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MELINDA. A MENINA. A MORTE CINZA. 2A E ÚLTIMA PARTE >> Zoraya Cesar

Melinda morrera. Para alguns, uma morte inesperada. Para outros, no entanto, mais do que esperada. Planejada.
A Menina se aproximou do corpo, lenta e cautelosa; o cachorro gemia baixo, rente às suas pernas. O silêncio seria absoluto, não fosse o leve balouçar da cortina sob uma brisa de sussurro. E o burburinho dos mortos, das almas perdidas, dos insones astrais. Cheiroucorpo, desconfiada. A nota de saída era mel, mas parecia de mel estragado. E a nota de fundo, que deveria ser de rododendro, tinha um odor acre, inidentificável. Passou o dedo na pele ainda – estranhamente – úmida e provou delicadamente, com a ponta da língua. Sabia a fel, não a doce.Não havia dúvidas, algo dera errado, muito errado.O rosto contorcido da amiga revelava que ela sentira dor. A Menina ficou nervosa. Não era esse o plano. Melinda deveria morrer em paz, dormindo, sem sentir nada. Foi o combinado.Sentou-se, tremendo. Melinda sempre fora boa pra ela e sua Família. Cedia mantimentos, preparava doces e bonecas pa…
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POR OUTRO CAMINHO >>> Nádia Coldebella

Terça-feira, dezessete de março de 2020, dezenove horas e dez minutos. Dez minutos a mais no meu trabalho, dez minutos a menos com minha família. Milhares de minutos a menos da minha vida, que me foram roubados, como quase todos os dias, nos últimos anos.Levantei-me impaciente da cadeira e pus-me atrás dela. Empurrei-a para frente. Meus olhos pousaram sobre a papelada espalhada na mesa. Não era uma bagunça. Naquela ordem caótica, eu já havia elegido as urgências para a próxima semana.Fiquei parada, em pé, atrás da cadeira por alguns segundos. Meu pensamento estava confuso. Precisava organizá-lo para conferir mentalmente os itens que deveria levar para casa. Mas apenas virei a cabeça para direita e para esquerda, e tentei me convencer de que realmente examinava todos os objetos daquele cenário. A verdade era que aquele movimento servia apenas para alívio momentâneo da minha consciência que só me pedia para ir embora logo.Peguei a minha bolsa e a coloquei sobre o ombro. Não me preocupei…

CARA HUMANIDADE, >> Carla Dias >>

Hoje eu não consegui ignorar suas mazelas. Por algum tempo, eu consegui me entreter com uma e outra esperança alimentada por frases feitas, desejos legítimos, mas débeis, completamente dispensáveis. Contudo, hoje caí na cilada do tráfego limitado a quartos, salas e cozinhas e me deparei com um telejornal. Justo eu, que os venho evitando com certo talento.Ignorar nunca foi um ofício que me caiu bem, ao menos não ignorar o outro, o que acontece a ele. E ao vê-la assim, minha cara humanidade, jogada nos braços da brevidade, ela a se alimentar das importâncias que seriam suas, você não tivesse escolhido se fazer de desentendida, peguei-me em uma desolação de profundidade que nunca visitei antes. Se você não sair desse transe, acabaremos por assistir a uma quantidade exorbitante de comerciais sobre projetos de ajuda humanitária. Fantástico, não? Eu comemoraria a disposição de muitos em atender à necessidade de outros, não soubesse que muitas delas você mesma criou. Nós criamos. Porque não …

APROVEITANDO TODAS AS OPORTUNIDADES >> Clara Braga

No prédio à frente estava tendo uma obra. Uma não, algumas! O que torna qualquer ambiente um pouco mais barulhento que o normal.Lá pelas tantas, entre serras, martelos e furadeiras, em alguma das obras o pedreiro começou a bater em algo que fazia um barulho mais agudo, bem metálico!Ele batia de forma repetitiva e até ritmada, eu diria.Então, alguém da vizinhança ouviu e não entendeu exatamente do que se tratava. Pensando bem, acho até que entendeu muito bem, mas não quis perder a oportunidade. Sem pensar duas vezes, a pessoa que não sabemos exatamente quem é, pegou uma colher e uma panela e começou a bater na janela. Em pouco tempo, outros vizinhos começaram a fazer o mesmo.Depois de um bom tempo daquele panelaço que se misturava com barulhos de obra, todos parecem ter combinado o momento do fim, inclusive o pedreiro.Mas antes que voltassem aos seus afazeres, uma das vizinhas gritou: obrigada vizinhança, até amanhã!A obra seguiu, mas sem o tal barulho que parecia de panela. Talvez ama…

uma tarde quente de verão >>> branco

olho a praça que está vazia vazia de gentes vazia de animais não é sábado ou domingo não existem motivos para homens mulheres crianças  ou cachorros de raça estarem na praça  nesta tarde quente de verão

olho as árvores estáticas não sopra a menor brisa bancos de madeira o bebedouro a fonte seca os pássaros - ausentes - a exceção é o vira-lata estirado em sono profundo - exceções - o cão e eu na praça nesta tarde quente de verão
olho as casas  que circundam a praça janelas trancadas portas trancadas - silêncio nas casas -  ao fundo da praça a igreja a pintura nova não esconde o tempo sei que as senhoras estão lá dentro com seus rosários rezam o terço e pedem intercessão sinto pena estão órfãs nesta tarde quente de verão
olho para a torre da igreja e nela o sino - também recém-pintado -  lembro-me dos sons repiques alegres avisando da quermesse ansiosos a chamar para a missa rotineiro nas horas infalíveis e familiares ouvidos muitas vezes em outras tardes quentes de verão
olho novamente a praça vazia enquanto ouço o toque do s…

RUA TENENTE >> Fred Fogaça

As cadeiras dos vizinhos na calçada observam o reboliço no fim da rua. Com o escuro, ele baixa meia porta, o que já é um sinal do fim do dia, os produtos de exposição ainda pendurados do lado de fora e ele vai tirando, devagar e guardando tudo, observa. Todos aqueles pares de olhos frios medindo a fofoca que vindo boca à boca, vão se consternando num afeto que é quase uma empatia. O filho da vizinha foi sequestrado. O pai também não tava preso? Ele recolhe, pouco a pouco, o que colocou fora pra viver o dia e vai se recolhendo inevitável, um pouco mais lento talvez que ontem, mas imperturbavel. Não era um carro vermelho? Você viu um carro vermelho? Um Corsa dessa cor não passou aqui a pouco? Ele nota, ali, meio as exaltações, pronto pra se findar do dia, à meia porta pra esquecer o mundo, que ninguém chamou a polícia. Os postes vão acendendo e os vizinhos mantém seus lugares solenes pelo correr da calçada, ainda tem cerveja aqui e ali que corre alterando uns cigarros e as vezes um café…

A TARDE >> Sergio Geia