sábado, 27 de agosto de 2016

CRÔNICA PARA UM GAÚCHO >> Sergio Geia



Estávamos instalados numa sala do anexo oito da Universidade do Vale do Paraíba; ele chegou de terno e gravata, e convidou para que nos apresentássemos. Porém, não era uma simples apresentação; ele queria mais; ele queria que cada um dissesse também uma coisa que apreciava fazer nas horas de folga.

Se bem me conheces, honrado leitor, deves saber que as horas de folga do Geia são destinadas à construção de valiosos edifícios de palavras (valiosos pelo menos para seu construtor), que unidos se transformam numa espécie de vilarejo da conversa fiada, desinteressada, a típica conversa mole, talhada num método que um certo Drummond, das Minas Gerais, batizou de assunto-puxa-assunto, e que comumente os especialistas chamam de crônica.

Quem dera me chegue o dia em que preciosas horas de folga sejam destinadas ao humilde banho de mar, a uma boa entente com pecados, pescados, e outros derivativos, ao deitar a preguiça na rede, aos amores eternos e aos casuais, destinando-se as dignas horas de labor à edificação de novas vilas, cidades ou metrópoles das letras, que, se merecerem o afeto e a estima de pessoas respeitosas e interessadas como o senhor, estampem um dia qualquer página de jornal.

Pois o Geia não titubeou informando ao interessado professor, como também aos colegas, o destino que dava às suas horas de folga; a informação, que esperava ser chancelada e devolvida sem rodeios, para se juntar às demais na cesta de prazeres que o passar dos segundos só fazia avolumar, recebeu do mestre gaúcho comentários espirituosos e, de chofre, o lançamento de um inesperado desafio: “Bah! Então tu fazes uma crônica desse nosso encontro aqui?”.

De antemão já lhe digo que a dificuldade seria enorme. Era um seminário de interesse estritamente institucional; trazia como mote a proposição estampada no título que encabeçava a programação: “GESTÃO PARTICIPATIVA: construindo novos cenários”. Tratava-se de um encontro mui produtivo e consistente a gerar sólidos e bons frutos no espaço da instituição, mas nunca capaz de gerar uma boa e despretensiosa crônica.

Normalmente, as crônicas, pelo menos as minhas (Ah!, e também as do velho Urso), se enamoram de coisas miúdas, de pouca valia no mundo das vaidades; lembro-me da tartaruga marinha que morreu em minhas mãos num mar da Bahia, ou da pequena tartaruga que tenho aqui em casa e me alegra os dias, do desconhecido e sua bicicleta, da pitangueira do vizinho, das crianças que jogam bola, da borboleta, do outono ou do mar; coisa barata, que ninguém nota, mas que a lupa do cronista mostra em detalhes. Como fazer algo sobre coisa tão grandiosa e rica como foi o encontro com o mestre gaúcho?

Está certo que os dias não se reservaram apenas às explanações teóricas e oficinas, mas também a almoços e jantares dignos, a deliciosos petiscos e refeições, a conversas esplêndidas, a músicas interpretadas por cantores de feliz talento e encantamento, mas tudo, tudo ainda se ativava no campo das grandes emoções, dos grandes momentos, dos afortunados e eloquentes encontros, escapando pela grandiosidade, da lupa fina para virar crônica.

Desanimado da vida, pronto para desistir, eis que no momento crepuscular, quando o céu tingia-se de violeta e lilás, e o vento morno prenunciava delícias de um atípico final de semana invernal, eis que um anjo Gabriel apareceu, e apareceu como uma possível tábua de salvação nas palavras firmes de seu tenaz avô: “Vô, é verdade que no seu tempo não existia iPod?”. “Não, Gabriel, não existia”. “Mas vô, e o que vocês faziam para dormir?”. “No tempo de seu avô nem televisão existia”. “E depois da janta, vô?”. “A família se reunia em torno de um rádio, ouviam-se notícias, a novela das oito e programas humorísticos”.

Pois enxerguei a carinha de espanto do Gabriel se perguntando “mas que raios de rádio é esse de que o vô tanto fala?”, e enxerguei também um pedaço de doçura bem típico das boas crônicas nascendo ali, um pedaço de céu azul se abrindo no sisudo tempo dos desafios.

Até que no fim, para encerrar, o grande mestre arrematou com a humildade dos grandes homens: “Espero que eu tenha passado aos senhores algo que realmente possa ser objeto de reflexão e transformação em suas unidades; se assim não o fiz, não foi por falta de boa vontade; podem acreditar, foi por absoluta incompetência minha, pois aqui, tenho consciência de que dei o meu melhor” (rogo para que a citação se avizinhe um tanto do real, uma vez que por absoluta incompetência —agora, deste cronista —, não a registrei num pedaço de papel).

Na noite morna, sob o manto da lua vívida, de estrelas e do Cruzeiro do Sul, voltei para casa com uma doce alegria, pensando que tudo, tudo nessa vida vale a pena quando a consciência ratifica que o melhor de nós foi entregue com muita boa vontade.

Ilustração: http://www.jovemsulnews.com.br


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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

JAVELIN - LANÇAMENTO DE DARDOS >> Zoraya Cesar

O menino se apaixonou pelo filme desde o primeiro quadro. Jamais esqueceu a cena do grande guerreiro massai arremessando uma lança no ar, a lança traçando um arco elegante e mortal, atingindo, com um thud seco e definitivo, o enorme javali que havia dizimado sua família. E sempre levou no coração a cena final, o guerreiro voltando para casa a correr, compassado, majestoso, quilômetros a fio, sem se cansar, livre.

De tal maneira ficou impressionado o menino que, imediatamente, introjetou o grande guerreiro e sua história.

Os anos passaram, como costumam passar, queiramos ou não, com sua bagagem de dores e perdas (quando temos sorte, também de amores, mas essa, aviso logo, não é exatamente uma história de amor). Passou para o menino também, agora já rapaz, integrante de uma equipe de atletismo, modalidade lançamento de dardos. (Quando descobriu que javelin era o nome do esporte, associou a sonoridade ao vilão do filme que tanto amava, o cruel javali, e soube, nesse exato instante, que recebera uma missão). Ele era um dos melhores atletas. Por isso, todos acreditaram em acidente.

dia estava quente, infernalmente quente. O campo de treinamento parecia uma sucursal do sétimo círculo de Dante, no qual só faltavam as labaredas (porque o demônio, como veremos, já estava por ali). A grama perdera sua condição verdoenga e exibia um tom de marrom-morto, devido ao prolongado estio que se acomodara à cidade havia semanas. Ondas de calor provocavam distorções visuais, e o pó avermelhado que subia do saibro, colorindo, sinistramente, o ar, grudava nos olhos, ardente e pinicante, fazendo com que as lágrimas escorressem abundantes. Tudo contribuía para dificultar a visão, entorpecer os outros sentidos, embotar o raciocínio. A natureza e o acaso, afirmaram todos, tiveram sua parcela, e, por que não dizer, a total responsabilidade, sobre os acontecimentos vindouros. E como poderia ser diferente?

Ele nunca faltara um treino, com o respeito ou com o cuidado devido a treinadores e colegas. Treinava, treinava, treinava. Estava pronto para disputar campeonatos internacionais. Pegava o dardo, preparava, corria, mirava, atirava. Cada vez mais longe, cada vez mais preciso. Talvez por isso todos creditassem o acontecido à terrível fatalidade que, às vezes, cai sobre os inocentes.

Disse que não faltava treinos? Disse e repito. Tanto assim que era um dos poucos atletas presentes naquele dia que, como sabemos, estava inexprimivelmente quente, poeirento, seco, ensolarado. E aziago.

O novo zelador parecia-se
com Uriah Heep
O treinador sentiu no ar que aquele seria um dia estranho. Até porque seu ajudante faltara, obrigando-o a escalar o novo e inexperiente zelador para, entre outras tarefas, recuperar os dardos lançados. Uma espécie de boleiro, digamos. Uma espécie muito repulsiva de boleiro, aliás, pensou o treinador, pois o sujeito lhe lembrava o untuoso Uriah Heep(*), não só pela semelhança física com o nefasto personagem, mas, também, por suas maneiras melífluas. Ele teve um pressentimento ruim.

No entanto, o treinador, homem prático, deixou de bobagens. Era melhor começar logo o treino, mesmo naquele calor absurdo. Se a equipe fosse chamada para competir no Senegal os meninos já estariam acostumados, resmungou para si mesmo.

Falamos sobre o calor saariano, a secura infernal, a poeira ardente, a luz deslumbrante do sol, a lerdeza decorrente disso tudo, desculpando, sem pejo, o funesto acidente. Falou-se até dos maus pressentimentos do treinador e de sua implicância com o ajudante arregimentado à última hora. Só não se falou da profunda perturbação do principal atleta da equipe. Quem? Ele, nosso jovem guerreiro massai.

Ninguém estava em seu melhor dia, e ele, de todos, era o mais atarantado, o que mais cometia erros. Isso também embasou a teoria do acaso que permeou todos os acontecimentos do dia.

O treinador, exasperado, suado e quase desidratado pediu, implorou, para que ele acertasse apenas uma, a derradeira, para que todos pudessem dar por encerrado aquele malsinado dia. O jovem ouviu. Preparou-se, correu, lançou. E acertou.

Acertou no ajudante, sósia de Uriah Heep, que morreu na hora, atingido na cabeça por uma lança de 2,3 m, que, pesando 600 gramas e voando a uma velocidade de quase 100 km/h, não teve opção que não cumprir seu destino mortal.

Com a mesma velocidade da arma, passemos pela gritaria, consternação, polícia, ambulância, jornalistas, julgamento, e também pelo veredito judicial: inocente. Condição: livre.

Passemos por tudo isso e vejamos, então, tempos depois, como ficou nosso jovem atleta depois de o assunto já ter sido arquivado e esquecido. Naturalmente, ele largara o javelin, por motivos óbvios.

Óbvios? Não diria isso.

Ele abandonou o lançamento de dardos porque sua missão fora cumprida.

Guerreiro Massai
A sorte, essa senhora sempre favorável aos valentes, fizera com que ele encontrasse o homem que traíra seu pai, levando-o à bancarrota, à prisão e ao suicídio, tal a vergonha de se ver acusado por uma fraude que não cometera. O garoto e todos aqueles a quem ele mais amava foram deixados na pobreza e na desilusão. O novo zelador! Depois de tantos anos a procurá-lo, ali estava ele, tão perto, entregando-lhe os dardos, sem o reconhecer, passeando, abusado, no terreno onde as armas eram lançadas. Quando deu por si, a lança já atingira o javali que destruíra sua família.

Ainda era atleta, agora em outra modalidade. Corria, nosso jovem guerreiro massai, percorrendo, com elegância, as savanas de sua nova vida. Livre.


(*) Uriah Heep é um dos caracteres mais marcantes já criados por Charles Dickens, personagem do romance David Copperfield, Sua característica era a autoproclamada humildade, exaltada em cada sentença ou atitude, quando, na verdade, era um verdadeiro crápula, hipócrita e traidor, hábil nas manipulações e chantagens, untuoso e sub-reptício. Sua aparência era tão repulsiva quanto seu caráter.


Imagem de Uriah Heep: Fred Barnard https://br.pinterest.com/pin/262475484502623124/
Imagem Guerreiro Massai: Pixabay https://pixabay.com/en/masai-maasai-africa-tanzania-1330808/



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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

IGNORÂNCIA >> Carla Dias >>


Como é eficaz a ignorância. Ela consegue manter um indivíduo em um mesmo lugar durante toda sua vida. Engessa a capacidade de fazer planos, define a hierarquia existencial desse alguém. Ignorância é produto caro aos doutores em manipulação. Você pensa que são somente as atrizes e os atores que lhe oferecem ilusão, mas a verdade é que a ilusão é roupa de domingo da ignorância. E ela, a ignorância, é bicho de estimação de muitos, e obedece a eles sem pestanejar.

Há quem se atraque à ignorância para encarar certa preguiça em lidar com o que há em comum entre os indivíduos. Particularmente, acho muito curioso aquele que escolhe ignorar deveres básicos, adotando o comportamento que o coloca como centro do universo. Ignorância atrelada à prepotência é prato ainda mais apreciável aos que sabem tirar proveito de quem se nega a aprender com a vida.

Acontece que ignorância é coisa maluca mesmo, um tipo de corrente que limita a liberdade, mas de um jeito que faz a pessoa acreditar ser acionista majoritária da verdade, enquanto vive uma mentira. É poderosa ao tomar a vida do sujeito, e de fragilizar seu espírito a ponto de fazê-lo acreditar que truculência é um jeito de conseguir aquilo que acredita que é seu por direito. Ainda que, no processo, ele envergue, às vezes até elimine o direito do outro.

Não há problema em ser ignorante nisso ou naquilo, afinal, não nascemos com o talento – ou o desejo – de nos inteirarmos de todos os assuntos desse mundo. A ignorância à qual me refiro não é a natural a todos nós, a que nos tira de um cenário para que outros brilhem. Que nos coloca em outros cenários para que possamos brilhar. Não é a ignorância que até nos permite a curiosidade e a escolha de aprofundamento, em dias em que a curiosidade se encanta com assuntos inéditos à nossa percepção.

A ignorância sobre a qual falo é aquela que permite a alguns a alcançarem prestígio e poder ao restringir o direito de muitos ao básico. Nesse balaio de restrições, a educação ganha em disparada. Tirar o direito ao aprendizado de um indivíduo, tornando a educação frágil e pobre, é alimentar a ignorância pensando em incapacitar um povo a pensar e compreender o que é justo e o que são os manipuladores a encherem seus bolsos e brincarem com a vida de tantos.

Educação é importante. Esporte é importe. Saúde é importante. Cultura é importante. Ignorar a importância disso tudo, atestando que primordial é a economia, é ignorar que uma economia saudável é aquela que tem como base a educação, o esporte, a saúde, a cultura. Comida na mesa? Pois é... Uma economia saudável ajudaria muito nesse quesito. Mas enquanto a ignorância justificar as ações que limitam vertiginosamente esses benefícios, como se eles fossem supérfluos, continuaremos a permitir que nosso país continue a ser guiado por adestradores de ignorantes. E eles não apenas saem ganhando com isso, mas tenho certeza de que também se divertem com a inocência adquirida do ignorante.

A ignorância alimenta espíritos blasé. Ela tem sido usada em benefício próprio de muitos, às vezes em nome de algumas loucuras que descambam em injustiça social, sexismo, censura, intolerância, preconceito, genocídio, guerra. A ignorância, nesse grau ceifador de capacidade de se compreender o justo para si e para o outro, de se comprometer a se aprofundar no conhecimento sobre o que desconhece e lhe causa desconforto, mas que, talvez, não esteja errado, apenas seja diferente e necessite de um olhar menos conservador para alcançar compreensão. A ignorância que foi construída para aliciar nossa humanidade, essa é preciso ser combatida com muita disposição. E uma das formas mais eficazes de fazê-lo é pararmos de dizer, apenas porque sim, que sabemos de tudo, que isso está certo e aquilo está errado, sem ao menos pensar a respeito.

Enquanto seguimos a ignorar nossa condição de escravos da ignorância, vamos perdendo. Ganhamos nada, não.

Imagem: Papilla estelar © Remedios Varo

carladias.com

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terça-feira, 23 de agosto de 2016

EU JÁ, EU NUNCA PARTE II >> Clara Braga

Já deixei de ouvir as músicas de alguns artistas porque eles faziam traduções horríveis de músicas que eu gosto, menos o que é imortal não morre no final, essa é clássica.

