quinta-feira, 27 de julho de 2017

HASHTAG GRATIDÃO>>Analu Faria

Já tem um tempinho que a palavra "gratidão" ficou pop. Na internet, usar  #gratidão, então... nem se fala! Eu achava que a maior parte das pessoas que usava a expressão não sabia bem o que estava dizendo. Talvez não saiba mesmo. O fato é que eu mesma não usava a palavra, porque poderia muito bem dizer "obrigada" no lugar de "sou grata" - "gratidão", para mim, era modinha.

O grande problema com as palavras que "pegam" é que seu sentido talvez se esvazie rápido demais. Exatamente como os clichês. Mas também como os clichês, essas palavras da moda podem ter "pegado" justamente porque não há outras que exprimam melhor o que se quer dizer. O clichê é clichê porque é batido, mas ele também é quase sempre uma verdade. Talvez seja o caso com "gratidão". 

Dia desses, encontrei um "exercício de gratidão" enquanto passeava pela internet. "Diabéisso?" - pensei. "Lá vem a modinha". Curiosa como eu sou, acabei fazendo. Era uma espécie de meditação, não requeria esforço nenhum, então ah, sei lá, por que não, né, amigos?

Não vou entrar em detalhes do tal exercício, mas vou dizer que "senti" a gratidão, talvez pela primeira vez na vida: uma noção de que o mundo está cheio, de que a vida é, por si mesma, um sem-fim de possibilidades, de que todos os espaços dentro e fora, entre mim e o mundo, entre as coisas e as pessoas, entre as ideias, no meio das pedras, nos milímetros de terra entre as gramas, nas rodovias desertas, na distância entre as bocas que estão prestes a se beijar, tudo, tudo, está cheio, preenchido, pleno. 

Terminei o exercício entendendo porque às vezes não é possível usar outras palavras, ainda que queiramos. Eu não consigo chamar essa experiência de outra coisa a não ser "exercício de gratidão". Talvez o mais próximo que eu chegue de denominá-lo de algo inteligível seja dizer que foi um "exercício de foco na plenitude da vida"  (horrível). Tampouco consigo usar outra palavra para exprimir o sentimento dessa completude das coisas a não ser "gratidão". Pode ser modinha, pode não ser. Para mim, mudou a cor do dia a dia e isso basta. Vai ter #gratidão, sim. E, se reclamar, vai ter mais.




Partilhar

quarta-feira, 26 de julho de 2017

DESADORMEÇA >> Carla Dias >>


É fim do mundo.

Muitos já encheram seus varais com roupas que não mais serão usadas, em uma última tentativa de desacreditar esse fim. Outros saíram de casa desprovidos do peso da volta, bêbados de agonia.

Abandonar é coisa do fim do mundo. Enlouquecer é coisa do fim do mundo. Insistir que tudo é mentira, coisa do fim do mundo.

Ele não corre, aos berros, exigindo que Deus conserte essa besteira de fim do mundo. Ele não folheia livros sagrados, estapeia as próprias faces, despe-se das roupas como se estivesse a se despir dos seus demônios. Ele não entra no seu carro para matar aquela vontade ilegal de correr a 200km/h no centro da cidade.

Ele é um ponto pacífico desfilando pelo caos. Um inseto orbitando o impossível sendo digerido pelos seus semelhantes, cada qual com sua histeria. Percebe a cadência dos seus passos? Quem se desapega da pressa durante o fim do mundo?

A menina chora com a violência do desamparo. Perdeu-se dos seus, bem se vê. É criança à beira do precipício, gritando pela mãe, pelo pai, pelo vizinho, por qualquer um que a reconheça. A urgência em ser reconhecida faz seu choro ecoar em amargura intrépida. Ela se debate, como se sapateasse, durante uma crise de birra de criança mimada.

Fim do mundo até nos faz sentir falta de birra de criança mimada. E de bobagens que, em outras circunstâncias, nos tirariam do prumo. Caso fosse possível sobreviver a esse fim do mundo, seria necessário revermos nossa capacidade de deixar para lá. De relevar e tocar em frente.

Ele desfila pelo fim do mundo, os braços gingando ao lado do corpo, os cabelos dançantes. Essa figura se destaca pela sua total incapacidade de perceber o fim. Aquela tranquilidade, os outros adorariam senti-la agora, porque durante o fim do mundo os barulhos são assombrosos, as vozes guturais, o silêncio não é apenas quebrado, mas é o primeiro a deixar de existir. Alguns declaram seus pecados aos estranhos que foram educados a ignorar, enquanto os abraçam em abraço que irá durar até o fim deles.

Durante o fim do mundo, as diferenças se perdem.

Ele pega a menina no colo, diz algo em seus ouvidos e ela se acalma. O mundo acabando e ele acalmando um espírito oriundo do abandono forjado pelo fim de tudo, de todos, do mundo. A menina enrosca braços no pescoço dele, deita a cabeça em seu ombro. Acalma-se ou aceita que para o fim do mundo não há jeito, trato, negociata, promessa que o revogue. Até os milagres não superam tal desfecho.

Não há moral da história. Fim do mundo não pede por conclusão, já que é a própria, e não sobrará pessoa que seja para debater seu significado. Mas que fica a certeza de que melhor é acabar em abraço, não há como contestar.

Como narrador desse sonho, posso dizer que mesmo o fim tem seus percalços. Basta um indivíduo que teime em não acreditar nele, que faça de tudo para não precisar encará-lo. Não provocar o fim é o que nos mantêm aptos aos começos e recomeços.

Como quem sonha esse sonho aflitivo, esse caos de fim do mundo é resumido em apenas uma palavra: saudade. A saudade que a menina, a sonhadora oficial desse fim do mundo, sente de seu irmão, aquele que é seu pai, seu provedor, seu fugitivo de fins do mundo.

Ele continua sua caminhada rumo a lugar nenhum. A menina começa a cantar uma canção qualquer sobre abelhas e ursos. O mundo chegando ao fim com trilha sonora pueril.

Ironia é coisa do fim do mundo...

Até que o despertador faça a sua parte.

Imagem © Vito Campanella

carladias.com



Partilhar

terça-feira, 25 de julho de 2017

O MUNDO PELOS OLHOS DAS CRIANÇAS >> Clara Braga

Outro dia assisti à um vídeo que foi muito compartilhado nas redes sociais. Alguns pais de família eram entrevistados e deveriam responder com quem eles gostariam de jantar caso pudesses escolher qualquer pessoa no mundo. 

Confesso que passaram milhões de pessoas na minha cabeça. Com quem eu gostaria de bater um papo? Poxa, são tantas pessoas! Adoraria conhecer a Joss Stone, conversar com os Hanson, perguntar para a Adriana Falcão de onde ela tira tanta inspiração para escrever seus livros, dividir um belo prato com ícones da música brasileira, me divertir com as histórias de Ariano Suassuna, afinal, se pode qualquer pessoa também pode aqueles que já se foram. Enfim, essa mini lista não é nada, tem um monte de gente que eu adoraria conhecer: grandes pintores como Frida e Picasso, cineastas como Woody Allen devem ser divertidos, Tim Burton deve ter um papo para lá de curioso, já consigo começar a imaginar a personalidade dessas pessoas que me passam pela cabeça.

Conforme ia assistindo ao vídeo e pensando em várias pessoas com quem eu jantaria, chega a hora dos entrevistados serem os filhos. Eles deveriam responder a mesma pergunta, quem eles levariam para jantar caso pudessem escolher qualquer pessoa no mundo? A resposta foi simples e unanime: meus pais ou então minha família!

O vídeo é um soco no estômago, bem emocionante. Mesmo sabendo o resultado já assisti ao vídeo várias vezes e em todas termino me questionando a mesma coisa: em que momento de nossas vidas nós perdemos esse olhar inocente das crianças que tanto admiramos e que depois passamos o resto da vida tentando recuperar? 


Partilhar

segunda-feira, 24 de julho de 2017

CORAGEM! EU ESTOU AQUI - final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 10/07/17 – Zé do Porco não reclamava da miséria na roça, até porque não conhecia outra vida. Mas como não era ele quem decidia nada, acompanhou a namorada e o amigo Magrelo numa aventura pelo Rio de Janeiro. Pensou que as coisas iam bem pela quantidade de trabalho, mas enganou-se.)

