terça-feira, 26 de maio de 2015

AS COISAS PODEM COEXISTIR >> Clara Braga

Quando a fotografia foi descoberta, alguns disseram que a pintura iria morrer, fotografia e pintura jamais habitariam o mesmo espaço.

Quando surgiram os CD's, juravam que ninguém nunca mais iria ouvir falar no disco de vinil, no entanto, ele não poderia estar mais na moda!

Quando surgiram os aparelhos de mp3, foi a vez do CD morrer! Diminuiu a venda? Claro, isso ninguém pode negar, mas só quem viveu a fase de ouro do CD sabe a delícia que é sentar na frente do som e acompanhar as músicas lendo as letras no encarte! O CD daquela banda que você ama, ainda merece ser comprado! Nada de abrir a letra na internet, ler a primeira frase, responder a mensagem no facebook, pesquisar sobre a banda no google, descobrir que eles já tocaram junto com outra banda que você nunca tinha ouvido falar, abrir um vídeo dessa nova banda no youtube, e quando você menos perceber já está comprando o CD virtual dessa nova banda que acabou de conhecer e escutando suas músicas sem ter chegado nem na metade do CD da primeira banda.

Os ipads e kobos da vida mataram os livros, mas as livrarias que eu frequento estão sempre cheias deles! Confesso que também leio livros no ipad, não tanto quanto leio livros impressos, afinal, a forma digital só vai me ganhar 100% quando conseguir imitar a textura da folha, o cheirinho de livro novo e não der dor de cabeça depois de um bom tempo lendo. Ah, e quando não acabar a bateria na melhor parte do livro!

O netflix iria matar o cinema! Ninguém pode negar que o netflix é uma das melhores invenções de todos os tempos, além de ser uma opção maravilhosa diante dos preços exorbitantes de um ingresso, mas vai dizer que vc não vai ao cinema assistir àquele filme que está esperando estrear tem quase um ano?

Elvis morreu, o rock não!

Autorretrato virou selfie, mas a rainha do selfie ainda é a Frida, não a Kim Kardashian.

Enfim, o que tem que morrer de uma vez por todas é a nossa mania de matar tudo! As coisas podem coexistir! Aliás, as coisas coexistem! Eu não quero ter que escolher entre comprar um CD físico ou um CD virtual, eu quero comprar o virtual daquela banda que acabei de conhecer, que eu estou curiosa para ouvir um pouco mais, mas o CD físico da Joss Stone vai sempre encontrar seu lugar na minha prateleira. Quero fazer fotografias e apreciar pinturas, quero acabar uma série inteira em uma semana no netlfix e ficar abraçada com meu namorado no escurinho do cinema no fim de semana, quero folhear as páginas de um livro e ler outros textos interessantíssimos que eu achei na internet no meu ipad. Eu quero aproveitar tudo que tenho direito, sem achar ruim a evolução natural das coisas, mas sem viver eternamente com um ar saudosista, sempre em nostalgia! Alguns tempos podem coexistir!



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sábado, 23 de maio de 2015

DAIQUIRIS E MOJITOS >> Sergio Geia



 
 

Perguntei como ele estava depois da bebedeira noite passada. Era um amigo não muito acostumado ao álcool. Até me surpreendi quando ele aceitou tomar umas. Em resposta, disse-me que acordou de madrugada com dor de cabeça e azia, ao que indaguei se o mal não teria sido em razão dos espetinhos que ele devorou no fim da noite. É... Pode ser...

Mas a conversa banal me arrastou para o campo das bebidas. Coisa de quem não tem o que fazer, sabe, numa noite fria de domingo. Resolvi até anotar tudo num papelzinho. Quem sabe um dia não vira crônica, hein?

Cerveja/chope: sabe que desde muito cedo aprendi a gostar. Coisa de família. Venho de uma que bebe pra diabo, e que sempre se reunia pra bater papo, rir, comer e principalmente beber, é claro. Lembro-me de uma vez, não sei quantos anos tinha, em que enchi a cara de cerveja, presunto e abacaxi. Bebi tanto que saí falando castelhano. Mas prefiro chope. Bem tirado, gelado, três dedos de espuma.

Vinho: veio depois da cerveja. Confesso que demorei pra tomar gosto. A primeira vez foi ruim, mas o paladar aos poucos foi se acostumando. Levava minha ex-mulher pra jantar num restaurante na Armando Sales. Começamos juntos a apreciar. Bons tempos.

Cachaça: nunca gostei. Batidinha, só se tivesse leite Moça. Pura então, nem pensar. Mas não é que de uma hora pra outra, aquelas coisas que acontecem sem explicação, uma bicadinha aqui, outra acolá, e ela começa a fazer parte da minha vida? Não me lembro muito bem como tudo começou. Na verdade, sinto que venho mudando em algumas coisas. Alimentos de que não gostava, por exemplo. Bacalhau, sobrecoxa de frango, berinjela e mortadela. A cachaça entra nesse time.

Uísque: da cachaça para o uísque foi um pulinho. Depois de estar consumindo cachaça regularmente, dei por mim dando uma bicada no copo de uísque de uma amiga. E não é que ele desceu macio!?

Dizem por aí que a bebida alcoólica pode ser um catalisador de genialidade, e que grandes obras primas da literatura mundial não existiriam sem ela. O copo está ou esteve presente em algum momento na mesa dos grandes escritores. F. Scott Fitzgerald, por exemplo, era chegado num coquetel de gim, misturado com água e limão. William Faulkner gostava de uísque. Oscar Wilde, de absinto. Edgar Allan Poe, de uísque e absinto. Hemingway apreciava daiquiris e mojitos. João Ubaldo bebeu muito uísque até se tornar um abstêmio.

Pois esse papo todo, amigo, me deu inspiração. Não, não, eu não vou acarinhar as teclas do meu companheiro em busca de um bom texto, transformar as anotações do papelzinho numa crônica sobre bebidas. Eu vou é tomar um uisquinho. Depois, quem sabe... Tá servido?
 

Ilustração: Picasso, The absinthe

 



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sexta-feira, 22 de maio de 2015

UM ESTRANHO CAFÉ >> Zoraya Cesar

A cena era insólita: uma velha senhora, bem vestida de preto da cabeça aos pés, caminhava serenamente pela calçada. A hora? Três da madrugada. Onde? Por ruas onde bares e inferninhos estranhos recebiam gente esquisita. 

Ela parou frente a um portão verde, acima do qual um letreiro de neon enfraquecido pelo uso anunciava o nome da espelunca: ”Café de los Olvidados”. Ela empurrou a porta e entrou. 

No salão, homens e mulheres dos mais diversos tipos se espalhavam pelo ambiente – travestis, alcagüetes, policiais, bandidos, caçadores de recompensas, aventureiros, jogadores profissionais e outros, inclassificáveis pelos padrões comuns: espécimes soturnos, muitos de aparência sinistra, gente que há muito não via a luz do dia. No ar, um cheiro de suor, cigarro, bebida, crueldade, medo, coragem, sombras e segredos inconfessáveis – cheiro de humanidade. 

Alguns dos presentes levantaram a cabeça ou interromperam o que estavam fazendo. Analisaram a figura da velha senhora, um decalque saído diretamente de uma história da D. Carochinha, com seu aspecto de plácida vovó, cabelos brancos elegantemente arrumados e presos por um pente de marfim, óculos de osso de tartaruga, sapatos estilo mocassim, colar de pérolas e a bengala, que usava na mão esquerda. Se a aparência da recém-chegada já não fosse impactante o suficiente, a bengala seria um personagem à parte. Era grande, de madeira maciça – um conhecedor apostaria ser de ébano, talvez pau-ferro – finamente entalhada e encimada por uma cabeça de urso em prata de lei. Se alguém examinasse a bengala mais atentamente, poderia, quem sabe, perceber que a cabeça do urso era removível, e continha uma fina e afiada lâmina de aço, forjada pelo melhor fabricante de Toledo. Nas mãos de uma velha e inocente senhora, um auxílio à locomoção; nas mãos de um expert, uma arma mortal. Mas ninguém se aproximou o suficiente para ver a bengala de perto, no entanto.

O exame durou poucos segundos. Em um lugar frequentado por pessoas incomuns, por que seria estranho uma vovozinha adentrar o salão em plena madrugada? O murmúrio das conversas tornou a se misturar ao barulho das máquinas de vídeo-pôquer e à música que saía da caixas de som – nada reconhecível a ouvidos acostumados ao main stream das rádios convencionais; eram músicas gregas, tailandesas, filipinas... As pessoas voltaram a seus afazeres. Ninguém a interpelou nem a olhou por uma segunda vez.

O salão, à primeira vista, era tosco, mal iluminado e mal arrumado. Parecia que alguém jogara todos os móveis lá dentro, às pressas, e esquecera-se de arrumá-los mais tarde. Um observador mais atento, porém, perceberia que esse alguém gastara tempo e dinheiro para dispor os móveis de tal forma que os fregueses pudessem circular com liberdade sem se esbarrarem; ver quem entrava no recinto tão logo a porta fosse aberta; fugir pelo grande portão situado aos fundos, caso fosse necessário. A iluminação destacava quem entrasse, mas deixava o resto do ambiente quase penumbroso. Os móveis eram antigos, alguns vieram de casas demolidas e do ferro-velho, e em muitos havia rachaduras ou pedaços quebrados. Naquela semi-escuridão, poderiam parecer que vieram do lixo, mas nada mais longe da realidade. 

Nas paredes, pintadas de ocre, havia dois alvos para dardos, fotos e pinturas de espiões famosos como Sir Francis Walsingham e Mata Hari, e também de piratas, entre eles, Anne Bonny e Edward Teach. Quatro bandeiras Jolly Roger foram espalhadas pelos cantos. Ao fundo do salão, um grande e largo balcão de madeira, que lembrava muito mesmo o daqueles vistos em filmes de far-west. Atrás dele, uma máquina de café expresso, bebidas diversas, e, pasmem-se – se acharem ser o caso – um espremedor industrial para fazer suco de laranja. Ao lado da prateleira das garrafas, um quadro negro, no qual estava disposto o cardápio da casa, escrito em giz colorido, com letra caprichada e legível.

Marta Atanasiou andou calmamente, apoiada por sua bengala, por entre as cadeiras desalinhadas, a mesa de bilhar, os clientes que circulavam de lá para cá e os que permaneciam sentados em seus lugares, comendo ou bebendo. Chegou ao balcão, pediu uma garrafa de água com gás e limão, sem gelo, por favor. O atendente, um jovem magricela, vagamente assemelhado a um Iggy Pop de cabelos louros oleosos que há muito pareciam não ver um sabonete, cortados no melhor estilo Emo, nada falou, apenas serviu-lhe. 

A velha senhora sentou-se à mesa e bebeu com deleite, como se tratasse do mais fino vinho, enquanto escolhia o que comer. Pediu um sanduíche de pastrami, o qual comeu tão concentradamente quanto bebera a água. Depois de engolir o último pedaço, abriu a bolsa, pegou um cigarro. O atendente saiu de trás do balcão, acendeu-o e voltou sem nada dizer. 

Quase em estado nirvânico, Marta Atanasiou aspirou e soprou a fumaça, apreciando os anéis que saíam de sua boca e dançavam no ar, vagarosamente se dissolvendo, como fantasmas ao vento. Ao terminar, apontou para a máquina de café, aproximando o dedo indicador do polegar, naquele gesto universal de quem pede uma pequena xícara. 

O EmoBoy agachou-se atrás do balcão, pegou uma caixa, uma xícara,  e colocou-as em frente à velha. Na caixa, uma pistola Glock modelo G21 gen4, adequada para canhotos. Na xícara, não café, mas uma dose de ouzo, puro. O jovem atendente ficou a olhar a mulher, com respeito, vendo-a sorver a intragável bebida grega com o mesmo prazer com que bebera a água. 

Marta Atanasiou deixou R$ 28 reais na mesa, pagando o que consumira mais os 10% de praxe. Guardou a pistola na bolsa, levantou-se e saiu, tão discretamente quanto chegara, batendo sua bengala,. E ninguém lhe perguntou coisa alguma.



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quarta-feira, 20 de maio de 2015

NÃO SE TORNOU UM ASTRONAUTA >> Carla Dias >>

Tinha tudo planejado. Desde muito antes de agora, devidamente planejado.

Hoje mesmo, riscou de sua lista a visita ao pai, morador na casa de seu tio, figura de humor refinado e afiado, que o fez gargalhar muitas vezes nesta vida. Só que o fez chorar ainda mais, miúdo, escondido debaixo da cama, desejando sumir do planeta, nos dias em que o humor se ausentava para que a violência se aprumasse, e o pai pudesse cobrar de sua companheira de vida - a mãe do menino debaixo da cama -, o que não cabia a ela resolver.

Beija a face flácida do pai de humor ácido, imperando com seu olhar altivo e incapaz de enxergar muito mais do que o suficiente para se guiar entre as camas de seus companheiros de viagem em quarto coletivo. O irmão mais velho o chamou de filho ordinariamente desnaturado, que onde já se viu deixar o pai viver seus últimos anos de vida em um lugar feito aquele. Lugar em que o irmão, filho de casamento prévio, de mãe zelosa e afetuosa, nunca esteve. Ele que ganhou pai postiço que o aceitou feito filho, pagando-lhe a comida do diariamente, assim como roupa em dias de inverno.  A vida dele pode até não ser fácil, mas as suas dificuldades, quase todas elas têm solução.

A mãe dele faleceu há alguns anos. Mulher habituada à infelicidade, viciada em filmes românticos, passava os dias na frente da televisão, sonhando sem e tornar quem jamais se tornaria. Ele cresceu independente na sobrevivência, cuidando de si como podia, mas completamente dependente do rancor que aquele casal dividia apaixonadamente. Ele era efeito colateral da relação indigesta de seus pais, um pária na sala de estar, um incômodo na cozinha, uma criança manhosa que insistia em chorar de fome, frio e carência.

Quando a mãe morreu, de doença que ele nem sabia qual, ele já adolescente se rebelou e faltou ao enterro dela. O irmão mais velho - distante geográfica e emocionalmente – o acusou de tudo o de pior se pode acusar uma pessoa. A verdade é que ele não sabia como se despedir dela. Como dizer adeus a alguém que não se conhece; que sempre lhe ofereceu repulsa, quando não a mais voraz indiferença?

O enfermeiro dá notícias sobre a saúde dele, esclarece que falta pouco para que ele vá para o céu. Ah, o céu... Aquele que ele vislumbrava durantes as horas que passava no balanço daquela árvore do quintal de sua casa. Foi nessa contemplação que sonhou ser astronauta. Mas, de acordo com a mãe, ele jamais se tornaria algo que prestasse nessa vida, imagine um astronauta.

Despede-se do enfermeiro, lança um último olhar ao pai, que com a boca incapaz de se abrir para dar espaço à delicadeza em palavras, oferece a ele um palavrão na despedida.

O irmão mais velho esperneou, porque não queria ser ele o responsável pelos cuidados com o pai. Mas a mãe dele, aquela senhora gentil como jamais vira, disse que eu poderia ficar em paz, que ela mesma trataria dos pagamentos da casa de repouso e de qualquer eventualidade.

Lembra-se bem do dia em que planejou tudo. Escreveu uma lista de afazeres para alcançar o objetivo. Tinha onze anos de idade e lia um livro que pegou na biblioteca da escola. Encantou-se pelo personagem, que insistia que sua vida mudaria de rumo no dia de sua morte. Ele decidiu que queria fazer a mesma coisa que o personagem, mas não entendia nada de morte. Mesmo depois de ler o significado da palavra no dicionário, ficou sem entender como tirar a própria vida mudaria o rumo dela? Afinal, fim é fim.

Durante os anos seguintes, seguiu completando as tarefas daquela lista. Aprendeu outro idioma, estudou economia, por conta mesmo, que precisava aprender a lidar com o pouco dinheiro que fazia como empregado do mercadinho do bairro.  Assistiu a dez filmes clássicos, graças à paixão do patrão por cinema. Mas diferente do personagem do livro, gostou apenas de sete deles, não dos dez. Leu a obra completa dos escritores que o personagem citou, escutou os discos que ele escutou e muitos outros. Beijou a moça chamada Luana, mas foi com a Maria Helena que conheceu os rompantes da paixão. Viajou - mochila nas costas - pelas cinco capitais que o personagem visitava frequentemente.

Os anos passaram e seu pai já não conseguia fazer com que ele corresse para debaixo da cama, apesar de continuar um mestre na arte de incitar infelicidade. O irmão mais velho insistia que ele tinha de tomar tino, que era filho e tinha de cuidar do pai. Ele cuidou e durante muitos anos. Foi para a faculdade e se tornou competente arquiteto, como o personagem do livro. Penúltimo item da sua lista.

Durante meses, debruçou-se sobre a lista que fizera aos onze anos. Leu o livro dezenas de vezes, buscando ali um desfecho que não fosse o suicídio do personagem. Essa lista o tornara apto a seguir adiante. Ela foi sua sustentação em dias debaixo da cama, escutando a violência passear pela casa, aos berros, aos socos e pontapés. Ele tem certeza de que, não fosse ela, ele provavelmente teria antecipado o desfecho da história.
O irmão mais velho se diz cansado, que a vida é dura demais, as pessoas são complicadas. Diz isso sentado em seu sofá confortável, os filhos brincando na sala de casa própria, a esposa revendo papéis do trabalho, à mesa da cozinha, após um agradável jantar. Há uma calma nessa casa que ele nunca reconheceu em outro lugar.

Também diz que ele é que tem sorte, que é jovem, saudável, tem um bom emprego. Vê em seu irmão mais velho a sombra de seu pai. A mãe foi a salvação dele, que se tornou uma pessoa que reclama sem motivos, que não teve de viver para entender o peso do desafeto, da miséria, da violência. O irmão assistiu a tudo de longe, o que lhe permite dizer que ele é um cretino por deixar o pai naquele lugar para cair no mundo, abandonando a família e a segurança de um bom emprego.

Convenceu-se de que teria de viver essa última parte da história naquele dia, aos onze anos de idade e o espírito estraçalhado pela solidão. É sim daqueles que cumprem promessa. Por isso partiu para o lugar mais bonito que conheceu, cenário perfeito para o desfecho de acordo com o livro.

Neste dia, a morte foi inevitável. Finalmente, ele compreendeu como ela era capaz de mudar o rumo da vida. Porque, ao colocar os pés naquele lugar – tão distante de onde sua vida se desenrolou e de horizonte exuberante -, o menino de debaixo da cama pulou da ponte, do jeitinho que o personagem do livro fez, restando a ele viver o adulto que se tornou: sem lista de afazeres existenciais, livre da influência sombria daqueles que jamais lhe perceberam pessoa, que se negaram a cuidá-lo com a mesma dedicação com a qual tentavam lhe vergar o espírito.

A mãe tinha razão, ele não se tornou astronauta. Mas tudo o mais que ele se tornou vale a pena ser vivido.

carladias.com



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segunda-feira, 18 de maio de 2015

O MONÓLITO - final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 04 de maio de 2015)

O Professor, único intelectual presente, obteve a palavra de volta, em meio ao tumulto que ameaçava se formar. Acreditava que o obelisco fosse um artefato trazido por extraterrestres. Precisava de mais estudos para determinar a origem, a finalidade e a razão de tão estranha forma.

