segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O FIM DE ALGUMA COISA >> André Ferrer

Encontraram-se no lugar combinado, mas uma delas chegou atrasada. Bete, Gracinha e Tina já estavam impacientes quando Gabriela entrou no shopping vinte ou vinte e cinco minutos depois.

  Hoje, realmente, você conseguiu superar a própria marca —  disse Tina.

  Caramba! —  fez Bete. —  Mas que demora!

 Não tem celular não, garota? —  disse Gracinha. — Menina, ultimamente, você só dá mancada. Nossa!

Cada vez mais, os atrasos de Gabriela constituíam uma fonte de críticas e incômodo. Para ela, o clima já estava comprometido. Bete, Gracinha e Tina moravam em bairros diferentes, mas sempre chegavam ou saíam juntas. À custa dos seus “smartphones”, até pareciam gêmeas xifópagas.

  Peço desculpas — disse Gabriela, que não foi perdoada. Realmente, a importância que as outras dedicavam ao seu descompasso parecia maior naquela tarde.

"Home, sweet home" (2000) - gravura de Estela Batista Costa (Conheça a autora!)
A frustração, na verdade, tivera início de manhã. Gabriela e a mãe discutiram por causa do programa vespertino e o avô, que também morava na casa, envolvera-se.

Aturdida pelas insinuações das amigas, Gabriela duvidava de que as coisas melhorassem. Lembrar-se, ainda, dos acontecimentos daquela manhã, colocara-a num estado ansioso e introspectivo. De repente, ela percebeu que Gracinha, Tina e Bete estavam caladas. Ela teria, enfim, um descanso. Gabriela sempre nutria grandes esperanças naquela etapa dos passeios que, no entanto, constituía um intervalo enganosamente agradável. Na maioria das vezes, aqueles minutos fluídos e leves se revelavam como uma trégua mais ou menos longa que precedia terríveis bombardeios. Assim, as quatro se afastaram do ponto de encontro e começaram a vagar diante das lojas.

  Olha que tudo! —  Tina gritou. No mesmo instante, arrastava Gracinha para si.

  Eu não disse? —  fez Gracinha enquanto Bete também chegava, muito eufórica, e apontava ora para o celular da amiga ora para um legítimo iPhone atrás da vitrine.

Gabriela parou. Os braços caídos ao longo do corpo. A despeito da proximidade, sentia-se apartada. Um ou dois passos bem abertos era a sua distância daquele festim.

  São muito parecidos —  disse Bete.

Naquela manhã, Gabriela perdera a razão quando a mãe denunciou a forma como os jovens viviam debaixo de aparências. Na verdade, ela perdera a razão devido à escassez de argumentos e aos palavrões que decidiu empregar. O avô, que era doente  mas ainda assim o pai da sua mãe , resolveu intervir.

  Gabi! —  disse Tina. — Você já viu como o celular da Gracinha é idêntico ao novo iPhone?

Indecisa, Gabriela resmungou que sim. Afinal de contas, naquela tarde, as coisas pareciam caminhar com velocidade. Um “sim” acompanhado de um sorriso até podia frear o andamento das coisas. Ora  pensou Gabi — se, por um lado, há esperança, de outro, existe a impressão de um desastre anunciado. Tudo porque a mãe e o velho tinham discutido feio algumas horas atrás.

  Pegue estes trocados, menina —  tinha dito o avô. —  Primeiro, ensinam a gostar de tudo o que é bom. Depois, chamam as crianças de deslumbradas... Mas que barbaridade! Tome, Gabi, este dinheiro! Divirta-se com as amiguinhas no shopping. Fique tranquila.

O avô era diferente dos pais e avós de Tina, Gracinha e Bete. Todos os “adultos” que Gabriela conhecia também no bairro contavam histórias cheias de miséria e o velho Oscar escarnecia dessas histórias porque as achava pessimistas e reveladoras de um fraco caráter. Os avós e os pais da maioria dos seus amigos, aliás, mereciam esta definição que, entre risos irônicos, o seu Oscar empregava: —  Autopiedosos.

 Ora!  tinha dito a mãe. — Lá vem ele com uma das suas palavras bonitas!

 Tenho origem humilde  retrucara o avô.  Mas aprendi a diferença entre falta de dinheiro e pobreza de espírito. Por isso, minha filha, muitas das pessoas cultas e inteligentes que cruzaram o meu caminho trataram logo de me dar atenção. Sabe por quê? Porque eu não reclamava o tempo todo. Aliás, foram essas pessoas que me ensinaram tantas palavras bonitas.

