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VIDA DE ÉTUDIANTE>> Analu Faria

Achei nos meus guardados um velho caderno de estudos de francês. Aparentemente, eu já estudava francês há dez anos, embora eu não me lembrasse disso. O que me chamou a atenção, contudo, não foi meu problema de memória, mas o fato de que, em um dos exercícios em que se perguntava “Êtes-vous fatigué(ée) ou en forme?” eu tenha respondido : Je suis TRÈS FATIGUÉE!”, assim mesmo, com letras maiúsculas e exclamação. Concluí que tô très fatiguée há muito tempo. Talvez fosse de estudar francês.
Não me leve a mal, eu gosto de estudar, gosto de aprender novas línguas. Minha implicância com le francês é com a incompatibilidade – em número mesmo - entre representação gráfica e fonema. Traduzindo: é incrível a quantidade de “letras que não são faladas”. Mon Dieu! “S” à la fin das palavras é um negócio que francês déteste. Ainda bem que existe contexto para a gente saber quando é plural e quando não é. Mesmo assim, ainda me sinto très confuse.
Olhando o resto do caderno, me dá uma pena de não ter a…
Postagens recentes

FUGA >> Carla Dias >>

Mora ali, naquele canto. Às vezes, sai para um passeio pelo por aí, mas sempre volta. Dizem que sabe nada sobre aventurar-se. Porém, sai por aí, vez em quando, mas sempre volta.
Sempre volta.
Mora ali, nas indecisões. Não raro, pega-se a vasculhar possibilidades: e se? E se? E se?
E se?
Então, cala os questionamentos e se encolhe no seu ali. Não há lugar que conheça melhor do que aquele lugar, onde é capaz de acalmar seus barulhos internos e ser livremente... 
Quem?
Dia desses, observou uma mãe abraçar seu recém-nascido, como se o protegesse do tudo de ruim. Percebeu que aquele era o ali daquela criança, que resmungou e, em seguida, sorriu. E também um moleque faceiro que, depois de muito tempo a brincar com seu cachorro, sentou-se no chão, exausto, e o bicho se ajeitou aos pés dele, exausto. Ali era o ali daquele ser. O ali no qual ele se sentia seguro para curar exaustão.
Mora ali, onde os olhares nem sempre alcançam ou as palavras ecoam. Há vazio de monte naquele ali. Há silêncio …

RESGATE DO SUBMUNDO >> Clara Braga

A sensação era de que teria acabado de acordar, mas não tinha como ser mais do que uma sensação já que nem se lembrava da última vez que tinha ido dormir.
Conhecia aquele ambiente com a palma da mão, mas o que havia depois daquela porta, constantemente fechada, tinha virado mera lembrança.
Decidiu sair, já que não lhe restavam muitas opções. Abriu a porta desconfiada e, assim que uma fresta se abriu, já ouviu barulhos. Ela esperava mesmo ouvir barulhos, mas não tinha ideia de como seriam. Titubeou, mas novamente lembrou de que não tinha muita opção.
Foi andando devagar, quase como se estivesse fazendo um reconhecimento do local. Morava ali havia 14 anos, mas será que aquelas paredes sempre estiveram pintadas de verde?
Enquanto olhava a parede esbarrou  em uma mesa e derrubou um porta-retratos. Quem ainda revela foto, pensou! Mas não pôde deixar de notar que fotos dela haviam poucas, como se de uns anos para cá não estivesse presente em muitos eventos familiares.
Ficou pensativa e foi…

branco >>> benteví

mea culpa
- eu
sempre distraído -
nunca tinha percebido antes
mas lá está ele
em meio aos meus bem-te-vis
o meu benteví

nasceu errado
sem saber que não poderia existir
em tempos de regras
hifens virgulas e pontos
- o politicamente correto -
lá está ele
cantando alto seu canto absurdo
sem perceber que é apenas um erro

está pousado na árvore grande
olho-o por 7 vezes
e por 7 vezes o culpo
mas também o perdoo
por 7 vezes
por pena por indiferença
- é o que digo a mim mesmo -
mas na verdade por admiração

- penso -
quisera ser como ele
viver sem ter consciência
de que não deveria ter nascido
e poder cantar
por não saber o canto impossível

vejo-o ainda pousado na grande árvore
sozinho agora
- e para sempre -
também não sabe
que jamais existirá uma benteví
desconhece sua sina
de nascer viver e morrer
dentro de sua própria solidão
- que ele também desconhece -
ouço mais uma vez seu canto
que repentinamente me parece
mais belo que todos os demais

O HOMEM COMUM >> Fred Fogaça

Madrugada pelas três só que do dia anterior, porque não dormira, sem pensar no turno que acabou, tanto menos no final da semana que começa, portando a indumentária pesada da lida, vestindo manchas de graxa pelo fim da gola dobrada, no antebraço longo, de veias saltitantes e pelos grossos que vão até a ponta da mão, intermediados apenas por um relógio largo e prateado, só no braço direito, que apoiado sobre a mesa de plastico manca, equilibra-a segura, e protege um copo americano de cerveja, que já meio quente, já meio sem gás, borbulha na mesma lentidão dos olhos semi-cerrados, da boca de grunhir sem dizer e de uma certa tranquilidade inconsciente de estar, por isso parado no tempo, senão pelos dedos que balbuciam em toques ritmados a música do rádio, salvo dois, que aproveita segurando um cigarro que mal se lembra de estar de aceso, não fosse pela fumaça fina que se espalha à vontade e já espanta os mosquitos, protegendo a garrafa, que apesar de vazia, não se anuncia à troca, talvez…

ESCRAVO DA PAIXÃO >> Sergio Geia

Sorriso de criança feliz que me enfeitiça quando comento coisas tipo você já imaginou o sujeito dormindo em casa e ser morto por uma vaca que cai sobre sua cabeça? E você ri mais ainda quando digo que é verdade, que está em todos os jornais. Mas depois você para um instante, de repente fica séria, talvez refletindo sobre a estúpida morte acidental, me olha fundo, parece querer dizer algo, eu fico imaginando coisas, mil coisas, no fundo, eu imploro que diga, diga algo, eu quero ouvir, mas você não diz. Lentamente, silente, sem desviar os olhos, você se aproxima, me beija, ou se deixa beijar; sorri, se arrepia toda, eu sinto, com um leve mordimento em sua orelha, depois me beija, e aí sim, agora, você me beija, como se fosse o último beijo de sua vida, um beijo de línguas fundidas, de união de desejos, um beijo de coroação, pode ser de coração, vai, por que não?, de vida, de paixão, eu sinto o sabor de nicotina no seu beijo, sinto, agora em mim, os pelos eriçados, uma vontade desespera…

DESGASTE E RESGATE >> Paulo Meireles Barguil

A convivência, bem sabemos, é fonte de desgaste. A corrosão decorre de várias situações: expectativas não alcançadas, atitudes sem polidez, promessas não cumpridas... O tempo é o cupim da existência! Mas, também, pode ser o tamanduá, pois diversas são as condutas preventivas e conservacionistas, embora elas não emitam qualquer certificado.
Aos desatentos e relapsos, bem como aos contemplados pelo acaso, muitas vezes, é possível tentar o resgate, cuja possibilidade de sucesso é imprevisível.

O maior desafio não é evitar a ruína, a qual sempre acontecerá, mas aceitar que ela é sempre uma dádiva...