domingo, 2 de maio de 2010

INQUÉRITO >> Eduardo Loureiro Jr.

Este cronista foi aconselhado, por seus advogados, a permanecer em silêncio.

Mesmo a acusação sendo a de que o cronista não está fazendo nada quando deveria estar fazendo alguma coisa, o cronista permanece em silêncio, sabendo que corre o risco de ter a acusação duplicada: "O cronista é culpado de não fazer nada para se defender da acusação de não fazer nada, o que comprova, obviamente, sua culpa em primeira e segunda instância".

Mesmo correndo o risco de desacato à autoridade, este cronista permanece de boca fechada e fones no ouvido, escutando Boca Livre e seu maravilhoso disco Dançando Pelas Sombras. Porque o cronista acha a luz artificial muito quente e incômoda, e prefere a luz indireta, o dilatar das pupilas para ver no escuro.

Mesmo sabendo que sua atitude não leva a nada, que está sujeito a ser condenado, preso e encarcerado, que a saída é a porta principal, este cronista se recusa a entrar no jogo da justiça sem justiça. Um homem tem o direito de não fazer nada, pensa este cronista, inclusive o direito de não fazer nada para comunicar aos inquisidores seu direito de não fazer nada.

Este cronista não ama musas, apenas músicas. Prefere compositores e instrumentistas a beldades inspiradoras. Se finje de Alan Delão mas, na realidade, este cronista prefere ouvir cantos a proferir cantadas. Concorda com o ditado de que a palavra é de prata e o silêncio é de ouro, e também com aquele que diz que, se temos dois ouvidos e apenas uma boca, é para escutarmos mais do que falar.

Não podendo — por risco de implosão — fazer o silêncio completo que deseja, este cronista escreve. A escrita é o silêncio com palavras. Ouve quem quer, na hora que quer. Carapuça para quem tem frio no juízo. A aranha vive do que tece.

Este cronista escreve porque tem gente, no tribunal, que está ali para ouvir suas palavras sem julgamento. Um povo que sempre respeitou todos os santos. Um povo que o acompanharia até o fim do mundo para ouvir suas palavras. Gente que bebe e come suas frases sem ressaca ou indigestão, mesmo que sejam palavras-cachaça e palavras-tamarindo. Porque este cronista vive em qualquer parte do seu coração.

Porque sacralizou os domingos, este cronista escreve, conta o que tem pra contar. Porque seus pecados, confessados na escrita, recebem perdão sem necessidade de ajoelhados padre-nossos e ave-marias. Mesmo correndo o risco das algemas em seus pulsos, este cronista conserva a liberdade dos seus dedos.

Este cronista se cala para não falar puta-que-pariu, caralho, foda-se. Fazer/falar puta-que-pariu, caralho, foda-se não removeria a acusação de nada fazer, só complicaria a situação do réu que, não bastasse nada fazer, quando faz algo ainda ofende seus acusadores. Então este cronista escreve que falaria, mas não fala. A escrita é o habeas corpus da palavraria. Quem não é sincero, sai da brincadeira correndo pois pode se queimar.

Este cronista escreve feito quem dá um ferrão, um coice, uma chifrada. Escorpião, carneiro, cabra. Este cronista não é gente, é bicho. Esta crônica não é texto, é gesto. Dança com você o que você dançar. É reconhecimento feliz de culpa no cartório. Deve, não nega: paga quando quiser. Quem deu, receberá.

Se este cronista não faz, e faz falta, não é ele que faz falta, a falta quem faz é quem tem a falta. Qual é a realidade se é sempre um sonho que invade? Este cronista não precisa nem é preciso, é só o espelho em que se afoga Narciso. Para este cronista, só um egoísta reconhece outro, só um ladrão reconhece roubo, só alguém que não faz nada reconhece um nada fazer. A cruzada deste cronista é um cruzado de direita na face oferecida ao beijo, se dá um riso, dá um tiro.

Este cronista espelha a beleza que vê no paraíso, se dá um beijo, dá abrigo. Este cronista não é santo, é solto, nenhum senhor o acompanha. Este cronista, em respeito, se cala. Quem lamenta a ausência da sua fala que aguente a dança sombria da boca livre de suas palavras.

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9 comentários:

Tia Monca disse...

Ah se eu tivesse esse dom... :o)
Seus textos e sua fala nos fazem muito bem!
Bjs,
Tia Monca

Anônimo disse...

Que silêncio maravilhoso esse... ahh se todo silêncio fosse assim! O meu é esse:[ ............] sem palavras, pois é o silêncio que precede a cruzada de esquerda. *-*
Bjo da Kris

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Tia, é bom quando a nossa fala faz bem.

Kris, quer dizer que você é canhota?! Vixe maria! :)

Carla Dias disse...

Se todo calar fosse tão justo com o sentir, como esboça o seu texto, certamente seríamos menos barulhentos e muito mais felizes. Linda crônica.

Anônimo disse...

Vixe Maria menino, errei brabo, que falta!
Retificando:onde se lê "cruzada de esquerda" leia-se "cruzadO de DIREITA". Bem que meu ascendente em capricórnio me avisou que eu tinha o direito de ficar calada.

João Bosco Bezerra Bonfim disse...

Pode postar poesia como comentário?
In feito
IV

o meu silêncio não é feito
de abismo de palavras
é, sim, de montes e escarpas
nos quais não ouso escalada

de abismo só compartem
a sombra e a escuridão
de verbos exilados
de cartório e de canção

e se ouso uma só soltar
soa grotesca e flamejante
a ferir vista e ouvido
lume gutural atordoante

se me fogem símile aladas
aves trôpegas esquisitas
pousam, agouras,
anticânticos proscritos

selem-se, pois
- mil correntes! –
caverna e pena dessa voz
condoreira ou algoz?

(de in feito, ed. do autor, Brasília, 2009)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Brigadim, Carla. :)

Quer dizer que somos "xarás" de ascendente, Kris?

Grato, Seu João, pelo seu belo poementário. :)

Pensamentos soltos disse...

Sou fã!!!!!!!!Como um silêncio pode dizer tantas coisas...

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Pensamentos soltos, por ouvir tantas coisas no meu silêncio de palavras. :)