sexta-feira, 19 de setembro de 2014

TRANSFERINDO MEMÓRIAS >> Paulo Meireles Barguil



Assisti, semana passada, ao instigante filme O doador de memórias.

Uma história repleta de metáforas, as quais não irei aqui listar, pois retiraria de vocês a possibilidade de descobri-las.

Somos, todos, doadores e receptores de memórias, a maioria das quais ignoramos...

Precisamos dos rins para purificar o sangue. O Homem, para evitar a morte quando eles não fazem seu trabalho, inventou a hemodiálise.

Como limpamos as nossas emoções? Ou será que somos tão ignorantes para sequer perceber a influência delas no cotidiano?

Queremos a felicidade, mas desconhecemos os grilhões internos. Por isso, muitas vezes, projetamos, convictos, para fora a responsabilidade do nosso mal estar.

A Biopsicologia nos ajuda a entender as intricadas relações entre sentimentos, ações e pensamentos.

Sem esse conhecimento, o Homem segue desperdiçando energia em variados torpores, que se revelam fugazes e incapazes de conduzi-lo à tão desejada harmonia, a qual expressa a integração das suas dimensões.

Aceito, com cuidado, a missão de transmutar a herança recebida e partilhá-la, embora ainda pouco saiba sobre essa alquimia.

Divirto-me em pensar que as minhas memórias são tão antigas quanto as suas...

Um dia, quem sabe, elas se encontrarão de novo!

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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O PROTOCOLO DO CECÊ >> Mariana Scherma

Eu tenho total consentimento de que, enquanto estamos suando na academia, não exalamos necessariamente um cheiro de moranguinho ou amaciante de roupa. A coisa é um pouco bruta, sim (para uns mais que outros, vamos combinar), e apesar de os desodorantes se venderem como Incríveis Hulks contra a transpiração, eles não dão conta de segurar o pique vai-com-tudo da malhação, ainda mais no nosso verão que reina até no inverno.

Ok, dito isso, vamos ao dilema. Está difícil frequentar a academia, ou melhor, frequentar a academia respirando pelo nariz. Sei lá, mas, na minha opinião, respirar fundo enquanto você se mata na esteira não faz parte do item luxo. Isso porque existe um sujeito que já chega cheirando mal, mas não é aquele cheiro de depois da corrida, não, ele já chega açoitando as vias respiratórias alheias. É uma mistura aromática de gaveta com roupa mofada que não é aberta há alguns anos com uma pitada generosa de canil molhado. Tem gente que cheira a cachorro molhado, este cara cheira a canil lotado molhado. E se você acha que estou exagerando, vamos aos fatos...

Dia desses, postei no Facebook que era irônico sarar da crise da rinite e o primeiro cheiro que senti ser o do homem fedido. Pausa necessária: antes de julgar meu desabafo na rede social, é bom saber que não sou amiga dele, nem sei o nome do cara – preservação total da integridade. Mas o mundo é pequeno, um conhecido de academia leu e veio falar comigo, queria saber se eu estava me referindo ao tal fulano, porque ele concorda ser insuportável. Um outro amigo também veio me contar que agora é obrigado a fazer esteira longe da janela, por causa do tal homem, além das vezes em que não termina uma série de musculação quando ele aparece para usar um aparelho perto. Não está fácil pra ninguém, mas sinto mais dó desse sujeito, já que as esteiras ao redor dele ficam vazias – e olha que estão na parte mais ventilada da academia.

Quando vejo o cara por perto, passo rápido sem respirar. E só sorrio um oi a jato. Um dia, fiz isso e vi duas meninas vindo conversando animadas. A animação acabou quando elas passaram por ele. Só ouvi o comentário de uma: “eu engoli o cheiro enquanto falava. Credo!” e a outra fechou: “tem que passar rápido por ele, você ainda não percebeu?”. O cara é simpático e pode ser inteligente, bom papo, mas o aroma mofado está dificultando a vida social fitness dele. Quase um bullying adulto.

