sábado, 29 de maio de 2010

DE AMORES E TRAIÇÕES [Debora Bottcher]

Não: ninguém perdeu a festa porque o amor é uma comemoração cotidiana, para a qual a gente tem que estar antenado todo o tempo.

Eu me lembro de ter escrito um texto antigo, certa ocasião, dizendo que todas as histórias de amor são iguais.

Essa é uma afirmação que pode causar espanto num primeiro momento, mas se a gente vasculhar os casos de amor à nossa volta - só à nossa volta -, vai ver um sem-número de repetições, ainda que variadas em ordem e conteúdo.

Se encontros podem ser únicos - e o são -, desencontros parecem uma trilha que nunca se cansa de atravessar nosso caminho. E como é difícil desviar dos entraves, driblar os contratempos, continuar inteira dia após dia, (re)conquistando a cada amanhecer a mesma pessoa!

E quando alguma coisa deixa de fazer sentido, não tem como não causar sofrimento na ruptura - eu acho que nunca soube de duas pessoas que se separaram em igualdade de sentimentos; sempre um dos dois ainda ama, ainda gostaria de continuar, de tentar mais uma vez...

Mas eu falo de não angariar mais uma dor com a traição. Não custa romper sem trair o sentimento do outro, sem quebrar totalmente sua auto-estima, sem aumentar sua indignação, sem lhe roubar toda crença no amor e na esperança.

Eu nunca traí ninguém, mas já estive do lado de cá. E não há dúvida: o susto, a incompreensão, a amargura, sempre se supera, mas não se esquece. E fica a marca, o medo da repetição, uma angústia por muito tempo... Confiar novamente é um processo árduo - nem só confiar no outro, mas em si mesmo. Esse eu acho que é o maior entrave da traição: ela esmigalha nossos valores pessoais, pisa na nossa segurança, além de jogar por terra nossos sonhos em relação àquela pessoa - e, às vezes, até no futuro.

Acho que trair não é bom pra nenhum dos envolvidos - e aqui incluo a terceira pessoa. Não sei, mas imagino que deva ser um tempo de sobressaltos, indecisões, mentiras - sempre mentiras -, e muita confusão emocional. É uma situação em que, normalmente, todos perdem e acho que o melhor caminho é conduzí-la com o máximo de transparência e verdade. Não deve ser fácil - até porque a coisa toda é bem complexa.

Bom seria se a gente pudesse viver sempre na confortável mansidão amorosa que pregou Lya Luft: "O casal perfeito talvez seja aquele que não desiste de correr atrás do sonho de que, apesar dos pesares, a gente, a cada dia, se escolheria novamente.”

Amém.

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5 comentários:

pensandoemfamilia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
pensandoemfamilia disse...

Olá
Bom texto para um tema tão complexo e de dificil reconstruçao da confiança mútua quando ainda há o desejo de nova tentativa de manter a parceria

sandra disse...

Débora querida,
que beleza essa sua reflexao! Gostaria de compartir do pensamento, que agora é seu, da Lia Luft, mas nao posso. Por que a dor começa de fato, na tragica descoberta que um ou outro nao faz a mesma escolha outra vez. Mesmo apesar de tudo.
E aquela cruel e fatal descoberta incluida em: gostaria de te olhar nos olhos e descobrir que nao me enganei. Isso se torna a maior das mentiras.
e a gente nao sabe o que fazer com mais essa.

Beijo carinhoso,

Sandra

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Boa reflexão, Debora. Eu já estive dos dois lados, e dói dos dois lados: uma dor doendo e uma dor doída. Melhor que não houvesse, mas, havendo, é possível recuperar e se recuperar.

Carla Dias disse...

Pois é, Debora... O amor é o mesmo, as versões são ímpares, a repetição é, na verdade, um salto de fé de que as coisas sairão como pensamos ser o melhor.Ainda assim, opto por acreditar, até que me façam desacreditar no amor e na pessoa a quem ele dedico. Acreditar é fundamental.