê pôr do sol, vai ao show do Alceu, malha todo dia, come salada e cia. Feliz de quem vive pra se fazer feliz.


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quarta-feira, 1 de abril de 2015

O QUANTO >> Carla Dias >>


Conversando com um amigo, relembrei alguns momentos que pontuaram nossa amizade. Isso foi antes das mudanças representativas, de quando as estações de metrô entre nós não davam a impressão de que vivíamos em continentes distintos.

Nós conversávamos, sem correria. Na época, eu já batia minhas quase doze horas de trabalho por dia. Mas o tempo... Que gosto tinha? Era mais lento? Eu era menos atarefada? Acho que éramos mais gentis com o tempo, isso sim. Nós o apreciávamos reconhecendo a presença do outro. Nenhum Smartphone ou iPad se intrometia entre nós, e estou certa de que não apenas pelo fato de essas tecnologias não estarem disponíveis na época. A verdade é que adorávamos conversar, e as nossas conversas eram longas, e principalmente sobre música.

Eu já disse, e perdi a conta de quantas vezes e em quais ocasiões, que a música me permitiu ter amigos. Não fosse eu estar envolvida com ela, poucos dos amigos que são realmente presentes na minha vida sequer saberiam de mim.

Neste caso, ainda tínhamos a vantagem de tocarmos o mesmo instrumento, a bateria. Foi esse amigo que me apresentou uma série de bandas, mas sempre acabávamos falando sobre Jimi Hendrix. Em contrapartida, apresentei a ele o Charles Bukowski. Trocar figurinhas sempre foi um gosto nosso, e música, literatura e cinema estavam sempre presentes, não somente como citação de gosto pessoal, como fazemos ao curtir uma fanpage. Trocávamos discos, filmes e livros.

E coisas da vida da gente, obviamente.

Eu tenho uma dificuldade tremenda em fazer novos amigos. É preciso que a outra pessoa seja deveras dedicada para fisgar a minha atenção, e então, a mim. A maioria dos meus amigos o é há mais de uma década. Talvez seja uma questão de geração: eu gosto de conversar e não há celular que me distraia nessa hora. Em relação ao contato por meio de tecnologia, o e-mail ainda é o meu preferido. Eu gosto de escrever mensagens, porque elas me lembram das cartas que eu adorava enviar pelo correio. Para os amigos, elas costumam ser tão longas quanto as que eu enviava pelo correio. A rapidez da comunicação dos dias de hoje é muito interessante, mas quando se trata do amigo, do tipo em que a amizade sobrevive até às grandes pausas entre uma visita e outra, um telefonema e outro, uma mensagem por e-mail e outra, é necessário mais. Pode não funcionar para todos, mas para mim são as longas horas na sala de casa, batendo papo, concordando e discordando com o maior respeito. Um filme, um disco... Dois, três discos. A certeza de que a pessoa está li porque quer, assim como eu. Nada forçado, na conta da diplomacia ou da severidade de se cumprir agenda social.

Essa conversa por e-mail com esse amigo me fez refletir sobre as relações que construímos com as pessoas. Sobre o quanto – considerando as urgências contemporâneas - desejamos conhecer alguém define o como essa pessoa irá figurar nas nossas vidas.

Perguntei como ele estava. Ele respondeu que fazendo o possível para manter o coração batendo, que ele é incapaz de se habituar ao superficial. Que ele é do beijo e do abraço de verdade seja no final da mensagem ou na presença do outro. Essa honestidade sobre o afeto pelo outro demanda tempo, e não está escravizada pela mensagem visualizada e não respondida em trinta segundos, pela necessidade de registrar cada sorriso, pelo escancaro da intolerância mediante a diferença de opiniões e escolhas.

Afeto, meus caros, é trabalho contínuo. Ele até sobrevive à distância geográfica e às estações de metrô. Debruça-se em lembranças, mas daquelas que não se tornam muletas para o presente, e sim inspiração para o agora, para desancorar sorriso, libertar a conversa.

O quanto você quer conhecer o outro?

Eu quero o quanto capaz de manter o coração batendo e o espírito em deslumbramento.

Imagem © freeimages.com

carladias.com



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