Não como camarão.

Já deixei de ver filmes protagonizados por palhaços por puro medo.

Odeio ficar sozinha no escuro.

Ao telefone, já fingi ser outra pessoa para não ter que falar com a pessoa que me ligou.

Já contei o segredo de outras pessoas.

Já perdi a hora propositalmente.

Já fui a dois shows do Hanson.

Nunca atendo ligação de números estranhos, o que me faz pensar seriamente que eu já posso ter perdido alguma oportunidade de trabalho, mas tudo bem.

Nunca li nem assisti nenhum Harry Poter.

Não gosto de tomar banho de manhã cedo.

Mas tudo isso foi só uma tentativa de amenizar o que eu realmente preciso assumir:

Não jogo Pokemon GO e nem pretendo!

Ufa, falei!


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sábado, 20 de agosto de 2016

O ÚLTIMO PEDAÇO (para Maria) >> Cristiana Moura



E a noite a agarrou pelas costas nuas. Tive notícias que Maria e o rapaz, não
faz tempo, dançaram o último pedaço em campo aberto. Nos derradeiros anos, foram muitos os sabores que experimentaram juntos, muitos os gestos, as melodias no próprio caminhar pelas calçadas da cidade a imprimir memória nos corpos.

Não sei bem o que houve. Talvez as palavras tivessem perdendo sua ginga. As sonoridades se desencontrando. Naquele começo de noite, o rapaz e Maria dançaram o último pedaço das histórias vividas de mãos dadas. Essa é uma dança que a gente não sabe se é triste ou se é só final de espetáculo em tempo inesperado.

Ela teve dias instáveis, eu penso. Ele partiu. No olhar de Maria pude ver aquela saudade do futuro que só quem já sentiu sabe o que é. Ontem foi comprar pão depois que a deixei em casa e um vento gostoso soprou sobre ela. Deve ter sido daqueles ventos que ao mesmo tempo que acariciam a face, nos invadem, secretamente, por debaixo das saias. Sentiu-se viva, acalentada, abraçada pela noite e amada pelo ar a soprar.

Foi para festa e dançou, dançou, dançou ao som dos batuques da praça e levada pelos ventos de agosto. Maria dançou pedaços de tempo, dançou o vento por entre as pernas, dançou sua história de amor findada, dançou seu corpo inteiro. Maria dançou Maria!


Imagem: http://caisdeembarque.blogspot.com.br/2011_07_01_archive.html



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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

ENTRE A FARTURA E A FALTURA >> Paulo Meireles Barguil


 
"Quem me dera, ao menos uma vez,
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
E fala demais por não ter nada a dizer"
(Renato Russo, Índios)

Vivemos entre a fartura e a faltura.
 
A primeira, conforme o Houaiss, significa "1 estado de farto. 2 quantidade mais do que suficiente; abundância. [...]".
 
Farto é alguém saciado, satisfeito.
 
Deriva de fartar: "1 encher-se ou tornar cheio ou abarrotado (de); atulhar(-se), abarrotar(-se). 2 saciar (a fome ou a sede). [...] 4. abastecer em abundância. [...]". (HOUAISS)
 

A segunda, conforme o Barguil, significa "1 estado de falta. 2 quantidade menos do que suficiente; escassez".
 
Falto é alguém carente, necessitado, desprovido.
 
Provem de faltar: "1 não existir, não haver momentânea ou permanentemente. 2 ser indispensável para completar. [...]". (HOUAISS)

Tragédia: ser falto a despeito da sua fartura!

Benção: ser farto apesar da sua faltura!

F A _ T U R A: qual é a letra da sua vida?

Mãos abertas: pedintes ou gratas.

Como são as suas mãos?

