sábado, 20 de outubro de 2018

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia




Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.
Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o último, pt. Enfim. Depois de assistir a tantos, estava eu envolvido num engavetamento. Todos, inclusive eu, em bom estado, sem qualquer ferimento, se pudermos excluir o emocional, claro, do que entendemos ser esse bom estado. Na verdade, estávamos todos feridos emocionalmente.
Orientados pelos federais, pusemos os carros no acostamento. Habilitação e documentos. Teste do bafômetro (eu era virgem até então em bafômetros; como era virgem em colisões de automóveis. Aliás, tinha orgulho dessa condição: em mais de 30 anos de habilitação, nunca havia me envolvido num acidente). O coração continuava batendo rápido, embora me sentisse tonto, mergulhado numa espécie de torpor. Estava desorientado, zonzo. Liguei para um amigo. Conversamos. Precisava falar, me libertar da inação.
Boletim de ocorrência pela internet. Anotação das placas. Seguro do último dos carros deveria cobrir os danos. O motorista não lembrava qual era o seguro, teria que ver em casa, em pastas, depois deixou escapar que talvez não tivesse pago as últimas parcelas.
Consegui trazer o veículo até a garagem do meu prédio, agradecendo o tempo todo por não ter sido uma carreta a causadora do engavetamento. Entrei em casa estranho (continuo estranho). Examinei-me de cabo a rabo, não localizei qualquer dano aparente. Percebi que os batimentos cardíacos continuavam elevados, 120, 130; a pressão, normal. Tentei comer. Tentei dormir. Dia seguinte acordei cedo e saí para caminhar. Tentei trazer normalidade para o meu dia. Tentativas vãs. Caminhei, corri, mas continuo estranho.
Talvez um dia passe. Amanhã, quem sabe; ou depois.
Mas enfim, queridos, escrevo apenas para contar que apesar do susto, eu estou bem. Sei que alguns ficaram sabendo, ligaram, mandaram mensagens via whatsApp, demonstraram preocupação. Obrigado. Mas não foi dessa vez que vocês se livraram de mim, ou das minhas crônicas.
Foi uma coisa bobinha, eu sei, nada perto de tanta tragédia que ocorre por aí. (Aliás, por falar em tragédia, a fé é uma coisa maravilhosa, como maravilhosa é a quantidade de romeiros que caminham pela Dutra nesse mês de outubro em direção a Aparecida. Mas isso pode ser tema de uma outra crônica, quem sabe; já tenho o título: “Crônica de uma tragédia anunciada”). Mas é impressionante como uma coisa bobinha dessas desarranja por completo tudo que a gente demora anos para construir aqui dentro.
É vida que segue.


P.S.: Aviso aos navegantes: não precisei de Lexotan, ok? Ainda.




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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

YUTL, QUE VEIO DA TERRA >> Zoraya Cesar

A casa era velha, velha, quase coitada. Por fora, poderia até parecer, ao primeiro olhar, abandonada. 

O observador menos distraído, no entanto, percebe uns detalhes aqui e ali: uma cortina de chita limpa de doer a vista esvoaçando pela janela; flores viçosas e um enorme pé de jurema no jardim, e aproxima-se, curioso. A porta está entreaberta e o observador dá uma espiadela no interior. A sala era pequena; de móveis, apenas o essencial - todos muito antigos, mas bem conservados.  

Movido pela curiosidade, Yutl entrou. Cheirava bem, a casa. Cheirava a alecrim, eucalipto, sálvia. Ervas de cura! Yutl ficou contente. Isso era bom sinal. Saiu para dar uma volta no quintal e pulou de contentamento ao ver diversos troncos podres cheios de cogumelos venenosos, prontos para serem colhidos e transformados na mais deliciosa cerveja do mundo. 

Flores, ervas, jurema, cogumelos... Era quase o Paraíso. Para ser um lar, só faltava conhecer seu morador. Mordiscando folhas de erva-doce para se acalmar, esperou, sentado atrás de um pé de manacá de
O manacá de cheiro,  a ipomeia,
antúrios cristalinos exalam
inebriantes e maravilhosos
perfumes ao anoitecer
cheiro. O Sol se despedia da tarde, enfeitando o céu de lilás e delicadezas. Ipomeias e antúrios cristalinos abriram-se, permeando o ar de fragrâncias melodiosas e ricas. Yutl exultou, suspirando de felicidade. Simplesmente amava flores de cheiro noturnas. Inspirado por toda aquela beleza, resolveu fazer uma surpresa ao morador, em agradecimento por aqueles momentos felizes.

