quarta-feira, 24 de maio de 2017

NÃO HÁ LUGAR PARA MISÉRIA >> Carla Dias >>


Está frio? Está frio.

Descobre o corpo daquele e daquele e daquele outro, que eles não têm direito de ser neste lugar. Para ser, aqui, é preciso mais do que essa balela de não ter como ser quem seja. É preciso abrilhantar e não mostrar a indecência dessa miséria. E nem adianta dar desculpa, porque se vive onde bandido vive, é bandido também. Tudo da mesma laia.

Espalhe-os, que assim fica mais fácil de esconder a existência deles. Vamos acertar o tom dessa vitrine. Tem de ficar digno de passarela.

Sim, está frio. Inverno nem chegou, mas a conversa fiada se antecipa. Direitos de quem mesmo? Humanos? Esse pandemônio criado para dificultar o trabalho de quem busca o justo, assim como manter tudo lindo, maravilhoso. Vai até ali, enxota aquele outro, que ele está atrapalhando a melhor vista da rua. Esses obstáculos nos fazem gastar tempo, mas vai valer a pena, porque a vitrine vai ficar um luxo só.

Não entendo esse melindre todo. Não era limpeza que eles queriam? Não era polícia prendendo bandido? Nem tente me convencer de que entre eles há inocentes, porque todo mundo tem chance nessa vida. A meritocracia está aí para provar isso. Faça com ela o que bem entender e aceite as consequências. Essas figuras aqui escolheram seu destino.

Tire aquela criança catarrenta dali, porque pode ofender os novos transeuntes. Criança catarrenta não combina com nossa campanha publicitária. Criança catarrenta e pretinha, então, é escolher jogar dinheiro fora. Tem a ver com racismo, não, viu? Nem tente botar culpa. É uma questão de público-alvo. É preocupação legítima.

Pede para a senhora ali conter o grito? Será que ela não vê que estamos trabalhando para tornar este um lugar digno? Lugar precisa de chance de se tornar digno, minha senhora. Portanto, deixe-nos trabalhar e trazer requinte para esse espaço, antes ocupado por desocupados e bandidos. O lugar merece tal cuidado.

Requinte é item da cesta básica social, não vê? Pense bem... As cidades mais lindas desse mundo são requintadas. Traremos para cá o melhor do melhor, o manjar. Só que, antes do trabalho árduo de deixar este lugar uma beleza, digno de recepcionar políticos, líderes religiosos e celebridades, precisamos que a senhora cale seu grito, porque ele é muito injusto. É claro que pensamos nas pessoas como a senhora. Óbvio que trabalhamos para pessoas como a senhora. Mas o problema é da senhora, quando se trata de não ter para onde ir. Veja bem, o espaço é público, só que não para a miséria. A miséria que a senhora carrega é letal para a evolução que planejamos para esse lugar. E os hotéis? Ah, serão cinco estrelas.

Está frio, a senhora está certa. Vou para casa me esquentar com um chocolate quente.

Como? Ah, não... Tenho nada a ver com o fato de a senhora não ter chocolate quente em casa. Oi? Ah, também não tenho nada a ver com a senhora não ter casa ou para onde ir. O que sei é que essa vitrine tem de ficar deslumbrante. Então, retire-se, minha senhora, que a sua miséria, eu já disse, não cabe mais neste lugar.

Imagem: Las Parcas © Francisco de Goya



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terça-feira, 23 de maio de 2017

COMO PODE UMA HISTÓRIA NUNCA MORRER? >> Clara Braga

Outro dia estava ouvindo a nova música da Celine Dion para o live action do filme A Bela e a Fera e reparei que, na letra, ela faz a seguinte pergunta: como pode uma história nunca morrer?

Essa questão me lembrou de algo que ouvi de uma amiga recentemente. Aparentemente foi um conselho que ela ouviu de um amigo e me pareceu um desses conselhos que mesmo não sendo pra você, você escuta e guarda: um dia, tudo que nós estamos vivendo hoje vai virar história, cabe a nós decidirmos como queremos que essas histórias sejam contadas.

Isso não poderia ser mais verdade. No futuro, hoje será história, o que gostaríamos que falassem de nós? Nossa história será contada como algo positivo ou como um exemplo a nunca ser seguido? Nos orgulhamos de quem somos? Ou melhor, estamos felizes? Afinal, nada pior do que ser lembrado como alguém que conquistou um monte de coisas mas nunca conseguiu o básico, que é ser feliz.

Então aí está, a receita para a história nunca morrer é ter uma mensagem interessante para ser passada, se for significativa de alguma forma, então ela emocionará e será imortal.

Bom, isso me fez pensar que talvez a gente esteja sendo um pouco injusto com os clássicos da Disney ultimamente. Se gostamos tanto de reviver esses filmes que fizeram parte da nossa infância, se eles estão sendo refilmados e novamente lotando salas de cinema, eles devem ter uma mensagem significativa para passar.

Não, eu não estou dizendo que devemos ensinar às crianças que elas devem esperar o príncipe do cavalo branco. Concordo que as novas mulheres poderosas da Disney têm uma mensagem extremamente importante para as crianças de hoje, mas também não tinha a Bela? Ela gostava de ler, sabia que existia um mundo muito maior para ser explorado do que aquele no qual ela vivia, salvou seu pai sozinha, enfrentou toda sua vila para salvar a Fera e se apaixonou sem se preocupar com aparências.

E se pensarmos na Pocachontas? Uma índia que não se casou com quem seu pai queria, curiosa, exploradora, independente a ponto de incomodar os homens da aldeia e que, no final, não abandonou sua família por causa de seu amor.

Jasmine também escolheu seu amor deixando de lado o status que seu pai desejava, a Ariel não se contentava com o fundo do mar e questionava seu pai, enfim, acho que cada uma foi uma mulher poderosa dentro de seu contexto.

Claro, têm coisas um pouco antiquadas nas histórias? Tem, assim como talvez no futuro a gente ache coisas antiquadas nas histórias de hoje! Mas no final, quando tudo virou apenas história, o que ficou para ser contado?


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domingo, 21 de maio de 2017

MEU SANTO >> Eduardo Loureiro Jr.

Albrecht Dürer, "Melancolia I"
Albrecht Dürer, "Melancolia I"
Meu santo não tem poder nem partido. Não atende orações desesperadas ou de bom juízo. Não movimenta as forças da natureza, não arquiteta coincidências, não faz milagres nem constrói pontes sobre precipícios. Meu santo não usa trajes e artefatos celestiais para combater seres malignos. Não tem nome, não tem jaculatória, não tem dia — para ele não se imprimem santinhos. Meu santo mal fala comigo. Tampouco intercede junto a mais elevados espíritos. Não tem um plano, uma missão, um desígnio. Não faz estudos bíblicos. Não sabe o caminho até o paraíso.

Meu santo fica comigo, dorme comigo, faz silêncio comigo. Ri quando eu choro e chora de alegria quando eu rio. Deixa que eu enfie um cotonete após outro em meus ouvidos. Meu santo ouve música comigo, faz música comigo. Observa os meus dentes guardados dentro da gengiva e meus caninos incisivos. Deixa que eu cavuque fundo a sujeira em meu umbigo. Meu santo é palpavelmente invisível e visivelmente sumido. Tem outros compromissos. Guarda segredos, coleciona sigilos. Tem seus amigos e inimigos. Meu santo é preguiçoso junto comigo, ou obsessivo. Jejua por diversão e come escondido. Às vezes troca de lugar comigo. Vai onde não quero ir, desde que lhe pareça propício. Meu santo fala besteiras a que dou ouvidos e resmunga conselhos que eu não sigo. Lembra de cada detalhe de tudo que tenho vivido, e tem preferências explícitas por este ou aquele período. Meu santo tem a unha esfolada, o joelho ralado, o braço quebrado, o  cabelo assanhado, o traje puído... Meu santo é caído e recaído. É impreciso. Nem pensa naquilo. Não quer litígios. Deixa por isso.

Meu santo não é culpado nem cupido.

Meu santo sou eu: encarnado e esculpido, escarrado e cuspido, inspirado e escrito.

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sábado, 20 de maio de 2017

ABRINDO O CADERNO AZUL >> Sergio Geia

 

Tem muita bobagem que não serve pra nada. Corrijo. Serve sim, pois me serviu em algum momento da vida. Talvez não sirva pra você, ou talvez você ache mesmo tudo uma grande bobagem. Ou, talvez, como a mim me serviu um dia e me ajudou a ser o que sou, também possa servir pra você; hoje. Ou, quem sabe, um dia.
Olhai os Lírios do Campo é um dos mais bonitos títulos da literatura brasileira. Tenho uma coleção do Veríssimo. Clarissa, O Tempo e o Vento, O Senhor Embaixador, Música ao Longe, mas foi em Olhai os Lírios do Campo que garimpei coisas como “Tinha uma cara inexpressiva, dois olhos apagados e um ar de resignação quase bovino” (quantos você não conhece assim?), ou “Antes de Mussolini e de Stalin, já existiam as estrelas e depois que eles tiverem passado elas ainda continuarão a brilhar”, ou “A morte pode ser um sono sem sonhos ou então a vida é o sonho da morte” (uma das minhas preferidas).
Em Helena, obra machadiana de 76, registrei: “Há amores que crescem na ausência e diminuem na presença” (que verdade!), ou “A prece é a escada misteriosa de Jacó: por ela sobem os pensamentos ao céu; por ela descem as divinas consolações”.  Duas ideias realmente verdadeiras se a gente pensar um pouco na força da oração, e no “amor” de muitos.
Quando tenho problemas na vida, sempre me vem à cabeça Lya Luft, em Perdas e Danos: “É tragédia ou é apenas chateação?”. Quase sempre é chateação, e tudo fica mais fácil de resolver. Quando fico pensando na vida, no passar do tempo, lembro que “Viver deveria ser transformar-se”, e que “Amadurecer deveria ser requintar-se na busca da simplicidade”. A simplicidade, depois de Lya, se tornou o meu norte. A simplicidade é o requinte do espírito. Não gosto de “A feira começa cheia de flores e frutas perfumadas e termina com lama de restos de peixe a feder. Assim é o amor”, de Fernanda Young, em Vergonha dos Pés, embora, em muitos casos, a coisa seja exatamente assim. Eu ainda sinto o cheiro das frutas perfumadas. Gosto da poesia de “Flocos de seda branca corriam pelo azul-turquesa do céu de verão”, de Oscar Wilde, em O retrato de Dorian Gray, um livro que é um monumento.
Em Quincas Borba tem uma frase deliciosa que sempre uso em momentos específicos, um deles, por exemplo, outro dia, quando o Palmeiras perdeu pro Corinthians: “Às vezes o que parece desgraça é felicidade”.  Pois digo que o contrário também é verdadeiro: “Às vezes o que parece felicidade é desgraça.” Dois exemplos. A Isabelle Drummond queria ser a Narizinho, mas decorou o texto errado e acabou virando a Emília. Graças à boneca sua vida profissional seguiu um rumo que, talvez, tivesse sido diferente caso virasse a Narizinho. Ela mesma tem essa impressão. Quantos casos a imprensa já noticiou de tragédias na vida de ganhadores da Mega-Sena?
Agora, somente Clarice é capaz de dizer certas coisas, como esta em Perto do Coração Selvagem: “Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é o que eu sinto mas o que eu digo”.
E estas, ditas numa entrevista para o programa Panorama, da TV Cultura, em 77: “Eu não sou uma profissional, eu só escrevo quando eu quero. Eu sou uma amadora e faço questão de continuar sendo amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever ou com relação ao outro; eu faço questão de não ser uma profissional para manter minha liberdade”, “Tenho períodos de produção intensa e hiatos em que a vida se torna intolerável”, “O adulto é triste e solitário”, “Quando não escrevo eu estou morta”.
Maravilhoso, não?


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sexta-feira, 19 de maio de 2017

MARIALMA, MEU AMOR >> Zoraya Cesar

Querida Filha, razão do meu viver, luz da minha alma, se você está lendo essa carta é porque, por fim, consegui libertá-la. 

Você sempre foi o Amor da minha vida, e agora será, também, o da minha morte. Eu não poderia ser mais afortunado em tê-la trazido ao mundo, e em tê-lo deixado por você. 

