quarta-feira, 8 de abril de 2015

O DIA EM QUE MORRI >> Carla Dias >>


Um dia como qualquer dia outro. Eu faço quase as mesmas coisas de ontem, anteontem. A rotina não me aborrece, dou-me bem com ela, mesmo quando ela exige que eu pratique o lidar com o que não me apetece.

O tempo se arrastando me aborrece, que mesmo quando ele abarca felicidade, perde o brilho na sofreguidão de ter de repetir lembrança para alimentar contentamento. É como se a minha memória sofresse de esquecimento. A felicidade desbotada, de tanto uso, desilude-me amplamente.

Há tempos não me perguntam sobre o que me faz bem. Eu mesmo perdi o talento de discursar a respeito. Perguntas fazem parte da minha lida, requintam minha existência. As respostas são uma centelha de fascínio, que minha alma mastiga por segundos, antes que ele se desvaneça.

Se me perguntarem, serei honesto ao responder que a minha história é de enredo sem pontos de virada. Pouco acontece na minha biografia e preencher o tempo é o que mais me dá trabalho. Há dias em que leio, em outros, eu caminho sem hora para voltar. Já aconteceu de eu me sentar em lugar qualquer e gastar tempo esperando o inesperado. Estava certo de que algo aconteceria e me exasperaria de tanta novidade. Horas depois, caminhei de volta para casa, o corpo necessitado de se deitar, o estômago zunindo fome.
Já me perguntaram sobre o dia mais importante da minha vida. Veja bem, que já são mais de quatro décadas de vida. Ainda assim, foi fácil responder: foi o dia em que eu morri. Não do jeito que você está pensando, tampouco de forma poética.

De antes desse dia, de nada eu me lembro. Dizem que eu era um rapaz engajado, acostumado às festas e celebrações, com fortes laços familiares. E amava a moça de três casas adiante da minha, que meu casamento era um acontecimento aguardado como costumava ser o Natal.

Então, eu morri.

Quando voltei, a morte havia roubado de mim a consciência sobre o que, até então, era importante para mim. Eu me tornei aquela tela em branco que as pessoas gostam de citar ao mencionarem recomeços. No meu caso, foi começo mesmo.

Desde então, a rotina me mantém no ritmo. Laços familiares e seus nós, conviver com quem não conheço, porque eles me conhecem e sabem quem eu sou e o que desejo... Se isso ainda fosse verdade, mas não.

Aos poucos, tornei-me esse fantasma vagueando pela cidade. Minha mãe ainda insiste, chamando-me filho, mesmo eu não atendendo. A moça com a qual casaria se mudou da cidade, que não suportou tal abandono.

Preencher o tempo ainda é um desafio. Imagino até quando, se haverá o dia em que, sem que eu perceba, haja uma história que seja a minha.

Imagem: Riding With Death © Jean-Michel Basquiat

carladias.com



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3 comentários:

Zoraya disse...

uauauau, hein, D. Carla? QUE BELEZA de história, texto, tudo!

albir silva disse...

A gente rejeita a morbidez em princípio, depois vai reconhecendo o zumbi nosso de cada dia.

Carla Dias disse...


Zoraya... Obrigada, minha cara!

Albir... Exatamente...