 - As coisas tão ruins, Zé. Dinheiro só dá pra pagar, sobra nada. O porco em pé tá muito caro e, na hora de vender, não querem pagar muito. Os frigoríficos vendem mais barato e com documentos, certificados.

Zé largou o prato, perdeu a fome - coisa que raramente o abandonava.

- Pensei que ia bem, com tanto trabalho! – gemeu.

- Hoje mesmo tive que vender o cordão com Nossa Senhora que a minha mãe me deixou.

- Não Magrelo! Tu não pode fazer isso. Aquilo é lembrança de mãe!

- Que se há de fazer, Zé? Já foi.

Zé do Porco continuou trabalhando no mesmo ritmo, apesar da tristeza. O trabalho espantava os pensamentos. Não ligava se voltassem pra roça. Pra ele aquilo não era ruim. Mas tinha pena dos outros, que não gostavam de lá.

O que Zé do Porco não sabia era que a tristeza não parava por aí. Dessa vez foi Nalva que trouxe mais.

- Zé, eu vou-me embora. Não tô gostando mais de tu nem dessa casa. Também não vou voltar praquele fim de mundo não. Arrumei serviço de doméstica e vou ficar pelo Rio mesmo. Já peguei minhas coisas, viu? Adeus, Zé!

Zé nem falou nada. Queria dizer, “mas Nalva a gente tá junto há tanto tempo, o que que eu te fiz?” Mas não conseguiu.

Matou-se no trabalho mais um tempo, até que Magrelo falou:
- Dá mais não, Zé. Tamo pagando pra trabalhar. Hoje liquidei umas contas e vou entregar a casa. Vou voltar pra roça mais não. Não tenho paciência praquela vida. Arranjei trabalho no mercado e posso dormir lá no armazém. Infelizmente não dá pra tu não. Tem que saber ler e escrever. Tu dá lembrança a todos por lá e diz que quando der eu vou visitar. Tá aqui o que sobrou de dinheiro, fica com mais. Vou ficar com esses trocados aqui pra me virar até o pagamento. Dê cá um abraço, Zé. Nós vamos continuar irmãos.

Magrelo saiu sem ver as lágrimas do Zé amarrando a trouxa. Nem ferramentas levou de volta. No ônibus ainda suspirava comprido, olhando a estrada.

Lá nos cafundós do Jequitinhonha, Zé do Porco definhava. Foi Seu Aristides que aconselhou:

- Mulé, depois que desgosta da gente, a gente não corre atrás não. Mas amigo é diferente, Zé. Tu tá sem jeito aqui sem ninguém. Vai ver como está se virando Magrelo por lá. Quem sabe tu arranja trabalho também? Nunca vi morrer de fome quem quisesse trabalhar. Aqui tu vai morrer de desgosto.

Partiu Zé naquela noite mesma.

Chegou ao Rio com o sol. Perguntou ao antigo senhorio se sabia do seu amigo Magrelo.

- Em frente à Matriz, no açougue.

Então arranjou trabalho em açougue? Não há de ser cortando carne, que não sabe!

A primeira coisa que Zé do Porco viu foi Nalva, estendendo camisa de homem no terraço do sobrado, de cabelo louro. Conheceu só pela voz, porque ela cantava uma modinha que ele escutou muitas vezes antes.

Dali a pouco, um empregado levantou com estrondo uma das três portas de aço. Outro caixeiro colocou na calçada o cavalete com a promoção do dia, mas Zé não sabia ler.

Lá no fundo, atrás da registradora, Magrelo gritava ordens e xingamentos aos empregados. Os ouvidos do Zé escutavam, mas a cabeça já não entendia nada.

Não havia gente na rua nem cliente no açougue àquela hora. Os empregados foram para os fundos. Já atrás do balcão, Zé escolheu a faca de lâmina fina que reconheceu como sua preferida. Reconheceu também o cordão com a Nossa Senhora no peito do Magrelo de camisa aberta. “Ué, não tinha vendido?”

Magrelo levou um susto quando a faca entrou abaixo do esterno. Arregalou os olhos.

- Zé!

Foi um  trabalho limpo, de quem sabe fazer. Uma leve torção de punho. Tudo por dentro. Nada de sangue pela boca nem esguicho na faca.

- Vai doer nada não, Magrelo. Eu sei fazer isso.  – disse Zé com uma ponta de orgulho profissional. – Coragem! Eu estou aqui – acrescentou.

