Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Maio, 2010

MAIS DE TRINTA >> Albir José Inácio da Silva

“Não confie em ninguém com mais de trinta anos”
Marcos e Paulo Sérgio Vale

Fui jovem por muito tempo e ainda não me acostumei às vantagens e conquistas da velhice. A velhice tem avançado muito nos dois sentidos, ficando mais velha e conquistando coisas. O que ainda atrapalha é a inveja.

O cabelo branco, que alguns consideram problema, é na verdade uma vantagem. Primeiro porque, se está branco, é porque há cabelo. E segundo, porque é ele que abre as portas para outras vantagens.

Uma dessas vantagens é a prioridade no atendimento dos bancos. Isso garante, além da companhia de muitos outros idosos, o ódio dos não idosos. Algumas agências têm agora um cercadinho com cadeiras, nunca suficientes, que tem causado desarmonia entre os da mesma idade. Os outros, invejosos, chamam esses lugares de “Corredor da Morte”, “Vestibular de Cemitério”, “Último Saque” e “Encerramento da Conta”.

Outra conquista importante são os descontos em eventos culturais. Estamos lotando …

QUESTIONÁRIO >> Eduardo Loureiro Jr.

Antes de ir direto ao ponto desta crônica, que é a Questão 3, vamos fazer primeiro um aquecimento, alías dois: duas aberturas, duas introduções, dois aperitivos, dois antepastos, duas submesas, duas enrolações enfim.


QUESTÃO 1
Quando alguém tem "outra alternativa", quantas possibilidades de escolha ele tem à sua disposição?
a) 1
b) 2
c) 3
d) 4

Se você respondeu a), você é um pessimista ou um dogmático, que pensa que não há saída ou que as coisas só podem ser feitas de uma maneira.

Se você respondeu b), está precisando estudar um pouco mais de português.

Se você respondeu c), você está certo, mas não espere elogios por isso, afinal a resposta é óbvia.

Se você respondeu d), você é um lunático ou um otimista, que não tem familiaridade nenhuma com números ou que acredita que aquele que já tem receberá ainda mais.


Gostou? Quer brincar novamente?
Não gostou? Quer uma nova chance?
Vamos lá...


QUESTÃO 2
Quando alguém tem "outra escolha", quantas alternativas ele tem?
a) 0

DE AMORES E TRAIÇÕES [Debora Bottcher]

Não: ninguém perdeu a festa porque o amor é uma comemoração cotidiana, para a qual a gente tem que estar antenado todo o tempo.

Eu me lembro de ter escrito um texto antigo, certa ocasião, dizendo que todas as histórias de amor são iguais.

Essa é uma afirmação que pode causar espanto num primeiro momento, mas se a gente vasculhar os casos de amor à nossa volta - só à nossa volta -, vai ver um sem-número de repetições, ainda que variadas em ordem e conteúdo.

Se encontros podem ser únicos - e o são -, desencontros parecem uma trilha que nunca se cansa de atravessar nosso caminho. E como é difícil desviar dos entraves, driblar os contratempos, continuar inteira dia após dia, (re)conquistando a cada amanhecer a mesma pessoa!

E quando alguma coisa deixa de fazer sentido, não tem como não causar sofrimento na ruptura - eu acho que nunca soube de duas pessoas que se separaram em igualdade de sentimentos; sempre um dos dois ainda ama, ainda gostaria de continuar, de tentar mais uma vez...

GAMBITO >> Leonardo Marona

Disseram-me pelo telefone que eu deveria procurar um sujeito chamado Campos. Quando cheguei à livraria, vi que era ainda cedo demais, meu estômago fazia sons estranhos, então fui dar uma cagada. No banheiro percebi que estava com umas olheiras enormes, meu intestino não ia nada bem, mas eu fingi que ia tudo bem. Saí do banheiro, entrei na livraria e me dirigi a uma guriazinha muito magra com mau hálito e gânglios no pescoço, em pé atrás de um balcão, sustentando um sorriso postiço:

- Preciso falar com o Campos – eu disse a ela.

- Você veio para a dinâmica de grupo?

