segunda-feira, 10 de maio de 2010

MÃES, FLORES E FOTOGRAFIAS
>> Albir José da Silva

Com a mão no rosto do filho, quase coberto pelas flores, a mãe se desespera. Inconformados, três amigos do morto comentam:

— Ele ganhou de mim!

— Ganhou de nós todos.

— Ainda ontem a gente tava apostando quem é que ia primeiro.

Vi a cara confusa dos presentes ao velório com aquela conversa, mas eu sabia do que falavam. “Ganhar, ir primeiro” significava morrer. E morríamos aos bandos, como formigas, caindo dos trens.

As portas dos vagões não se fechavam nunca, ou porque estavam com defeito ou porque as pessoas as travavam. Dezenas de pessoas se amontoavam nas portas e milhares se apertavam no interior dos carros. Adolescentes e adultos formavam bolos de gente agarrados uns aos outros porque não havia onde segurar. Ninguém queria ir sozinho e quando um caía, levava mais três ou quatro. Alguns caíam de cima dos trens e outros das janelas, porque também se viajava agarrado apenas às janelas. Era comum ver cadáveres ao longo dos trilhos. No trabalho, as pessoas comentavam displicentes:

— Hoje foram dois em São Cristóvão.

— Em Bangu tinha quatro. Um sem cabeça.

Ninguém se espantava mais. Falava-se dos mortos dos trens como se falava de futebol. Só as mães se desesperavam nos enterros.

A propaganda dominava a paisagem da cidade com placas, letreiros luminosos e distribuição de folhetos, mas nunca vi um simples alerta: “NÃO MORRA CAINDO DOS TRENS!”. Na estação D. Pedro II, da Estrada de Ferro Central do Brasil, que devia contabilizar os mortos, ninguém se preocupava com isso. Nas paredes da gare, no melhor estilo faroeste, cartazes pediam que a população denunciasse os procurados. Terroristas perigosos, os barbudinhos e as mocinhas de olhar assustado pareciam sair de algum trote de calouros. Lembro do comentário de uma senhorinha: “Puxa, nem parecem terroristas. Parecem filhos da gente”.

Hoje a Central tem cartazes proibindo cigarros e o painel eletrônico informa com precisão os horários e destinos dos trens. Ninguém mais despenca das portas, que agora ficam fechadas. Os vagões têm ar-condicionado e agentes circulam pelas plataformas e carros cuidando da segurança dos usuários.

Os meninos hoje morrem de crack e de tiros, mas já não caem nos trilhos nem frequentam cartazes terroristas.

Os sobreviventes das fotos e dos trens saúdam as mães de maio. Mães que abraçam seus filhos no segundo domingo. Mães que os visitam com flores no dois de novembro. E mães que ainda procuram por eles durante todo o ano, olhando retratos, em cartazes que já nem existem mais.

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Albir, depois do Dias das Mães, nada como um dia de mãe. A peleja continua.