Durante alguns minutos, o avô prosseguira. Ele não costumava esmorecer na presença de quem quer que fosse. Na cancha de bocha  sempre polêmica aos domingos , e durante os inevitáveis “papos furados” que precisava aturar na vizinhança, era ferino. Assim, ele recordou o tempo em que gente pobre trabalhava e não ficava à espera de Deus ou do governo. Seu Oscar tinha feito carreira na metalurgia e, apesar do passado rude na lavoura, chegara a chefe de uma seção na indústria automobilística, onde se aposentou. A partir dos anos 2000, tendo se tornado viúvo e a filha mãe solteira, passou a viver naquele bairro que, segundo dizia sem medo, era o lugar mais mesquinho do planeta.

Indignada, a mãe de Gabriela tinha feito, então, a sua última tentativa:

 Quando a Gabi era criança e, até bem pouco tempo atrás, as coisas iam bem, papai. Agora, tudo está pela hora da morte! No mês passado, a compra de alimentos diminuiu por causa da conta de luz. O senhor não lembra? Então, essa menina parece não entender. Reclamou a semana inteira de que as amigas têm o último modelo de celular e o dela, que foi o presente de Natal, é lento para internet. Ora, se não entende, eu repito: garota, o dinheiro está curto até para o seu “rolezinho” no shopping!

 Eu só lamento  dissera o avô. — Fico bem triste por esses jovens que nasceram e cresceram numa época tão cheia de falsas esperanças. Realmente, esteve ótimo. A fartura, no entanto, acabou. Chega uma hora em que a fonte seca. Chega uma hora em que as tetas murcham  concluíra o velho enquanto colocava carinhosamente o dinheiro nas mãos de Gabriela.

Depois do lanche, as meninas andavam a esmo novamente e, diante do cinema, estacaram.

 Olha que tudo!  disse Gracinha. É aquela história do rapaz e da moça que se apaixonam e têm leucemia. Vamos lá?

Pela primeira vez, em várias semanas, Gabriela tinha dinheiro para o cinema. A mãe diminuíra gradativamente o valor e isso vinha transformando aquela fase do passeio num verdadeiro vexame. Agora, no entanto, ela tinha o dinheiro do cinema, do ônibus e ainda sobrava  na verdade, sobrava mais da metade da quantia que ela costumava ter.

 O filme deve ser legal  disse Tina desanimada.

— Sim! Vamos lá  disse Gracinha, que já tratava de arrastar Bete na direção da bilheteria. Muito bem, Gabi, até segunda-feira. Meninas! Tina?! O que foi?

 Gracinha — disse Bete, livrando-se das mãos da amiga.  Escute. Infelizmente, eu só tenho o dinheiro da condução.

 Eu também. Uma pena  disse Tina diante de Gracinha, que ainda parecia incrédula.  Sim, amiga, pode acreditar. E você sabe o que aconteceu lá em casa?! Pois bem. A mãe e o pai, que andam muito nervosos, quase me fizeram escolher entre o shopping e o passeio do colégio, mês que vem, na última semana de aula.

Desoladas, as três amigas caíram no mais constrangedor dos silêncios. A quarta, Gabi, acenava.

Como de costume, ela se despedia do grupo naquela etapa do passeio. À distância, desejou então que Gracinha, Tina e Bete, apesar do infortúnio, se divertissem. Tinha descoberto algo surpreendente: as “economias” daquela tarde no shopping era o que bastava para o tal passeio do colégio.


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domingo, 2 de agosto de 2015

UM DIA EM SÃO PAULO >> Whisner Fraga

Uma voz intimidadora que irradia dos alto-falantes adverte os ouvintes para um dia frio. No painel, as letras indicam uma estação que não significa nada: Antena 1 ou Alpha ou Band. As frases que nos chegam sem caras. E é bom que não tenham rosto. Porque eu não gostaria de me encontrar com uma voz que possua um corpo que siga todas as rotinas dos humanos. Porque eu deixaria de acreditar que aquele seria um dia frio. Eu deixaria de acreditar que seria obrigado a vestir uma blusa para encarar a rua. Mesmo assim, eu ligo o ar condicionado. E abaixo o volume.

Porque estou tentando me lembrar de uma história que ouvi no cabeleireiro. Sobre duas pessoas no trabalho em um dia frio de São Paulo. Sei que elas se sentavam lado a lado. As mesas praticamente coladas uma na outra. De repente, uma delas percebe que uma lufada glacial lhe castiga a nuca. Olha para trás e o condicionador de ar ajustado a vinte e poucos graus parece provocar a realidade. Não se contém. Levanta-se calmamente, vai até o aparelho e desvia o fluxo para o outro lado.

