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IMPRESSO NO CORPO>> Cristiana Moura

Era um evento lindo — Festival Internacional de Arte de Rua de Lyon. Eu estava eufórica de tanta
beleza! Grafites adentrando-me o corpo todo pelo olhar. Cores e formas doando -me sua vitalidade.
Havia três tatuadores de plantão no festival. Sempre pensei que tatuagem há de ser algo muito pensado. Vejam bem, não é uma decisão banal. Fiz minha primeira tatuagem após os quarenta anos de idade. Decidi a imagem que queria em minha pele e, Tereza Dequinta desenvolveu. Gostei, mas ainda queria mais movimento. Ela a refez e ,de repente, foi como se Tereza tivesse entrado em meu pensamento e transformado meu sonho em gestos leves gravados em linhas — arte para minha pele.
Mas era um festival. A experiência de intercâmbio pós juventude a criar uma bruma leve nas possibilidades temporais dos possíveis. Sou impulsiva. Mas não para tatuagens. Estas a gente cria devagarinho como a obra de Tereza em minhas costas.
— Vou fazer uma tatuagem! — Pois vou filmar tudo — disse Shana, uma recém amiga e ót…
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OS ESPERANTES >> Zoraya Cesar

O restaurante funcionava no último andar de um prédio comercial – prestigiadas bancas de advogados; cassinos clandestinos para clientes classe AA; agências internacionais de detetives; médicos que cobravam mais de três mil reais a consulta; start ups de informática high tech; filiais de empresas off shore e outros movimentadores de dinheiro, nem sempre legais -, e ficava aberto 24 horas. Sua decoração era requintada, em tons escuros de madeira, mármore, ferro batido. As toalhas e guardanapos eram de linho, louça da Wedgwood, copos da casa Bormioli Rocco. Mais clássico, impossível.
Poucos sabiam de sua existência, parecia a fachada de um grande escritório. Mas era como um clube - com o já citado restaurante, sala de leitura e descanso, biblioteca - e dos mais reservados, frequentado apenas por sócios indicados por outros sócios. 
E quem eram essas pessoas? Se dissermos "qualquer um que...”, estaríamos incorrendo num erro de definição. Ninguém naquele clube poderia ser classificado c…

BRASÍLIA>>Analu Faria

Nesta cidade, povoada por espaços vazios e carros Ninguém sabe se fazemos o que fazemos por vocação ou por tédio
A moça escreve uns poemas
Com dois mil adjetivos em cada estrofe
(Me dá sono no terceiro verso)
Um diabo criar ausências com enfeites

Todos aqui têm concreto nos olhos. É tudo muito bonito, não fosse a falta de gente na rua. Parece até que um bruxo, ou um daqueles anjos tortos, do Drummond, esconde os vivos nas frestas por onde passam as curvas de Niemeyer. Nesta cidade de ideias grandes, que difícil talhar no monumento a simplicidade eficiente, o aconchego sem muito dengo o saber do caminho longo, o alívio do sorriso aberto. E dá-lhe drops de humanidade nos viadutos: "Mais amor, por favor". (O coração da cidade, enfim, bombeia. A seca de julho não nos mata este ano).

O ETERNO >> Carla Dias >>

O eterno dura o tempo do desejo. 
Quando não se alimenta esse desejo, morre o eterno, lamentando ter sido iludido pelo efêmero. Engana-se quem acredita que desejo é algo que se mantém por conta. Talvez, no primeiro momento. No segundo, já pede por certa dedicação para manter a fluência. Na maioria dos casos, morre de inanição. Alimentar desejo demanda tempo, que é uma das moedas mais valiosas da contemporaneidade, e atenção.
Andamos apegados à arte da distração.
Tornamo-nos distraídos contempladores de vazios.
Como este que encaro, um copo de água na mão, uma ruga de desamparo na testa, uma agonia reverberante melindrada por silêncio indigesto. Encaro sem enxergar, ansiosa para que acabe logo esse mergulho em slow motion que ofereço ao que em nada me interessa.
Não me importo mais com espectadores. Não valso mais para satisfazer cultivada necessidade de me tornar necessária ao olhar deles. Não temo mais que me esqueçam em um canto de achados por acaso e perdidos por escolha.
Não sei …

CADA UM COM SUA EMERGÊNCIA >> Clara Braga

Recentemente tive um problema de saúde e precisei ir à emergência do hospital. Emergência é sempre um saco, muito cheia, sem o especialista necessário e você leva mais de hora para ser chamado para ficar dois minutos olhando para a cara do médico.
E dessa vez não foi diferente, esperei 1hora e 40minutos até ser atendida e não precisei ficar nem 5 minutos com a médica. Ela me avaliou e mandou logo para a sala de medicação. Como a sala estava muito cheia ela pedia que os pacientes entrassem sozinhos e os acompanhantes aguardassem de fora olhando pela enorme janela de vidro que havia na frente da sala.
Lá fui eu, entrei e fiquei conversando por mímica e whatsapp com minha mãe que ficou olhando pelo vidro. Minha mãe é sempre muito tranquila, se sentou de forma que eu só via sua cabeça, quase se perdendo entre a quantidade de pessoas que aguardavam em pé e coladas no vidro.
Vinte minutos se passaram e nada da minha medicação chegar. Conforme o tempo ia passando, as pessoas lá fora parecia…

poema 47 >>> branco

ela chega de maneira imperceptível
como se nenhum mal - ou bem - fosse causar
uma vez retira-nos a inocência
outras
oferece-nos a magia

a mão que atira a pedra
é a mesma que acaricia em perdão
o dedo que puxa o gatilho
é o mesmo que aponta a direção

ela nos traz amargas - ou doces - lembranças
de acertos - ou erros - cometidos no passado
uma vez deixa-nos em desassossego
outras
oferece-nos a felicidade por um sorriso recebido

os olhos que transmitem o ódio
são os mesmos que permitem chorar
a boca que ultraja e fere
é a mesma que nos deseja paz

ela tem o rosto esculpido em pedra
e de flor teimosa nascida no asfalto
uma vez é a frieza do mármore
outras
uma tarde feliz de verão

o coração que não retrocede
é o mesmo que sente remorso
a mão que assina a sentença
é a mesma que escreve um poema

ela chega de maneira imperceptível
desde o mais recém-nascido dos dias
uma vez nos deixa passivos
outras
em revanche

a alma condenada
é a mesma que está liberta
a pena do assassino
é a mesma do inocen…

VERDE DESESPERO >> Fred Fogaça

Tenho adornado minha casa com urgência. Atulho os cantos de flores e folhagens e cubro o chão de tapetes, escondo as rugas da estrutura com fotos e artes amigas; troco as lampadas frias, muito claras, e privilegio as luzes indiretas. Interrompo passagens livres com cortinas e anteponho às portas, detalhes pendurados na madeira. Faço estantes, crio espaços, embalo os sinais de velhice dos móveis com estampas, apostando o aconchego no espaço que diminui entre as camadas com que cubro a realidade. Mas, longe disso, as paredes rugosas não negam em seu verde certo desespero.

Não estou preso a casa, há sempre opção. Mas a esse ponto da minha solidão por esses cômodos, não são mais só concreto, ferro e madeiras, já partilho o aluguel com as minhas memórias. Não há questão moral que desqualifique alguma falta de sorte,  mas como poderia abandonar os fantasmas de tão fiel outrora? Ainda há questões práticas: com o tempo você se expande em partes que não cabem no seu corpo. Como me desfaria de…