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RUSIVEL E AS PASSEATAS - Final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 06 de abril de 2015) 


Agora, ao ouvir os televisivos convites para a manifestação - não os pichados em muros durante a madrugada ou em panfletos mimeografados – Rusivel sente brotar o patriotismo, começa a entender a democracia e cantarola o hino nacional.

Rusivel não gostava de política e ainda não gosta. Afinal, a vida o esfregou na política de maneira muito dolorosa. Tentava entender esse ou aquele episódio, mas sem sucesso. Nunca compreendeu esse negócio de esquerda e direita. Um amigo, metido a leituras, falou coisas sobre revolução francesa, jacobinos e girondinos sentados à esquerda e à direita no parlamento, mas isso confundiu ainda mais sua cabeça.

Menos ainda entendia a questão das cores: camisa vermelha, camisa da seleção, partidos azuis, partidos vermelhos, para ele eram apenas cores. É por isso que nenhuma ideologia inspirou a escolha da roupa para a manifestação. O manto sagrado, como ele diz, esteve presente nas grandes emoções de sua vida. A de hoje é a camisa número 3 da coleção flamengo 2015 – toda vermelha com escudo branco em cima do coração.

Um arrepio lhe percorre o corpo ao ver aquele mar de gente gritando palavras de ordem. Não parece perigoso. Não são cabeludos e desgrenhadas com cara de assustados. São famílias inteiras, sorridentes, levando os filhos às costas. É a polícia fazendo cordão para proteger, sendo aplaudida pelos manifestantes e tirando fotos com eles. Nada pode dar errado.

E lá vai ele com o peito estufado de orgulho flamenguista para sua primeira passeata como protagonista, e não como vítima. Nem notou os olhares atravessados e os gestos hostis. Estava de bem com a vida, e achou que aquelas roupas eram um desagravo ainda pelos sete a um da Copa.

O que não dava era pra resistir a uma camisa da seleção por aquele preço – e logo a número dez de Pelé, Zico e Neymar! No momento em que recebia a gloriosa, um manifestante mais exaltado rosnou-lhe gratuitamente:

- Mas que merda é você?

Rusivel pensou que era algum vascaíno ou argentino despeitado. Estava feliz e nenhum raivoso ia estragar o seu dia. Vestiu a camisa por cima da vermelha e ganhou de brinde uma bandeirinha do Brasil.

Longe de ser um provocador, mas perto de alguns provocadores, Rusivel, com camisa vermelha aparecendo por baixo da canarinho, não precisou abrir a boca para atrair impropérios.

- Esse cara é infiltrado! É traidor! É bolivariano! – acusaram alguns.

- Isso não me engana. É coxinha, golpista disfarçado! – responderam outros.

Os xingamentos viraram empurrões e bandeiradas, socos e pontapés. A gloriosa camisa dez foi rasgada porque aquele comuna não merecia vesti-la. A polícia militar, que tinha lá suas preferências, não reconheceu naquele maltrapilho ninguém que merecesse ser protegido. E o cassetete cantou solenemente nas suas costas.

Mancando, com um galo na cabeça e as costas ardendo, Rusivel escapou de sua segunda passeata em 40 anos. E se foi, lembrando da infância e das sábias palavras de sua vovozinha:


- Quem procura o que não guarda, quando acha não conhece!

Comentários

Zoraya disse…
hahaha, qta maldade para com o ingênuo e desavisado Rúsivel, Albir! Depois fala de mim! Ri muito, bem escrito como sempre, ne?

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