sábado, 23 de julho de 2016

SOBRE UM PEDAÇO DE TEMPO >> Cristiana Moura



Tem dias que o coração amanhece batendo desafinado. Foi logo depois de uma noite dessas, quando é difícil dormir. Ou bem o corpo está cansado e o sono não vem. Ou bem o sono quer adormecer o corpo que, agitado, se mantém acordado.

É que dormir, por vezes é alívio, descanso e viagem onírica desejada. Noutras parece temer os próprios sonhos e desejos e camufla o medo numa sensação de que o tempo do sono é perda de tempo.

E passou a manhã, passou a tarde. O peito apertado, o coração desafinado. Acabou por perder o nascer da lua — cochilou.

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sexta-feira, 22 de julho de 2016

SAGRADO HUMANO >> Paulo Meireles Barguil


Na crônica A arte da cura, apresentei, sucintamente, o pouco que aprendi sobre saúde e do que precisamos saber e fazer para conquistá-la e mantê-la.
 
No início da vida aqui na Terra, o bebê acredita que ele e a mãe são um.
 
Mediante um processo de diferenciação, permeado de emoções, por vezes conflituosas, que ecoam durante anos, décadas, cada um de nós se percebe, enfim, separado da mãe.

Melhor dizendo: muitos nós.

Retificando: alguns de nós.

O que costuma acontecer, infelizmente, é que, inconscientemente, buscamos, sem sucesso, substitutos para a mãe que nos proporcione o gozo eterno!

Na fase posterior, o mundo é percebido com a lente do antagonismo, da dualidade, a qual, ao mesmo tempo em que facilita a interpretação do mundo, necessária para as escolhas diárias e noturnas, é fonte também de empobrecimento e doença, pois nos coloca, sem que percebamos, em permanente conflito.

Várias teorias em distintas áreas do conhecimento vislumbram contrários na realidade, seja de modo integrativo, seja de modo excludente.

No Taoísmo, uma das expressões da Filosofia oriental, o yang e o yin simbolizam as forças, os princípios complementares que abrangem todos os aspectos e fenômenos da vida, formando o Tao: o caminho perfeito.

O yang tem a semente do yin e vice-versa.
 

Enquanto yang representa o masculino — viril, ativo, celeste, penetrante, quente, fogo, luminoso, o dia e o espírito —  yin simboliza o feminino — suave, passivo, terrestre, absorvente, frio, água, obscuro, a noite e a matéria.

Creio que superar a visão cindida e constituir uma consciência holística caracteriza a etapa seguinte no desenvolvimento humano, que propicia serenidade diante de acontecimentos, sentimentos e pensamentos — pois intimamente ligados — tanto para os de dentro, como para os de fora.

Para que isso aconteça é necessário nos purificarmos a cada instante, notadamente naqueles em que, de algum modo, nossas ilusões não se materializam, mas se esfarelam...

Conectar-se ao infinito, nomeado de distintas maneiras, é o que possibilita ao ser humano uma crescente calmaria, a qual precisa ser vivenciada não somente nos momentos de contemplação, adoração, silêncio, mas, principalmente, quando nos relacionamos.

As forças referidas no Tao são humanas e, como tal, podem se manifestar em mulheres e homens, sendo equivocada a crença, por vezes materializada em discursos e atitudes, de associar àquela dita feminina à mulher e àquela nomeada masculino ao homem.

O equilíbrio de cada pessoa, bem como da sociedade, é fruto da vivência de ambas as forças em intensidade variada, mas sempre permeada de muita amorosidade pela vida: a sua e a do outro.

Vislumbro, pois, o momento em que superaremos a cisão da percepção do divino, manifestada em expressões como "sagrado feminino" e "sagrado masculino", e vivenciaremos o "sagrado humano", independentemente do corpo no qual a alma, temporariamente, habita.

Melhor dizendo, o sagrado no ser humano.

Namastê.


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quarta-feira, 20 de julho de 2016

MEMÓRIA >> Carla Dias >>


Hoje é hoje. Que outro dia seria? Não importam as manchetes, as casas de alvenaria, os cubículos e seus códigos postais. Hora de bater cartão já passou, assim como o momento de reescrever histórias falidas.