O colega, evidentemente, chia:

— No dos outros é refresco, heim?

Segue-se uma acalorada discussão sobre o ajuste do equipamento, sem nenhum resultado significativo. Até que têm a ideia de desligar a máquina. Não viam lógica em resfriar uma brisa que naturalmente lhes chegaria agradável.

Basta um dos dois girar o botão até o OFF para que a secretária, lá do fundo, chie.

—  Vocês estão querendo me cozinhar, né?

O chefe não veria com bom-humor qualquer mudança no layout da sala, de forma que arrastar as mesas para a outra extremidade era uma ação temível. Alguém grita que abram a janela. Separam as folhas e uma golfada de vento, impiedoso e poluído, invade o cômodo. Todos desaprovam.

Logo percebe se tratar de um problema sem solução. Devia ter captado antes e se pune por isso. Então retorna ao mecanismo e o ajeita meticulosamente como há minutos, antes do início da contenda. Senta-se e um sopro lhe açoita a nuca. Essa vida é só engolição de sapos, pensa enquanto se levanta e segue até seu vizinho, com os punhos mal contidos de fúria e vontade de, pelo menos naquele dia, rever essa certeza.

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sábado, 1 de agosto de 2015

LEVEZA E SIMPLICIDADE >> Sergio Geia





Isto não é uma crônica. É um desabafo. Não vou de terceira pessoa pra me esconder do mundo. Pelo contrário, vou de primeira mesmo. Não quero dar lição de moral, nem produzir uma cartilha, muito menos ensinar alguma coisa. Não quero ensinar nada de nada pra ninguém. Aliás, quem sou eu pra ensinar? Quero apenas desabafar, botar pra fora o caroço, um troço que me incomoda. Se você não tá a fim de escutar, aproveite a deixa. Mas, se vai comigo, prometo que vou azeitá-lo com um pouco de humor.

O que tá pegando, amigo, é que tão levando a vida muito a sério. Sério! Perdeu-se a leveza do ser, o humor, o jeito moleque de ver as coisas. Estão todos muito armados, com o espírito em constante alerta, carregando uma verdadeira Scania do famigerado politicamente correto nas costas. Tudo bem, precisamos ser corretos, honestos, fazer o melhor, mas também não precisa exagerar, né? 

No Facebook, vejo lá que dois amigos estão “em relacionamento sério”. Relacionamento sério não pode ser bom! O bom, o que vale a pena, que acrescenta, que emociona, que nos faz sentir vivos nesta vida de deus-dará é qualquer relacionamento afetivo, seja hétero, homo, poli, rotulado ou não, menos um relacionamento sério. Amem sim, mas deixem a seriedade de lado. Tá, tá bom, eu sei o que é relacionamento sério, eu não poderia era perder a piada. Mas não seria melhor dizer “namorando”?

Até aquilo que era pura diversão anda sério demais. O futebol. Neymar dá uma carretilha, sofre falta, os jogadores do Atlético ficam de biquinho e talvez, numa inveja brutal da técnica do brasileiro, partem pra cima, e o juiz, outro infeliz da vida, não só marca falta contra o Neymar (em vez de a favor), como lhe dá o cartão amarelo!? Se os caras não sabem jogar, que vão todos pro chuveiro! O lance foi lindo. É por isso que o futebol tá virando um sonífero. O Garrincha não poderia jogar nesses tempos.

Essa seriedade contemporânea contaminou também o cinema. Falaram tanto do Cinquenta Tons que eu tô pra ver filme mais careta. Até pelo que venderam. O “Felizes para sempre” tava muito mais animado, mais interessante, eu diria.

Sério, gente, essa seriedade generalizada tá fazendo mal pro mundo; tá tornando as pessoas muito chatas. Essas pessoas ficam patrulhando tudo, sejam humorísticos, comerciais, peças, imagens, opiniões, opções sexuais, religião, estilos, jeito de ser. Vamos hastear a bandeira do leve, vamos ter um olhar mais suave para a vida. Ele está muito pesado.

Outro dia puxei papo com uma desconhecida num ponto de ônibus, e senti que ela tava achando que eu a estava cantando. Eu não estava. Apenas puxei papo pra passar o tempo, para tornar aqueles minutos de espera mais agradáveis. É tão absurdo assim um homem e uma mulher que não se conhecem conversarem num ponto de ônibus sobre algum assunto que não seja “esfriou, né?”, ou “essas mudanças no trânsito...”? As pessoas se fecham. Mesmo no Facebook, as pessoas só adicionam quem conhecem. Não se abrem para o novo, para o desconhecido.