Segurou com a mão livre o ombro de Magrelo e encostou sua testa na dele durante alguns espasmos. Até que o amigo se acalmou e fechou os olhos.


Partilhar

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A CRIANÇA FERIDA E A CRIANÇA ILESA >> Paulo Meireles Barguil

Uma estimada leitora me enviou, na semana passada, sucinta postagem sobre a criança ferida, tendo em vista que, há mais de uma década, conversamos muito sobre isso.

Embora o texto fosse bastante interessante e pertinente, pois esclarecia o quanto as nossas experiências frustradas na infância deixam marcas profundas no nosso crescimento emocional, atônito, percebi o quanto eu, durante anos, acreditei, desenvolvi e divulguei um olhar baseado apenas na falta.
 
Sim, essa perspectiva é parcial, assaz tendenciosa, uma vez que enfatiza e valoriza o que não foi satisfatório ou agradável.
 
E os momentos saudáveis?
 
Se estamos biologicamente vivos é porque recebemos o mínimo de afeto para prosseguirmos na nossa jornada.

Não tenho a pretensão de refutar, nem de analisar o impacto das feridas do passado nas escolhas que fazemos, as quais, por vezes, perpetuam o sofrimento, a despeito do nosso discurso de vítima, que soa vigoroso e convincente, mas que revela, de modo categórico, para um ouvinte sensível, o quanto estamos desconectados da criança ilesa.
 
Sim, ela também está intacta!
 
Antes que alguém me alerte que a ausência da consciência desse vínculo é fruto das mazelas pretéritas, eu ouso contestar e declarar que ele não é vivenciado também porque não temos nos dedicado a entender e a celebrá-la da mesma forma como fazemos com a outra.

Uma estratégia  ardilosa da criança ferida é se fantasiar de criança ilesa, na tentativa de que todos, inclusive ela, acreditem que a primeira não existe, apenas a segunda.
 
Ciente sou de que muitas pessoas tentam esconder, de si e dos outros, as suas chagas, de modo especial por não terem recebido, na quantidade e na qualidade por si desejadas, o afeto, o cuidado dos seus responsáveis.
 
Então, vagueiam em florestas urbanas, repletas de zumbis e outras entidades, com a esperança de aplacar seu sofrimento emocional, mediante aplausos, flashes, sorrisos efêmeros, likes e drogas similares ou ainda mais nefastas, pois que degradam corpo e alma.

Como diferenciar uma da outra?

Ah, é bem fácil...

Enquanto uma reclama e fala mal dos outros, a outra agradece e exala amorosidade.

Enquanto uma julga e exclui, a outra compreende e acolhe.

Enquanto uma guarda mágoas e planeja vingança, a outra distribui perdão e emana compaixão.

Enquanto uma vive com fome e acumula, a outra está saciada e partilha.

Enquanto uma está no passado e no futuro, a outra está no presente e na eternidade.

Esclareço que essas realidades não são estanques, definitivas, pois, conforme a Física Quântica explicou no século passado, ondas e matéria são possibilidades da energia.

A criança ferida é a criança ilesa.

Cada um de nós pode vibrar em um padrão ou em outro...

Se você hoje, adulto, não consegue identificar, dar atenção e priorizar a sua criança ilesa, com quem convive ininterruptamente, será que é sensato esperar que outra pessoa, com sua criança ferida, o faça por você?
  
A vida convida você, diariamente, a reconhecer que ambas existem, bem como a assumir a responsabilidade para que elas se (re)encontrem e possa acontecer uma fusão psíquica de imensurável potencial amoroso.

Percebo, com muita alegria, que, cada vez mais, as crianças ilesas estão brilhando.


[Grato sou a Aídda Pustilnik e Cipriano Carlos Luckesi, que, há mais de duas décadas, desenvolvem a deslumbrante vivência Curando a Criança Ferida dentro de nós, a quem dedico essa crônica]


Partilhar

quarta-feira, 19 de julho de 2017

QUEM SOU É UM MISTÉRIO QUE NÃO SEI RESOLVER >> Carla Dias >>


Quem nunca viu essa cena em algum filme, em uma contemplação forjada pela casualidade, até mesmo como protagonista da mesma? Porque encarar a si no espelho é rotina. Banhar o rosto, faxinar os dentes, alinhar os cabelos. Perceber o que incomoda e o que apraz.