Recomeços são para histórias sem ponto final.

Mas hoje chega com esse gosto de saudade voluntariosa.

Treinou tanto, dedicou-se muito, foi além da conta para alcançar esquecimento. Ainda assim, hoje é hoje. Que outro dia seria? Daí que toda lógica que atribuiu à própria vida, aquela que vem conseguindo manter elegantemente, desmancha-se diante de uma lembrança acontecida em outro dia, que não hoje. Foi há muito tempo, mas parece que esse tempo é agora.

Só que hoje traz essa coisa de calendário, de celebrar isso ou aquilo, esse ou aquele. Por que diabos nasceu com essa memória seletiva, que pouco se importa com datas significativas para o coletivo, com as vedetes de calendários?

Lembra-se dos pormenores, aqueles detalhes que não se encaixam nos grandes acontecimentos que influenciam a muitos, ao mundo. Nos quais, talvez, ninguém mais tenha prestado atenção.

7 de agosto de 1977
A forma como seus avós se abraçaram, após saberem do falecimento da Lurdes, a cadelinha que os acompanhou por mais de década. Foi abraço de quem se ampara no desamparo do outro e, de uma forma muito intrigante, encontra ali, naquela tristeza profunda, um bálsamo, a esperança de que tamanha dor irá abrandar.

9 de janeiro de 1985
A forma como seus avós se abraçaram, que lembrou muito a de anos atrás, só que com desamparo e desespero amplificados. Foi o dia em que o filho deles faleceu. Seu pai.

11 de março de 1990
A forma como um poema remexeu seu dentro como ninguém e nada fizera antes. Durante dias, não saiu de casa, não falou com amigos, não aconteceu em qualquer quesito. O silêncio foi profundo, a caminhada, pelos cômodos. Encantou-se pelo esvoaçar da cortina do quarto. Chorou, gargalhou, aquietou-se. Transcendeu.

22 de abril de 1992
A mão pequena e fria, de pele macia, encontra abrigo na sua. Espanta-se, mas consegue conter o espasmo provocado pelo susto e render-se ao deslumbre de segurá-la pela mão. O olhar dela disse amabilidades e afeto. O encontro durou a mudança do semáforo. A mãe da menina, em puro desespero, arrancou-a daquele segurar a mão. Deu bronca na menina, que começou a chorar miúdo, magoada por ter visto no segurar mão desconhecida um gesto natural.

Por que não se lembra somente dos dias que importam a muitos?

2 de julho de 1994
A mão lhe tocando o rosto como prefácio de desfecho desejado durante meses. A sensação arrebatadora de que o desfecho-beijo foi um milhão de vezes mais significativo do que aquele do roteiro imaginado.

15 de fevereiro de 2000
Os dedos do amigo a se enroscarem nos cabelos da namorada. Ela e seus cabelos negros e encaracolados. Ele e sua pele pálida. Era como se tal gesto de carinho desenhasse futuro nos cabelos dela. Sentiu-se feliz por eles. Sentiu-se feliz por saber que, nos minutos seguintes, o amigo se sentiria ainda mais feliz, porque a amiga lhe confidenciara que o pediria em casamento. Ele aceitou sorrindo e chorando ao mesmo tempo.

28 de setembro de 2008
Finalmente, cantou sua música preferida, assistindo ao show de sua banda preferida.

Poderia falar sobre muitas datas que nada representam a qualquer outra pessoa. Dedicou-se tanto, fez de um tudo para regrar essa sua memória. Pensou que tivesse conseguido. Mas ela insiste em trazer à tona um calendário de afetos e desapontamentos, de conquistas e perdas. Um emaranhado de percepções confidenciais, confiscadas de olhares atentos ao que vem depois do óbvio.

Hoje é hoje. Que outro dia seria?

Anota compromissos em sua agenda, discute futuros projetos, ocupa seu tempo. Ainda tenta educar sua memória, mas acontece que a tal é de rebeldia escancarada. Entre uma anotação e outra em calendário do dia...

20 de julho de 2012
Então... A lua...


