segunda-feira, 2 de maio de 2016

HONRA AO MÉRITO ou DE VOLTA AO PARAÍSO >> Albir José Inácio da Silva

Guiados por incorruptíveis lideranças, finalmente voltaremos à terra que mana leite e mel. Ultrapassados os anos da fome e o tempo da corrupção, vamos agora à bonança.

De imediato haverá redução de impostos perniciosos à saúde financeira das empresas e bancos, e revisão do salário-mínimo, já que o lucro tem se esvaído pela folha de pagamento.

Chega de incentivos aos microincompetentes, empresa é pra quem pode, pra quem merece, “quem não tem competência não se estabelece”.

O pleno emprego dispensará o cidadão da humilhação do bolsa-esmola e de fazer filhos para aumentar a renda. Basta trabalhar. Basta merecer.

Desmontada a saúde pública - monstro engolidor de verbas, que não existe nos “states”, coisa de pobre que quer ser mais real que o rei e que introduz soldados bolivarianos disfarçados de médicos - o atendimento será feito por eficientes planos de saúde com cobertura aos pacientes que merecem e cujas doenças estiverem previstas no contrato.

É tempo de ordem e progresso. Chega de invasões. A terra pertence aos legítimos donos com títulos hereditários por ordem de El Rei. Se você não foi abençoado com terra, mereça a bênção do trabalho e cale-se para sempre.

Está na hora de acabar a mistura que diminui a excelência das universidades. Basta de cotas humilhantes e injustas. Viva o mérito. Não percamos tempo com filosofia, sociologia e política, que formam preguiçosos e baderneiros. Vamos aprender técnicas porque os bons empregos aguardam os bons. Chega de escola para quem não quer estudar. Trabalho, em qualquer idade, é o que cura bandidagem.

É tempo de paz. De volta aos guetos, os desclassificados não devem mais se imiscuir nos espaços do homem de bem. É preciso que se abstenham de luxos que não lhes pertencem e achem o seu lugar na sociedade. Não mais crianças catarrentas limpando as mãos nas poltronas dos aeroportos.

E já não estaremos expostos aos aventureiros e retirantes, uma vez que a hereditariedade na política nos garante berço e pedigree na hora de colocar o homem nascido certo no lugar a ele destinado. Chega de penetras.

Afastados os corruptos, nem precisaremos mais combater a corrupção porque corrupção não existirá. Teremos, isto sim, obrigação de limpar a honra daqueles bravos que, com sacrifício da própria reputação – atacada por calúnias e falsas provas suíças, promoveram a limpeza étnica, digo, ética em nosso país.


É tempo de honra, glória e prosperidade. Para quem merece.


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sábado, 30 de abril de 2016

ENTRE PALAVRAS E CAFÉS — para Márcio Arthoni
>> Cristiana Moura



Ele não dispensa um café. Essa pausa em meio à tarde e aos afazeres. Para os dias de mente inquieta tecida de perguntas aguardamos as respostas do café. Um gole, uma respiração, um pensamento vão ou não. Vez por outra me pego num sorriso que nem sei do quê. Nasce no segundo seguinte ao café escorregar entre a saliva e o céu da boca aquecendo o corpo no dia que já é quente.

Um expresso simples, um café com tapioca, um livro. Esse é lugar onde pensamento e sentimento são um só. Que assim seja. Mas há noites em que seu café dá lugar a um vinho com poesia. O aroma e as notas das uvas fermentadas parecem lhe acordar as palavras das sensações. Para mim, vinho e noite por vezes têm gosto de solidão. Para ele não. Se for solidão é logo acompanhada do tal vinho, de queijos, e do poema nascido ali, fruto da orgia dos sabores e das mãos que escrevem: "Metade sozinha é sempre metade. Faz lembrar de um todo, Faz pensar em algo que a metade não é. Então, existiria a metade?"

Eu, de fato, não o conheço. Apenas tenho notícias cotidianas sobre pensamentos, posicionamentos políticos, palavras e cafés. Assim um tanto de pessoas que, via redes sociais, conheço pela metade. Existiria a metade? Bem, não sei ao certo quem é, mas sei que, como eu, não dispensa um café e o momento em que o tempo cessa café-corpo-a-dentro.

Ainda ontem soube que ele tomava um café com "as lembranças do que ainda vai acontecer".

