Pular para o conteúdo principal

SÓ CASO SE FOR VIRGEM
>> Eduardo Loureiro Jr.

Esta crônica é baseada em fatos reais, mas alguns detalhes são inventados.


Foi há 12 anos. Ele tinha 29. Ela, 17. Ele, um pequeno empresário em ascensão. Ela, ganhadora de concursos de beleza. Casamento marcado. Festa preparada com quilos de capote, galinha, carne, arroz e feijão. Data agendada no pequeno cartório da cidade. Mas ele, o noivo, não apareceu.

Ele e ela se conheceram por intermédio de uma prima dela, hoje arrependida de tal cupidez (com duplo sentido). Foi num show de forró. O nome da banda: Noda de Caju. "Nódoa de caju não sai de jeito nenhum". Poderia ser indicativo de uma união eterna, mas foi só um processo que correu na justiça por anos. Resultado: ele deverá pagar a ela 10 mil reais.

Véspera do casamento. Motel da cidade. Ele dá pequena propina para o porteiro. Ela é "de menor". Ele, ansioso, não podia esperar pelo dia seguinte. Ela, nervosa, quer conversar. Ele diz que podem conversar depois. Ela insiste. Ele acata. "Não sou mais virgem", ela diz. Ele cala. Ela repete. Ele: "Mas nós namoramos faz três anos." Ela: "Foi antes". Ele: "Mas..." Ela: "Não queria que você..." Ele fez de conta que aceitou. Sem mais palavras. Guardaram as intimidades nas roupas e foram embora.

No dia seguinte, no cartório, ninguém entendia nada. Ela desconfiava. Ele estava numa cidade vizinha, num outro motel, desvirginando uma desconhecida pela qual pagou caro. Só voltou para casa à noite, embriagado. O pai dela veio tomar satisfação. Ele: "Sua filha não é mais moça". O velho calou-se e saiu.

Ele achou pouco. No dia seguinte, pagou para que saísse na rádio: "Só caso com virgem". Ela virou assunto na cidade. Ele se entregou à bebedeira. Gastou o dinheiro no álcool, no jogo e no advogado. Processo por danos morais. Perdeu. Recorreu. Perdeu de novo, agora de vez, por violar a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem da ex-futura esposa.

Hoje. Ela: médica solteira morando no Sul. Ele: motorista de ambulância e vendedor de churrasquinho nas horas vagas. Ela não precisa dos 10 mil. Ele não tem dinheiro para pagar a indenização. Ela, que não é Virgem, é Escorpião, sorri, vingada. Ele sai para o trabalho na mesma pequena cidade, vai levando com a barriga cheia de cachaça.

Comentários

Ana Lucia disse…
Bem feito... brigar por causa de um pedacinho de pele besta.. ninguém merece! hehehe! Um abraço, Eduardo!
Sonia Beth disse…
o dó, ninguém merece! kkk

beijocas
Anônimo disse…
Ui... que fria!
É por isso que morro de medo de casamento!
Casando ou não ele teria a barriga cheia de cachaça!
Cristiane disse…
Tudo em nome de uma tradição inventada. Como pode? A gente se pergunta nos dias de hoje. Podia e se fazia isto no mundo de dez anos atrás. Como as coisas mudaram. Ainda bem.
Meninas e anônimo, vocês me fizeram rir e sorrir. :) Grato,
Edilson disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
marcelo disse…
cara vc ta de perabéns, essa cronica
faz parte da nossa vida.....
Fico muito grato a te....OBG
Já passou por isso, Marcelo? :) Eu ainda não. Brigadim pela leitura e pelo comentário.
Anônimo disse…
Talvez o problema não tenha sido o pedacinho de pele arrancado e sim a mentira. Desculpem-me a grosseria, mas se não era mais virgem há uns 3 anos, por que não deu logo pro cara? Pq escondeu isso por tanto tempo? Na hora de casar ela resolve trazer revelar isso?! O cara foi enganado aquele tempo todo, coitado! Mulhjeres costumam ser tão cruéis,às vezes! Ela destruiu a vida do rapaz. Se tivesse falado desde o início da relação, talez estivessem casados hoje. Isso ta parecendo novela. ME empolguei. Me emocionei.
Parabéns, Eduardo.
Calma, Anônimo! Não é novela, é só uma crônica. :) Brigadim pela empolgação.
Anônimo disse…
Eu amei'
fikou muito bom para o trabalho de português que eu estou fazendo!
Legal, Anônimo. Volte sempre e divulgue entre seus colegas e professores.
Uau, muito bom! Que burro, poderia ter aproveitado a experiência, iria se divertir, por causa de um moralismo bobo, perdeu. Ah, homens (alguns)!
vanessa cony disse…
Eduardo,estou começando a escrever meu blog.Apesar de não ter formação,sou dentista,adoro ler e escrever.Gostaria que visitase meu espaço.
achoqueestoureflexionando.
Bj.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …