terça-feira, 21 de outubro de 2014

OBRIGADA LINDSAY LOHAN

Obrigada Lindsay Lohan!

Devo muito te agradecer pelos memes mais engraçados que há muito não apareciam pelas redes sociais e por ter descontraído o assunto mais polêmico - e chato - dos últimos tempos! Não aguentava mais comentários agressivos sobre as eleições. Cheguei a ver comentário mais agressivos que os dos próprios candidatos nesses debates que mais parecem um ringue de luta!

Aliás, os comentários mais agressivos que vi, foram de pessoas que pediam para que os debates não fossem mais agressivos, e sim uma oportunidade dos candidatos mostrarem suas propostas!

Afinal, que mania é essa que a gente tem de pedir paz sendo agressivo, pedir silêncio gritando, pedir que as pessoas sejam pontuais nos atrasando, pedir paciência sendo impaciente?

Não gosto muito de falar sobre política, acho que mexe com um lado das pessoas que às vezes é melhor não mexer, mas na minha opinião, esse segundo turno expressa bem essa atitude generalizada de pensar em tudo olhando para o próprio umbigo. Virou briga de interesses pessoais, cada um pensando o que vai ser melhor para si, e não para toda a sociedade.

Agora, vale a pena ser tão baixo a ponto de ofender os outros apenas porque discordam em um tema?

Acredito que nenhum dos dois candidatos têm tido a postura que se espera de um presidente, e, enquanto isso, a sociedade parece seguir os mesmos caminhos e mostrar que talvez não saiba conviver em sociedade!

Estou vendo chegar a hora em que vamos ser retrógrados ao ponto de resolver isso na peixeira, vence quem sobreviver!


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sábado, 18 de outubro de 2014

MÃE E FILHO >> Sergio Geia

“Bacana ver vocês dois”. Ela me olha assustada. “Esse carinho. Mãe e filho. É uma imagem bacana. Sacumé, né, dias de hoje, esse mundo babaca de tão podre, uma imagem dessas faz bem. Olha, daria até uma crônica”. Ela põe o menino no colo. Sorri pra mim. Ele pede para ir ao parquinho.

Fiquei pensando nisso um bom tempo. Uma imagem que fez minha sexta-feira começar com o pé direito, rumo ao final de semana. E foi isso que senti saboreando aquele sorriso no caminho do trabalho. Até o dia despencar em mim como um Niágara de aporrinhação.

Primeiro a tevê, no quilo. O sujeito sendo transportado pro Rio numa operação de guerra. Em Cascavel, pessoas presas num hospital. No elevador, na fila do banco, ebola para todos os gostos. Todo mundo preocupado, índices de mortalidade na ponta da língua, chances de cura, países castigados, formas de transmissão. No dia seguinte se confirmou que não era ebola. No mesmo dia vi o Ministro da Saúde dizer que o Brasil continua sendo um país com pouco risco de contaminação.

E o pior é que a coisa começa a tomar conta das nossas vidas. Vira assunto de botequim, quando a gente vê está procurando notícia, querendo saber se o sujeito desceu ou não desceu em São Paulo, se alguém tá fazendo alguma coisa, pesquisando, procurando uma forma de deter essa praga antes que vire pandemia. Você volta do almoço e o segurança do prédio não perdoa: “É o apocalipse, seu Sergio”.

Outro dia tava no face correndo a timeline quando me deparei com a cena de um taxista transportando um passageiro. A câmera ali, instalada no táxi, talvez para dar mais segurança ao motorista. O taxista, um senhor, um avô com certeza, que precisava estar ali para aumentar a renda da família, cumpria sua obrigação com dignidade. De repente, o rapaz saca uma arma e atira na nuca dele. Fiquei chocado. Aquilo me embrulhou o estômago e serviu de input pra essas barbaridades todas que nutrem nossas almas todos os dias, tipo sujeito no meio do deserto aguardando a cerimônia da morte.

Começo a pensar que a gente se alimenta mal pra burro. E se enfartar depois, não pode estranhar. São carradas de placas de gordura entupindo a vida. Ninguém quer saber de agrião com arroz integral. Quer mesmo é uma picanha bem das mal-passadas. Aí viramos esses bestas trogloditas que por qualquer fechadinha mequetrefe tão xingando até a décima quinta geração do navalha. Vivemos num mundo besta e sem sentido.