Todo esse dilema aí em cima por conta de uma dúvida: qual o protocolo a ser seguido quando a pessoa cheira mal assim, como o Pepe Le Gamba da malhação? Pensei em pedir para algum amigo, frequentador do vestiário masculino, jogar um papel na mochila avisando ao cara, mas é meio complicado todo o esquema – apesar dos benefícios imensos: pra mim e demais frequentadores e pra ele, que poderia fazer amigos. Ou jogar na caixa de sugestões da academia alguma promoção envolvendo ganhar desodorantes potentes nível Os Vingadores da Marvel, sabão em pó e amaciante de roupa cheirosinhos. Talvez descobrir o telefone dele e fazer uma ligação anônima em nome de todos os frequentadores da academia. Sei lá...

Muitas ideias, zero coragem. Enquanto isso, vamos todos nos embolando em um único lado das esteiras. De repente, ter crises sem fim de rinite virou um golpe de sorte. Em um mundo sem desodorante, água e sabão, tenho boas chances de sobreviver graças às condições das minhas vias respiratórias. Mas que é triste, isso é! 


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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

TRANSMUTAÇÃO >> Carla Dias >>


Foi uma criança inquieta, daquelas que cutucam chão de terra acreditando que chegará ao outro lado do mundo, e quando descobrem que não é bem assim, cutucam mais um pouco para ter certeza, que ingresso para o outro lado do mundo não anda dando sopa por aí.

Sua inquietude não vem somente de uma infância de liberdade plena. Até porque não tardou para que ele descobrisse que a tal liberdade plena, na verdade, era abandono de incapaz. É que sempre foi assim mesmo, moleque de olhar baixo, desviando de grupos, ficando sozinho com suas divagações, desacelerando na corrida do dia a dia. O pai, mais de muitas vezes, chamou-lhe de inválido, o que, mais tarde, ele compreendeu que uma palavra aplicada de forma equivocada pode virar o jogo da vida. O pai só queria mesmo era chamá-lo preguiçoso, que nunca foi bom nas performances de semáforo. Então, aborrecia-se fácil, achava um jeito de sumir da avenida e das vistas.

Aliás, ele nunca teve a vista boa. Enxergava ralinho do olho esquerdo, por conta de um acidente caseiro, que nem vem ao caso, que ele era tão pequeno quando aconteceu que prefere o esquecimento. Foi essa visão, que uns tantos diziam ser limitada, que lhe ensinou os olhar atento que, posteriormente, inspirou-lhe o olhar atencioso.

A mãe era uma dona grandalhona, de voz miúda, que contava histórias horríveis, das violentas, mas com um tom calmo, um ritmo arrastado, o que fazia com que as pessoas a escutassem como se estivessem assistindo à novela, e não escutando detalhes sobre um fato. Aliás, não havia mulher no bairro que soubesse mais que a mãe dele, a detentora dos detalhes. Bem mais tarde, ele ficou sabendo que ela também era a autora da maioria dos atos vis que apimentavam suas histórias.

A curiosidade o levou à escola. Não a curiosidade sobre o aprendizado, mas sobre se a sopa servida de merenda tinha o sabor tão bom quanto o cheiro. Não tinha, mas de qualquer forma, era muito mais agradável passar o tempo com a cara na lousa e no caderno do de cara com seu pai, que ele veio saber, não tardou, era a matéria-prima do bullying.

Não fez amigos na escola. Fez uma amiga, menininha esquisita, que vivia resmungando que a vida era patética. Anos depois, ele compreendeu, assim, com a clareza que não falta nem mesmo a quem não enxerga como se deve, que tudo o que ela sentia era solidão. Não que a vida não fosse patética - e não foi preciso que ele esperasse muito para engolir esse sapo -, mas não era sempre. Não era uma vida essencialmente patética, mas como ele gostava de dizer: patética quando lhe cabe, pra ver se nos ensina a caber onde devemos.