Imagem © Caspar David Friedrich

carladias.com

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terça-feira, 19 de julho de 2016

PARA OS BRAGA DE OLIVEIRA E PARA OS SILVA
>> Clara Braga

Outro dia meus pais vieram falar que assistiram a uma entrevista de uma lutadora na televisão e ela dizia que sofreu por muito tempo por não ouvir da mãe dela que ela a amava. Aparentemente meus pais ficaram sentidos e constataram que eles nunca foram de dizer "eu te amo" pra mim e pro meu irmão, então ficaram se questionando se isso não seria um trauma em nossas vidas.

Consigo imaginar a cena deles falando isso pro meu irmão. A cara dele de "não acredito que esse diálogo está acontecendo", seguida de uma risada e de um ponto final na conversa.

Pra mim não foi diferente, falei logo: "Por favor né, parem com essa frescura!" Mas muita calma nessa hora, ou muita hora nessa calma, não estou falando que a situação da lutadora é frescura. Todos sabemos da importância do amor de uma mãe e da falta que um "eu te amo" pode fazer naqueles momentos mais difíceis. Amor de mãe é algo que todos deveriam ter, seja essa mãe biológica, adotiva, uma vó que é mãe,  uma tia que é mãe ou até uma amiga que é tão próxima e cuida com tanto carinho que parece uma mãe, afinal, o conceito de mãe vai muito, mas muito além do que aquela pessoa que te coloca no mundo. Também fiquei sentida com a história da lutadora. Mas essa não é a situação dos Braga de Oliveira e muito menos dos Silva.

Nessas duas famílias, sair um "eu te amo" é a coisa mais difícil, é assim desde sempre. O que não quer dizer nada, pois apesar de não verbalizar, minha família aguentou 7 anos de apresentações de ballet clássico sem gostar, se enfiaram em locais terríveis para que eu pudesse assistir a shows que eu queria ver, depois se enfiaram em locais ainda mais cheios e apertados para me ver tocar, me levaram para viajar para locais que eu queria, deixaram eu escolher a profissão que eu achava que me faria feliz, me deixaram pedir demissão de emprego que não me fazia feliz e me bancaram até que eu encontrasse outro, fizeram a maior farra quando me formei, me incentivam a estudar sempre, me abraçam quando eu estou triste, me perdoam quando eu sou um poço de indelicadezas, enfim... Como toda família, temos nossos altos e baixos, e se isso não é amor, então não sei mais de nada!

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domingo, 17 de julho de 2016

PERDER >> Eduardo Loureiro Jr.

"Perder é a pior coisa do mundo", disse meu sobrinho Enzo enquanto perdia uma partida de Pokémon (um jogo de cartas colecionáveis, para quem não sabia). Eu discordei do Enzo, e disse que a pior coisa do mundo era adoecer. Depois, já em casa, cheguei à conclusão de que ele estava certo, pois para mim a pior coisa do mundo é perder a saúde.

Perder é mesmo de entristecer. Quem já perdeu ônibus em beira de estrada, tendo que esperar trinta minutos ao sol pelo ônibus seguinte, sabe como é. Quem já perdeu amor por abandono, traição ou morte, sabe como é. Quem já perdeu pai e mãe, amores insubstituíveis, sabe como é.

E não é algo raro, que aconteça aqui ou acolá. Perder é uma experiência quase diária. Perdemos a carteira, o dinheiro, os documentos. Perdemos direitos. Perdemos o latim. Perdemo-nos em argumentos. Perdemo-nos em divagações. Perdemos sangue. Perdemos oportunidades. Perdemos tempo. Perdemos o gosto. Perdemos a esperança. Perdemo-nos, a nós mesmos, simplesmente.

Algumas coisas podem ser reencontradas, refeitas, substituídas, esquecidas, deixadas pra lá. Outras não. Então há perdas que se recuperam em ganhos e algumas perdas que continuam sendo a pior coisa do mundo, dia após dia. Até que o jogo se acaba e uma nova partida inicia...