- Acho que sim.

- Suba até o auditório e espere.

Subi até o auditório e lá encontrei alguns rostos querendo parecer calmos. Dois ou três homens com cabelos em forma de cuia e ternos justos de veludo, fumando cigarro. No mais eram umas dez mulheres, todas arrumadas como se tivessem apenas aquelas roupas, todas parecendo mulheres duras e fatais capazes de tudo. Aquilo era parte do processo seletivo, na certa, mas como era ced…

O CADERNO DO IVAN >> Carla Dias >>

Eu estudei com o Ivan no colégio e passei muitos anos sem saber sobre ele. Mas graças à internet eu o reencontrei virtualmente. Isso me fez pensar em uma época que eu não revisitava há muito tempo.

A escola não foi fácil para mim. Uma das minhas amigas de intervalo para o lanche vivia pedindo para eu falar mais alto. Eu realmente não falava, mas sussurrava de tão tímida. Era um problemão que hoje é um problema, porque se eu me torno amiga de uma pessoa, falo pelos cotovelos. Mas se não a conheço... E claro que isso dificulta a minha vidinha mais ou menos, já que eu tenho de conhecer pessoas para poder me tornar amiga delas.

Poucos foram os amigos que fiz na escola e de muitos deles eu não tenho notícias há décadas. Mas daqueles com quem ainda mantenho contato, alguns são muito presentes, e acabam trazendo de volta lembranças que não estão disponíveis em mim.

Em uma dessas viagens ao passado, voltou-me à memória a paixãozinha secreta e completamente platônica que eu cultivava por um gar…

SÓ CASO SE FOR VIRGEM
>> Eduardo Loureiro Jr.

Esta crônica é baseada em fatos reais, mas alguns detalhes são inventados.
Foi há 12 anos. Ele tinha 29. Ela, 17. Ele, um pequeno empresário em ascensão. Ela, ganhadora de concursos de beleza. Casamento marcado. Festa preparada com quilos de capote, galinha, carne, arroz e feijão. Data agendada no pequeno cartório da cidade. Mas ele, o noivo, não apareceu.
Ele e ela se conheceram por intermédio de uma prima dela, hoje arrependida de tal cupidez (com duplo sentido). Foi num show de forró. O nome da banda: Noda de Caju. "Nódoa de caju não sai de jeito nenhum". Poderia ser indicativo de uma união eterna, mas foi só um processo que correu na justiça por anos. Resultado: ele deverá pagar a ela 10 mil reais.
Véspera do casamento. Motel da cidade. Ele dá pequena propina para o porteiro. Ela é "de menor". Ele, ansioso, não podia esperar pelo dia seguinte. Ela, nervosa, quer conversar. Ele diz que podem conversar depois. Ela insiste. Ele acata. "Não sou mais virgem"…

PORTO ALEGRE REVISITED >> Leonardo Marona

Devemos nascer em algum lugar apenas para nos livrarmos dele. Nem a sombra de Mario Quintana... Tua praça está fechada com tapumes, tua estátua mal-feita de bronze – e tanta ternura tinha aquele objeto mal-resolvido! – serve apenas aos pombos e pedreiros viciados em craque. Há qualquer coisa que se arrasta pelo centro. A praia da Rua da Praia inundou, e os camelôs miram com certa alegria débil a própria ruína espacial, derramada em mijo quente e amarelo. O teu centro cultural são banheiros arejados com cheiro forte de urina velha, e a luz do sol que embeleza a cena é como a luz do sol que entra pelas frestas das prisões abarrotadas. As pessoas andam nas ruas e não pedem nada. Aceitaram a fome antiga das tradições européias, e a decrepitude só assusta aos que vêm de muito longe. Andam famintos, escorados nos postes, as rugas representam rios secos, e não pedem nada, alguns sorriem. Teus passarinhos, velho poeta, foram abatidos em pleno vôo. Restam as famílias fragmentadas e a expectati…

A VARANDA >> Carla Dias >>

Eu queria viver na casa do personagem daquele filme só para poder ver o sol nascer da varanda dele. E para poder caminhar pelas manhãs, redescobrir o sol, a claridade. Dar um tempo nesse ser noturno no qual me tornei e que, apesar de me agradar, também precisa sair para passear com a cara cheia de protetor solar, chapelão e sandálias nos pés. Sorrindo daquele jeito que raramente sorri.