Sua inquietude se tornou pontual, depois que foi viver sob a custódia do governo. Ensinaram-lhe muito, que, eventualmente, ele aceitou que era pouco para quem tinha o direito à felicidade. Não é isso que os cartões comemorativos dizem? E as cartas de amor, e os pais em potencial, que não lhe escolhem porque você não tem a cor, o corpo ou o cabelo certo? Os criminosos em plena captação de parceiros, os fabricantes de remédios, os amantes eventuais, os vendedores ambulantes?

Inquietude, para ele, é palavrinha curiosa. Talvez sua fama de melancólico, de pessoa que não sabe gargalhar, de quem perde um tempo valioso andando cabisbaixo, como se não fosse autorizado a cruzar olhares, não esteja de acordo com o que, certamente, ele acabaria por descobrir.

Ele chegou do outro lado do mundo. Cutucando o chão de terra, descobriu a paixão pela geografia. Com a sopa quente e perfumada, alimentou um futuro. Com o olho que não cabe no labirinto da perfeição, enxergou além. No abandono, nasceu companheiro daquela que, em nenhum momento, questionou a sua capacidade de ser feliz. E mais, ele viria a perceber, já adulto, alguém que nunca o confinou na solidão.

Imagem: La condition humaine © René Magritte

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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Vai entender >> Clara Braga

Lá estava ela, rezando, pedindo proteção, agradecendo o que já havia conquistado. Quando foi pegar o carro para voltar para casa, haviam roubado os quatro pneus do seu carro!

Já ele estava indo para o trabalho, após passar o dia anterior todo também trabalhando. O carro para de funcionar e para concertar é quase o preço de um novo.

A outra nem ia sair de casa, ia aproveitar o dia de folga. Decidiu ir só rapidinho na padaria, foi assaltada.

A criança que volta da escola a pé é atropelada andando na calçada.

Aquela outra juntou toda a economia para realizar uma vontade antiga de morar em uma casa, e quando acha que vai finalmente realizar seu sonho, descobre que tem problemas que ela desconhecia e que tornam o caminho até o seu sonho um pouco mais estreito.

Sinto que somos testados todos os dias de nossas vidas, e quando achamos que não pode piorar chegamos no chefão!

Zerar esse video game com todas as vidas é difícil, mas acho que no fim das contas o desafio real é viver a vida com mais leveza. 

Porque aquele sacana, que não faz nada por ninguém, só pensa em si, egoísta, está no topo e você que só quer ir rezar tem seu carro roubado? Boa pergunta! Me questiono isso todos os dias! Só mesmo muita fé para acreditar que isso não é o mundo girando ao contrário, mas sim seguindo seu rumo certo.

Mas mesmo sem entender nada a gente segue, afinal, juraram para a gente que isso tudo é muito mais do que a gente imagina. Mas que as vezes dá vontade de jogar tudo pro alto e começar de novo, ah, isso dá. Acho até que é por isso que temos o dia e a noite. A noite é sempre uma chance de jogar tudo para o alto e o dia que segue uma chance de recomeçar. E quando um dia não é suficiente, temos a semana, o mês, o ano, a década e assim por diante. Eternos luppings que nos dão sempre a chance de buscar um novo caminho.


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domingo, 14 de setembro de 2014

ACERCA DE UM DRAMA PEQUENO-BURGUÊS >> Whisner Fraga

Então a família do colega de classe de nossa filha se prepara para a comemoração de três anos de seu rebento, ansiosa como todos podem imaginar. E convida todos os pais de todas as crianças da sala de Helena. Assim que recebo a convocação, começo a suar frio, já imaginando como enfrentar a fatídica noite em que terei de sorrir para todos, em que terei de ser sociável, em que terei de ouvir trivialidades de desconhecidos, em que terei de fingir preocupação com as acrobacias dos filhos alheios, mas a vida é assim mesmo, cheia de sacrifícios e o que a gente não faz pelas crianças, não é mesmo?