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sábado, 16 de julho de 2016

VIZINHA CABELEIREIRA >> Sergio Geia




Descobri uma vizinha cabeleireira. Da janela do quarto a observo: ela arruma a tralha na sacada e, enquanto arruma, conversa com alguém na sala; de repente, esse alguém, uma mulher setentona, se senta, e ela começa a trabalhar.
Vai cortando; noto que fuma também; corta e fuma. E fala. Percebo que mais fuma que corta; mais fala que fuma. Cabeleireira parece tudo igual: gosta de conversar e de fumar. Eu tinha uma que conversava bastante; e fumava. Adorava falar de novelas, dos filhos, dos estudos e projetos; o tempo de corte dobrava de tamanho.
Pelo salão improvisado na sacada, concluo que é uma cabeleireira, mas não uma profissional. Deve gostar do ofício. Deve ter aprendido a cortar de curiosa, fez um curso aqui, outro acolá; agora partiu para a prática. Deve fazer de cobaia a parentada; deve cortar da mãe, dos filhos, das tias.
Era assim a minha mãe: cortava o meu, do meu pai, da minha avó, dos meus tios; de vez em quando, de um ou outro amigo. O salão era no quintal. Professora, ela não era cabeleireira profissional, mas gostava e tinha certas habilidades, o dom que todo mundo fala. Cortar cabelos parecia fácil; ela tinha o dom.
Algumas pessoas nascem com um talento para certas profissões. Tive um amigo músico que nunca tinha frequentado um curso de violão. O que sabia, aprendera sozinho, de ouvido, numa época sem internet. E tocava muito bem. Aliás, não só tocava muito bem, como era o melhor.
Minha mãe tinha o talento para cortar cabelos. A vizinha também deve ter. E deve gostar, porque se não gostar não adianta. Imagino que ainda esteja descobrindo o mundo dos cabelos, esteja experimentando, tateando os segredos dos cortes, das melhores tesouras, das maquininhas, dos melhores produtos para usar. E fazendo de cobaia os seus. De vez em quando dá uma tesourada: um pé maior que o outro, um corte mais profundo, um buraco na cabeça de alguém, nada que não consiga corrigir, disfarçar, ainda que usando lápis de sobrancelhas.
São vizinhos novos. Outro dia reparei a mudança, a arrumação das coisas, o movimento diferente no apartamento da frente. Era um sábado quente. Havia uma criançada brincando, pulando na cama, acendendo e apagando a luz. Uma hora a família foi pra sacada olhar o fim da tarde, ficaram emocionados com a paisagem nova, com a luz do dia se apagando. Daqui a pouco se acostumam. Na vida é assim: tudo é efêmero, principalmente o belo.
O corte de cabelo acabou, agora a vizinha toma cerveja. E fuma. Pois me deu vontade de fazer o mesmo. Pego uma cerveja na geladeira. Não fumo, mas resolvo experimentar um cubano que tenho aqui, presente do Toninho que voltou recentemente de Havana. Fazemos companhia um pro outro. Ela lá. Eu aqui. 

Ilustração: aqui


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sexta-feira, 15 de julho de 2016

O CLUBE DOS PROSCRITOS – 2ª e última parte
>> Zoraya Cesar


O Clube dos Proscritos - 1ª parte - Ele tinha uma missão: conseguir a informação, fazer o pagamento e partir. Mas achou que poderia lucrar mais jogando por conta própria.

Ele entrou, regozijante. Os doormen que o revistaram, por experientes que fossem, não descobriram a faca de mola escondida na manga de seu suéter. 

No salão, dez mesas, um grande balcão e uma jukebox, de onde saía a voz de Helen Humes e a guitarra de T. Bone Walker. Nas paredes, pôsteres de grandes jazzistas misturavam-se aos de vários personagens famosos do mundo do crime: piratas como Anne Bonny e William Kidd; os espiões Kim Philby e Mata Hari; bandidos como Butch Cassidy e também os investigadores William J. Burns e os irmãos Pinkerton. Uma enorme bandeira pirata Jolly Roger estava hasteada num canto. Havia também trevos, figuras de Leprechauns e fadas. Se o dono do clube não fosse irlandês, ninguém mais o seria. 
Helen Humes, Memphis Slim e T. Bone Walker: Blues ain't nothing but a woman

(E ele era, efetivamente, irlandês. Fora preso pela Scotland Yard por tráfico de obras raras. Estava casado há mais de 20 anos com o policial que o prendera. Quando o parceiro se aposentou, abriram clubes exclusivos para o submundo de bandidos, mocinhos e simpatizantes. Apenas os melhores eram admitidos — excluídos os serial killers, pedófilos e outros psicopatas. Os sócios faziam parte de uma confraria de elite. Os não sócios poderiam entrar e desfrutar de boas música, comida e bebida, fazer contatos, dizer adeus e ir embora.) 