O Padre, quando conseguiu falar, esbravejava. Era castigo dos céus! Só ele e Deus sabiam das barbaridades que escutava no confessionário! Que se lembrassem de Sodoma e Gomorra! Era chegada a hora! O final dos tempos! O apocalipse!

A beata Santinha, abanando-se, pois começara a sentir muito calor desde essa manhã, não acreditava em castigo. Aquilo era tentação do Demônio pra fazer a gente pensar besteira. Pra levar a gente pro inferno.

O Coronel pediu silêncio de novo e quis saber que providências já tinham sido tomadas. O Prefeito informou que mandara o trator, mas as rodas giraram sozinhas e o bicho não se mexeu um dedo do lugar. As bananas de dinamite fizeram buracos em volta, mas nenhum arranhão nem nas pedras nem nele. O material era desconhecido. Duro que nem concreto por dentro, mas tinha uma maciez incômoda na parte de fora. Embora ninguém admitisse tê-lo tocado.

Trocaram-se acusações e a reunião terminou com uma única deliberação. Um mensageiro levou cartas desesperadas à Capital.

O dia amanheceu e verificou-se que a coisa, assim como veio, sumiu. As pessoas, quando não a viram mais, seguiram para seus afazeres e a praça ficou quase deserta.

Mas uma comitiva trouxe da Capital um Bispo, um Delegado e um Major do Exército.

O comitê de recepção compunha-se dos assustados Padre, Prefeito e Sargento. Os três juravam, em frente à antiga fonte, ter visto “com estes olhos” o informado nas cartas.

 Depois de uma viagem de muitas horas e pingando suor debaixo do sol escaldante, os da Capital entreolharam-se. O Delegado quis prender o Prefeito, mas não achou qualquer justificativa no Código Penal. O Major do Exército, que não ligava muito para códigos, prendeu o Sargento PM, embora não houvesse entre eles qualquer hierarquia.

O Bispo foi logo avisando ao Padre que ele seria transferido para a selva amazônica, numa região infestada de cobras e de febre amarela. O Padre, sorrindo, completamente bêbado, disse que não se importava. Era Padre, mas era macho e não ia mesmo ficar numa cidade visitada por aquilo.

A vida voltou ao normal e a cidade divide a sua história em antes e depois da coisa.

 O Coronel proibiu que se falasse nela em sua Fazenda, e também na cidade.

 As irmãs Felício continuaram acendendo velas todos os dias sobre as pedras. Pedras sagradas, segundo elas, mesmo sem o santo.

Para a beata Santinha os calores continuaram, mas ela já não está mais tão indignada. Dizem até que conseguiu uma réplica em silicone. Menor, é claro.

O Professor deixou o magistério e se dedicou à Ufologia. Mas ainda não tem melhores explicações sobre o visitante. Quando indagado, e sabedor das proibições que envolvem o assunto, filosofa sua dúvida:

- Falo ou não falo, eis a questão!




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domingo, 17 de maio de 2015

O QUE QUER QUE EU FAÇA >> Eduardo Loureiro Jr.

As pessoas ficam com raiva de mim porque eu não faço o que elas querem que eu faça. E eu as compreendo. Eu também faço a mesma coisa. Eu também fico com raiva de mim porque não faço as coisas que eu mesmo quero que eu faça.

Fico com raiva de mim porque não acordo às 5 da manhã. Eu gostaria que eu mesmo saísse de casa ainda no escuro, fosse até a praia e observasse o nascer do sol. Eu tenho raiva de acordar muito depois de o sol ter nascido e de não ter coragem nem de sair da rede. Tenho raiva de ficar me espreguiçando. Tenho raiva daquele pensamento quase diário: "Mais um dia? Que saco!"