Ajeitou as ervas que estavam na pia da cozinha, empurrou o tapete para dentro, encheu o pito de fumo. Mal escondera-se de novo, e ela chegou. 

Era uma velha, velhinha, que nem a casa. Magra, magrinha, quase um graveto, um bicho-pau. Vestia uma túnica branca que ia até os joelhos ossudos. Segurava um cajado de madeira, que usava para palmilhar o caminho escuro, iluminado apenas pelas estrelas e pelo brilho de seus olhos, naquela noite de lua nova.

Uma Preta Velha! 

Yutl engasgou de emoção. Amava desde sempre qualquer Preto Velho ou Caboclo e havia muito tempo mesmo não encontrava nenhum (cada vez mais raros, são espécie em extinção). Só restava saber se seria aceito. Algumas pessoas eram resistentes a companhias estranhas. Aguardou, ansioso, a mulher entrar.

Ela parou, viu o tapete dobrado e resmungou ‘hum’. Chegou à cozinha, e, ao pegar uma desbeiçada caneca de folha de flandres, percebeu as ervas arrumadas na pia. Fez hum-hum”, e voltou pra sala. Sentou, estendeu as pernas, alcançou a  bolsa de tabaco, o pito e... surpresa, o cachimbo já estava pronto para ser pitado. Fez “hum-hum-hum” e sorriu, um sorriso branco de dentes perfeitos, gentil e humilde. Ficou ali a soltar baforadas em formatos de flores, estrelas, peixinhos...
Pitar um cachimbo
é um ritual comum
a todos os Pretos Velhos.

Yutl a tudo observava, escondido e atento. A Preta Velha levantou, pegou um pedaço, pedacinho, de bolo de fubá, deixou-o na janela e foi dormir. Yutl mal cabia em si. A dona da casa não só percebera sua presença como também o convidava a ficar! Era muita felicidade. Um lar! Um lar para chamar de seu, um lar para morar, um humano para cuidar. Era, realmente, o Paraíso.

Agora que a casa também era sua, colheu um cogumelo e enterrou-o debaixo da jurema. Na próxima Lua Nova estaria pronto para ser transformado em cerveja. Feito isso, ajeitou-se e dormiu numa teia de aranha cuja proprietária já não pertencia a esse mundo. 

Nunca ele fora tão feliz. A Preta Velha era uma curandeira querida na região e sua fama aumentara graças a Yutl, que a ajudava a plantar, colher, escolher e preparar as ervas e mandingas certas para cada caso. 

Aos poucos, Yutl passou a entrar nas casas do vilarejo próximo. Espantava os pernilongos que atacavam bebês, afugentava pesadelos, devolvia objetos perdidos, iluminava, com vagalumes, o caminho dos viajantes cansados, nas noites de lua tímida. 

Talvez essas e outras pequenas gentilezas tenham despertado memórias ancestrais nos habitantes, pois, assim, do nada, camponeses passaram a separar um copo de leite da primeira ordenha do dia; crianças enfeitavam as pedras da estrada com lacinhos, botões, flores, paus de canela; mulheres deixavam nos peitoris pequenos potes com mingau de banana. Faziam isso com naturalidade, sem se dar conta que seus antepassados costumavam agir da mesma maneira, considerando os Elementais como da família.

Quatro Luas Azuis apareceram no céu e, se os Elementais não envelhecem, seres humanos sim. Chegou, enfim, para a bondosa Preta Velha, o tempo de partir. Yutl não se entristeceu. Sabia que a vida era um eterno recomeço. A Curandeira cumprira sua Missão com honra e caridade; ia feliz. 

E nosso amigo? Ficaria na mesma casa até a primeira chuva de verão. Depois decidiria o que fazer. Poderia se desfazer na chuva e voltar à terra, de onde viera, ao barro do qual fora criado. Ou escolher um novo lar. 

Portanto, se você perceber que as crianças estão mais sorridentes; os bichos, mais brincalhões; que os objetos estão sempre mudando de lugar; que não tem mais mosquitos na casa... bem, que tal deixar um mimo aqui, uma guloseima ali, colocar uma planta na casa?