Chore por mim, mas não sofra muito. Estava desenganado, só me restariam alguns meses de vida, ao final dos quais ficaria preso a uma cama. Aí, pensei, a ficar acamado e inútil, não seria melhor morrer de uma vez? Já plantei árvore, já escrevi um livro, já tive uma Filha, você, um Anjo que Deus, por descuido, deixou vir à Terra. O que mais posso querer? Decidi que não me agarraria a um fiapo de existência, como um Ebenezer Scrooge ao dinheiro. 

Peço perdão, minha Filha, pela monstruosa mãe que eu te dei. Fui seduzido pela personalidade forte e envolvente daquela sereia maldita. Ela engravidou e, com isso, vi-me obrigado a casar. Em pouco tempo, percebi que havia caído numa armadilha preparada pelo próprio Asmodeu. Sua mãe - como você bem sabe por dolorosa experiência própria – tinha por missão na Terra infernizar, maltratar, humilhar a existência de todos os que estavam sob seu poder. E aquela enviada do demo disfarçava tão bem que o resto do mundo acreditava que ela era a essência dos anjos em forma de gente. Essência dos anjos caídos, isso sim. Nós que o digamos, né minha Filha?

Querida Marialma, carrego a culpa de não ter evitado que aquela nauseabunda tratasse a própria filha feito um pano de chão, com todo o descaso e perversidade de que era capaz. E como era capaz! Sei o quanto você sofria, mas eu, fraco, sempre trabalhando muito, pouco pude fazer. Me perdoe. 

Até pensei em me separar, mas temi perder sua guarda. A pestilenta conseguiria convencer até um frade de pedra que ela era uma mãe maravilhosa, que você era perturbada e mentirosa, e, eu, um crápula, desamoroso e desleixado, que mal parava em casa por conta do trabalho. Ademais, ela ameaçou mudar de país, sumir com você... Acredite, ela faria isso. Como suportar ver o sangue do meu sangue, a pessoa mais importante da minha vida, completamente à falta de mercê daquela emissária do Hades? Jamais! 

O mundo pensa que somos uma família normal e feliz. E, seguindo nossa farsa, estamos aqui, nas Cataratas do Niágara, por exigência da lazarenta - nunca tive forças para enfrentá-la, infelizmente. Esperava que você completasse 16 anos para poder me separar e levar você comigo. Mas a gravidade da minha doença me surpreendeu antes.

Sei que, depois de morto, a situação vai piorar. Ela vai te infernizar ainda mais a existência, com seu bafo pútrido de enxofre que a tudo empesteia. Vai ficar com todos os meus bens e gastar tua herança, te deixar na pobreza. Aquela jararaca é capaz de tudo. 

Por isso, minha Doce Filha, vou aproveitar o passeio que faremos às Cataratas para matar a nós dois, a mim e àquela desnaturada (que nunca, jamais, soube o significado da maternidade, zarapelha dos infernos). Diluí na garrafa de água que ela sempre leva nos passeios o sonífero que toma para dormir. Quando chegarmos às Cataratas ela já estará grogue. Será fácil jogá-la lá de cima, tanto mais que estaremos agarrados - como se eu a estivesse segurando, tudo parecerá um terrível acidente. Não se preocupe, minha Filha, a doença não me deixa sentir dor e, sendo paraquedista, altura é algo que não me mete medo. 

Eu ia morrer, mas não ia deixar minha Filha nas mãos
daquela megera desalmada.
Eu ia morrer. Mas minha mulher ia comigo.
Não se preocupe com nada, Filha de minha Alma. Arranjei tudo. Você vai ficar com sua Tia Hope, que te ama demais e sempre me criticou por não tomar uma atitude de macho.  

Minha Princesa, esse seu velho pai nunca te pediu nada, mas imploro que, se você, como sua Tia, virar espírita, por favor, nunca peça para eu baixar em algum terreiro. Quero descansar em paz. Se quisesse trato com os vivos não teria morrido. De onde quer que eu esteja, estarei velando por você. E cuidando que aquela vaca nunca mais te perturbe.

Seja feliz, minha Filha, Marialma, meu Amor, agora livre daquela cramulhona que nunca foi mãe na vida.

Com Amor, seu Pai.