Tenho raiva de mim porque não medito ainda de manhã, antes de qualquer trabalho ou contato social. Sei que é bom para mim, sei que me trará um dia mais positivo, mas não faço. Prefiro ligar logo o computador ou o celular.

Tenho raiva por não cozinhar algo mais saudável para almoçar. É sempre o mesmo macarrão com molho de tomate, creme de leite, atum, orégano e alcaparras. Eu poderia aprender a fazer alimentos deliciosos e saudáveis, mas sempre repito a mesma coisa.

Eu me odeio por ter 44 anos, quase 45, e ainda não ter uma profissão definida. Sou professor. Sou astrólogo. Sou facilitador de Pathwork. Sou escritor. Mas não sou nada disso. Não tenho vínculo, não tenho estabilidade, não tenho constância. E não estou falando apenas de questões burocráticas, institucionais. Não tenho sequer constância interna. Passo um ano sendo professor mais intensamente, e me dá vontade de passar dois anos de férias.

Também sou zangado comigo mesmo por não andar de bicicleta todo dia. Eu tenho uma bicicleta. Em minha cidade, há um sistema de bicicletas compartilhadas. Mas só ando de bicicleta uma vez por semana. Sei o bem que me faz, sinto meu corpo exultar de alegria cada vez que ando de bicicleta, mas não pedalo diariamente.

Sexo então? Tenho vontade de me espancar quando penso em minha atividade sexual. Faço cocô duas vezes por dias, três até, mas fazer sexo duas vezes por semana é uma meta difícil de ser cumprida. Sei que deveria: faz bem para mim, para a parceira, para a relação, para o planeta, para a camada de ozônio, mas para mim é um esforço excruciante.

Me odeio também pela minha comunicação com parentes e amigos. Tenho muitas e muitas pessoas que amo do fundo do meu coração, mas cadê que ligo para elas? Não falo com minha mãe diariamente, falo pouquíssimo com meu pai, converso quase nada com minha sobrinha mais velha, sei de minhas irmãs bem menos do que gostaria, praticamente não brinco com meus sobrinhos mais novos, encontro com os internos do pátio e do peito no máximo uma vez por mês, faço contato com a maioria dos meus amigos uma única vez por ano (e a maioria por escrito, no dia do aniversário). Sou o mais desprezível parente/amigo que conheço.

Quanto ao peso, eu poderia pelo menos sair da zona de sobrepeso e chegar aos 72kg. Mas não, eu insisto em brownies, leite condensado com Nescau, milk shake, coxinhas, baldes de pipoca e outras guloseimas farinhadas e açucaradas.

A lista é longa, longuíssima. Não quero aborrecer o leitor, que queria que eu escrevesse uma crônica leve, breve e bonita. Então menciono um último objeto de raiva de mim mesmo...

Eu gostaria muito de ser como as pessoas que têm raiva de mim. Porque, até onde posso ver, são pessoas que conseguem fazer com que elas mesmas façam aquilo que elas acham que deveriam fazer. Deve ser irritante para as pessoas que fazem o que querem, que têm sucesso em tudo que determinam para si mesmas, ter de conviver com uma pessoa como eu, que não dá conta de fazer nem o que quer, quanto mais de fazer aquilo que as outras pessoas querem que eu faça.

Eu sou um estorvo para mim mesmo. Um estorvo para os outros. Um estorvo para você, caro leitor, que acabou de ler uma crônica desagradável. Você pode me odiar por isso. Eu também me odeio por isso. O que quer que eu faça? O que quer que eu faça não é tão bom quanto aquilo que eu deveria estar fazendo.




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sábado, 16 de maio de 2015

ATÉ QUANDO? >> Sergio Geia


No meio de arbustos, flores e capins da simpática pracinha, eis que me surge à visão nada mais nada menos que ele. A ficha caiu quando me deparei com a sua silhueta: poxa, faz tempo, hein? Tudo bem que ele está diferente depois do banho de loja: não tem mais aquele logotipo azul da Telesp, nem a cor alaranjada dos tempos em que a Banda de Ipanema era apenas um bloquinho liderado pelo pessoal de “O Pasquim”, mas na essência é ele: a mesma orelha bojuda, a mesma cintura, a mesma perna esguia, o mesmo folião de sempre. Só que muito menos requisitado, isso sim, pela moçada pós-moderna chegada num celularzinho.