Ele sobe no escorregador e sorri. Ela faz que sim com a cabeça. Ele olha meio desconfiado, o sorriso se transmudando em preocupação. Parece calcular a distância. Olha mais uma vez, depois se volta pra ela, agora sem sorriso, clamando por alguma coisa que ele nem desconfia o que é. Ela sente que ele precisa dela. Deixa o caderno no banco e se aproxima: “Vai, filho! Desce! Você vai gostar!”. Mesmo com medo ele se arrisca e deixa o corpo cair. Quando põe os pés no chão corre ao encontro dela. Os dois se abraçam num abraço que derrama amor. Ele diz que quer ir de novo. E vai.

Fecho os olhos torcendo pro sono não chegar, pra que eu possa saborear mais um pouquinho desse agrião com arroz integral.


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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

TRADUZINDO OS MUNDOS >> Paulo Meireles Barguil


O convite do Universo ao Homem é que esse o decifre, interprete, bem como a si mesmo.

A singeleza da convocação é inversamente proporcional à complexidade da sua realização...

Imprevisível que nos fascina. Garantia de brincadeira eterna.

Quem vai? Quem fica?

Quem está de bandeirinha? Quem é café com leite?

Será que a curiosidade é filha do medo?

E haja adrenalina, dopamina, noradrenalina, serotonina, endorfina, acetilcolina...

Abrir as entranhas do mundo e de si.

Macro e micro profundamente vinculados.

Identificar padrões. Descobrir uma lógica. Constituir leis.

O mundo, afinal, muda ou não muda?

Sofremos porque não admitimos que a dor é inerente à vida.

Aceite a vida. Aceite a morte. Aceite a alegria. Aceite a tristeza.

Tão simples. Tão difícil.

Brigamos — muitas vezes literalmente! — com o mundo. Gritamos o quanto ele é injusto.

Agonizamos porque ficamos congelados no episódio dolorido, o qual se eterniza em variadas situações.

Ninguém pode nos libertar dessa calcificação pelo simples motivo que somente cada de um nós é que pode identificar tal cenário e decidir dele sair.

Zumbis emocionais vagamos à esmo: de madrugada, de manhã, de tarde e de noite.

Usamos morfinas variadas para tentarmos esconder, de nós e dos outros, uma diferente septicemia.

Chegará o instante em que entenderemos as intricadas conexões entre emoção, corpo, cognição, alma...

Até lá, continuaremos sujeitos a traduções literais, em virtude do pouco conhecimento ou cuidado,  que tanto empobrecem a realidade.

O belo filme "The Physician" aborda a Medicina no século XI, numa saga memorável em prol do saber.

No Brasil, como exemplo da falta de atenção, o mesmo foi traduzido como "O Físico"...

 


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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

CARTA ABERTA A UM POSSÍVEL AMOR >> Mariana Scherma

Se não for me pedir pra ficar, por favor, não me mande mais mensagem. É crueldade me encher de expectativa, sumir com o vento e me deixar esperando a mensagem que vai dizer que você nunca deveria ter ido embora. Ela não vai vir, eu sei disso, no fundo e na superfície também. Mas a cada mero oi-com-sorriso que eu recebo seu, viro uma boba, esqueço o que já aconteceu e me transformo numa menina de 15 anos que perde a fome fácil, porque se alimenta dos sonhos que brotam ao saber que você ainda pensa em mim. Que não apagou meu número.

Talvez eu nem devesse falar essas coisas e manter minha aparente frieza, que é só aparente, convenhamos, mas talvez você não saiba disso porque eu sempre fui a divertida-desencanada-livre. Meio que continuo sendo, mas com uma pitada de tristeza porque você não quis ficar. Aliás, que mal lhe pergunte, por que você não quis ficar? Eu gostei de você no primeiro abraço, na primeira vez que senti seu perfume. Gostei de você na simplicidade com que nossas conversas aconteciam. Gostei de você na primeira vez que reparei seus olhos piscando e seus cílios volumosos fizeram meu coração sentir uma brisa que eu não imaginei ser possível sentir.

Gostei de você. Básico assim. Mas quem gosta diz que gosta, certo? E eu nunca disse, mas imaginei que você tivesse captado pelo meu olhar, no beijo que nunca quis terminar, nas mensagens nonsense, no silêncio que muitas vezes quis gritar. Não falei, dei bobeira e agora eu sigo tentando me distrair, tendo a certeza de que vai levar um tempo até esquecer como sua boca é vermelhinha e ficava ainda mais vermelha depois dos nossos beijos. Eu era mais feliz com você, agora, um pouco mais triste, ainda disfarço fazendo minhas brincadeiras idiotas com todo mundo ao redor. Essa pode ser a primeira e última vez que eu assuma que gostei de você. Só não vai ser a última se você voltar e ficar. Volta?

Volta porque eu acho que a nossa história ainda pode ter continuação. Como aqueles filmes que acabam e você começa a fazer contagem regressiva até a próxima sequência. A gente, junto, tem potencial. Você se lembra das risadas? Elas eram simples, eram gostosas, vinham fácil. E não é tão bom rir por nada? Não prometo que temos futuro como casal, mas se já foi tão bom, leve, sem briga, sem frescura, vai continuar sendo. Sinto que nossa história foi interrompida com vírgula, nada de ponto final da minha parte. E da sua? Eu gosto de você e, se for recíproco, volta, vai. Por favor. Agora, se você não gostar mais de mim, tudo bem. Sentimento não se força, sentimento acontece. Mas também não me mande mais mensagem. Uma hora dessas , eu esqueço você. Só que vai ser uma baita pena porque poderia virar amor.


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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

APRENDIZADO >> Carla Dias >>



Para a Dona Elisabete, a professora
que viu em mim a pessoa que eu jamais
conseguiria reconhecer sozinha.


Ensinou os cinco filhos a beleza que inspira um mecânico a sê-lo. Carro tem sentimentos, costumava dizer, mesmo enquanto a mãe torcia o nariz, e comentava, com um quê de ironia no ponto de deixá-la charmosa, que carro é só um jeito de levar as pessoas aonde os sentimentos acontecem.

Todos os dias, levantava-se cedo, tomava banho e se vestia bonito, depois encontrava a esposa na cozinha, beijando-lhe os lábios demoradamente. Com tanta criança na casa eram raros os momentos em que eles podiam flertar, feito os namorados que sempre foram. Então, pegava uma caneca com café e dava uma voltinha pelo jardim, a fim de colocar os pensamentos em ordem.

Tirar os cinco moleques da cama era a atividade do dia mais prazerosa para ele, e que sempre acabava em alguma brincadeira, depois em beijos de despedida. Ele saía para o trabalho e a mulher ficava em casa, endoidecida, de um jeito amoroso, com cinco moleques relutantes em se arrumarem para ir para escola.

Naquele prédio, ele entrou várias vezes. Lá foi assistente de limpeza, zelador, um faz-tudo de primeira. Durante quase trinta anos, sustentou sua família com um salário mais miúdo do que as despesas. Nos finais de semana, trabalhava dedicadamente nos velhos carros dos amigos da vizinhança. Era o prazer que contribuía financeiramente com a sua família. E ele adorava ser chamado de “Seu Mecânico”.

Hoje é um dia diferente para um homem que nunca imaginou que sua vida pudesse ser diferente da que os irmãos e primos levavam. Esse prédio, hoje o receberá de uma maneira como ele jamais imaginou possível. Não antes de conhecer a Dona Iara, aquela mulher falastrona, mas nem sempre simpática, que o fazia limpar os corredores do lugar até ficarem lustrosos. Quero andar por esses corredores como se caminhasse sobre diamantes, ela sempre dizia. Ele se esforçou para que ela ao menos pudesse se imaginar nessa passarela de diamantes. E se esforçou para que cada canto ficasse em ordem, cada menino e menina na sala de aula, que eles se distraíam fácil com as conversas pelos corredores.

Todos gostavam de Pedro, mas a Dona Iara o admirava. Via nele o desejo tímido de aprender sobre o que encontrava nas lousas, quando limpava salas de aula vazias. Ela o observou por muito tempo, e lhe emprestou livros sobre mecânica, contou-lhe sobre gênios de todas as áreas, encantou-o com a história de vida de personagens da literatura. Não era incomum ela dar a ele uma verdadeira aula de história, enquanto Pedro lavava o banheiro.

Para Dona Iara, a curiosidade de Pedro era a sua melhor qualidade. Não era uma curiosidade para se gastar com bobagens, como a vida alheia, fofocas e tal. Era a curiosidade do aprendiz, que deseja mais informações sobre aquilo que lhe encanta, e Pedro se encantava com tudo o que ela dizia, não por necessidade, tampouco por educação. Era um encantamento genuíno.

Para Pedro, esse aprendizado todo lhe fez muito mais presente na vida escolar dos filhos. Ele fazia questão de, depois de um dia de trabalho pesado, sentar-se com os moleques e ajudá-los com a lição de casa, enquanto a mãe, que era quituteira de primeira, preparava suas delícias para alguma festa de aniversário.

Com os livros que Dona Iara lhe emprestou, ele se tornou um mecânico muito mais habilidoso, e até clientes de cidades vizinhas ele teve. Mas sua relação com os carros era mais emotiva, de apreciação. Aos poucos, foi passando os clientes para o amigo mecânico profissional, o Josué. A esposa ficou tinindo de brava, que eles nunca tiveram a vida mais tranquila do que ele trabalhando nos carros, nos finais de semana. O que ela não sabia, e ele tinha receio de compartilhar, ao menos até ver se daria mesmo certo, é que Pedro agora trabalhava somente meio período lá na escola.

Ele estava limpando a sala dos professores quando chegou o intervalo. Como sempre, parou o que fazia para sair da sala e deixar os professores aproveitarem os minutos de descanso. Dona Iara, porém, pediu que ele ficasse e que se sentasse, pois eles tinham algo a dizer. Naquele dia, Pedro compreendeu o que é alguém lhe querer tanto bem, respeitá-lo como indivíduo e ser humano, que até lhe oferece oportunidade de ser. Sob a batuta de Dona Iara, os professores ofereceram ao Pedro a oportunidade de estudar ali mesmo, na escola. Ele sorriu, agradeceu, quase chorou por conta de tanta atenção a sua existência, mas tenho de trabalhar... não dá pra estudar, não.

Pedro levou dois meses para contar a sua esposa o que acontecera. Durante esse tempo, ele trabalhou meio período e estudou para terminar o ensino fundamental. Depois de dois meses, completamente embevecido pela capacidade de aprender, viu-se incapaz de ser outra pessoa que não aquela que vivia dentro dele, mas não sabia como se manifestar. A esposa chorou, esperneou, chamou Pedro de irresponsável. Então, ela parou e se deu conta: em dois meses, o dinheiro entrara normalmente. Como?

Os professores foram convencidos, sem muito esforço, por uma Dona Iara decidida. Pessoas como Pedro precisam que nós, os professores, as ajudem a seguir o seu caminho, ela repetiu várias vezes, e depois explicou como ele era dedicado, interessado em saber, em descobrir o mundo. Foi assim, com o respaldo de uma professora muito querida e respeitada, que Pedro conseguiu receber o pagamento integral por meio período de trabalho. Eles se juntaram, tiraram um pouco do pouco que recebiam, e complementaram o pagamento do assistente de limpeza. Foi assim que Pedro chegou aqui, a esse agora.

Dona Iara o recebeu na porta, sorrindo, assim como os outros professores, alguns dos que o ajudaram em sua jornada. Pedro continua apaixonado por carros. Dois de seus filhos se apaixonaram por barcos, e são sócios em uma empresa de locação,  no litoral. Um se apaixonou por geografia, e antes de se tornar professor de uma bem-conceituada faculdade, viajou pelo mundo, colocou os pés no que aprendeu na escola. Outro se apaixonou por comida, e se tornou chef de cozinha de um badalado restaurante. E teve o que se apaixonou pelo Charlie Watts, dos Rolling Stones, comprou uma bateria e montou uma banda, que vai muito bem, obrigado.

Pedro chegou à escola para o seu primeiro dia de trabalho, depois de tantos anos. Entrou na sala dos professores, juntou-se a eles, bebeu café com eles, conversaram sobre a vida, a aprendizagem. Com os olhos marejados, o novo professor de Língua Portuguesa é recebido com carinho e admiração, que antes de voltar para cá, construiu uma carreira invejável como escritor.

Dona Iara e Pedro parados no corredor. Quem diria, Dona Iara. Quem diria que eu voltaria para cá assim, de forma tão bonita?”. Ela sorri, diz que sempre soube, você só precisava de quem entendesse que aprender muda tudo, muda o quem somos, o quem nos tornamos”.

Aprender muda o nosso dentro e o nosso entorno. Aprendendo, Pedro inspirou os filhos em suas carreiras, ajudou a mulher a criar uma instituição em prol da alimentação saudável em escolas públicas. Tornou-se a pessoa que morava dentro dele, silente, sem jeito de sair e ver o mundo.

Para Pedro, sem a intervenção de Dona Iara, a sua vida seria completamente diferente, empobrecida pela incapacidade de chegar aonde ele poderia. Para ele, os mestres, os professores são essenciais na formação de pensantes, pessoas capazes de tomar as melhores decisões, de fazer as descobertas pelas quais o mundo espera e necessita.

Imagem: freeimages.com

carladias.com



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terça-feira, 14 de outubro de 2014

TEM GENÉRICO? >> Clara Braga

Lá fui eu ao ortopedista. Expliquei o que sentia, mostrei onde doía. Ele examinou, fez diversas perguntas, examinou um pouco mais, explicou o que estava acontecendo com toda calma e deu seu veredicto: entre várias coisas, você precisa fortalecer sua coluna, um pilates, talvez?

Até gostei, estava mesmo curiosa para entender melhor sobre esse tal desse pilates que todo mundo fala tanto! Sempre ouço falar tão bem que acho que vai ser a solução para os meus problemas! Comecei a pesquisar alguns lugares, pedi algumas indicações e comecei as ligações. 

O primeiro lugar era totalmente fora do orçamento, vamos ao segundo. É… fora do orçamento também… próximo. É, deu uma leve melhorada, mas ainda é complicado. Não demorou muito para eu entender que pilates deve mesmo ser a solução para os problemas de todas as pessoas do mundo. Tanto quem faz, que deve curar qualquer problema, quanto quem aplica, que deve estar ganhando muito dinheiro! Que coisa cara!!!

Será que não existe um genérico do pilates? Sei que quando o assunto é saúde fica complicado querer economizar, mas também não precisava abusar né? Não tinha como pelo menos aceitar plano de saúde, talvez?

Confesso que em tempos de segundo turno, enquanto me sinto um pouco na obrigação de tomar uma decisão mesmo sem me identificar muito com qualquer um dos candidatos, estou quase anunciando: quem prometer abaixar os preços dos estúdios de pilates tem meu voto!


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domingo, 12 de outubro de 2014

ESTAMOS EM GUERRA >> Whisner Fraga

Aspectos religiosos vira e mexe ganham destaque em eleições. Neste momento em que depositaremos na urna a esperança de uma sociedade mais justa e melhor, é importante deixar de lado nossas crenças, principalmente no que diz respeito a aspectos religiosos. O Brasil deve abandonar uma história de submissão a igrejas e se tornar de fato uma nação laica.

Há temas muito polêmicos nesta eleição, que estão sendo tratados com parcimônia por ambos os candidatos à presidência: aborto, casamento gay, legalização da maconha, pena de morte, entre outros. Nenhum deles desconhece o fato de que somos um país católico e que não podem se dar ao luxo de perder os votos dos fiéis. Então permanecem em cima do muro. Não é necessário que o cidadão se desespere, pois o novo presidente, seja quem for, não apoiará a descriminalização do aborto ou legalizará a maconha ou instaurará o casamento gay. Nenhum deles. Simplesmente porque não podem perder o importante apoio dos crentes. Apenas por isso.

