sexta-feira, 3 de abril de 2015

DISCURSO OU PERCURSO: QUAL É A SUA PEDAGOGIA? >> Paulo Meireles Barguil


Afinal, como o Homem aprende?
 
Nos primórdios, quando éramos poucos e vivíamos em bandos, aprendíamos o necessário na convivência: vendo, sentindo, ouvindo, falando, fazendo e registrando.
 
O desenvolvimento de habilidades acontecia com todo o corpo, num processo dinâmico e interativo.
 
Diante de um mundo repleto de mistérios, incertezas, belezas e ameaças, a Humanidade desenvolveu várias formas de interpretá-lo — Arte, Ciência, Filosofia e Religião — e expressar o elaborado.
 
Nessa jornada, ampliamos exponencialmente os nossos saberes, com algumas pessoas ocupando, em variados espaços-tempos, diferentes papeis na divulgação do sabido: ancião, pajé, professor, sacerdote...
 
O saber instituído nos possibilita poupar tempo e vida, mas, também, é capaz de nos privar de espaço, aventuras e descobertas.
 
O conhecimento pode ser usado para tentar nos controlar, sufocar ou nos convidar à expansão.
 
A realidade, contudo, não é apreendida diretamente pelo Sistema Nervoso Central, via informações recebidas pelos nossos sentidos, mas por intermédio de complexas atividades simbólicas.
 
Um signo é composto de significante — é de domínio público (por exemplo, o nome das letras, dos algarismos, das formas geométricas, das notas musicais...) e pode ser ensinado, em virtude da sua natureza arbitrária — e de significado — é constituído por cada pessoa (a compreensão e a degustação da sonoridade e do registro da Língua Materna, da Matemática, da Música...), num processo de mediação social, onde a atividade do sujeito é imprescindível.
 
As revoluções epistemológicas ocorrem em virtude do questionamento do estabelecido e da alteração da capacidade de divulgar, mediante variadas tecnologias, convicções.
 
A crença de que vivemos numa sociedade do conhecimento é inadequada, seja porque informação é diferente de conhecimento, seja porque toda a História da Humanidade é caracterizada pela dilatação da compreensão do Cosmos.
 
Há bem pouco tempo, tínhamos a certeza de que a Terra estava no centro do Universo! 
 
Acreditávamos, também, que ele era bem menor do que é.
 
Esse exemplo, para mim, ilustra bem o quanto ignoramos!
 
Admito: não são poucas as pessoas que ainda acham que o mundo gira ao seu redor...
 
O excesso de informação não é suficiente para transformar a qualidade da vida do Homem, pois ele tanto precisa acessar boas fontes, bem como dispor de tempo para empreender as mudanças, internas e externas, necessárias.
 
Acredito, até, que a enxurrada de estímulos tem efeito contrário ao desejado, pois, sem o devido cuidado, ela nos distancia da nossa conexão com o Cosmos.
 
Bruner acredita que existem duas formas de se entender a aprendizagem: o “computacionalismo” — o Homem, tal como um computador, processa informações, as quais se apresentam a ele num código linguístico compreensível — e culturalismo — o Homem, como um ser simbólico, interpreta os fenômenos do mundo a partir de sua singular constituição, fruto do que vivenciou. 

Essas concepções geram práticas educacionais, na escola e fora dela, antagônicas.
 
No “computacionalismo”, o discurso de quem sabe e o silêncio e a inércia de quem ignora são as características dessa pedagogia, que se baseia na crença de que os aprendizes são tábulas rasas, vazias, ou seja, desprovidas de movimentos, sonoridades, sentimentos e pensamentos — saberes. Dessa forma, o que eles são é inútil e deve ser jogado fora...
 
Na escola, é responsabilidade do professor fornecer aos estudantes dados — significantes — para que esses executem os comandos cerebrais pertinentes e aprendam. 
 
No culturalismo, o sujeito e a sua realidade são o ponto de partida, o que coloca todas as pessoas em relativa igualdade, considerando a singularidade de ambos — indivíduo e contexto. 
 
É no percurso, portanto, que a ação educativa, seja escolar ou não, acontece, com a transformação, em ritmos ímpares, de todos os envolvidos, que se percebem aprendizes e, também, ensinantes.
 
No contexto acadêmico, é atribuição do professor instigar e acompanhar, mediante atividades diversificadas, o desenvolvimento integral de cada estudante, pois a compreensão — significado — de um mesmo acontecimento é única, considerando a especificidade pessoal.
  
Nas últimas décadas, a distância entre as formas de se aprender, fora e dentro da escola, aumentou consideravelmente, pois as Novas Tecnologias da Informação e Comunicação ampliaram, em qualidade e quantidade, o conhecimento elaborado pelo Homem e a sua difusão.
 
A permanência de ritos seculares na escola tem contribuído para que ela seja, cada vez mais, para muitos de seus agentes, um ambiente desagradável, inútil e, por vezes, hostil.
 
Paulo Freire denunciou a Educação bancária — na qual o conhecimento é “guardado” em gavetas pelo estudante, após a transmissão acrítica dos conteúdos pelo professor — e defendeu uma Educação libertadora, problematizadora — o conhecimento é entendido pelo estudante na sua dimensão histórica, contemplando a sua construção e a sua importância, e elaborando sentido sobre o saber instituído.
 
Nos multiplicamos, conforme orientação divina, e ocupamos quase toda a Terra, embora, por vezes, sem a atenção necessária!
 
Movidos pela compreensão de que a nossa morada aqui é finita e pela ousadia que nos caracteriza, já vislumbramos a colonização de outros planetas.
 
Em síntese: a Humanidade aprende porque, diante de um Mundo apinhado de segredos, tem a coragem de perguntar e buscar respostas.
 
O conhecimento, portanto, é fruto da interação desencadeada por um problema, um desafio, a vida.
 
Esse processo dura o tempo necessário para se encontrar uma solução considerada satisfatória e pode ser retomado a qualquer momento, quando os seus limites são descobertos.

Que esse meu discurso inspire o nosso percurso...
 
[Vestígios atávicos depois da chuva - 1934. Salvador Dali - 1904-1989]


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bom discurso sobre o percurso. :)
Ou bom percurso por meio do discurso. :)