quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

NÃO CULPE OS ASTROS >> Mariana Scherma

Eu não curto essa ideia de que fazer aniversário traz junto a questão do inferno astral. Culpar a astrologia e suas conexões místicas porque derrubei isso, porque aquilo deu errado, porque o rodinho quebrou no meio da faxina (sim, faço minha faxina e lavo minha roupa com muito orgulho) não tá certo. Eu derrubei isso porque me descuidei. Aquilo deu errado porque alguma falha rolou no meio do processo. O rodinho quebrou porque estava velho e uma hora aconteceria.

Agora em anjos eu acredito. Eita que sim. Principalmente quando parada no trânsito, um filha da mãe de um assaltante escolhe os coitados do carro de trás como alvo. Poderia ser o táxi onde eu estava. Sorte minha. Tristeza do de trás. Maldição da violência, da nossa desigualdade, da nossa falta de governo. Se fosse o táxi onde eu estava, será que culparia o tal do inferno astral? Talvez. Mas ainda seria errado, a culpa é da violência, da impunidade, da desigualdade, não da proximidade do meu aniversário.

Não acho que os astros desejam tanto mal assim pra uma pessoa que está ficando mais velha. A idade em sim já é o próprio presente de grego, né? A experiência e o conhecimento, não. Mas o cansaço... Dá pra envelhecer sem aparentar? Queria! Ficar mais velha com o pique dos anos da faculdade. Talvez todo aquele sono perdido tenha resolvido aparecer aos 30 e pouquinhos.


Eu, mais velha, acredito mais no nosso poder. Os astros podem ajudar, mas não atrapalhar. Eles só atrapalham aqueles que colocam tudo na conta mística. Hoje é dia do meu aniversário. Teoricamente, deixei todo o inferno astral pra trás. Então na prática vou correr atrás, acreditando que dá, sim. Acreditando nas pequenas alegrias, e esquecendo os probleminhas. A gente é tudo aquilo que carregamos no coração. Então, vamos deixa-lo mais leve. Nunca foi bom carregar mala pesada em viagem, não é mesmo?


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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

PERFIL >> Carla Dias >>

Cena do filme Bonita Como Nunca |  Fred Astaire e Rita Hayworth

O telejornal que eu assisto, não é o mesmo que você assiste. Na verdade, abandonei telejornais há cinco escândalos, que eles deram de competir com programas de entretenimento. Isso vem confundindo a realidade como nunca.

Manifestações públicas de ignorância me tiram do prumo, quando seus autores tendem a ser inflexíveis. Por que não aceitar de vez que opinião não é lei, justiça, nem sempre é amparo para quem dele necessita, tampouco verdade?

Ah, a verdade... Essa Dona Doída que tende a aparecer nua, crua, desleixada, avessa ao desejo vigente.

Não me importo de ser acordada pela conversa animada de um bando de maritacas. Não maldigo pássaros, árvores, café e dias de chuva. Tento não maldizer pessoas, mas frequentemente sou tentada por elas. Humana, pessoa que sou, acabo abrindo a boca, a alma, a cabeça, a porta de saída. Maldigo, desdigo, às vezes, cinco minutos depois, quero bem de um jeito que somente maritacas alucinadas entenderiam. Aquele jeito do quando cada sentimento grita, ao mesmo tempo, no nosso dentro.

Angustio-me com facilidade ao pensar no universo. O infinito me enche de desolação, porque remete à solidão que habita o sem-fim de quem sou. Já vi quem dormisse felicidade e acordasse rancor, como se aquelas horas, olhos fechados, tivessem se dedicado ferrenhamente a lapidar injúrias em um espírito frágil. Não foi cena bonita de se ver. Não foi período agradável de se viver.

A tristeza me inspira começos. Quando ela me atinge, desdenhosa e luxuriante, banco a temerária e me jogo ao desconhecido. Foi assim que aprendi a fazer crochê, torta de palmito, vestido. Pintei os cabelos de azul, as paredes de casa de amarelo. Estudei estrelas, outro idioma, as relações do eu com o misticismo. Aprendi a dançar bolero, entoar mantra, tive longas conversas com padres, pastores, benzedeiras e xamãs.

Sintonizei meu coração na consciência de que não gostamos dos mesmos livros, da mesma série, da mesma música, da mesma comida. Que seu Deus é o meu, ainda que você insista em dizer que não. E em vez de me desapontar com as nossas diferenças, decidi embarcar nelas, levando as minhas a tiracolo. Vai saber aonde nossas diferenças podem nos levar, certo?

Em tempo: manifestações públicas de afeto me encantam.

carladias.com

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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

NÓS E AS METÁFORAS >> Clara Braga

No início do caminho tudo é dúvida. Será que fiz a escolha certa? De onde surgiu mesmo a ideia de trilhar esse caminho dessa forma?

Antes que desse tempo de elaborar outras questões já deu a hora de começar a jornada, e é bem ali, na linha de partida, que somos logo contemplado com uma das imagens mais bonitas que já vimos na vida: um lindo nascer do sol aparece para dizer que mesmo que as coisas não saiam como planejamos, já valeu a pena.

E assim começamos. A jornada vai ser longa, e por mais que a gente se prepare para lidar com imprevistos, podemos sempre ser pegos de surpresa. E é por isso que quando, na parte mais difícil do percurso, começa aquele temporal, temos que estar abertos para a mudança repentina de estratégia. 

De que adianta querer repetir uma experiência anterior se as condições não são as mesmas?

A única regra é não desistir.

O caminho é longo, e por mais que a gente corra, o horizonte parece sempre distante. Os pensamentos voam, e depois de passarem vários filmes na cabeça chegamos a uma conclusão importantíssima: não precisamos carregar o mundo nem nas costas nem nos ombros, precisamos de leveza. 

Também não precisamos ir sozinhos, sempre temos quem vá com a gente e, o mais importante, respeite nosso ritmo. Alguns não vão ao nosso lado, mas a certeza de que estarão na chegada nos esperando de braços abertos também torna o caminho mais leve.

Quando vamos chegando ao fim desse caminho, dessa escolha, o foco é essencial. O cansaço parece maior que qualquer vontade de continuar, e é aí que entendemos que quem manda é nossa cabeça, por isso temos que estar sempre com a cabeça no lugar, lembrando sempre que para ter a cabeça no lugar é preciso se deixar levar, se perder de vez em quando. É preciso equilibrar nosso lado racional com nosso lado louco.

Aliás, desconfio que na vida estamos sempre buscando equilíbrio. Mas não, não era sobre a vida que eu queria falando, queria apenas compartilhar como foi a segunda meia maratona que consegui completar, mas percebi que corridas são belas metáforas da vida.


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sábado, 3 de dezembro de 2016

O PADRE E O GEIA >> Sergio Geia

 

Somos dois operários da mastigação; nem bem amanhece o dia, lá estamos batendo o ponto. Sem uma ajudante, ele toma o café e faz as refeições na rua; eu, sozinho, também.
Conheço Eugênio de longa data, desde os bons tempos em que ele, um magro seminarista, frequentava os Castilhos. Eu, um magro coroinha, também frequentava os Castilhos; e a igreja. Nunca tivemos uma amizade na acepção usual do termo, apenas o conhecia, mesmo porque, depois, Eugênio sumiu — seminarista é assim; costuma andar pra lá e pra cá, a conhecer realidades díspares em comunidades centrais e periféricas — e virou padre; eu fiquei, cresci, larguei a batina (de coroinha), virei coordenador de pastoral da juventude, depois cresci mais, casei, sumi.
Agora, Eugênio é pároco do Santuário, e eu não sou nada; ou, talvez, seja apenas um simples sujeito que gosta de escrever. Pois topo com o Eugênio quase todos os dias na padaria. Outro dia escrevi sobre ele e um carteiro (ele nem sabe); hoje escrevo sobre ele e o Geia; porque hoje, somente hoje, depois de tantos encontros, de tantas idas e vindas, depois de tantos bons-dias e jubilosas degustações, paramos um pouco pra conversar.
Disse-me que um tio meu é vizinho seu; que outro dia foi visitá-lo em sua residência; que conhece bem os Geias, o Marcos, o Milton; disse-lhe que o conhecia da casa dos Castilhos; e da igreja; que fui coroinha, coordenador de grupo de jovem, cantador dominical da missa das seis e meia; que quando o conheci, ele era um fino seminarista (disse apenas que era um seminarista, para lhe ser bastante honesto).
Conversamos muito sobre o saudoso Monsenhor Teófilo; disse-lhe que Teófilo havia morrido muito cedo; que prezei muito a sua amizade; que sinto falta. Eugênio disse que quando Teófilo assumiu a paróquia da Santa Teresinha, vindo de São Bento do Sapucaí, ele já apresentava problemas no coração. Não sabia; minha lembrança é vaga. Tenho apenas comigo a imagem turva de alguém dizendo que ele passara mal numa consulta médica.
Falou-me sobre o Seminário Diocesano Santo Antônio, lugar que o Geia tanto frequentou, onde tanto jogou bola, tanto namorou em animadas festas juninas, tanto bebeu e tão pouco rezou. Hoje o seminário não está mais na Granadeiro Guimarães; mudou-se. Disse-me que parte foi para o Alto do Cristo e parte, para a Casa do Menor; disse-me que a manutenção da casa, que era muito grande, estava salgada; que reduziu enormemente o número de seminaristas; que o senhor bispo achou por bem alugar o prédio para duas escolas de origem diocesana, e transferir o seminário para outras bandas.
Naquele tempo eram muitos os seminaristas, tanto que havia o seminário maior e o seminário menor; eram trinta, quarenta homens vocacionados. Foram fraternas amizades, boas companhias de bar, muitos recebi em casa para almoçar. Um tanto abraçou a vocação, guiados pelo Senhor e com fé; outro tanto preferiu abraçar coisas mais mundanas, sensuais, mas não por isso menos dignas ou distantes dos caminhos do Senhor.
Confesso que o Geia certa vez pensou em entrar para o seminário. Foi um pensamento vago, uma ilusão passageira. Mas a vida no seminário parecia atraente; relevem, porque o Geia, ao tempo daquele pensamento, era uma criança inocente, que não sabia nada da vida. Lembro-me que quase foi a um encontro vocacional no seminário; era uma espécie de apresentação das coisas aos candidatos. Estava tudo certo para ir, porém, não foi, e a dita vocação, a dita vontade de entrar para o seminário, se desmanchou, como um pudim malfeito.
Conversamos mais alguma coisa, falamos de política, da situação preocupante do país, dos amigos Castilhos; logo ele terminou o café, se despediu e foi. Eu fiquei, fiquei mais um pouco bebericando o expresso, imaginando que aquela conversa boa poderia ser o princípio de uma sincera amizade.  

Ilustração: obra do acervo do artista plástico frei Miguel Lucas Peña


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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM>>Analu Faria

Assisti ontem ao filme que dá título a esta crônica. Que delícia! Lembro como se fosse ontem de uma longínqua Analu dizendo a alguém que Harry Potter era para crianças (essa Analu de outros tempos tinha 19 anos quando o primeiro livro saiu no Brasil). Também me lembro de alguém respondendo: "Confie em mim, você vai gostar." Ponto para essa pessoa que sabia das "ressonâncias humanas" daquela mocinha cheia de si.

Desde o primeiro livro de Harry Potter*, aprendi a não subestimar a fantasia. Freud explica!! - eu, que vivo no mundo da lua, costumava achar o fantástico uma coisa "de criança"! Sabe-se lá porque ainda não investi em escrever um livro, um conto ou inventar qualquer coisa que envolvesse um mundo fantástico. Quando o martelar da realidade vira lugar-comum, talvez faça mais sentido escrever sobre uma mulher que vive com um véu mágico sobre os olhos do que rabiscar uma crônica sobre alguém que acha Harry Potter infantil.

"Animais Fantásticos e Onde Habitam", por exemplo, não é sobre criaturas que não existem. É sobre preconceito e repressão (e sua terrível consequência). De quebra, chacoalha o senso comum sobre o  que é um atributo "feminino" e o que é um "masculino" :Newt e Jacob, os mocinhos da história, não são fortes ou rápidos ou leem mentes; são, respectivamente, cuidador de animais e confeiteiro; duas das mocinhas da trama são uma auror (uma espécie de policial) e a autoridade máxima da "circunscrição bruxa" de um país. 

Se eu puder te dar um conselho - mas lembre-se que conselho, se fosse bom, era vendido! - vá ler literatura fantástica. Em tempos de Bolsonaro e Trump, pode ser um senhor abre-olhos. 







*Como toda mocinha cheia de si que se preza, nessa época eu, do alto da minha intelectualidade de fim de milênio, fazia concessões ao realismo de Gabriel García Marquez. 


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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

TRAVESSIA >> Carla Dias >>


Houve dia em que não saiu de casa. Calou-se até diante de si. Quis nem saber quem estava do outro lado da porta a cutucar campainha. Esqueceu-se de comer, beber, banhar. Permaneceu naquele mesmo lugar, durante horas.

Esvaziado de desejos e alegorias, varreu de si os ecos das palavras, que durante ávido tempo guardou naquele canto de si que nem tão bem conhecia. Sabia que ele existia, que evitava confrontá-lo. E então, assim, esvaziado, o tal canto se parece com uma cidade vazia.

Como único ser dessa cidade vazia, nesse dia ele se nega a assistir ao telejornal de todos os dias, de escorregar o corpo no sofá e provocar a sensação de conforto, enquanto observa o mundo ruir naquele lá fora. Ri de si ao compreender a proximidade dos eventos, não importa quantos mares se coloquem entre aqui e ali. Lá fora é sempre do outro lado da janela. Esse falseado conforto é uma forma covarde de se manter distante do que o incomoda.

Nesse dia em que não saiu de casa, depois de um vazio abissal ter tomado seu dentro, não recusou cada incômodo que o invadiu. Foi assim que chorou em vários tons e durações, gritou aflições e deleites. Espancou paredes e teve uma longa crise de riso. Foi uma sinfonia de emoções contradizendo aquela cidade vazia que o habitava há algumas horas. Foi uma repatriação do que importa.

O que importa já não se identifica com tudo o que importava antes desse dia. Despertou-se de si mesmo para a vida com o desapego às certezas. Elas não são mais soberanas, as regentes de sua jornada. Percebeu-se disponível para o entendimento com questões que evitava confrontar porque o tempo era curto, a paciência era rasa, o conhecimento de causa era parco.

De acordo com o que no momento o rege, a vida tem matizes, cheiros e cores, e até mesmo o horário comercial carece de pausas. Lá fora não acontece somente em telejornais. Amor não é sentimento nascido exclusivamente para embelezar canções. Sorrisos são rebeldes e nos escapam quando bem entendem. Dor tem a força de desarranjar nosso dentro, mesmo quando é a dor do outro. Jardins colaboram com o olhar. O olhar se espalha pelo mundo. Às vezes, é o olhar que capta. Em outros, é o coração, que mesmo sendo músculo, reina supremo na poesia como símbolo do sentimento.

Há dias em que o melhor é sair de si, dar uma volta por aí e voltar. Quem sabe, mais sábio.

Imagem © Jan Mankes

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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

MÁGUINO - final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 14/11/2016 – Feliz com o convite dos ex-patrões, que poderia dar o impulso que faltava aos seus empreendimentos, Máguino se envolveu em negócios fraudulentos e foi preso pela polícia federal. Abandonado na cadeia pelos empresários, só lhe restava a sofrida companheira). 

O telefone foi desligado do outro lado da linha, a solidão desceu sobre o nosso empreendedor, e ele pensou na sua Jacira.

Tinha gritado com a Jacira quando ela mencionou a possibilidade de ele estar sendo envolvido em alguma trama. Ela não conhecia gente como os Labac, estava acostumada a lidar com  trambiqueiros da comunidade.

- Tem gente que não precisa ser desonesta, Jacira. Entenda isto! – tinha dito.

Mas agora só tinha ela. Não que concordasse com suas desconfianças. Entendia que os Labac não podiam ter seu nome em manchetes policiais. Se nesse primeiro momento não queriam se envolver, era porque tinham de se preservar a empresa. Devem ter sido enganados também, é assim o mundo dos negócios. Lobo comendo lobo. Só os fortes sobrevivem.

E ele ia sobreviver. Estava orgulhoso da pressão que fez nos Labac, dizendo que iria contar a verdade ao delegado. Isso apressaria as providências e a solução. Não era mais aquele empregado que abaixava a cabeça e dizia sim senhor. Queria que soubessem com quem estavam tratando.

Mais uma vez contou com a generosidade, agora desiludida, de Pedrada – depois falam mal da polícia! Mais um telefonema.

Jacira era mulher prática, de poucos sonhos, que aprendeu a sobreviver, desconfiar e a fazer o que precisava. Aquele marido não era grande coisa, mas era o que tinha.  Quando recebeu a ligação chorosa, saiu como estava, de chinelos, pano na cabeça e roupa de trabalho.

Pedrada, acostumado aos escândalos por causa de maridos na delegacia, não permitiu que Jacira passasse da porta. Era só o que faltava! O fato de ter pena daquele “bucha” não significava permitir alterações na rotina do seu ambiente de trabalho. Visitas só na quinta-feira. Mas, disse que ela procurasse ajuda, a Defensoria Pública, porque seu marido estava enrolado. Os ex-patrões negaram saber do que se tratava e, pelo jeito, ele ia segurar sozinho. Nada provava o envolvimento dos Labac, nem cheques, nem depósitos. Nem sequer telefonemas ou mensagens. Se havia algum principiante ali era o Máguino.

Jacira e suas lágrimas voltaram para a comunidade, encontrando na subida algumas companheiras de infortúnio, marido preso, mas por razões mais graves e menos idiotas. Acostumadas a esses contratempos jurídico-policiais, foram elas que sugeriram acompanhar Jacira numa visita aos Labac, já que na delegacia – adiantaram - não se consegue nada.

Na sede da empresa, Jacira não teve dificuldades em passar pela portaria, identificando-se como esposa do Máguino, conhecido agora por ser o queridinho dos patrões. Estava ela sendo barrada pela secretária que já se dispunha a chamar a segurança, quando um displicente Dr. Pedro voltou do almoço.

- Máguino está na cadeia. E vocês têm que fazer alguma coisa!

- Minha senhora, não podemos ficar resolvendo problemas de ex-funcionários com a justiça. Já dissemos isso ao Máguino.

Mesmo com a janela fechada por causa do ar condicionado, o som da passeata se fez ouvir:

- LI-BER-DA-DE PA-RA MÁ-GUI-NO! LI-BER-DA-DE PA-RA MÁ-GUI-NO!

Um Dr. Simão assustado apareceu na porta do gabinete para perguntar o que era aquilo. Jacira sabia.

Correram pra janela, e um alto-falante fanho repetia palavras de ordem. Mas tudo pode piorar e piorou. Duas câmeras de TV enormes e antiquadas chegaram acompanhadas de entrevistadores com microfones de cabos grossos ligados a baterias. Trânsito parado. Buzinas.

Jacira foi instalada na sala do Dr. Simão em um sofá tão macio que ela teve medo de cair. Água e cafezinho foram servidos. Os irmãos procuravam as palavras. Jacira só esperava a pergunta pra despejar suas verdades. Mas não perguntaram nada. Só pediram, terminado o café, que ela aguardasse com a secretária.

Começaram ligando pra delegacia, e um Pedrada descrente até dos poderosos disse que o delegado estava em Mangaratiba, e que não ia ser fácil de resolver porque a federal estava no meio. Por mais de uma hora Jacira assistiu à secretária fazendo e passando ligações em ritmo frenético.

Orientados pelo zap de Jacira, os manifestantes aguardavam na calçada, comendo biscoitos e conversando tranquilamente. Nem parecia a mesma turba.

- Pronto, Dona Jacira! – disse Dr. Simão quando ela voltou à sala. – Cumprimos o nosso dever. Máguino foi ótimo funcionário e será sempre um amigo desta empresa. Leve o meu cartão, e pode buscar o seu marido na delegacia.

Dr. Pedro, na janela, ficou intrigado com os câmeras e repórteres que na calçada confraternizavam com os manifestantes.

- Que emissoras são essas, Dona Jacira? Vocês que chamaram?

- Emissora nenhuma não, Dr. Pedro. Isso é material velho do curso de cinema lá da comunidade. O pessoal veio dar uma força.

Antes de ir à delegacia, Jacira colocou vestido novo, bijuterias e fez escova. Pedrada nem a reconheceu. Máguino já tinha sido retirado da cela e aguardava dignamente sentado na sala de espera.

Ao receber o cartão das mãos daquela mulher elegante, Pedrada perguntou obsequioso e sorridente:

- A senhora é secretária do Dr. Simão Labac?


- Não! Sou esposa do Dr. Máguino Babac!


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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

DESAFIOS DE APRENDIZAGEM >> Paulo Meireles Barguil


Meus neurônios, de todos os tipos e em várias regiões do cérebro, sofrem de espasmos com intensidade diversa, do axônio ao dendrito, quando escuto ou leio a expressão "dificuldades de aprendizagem".
 
Para mim, não é difícil identificar alguns motivos dessa crença, que, apesar de tantos discursos construtivista e sócio-interacionista, dentre outros, continua inabalável.
 
É-me dolorido, todavia, ver as consequências da mesma em tantos cenários, sobretudo nos escolares.
 
Ressalto, de modo especial, a tendência de nomear de dificuldade, principalmente a do outro, o fato de alguém não ter desenvolvido alguma habilidade específica.
 
Para mudar esse roteiro, é necessário admitir que se desconhece o que alguém já sabe, igualmente o quecomo essa pessoa pode aprender.
 
Essa ignorância decorre de alguns aspectos: i) a impossibilidade de efetuar uma ressonância magnética dos sentires, agires e saberes do outro, sendo a petulância um bom exemplo de quem acredita possuir tal capacidade; ii) a complexa (e, talvez, infindável!) determinação do ápice; e iii) a incapacidade de qualquer humano de determinar o trajeto, seja esse reto, curvilíneo ou com buraco de minhoca, entre pontos que ele não avista.
 
O aprendizado é fruto de experiências, ou seja, do que fazemos, sentimos e pensamos de modo distinto.
 
Se, por qualquer motivo, apenas repetimos o viver (ou o morrer!), não é possível a mudança.
 
Quão intrigante é a dor: pode ser motivo para permanecer ou sair!
 
A alegria, embora não seja uma boa mestra, uma vez que não nos prepara para aceitar o efêmero – muito pelo contrário! é uma ótima companhia, pois com ela nos lambuzamos com os sabores da vida.
 
A vida, por vezes, toca uma sirene inaudível para avisar o término do folguedo... 


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