Então sacrificamos nossa noite de sábado, para a alegria de Helena. As festas infantis continuam as mesmas: há sempre o pentelho que é o mentor das maiores barbáries, o líder que contagia e leva os demais enfants terribles a fazerem o que normalmente não fariam se estivessem sozinhas. Alguns especialistas chamam isso de “efeito manada”. Há as mães desesperadas com possíveis tombos, hematomas, cortes e demais traumas, sempre presentes em locais em que se reúnem mais de dois fedelhos.

Ocupamos uma mesa, o que é um abuso, considerando a razão cadeiras versus convidados. Assim, é de se esperar que algum casal compartilhe, sem cerimônia, aquele cantinho de sala que escolhemos com tanto apuro, para ficar, justamente, longe de qualquer ameaça de contato. Vamos lá. Aí o assunto versa sobre o tempo, sobre o desenvolvimento escolar de nossa prole, sobre os avanços cognitivos da molecada, sobre os materiais didáticos que a escola disponibiliza e outras trivialidades. O problema são as trivialidades. Porque é justamente quando chega neste tópico que alguém resolve falar bem de algum político de direita, o que é muito comum no estado de São Paulo. Assim, sem mais nem menos, como se a famigerada classe média tivesse a obrigação de se unir em torno de um ideal conservador e ultrapassado.

Nesta hora é importante respirar fundo. Penso em colocar os fones de ouvido, mas Ana não deixa. Então foco na cerveja, que inclusive havia parado de tomar, mas a pressão é tamanha que não resisto. Na mesa em frente, um casal estranho me encara. Ele, um moleque de dezoito ou vinte anos. Ela, uma balzaquiana, na melhor das hipóteses. Limpo a boca: pode ser que tenha esquecido um pouco de espuma de colgate nos cantos e por isso me olham. Continuam. Começo a ficar constrangido, mas, de repente, decido que olhar não arranca pedaço. E sigo em frente o meu flerte com a Itaipava.

Peço mais uma latinha. Resolvo rascunhar o que acontece à minha volta, pensando em guardar um bom material para duas ou três crônicas, para quando estiver sem assunto. Por falar em temas, recebi duas mensagens de leitores, acusando meus textos de inúteis. Ora, sempre acreditei e defendi que a literatura não deve ter utilidade nenhuma. Talvez o calor das eleições que se aproximam faça com que os cidadãos vejam denúncia, oportunidade, picuinha e indício em tudo o que miram. Pode ser que tenham razão. Quem sabe eu escreva, algum dia, algo útil? Por exemplo, qualquer coisa sobre política?

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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O CONTRATO - PARTE I >> Zoraya Cesar

Era dia de jogo do Brasil com algum outro país do qual ela não lembrava o nome nem fazia questão de saber. Jamais gostara de futebol, coisa de gente louca, que brigava, matava e morria por um time cujos jogadores nem tinham amor à camisa, iam aonde o dinheiro cantasse mais alto. Brigar, matar e morrer, que fossem por uma boa causa. 

(Tênis, golfe, esses eram esportes decentes, onde os jogadores suavam por sua própria camisa e os torcedores não compravam vuvuzelas nem saíam espancando os outros por aí, pensava).

As ruas estavam apinhadas de gente correndo esbaforida, querendo chegar em casa, no bar, no vizinho, aonde fosse, a tempo de ver o maldito jogo. Ela caminhava na contramão do fluxo, esbarrando nuns e noutros, concentrada em não esmorecer nem se acovardar. 

À medida em que se afastava das vias principais e das estações de metrô, a quantidade de pessoas nas ruas diminuía significativamente, tornando mais fácil o caminhar. Entrou num sebo de livros raros e discos de vinil, um lugar que sempre lhe trouxera conforto, mas nem se deu conta. Entrara apenas a fim de ler o mapa que desenhara toscamente, pois, da Praça Tiradentes em diante ela deveria seguir por uma sucessão de ruelas desconhecidas, algumas sem placa, e o sujeito com quem deveria se encontrar recusara-se a dar-lhe um endereço que pudesse ser colocado no GPS. Esquisitices, pensou ela. Mas, afinal, o assunto a ser tratado entre eles também não era dos mais normais. 