Eu decidi que minha vida deve se ancorar em dois estados capitaneados por duas palavrinhas mágicas: leveza e simplicidade. É isso que eu quero pra mim. Ah, e no Facebook, conhecendo ou não, sempre adiciono quem me faz uma solicitação. Se lá na frente o amigo é uma furada eu bloqueio. Simples assim.

Ilustração: Donald Zolan


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sexta-feira, 31 de julho de 2015

A REZADEIRA — 3ª E ÚLTIMA PARTE >> Zoraya Cesar



 Conte-me a verdade, repetiu Velha Vó Dindinha, empertigada, as mãos nodosas e ossudas sobre os joelhos.

Tiffanny Cristine entreabriu os lábios, deixando à mostra uma fileira de dentes pequeninos; os da frente, um tanto separados, davam-lhe um certo ar infantil e carente. Como as aparências enganam, pensou a Rezadeira.

 Não vou ser bonita e gostosa pra sempre. Antes que Edgar me troque por outra, quero o dinheiro todo dele. Agora. 

Velha Vó Dindinha aguardou. Essa parte ela já intuíra. Interessava-lhe o que ainda não fora dito. 

 Preparei um feitiço pra ele me obedecer cegamente, e assinar um papel me passando todos os bens.

Magia negra básica. O que dera errado? Por que uma entidade invadiu o corpo do marido, corrompendo seus canais energéticos com tanta violência, que o cheiro nauseabundo da podridão exalava para o plano físico?

 O que você prometeu em troca?

 Por que acha que prometi alguma coisa?  respondeu Tiffany, petulante.

 Porque esse é um trabalho relativamente fácil, até para amadores. Se houve possessão, é porque você prometeu alguma coisa. O quê? 

A mulher hesitou. O feitiço saíra de controle e agora precisava da ajuda daquela velha antipática. Depois daria um jeito nela também. 

 Prometi a Herrelle que, depois de Edgar assinar tudo, eu a deixaria ficar com o corpo dele. 

Horror, horror. Uma das mais trevosas entidades vodu! Tão poderosa quem nem os Guardiões da casa a suportaram. O medo que sentira era justificado. Olhou a mulher à sua frente  tão linda, tão loura, tão olhos azulíssimos: uma assassina fria e desalmada, que não tivera escrúpulos em trocar uma vida humana  uma vida que não era sua  por dinheiro. Sabendo que a entidade desintegraria o corpo do infeliz lentamente, tomando posse, depois, de sua Alma. Velha Vó Dindinha estremeceu. 

 O que você quer de mim?

 Que faça ele assinar os papeis. Tanto faz se vai tirar aquela coisa dele ou não. Eu quero os papeis assinados. Depois, prometo que vou interná-lo no melhor hospital, asilo, sei lá, pra ele ser cuidado e morrer em paz.

Morrer em paz! Velha Vó Dindinha teve ímpetos de bater naquela boneca loura. Tudo o que o pobre coitado não conseguiria seria morrer em paz. 

 Você está louca! Não posso concordar com essa barbaridade! 

Tiffany Cristine riu. 

 Por mim, tudo bem. Ele vai morrer, eu herdo parte dos bens. E a senhora será responsável pela morte dele...

Então, era isso. Deixar o desafortunado morrer lenta e dolorosamente, ou ajudar uma criminosa. O que fazer? Sentia-se mais à vontade trabalhando com Quimbanda, embora a Santería e o Candomblé tivessem as mesmas raízes. Teria ela forças e conhecimento para lidar com entidade tão maléfica? Seria um combate mortal. 

A mulher recostara na cadeira, tranquila e sorridente. Entendia o suficiente de feitiçarias para saber que a velha não poderia salvar Edgard sem sua permissão. Tinha, portanto, a Rezadeira nas mãos. 

 Vou ajudar seu marido. 

 Ele vai assinar os documentos?  foi tudo o que Tiffany Cristine quis saber. 

 Tenho de tirar aquela coisa. Posso garantir que ele recobrará a consciência. O resto é com você. 

Tiffany não ficou satisfeita, mas pensou melhor. Livre da entidade, o marido ainda estaria frágil e abobado. Ela, loura, linda, o sorriso charmoso, conseguiria o resto. Assentiu.

 Mais uma coisa  disse a Rezadeira. Tiffany resmungou. Só faltava aquela velha idiota fazer-lhe sermões. – Deixe que eu cure seu marido, sem você levar nada em troca. Assim não sofrerá as conseqüências de seu ato.

 Não perca meu tempo nem o seu. Diga logo quanto quer pelo serviço que tenho mais o que fazer.