Hoje, porém, minha rotina parece funcionária do improviso. Percebo-me de um jeito outro. Não me importo com as tarefas usuais de quem se olha no espelho às seis da manhã, enquanto se prepara para o trabalho. Não tento fazer de conta que não percebi os incômodos tatuados em meu rosto pelas marcas de feição, tampouco a opacidade que tomou os meus olhos. Meus dentes desaparecidos em uma boca que se nega a se arreganhar em sorriso. Meus cabelos, seus desgrenhados absolutos, não faço ideia de como o alinho se comportará diante de sua revolta.

O problema é que sinto saudade imensa de mim. Os amigos dizem que é saudade infundada, que não há como sentir falta de quem se é. Eu entendo a gentileza deles, mas ando mais curioso a respeito da aridez de seus verdadeiros pensamentos. Eu sei que eles se cansaram dessa minha espiral de silêncios, suspiros de duração absurda, desejo de fechar os olhos e dormir para acordar daqui a uma década. Todos esses itens que compõe a lista do que atalha a alegria alheia.

Nada mais justo do que me retirar, o que nem foi assim tão difícil. Para quem sente saudade de si, com tal violência, ausentar-se do outro é apenas questão de baixar o olhar e seguir em frente. Assume-se assim a culpa pelo ocorrido, deixando os abandonados com a sensação de que tentaram tudo, mas foi impossível salvar ser tão dedicado ao erro. Já que culpá-los nunca foi meu desejo, deixá-los infelizes pela convivência unilateral, também não, recolho-me.

A saudade que sinto nem é de uma história que já vivi, para a qual rumino o desejo impossível por outro desfecho. Não é sobre o que faria se tivesse escolhido aquilo, em vez daquilo outro. Não é saudade do que fiz, mas de mim. Não é saudade de quem fui, mas de mim.

Saudade dessa pessoa que sou e ainda não conheci.