O recém-chegado pediu a cachaça sul-africana mais forte disponível. O garçom, um jovem lânguido, trouxe uma garrafa de kimbombo. Recostado ao balcão, ele passava a vista nos outros fregueses. Seu olhar, naturalmente, não se demorava em nenhum deles, sob pena de alguém se sentir ofendido. Muito suscetíveis eram os sócios do clube, isso eram. 

Havia de tudo. Mulheres jovens, com ar angelical e jeito de doces-de-coco, outras que pareciam ter saído de HQs alternativas, com seus coturnos pretos e maquiagem pesada; rapazes de aparência militar e hell’s angels cinqüentões; punks, executivos e outros, que ele não percebeu, pois, finalmente, encontrou quem procurava, sentada num canto escuro do salão. 

Ela. 

Era magra, mas não muito. Usava um elegante vestido preto (na verdade, um legítimo Dior), que combinava à perfeição com sapatos marfim, de salto baixo e quadrado. Os cabelos eram curtos, totalmente brancos, a não ser por uma larga mecha negra, que caía, elegante, sobre sua face. A suavidade da tez contrastava estranhamente com as várias rugas que o tempo marcara em seu rosto. Um observador mais atento notaria que algumas daquelas marcas não eram rugas, mas cicatrizes, finas e indeléveis. Suas mãos eram delgadas e algo nodosas, com poucas manchas senis; as unhas, curtas e pintadas de púrpura profundo. A seu lado, uma imponente bengala de madeira maciça — talvez ébano ou pau-ferro — dentro da qual havia uma fina e afiada lâmina de aço, forjada pelo melhor fabricante de Toledo.

No todo, uma figura impressionante. 

Mas estava velha, pensou ele. E velhas tendem a ser descuidadas. Haveria de conseguir a informação desejada e, por sua própria conta e risco, ficaria com o dinheiro do pagamento e mataria a mulher que todos consideravam inatingível. Bobagem, pensou. Todos morremos. Hoje seria a vez dela, como, algum dia, seria a dele. Mas, até lá, sorriu internamente, até lá usufruirei de fama e fortuna, por ter enganado e matado uma lenda urbana. 

Sentou-se em frente à mulher. De perto, observou com um certo desprezo, era franzina e miúda demais. Deve ser mais velha que meu bisavô, pensou ele.  Não era uma lenda, mas apenas um mito, uma mentira criada para acender a imaginação dos espiões mais jovens. Perdeu todo o resquício de medo que o acompanhara antes de entrar no clube.

— Meu empregador, Sr. **, precisa saber onde está enterrado o homem que assassinou o Secretário da Casa Civil do governo de *** (ele citou o nome de um país africano). 

Ela espantou-se com a rudeza da abordagem. O Sr.** era conhecido pelo respeito com que tratava os antigos companheiros e pela generosidade do pagamento. Aquele jovem estava jogando com cartas perigosas, ao não se comportar como, certamente, lhe fora ordenado. Atrás dos óculos de aros dourados, suas íris azuis e ácidas olharam para o rapaz.

— O corpo está enterrado no jardim da casa de verão do próprio Sr.** — disse, a voz baixa. 

Foi tão fácil, exultou ele, tanto barulho pela tal mulher e não passava de uma coitada. Far-lhe-ia um favor em mandá-la para outro mundo. Sorriu, inclinou-se sobre a mesa, a faca já engatilhada, debaixo da manga da blusa. Na semi-escuridão em que estavam, e com o talento mortal que lhe era característico — os músculos ainda um pouco enrijecidos não o atrapalhariam —, cortaria o pescoço dela tão rapidamente, que só descobririam quando ele já estivesse longe. E quem se importaria com uma velha decadente?