Pode ser que Yutl ou algum de seus primos esteja querendo morar com você, fazer-lhe pequenos mil favores, proteger sua família. Nunca se sabe.
Nosso amiguinho Yutl, Elemental da Terra

Agradecimentos mais que especiais para a minha Amiga Érica Pascoal, ilustradora talentosa, que gentilmente desenhou Yutl (e deu muito trabalho, pois ele não parava quieto!)



Fotos
manacá de cheiro Pinterest 50f967d1ebf65d6692b2d85531f58df6.jpg
cachimbo Pinterest 7e6f67b5683619d1c81b6bd679648b85.jpg






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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

SEXTO SENTIDO>>Analu Faria

Nunca acreditei nesse negócio de "poder do inconsciente", apesar de já ter lido um tanto sobre isso, apesar de saber que brigas fenomenais já haviam sido travadas em nome dos estudos da psique e do que ela tem de mais profundo. Apesar mesmo de ser a matéria com que lidam os psicólogos. Na verdade, eu secretamente achava os psicólogos meio charlatães, mais ou menos o que eu penso sobre a Xuxa falando da experiência dela com duendes.

Talvez por não acreditar nesse "poder", eu entendia os "insights" como maquinações que, malgrado fossem inconscientes, passassem pelo crivo do nosso entendimento e só aí manifestavam-se de forma consciente e mais ou menos controlada. Muito que bem, senhores: eu acho é que eu nunca tinha tido um insight! E eles vinham sendo numerosos. Obviamente, achei que estava ficando louca. Se você já teve aquela sensação de "Caraca, então... é isso?", aquele susto que acompanha o segundo de clarividência lúcida, você sabe do que estou falando. É coisa de gente doida. Fui a um psiquiatra. 

_ Epifanias são um ótimo sinal de saúde da mente!, riu o médico.

 _ Ótimo porque não são com o senhor!, soltei. _O senhor gostaria de estar na academia e, por um milésimo de segundo  pensar no seu mau humor como tendo a cara de uma freira velha e ressentida que te acompanha quando você menos precisa dela? - acho que o médico não se divertia assim com um paciente há muito tempo.

_ Leve a freira velha ao psicólogo e ouça o que ela tem a dizer, - ele rebateu, enigmaticamente, para meu desespero. Nesse ponto eu já me perguntava se aquele consultório, aquele médico, aquela conversa não eram uma alucinação. Para piorar, ele usou um filme como metáfora para me explicar como funcionava esse negócio de epifania:

_ Lembra do filme "O Sexto Sentido"? Lembra que os fantasmas só deixaram de ser assustadores quando foram ouvidos? Quando conseguiram dizer a que vinham? -  sem saber onde ia parar aquela conversa, só consegui atacar o médico com um argumento da quinta série:

_ Ah, tá! O senhor agora tá se achando com cara de Bruce Willis!

_ Não, a freira é o Bruce Willis.

_ E eu, doutor? Sou o garotinho?

 Ele me olhou fixamente durante alguns segundos: _ Na verdade, não. - Apertou os olhos e os lábios. Então abriu a boca, mas fechou-a novamente, desistindo do que ia dizer. Por fim, com a cara entre triste e resignada:

_ Você me deve trezentos e cinquenta reais. 


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terça-feira, 16 de outubro de 2018

REFLEXÕES DE UMA PROFESSORA >> Clara Braga

Sempre que passo trabalho em grupos para os meus alunos aviso logo: todo mundo do grupo tem que ter o trabalho inteiro em mãos, se não no dia de apresentar vão dizer que não podem apresentar porque justo a pessoa que tinha o trabalho faltou! É impressionante como nunca falta o cara que não fez nada, só falta o cabeça que estava com tudo.

Mas o problema maior nem é esse, o problema é que sou professora de coração mole, mesmo sabendo que a pessoa faltou de propósito e que os alunos estão tentando de qualquer jeito ganhar uns dias a mais para produzir os trabalhos, eu acabo dando uma nova chance. Tiro uns pontinhos e marco a nova data, e é exatamente aí que começam os problemas.

Quando chega a nova data o fulano que tinha faltado e que estava com o trabalho vai logo se justificando: professora, ninguém me avisou que você tinha deixado apresentar atrasado, então não trouxe o trabalho! Mais uma vez o coração amolece e, embora por dentro eu esteja querendo matar um, pergunto quando eles podem apresentar. Mais uma vez eles usam toda a sua criatividade para me tirar do sério: ah professora, agora vou ter que fazer de novo, como eu achava que não ia poder apresentar eu dei pro meu irmão brincar, ou então a moça que trabalha na casa jogou fora. Enfim, as desculpas são muitas, mas a clássica não muda: meu cachorro comeu.

