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O CADERNO DO IVAN >> Carla Dias >>

Eu estudei com o Ivan no colégio e passei muitos anos sem saber sobre ele. Mas graças à internet eu o reencontrei virtualmente. Isso me fez pensar em uma época que eu não revisitava há muito tempo.

A escola não foi fácil para mim. Uma das minhas amigas de intervalo para o lanche vivia pedindo para eu falar mais alto. Eu realmente não falava, mas sussurrava de tão tímida. Era um problemão que hoje é um problema, porque se eu me torno amiga de uma pessoa, falo pelos cotovelos. Mas se não a conheço... E claro que isso dificulta a minha vidinha mais ou menos, já que eu tenho de conhecer pessoas para poder me tornar amiga delas.

Poucos foram os amigos que fiz na escola e de muitos deles eu não tenho notícias há décadas. Mas daqueles com quem ainda mantenho contato, alguns são muito presentes, e acabam trazendo de volta lembranças que não estão disponíveis em mim.

Em uma dessas viagens ao passado, voltou-me à memória a paixãozinha secreta e completamente platônica que eu cultivava por um garoto de outra classe. Ele era misterioso como aqueles meninos misteriosos que toda menina encontra, misteriosamente, nos pátios das escolas. Esse garoto, de quem eu nunca soube o nome, tinha uma tatuagem de uma teia de aranha no cotovelo. Era um charme, eu confesso.

Na sala de aula, eu me sentava atrás do Ivan, e da minha carteira eu o via rabiscar alguns desenhos. Uma vez ele me deu um que se perdeu, quase uma década depois - junto com meu exemplar do Pequeno Príncipe com mensagens de vários amigos e algumas fotos antigas -, quando me mudei de Santo André para São Paulo. Esse é o tipo de perda que algumas mudanças promovem.

Naquela época, era mais frequente eu escrever do que falar. Para agradecer o desenho e a amizade do Ivan, escrevi poemas em um caderno e dei de presente a ele. Nenhum poema deste caderno tinha cópia, ainda que na época já houvesse a boa e velha Xerox. A exclusividade dos poemas era a mesma do desenho, tanto que eu assinava e colocava a data de quando escrevia cada um deles. Comecei a escrever em setembro e terminei em dezembro de 1986.

No final de semana, eu coloquei alguns escritos em ordem, ao menos o que estava no computador, porque tenho muita coisa que ainda não digitei. Em meio a essa confusão de diretórios e formatos - o que fica e o que vai para a lixeira -, reencontrei o arquivo do caderno que escrevi para o Ivan, que ele me mandou, em Power Point.

Quando o Ivan me mandou o arquivo do caderno e eu o abri, vendo a minha letra de dezesseis anos de idade, de há quase 24 anos, bateu-me uma saudade tremenda da época em que eu ainda tinha sonhos que não eram planos ou projetos... Eram sonhos mesmo. E isso estava estampado na própria forma como eu me expressava através das palavras. Minha poesia ainda era pueril, mansa, cortejava a possibilidade de me apaixonar (não se esqueçam do moço com a teia de aranha tatuada no cotovelo), estava mais para as rimas do que para o desalinho e não tinha a ousadia que provoca a inquietação que tanto me atrai nos dias de hoje.

Eu sei que eu sou a pessoa que escreveu aqueles poemas, que criou aquele caderno tão cheio de afeto, dolências e vontades... E erros de Português, citações de letras de música em inglês com traduções péssimas, o que é bem engraçado de se ver, eu confesso. Ao mesmo tempo, aquela me parece uma pessoa tão distante que quase não a reconheci ao colocar os olhos nela.

Eu costumava escrever poeminhas nas lousas da escola. Na época eu assinava como Layla... Adorava o ipsílon e o apelido que minha irmã mais velha me deu. Mas então ouvi a música do Eric Clapton e me dei conta da pronúncia. Então, como não queria ser a Leila, passei a assinar como Laila. Depois fiquei com Carla mesmo.

Além da lousa e do caderno-presente para o Ivan, lembro-me de ter escrito muitos poemas para colegas da escola. Eles acabavam me incluindo na turma por conta disso, porque se dependesse da conversa eu estaria, como diria vovó, na roça. Mas laboratório fiz também no ginásio, quando escrevia cartas para os namorados das minhas amigas.

Veja só como a vida opera seus milagres cotidianos... O presente que dei ao Ivan, em 1986, tornou-se um presente que ele me deu, em 2010. Porque poder observar a mim naquela época, aproximar-me da pessoa que era aos dezesseis anos de idade, permitiu-me compreender que não precisamos observar nosso ontem assim tão de longe. Que é preciso termos intimidade com todos os EUS que nos cabem.

www.carladias.com

Comentários

Carla, fiquei lembrando aqui dos meus poemas queimados... Mais vale um Ivan do que o fogo. :)
albir disse…
Carla,
Não queimei nem entreguei ao Ivan meus versos, mas também não os guardei. E agora gostaria de me ler naqueles verdes anos. Abraço.
Carla Dias disse…
Eduardo... Você queimou? Eu joguei um monte deles fora. Lembro do saco de lixo de 100 litros onde coloquei os pedacinhos de papel rasgado.

Albir... A gente gosta de olhar para quem já fomos, não? É quase um vício...
Anônimo disse…
Que bom ter tido um Ivan na sua vida! Lembrei de umas cartas que recebi de uma amiga de Curitiba quando tínhamos esta idade. Dá uma história de amor de tantos sonhos que tínhamos. Vou reenvia-las para que ela possa recordar aqueles belos anos, assim como fez o Ivan com você.
É uma linda crônica!
Carla Dias disse…
As cartas também contam histórias fantásticas, não? Durante muitos anos mantive correpondência com grandes amigos, o que é sempre uma experiência ímpar.
Oliveira Simoes disse…
Oi Carla. Muita bacana o seu ensaio. Adorei ler as reflexões que você sobre o seu passado. Tenho a impressão de que muitos de nós não nos reconheceríamos se olhássemos para trás com olhar alheio. Interessante reflexão!
Carla Dias disse…
Oliveira... Obrigada pelo seu comentário. Acredito que somos capazes de nos reconhecer no passado, mas de forma seletiva. Acho que alguns eventos nos marcam e continuam claros dentro de nós, mas que muito se perde, também. Abraço!

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