Seguindo o desenho mapeado por suas mãos trêmulas, seguiu por ruas nas quais só havia construções de dois andares, mal cuidadas, empobrecidas, cinza. Essas casas são como eu, que já fui bonita e agora estou largada, alquebrada, envelhecida, e tudo por culpa de... uma sirene de polícia tocou alto numa rua próxima e ela se assustou, voltando a se concentrar. Se errasse o caminho não conseguiria encontrá-lo de novo e a última coisa que podia acontecer era se perder e chegar atrasada ao encontro. O sujeito fora categórico: um minuto de atraso que fosse, e ele não a receberia; antes da hora aprazada, também não. Pontualidade, dissera ele ao telefone, era condição sine qua non para qualquer negociação. 

Caminhava mais lentamente agora, observando os cômodos das casas de janelas abertas, onde se viam sofás usados, mesas com toalhas de plástico, paredes descascadas, as televisões em alto som; crianças brincavam nos portões, e mulheres de pernas grossas faziam as unhas sentadas nas calçadas, trocando ideias sobre a novela das oito e a vida alheia. Nas biroscas, homens sem camisa bebiam em copos cheios de cerveja aguada, olhando mesmerizados para a tela da TV de tubo, esperando o jogo começar. 

O mapa chegara ao fim, e ela, a uma rua deserta, sem casas, apenas enormes pavilhões fechados. Ficou nervosa. Estaria perdida? Andou cuidadosamente, até encontrar, espremida entre um prédio e um muro, a tal porta verde que procurava. Não havia letreiros, número, nada que identificasse o lugar. 

Ela entrou, amedrontada, mas entrou, agora iria até o fim. 

Uma espécie de inferninho, concluiu. Do outro lado da insuspeita porta verde escondia-se um enorme bar, penumbroso, meio decadente, mas limpo. No ar, cheiros de cigarro, suor, perfumes e bebidas se misturavam ao som de algo que ela não soube identificar, mas era King Crimson, saindo de uma juke box em bom estado.

Os fregueses. Ninguém poderia dizer ter conhecido um lugar verdadeiramente eclético antes de ter passado por ali. Havia um grupo de skinheads, as pesadas botinas em cima da mesa, às gargalhadas com um travesti. Um gótico fumava silenciosamente ao lado de um rapaz que, pela compleição, só podia ser surfista. Metaleiros, heavy metals, andróginos, muitas tribos estavam representadas ali, de todas as idades. Alguns tipos de terno e gravata tinham um ar soturno e perigoso. Que lugar! Ela ficou à porta, paralisada de espanto.. 

Mulheres, apenas ela e a bartender, uma pin up girl lindíssima, como todas são, que, sorrindo, apontou para uma mesa escondida no canto mais escuro:  

- O seu encontro te espera lá. – e voltou a conversar com um homem de cabelo escovinha e coturnos militares.

Ela respirou fundo. Levara quase dois anos para acertar aquele encontro, depois de muito perguntar, assuntar, pesquisar e fazer coisas insanas e questionáveis.  De qualquer forma, quem procura acha, mesmo que pague um alto preço por isso, não importa. 

Uma dia você chega ao santuário da elite dos matadores de aluguel.

Continua no dia 26 de setembro



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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

PIXAIM >> Carla Dias >>


Conheço essa menina que é linda, linda. Não é conversa fiada, porque não sou a única que acha isso. Ela é linda e branquinha. Eu também sou branquinha, minhas irmãs, idem. Se bem que, quando o sol era bondoso comigo, na época em que eu ousava brincar debaixo dele, eu era mais parecida com a minha família. Eu era neguinha, neguinha. Eu adorava sê-lo.

Conversando com minha mãe e tias, revisitei o passado com mais curiosidade. Minha tataravó se casou com um bugre, minha bisavó, que era negra, com um português. Meu avô materno tinha olhos azuis. Minha mãe tem olhos verdes. A família do meu pai é clarinha, clarinha. Nascemos branquinhas, fomos enegrecidas pelo sol de horas de brincadeira em quintais, o nosso e dos primos e amigos. Quando as brincadeiras infantes cessaram, desbotamos. Uma pena...