Não quero ser o outro... Quero apenas aproveitar o cenário. Aquele lugarzinho no qual o personagem do filme caminha, os braços soltos ao longo do corpo, como que desmaiados, entregues. E ele pensa em tantas coisas que até parece que a cabeça vai explodir. Mas daí que vem o close, o suspiro de quem alcança a saída e ele descobre uma porta secreta para um mundo secreto de leis tão secretas que nem ele sabe se sobreviverá à aventura.

E se eu pudesse ter os adjetivos que o autor concedeu ao personagem, também tocaria o piano. E beberia uma taça de vinho, dançaria sozinha na sala as canções que são de amor e d…

SMSS >> Eduardo Loureiro Jr.

A paz mundial virá pelo futebol.

Essa semana, o Dunga — que muitas vezes parece mais o Zangado — convocou os 23 jogadores brasileiros que vão à Copa do Mundo da África do Sul. Considerando o grande número de bons jogadores que temos e o fato de que cada torcedor brasileiro é um técnico amador, Dunga conseguiu desagradar a muitos que queriam antigos (Ronaldinho) e novos (Neymar e Paulo Ganso) na seleção.

Dunga está certo. E nós estamos certos. Um técnico não tem como nem deve se preocupar em agradar todo mundo. Ele é o responsável, ele escolhe, ele recebe os louros, ele paga o preço. Mas nós, que só damos pitaco, também temos nosso direito, já que a seleção é brasileira, e não dungueira.

Se serve de consolo, não se trata de um problema apenas nosso. Mundo afora, na Argentina, na Itália, na Espanha, nos Estados Unidos, no Japão, os técnicos também estão excluindo jogadores que, se dependesse do povo e da imprensa, iriam à Copa. Como a FIFA, órgão responsável pelo futebol no mundo, tem m…

LONDRES NA ALMA [Debora Bottcher]

Pensei esses dias sobre o livro de Virginia Woolf, que li há algum tempo - Mrs. Dalloway (a história que deu inspiração ao filme As Horas). Gosto muito da literatura inglesa apesar de reconhecê-la um pouco densa e exagerada em detalhes. Além do que, as descrições literárias quase sempre dão conta de uma Londres imutável, chuvosa e sombria - como se todos os cenários só pudessem ser assim: céu escuro, dias cinzentos, as tardes misturadas nas noites de paredes e ruas de pedras.

Pouco importa que não mais seja assim na realidade - afinal, modernizaram-se! -, mas quem imagina Londres com sol aberto, flores coloridas e pessoas sorridentes? Tudo muito formal - as faces, os tons, as vestes, a vagarosa pressa, uma contradição! Como se tivesse sido cristalizada no século passado, cem anos de atraso apesar de sua muita evolução.

Lady Di (a linda Princesa de Gales), quando despontou pelos palácios, soou-me como o símbolo de um novo tempo para essa gente sempre muito séria, de ar e gestos estuda…

CLARICIANA >> Leonardo Marona

Acredito que na raiva somos honestos, e apenas. Acontece que, quando somos honestos – vejam que contraditório – somos em demasia. É o que nos dizem com os olhos: “São em demasia”. Ser em demasia é uma depravação, quase uma apropriação indevida, um luxo adquirido por um assassinato a facadas. Entende-se, portanto, que ser honesto é uma depravação.

Andamos nas ruas à procura de um tombo que nos faça apaixonar por algo: já não cremos na dureza da evolução vertical. Mas no fundo sabemos: os espaços estão acabando, estamos sendo espremidos nos cantos das mesas, e precisamos tomar nossas cervejas escondidos atrás de gigantescos chapéus retóricos. Esse romantismo fora de moda, essa inclinação vexaminosa ao perigo da ternura gratuita, os choros enquanto assobiamos antigas canções que não nos lembram nada, não importa muito de onde trouxemos tal bagagem: estamos cegos e seguimos em direção ao sol amargo da desconfiança.