O primeiro golpe foi seco e violento. O segundo foi definitivo e mortal. 

Ele morreu sem entender o que acontecera.

A bengala atingira sua cabeça, deixando-o sem ação, e, em seguida, a comprida lâmina de Toledo terminou o serviço. 

Nascida e treinada nas montanhas gregas, sobrevivente a inúmeras missões e atentados, ela não cairia naquela armadilha vulgar. Tolo, pensou, pagou um alto preço por sua ganância e soberba. Agora ela ficaria com o dinheiro. E ele, sem a vida. 

Chamou o garçom, pediu-lhe que levasse o corpo embora e lhe trouxesse mais uma dose de ouzo. Com limão, por favor.
Depois de retirado o corpo do morto,
ela pediu mais uma dose de ouzo

Os outros fregueses olharam a cena e, como que combinados, levantaram-se ao mesmo tempo e se inclinaram respeitosamente para a mulher que, embora aposentada, há anos encantava o mundo de espiões e assassinos, policiais e proscritos com sua elegância e eficiência mortal.

Ela, Marta Atanasiou. A lenda. 


Outras aventuras de Marta Atanasiou


A hora do chá

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quinta-feira, 14 de julho de 2016

PRECISA-SE DE GENTE ANTIPÁTICA >> Analu Faria

Ir atrás dos seus direitos é um troço de gente antipática. Pelo menos é o que pensa um usuário de um fórum público de discussão no qual entrei dia desses. O "deixa de ser antipático" é a versão século XXI do conceito de "homem cordial".

Era um fórum sobre direito do consumidor, área na qual atuo hoje. Um leitor perguntava se o dono de uma academia tinha direito de recusar o pagamento em dinheiro. Pelo que entendi, o tal dono só aceitava cartão de crédito. Logo depois da pergunta, havia vários comentários apagados, de um tal de Eduardo, seguidos de uma resposta do leitor, que dizia mais ou menos: "Desculpa se minha pergunta te ofendeu, mas eu só estou tentando entender que direito tenho." Daí o Eduardo solta uma resposta bombástica: "Ser antipatizado é escolha de cada um."

Meu Deus, é isso! Acabo de resolver uma grande equação existencial! Eureka: eu sou antipática! Eu nasci antipática. O anjo da antipatia visitou meu berço quando eu era bem pequena e disse: "Serás antipática até umas hora. Beijo." Eu respiro ar antipático. Eu como pão de antipatia, com manteiga extra-antipática. Na minha testa deveria estar escrito "Cuidado, sou antipática". Aliás, eu deveria me apresentar como a Miss Antipatia: eu quero processar o cara que bateu no meu amigo só porque meu amigo é gay. Eu quero Bolsonaro na cadeia. Eu quero poder denunciar o cara que parou com seu carro nas vagas destinadas a motos e mandou ir à merda a motociclista que o pediu para sair do local (será que mandaria à merda se fosse um homem dirigindo a moto?). Eu quero que o mundo saiba, nestas Olimpíadas, que nós, carinhosos brasileiros, não damos o assento a grávidas e idosos. Gente, eu sou antipática!

E já que eu me assumi, convido a todos a serem antipáticos também, igual ao meu amigo que, apesar das humilhações na delegacia, foi até o fim e denunciou o agressor. Ou igual ao procurador que fez Bolsonaro virar réu em duas ações no STF. Gente, vamos ser antipáticos "que nem" a mulher que tirou o celular da bolsa e, diante da recusa do motorista em tirar o carro da vaga de motos, começou a tirar fotos do carro e, ao final, ligou para a polícia! Sejamos superantipáticos como a grávida que saiu do metrô possessa e apontou ao repórter o grupo de garotos que fingiu estar dormindo para não dar lugar a ela! Vamos ser antipáticos, galera! Vamos criar a grife "Le Antipatique" e, junto com o amor, espalhar antipatia pelo mundo. É só começar! Vamos juntos?


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