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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

CORRA, TEMPO, CORRA! >> Mariana Scherma

Por alguns motivos, eu ando ansiosa que, olha, desnecessário. Já apareceram quatro fios de cabelo branco extras, alguns chocolates da dispensa foram parar na minha boca em um momento de insanidade, o foco se perdeu, o chão parece ter sumido, sei lá... Dias ruins todos temos, expectativas ruins também. Felizes são aqueles que não sofrem por antecedência. Sinto inveja de vocês. O reino dos céus é todo de vocês, que andam por aí leves e com zero encanação. Das minhas tentativas de relaxar, já foram feitas...

Muita natação. Muita mesmo. Com um sem fim de chegadas borboleta pra cansar o corpo. Mas a alma seguiu inquieta. Maldita alma sem fôlego.

Faxina na casa. Tem aquela história de feng shui que diz que, ao arrumar espaços, você traz mais paz pra sua vida. Arrumei e limpei tanto que dava pra comer no chão e sigo igual. Não entendo nada de feng shui, moral da história.

Pintei as unhas. Pra mim, é mais fácil ser feliz de unhas coloridas. Sigo ansiosa, mas pelo menos com as unhas bonitinhas. Um toque de beleza em um corpo descontrolado, ué.

Liguei para todas as pessoas que amo pra dividir eu desespero. Meu desespero não reduziu, só deixei as pessoas incomodadas com meu problema. Sou uma ansiosa egoísta, confesso.

Enchi os carrinhos de compra dos sites que gosto de coisas que não precisava. Saí sem comprar um item. Pelo menos, sou uma ansiosa mão de vaca.

Escrevi textos mentais de muitos desaforos para as pessoas que precisavam ouvi-los. Depois desisti. Sei brigar muito bem na minha cabeça, mas só no imaginário mesmo.

Torci para o futebol feminino. Elas não chegaram à final. Torci para o handebol, mesma coisa. Para o vôlei feminino, idem. Ansiosa and pé frio. Desculpa, Brasil.

Li um monte, até que vi que virava as páginas e não absorvia o conteúdo. Palavras em português na minha frente eram como palavras tchecas: impossível entender.

Lembrei-me do que minha mãe sempre diz “ansiedade assim só vai deixar você velha e feia”. Concordei. Mas talvez só consiga ter essa segurança quando for velha e tiver perdido a conta dos cabelos brancos.

Agora, reviso esse texto com um chá de camomila do lado. Chá de camomila para essa alma enlouquecida? Faz me rir!


Deixei meus problemas na mão do universo, melhor. Mas vira e mexe tento entrar em contato com o universo pra saber o que ele decidiu. Por favor, tempo, passe logo.


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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

ROBERT DE NIRO: LEVANDO A VIDA DANDO VIDA AOS PERSONAGENS >> Carla Dias >>


Lembro-me do primeiro filme que assisti, daquela cena angustiante no teatro, porque eu já sabia que ele não prestava. Lembro-me também de que tinha vontade de chacoalhar a menina, para ver se ela acordava para a vida. Gritei algumas vezes com a tevê, saí daí!, mas ninguém saiu. Deu no que deu... Um dos melhores personagens que um ator eternizou. Um dos melhores filmes.

Hoje é aniversário de Robert De Niro. Setenta e três anos. Dizer que ele é talentoso é mergulhar na obviedade. Pensando nos personagens aos quais ele deu vida, fiz uma lista dos filmes que mais me impressionaram, dos quais me lembro fácil e já assisti algumas vezes. A lista ficou longa e tive de me esforçar para selecionar somente cinco.

Cabo do Medo
O primeiro deles foi o primeiro sobre o qual falei no início desta crônica: Cabo do Medo (Cape Fear/1991). Dirigido por Martin Scorsese, o filme conta a história de Max Cady (De Niro), um homem condenado por estupro, que sai da prisão, após quatorze anos, e passa a perseguir a família do advogado Sam Bowden (Nick Nolte), que o defendeu, mas omitiu informações que poderiam tê-lo beneficiado no julgamento. As cenas de Cady com a filha do advogado, Danielle Bowden (Juliette Lewis) são as que agoniam profundamente o espectador.