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sexta-feira, 29 de abril de 2016

LAVANDO AS LETRAS >> Paulo Meireles Barguil

Na crônica passada, discorri sobre a relação entre a felicidade masculina e o ato de lavar louças.
As manifestações advindas da leitura da mesma foram surpreendentes, seja pela quantidade, seja pela patia.

No que se refere ao primeiro aspecto, recebemos, eu e o Editor Chefe, dezenas de e-mails, com conteúdos bastante antagônicos.

Em relação ao segundo aspecto, elas se dividiram entre os indivíduos contrários e as pessoas favoráveis ao seu conteúdo.

Aqueles, além questionarem as pesquisas citadas — quantidade de sujeitos e de louças lavadas, período de observação, quantidade de sujeira das louças, temperatura da cozinha, cheiro do sabão, uso ou não de luvas... — sugeriram que eu voltasse à pia e me afastasse do teclado.

Aquelas, por sua vez, foram unânimes em elogiar a minha coragem de abordar uma temática tão sensível ao cotidiano familiar e pediram para que eu também escrevesse sobre a lavagem de roupas, bem como sobre a limpeza e a organização da casa.

Para aqueles, declaro, surpreso, que eu escrevi apenas uma crônica — não uma Lei, nem o 11º mandamento, quiçá uma fábula — e que ignorava que tal palavra expressasse a situação de vocês, mormente os casados.

Para aquelas, sugiro que solicitem ao celebrante do casamento ou quando da renovação dos respectivos votos — Prometo estar contigo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-te, respeitando-te e sendo-te fiel em todos os dias de minha vida, até que a morte nos separe — a inclusão no juramento, depois de tristeza, de "na limpeza e na sujeira, na organização e na bagunça,".

Aceito, por fim, humildemente, a determinação do Editor Chefe de inserir, doravante, no final das minhas crônicas a explicação abaixo:

As opiniões desta crônica são de responsabilidade do cronista e não expressam, necessariamente, o entendimento do Crônica do Dia.


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quinta-feira, 28 de abril de 2016

INSPIRAÇÃO REAL >> Mariana Scherma

No meu caminho de toda manhã — manhã bem cedo vale ressaltar — passo pela casa de um casal que acorda mais cedo que eu. Ele vai trabalhar e ela fica no abre e fecha de portão, mas o tchau não vem antes de um beijo apaixonado, desses bem dados, logo cedinho. Confesso que quando passo por eles ainda estou em semi-sonolência, mas acordo com essa cena. Eles não me conhecem, não sabem meu nome, nem eu o deles, mas ela já me cumprimenta com o maior sorrisão. Acho que o amor é combustível necessário para o bom humor.

Quando comecei a reparar no casal, estava calor e, vamos combinar, não é nenhuma grande dificuldade abrir o portão e tomar um ventinho fresco da manhã, certo? Mas ontem estava chovendo e ela estava lá de guarda-chuva. Mesmo sorriso. Mesmo beijo bem dado no marido. Mesmo cumprimento simpático pra mim. Mas hoje foi a prova de amor cabal: estava frio. Aquele frio que faz a gente querer mais cinco ou dez minutos de edredom e aconchego. Aquele frio que gera desculpas do trânsito ao despertador. Mas ela estava lá de casacão e mão no portão. Ah, sim, e sorrisão. E beijão no marido. E desculpa pelo excesso de ão.

Tenho vontade de fazer várias perguntas: juntos há quanto tempo? Você nunca deixa de abrir o portão? Quando vocês se conheceram? Foi amor à primeira vista? Quem tomou a iniciativa? Vocês já brigaram? Você abriria o portão mesmo depois de uma briga? Vocês têm filhos? Sei lá, um monte de perguntas, mas a maior resposta é o sorriso dela e dele, ao ir trabalhar. Um sorriso desses não tem a ver com coisa ruim, tem a ver com fazer a própria história, regar a relação com boas atitudes no dia a dia e essas coisas. Esses dois sabem da sorte que foi terem se encontrado nesse mundo abarrotado de gente que não sabe valorizar o sentimento. Serve de inspiração pra mim.

Obrigada, casal. Vocês me ensinaram que a rotina é uma beleza. E o amor é simples e necessário em cada momento do dia.

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quarta-feira, 27 de abril de 2016

DISTRAÇÕES | 1 DE 3 | ELE >> Carla Dias >>


Mundo é vastidão além da sua compreensão. Por que pediram que falasse sobre sua visão do mundo, quando ele vive há trinta e sete anos na mesma cidade? Claro, conhece outros lugares, já saiu de férias algumas vezes.  Mas MUNDO? Como escrever eloquentemente sobre um lugar que não se conhece inteiro e que, por onde se esteve, foi de passagem?

Lembra-se de estar de passagem por muitos lugares. Mais do que por lugares, por pessoas. Esteve de passagem pela vida de muitas pessoas. Nenhuma o fez sentir vontade de ficar. Para muitas, ele até conseguiu fazer algo positivo, banalidades que ganham importância quando se visita lugares onde a violência é amplificada pela pobreza. Fez algo de bom às pessoas que esperavam nada dele. Algo de bom que ele nem sabia que era algo de bom. Banalidades, como o dia em que caminhava pela praia, lugar belíssimo que servia de cenário para suas férias, que pagou em dez parcelas de mais dinheiros do que deveria gastar com prazer. Encontrou lá um menino e sentado na areia, de cara para o mar, ali pelos cinco anos de idade. Perguntou se ele estava perdido, e ele disse que estava cansado. Perguntou a ele do quê? O menino olhou para ele com olhar opaco: de fome. Pagou almoço para o menino, um lanche gigante, que o moleque engoliu numa tacada só. Daí, o olhar dele já não estava mais opaco. Daí, o menino sorriu e saiu correndo pela praia. Não estava mais cansado. Foi bonito vê-lo chutando areia.

Depois disso, ele deu de pagar comida pra tudo quanto é pessoa que dizia ter fome. Nem sempre era algo agradável, que nem todos são meninos como aquele da praia. Houve quem agradecesse, assim, com olhar marejado e bucho cheio. Houve quem menosprezasse o feito, como se ele estivesse fazendo nada mais que a obrigação. Houve quem, depois de bem servido, desse chute na canela dele, para pegar o dinheiro de sua carteira.

O que ele aprendeu é que, independente se pagava comida para quem não tinha como comprá-la ou para quem tinha, mas não gostava de gastar seus trocos, cada um reagia de uma forma. Será que isso tem a ver com o lugar no mundo de cada um ou o quê?

Não entende por que pediram para ele falar sobre o mundo. Ele não conhece o mundo, só algumas partes dele, não há como dizê-lo inteiro. Mas pessoas, aí sim, ele pode falar sobre algumas pelas quais passou. Mesmo que seja breve essa passagem, ele tem a capacidade e de sabê-las e repertório para falar sobre elas.

Pensar o mundo lhe custou noites de sono. Quem diria que sua decisão de alimentar pessoas o traria a este momento. Mas a verdade é que ele não se dedicou ao mundo, sabe que não conseguirá fazê-lo. Dedicou-se às pessoas que foi encontrando pelo caminho.

Para um auditório lotado e silencioso, ele fala sobre como tudo começou. Conta sobre o menino na praia e seu olhar opaco. Sobre como olhares opacos o deixam triste e vazio, feito o estômago das pessoas que alimentou. Confessa que não tem muito a dizer sobre o mundo, que tentar fazê-lo com propriedade seria ir contra o fato de que conhece pouco dele. Mas se quiserem saber, ele pode contar a história de cada uma das pessoas que alimentou, das que agradeceram e das que desdenharam do gesto.

Sabe que o que dizem por aí sobre ele ser um visionário. Acha tudo isso uma grande bobagem. Continua a passar pelas pessoas e isso é solitário. Seu sonho é um dia encontrar alguém que lhe peça para ficar. Alimentar quem precisa de alimento, se ele pode, por que não o faria? Se isso se tornou algo maior do que ele, ótimo. Se outras pessoas desejam seguir o exemplo, boa sorte para cada uma delas.

O que ele sabe é que o mundo é enorme, mas, às vezes, ele encolhe até caber na necessidade de quem está ao nosso lado, a quem podemos socorrer. Distrair-se com a grandiosidade é menosprezar as mudanças possíveis.

Aplaudido de pé, ele só consegue pensar que tentar explicar o mundo é uma distração. Falar sobre aqueles que ajudou diretamente é realização.

Distrações o inquietam.

Imagem © Francis Picabia

carladias.com

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terça-feira, 26 de abril de 2016

OS PINGOS E OS "IS" >> Clara Braga

Como de costume, ela acordou por volta das 6h com seu filho chamando.

Levantou, deu comida pro filho, deu banho, pegou os brinquedos dele e começaram a brincar.

Depois de um tempo foi olhar seu celular e conferir as redes sociais para ver o que estava rolando, e foi nesse momento que ela deu de cara com a notícia que deu o que falar: a bela recatada e do lar vice-primeira-dama. Ficou inconformada com a notícia, foi atrás daquelas fotos do último fim de semana, no qual ela saiu com as amigas para dançar usando aquele vestido justo e acima do joelho, depois procurou aquela outra na qual ela e outras duas amigas estão tomando cerveja em uma mesa de bar e usando um belo batom vermelho e postou com a legenda mais usada do dia: belas, recatadas e do lar.

Não tinha mais muito tempo para procurar outras fotos, tinha que terminar de arrumar a casa, passar roupa, fazer o almoço, dar almoço pro filho, vestir sua roupa até o joelho, deixar o filho com a avó e ir trabalhar.

Nesse momento, se sentindo a própria recatada e do lar, ela entendeu o que parecia ser óbvio mas não era: o problema não é ser bela, recatada, do lar, do bar, da noite ou de qualquer outro lugar. O problema é ser enquadrada em um só padrão e só esse padrão ser considerado bom, faça qualquer coisa fora dele então você não é boa o suficiente.

Para uns parece besteira, para outros é imperdoável, há ainda quem diga que é perda de tempo, mas no final não é difícil de entender, a ideia é simples: ser feliz sendo o que quiser, até bela, recatada e do lar.

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segunda-feira, 25 de abril de 2016

HERÓIS E NABABOS >> André Ferrer

O esporte que faz a cabeça de crianças e jovens, o nosso esporte nacional, tem os dois pés na malandragem. Exemplos contraindicados à formação cidadã fatalmente constituem a alma brasileira. Muito da nossa concepção de mundo fica, portanto, reduzida em termos de símbolos botequinescos.

O futebol e a sua cultura da malemolência ilustram os mais variados discursos, da sala de estar aos palanques oficiais. Tanta informalidade, assim, torna quase impossível não considerar o futebol como algo à parte nos Jogos Olímpicos.

Aliás, o que de fato maravilha nas Olimpíadas é a característica de alto rendimento presente em quase todas as modalidades. No meio de tantos milésimos de segundo, concentração e disciplina, o futebol parece mais um objeto estranho. Não há termos plausíveis de comparação e, neste aspecto, os jogadores de futebol são verdadeiros nababos ao lado dos atletas.

O primeiro medalhista dourado da natação brasileira está fora das Olimpíadas do Rio de Janeiro. Uma segunda medalha de ouro até poderá surgir na piscina, mas não pelos braços de Cesar Cielo. Na última semana, logo depois da prova que o desclassificou, o nadador surgiu aos prantos na TV e na Internet.

Inevitavelmente, ele foi bombardeado com palavras de otimismo e incentivo. Nas suas vistosas bancadas ou nos rodapés dos noticiários digitais, um batalhão de comentaristas tratou logo de abraçar o nadador exatamente como está acostumado a abraçar jogadores de futebol em plena secura de gol. Todos equivocados. Cheios de boa intenção, mas equivocados. Não pelo ato em si, mas pela forma levemente despreocupada e até festiva empregada naquele discurso “bola pra frente”. Com certeza, uma das metáforas mais usadas neste botequim de dimensões continentais. Algo que todo infeliz dá lá o seu jeitinho de encaixar em qualquer contexto.

A grande sutileza, nisso tudo, está no fato de que, na vida de um atleta de alto rendimento, o próximo domingo no “Maraca” pode, eventualmente, não acontecer no próximo domingo, mas só dali a quatro anos. Tempo, muitas vezes, que supera os anos restantes para o fim de uma carreira. Desejar força para um atleta de alto rendimento é diferente de fazer o mesmo para um jogador de futebol.

Em termos gerais, a reação diante da desclassificação de Cielo — seja do público, seja de formadores de opinião — revela um grande engano brasileiro. Escancara os nossos equívocos, como nação, a respeito de esforço, prêmio e mérito.

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domingo, 24 de abril de 2016

ACHADO DE SI >> Eduardo Loureiro Jr.

Poema feito sobre crônica "Primas de Sapucaia!" de Machado de Assis. Para compor o poema foi usada a técnica de blackout, pintando um texto existente com um marcador preto e deixando visíveis algumas poucas palavras.



Você pode ler a crônica original de Machado de Assis neste fac-símile do jornal Gazeta de Notícias de 24 de outubro de 1883.



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