Nem sei ainda como ele não se abraçou às remingtons, vinis, leiteiros, limpadores de chaminés, e tudo o mais que foi comido pela modernidade, pra tomar a Sapucaí num demodê desfile de escola de samba de fazer inveja às Tijucas, Portelas e Salgueiros da vida. Aliás, no quesito vinil, tenho uma coleção aqui em casa e, diferente de muita gente, não me desfaço dela por nada. Ainda acho que vou encontrar uma vitrolinha modernosa para tocar Nuvem Passageira, do Hermes de Aquino.

Pois descobri, amigos, que uma chinesa naturalizada brasileira, uma arquiteta, a senhora Chu Ming Silveira, foi quem criou a cápsula de formato oval que o brasileiro, num bullying rasgado, alcunhou de “orelhão”. Por falar em bullying, lembro-me de um amigo com orelhas de abano que sofreu horrores nas mãos de um outro que vivia pedindo ficha pra galera, com a desculpa que queria fazer uma ligação no orelhão da Telesp.

Mas os telefones públicos quebraram o galho de muita gente. Uma ex-namorada, por exemplo. Eu a via na esquina e sentia o Ártico se apoderar do meu estômago. Estava em casa e quando atendia ao telefone, não via a hora de a ficha cair. E ela caía, literalmente.

Aliás, a expressão linguística “cair a ficha” tem origem aí. Ao completar uma ligação num telefone público, uma ficha metálica caía, e se você quisesse falar mais, tinha que ir inserindo fichas; terminava o tempo da primeira, o aparelho comia a outra, e assim sucessivamente. Se a ligação não fosse completada por algum motivo, a ficha era devolvida (nem sempre). Se as fichas acabassem, ao término do tempo da última, a ligação era cortada. Isso no tempo das fichas metálicas, até serem substituídas pelos cartões. Mas a expressão “cair a ficha”, metaforicamente, tem esse sentido: o momento em que você passa a entender uma questão.

Fico pensando até quando esses pândegos vão continuar por aí misturados à paisagem urbana. Meus filhos nunca vivenciaram a experiência superior de falar na orelha bojuda de um telefone público. Se bem que, deixando o romanesco na avenida, acho que não perderam grandes coisas. Muito menos fichas.
 
Ilustração: Joan Miro, Carota, c-1978

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sexta-feira, 15 de maio de 2015

20 MINUTOS >> Paulo Meireles Barguil


A depender da situação, 20 minutos podem ser muito ou pouco tempo.
 
Se o que você está fazendo é legal, 20 minutos são uma brisa: suave e fugaz. Quando você começa a desfrutar o evento, ele acaba.
 
Se, todavia, a atividade não lhe é prazerosa, 20 minutos são um tornado: violento e demorado. Você tenta de tudo para apressar o fenômeno, mas ele parece que irá durar para sempre.

Em 20 minutos, dá para dançar com alguém (ou sozinho mesmo!), tomar banho de piscina ou de cachoeira, ouvir algumas músicas preferidas, tomar sorvete com 3 bolas e cobertura, conversar com quem se gosta, andar de bicicleta, ler algumas páginas de um livro, passear na beira do mar, assistir trechos de um filme...

Cada pessoa tem um relógio, que funciona de acordo com lembranças – inclusive, e principalmente, as esquecidas! – e sonhos.

Nessa perspectiva, uma pessoa é um portal, que liga, sem cessar, o passado ao futuro.

Desconfio que, na verdade, nem existe passado e futuro, mas um eterno presente...
 
O que você faria se tivesse agora 20 minutos?
 
Eu escrevi essa crônica.
 
Aproveite bem os seus próximos 18 minutos e 25 segundos...


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