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LONDRES NA ALMA [Debora Bottcher]

Pensei esses dias sobre o livro de Virginia Woolf, que li há algum tempo - Mrs. Dalloway (a história que deu inspiração ao filme As Horas). Gosto muito da literatura inglesa apesar de reconhecê-la um pouco densa e exagerada em detalhes. Além do que, as descrições literárias quase sempre dão conta de uma Londres imutável, chuvosa e sombria - como se todos os cenários só pudessem ser assim: céu escuro, dias cinzentos, as tardes misturadas nas noites de paredes e ruas de pedras.

Pouco importa que não mais seja assim na realidade - afinal, modernizaram-se! -, mas quem imagina Londres com sol aberto, flores coloridas e pessoas sorridentes? Tudo muito formal - as faces, os tons, as vestes, a vagarosa pressa, uma contradição! Como se tivesse sido cristalizada no século passado, cem anos de atraso apesar de sua muita evolução.

Lady Di (a linda Princesa de Gales), quando despontou pelos palácios, soou-me como o símbolo de um novo tempo para essa gente sempre muito séria, de ar e gestos estudados, a fala comedida. Mas quis o destino que lhe fosse reservada uma morte tão normal como a do mais simples mortal comum: um acidente de carro! A ironia cotidiana sempre me surpreende... E o glamour da Inglaterra perdeu-se novamente nas sombras... Não mais a proteção de um anjo de olhos azuis para mostrar ao mundo um tanto mais de sensibilidade além do espírito reservado de todo um país; não mais o destemor de afrontar a realeza para ser simplesmente mulher e gozar da liberdade disso depois de ser encerrada num castelo que, de contos de fadas, só tinha mesmo as torres.

Muito tempo antes, Virginia Woolf enlouqueceu pelas mesmas razões: a obrigação de ter de se comportar com tamanha rigidez quando tinha um pássaro, desejoso de voar, enclausurado dentro de si. Quando contou, nesse seu primeiro romance - considerado sua obra-prima -, um dia na vida de uma mulher - um único dia! -, abriu sua alma a todas as possibilidades de viver. Mas abraçar a morte, para algumas mulheres (por escolha ou acaso), parece ser a única maneira de ver-se livre de opressões e amarguras...

"Afinal, ela sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse..." (Virginia Woolf)

Quase nunca é fácil lidar com inquietações, afazeres cotidianos, a vida urgente ao nosso encalço, os questionamentes, nossas sombras... E, não raro, a gente chora - quieta e sozinha. E tem vezes que nem sabe bem por quê. Muitas vezes, é só porque o dia amanheceu do avesso e alguma coisa sai do eixo. Ou porque um amigo distante telefonou e contou da sua dor - nos lembrando de uma amargura que tanto se tenta esquecer. Ou aquela saudade de quem não se verá jamais - quem sabe, com sorte, em outra vida se ela existir.

Tem dias que são assim: um inverno em pleno verão. Ou um outono de acentuadas formas...

Ah! Sim... Agora estamos ante a estação das folhas que caem. Já viu? Os dias mais bonitos do ano moram nessa época. Tem um céu de azul profundo e nuvens brancas que se mesclam em muitas formas rodopiando com o vento.

E o vento? Gelado, mas quase sempre suave e calmo - como um pássaro de asas pálidas voando pra lugar nenhum (mas pode tornar-se apressado, de repente ventania, varre o mundo com sua fúria feito alma em desalinho).

Tem dias em que a gente se sente só - ainda que entre pessoas amadas. E queria poder explicar, a quem nos capta a angústia, que não é nada: é só um dia que não caiu bem - como uma Londres da paisagem de um filme ou da descrita no livro antigo que descansa na estante...

Comentários

Quer dizer que estou em Londres? Brigadim por ser meu GPS, Debora.
Juliêta Barbosa disse…
Débora,

A posse das letras em suas mãos, só nos traz encantamentos... Parabéns!
Carla Dias disse…
Sabe, Debora, eu adoro os dias cinza, os cenários melancólicos. Adoro dias claros e ensolarados, também, mas os cinza são os meus queridos. E confesso que minha vontade de conhecer a Inglaterra vem exatamente desse cenário sombrio. O que mais me seduz é a ideia de nele encontrar pessoas que são o contrário dessa coisa dita imutável. É me surpreender com a pluralidade que pode haver por detrás de tanta severidade. E o mesmo digo das pessoas... A densidade de cada uma, aqueles cantos que ninguém traduz. Somos sim um mistério ambulante, mas há esses dias – nem cinza e nem ensolarado – quando vivemos a leveza das coisas e dos nossos sentimentos.

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