Um homem deve-se perguntar: o autoconhecimento deve necessariamente repres…

IMAGINE SÓ... >> Carla Dias >>

Depois de um longo tempo vivendo dentro de mim, resolvi sair para passear.

Primeiro, dei de cara com as coisas que nunca soube decifrar. Fiquei olhando, não apenas atenta, mas boquiaberta com a variedade de interpretações sobre o mesmo tema. Percebi que uns sabiam a vida como caleidoscópio e dele usufruíam as cores, vivendo numa felicidade enfeitada, onde se aglomeravam falseadas levezas, mas que desempenhavam bem o seu papel de amansadoras de inquietações.

Adoro as canções que nos engolem. Às vezes é somente uma pausa assoprada na melodia ou um tom irrequieto instigado pela harmonia desabrochando aquele aperto no peito, o sorriso pasmado de quem foi pego no pulo e não soube fazer mais do que rir de si e para si.

Eu não sei compor canções, mas virei expert em redigir obituários, dando à morte dos meus sonhos um ar de cinema noir e garantindo algumas ressuscitações.

Eu sorrio à toa para os fogos de artifício.

Eu elaboro silêncios.

Eu construo fantasmas.

Eu tenho medo das coisas que têm medo d…

MÃES, FLORES E FOTOGRAFIAS
>> Albir José da Silva

Com a mão no rosto do filho, quase coberto pelas flores, a mãe se desespera. Inconformados, três amigos do morto comentam:

— Ele ganhou de mim!

— Ganhou de nós todos.

— Ainda ontem a gente tava apostando quem é que ia primeiro.

Vi a cara confusa dos presentes ao velório com aquela conversa, mas eu sabia do que falavam. “Ganhar, ir primeiro” significava morrer. E morríamos aos bandos, como formigas, caindo dos trens.

As portas dos vagões não se fechavam nunca, ou porque estavam com defeito ou porque as pessoas as travavam. Dezenas de pessoas se amontoavam nas portas e milhares se apertavam no interior dos carros. Adolescentes e adultos formavam bolos de gente agarrados uns aos outros porque não havia onde segurar. Ninguém queria ir sozinho e quando um caía, levava mais três ou quatro. Alguns caíam de cima dos trens e outros das janelas, porque também se viajava agarrado apenas às janelas. Era comum ver cadáveres ao longo dos trilhos. No trabalho, as pessoas comentavam displicentes:

— H…

COLO, COMIDA E CONSELHO
>> Eduardo Loureiro Jr.

Mãe só tem uma, embora eu tenha muitas. Dar à luz uma criança é suficiente para se tornar uma mãe, mas não é necessário. Para que se seja mãe basta dar colo, comida e conselho.

O espaço da maternidade é o colo, o aconchego dos braços. Mãe que é mãe dá esse abrigo no peito, que é uma abreviatura da casa, que é uma miniatura do mundo, que é um holograma do universo. Mãe dá ao filho esse lugar de descanso. Filho tem para onde retornar quando a situação aperta, quando a vida nos faz sentir pequenos, medrosos, acuados. Colo de mãe é consolo, companhia na solidão. Colo é cadeira de balanço, é varanda de casa de praia, é banco de pátio, é quarto de hóspedes. Colo é a lembrança de que um dia se mamou no peito, essa extensão do grande coração que a mãe carrega dentro.

Do colo, pelo cheiro, vem a comida. Criança, que mama no peito, quando cresce come na mesa sempre posta, troca o leite pelo baião-de-dois, pela tapioca, pela sopa, pelo bolo de sal; e, quando necessário, pela garapa, pelo xarope…