Nasci com o cabelo pixaim, com o nariz de tomada. Ao menos foi o que muitos dos meus colegas de escola disseram, mas essa deveria ser uma verdade que não os ofendesse. Sempre fui gordinha, então daí vieram muitos apelidos também. Pra piorar, mal abria a boca, apenas escrevia meus poemas. Essa mania eu cultivei cedo e vem me acompanhando, desde então.

Até os dezessete anos, eu não me atrevi a deixar os cabelos crescerem. Era a forma eficaz de deixar de lado essa de cabelo pixaim. Não raro me confundiam com um moleque, mas eu nunca liguei pra isso, que às vezes caprichava nos cortes, o que era divertido. Quando decidi deixar os cabelos crescerem, estava no colégio. Por causa da sociabilidade que estudar música me ofereceu, sentia-me mais corajosa, naquela época. Então, durante algum tempo, enquanto os cabelos cresciam, ganhei mais alguns apelidos, que o meio-termo também não cabia no gosto popular. Em quase três anos, meus cabelos ficaram longos e encaracolados, um pixaim de primeira. Não entendi porque eu o evitei por tanto tempo.

Certa vez, em um almoço em minha casa, o pai de uma amiga, assim, do nada, disse que eu tinha “boca de nega”. Como fiquei magérrima somente por um período da minha vida, obviamente outros nicknames, e me tornei vítima de endocrinologistas de boteco. Cliente na fila do banco, cobrador de ônibus, colega de sala no curso de inglês, prima da amiga da amiga, dono do mercadinho do bairro, e por aí vai, pediram, com delicadeza, devo destacar, para tocar os meus cabelos. “Quero ver se parece mesmo Bombril.”. A conversa era quase sempre a mesma, e a delicadeza do tom da pergunta não amortecia o comentário. Mas dependendo da situação, eu matava a curiosidade deles.

Certo dia, eu estava em um táxi com um amigo, que para caber outro amigo, se ajeitou, colocando o braço sobre o meu ombro, tocando, sem querer, os meus cabelos. “Nossa, eu não imaginava que fossem tão macios!”. A surpresa dele me surpreendeu, afinal, eu sempre cuidei bem dos meus cabelos. De um jeito simples, mas eficaz.

Pois é, meu pixaim é macio. Eu adoro o meu pixaim, mesmo mais curto do que naquela época, quando eles eram longos que só. Além do mais, meus sobrinhos adoravam os meus cabelos quando bebês, o que criou lembranças das mais valiosas para eu carregar pela vida.

Mas como eu dizia, aquela menina é linda. Linda e tem somente quatorze anos, ou seja, uma vida toda para descobrir a si e ao mundo. Ela é inteligente, interessante e interessada, criativa. Há vários motivos para as pessoas gostarem dela. Ela tem cabelos lindos, mas quer fazer chapinha, porque deseja usá-los soltos, eles que só andam domados em coques e rabos-de-cavalo.

Eu pedi a ela que soltasse os cabelos, que queria uma fotografia dela em plena liberdade. Ela se negou, fez cara de ressentida, como se eu quisesse assistir a uma cena ruim, para então rir da inabilidade dela de ser. Achei estranho, que a menina, na sua lindeza, privava-se dos cabelos ao vento, por mais que desejasse isso. É que ela os libertou, certa vez, e a experiência foi das piores. Tentou outras vezes, mas deu no mesmo. Na escola, ninguém entendeu que o pixaim dela é tão lindo quanto ela, por dentro e por fora, e escolheram ofendê-la, ostensivamente, com o que nem deveria ser considerado ofensa.

Eu tentei, mas não sei se consegui convencê-la de que não há motivo nenhum para se sentir mal. Muitas pessoas tentaram alisar os meus cabelos, para que eu ficasse mais bonita. Só que para mim é simples: meu pixaim me apetece. O pixaim alheio, idem. Com o tempo, descobri que se manter fiel ao gosto, à escolha, à ideologia, à verdade, ao sentimento, à capacidade de aceitar o erro, e por aí vai, é como manter o pixaim solto na hora do recreio.