Foto:sheldonleonard in Pixabay




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quinta-feira, 18 de maio de 2017

MÚSICA SERTANEJA>>Analu Faria

Só lamento que você não tenha um cobertor de orelha, um alguém para te esquentar. Nas noites frias, eu tenho. Por você, eu só lamento. 
Que pena você não ter um chamego, meu bem, que pena...neste friozinho! Que bom seria, não? Eu tenho. E quem está com você? 
Você precisa de alguém para chamar de seu, todo mundo precisa. Eu já tenho o meu. Que pena, meu bem, para você, que dó que eu tenho. 
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Acho que é isso. Não consigo ir mais longe. Eu queria sim, ah como eu queria, ser compositora de música sertaneja, encarnar de vez o poeta fingidor, escrever umas letras com uns preconceitos enraizados, uns clichês que só funcionam tão bem porque são clichês. 

Como eu queria não problematizar! Não destrinchar discursos, (ó, Deus, eu acabo de começar a estudar "análise do discurso" e pior... em uma pós-graduação! O que estou fazendo da minha vida?), não desvendar ideologias, ah, como eu queria não ter lido o Manifesto Comunista! Como eu queria não saber o que é materialismo dialético, como eu queria não saber o que é gaslighting!

Seria tão bom se eu não fosse eu ou se os outros não fossem os outros ou se o lugar fosse diferente onde eu sou eu e os outros, eles mesmos! Como eu queria ser alguém que paga (feliz) um precinho astronômico para ir ao show do Wesley Safadão! "Ignorance is a bliss", eles dizem. Eu acho que sim, gente, sim!  Ó, Deus, que sofrência a minha!..

Para fechar esta crônica que nem sei se me satisfaz, vou ali comprar um Murakami de 50 reais. 




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quarta-feira, 17 de maio de 2017

O #1 DE IGOR WILLCOX >> Carla Dias >>


Essa crônica é uma crônica sobre afeto. E sobre nascimento. Sobre a transgressão de realizar em tempos em que fazê-lo anda difícil. Sobre a primeira impressão, quando eu, que confio mais na segunda do que na primeira, fui impressionada assim, na estreia.

Afeto é tendencioso? Completamente. Mas se há algo que sempre me acompanhou é a certeza de que nenhum afeto meu merece confetes gratuitos, um vale-amizade. Os amigos sabem que amizade não nubla meu olhar.

Que fique claro que não é crônica de crítico, porque não vou desfiar um rosário técnico a respeito do que seja. É mergulhada em afeto, daquele que reconhece valor e se emociona por esse valor nascer de alguém por quem se tem amizade.

Tenho amigos que admiro também como artistas. Eles andam por aí, colocando obras no mundo, contradizendo aquela ideia - surrada, resultado da mais pura repetição - de que não há nada de bom sendo criado na música, nas artes plásticas, na literatura, na dramaturgia. Há sim, mas é preciso generosidade no olhar; ir além das listas das mais-mais do momento.

Ontem, passei o dia abismada com a leitura de um livro de um amigo. Ainda não finalizado, ainda me falta ler algumas páginas do que já está pronto, a obra desalinhou o meu dentro. Passei o dia mergulhada na melancolia da leitura, na sua urgência, na sua verdade.

Então, mais tarde, recebi um disco que comprei há alguns dias, pelo qual esperava ansiosamente. Disco de um baterista muito querido e talentoso, Igor Willcox. Disco número um, de muitos que virão, para a sorte dos apreciadores da música.

Coloquei o disco para tocar, enquanto conversava com ele sobre o feito, pelo computador. Quem nunca teve de se reinventar, em nome de sua criação, desconhece a importância do aprendizado. Eu acompanho a carreira dele, sei que é um ótimo baterista. Então, foi com alegria que descobri o compositor.

Igor me contou que sempre teve a ideia de compor. Há algum tempo, ele vem trabalhando com produção musical e, de dois anos para cá, dedicou-se seriamente ao piano. Então, começou a compor suas próprias obras. Dedicação é ingrediente poderoso na vida de quem já conhece seu objetivo e se apaixona por ele diariamente. O resultado é que, das nove faixas do disco #1, seis são de autoria de Igor Willcox: Brotherhood, The Scare, Julie’s Blues, Room 73, Waltz for My Love e Lifetime. As outras faixas: Old Friends e Thankful (Erik Escobar) e Brad Vibe (Vini Morales).