Cabo do Medo é uma refilmagem de Círculo do Medo, filme de 1962, com Robert Mitchum como Max Cady. Porém, De Niro eternizou o personagem e fez um ótimo trabalho. Cabo do Medo estará sempre na lista dos meus preferidos.


Mais um de Martin Scorsese entra para minha lista. Mais um filme em que De Niro interpreta um personagem perturbado de forma brilhante. Taxi Driver – Motorista de Táxi (Taxi Driver/1976), conta a história de Travis Bickle, veterano da Guerra do Vietnã, mentalmente instável, que começa a trabalhar como motorista de táxi.

Taxi Driver
Solitário, acostumado a enxergar os matizes da miséria e da violência, aproxima-se da decadência por meio de suas viagens pelas noites de Nova York e das personagens que encontra pelo caminho. Apesar de se aprofundar no cometimento da violência, tenta convencer uma prostitua pré-adolescente, Iris (Jodie Foster), a abandonar as ruas.


Eu sei que muitos o fizeram, e muito bem, mas De Niro continua sendo minha preferência quando se trata de interpretar o próprio, Lúcifer. Coração Satânico (Angel Heart/1987) é impactante. São muitos os filmes de Alan Parker que eu adoro, principalmente quando ele assina o roteiro, o que acontece nesse caso. O filme é baseado no livro de William Hjortsberg, Falling Angel.

Coração Satânico
Louis Cyphre (Robert De Niro) contrata o detetive particular Harry Angel (Mickey Rourke) para encontrar um cantor desaparecido. A busca começa em Nova York, mas logo Angel segue para New Orleans, onde os mistérios e as mortes aumentam, assim como sua ligação com o ocultismo. Há cenas realmente perturbadoras, e o ambiente criado por Parker, casado ao ocultismo perseverante de New Orleans, formam um cenário perfeito para o desfecho dessa história. A dupla Hourke e de Niro é um verdadeiro presente para o espectador.



Para mim, talvez os afetos se misturem nesse filme: personagem, ator e diretor. Keneth Branagh, além de talentoso ator, é um diretor que me interessa, que faz filmes que me atraem. Mary Shelley criou dois personagens muito fortes, que vêm sendo explorados em adaptações que trafegam por todos os gêneros: Victor Frankenstein e sua Criatura. Ainda assim, o original ainda me interessa mais. Por isso mesmo, Frankenstein de Mary Shelley (Mary Shelley’s Frankenstein/1994) entra para a minha lista.

Frankenstein de Mary Shelley

Vencer a morte é a busca do doutor Victor Frankenstein (Kenneth Branagh). O resultado de suas experiências traz ao mundo a Criatura (Robert De Niro). Acontece que o criador se arrepende de seu feito e abomina sua cria, o que gera uma série de conflitos. Robert De Niro se tornou minha Criatura preferida do cinema, assim como Gary Oldman se tornou o Drácula.



Para finalizar, um filme escrito e dirigido por Joe Schumacher, que reuniu dois grandes atores em uma peculiar e maravilhosa trama. Em Ninguém é Perfeito (Flawless/1999), Walt Koontz (De Niro) é um policial conservador ao extremo, que sofre um derrame que o deixa debilitado. Seu programa de reabilitação inclui lições de canto, que ele acaba sendo obrigada a ter,  por não conseguir se movimentar bem, com um dos vizinhos com quem costuma ser hostil, a drag queen Rusty (Philip Seymour Hoffman).

Ninguém é Perfeito

Flawless
é um filme que aborda o momento em que somos obrigados a encarar as diferenças e, ao fazê-lo, percebemos que elas não são tão gritantes como pensávamos, ou ofensivas, que às vezes são, na verdade, reveladoras e positivas. Tanto De Niro quanto Hoffman estão maravilhosos. Um belo filme, que fecha minha lista dos cinco dos que mais gosto com Robert De Niro.



Mas a lista é realmente longa...



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