Sempre tive pavor de aluno que põe a desculpa do trabalho no cachorro. Quando algum aluno tenta usar essa comigo eu falo logo que nem os meus professores de ensino médio caíam mais nessa desculpinha. Alguns batem pé, juram pela própria vida, mas não adianta, acreditar nessa desculpa é muito difícil.

Outro dia, chegando do trabalho, estava tão cansada que não guardei minhas coisas onde normalmente guardo, acabei deixando no chão da sala. Fui falar com meu filho e acabei me distraindo enquanto brincava com ele. Em questão de minutos eu lembrei da mochila aberta no meio da sala e quando fui olhar, pasmem, a cachorra estava comendo a ponta das atividades que estavam para fora.

Parece mentira, levei um tempo para acreditar no que estava acontecendo, mas aconteceu. Agora confesso estar enrolando para devolver as atividades dos alunos corrigida, digo que ainda não deu tempo de corrigir, mas essa desculpa não vai durar por muito tempo, uma hora vou ter que arrumar o melhor jeito de olhar para a cara de todos e dizer: a cachorra comeu o trabalho de vocês. 



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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

PRESSÃO >> Paulo Meireles Barguil

"Quando eu fui ferido
Vi tudo mudar
Das verdades
Que eu sabia
[...]
Não estou bem certo
Se ainda vou sorrir
Sem um travo de amargura"
(Guilherme Arantes, Meu mundo e nada mais)

Algo importante: para você ou para outra pessoa?

Há uma meta a ser alcançada?
 
Ou é o caminho – melhor dizendo, o andarilho – que interessa?

Se optar pela primeira, a insatisfação e a pressão serão constantes, variando apenas, se for o caso, a intensidade.
 
Se escolher a segunda, é possível o crescente prazer fruto da tranquilidade de quem conseguiu, após tirar as pesadas armaduras, encontrar a sua ferida alma, pois aquelas não conseguem protegê-la, nem permitem que ela baile.
 
Sonho que a criança e o adulto descubram que cada um carrega o que o outro tanto busca em diversos espaços-tempos.


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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

EU. E VOCÊ? >> Carla Dias >>


a) Eu fui, muitas vezes, quantas eu não saberia dizer. Fui sem saber direito no que daria. Houve vez que deu em coisa boa, em outra, nem tanto. E você?

b) Eu usei! Pode acreditar, usei. Não usei mais de uma vez, mas tudo bem. Foi interessante, revelador, quente. Eu me senti meio aprisionada. Talvez eu use novamente, mas sabe como é? Depende muito do quando e do onde. E você?

c) Olha, eu saboreei... acho que esse é um bom verbo para descrever o que senti. O que senti? Frenesi, desolação... pois é, veio a desolação junto. Mas acontece... conheço quem passou pelo mesmo. Mas o interessante é que a desolação era porque não havia quem sentisse comigo, naquele momento. Tem coisa que não é para se saborear sozinho, ainda assim, dá gosto, aprecia-se. E você?

d) Ah, eu dei, e muitas vezes. Teve quem achasse isso muito absurdo. Onde já se viu eu dar desse jeito? Como assim eu sair por aí dando? Então, eu dei foi um tempo. Mas depois, dei mais algumas vezes. É meu, não é? Não interessa para quem dou, se sou paga ou não por isso. Agora, descabelei... saio por aí e dou mesmo! E você?

e) Descobri, recentemente, que fazia errado, acredita? Achei que tivesse acertado nas outras vezes, que aquilo tinha sentido, que a matemática estava certa... pura bobagem. Passei tanto tempo construindo o que não me cabia construir que me esqueci de aprender a fazer direito. Porque tem de aprender, sim! Aprender a fazer direito é colocar-se à disposição do que isso provoca. Daí que fiz isso - de me permitir ser tomada por, em vez de tomá-lo - há pouco. Tem gente que entende isso tão rápido, né? Eu demorei uma vida... tudo bem. O que importa é que agora faço de fato. Pode até não ser direito e com bons resultados, mas é de fato. E você?

f) Daí que eu me permiti, acredita? Assumi o risco e compreendi ser a única responsável pelas consequências. Claro que fiquei me perguntando se iria, como em muitas ocasiões, errar a mão. Mas me permiti, porque é permissão que ninguém mais poderia me conceder. Não interessava mais se me faria mais bem do que mal, apenas que faria. Eu precisava da emoção de colocar em prática o que essa permissão me oferecia. Dei um dane-se para os meus medos e escolhi. E você?

g) Eu.

h) E você?

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Independentemente do que você pensou, as respostas: 
a) balada para dançar    b) cachecol    c) uma garrafa de Bolla Valpolicella    d) meus livros    e) amar    f) escrever o primeiro texto de dramaturgia
g) mas nem sempre a mesma    h) sempre bem-vindo para uma xícara de café e uma boa conversa
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Imagem: Dans le gris © Wassily Kandinsky

carladias.com




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sábado, 6 de outubro de 2018

SALVE, SALVADOR >> Sergio Geia



Descemos no Aeroporto Luís Eduardo Magalhães, região metropolitana de Salvador, pouco depois do almoço, e tão logo coloquei os pés na capital baiana, uma voz começou a me cantarolar coisas no ouvido. A insistência foi tamanha que mesmo antes de pegarmos as malas eu já cantava: “Ah, que bom, você chegou, bem-vindo a Salvador, coração do Brasil...” Mesmo no carro da amiga da minha namorada que veio nos buscar, enquanto as duas conversavam altos papos sobre a vida, eu me via, vez ou outra, balbuciando baixinho palavras, coisas do tipo: “Ah, que bom, você chegou, bem-vindo a Salvador...”
Como um chiclete que gruda na sola do sapato e não sai, eu estava bem musical, bem axé, diga-se. Talvez só tenha parado de cantar e me silenciado quando deitamos nossas coisas e nossos corpos na praia de Vilas, e aí, quem cantou foi o mar, num espocar de ondas macio e sonolento. Acordamos com uma boa batida de limão, camarões, acarajé, que lindas baianas vendiam no mesmo lugar em que alugavam cadeiras.
Perambulando pelo centro, bati os olhos numa placa que indicava “Praça Castro Alves”; a lembrança foi instantânea: ”A Praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião”. Digo que a praça me acompanhou até o Pelourinho, quando foi substituída, entre fitinhas coloridas no braço, de Nosso Senhor do Bonfim, e baianos ambulantes vendendo de tudo, pelo clássico: “Salve, Salvador, me bato, me quebro, tudo por amor, eu sou do Pelô, o negro é raça, é fruto do amor, salve, Salvador...”, e mesmo numa feijoada carioca, lá estava ela: “Salve, Salvador...”, grudada nas entranhas, que até acho ter percebido um certo desconforto de minha companheira, talvez já cansada por ter uma vitrola ambulante, uma espécie de spotfy baiano ao seu lado.
Mas não me dei por vencido. Diga-me, amável leitor, com sinceridade: como passar uma tarde em Itapuã e não me lembrar dela? Ah, meu querido, impossível. Mesmo com um mar não tão limpo, mesmo com pessoas estranhas dançando funk na areia, embaladas por um som de estourar os ouvidos, em meio a coqueirais, sol, mar e água de coco, numa tarde belíssima, digna de cartão postal, timidamente eu comecei, mas logo já cantava a plenos pulmões: “Passar uma tarde em Itapuã, ao sol que arde em Itapuã, ouvindo o mar de Itapuã, falar de amor em Itapuã”, e mesmo no táxi, quando ela dormia, lá estava eu cantarolando baixinho, ainda emocionado com a beleza da vida.
Trago boas recordações dessa viagem, que ocorreu há mais de dois anos. Hoje, porém, ela me veio, e esses detalhes que me chegaram como notas musicais; você entende.
Ainda que tenha sido surpreendida por esse meu lado excessivamente axé, disse a ela, tentando contornar um pouco o constrangimento da situação, sem muito sucesso, é verdade, que a música torna a vida mais colorida, que não há nada mais energizante que cantar. Vivemos bons momentos e não será um repertório baiano de um cantor amador que irá apagá-los ─ ainda que não me saia da cabeça seu olhar felino ao me ver encarar São Paulo de cima e, com saudades, balbuciar: “É sempre lindo andar, na cidade de São Paulo... lembra dessa?”





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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

JÁ VI ESSE FILME >> Zoraya Cesar

A noite fora quente como uma fornalha do inferno. Os diabos estavam soltos e animados. Alguns tentaram esquentar meu couro, mas mandei-os de volta para o tártaro. Não estava a fim de conversa. Nunca estou a fim de conversa. Cheguei ao meu apartamento, peguei um saco de gelo para botar nos machucados e tomei um analgésico. Preciso parar de ser tão reativo. Com a idade a aparência custa a voltar ao normal e eu não podia visitar o cliente do dia seguinte com a cara toda amassada. Não pega bem.

Por mais cínico que eu tenha me tornado após esses anos de profissão, às vezes ainda me surpreendo com a imbecilidade de certos tipos. Creio que alguns simplesmente pedem para serem enganados. Depois me contratam para consertar o erro. Pra mim, quanto mais idiotas, melhor.

Vejam esse meu novo cliente, Dr. Tarcísio Dum Fruklost. Empresário rico, família tradicional, viúvo, todos os filhos espalhados pelo mundo, gastando o dinheiro que seus antepassados suaram muito para conquistar. Cansado da solidão, decidiu casar de novo, aproveitar as delícias do matrimônio antes que D. Morte o tomasse por esposo. Poderia ter escolhido alguém de seu nível social. Uma dama. Ou uma mulher mais madura, mais compreensiva quanto às suas limitações sexuais. Mas não. O velho sátiro resolvera casar com uma mulher quase 50 anos mais nova, apresentada por um 'amigo'. Folhetim brega e batido. As pessoas não aprendem. Pois, claro, depois de alguns meses, boatos surgiram questionando a fidelidade da jovem esposa. Dr. Tarcísio calou os boateiros mediante algumas ameaças, algumas pressões, algumas chantagens. Mas o veneno fora instilado. E ele me contratou.

Meu contratante era ainda forte. Tinha as espáduas largas de quem passara a vida nadando contra a corrente, a postura ereta dos que estão acostumados a mandar. Os olhos fulguravam com o brilho característico dos homens que sabem lidar com a malícia do mundo – e se servem dela muito bem. O tempo, no entanto enfraquece até os leões mais resistentes. E a fera perde a força de ataque, o instinto matador e, pior, seu lugar de macho alfa. A única maneira que vira para tentar frear, ou, ao menos, diminuir a marcha célere ladeira abaixo, fora casando com uma mulher capaz de fazer os outros homens virarem os olhos – e muitos, como ele próprio, também a cabeça.

Ele começou a mostrar fotos e vídeos. Quase soltei um palavrão. A mulher era uma enviada do demo. O próprio Asmodeus deve tê-la expulsado dos infernos a fim de que ela não o destronasse e dominasse os outros diabos. Confesso que, até então, pensei tratar-se de uma piranha vulgar. Dessas coitadas que encontramos em bares bem depois das altas horas, experts em saber escutar e fingir que o maior desejo de suas vidas miseráveis é abrir as pernas para que homens encharcados de bebida e desolação encontrem um pouco de calor humano. Eu sei. Já fui um desses homens.

Mas ela! Ela estava longe disso. Laura era seu nome e, mesmo vista na tela, sua presença era tão magnética que quase pude sentir seu perfume. Uma mistura de dama da noite com tabaco. Era cheia de curvas, todas sensuais, seios que saltavam da roupa, pura luxúria. E tinha classe. Movimentos comedidos, sorriso discreto e olhos profundos. Senti um arrepio. Aqueles olhos pareciam penetrar em você e dominar sua mente. Os cabelos castanhos, longos e ondulados emolduravam um rosto branco leite, que meu deu vontade de beber e...contive-me. Mais um pouco e eu estaria babando na frente do marido. Percebi o fascínio que ela exercia sobre os homens. Dr. Tarcísio, por experiente que fosse, não era páreo para ela. Ninguém era.

- Não quero escândalos nem provas de adultério para fins de divórcio. Quero apenas que Laura se sinta constrangida a não me trair por aí. É muito humilhante para um homem como eu. Estou velho, mas ainda tenho algum poder. E há quem possa usar as escapadelas de minha esposa contra mim. O senhor entende?

Sim, pensei, entendo muito bem. O pobre diabo estava viciado nela, como o enfisematoso ao seu tubo de oxigênio, o drogadicto à sua injeção de heroína E o desgosto de ser passado para trás, de ser visto como um corno manso no final da vida, eu também entendia. Quem foi rei não gosta de perder a majestade. Por isso eu jamais quis ser o fodão. Ninguém quer competir comigo para pegar o meu lugar. Nos westerns, sempre tem um novato idiota disposto a desafiar o pistoleiro lendário para provar que sacava mais rápido. Assim também na vida. Daí que escolhi andar pelas sombras. Você lida com gente mais perigosa. Mas se acender a luz todo mundo foge.

Dr. Tarcísio podia ser o maioral pra sua gente, os grandalhões do mercado, das finanças, do que fosse. Mas, para o comum dos mortais, não passava de um paspalho. Qualquer marciano lhe diria que uma mulher fogosa daquelas não se conformaria com sexo mixa nem seria constrangida a coisa alguma. Essa tentativa canhestra de manter a dignidade fazendo-a perceber que estava sendo seguida e impedi-la de dar o corpo para quem quisesse era risível. Dr. Tarcísio era digno de pena. Como não tenho pena de ninguém, cobrei um valor bem mais alto do que costumo cobrar para esse tipo de serviço. “Taxa otário”, como chamo.  

Minha fiel USP Heckler & Koch.
Nunca me falhara.
Confiava mais nela que em mim mesmo.
Passei num bar de nenhuma categoria, tomei duas doses de um uísque que deve ter sido batizado com água de privada, e fui andando para casa. Ao chegar, parei, peguei minha Heckler & Koch USP e empurrei a porta, tão delicadamente quanto meu estado etílico permitia, a porta entreaberta que eu deixara trancada ao sair.

O perfume de dama da noite com tabaco chegou aos meus sentidos antes mesmo de eu entrar. Acendi a luz. Lá estava ela, sentada no meu sofá como se tivesse feito isso a vida inteira. Sentada não. Lânguida e sensualmente recostada, olhando-me de soslaio, o cigarro nas mãos.

- Se vai apontar a arma – ela ronronou, como uma onça ao vislumbrar a caça – é melhor atirar.

Meu coração tentava saltar pela boca e cair nos braços dela. Engoli saliva diversas vezes, até colocá-lo de volta no meu peito. Então era esse o jogo. A pequena demônia fora mais esperta. Em vez de o detetive segui-la, ela seguiria o detetive.

Seduzindo-me, poderia continuar a trair o marido sem ser perturbada. Ele ficaria sossegado. Eu ganharia meu dinheiro. E mais que isso.

Sairíamos todos ganhando.

O problema é que no jogo da vida não existem partidas em que todos saem ganhando. Acreditem em mim. Sei do que estou falando. As mais das vezes, os otários perdem, e um único esperto se dá bem.

Largada no sofá de minha sala,
Laura testava o poder de seu fascínio sobre mim.
Aquela mulher exercia uma atração animal estonteante. Exalava feromônio até pelos cabelos. Cada movimento seu era naturalmente sedutor. Guardei a arma; não era de um revólver o que eu precisava, mas de cabeça fria. Já vira esse filme antes. O herói se dá mal. Ela me usaria, aniquilaria com a minha auto-estima, pisaria em todos os meus escrúpulos, me reduziria a um escravo de suas vontades, um viciado em seu corpo, rastejando para que ela me desse um olhar que fosse. Laura poderia transformar o mais espartano dos homens em um estulto lastimável. Já vi esse filme antes. 

Ela bateu as cinzas do cigarro na própria mão e soprou-as em minha direção. Amigos, aprendam: nenhuma mulher é tão perigosa quanto aquela que coloca dor e prazer no mesmo pote. A experiência me ensinou que, mais importante que saber usar uma arma, era conhecer a natureza humana. Isso podia ser a diferença entre a vida e a morte. Fechei a porta. Tirei o paletó. Aproximei-me e beijei-a selvagemente, apertando meu corpo contra o dela.

Gosto do que faço. É o que sei fazer melhor. Não suporto patrões, horários rígidos, rotina. Meu trabalho é cansativo; muitas vezes, arriscado; nem sempre paga o suficiente. Gosto também de testar meus limites. Correr riscos. Desafiar o abismo. Talvez, dessa vez, eu conseguisse mudar o final do filme.

Outra aventura da série Detetive Sem Nome: 

Foto Laura: Rudy Nappi - Pinterest
Foto Heckler & Koch USP (universal self-loading pistol)
https://www.guns.com/reviews/heckler-koch-usp-compact/


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