Imagem: Landscape from a Dream © Paul Nash

carladias.com

Partilhar

sábado, 15 de julho de 2017

UM SENTIMENTO >> Sergio Geia



A primeira vez aconteceu quando fui levar meu filho pra prestar vestibular no Mackenzie. A faculdade fervia de gente. Os jovens conversavam, fumavam, se beijavam, até que deu o horário e o pátio ficou vazio. Fui então andar. O Mackenzie é bastante arborizado, com bancos para as pessoas sentarem, numa espécie de praça privada bem bucólica numa escola em pleno centrão de São Paulo. Tem o Starbucks, uma praça de alimentação com o Bob’s, o Pão de Queijo, o Rei do Mate, um bom espaço pro aluno estudar, biblioteca, o Itaú. Foi quando o esperava terminar a prova, a faculdade enchendo de novo, os jovens chegando, saindo, alguns de terno, outros tatuados e com cigarros entre os dedos, que o pensamento bateu: “Puxa, no meu tempo não tinha isso. Ou, se tinha (e tinha), eu que não fui atrás. Me contentei com a vidinha controlada e estreita de sempre”.
Outro dia descobri o Oasis. Primeiro, uma amiga me emprestou uns CDs, alguns do grupo britânico. Já conhecia a Wonderwall, que tocava num programa de esportes da televisão. Num domingo de chuva, em casa, fiz o almoço tomando uísque e assistindo a um show deles, em Manchester. Eles tocaram Stand by me e as guitarras de Stand by me me acertaram num lugar que me levou a nocaute; fiquei vidrado. Depois rolaram Live Forever, Don’t look back in anger, Go let it out, Supersonic, não exatamente nessa ordem. Descobri que eles já estiveram no Brasil, em São Paulo, Rio, Curitiba, Porto Alegre; em 2001, tocaram no Rock in Rio. Descobri entrevistas dos irmãos Liam Gallagher (vocalista) e Noel Gallagher (compositor da banda e guitarrista) com o Zeca Camargo para o Fantástico; uma em 1998, outra em 2009. Descobri que a cada show que assistia, mais eu gostava; era uma musicalidade que me dizia coisas, que me tocava fundo. E finalmente descobri que os irmãos Gallagher brigaram e que o Oasis não existe mais. Aí o pensamento bateu de novo: “O que eu tava fazendo no final da década de 90 e início do 2000? Onde eu estava com a cabeça? Como não descobri o Oasis a tempo de curtir um show em Sampa? Como descobri esse som somente agora, quase oito anos depois do fim da banda? Eu estou é muito atrasado.”
Comecei com House Of Cards essa coisa de séries; confesso que nunca curti muito uma série, nem conto ou crônica; nem poesia. Sempre preferi os longas, e, nas livrarias, Roth, Coetzee, McEwan, Tezza, Hatoum, romances, romances, romances. Mas ouvia o pessoal falar, comentar, que insisti e acabei me jogando de cabeça em Breakin bad. A história do professor de química, sujeito comum, inexpressivo, com sentimento de inferioridade, mas gênio, condenado à morte por um câncer no pulmão, e que passa a produzir metanfetaminas, se tornando um dos maiores produtores da droga dos Estados Unidos. Depois descobri que a série é de 2008, que passou no Brasil até em tevê aberta, e eu, nada. Tá, eu sempre dei de ombros para as séries, e, convenhamos, ela só começou a passar no Brasil em junho de 2010 pelo canal pago AXN.
Tudo bem, mas e o que o Mackenzie, o Oasis e as séries têm em comum? Eu. Na verdade, não necessariamente eu, mas um sentimento que brota de vez em quando e que me diz que eu tenho um problema, digamos, de natureza temporal, e de que estou virando meu nariz sempre no tempo errado e pro lugar errado. E uma sensação de que isso é péssimo. E uma sensação de que a vida tá passando e que ela é muito rica pra ser desperdiçada assim. E uma sensação estranha que me remete a um carro que vive andando em marcha à ré. E uma sensação de que sou incapaz de encontrar a sintonia fina do hoje.
Decerto agora, agorinha mesmo, uma cena está rolando (na verdade, milhões de cenas estão rolando em todos os lugares), que seria fantástico conhecer, mas eu tô aqui fazendo um tour pela memória, acarinhando a incúria que o Mackenzie me desperta, vibrando com o Oasis, assistindo séries de 1995. O que tá rolando agora eu vou descobrir quem sabe daqui a uns vinte anos. Quem sabe...


Partilhar

sexta-feira, 14 de julho de 2017

O AMOR ENTRE O JASMIM E O MAR >> Zoraya Cesar

Ela entrou, elegante, charmosa. Não era jovem. Chegara àquela idade em que as mulheres tornam-se invisíveis aos homens comuns, interessados apenas em pernas, carnes e coxas. Ela, porém, não era mulher para homens comuns. 

Era para ser apreciada ao som de música clássica nas noites de frio, íntimas, quando as vozes ficam baixas e os toques são suaves; ao som do jazz de New Orleans nos dias de verão, alegres, quando as vozes tilintam ao borbulhar do champagne. Uma mulher de classe. Uma mulher para a vida inteira.

Pequena, rechonchuda, lisos cabelos castanhos cortados estilo Chanel. O vestido cinza chumbo, o casaco de lã azul, os escarpins e bolsa pretos, o andar, os maneirismos, tudo nela era pura elegância. Uma bonequinha, não de luxo, mas de outono. No rosto gentil, a maquiagem realçava a beleza, sem tentar esconder os traços do tempo, deixando que as rugas se expressassem livremente. Uma mulher sem artifícios. 

Ela entrou, pois, no restaurante; este, uma raridade não encontrada em qualquer lista de estabelecimentos, sequer no Google. Um clube seleto, criado por um grupo de amigos e aberto apenas para os sócios e seus convidados. Um lugar para encontros secretos, de amor ou de negócios, ou, simplesmente, para fugir do mundo, descansar, apreciar a vista e a boa comida em silêncio. 

A iluminação era natural, vinda das largas janelas pelas quais se via o mar, o céu e o infinito. O salão, amplo, decorado como um convés de alto luxo; havia doze mesas, espalhadas de forma a que não se ouvisse a conversa entre os clientes de uma mesa para outra. Podia-se circular sem receio de esbarrar em outrem. Serviço de linho e prata, copos de cristal e, ao fundo, a voz suave de Sam Cooke. 