Velha Vó Dindinha calou-se. Jamais aceitaria dinheiro manchado de sangue. 

Contou tudo à afilhada, que chorava, aflita, pois a probabilidade de a madrinha morrer era grande: já entrada em anos, adoentada, enfrentar uma entidade tão poderosa poderia ser fatal. A Rezadeira, por seu lado, estava tranquila. Morrer em missão era uma honra que ela sempre pedira ao Senhor. No entanto, não era hora de pensar em morrer, mas em cumprir seu destino. Deu início à desdemonização.

Foram 21 dias de jejum e oração, dentro de um círculo de 21 velas de 21 dias, seguindo as rezas fortes de São Cipriano, implorado o banimento da entidade à Nossa Senhora do Desterro, invocando Seres de Luz e os Loa, os intermediários entre os homens e o Bom Deus.  O mundo espiritual tem suas próprias leis, e aquela entidade quebrara uma delas, ao não cumprir sua parte no acordo. Os seres invocados em nome da Bondade Divina fizeram seu trabalho. O demônio saiu do corpo de Edgar e voltou para as trevas. 

O desrespeito à ksênia, a sagrada lei da hospitalidade, é crime imperdoável no mundo espiritual. Por cupidez, Tiffany infringiu essa regra, entregando o marido a uma entidade mortal. Como dissemos, o mundo espiritual tem suas próprias leis, e algumas são severas. As Erínias cumpriram seu papel e a castigaram com a loucura eterna. Nunca, enquanto viveu nessa terra, Tiffany recuperou a razão.

O Universo recuperara seu equilíbrio.

O corpo inerte, desidratado e anêmico de Velha Vó Dindinha foi internado em um hospital, em estado gravíssimo. Os médicos não tinham qualquer esperança de recuperação. O esforço cobrara seu preço.

O mundo espiritual, no entanto, tem leis próprias que a ciência dos homens desconhece.

Velha Vó Dindinha abriu os olhos e suspirou. Teria morrido de bom grado, mas, se não era sua hora, então, não era sua hora. Estava pronta para a próxima missão. 



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quinta-feira, 30 de julho de 2015

ESTE LADO PARA CIMA >> Analu Faria

Todo amor é um invasor. Eu olho para o meu namorado ali deitado, ocupando o sofá todo e penso nos mosquitos e borboletas que entram no meu pequeno apartamento, se eu deixar a janela aberta. Lembro também dos ensinamentos do meu irmão, que era engenheiro florestal, e me dizia que ficava tudo mais perigoso e a vida se enchia de possibilidades quando há espécies invasoras numa floresta.

O invasor é antes de tudo um forte. E vai modificar a paisagem com minigarrafinhas de Coca-Cola com o seu nome e o dele, e um porta-retratos com uma foto mostrando como foi legal se divertir mesmo naquele passeio mega sem graça. Vai também tornar a paisagem insípida sem a sua presença, de forma que, quando for embora, vai te deixar perguntando como é que se vivia naquele semiárido antes, naquela falta de diversidade. Os sons da casa não são os mesmos sem os zumbidos do invasor, trocando o canal da TV, rindo, apanhando do novo aplicativo, abrindo uma cerveja ou lavando a louça. E você vai contar os dias para o próximo fim de semana, quando é época de novo de abrir janelas. Espera, adaptação, sorte e seleção natural. Esse negócio de relacionamento é um suplício. Odeio Darwin.

Bom seria se meu pobre cérebro cartesiano encontrasse amores como quem encontra aquela lava-roupas de que precisa há tanto tempo. Aí sim: manuais, desenhos, instruções de montagem, tudo muito ali no seu quadrado. E o aviso vital na caixa: este lado para cima.

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quarta-feira, 29 de julho de 2015

EU E ELE NUNCA SEREMOS NÓS >> Carla Dias >>


O mundo se tornou um lugar para poucos. Pensei que isso nunca aconteceria... Que haveria uma saída que nos levasse para longe desse destino. Ainda assim, aqui estou: sentado em uma cadeira, próximo à porta que dá para o jardim. Perfeitamente vestido, corpo na postura correta, olhos o acompanhando, enquanto ele faz o seu monólogo matutino, andando de lá para cá.

“Sabe como é difícil conseguir um exemplar como você?” Ele se refere ao fato de eu ter cabelos negros e bem lisos, pele branca, olhos azuis, mais alto do que a média e corpo atlético. “Exemplares como você não dão sopa por aí”.

Esse lugar para poucos...

Respondi ao anúncio, após compreender que não havia outro jeito e eu precisava sobreviver. Todos os meus recursos haviam se esgotado, e eu já tinha perdido emprego e casa, não tinha mais como comprar comida. Eu olhava nos olhos daquela miséria sobre a qual, até então, eu só ouvira falar. A miséria que se oberva de longe, lamenta-se como se tal compadecimento pudesse colaborar de alguma forma. A miséria dos ignorados.

Anúncios do tipo se tornaram comuns. As redes sociais oferecem materiais mais visuais, o que facilita a compra de passe, mas também oferece mais risco. Eu escolhi os anúncios de jornal, e somente para nutrir uma falseada sensação de privacidade. Não queria alardear minha sucumbência.

Foi assim que o conheci, um dos remanescentes membros do grupo dos que mandam no mundo. Esse mundo que levou o termo “lugar para poucos” ao cúmulo do literalidade. Nem todos são respeitosos como ele. Então, aceito que tive sorte, que talvez a ideia de escolher pelo anúncio de jornal não tenha sido assim tão ruim. Se bem que não sei dizer o que poderia ser pior do que fazer o que faço hoje.

Lembro-me do início do que hoje temos. Não foi de repente, que pensando bem, o mundo já caminhava para isso. Não foi sutil, mas a maioria de nós — aqueles que não ocupavam tempo a pensar sobre o mundo e as pessoas que nele viviam — escolhemos não prestar atenção ao processo.

Eu era filho do mundo. Não tinha família, meus amigos eram poucos e nem tão amigos. Eu era um homem de posses, mas que não fazia bom uso do bom senso. Hoje eu sei bem de cada defeito que me colocou nessa posição. Porém, engana-se quem pensa que lamento somente por mim. Se há algo que a sucumbência oferece, ao menos aos que aceitam sua condição de reles ferramenta para facilitar a vida de outros, é a capacidade de lamentar pelos outros; por aqueles que se encontram na mesma situação.

Ele olha para mim e sorri. Figura triste vestida em caros tecidos, designada a assumir posto de rei, quando nem mesmo imagina como comandar a própria casa. Pede para que eu me levante e eu o obedeço. “Chegue mais perto...” E eu me aproximo dele, meus passos na cadência que ele determinou, anteriormente. Coloca a mão sobre o meu ombro e me encara: “o que você acha?”

O que tenho de achar — e digo isso porque tenho mesmo de achar, independente do que acredito — é o que ele me passou por e-mail, ontem à noite. Todas as noites eu recebo uma lista de coisas a serem feitas no dia seguinte, assim como recomendações sobre como me comportar diante do que acontecerá.

O mundo e a sua geografia de imensidão que quase conheci. Sim, eu viajei muito, estive em quase todos os países do mundo. Apaixonei-me por diferentes culturas. Havia diversidade nas pessoas e nas realizações. A pluralidade me encantava. Apesar de todos os problemas sociais, religiosos e pessoais, nós vivíamos em um mundo onde cabiam nossas jornadas. Mas foi até ali... Até se estabelecer essa nova ordem. Até poucos se tornarem tão poderosos a ponto de serem capazes de reescrever a história de milhões, sem a participação deles.

Ele continua o seu monólogo, lançando-me olhares curiosos, vez e outra. Tenho por certo que ele nunca se interessou pelo o que realmente penso sobre suas aventuras amorosas ou conquistas financeiras e profissionais.

Aquela miséria sobre a qual eu escutava falarem a respeito já não existe mais. Mas também deixaram de existir muitos países, culturas. Não existe mais problema de superpopulação. Esse também foi resolvido ao se reduzir o número de pessoas no planeta e aplicado um severo controle de natalidade. Sim, falo sobre algo que foi cogitado por muitos e que fez parte da literatura de importantes escritores. Tivesse ficado na intenção e na ficção, talvez a história fosse outra.

Quem diria que eu acabaria aqui, justamente na casa do mais poderoso do círculo que hoje abriga aqueles que regem o mundo, fazendo da vida das pessoas o que bem entendem, suprimindo-lhes desejos e sonhos. A miséria de hoje não é como aquela que eu conheci de longe. Esta tira homens e mulheres de seus ambientes seguros, do dinheiro e do pálido poder que os mantinha, lançando-os a um mundo de necessidades que jamais imaginaram que poderiam ter.

“Deixe-me ver...” Enquanto ele analisa minhas unhas, uma a uma, com rigor, olho para o adiante, engolindo o choro. “Limpas... Muito bem. Agora...” Abro a boca para que ele analise meus dentes. “Perfeito”.