E me desculpem por não tê-los avisado logo no início. Essa crônica não é sobre cabelos.

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sábado, 6 de setembro de 2014

DIREITO DOS BURROS >> Sergio Geia

Peguei. Folheei. Parei na 99. O início da crônica me chamou a atenção: “Ontem de manhã, indo ao jardim, como de costume, achei lá um burro. Não leram mal, não, meus senhores, era um burro de carne e osso, de mais osso que carne. Ora, eu tenho rosas no jardim, rosas que cultivo com amor, que me querem bem, que me saúdam todas as manhãs com seus melhores cheiros, e dizem sem pudor cousas mui galantes sobre as delícias da vida, porque eu não consinto que as cortem do pé. Hão de morrer onde nasceram”.

Era sábado. Meu olhar em busca de “O cortiço” na estante, para um trabalho de escola de meu pequeno gigante, esbarrou numa coletânea machadiana de crônicas, publicada pela Folha de São Paulo, não sei em que ano. Como estava ocupado trabalhando numa crônica, peguei o livro e o deixei separado para retornar em breve.

Não aguentei. Aquele tal de “Direito dos burros”, aquele bucólico começo, me fizeram largar o trabalho no meio. Peguei a coletânea e voltei à crônica. Machado conversa com um burro. Não leu mal, não, meu amigo, com um burro de carne e osso, mais osso que carne. E um burro inteligente, sem que isso seja uma contradição, obviamente.

Na 100, o burro fala: “Também não tenho senhoria. Nomes só se dão a cavalos, e quase exclusivamente a cavalos de corrida. Não leu hoje telegramas de Londres, noticiando que nas corridas de Oaks venceram os cavalos Fulano e Sicrano? Não leu a mesma cousa quinta-feira, a respeito das corridas de Epson? Burro de cidade, burro que puxa bonde ou carroça não tem nome; na roça pode ser. Cavalo é tão adulado que,   vencendo uma corrida na Inglaterra, manda-se-lhe o nome a todos os cantos da terra. Não pense que fiz verso: às vezes saem-me rimas da boca, e podia achar editor para elas, se quisesse; mas não tenho ambições literárias. Falo rimado, porque falo poucas vezes, e atrapalho-me. Pois, sim senhor. E sabe de quem é o primeiro dos cavalos vencedores de Epson, o que se chama Ladas? É do próprio chefe do governo, lord Roseberry, que ainda não há muito ganhou com ele dous mil guinéus”. O interlocutor se assusta: “Quem é que lhe conta todas essas cousas inglesas?”. Na 101, ele responde: “No meio de tanta aflição, vale-nos a leitura, principalmente de folhas inglesas e americanas, quando algum passageiro as esquece no bonde. Um deles esqueceu um número do Pruth. Conhece o Pruth?”

Segundo andei pesquisando, “Direito dos burros” foi publicada em 10 de junho de 1894. A crônica é uma crítica machadiana ao tratamento desigual concedido a ricos e pobres, como também ao estudo da língua inglesa nas escolas públicas, aos professores que conferiam ao idioma inglês elevada importância.

Ocorre que estava eu no final da 101, quase terminando a crônica, após ler “morrer um e ficaram três em mísero estado, foi condena-”, eis que viro a folha e a crônica sumiu. Por um equívoco de encadernação, o livro veio sem as páginas 102 e 103. Até procurei no google, sem sucesso. Agora cá estou, amigão, nesta tarde quente, aborrecido, sentindo um gosto de cabo de guarda-chuva na boca.

Faço então desta crônica um pedido: se puder, conto com sua valiosa colaboração. Caso tenha a crônica “Direito dos burros” aí, na íntegra, ou consiga uma cópia, por favor, me envie, me envie por e-mail mesmo, que está louco de bom. Desde já, meu fraterno muito obrigado!

sergiogeia@uol.com.br


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