Mas o eleitor deveria ir às urnas como um cidadão e não como um católico ou como um evangélico ou como um budista. Quando digitar o número de seu candidato deveria pensar sempre a favor da vida. E a vida em nosso planeta é produto que caminha para a extinção. Por que se discute tanto a questão do aborto e pouco se fala sobre a água, que no estado de São Paulo se torna cada dia mais rara? Ora, não é tudo vida? Por que o cidadão se posiciona fortemente contra o casamento gay e corre a uma loja de móveis para comprar uma mesa produzida com madeira ilegal? Ora, não é tudo vida? Quem se preocupa com os índios assassinados em prol do extermínio de árvores, se temos em nossa sala todos os móveis mais chiques, para inveja de nossos vizinhos? Ora, não é tudo vida?

A vida está em baixa em nosso mundo. A sociedade se posiciona sobre a pena de morte – a favor ou contra, se dividindo, mas em sua maioria crê que bandido bom é bandido morto. Católicos saem de suas missas com a boca ainda salivando a hóstia para xingar em uma querela de trânsito o mesmo irmão que abraçou durante a comunhão. Evangélicos que tentam curar um homossexual logo após o sermão do pastor. Somos mesmo um povo selvagem. Metade de nossa população é formada por analfabetos funcionais, o que quer dizer que não sabem interpretar aquilo que leem. 49% não gostam de ler ou de raciocinar, o que os torna vulneráveis a dogmas e outras crendices. Assim, é fundamental que sigamos a defender que o dinheiro do pré-sal seja para a educação.

A vida está em baixa mesmo. Na Internet, nas redes sociais, nos pontos de ônibus, nas rodoviárias, no clube, na escola, no trabalho, tudo é política, na pior acepção do termo. Somos todos esquerda, centro ou direita. E, em todos os casos, contra a vida. Somos contra a existência quando nos tornamos consumidores compulsivos, quando não pensamos em como deixar um mundo um pouquinho melhor após nossa devastadora passagem por ele, quando sabemos que nosso estilo não chega nem perto de ser sustentável, quando não defendemos, com unhas e dentes, o direito a uma educação de qualidade. Que os outros paguem e se preocupem, o que importa é que meu umbigo está bem e a salvo.

O egoísmo é a tônica desta nossa sociedade precária. Diante da urna devíamos nos esquecer de nossos preconceitos, de nossas crenças, de nossas desavenças, de nossos desafetos, de nosso egocentrismo, de nossa egolatria, e depositar um voto à vida.

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sábado, 11 de outubro de 2014

A MULHER DENTRO DO ESPELHO ME ASSUSTA << Cristiana Moura

Causa-me estranhamento o  banheiro público. Banheiro é local privado, talvez o mais privado de todos. Quem nunca chorou trancado no banheiro, ou cantou secretamente? É aquele lugar de intimidade e solidão. Quando um banheiro se faz público, ou seja, compartilhado,  mora aí uma tensão.

Portas lado a lado e um espelho atravessando a parede diametralmente oposta. Ao sair da cabine, me deparo com a mulher dentro do espelho vindo em minha direção. Ela me assusta. Não vejo seu rosto. Nesta ausência, desejos nublados. Ela se sente manca como quem segue um trajeto de tropeços. Em sua claudicação posso ouvir os sons do invisível. É coisa de corpo recém habitado, ainda sem rosto, precisando traçar novas cartografias para seus sentimentos.

Essa moça me assusta. Essa moça me afeta. É que a mulher desperta em mim um tal desejo nem sei do quê. Ela, que dia após dia se transforma e rouba meu reflexo impondo a si, seu desequilíbrio, seus afetos em penumbra. "Essa moça tá diferente"*, já não a conheço mais. Essa moça me encanta.

Para desvelar seu rosto tenho que desencantar. Tenho que lhe permitir novos encontros. Tenho que me desapegar de mim, me abandonar. Ela precisa desmanchar o mundo para abraçar o lado de fora do espelho. Eu preciso desmanchar a mim para enxergá-la. Quando souber ser vista, a mulher irá produzir o mundo e os desejos.


* Trecho da música de Chico Buarque de Holanda com o mesmo título.

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