domingo, 16 de junho de 2013

DE VOLTA! >> Sílvia Tibo


Engraçado como certos acontecimentos tem o poder de nos afastar da realidade por algum tempo. E interessantes também são os efeitos que essas escapulidas do mundo real são capazes de provocar em nós. 

É como se, por alguns instantes (que podem até durar dias, meses ou anos), nossos espíritos se desligassem dos corpinhos que os tornam visíveis e palpáveis. E assim, livres, leves e soltos, transitassem por um universo íntimo, perfeito e particular, criado por eles próprios, na tentativa de fugir da realidade que os machuca ou, simplesmente, no desejo de experimentar momentos de felicidade pura e plena. 

Quando minha mãe partiu, há alguns poucos anos, essas sensações me acompanharam por um bom tempo. Nas semanas seguintes à partida dela, lembro-me de ter ouvido alguns amigos e parentes dizerem-se impressionados com a suposta força com que eu vinha enfrentando aquela perda tão grande e recente. 

Depois de ouvi-los, eu lhes dirigia sempre um sorriso, ganhava deles um abraço... E me despedia repetindo (na tentativa de confortá-los, mas também a mim mesma) aquela história de que a cruz que nos é dada nunca é maior ou mais pesada do que aquela que podemos suportar. 

E na verdade, a par do vazio que então se abriu à minha frente, como uma espécie de buraco gigantesco e sombrio, que eu necessariamente teria que aprender a desbravar desde então, sem manual de instruções, audio guide ou coisa do tipo, o fato é que, dentro do possível e do razoável, os sentimentos que me acompanharam durante aqueles dias foram realmente de força, de esperança, de superação. De vontade de seguir em frente, apesar de tudo. Lá no fundo, era como se algo me dissesse que o buraco seria momentâneo, passageiro. Como se, dali a pouco, eu viesse a descobrir que tudo não havia passado de um grande pesadelo. 

É claro que, com o passar dos meses, as famigeradas fichinhas caíram. Aliás, despencaram. Assim, todas juntas, de uma só vez. E despencaram aqui, no meu colo, na minha cabeça, no meu coração. Era o fim das “férias da alma”. 

Desde então, não houve um só dia em que eu não tenha desejado novos instantes de “folga espiritual”. Folga da saudade. Folga do vazio. Folga da tristeza que vem da constatação de que o reencontro não está assim tão próximo como se imaginava. Folga da dor que necessariamente acompanha a partida de quem se ama. Retorno àquele universo encantado. Àquele mundinho onde os problemas se dissipam, as dores se escondem, a saudade se esvai. Porque lá, os buracos se preenchem facilmente. Com sorrisos, com presença, com reencontros, o que quase nunca acontece no mundo real.


De tanto desejar, não é que cheguei lá? De novo, me vi naquele universo encantado. Dessa vez, um mundo de flores, de linhas, de mimos, de cores. De corações de papel, de balões soltos no ar. Um mundo de amigos, de família, de gente querida. E de risadas gostosas, de abraços apertados, de beijos inesperados. E de música. E de dança. E de demonstrações de afeto, de palavras de amor, de gestos de carinho explícito e gratuito. 


É. O casamento me levou, sim, a momentos de alegria desmedida, de satisfação plena, de felicidade no sentido mais puro e desejado da palavra. A sensação foi de ter trilhado, de novo, por algumas horas, os belos caminhos percorridos noutros tempos. Aqueles em que a saudade, tímida, pouco ou quase nunca se mostrava, porque sequer havia espaço pra ela. Afinal, eram percursos realizados num mundo de presença, de amor, de contato. Um mundo sem buracos, sem vírgulas, sem espaços em branco. 

De volta à vida real, agradeço a todos os que, com suas boas energias, sua generosidade e seu envolvimento, tornaram possível a reconstrução desse mundinho de sorrisos, de flores, de sons e de cores, que andava distante, por vezes esquecido, mas que ressurgiu com a beleza de outros tempos. E que, a partir de agora, pretendo visitar com frequência. Através dos vídeos, das fotografias, dos detalhes contados pelos que estiveram ali presentes, em sintonia. E das muitas e doces lembranças que a mente e o coração, felizmente, foram capazes de registrar.