De repente, as faces da mulher se rosearam, fazendo-a parecer uma menina. Com as rugas, o ligeiro sobrepeso, as vicissitudes da vida – ainda assim, uma menina. Uma menina feliz. 

Ao fundo do salão, um homem se levantara. Tinha, pelo menos, dez anos a mais que a mulher. Os cabelos brancos, cortados rentes à escovinha, encimavam um rosto severo e sofrido, no qual se viam as marcas típicas de quem trabalhou durante anos ao ar livre. Alto, espadaúdo, forte, um homem no inverno da vida, mas ainda em plena forma. Sua postura ereta e seu porte não deixavam dúvidas de que fora militar. Tudo nele transmitia poder e segurança. Um forte, dir-se-ia, de quem o tempo e o destino não tiveram muita clemência. 

E eis que, ao vê-la, ele, também, rejuvenesce, o coração cheio das esperanças de quem tem a vida toda pela frente, confiante de que sempre terá as mãos da mulher amada entre as suas. Disciplinado por toda uma vida, só Deus sabia o quanto lhe custou não correr até a mulher e apertá-la em seus braços, nunca mais deixá-la ir. Aguardou, silencioso e firme, que sua dama chegasse, flutuando, à mesa. 

Mergulharam nos olhos um do outro por tempos infindáveis, apreciando o momento único, o perfume, as covinhas no rosto, os olhos azuis-céu da manhã, a delicadeza dela; o cheiro de sol e mar, as sobrancelhas hirsutas e graves, a força dele. 

Ele beijou-lhe a mão, longa e apaixonadamente, puxou a cadeira para que ela sentasse. O maître trouxe os pedidos antes mesmo de ser chamado, sabendo bem as preferências de cada um.

Durante todo o almoço conversaram em voz baixa, olhando-se, sorrindo, e, de vez em quando, entrelaçando as mãos suave, suave, suavemente, como temerosos que, a um gesto mais brusco, o outro se desvanecesse, como uma ilusão. Não havia dos arroubos típicos dos apaixonados, só contentamento intenso, profundo, gratos por estarem, mais uma vez, juntos. 

Ao terminarem, ele acenou sutilmente para o maître, que, logo depois, veio à mesa, avisar que o carro da senhora havia chegado.

Um gentleman até a última célula, até o final dos tempos, ele a acompanhou e, mesmo não precisando, olhou para o motorista como se dissesse:“Essa pessoa é muito preciosa para mim. Cuide que ela chegue em segurança, ou é comigo que você vai se haver”. E tenham certeza que o motorista sabia disso. 

Antes de ela entrar, o homem segurou-lhe ambas as mãos, os olhos cheios de mar e solidão. Ela se soltou, mais gentilmente que uma fada, e passou os dedos no rosto dele, puxando as lágrimas para si, como se dissesse não fique assim, meu Amado, as coisas são como são e nós temos a fortuna de, após todos esses longos anos, ainda nos vermos, tocarmo-nos, sentirmo-nos. Eu te amarei até o final dos dias, dos tempos, da eternidade. Não perca as esperanças. 

Quando ele perdeu o carro de vista, voltou para o restaurante. Ficaria a tarde ali, a pensar na sorte madrasta que o impedira de se unir à mulher de sua vida, no sofrimento dela quando obrigada a se separar dele, nos rumos estranhos que suas existências tomaram. Ficaria a tarde ali, a sonhar acordado com a possibilidade de, antes de morrer, passar um dia, um dia apenas, seu último dia sobre a Terra e o Mar, que fosse, ao lado de sua Amada da Vida Inteira, sem segredos, livres das amarras sociais, livres das responsabilidades familiares, livres.

Sentou-se de frente para o mar, seu outro amor. O maître pigarreou baixo, para chamar-lhe a atenção. Entregou-lhe um envelope, pequeno e perfumado a jasmim – o perfume dela! -, sussurrando, a senhora deixou isso sobre a mesa, creio que para o senhor. E afastou-se.

As mãos grandes e nodosas do homem abriram o envelope com a delicadeza de quem manuseia um bibelô de porcelana chinesa. Dentro, havia um bilhete, onde ele leu, com um sorriso escondido no fundo da alma:

- Um dia, em breve...


Sam Cooke
You're always on my mind







Partilhar