Pular para o conteúdo principal

MÃES, FLORES E FOTOGRAFIAS
>> Albir José da Silva

Com a mão no rosto do filho, quase coberto pelas flores, a mãe se desespera. Inconformados, três amigos do morto comentam:

— Ele ganhou de mim!

— Ganhou de nós todos.

— Ainda ontem a gente tava apostando quem é que ia primeiro.

Vi a cara confusa dos presentes ao velório com aquela conversa, mas eu sabia do que falavam. “Ganhar, ir primeiro” significava morrer. E morríamos aos bandos, como formigas, caindo dos trens.

As portas dos vagões não se fechavam nunca, ou porque estavam com defeito ou porque as pessoas as travavam. Dezenas de pessoas se amontoavam nas portas e milhares se apertavam no interior dos carros. Adolescentes e adultos formavam bolos de gente agarrados uns aos outros porque não havia onde segurar. Ninguém queria ir sozinho e quando um caía, levava mais três ou quatro. Alguns caíam de cima dos trens e outros das janelas, porque também se viajava agarrado apenas às janelas. Era comum ver cadáveres ao longo dos trilhos. No trabalho, as pessoas comentavam displicentes:

— Hoje foram dois em São Cristóvão.

— Em Bangu tinha quatro. Um sem cabeça.

Ninguém se espantava mais. Falava-se dos mortos dos trens como se falava de futebol. Só as mães se desesperavam nos enterros.

A propaganda dominava a paisagem da cidade com placas, letreiros luminosos e distribuição de folhetos, mas nunca vi um simples alerta: “NÃO MORRA CAINDO DOS TRENS!”. Na estação D. Pedro II, da Estrada de Ferro Central do Brasil, que devia contabilizar os mortos, ninguém se preocupava com isso. Nas paredes da gare, no melhor estilo faroeste, cartazes pediam que a população denunciasse os procurados. Terroristas perigosos, os barbudinhos e as mocinhas de olhar assustado pareciam sair de algum trote de calouros. Lembro do comentário de uma senhorinha: “Puxa, nem parecem terroristas. Parecem filhos da gente”.

Hoje a Central tem cartazes proibindo cigarros e o painel eletrônico informa com precisão os horários e destinos dos trens. Ninguém mais despenca das portas, que agora ficam fechadas. Os vagões têm ar-condicionado e agentes circulam pelas plataformas e carros cuidando da segurança dos usuários.

Os meninos hoje morrem de crack e de tiros, mas já não caem nos trilhos nem frequentam cartazes terroristas.

Os sobreviventes das fotos e dos trens saúdam as mães de maio. Mães que abraçam seus filhos no segundo domingo. Mães que os visitam com flores no dois de novembro. E mães que ainda procuram por eles durante todo o ano, olhando retratos, em cartazes que já nem existem mais.

Comentários

Albir, depois do Dias das Mães, nada como um dia de mãe. A peleja continua.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …