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O FAZEDOR >> Carla Dias

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Gostaria de ser capaz, mas não compreende muito bem o mantra “capacite-se!”. Pensa nisso por algum tempo, mas depois deixa o assunto de lado. Qual capacitação caberia no cordel das suas habilidades? Sabe ferver água para chá acalmador de desespero, curar soluço com susto, apaziguar o fervor do destempero com gargalhadas sonoras, impossíveis de serem ignoradas, e por aí vai. Vem dessa versatilidade a série de apelidos que ganhou. De todos eles, apenas um aceita sem ressentimento: fazedor. Quase todos do bairro o chamam assim, e há tanto tempo, que ele duvida que se lembrem de seu nome. Às vezes, até mesmo ele se esquece do dito. Sim, é fazedor daquilo que a maioria não sabe, não quer ou não consegue fazer. Matar barata entra na lista, mas difícil mesmo é quando o alvo é gente que chega com seus desafios pessoais. Desanima-se quando na sua lista de afazeres entra o que não consegue entender uma pessoa não saber, não querer ou não conseguir fazer. Mas logo se apruma, porque compreende que

Juliana >> Alfonsina Salomão

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Depois de anos sonhando acordada, fantasiando com um amante imaginário, sentindo culpa ao tocar-se no meio da tarde, enquanto o marido trabalhava e os filhos estudavam, enfim Juliana dera o passo.   “Já era tempo”, disseram-lhe os amigos mais próximos. “Você merece”. “Que bom ouvir isto”. O adultério foi acolhido com carinho e generosidade. Para Juliana esta foi a prova de que, nos últimos anos, soubera se rodear de pessoas de qualidade, deixando para trás as fracas, as invejosas, as tóxicas.    “Você está se liberando de seus imperativos morais”, disse-lhe a psicanalista lacaniana, uma mulher competente e elegante que sintetizava com perfeição o fluxo de palavras desordenadas expelido por Juliana na sala chique do consultório. Geralmente Juliana falava com pressa, antevendo o momento em que a mulher diria: “Vamos parar por aqui”. Certa vez ela verificou, olhando o telefone ao sair da sala, que a sessão não durara nem sete minutos... Ficou chateada, o minuto de análise lhe pareceu carí

COM ZANGA E ESTRIPULIA >> Sergio Geia

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  — Não espeta assim, vó, tá doendo!  A ponta da agulha de aço, como uma criança com birra, teimava em penetrar na pele. A sola do pé, acostumada a relva, terra e pedras, mas não a uma lasca de vidro que de tão pequena e insignificante quase não se via, mas se sentia, tinha uma casca de rocha que se mostrava refratária ao instrumento.  A mulher, no entanto, experiente, acostumada a coisas do tipo, nem dava atenção ao choramingar do menino e cutucava com gosto, tinha que encontrar de vez aquele grão que se escondia na sola escura de sujeira.  — Ai, vó! Ô vó, vai devagar, caramba! Tá doendo!  O menino desde sábado andava sem encostar o pé no chão, dizia a mãe; torto, pulava pelos calcanhares, mas ainda assim, ainda que impedido de fazer estripulias, não deixava ninguém chegar perto e botar a mão, nem mãe, nem pai. Até que ela não aguentou. Aproveitando-se da visita e de um instante de distração, pegou o moleque de jeito.  — Daqui você só sai andando que nem gente.  Tal qual uma veia bail

GPS >> Paulo Meireles Barguil

O casal queria conhecer o Teleférico de Bonito, município de Pernambuco . Na véspera do passeio, o par solicitou informações no restaurante enquanto aguardava a pizza de 4 queijos, a qual, conforme a mulher depois noticiou, foi a melhor que já tinha degustado. No dia seguinte, após chegarem no ponto ensinado, a mulher, por solicitação do homem, ligou o GPS ( Global Positioning System  ou Sistema de Posicionamento Global) do aifone. Ela já relatara que não confiava no GPS, enquanto ele dissera que aquele é bastante útil, apesar de saber de inúmeros casos em que caminhos equivocados foram indicados, resultando, inclusive, em tragédias. No início, as diretrizes pareciam adequadas. De repente, o calçamento acabou, mas continuou razoavelmente trafegável. Diante de uma subida um pouco íngreme, enquanto ele guiava com certa tranquilidade, afinal o teleférico fica no alto, ela revelava crescente desconforto.  Quando chegaram na metade da segunda escalada, ela falou: "Para que eu vou desce

EXÍLIO >> Carla Dias

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Amanheci naquele lugar e não havia quem. Não havia pessoa para me entregar serventia. Naveguei por mares sumidos. Ainda penso neles como movimento, pele das ocasiões, suor da existência. Penso neles como penso nas pessoas que não conheci, mas se tornaram minhas companheiras de exílio. Escuto o que algumas têm a dizer, escolho outras para ignorar, o controle remoto servindo de guia. Os sons me fazem companhia. Não raro, o do vento se arrebenta nas costas das paredes das casas abandonadas. Há dias em que parece canção desprendida da dor de alguém, chego até a chorar, compadecida. É diferente de quando lamento minhas próprias dores, elas que latejam sem pausa, justo quando a pausa é a necessidade que me hostiliza, por eu não ter como atendê-la. Não à toa, elas me fazem escolher o pior abrigo: um desejo irrealizável, de martirizar o possível na condição de insuficiente. Não é assim pagar pecado? E eu pago os meus à vista, que nunca fui de fazer de conta, vou logo me debatendo nos erros, qu

MEDOS, ANSEIOS, ANGÚSTIAS E PARANÓIAS >> Clara Braga

Confesso: eu tenho medo! Aliás, medo não, medos, no plural! Mas se quer saber, não me acho medrosa, ao longo do tempo mudei meu entendimento sobre a palavra medrosa. Não, eu não quero saber mais do que o dicionário, mas realmente acho que ser medrosa não tem a ver só com o fato de ter ou não medos, mas sim com o que você faz com eles.  Apesar de ter vários medos, procuro não me deixar paralisar, é o bom e velho: está com medo? Vai com medo mesmo! Esses dias tive um compromisso que me tirou de casa de madrugada. Saí com o céu ainda escuro e as ruas totalmente vazias. Comecei a ter medo já na garagem, já que recentemente fui informada de que aconteceu de pessoas terem entrado na garagem de madrugada e roubado bicicletas. E se eu dou de cara com uma pessoa dessas, o que acontece comigo? Depois tive medo enquanto dirigia na rua totalmente abandonada: se o carro para de funcionar agora eu estou F*DIDA! Enfim, como disse, os medos são vários e eu já cheguei até a me questionar se eu não esta

MÚSICA É SAÚDE, VIZINHO! >> Albir José Inácio da Silva

  Vitório acordou sem os malditos acordes. Há muitos anos não sabia o que era uma manhã de paz. Quase silêncio, um latido distante, passarinhos cantam na árvore que filtra os raios do sol na sua janela. Nada das malditas marteladas nas teclas do piano.   A bruxa bateu as botas – lembra-se, enchendo os pulmões de ar.   Antes gostava de música, cantarolava umas melodias e chegou a pensar em aprender violão. Seus problemas com a arte começaram no dia em que a vizinha chegou para o apartamento da frente. O piano não coube no elevador nem subiu as escadas, teve de ser içado pela janela, com a voz da dona gritando cuidados com o instrumento. Instrumento de tortura, ele descobriria em breve.   Após alguns dias, foi falar com a vizinha. Sorridente, conciliador, achando que tudo podia ser resolvido no diálogo, como aprendera na vida. Explicou questões pessoais, seus problemas com barulho, conselhos do psicólogo, inventou traumas. Queria sensibilizar, quem sabe virava amigo, trocava peda