Igor Willcox não foi somente compositor e intérprete em seu disco. Ele também foi responsável pela produção, mixagem e masterização de #1. Além de ótimas músicas, o disco conta com a participação de talentosos músicos:  Clayton Sousa (sax), Erik Escobar (teclados), Jj Franco (baixo), Vini Morales (teclados/piano), Rubem Farias (baixo), Carlos Tomati (guitarra), Bocato (trombone), Glessio Nascimento (baixo), Marcus Cesar (percussão), Fernando Rosa (baixo), Bruno Alves (teclados) e Glecio Nascimento (baixo).

O cenário da música instrumental conta com artistas inspiradores. Músicos e compositores que trazem ao mundo obras significativas. Para aqueles que vivem a discursar sobre a pobreza da nossa música, uma pesquisa mais cuidadosa e vocês encontrarão trabalhos extraordinários. E incluam o #1 de Igor Willcox na lista de discos a conferir. Ele merece, sem dúvida, um bom lugar na sua playlist.

Sim, é uma crônica sobre afeto. Conheci Igor Willcox há muitos anos, quando ele participou do Batuka! Brasil e foi um dos vencedores do Concurso Nacional de Bateristas. De lá para cá, acompanho sua carreira. Para mim, #1 é uma lindeza só, porque é um ótimo disco, e também porque é a realização do projeto de um amigo.

Quer coisa mais legal do que alguém realizar algo e essa realização fazer bem também aos outros?

Foto © Zé Cintra


Igor Willcox
Compre o disco: igorwillcox.com/shop

carladias.com



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terça-feira, 16 de maio de 2017

SOBRE O TEMPO >> Clara Braga

Não, não gosto de mudanças. Quer dizer, também não é nada assim tão drástico, uma mudança aqui outra ali ou então mudanças que acontecem comigo e com um grupo de pessoas próximas ao mesmo tempo, pra eu ter em quem me apoiar, eu até gosto. Não é um gostar porque faz eu me sentir bem, é um gostar por saber que sair da zona de conforto de vez em quando é importante, mas se fosse bom mesmo as pessoas não chamavam de sair da zona de conforto.

Parece confuso, mas no fundo não é tão confuso assim, eu entendo a importância da mudança, mas tenho dificuldade de lidar com ela, pronto, é basicamente isso. Minha questão principal com mudança sempre foi a questão do tempo. Sempre tive medo de lidar com mudanças que tomassem tanto do meu tempo que eu fosse impedida de fazer as coisas que eu gosto, que me sinto bem fazendo. Eis que esse dia chegou.

Consegui um emprego muito melhor que o anterior em todos os sentidos, melhor plano de carreira, melhor salário, melhores oportunidades para desenvolver pós-graduações, mestrados e etc, enfim, só pontos positivos, porém, ao invés de trabalhar meio período como antes teria que trabalhar o período inteiro. Isso significa menos tempo para música, fotografia, amigos, família, exercício físico, crônicas e tudo mais.

Confesso que sofri no início, cheguei a ficar com a sensação de que estava de uma certa forma “perdendo o meu tempo”. Foi então que percebi que as vezes é exatamente esse sentimento que falta para que a gente faça as coisas acontecerem. Antes, quando trabalhava menos, sabia que tinha bastante tempo livre, logo não me sentia mal por deixar as coisas para depois, afinal, se não fizesse agora podia sempre fazer no dia seguinte. 

Agora é diferente, quando sobra tempo é apenas aquele tempo que eu tenho, então não tem outra opção, eu corro e faço o que tenho pra fazer. Já recomecei curso online que paguei tem tempo e não fazia, faço esboço de crônica tentando não deixar para última hora, preparo aulas em uma velocidade que nunca consegui antes, montei uma banda, enfim, parece que consegui dobrar meu tempo, mesmo tendo muito menos tempo que antes.

Parece que aquela conversa de que quem quer arruma um jeito de fazer não é tão conversa assim. É bem verdade que eu vivo um tanto cansada, mas no final isso é só um detalhe, o importante é nunca deixar a necessidade de fazer algo ser maior do que a vontade de fazer o que te faz bem.



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