DEDOS AMARELOS >> Leonardo Marona

para Camila, com amor

O dedo amarelo é o signo desta uma nação juvenil. Rapazes e moças que levam o peito nos sapatos e conhecem as entranhas de uma repartição argentina. As esquinas dobraram ao meio as sacadas do espírito e, sem entender nem língua nem a caralha de livros que nos dispomos a ler, seguimos as mudanças hormonais em busca do feto fresco, os dedos amarelos de cigarros mal-dormidos e às vezes essa fúria tão calma nos olhos amplos. E quantos olhos temos agora, Major Tom, e há quanto tempo não víamos, com tantos olhos, a nossa terra natal? Viemos para correr às pressas rumo à semente duvidosa, somos da folha mais branda, a tal capaz de enlouquecer ao vento. A mais leve, de maior movimento. A cruz que carregamos nos incomoda apenas como um belo quadro: somos apegados às belezas mitológicas. Sorrimos e amamos, e somos repletos da mais alta mudez. Nossos olhos dizem muito, a boca faz o desserviço de acumular siglas e apelidos carinhosos em russo. Por entre as entranhas ainda per…

SENHA 456 >> Carla Dias >>

Fui ao cartório eleitoral fazer a transferência de endereço do meu título e, claro, como qualquer pessoa que tem o mau hábito de deixar tudo para a última hora, amarguei muitos números antes de a minha senha aparecer no painel eletrônico.
Então que ouvi conversa alheia, porque era um lugar bem pequeno, e fiquei indignada mesmo com a fila preferencial, que andava mais devagar do que a sem preferência. Fora isso, o meu espírito acompanhava o que uma mulher bradou, depois da reclamação de um senhor que foi embora muito bravo com a demora no atendimento:
- Não tem nada que reclamar! Espera para fazer tudo na última hora, então precisa aceitar as coisas como são, uai!
Eu não poderia deixar de citar o “uai”, porque tenho um pezinho em Minas Gerais, e sinto certo afeto por ele... Uai.
A mãe de um bebê, fofo que só, que o tempo todo apenas sorria e dava gritinhos daqueles que fazem adultos se desmancharem, contava às novas amigas de espera de cartório que ele era o terceiro dela, que já tinha um …

INQUÉRITO >> Eduardo Loureiro Jr.

Este cronista foi aconselhado, por seus advogados, a permanecer em silêncio.

Mesmo a acusação sendo a de que o cronista não está fazendo nada quando deveria estar fazendo alguma coisa, o cronista permanece em silêncio, sabendo que corre o risco de ter a acusação duplicada: "O cronista é culpado de não fazer nada para se defender da acusação de não fazer nada, o que comprova, obviamente, sua culpa em primeira e segunda instância".

Mesmo correndo o risco de desacato à autoridade, este cronista permanece de boca fechada e fones no ouvido, escutando Boca Livre e seu maravilhoso disco Dançando Pelas Sombras. Porque o cronista acha a luz artificial muito quente e incômoda, e prefere a luz indireta, o dilatar das pupilas para ver no escuro.

Mesmo sabendo que sua atitude não leva a nada, que está sujeito a ser condenado, preso e encarcerado, que a saída é a porta principal, este cronista se recusa a entrar no jogo da justiça sem justiça. Um homem tem o direito de não fazer nada, pen…

IMAGENS NA PRAÇA, IMAGENS DA CIDADE [Ana Gonzalez]

Já tinha resolvido a questão que me levara ao centro, já tinha visitado um sebo e comprara três livros, já estava comendo um delicioso biscoito salgado de mandioca. Ia para casa, contente de tudo dar certo e o tempo estar bonito, com sol e azul no céu. E ainda um feriado à frente.

Passava pela Praça da Sé, quando uma cena me chamou a atenção. Um casal de namorados sentados de frente um para o outro num banco, se olhavam, riam e se abraçavam. Parecia que não havia mais ninguém na praça. Mas eu estava lá com minha memória de uma cena assim. Essa cena eu já vivi, pensei. Já tinha sentido a proximidade de alguém num parque com verde e bancos. Era como se não houvesse mais ninguém.

Talvez os brilhos daquela época fossem diferentes dos que há nas águas dos espelhos desta praça. Nem o barulho da água que cai num pequeno véu de cerca de metro e meio é igual. Nem os pássaros, inúmeros, nem as nuvens do céu refletindo o brilho do sol agora atrás dos prédios. Passado e presente se misturam em …