Essa nova ordem tornou o ser humano mais solitário do que nunca. Os que mantêm relações de afeto honestas, das correspondidas, são invejados profundamente. Foi por conta dessa solidão que muitos dos poderosos adotaram a prática dos anúncios. No início, eles não queriam se revelar, temendo que o poder adquirido fosse fragilizado por tamanho desejo de se conectar ao outro. Depois, compreenderam que somente o poder lhes daria um mínimo de amparo emocional.

Antes de responder ao anúncio, chorei como se fosse criança e por horas. Adulto, sabedor que a vida de uma pessoa deveria lhe pertencer, tive de entregar a minha a alguém incapaz de se conectar naturalmente com outro ser humano. Eu atendia aos requisitos, e a ideia de poder voltar a dormir em uma cama, de contar com três refeições ao dia, trouxe à tona a minha fragilidade.

Verguei-me.

Ele diz que tenho de me dedicar um pouco mais, que devo assistir a todos os vídeos que ele deixou separados na sala de tevê. “Quero que aprenda cada gesto, a entoação das palavras... Perfeição.”

Tento acessar a memória, mas ela anda mais frágil que nunca. Por alguns instantes, esqueço-me completamente do meu nome. Quando ele me volta à memória, emociono-me, como se reencontrasse um velho amigo. Um deles me disse, há muitos anos, quando eu ainda era um indivíduo, que não há nada mais cruel do que roubar de uma pessoa o direito de ser, a sua identidade. Na época, eu satirizei a reflexão. Hoje, eu gostaria de dizer a ele que finalmente entendi o que ele disse.

Ele sorri com dentes completamente estragados, por conta de uma doença que seu dinheiro e seu poder não podem curar. Eu me vejo nele. Eu me vejo sendo a versão melhorada dele: as mesmas roupas, o mesmo perfume, mesma altura. Cabelos penteados da mesma forma. Olhos igualmente azuis. É como olhar para o meu reflexo no espelho.

Invade-me essa tristeza imensa. Enquanto ele continua a me adestrar, percebo a ironia: o poderoso, o capaz de mudar o mundo e decidir o destino de outras pessoas é um ser que sofre de solidão profunda. Ainda assim, do topo de sua prepotência, prefere pagar com casa e comida para que outro, alguém fisicamente parecido com ele, possa interpretá-lo em um enredo salutar e sedutor. Na solidão, em vez de buscar quem possa lhe oferecer afeto, ele coloca anúncio no jornal e encontra quem possa lhe fazer companhia como se fosse ele mesmo.

Bebemos chá no fim da tarde. Xícaras levadas à boca ao mesmo tempo. Às vezes, eu me esqueço de que sou eu mesmo. Às vezes, ele acredita que sou ele. Vivemos nesse mundo que se tornou um lugar para poucos.

Imagem: Brothers Bruckman © Karel Bruckman



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segunda-feira, 27 de julho de 2015

S.O.S. ACADEMIA >> Albir José Inácio da Silva

Hoje me movimento já com algum desembaraço pelos aparelhos da academia, mas não posso esquecer minhas desventuras de principiante no fitness.

A timidez não chega a me paralisar. Se tenho que fazer, faço, depois contabilizo os resultados. Mas confesso que aquela garotada irreverente, fazendo coisas difíceis com facilidade, assustava um pouco minhas acumuladas primaveras.

Por isso escolhi um mês de férias no trabalho, para que tivesse o tempo necessário à adaptação e, como tinham me orientado, pudesse frequentar no meio da tarde — horário em que a academia ficava quase vazia.

O professor rabiscou uma série e explicou rapidamente os aparelhos, tudo muito fácil segundo ele. Sobre os pesos, ou carga — esse é o nome correto — disse que era pessoal e o aluno adaptava à medida que evoluía no treinamento. E seguiu para outras muitas atividades.

Tarde sonolenta, academia vazia, professor ocupado, um garoto solitário na esteira, uma magrinha e eu. Eu, meio perdido, com uma ficha na mão, articulações enferrujadas e alguma preguiça. Tudo em paz, beirando a harmonia.

Se há alguma coisa de que não posso reclamar é do acolhimento. Sempre aparece alguém com empatia e boa vontade para me ajudar nos começos difíceis. Foi assim com a magrinha. Eu não saberia dizer sua idade, talvez por causa das roupas coloridas, dos gestos harmoniosos e da magreza.

Sei que era só gentileza e paciência com este neófito, abandonado pelo professor e pela coragem. E me explicou aparelhos, alavancas e velocidades. Sempre que me via olhando a ficha, lia comigo e interpretava.

Fiquei observando seus movimentos no LEG 45: esticava e flexionava as pernas, travava e liberava o peso ao final ou início de cada série. Até que se levantou e foi ao bebedouro.

Acho que, embora muito grato pela ajuda até ali dispensada, quis impressioná-la, mostrar minha desenvoltura e independência. Olhei para o aparelho e achei que havia muitas e grandes anilhas, mas não me preocupei.

Se minha amiga, magrinha daquele jeito, pequenininha, conseguia levantar com facilidade, ritmo e um sorriso tranqüilo, por que eu não conseguiria? Sentei-me no aparelho, apoiei as costas e coloquei os pés na placa de sustentação, como a tinha visto fazer. Empurrei os pés e liberei o peso.

Meus joelhos bateram no peito, eu não conseguia respirar nem me mexer. Também não conseguia gritar.

A magrinha levantou a cabeça do bebedouro e viu meus braços agitados em desespero. Chamou por ajuda, e eu me lembro das pessoas retirando as anilhas e me segurando pelos braços. Minhas costas não se endireitavam mais. Minhas pernas estavam bambas. Sei que falavam comigo, mas eu não ouvia.

Aos poucos, as vozes foram voltando. Quiseram que eu me sentasse, mas eu tinha medo de não levantar mais. Consultaram-se sobre a necessidade de ligar pra SAMU e eu protestei. A academia parou, todos a minha volta, e eu querendo sumir. Só tinha certeza de uma coisa: nunca mais voltaria ali.

Mas voltei, anonimamente, outro horário, outro professor, outras magrinhas. Tinha aprendido um pouco mais sobre prudência e humildade. E sobre aparências e enganos.


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domingo, 26 de julho de 2015

NÃO SE MEXA, MEU AMOR
>>Eduardo Loureiro Jr.

— Não, Mô. Isso, assim. Um, dois, três, X... Saiu borrada. De novo. Fica imóvel, não mexe nem um pingo. Mas sorri. Sorri direito. Não, não faz esse sorriso de quem tem que sorrir pra foto. Faz aquele sorriso original, o primeiro que eu vi, aquele que me fez apaixonar por você. Isso. Segura esse sorriso. Com naturalidade, senão sai aquele sorriso forçado. Um, dois, três, X... Ficou ótima! Linda! Vou postar... Vamos tirar outra? Deixa de chatice, só mais uma. Depois você faz o que você quer fazer. É que reparei agora que apareceu sua chinela no fundo da foto. Horrorosa essa chinela. Quando é que você vai usar a chinela que lhe dei de presente de aniversário? Vamos lá. Me abraça. Mais forte. Não tão forte, assim você vai me sufocar. Me abraça do jeito que você abraça sua mãe. Você não sabe como você abraça sua mãe? Assim, ó. Isso. Sorri, você já sabe, daquele jeito. Sorriso sincero, por favor. Você não está sorrindo sinceramente. Você não pode tirar uma foto direito comigo? Duas, dez, quantas for. Em que é que você está pensando? Isso é sorriso de quem não está com o pensamento em mim. Você não me ama mais? Você não quer aparecer mais comigo? Por favor, sorri. Lembra de tudo que eu já fiz por você, todos os presentes que já lhe dei, mesmo que você não use todos. Já fiz tanto sacrifício por você e você não pode sorrir para uma foto? Não, não esse sorriso, aquele outro. Não, esse também não. Nem esse. Aquele, mô, aquele! Esse! Isso! Um, dois, três, X... Ah, não! Você desfez o sorriso na última hora, ficou com cara de besta. Vamos tirar outra. Rapidinho. Um, dois, três, X... Eba! Tá vendo, quando você resolve colaborar, funciona. A gente podia fazer um álbum inteiro. Um álbum pequeno, Mô, uma foto por dia. Aí quando a gente fizer Bodas de Ouro a gente faz um vídeo, nessa época talvez até seja um holograma, vai ficar lindo. Só uma foto por dia. Você não pode dedicar um minutinho por dia pra gente tirar uma foto? Sinceramente, Mô, às vezes acho que você não gosta mais de mim. É muita má vontade. Você não entra no WhatsApp e no Facebook todo dia? Então por que não pode tirar foto comigo todo dia? Que tanta coisa é essa que você tem pra fazer? Não me diga que ainda tá com aquele sonho, aquela criancice. Tem que crescer, Mô. A gente tem é que trabalhar e ganhar dinheiro para comprar um celular com uma câmera ainda melhor que essa. Meus sonhos pra gente não são bons pra você? Por que é que você tem que ter esses sonhos só seus? Não mexe, Mô. Fica parado aqui perto de mim, não me larga. Sorri, sorri sempre. Eu te amo, Mô! Um, dois, três, X.

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