sexta-feira, 10 de abril de 2015

WILLIAM, O ORDINÁRIO. PARTE II >> Zoraya Cesar



William escolheu uma noite de chuva. E que chuva, aquela, que se derramou num grande clichê cinematográfico, cheia de trovões, relâmpagos, rajadas de vento frio. Ele tremia de excitação. O tempo oferecia a situação ideal para se aproximar de uma mulher, talvez oferecer-lhe ajuda e, quem sabe, perpetrar o seu intento.

Preparou o chá da velha mãe, como sempre fizera. Ou não, não exatamente. Dessa vez, colocou uma dose extra de calmante. Pelos seus cálculos – e ele se orgulhava de seus cálculos perfeitos -, ela dormiria direto até bem tarde da manhã seguinte. Esperou que a bebida fizesse efeito, e saiu.

Andou pelas ruas quase vazias até encontrar o ponto de ônibus que lhe convinha. Pagou em dinheiro, para seu RioCard não ser rastreado, e sentou-se atrás, a fim de ter uma visão privilegiada. Havia ainda muitos passageiros, apesar do horário tardio, era só esperar para escolher. E, enquanto esperava, pôs-se a resolver complicadas equações contábeis, tentando se acalmar.

William estava nervoso. Afinal, seria sua primeira vez.

A PRIMEIRA VEZ - Finalmente, ele a viu. Uma mulher magra, de aspecto pobre e ar cansado, levantou-se para saltar, sozinha, naquele lugar deserto, mal iluminado, perfeito. William, rapidamente, passou-lhe à frente, não fosse ela suspeitar daquele homem dentuço, de óculos, próteses que ele comprara para mudar sua fisionomia, conforme aprendera nos manuais de disfarce que procurara na internet.

Desceu ele, desceu ela, amiudada frente à violência do frio e da chuva. Ele não se abalou, protegido que estava em seu impermeável, um dos melhores do mercado (ele se regozijou, não passara semanas se preparando à toa).

A mulher caminhou para um lado, William seguiu alguns passos para o outro, como última precaução, para não deixá-la em estado de alerta. Poucos metros depois, ele correu em sua direção, seus sapatos especiais silenciosos, seus passos inaudíveis.

A refrega foi rápida, e a mulher, magra, cansada, pega de surpresa, não teve chance com o homem mais forte que ela, mais senhor de si, mais imbuído de um propósito. Ele catou dinheiro e documentos de dentro da bolsa, que largou junto ao corpo.

Durante o período que levou se preparando para o grande momento, William percorrera incontáveis vezes diversos percursos, gravando em sua memória quase fotográfica todos os meandros, desvãos, becos, saídas estratégicas. Evadiu-se pelas ruas desertas, onde não havia almas outras que não as penadas.

Ao chegar em casa, queimou os documentos e o dinheiro tirados da vítima e vomitou violentamente, as pernas bambas, o corpo trêmulo, numa espécie de reação retardada à toda excitação. Tomou banho, lavou a roupa, os sapatos, as luvas. Mas não dormiu. Passou a limpo cada detalhe, procurando falhas, e rememorando, prazerosamente, a sensação da mulher estertorando em suas mãos, frágil, indefesa, morta. O poder, oh, o poder absoluto que sentiu inflamar seu sangue, ele também poderia ter morrido lá, de puro êxtase.

Amanheceu febril e, pela primeira vez em todos aqueles anos, faltou ao trabalho. Pelos dias subsequentes comprou todos os jornais, procurando por notícias. Encontrou apenas uma pequena nota, num desses periódicos da imprensa marrom, que só publica as desgraças ocorridas com gente pobre e desassistida. A polícia não tinha pistas e cogitava num latrocínio. E nada mais foi publicado sobre o assunto.

William nunca se sentira tão pleno, tão seguro, tão... feliz.

A VIDA CONTINUA – Os dias passaram sem que nada acontecesse.

Era outro homem. Tinha um segredo, um segredo incomum, que o fazia sentir-se superior àqueles que o cercavam. Os colegas notaram que ele, embora continuasse caladão, estava mais afável, comparecia aos encontros sociais. Andava, agora, ereto, a cabeça erguida, um semi-sorriso flutuava constantemente em seu rosto.

Não se incomodava mais com o cotidiano vulgar, o trabalho monótono, a mãe andando molambenta de lá pra cá dentro de casa, a solidão, nada. Preenchia-o a memória daquela noite, à qual afagava como a um ente querido.

Até que isso começou a não lhe bastar. William queria mais que uma memória. Queria uma vida diferente.

UMA VIDA DEDICADA À MORTE – Decidiu, então, que aquele seria seu hobby, sua razão de viver, seu segredo formidável. Começou a planejar outra caçada, nos mesmos moldes da primeira, que dera tão certo.

A noite perfeita chegou – chuva torrencial, vento, raios e trovões. Outras noites perfeitas chegaram, e William aproveitou-as quase todas, sempre cuidadoso, sempre meticuloso, sempre bem sucedido. Por bem sucedido, entendamos, mulheres mortas e a polícia pensando tratar-se de latrocínios isolados, jamais a atuação de um serial killer, que isso era coisa de filme americano.

Da segunda vez em diante ele não teve mais febre, tremores, vômitos. Chegava em casa e dormia, exausto e feliz.

O tempo passou, o clima mudou e as noites de chuva rarearam. William acompanhava as previsões meteorológicas, impaciente, quase desesperado.  Não podia deixar sua vida voltar a ser o que era.

Resolveu que esperaria por mais uma noite de chuva e, depois, tiraria um período sabático. Talvez até mudasse seu modus operandi, ponderou, antes que a estúpida polícia fizesse alguma ilação que o pusesse em perigo. Descansaria por alguns meses, estudaria novos métodos de perseguição, novos trajetos, aprimoraria suas técnicas. Estava tudo na internet, era só estudar, ter método. E William era muito metódico, isso ele era. Tanto que não levava em conta o imponderável, o fortuito, o acaso.

Se tudo dera certo até então, pensava, não havia por que ser diferente. Ele se sentia confiante, seguro de si, extraordinário.

A terceira e última parte será publicada no dia 24 de abril







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9 comentários:

Anônimo disse...

O tipico "psicopata brasileiro idiota" e que se acha!
Vai ser pego facilmente, e em pouco tempo, hehehe...

Ana Luzia disse...

deixa Felipe Espada entrar na história....

William, William, ainda dá tempo de procurar uma academia de yoga e se iluminar!

Clarisse Amador disse...

Miga, adorei o "amiudada frente à violência do frio e da chuva". Estou ansiosa pelo 24 de abril, hein?

Cristiane disse...

Que medo! Adorei o suspense... aguardo o próximo capítulo!

Escurisse Profissional disse...

Com ou sem Espada entrando (êpa!) na história, nunca mais vou confiar em ninguém com um semi-sorriso flutuante zô-iando pra mim.

erica disse...

Pagou em dinheiro pro seu RioCard não ser rastreado?! Quase morri de rir quando li isso. Tipico psicopata pobre e pior: carioca! Fala sério Zorayaaaaa que pobreza... Podia ser um psicopata londrino pelo menos né? Kkk

Anônimo disse...

Tem muito disso por aí. A gente é que não sabe, os jornais não falam nada. To esperando pra ver como isso vai acabar.
Miriam

albir silva disse...

Se William soubesse como sofrem os seus vilões, trocaria de hobby enquanto é tempo.

aretuza disse...

cadê o Felipe Espada?????!!!!!!!!