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sábado, 15 de junho de 2013

REPERTÓRIO EMOCIONAL [Ana González]

Eu estava sentada na primeira fileira de bancos, bem atrás do motorista. Pouca gente no ônibus. Um som de rádio tocava um som de música sertaneja. Não é comum esse som de rádio em ônibus. Nada que incomodasse.

O caminho conhecido seguia pela janela desenrolando a paisagem urbana e suas personagens. Apesar do dia de céu azul e poucas nuvens, o sol deitava sem muito entusiasmo, sua luz e calor. Naquele horário não havia trânsito. Era o meio de uma manhã no meio de uma semana morna. Tudo estava muito morno.

Mas, aos poucos, o repertório musical começou a aparecer mais do que eu desejaria. Percebi-me acompanhando as letras de tom emocional e subjetivo, de casos de amor: “Pra vc! Pra vc! ... pensei que nunca mais ia te ver!” “ ... bom estar apaixonado por vc! Só vc querer!“ Promessas de alegrias de amor em vozes masculinas intensas.

Incomodava de forma sutil. Me remexi no banco. Comecei a perceber coisas demais. Observava agora todos os movimentos do motorista e escutava sua conversa com o cobrador. Era uma intimidade fraterna. Era um assunto que já havia começado antes de eu entrar. Acredito que a música agradava a ambos.

Estava me sentindo agora só e desamparada, porque o caminho ainda estava ao meio. Na verdade, eu gostaria de poder fugir dali, agorinha mesmo.

Eis que no próximo ponto, o ônibus parou e pegou os passageiros que lá esperavam. Um rapaz forte e bem vestido de terno com gravata subiu e se acomodou perto da entrada, na escada assim que a porta da frente se fechou.

Ele começou uma conversa com o motorista, daquelas sem compromisso, sem nos alongarmos, sem assuntos relevantes. Aquela troca que faz o dia mais contentinho. Daqueles diálogos que são espécie de amostra de cidadania entre pessoas que suportam bem o cotidiano e estão de bem com a vida. Pelo menos naquele dia, naquela hora. Simplesmente irritante.

Então eu ouvi uma frase: “Sabia que essa música faz diferença no ônibus? Boa demais.“, falou ele para o motorista. O som do rádio era motivo de afinidade celebrada!

Cheguei quase ao desespero. Um desconsolo. Tocaiada num canto de mim mesma, com uma infinidade de pensamentos a brigar. Não tenho nada contra qualquer tipo de música sertaneja. Mesmo não sendo minha favorita, gosto muito de Almir Sater e de Renato Teixeira. Inezita Barroso e Rolando Boldrin fazem um trabalho primoroso no cuidado de nossas raízes. Por que então este som agora me incomodava tanto? E eles não paravam de falar.

No fundo, eu me cobrava postura ética ou coisa parecida. Sim, a diversidade existe. Eu tentava uma conversa comigo mesma. A mente se enchera de caminhos insuspeitados, nada mornos, tornando o dia multicolorido. Juntava pensamentos e emoções em uma série pouco organizada.

Finalmente, desci no local de meu destino. Olhei em volta e respirei. Silêncio de ouro. Passarinhos na árvore à minha frente. E, então comecei a rir alto, sem esconder de ninguém uma descontração que na verdade era meio torta. Debochava de mim mesma. Estava literalmente cansada por uma situação emocional sem lógica alguma. Não fui dona de mim mesma e me deixei levar por uma ocorrência totalmente irrelevante, por motivações instintivas e talvez inconscientes.

Bem, arre. Pude repensar a situação da música do rádio, fechando a questão sem muitas delongas. Alívio, sem culpa nenhuma. Sem dar espaço para repertório emocional. Não, essa música que tocava no rádio não cabe no meu mundo. Da próxima vez, se isso acontecer de novo, estarei pronta para trocar de banco ou descer do ônibus se for impossível suportar aquele ou qualquer outro gênero de música que esteja no meu padrão de preferência. Ponto final nesse des-concerto indesejado.

www.agonzalez.com.br



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quinta-feira, 13 de junho de 2013

DÁ PRA GUARDAR NO POTINHO? >> Mariana Scherma

Eu estava esperando o ônibus seguir viagem quando entrou um cara mudo e deixou sua mulher e sua bebezinha no banco. Ele gesticulou muito, beijou a mulher e a nenê com o maior amor do mundo e foi embora. As duas estavam no banco à minha frente e eu fui admirando a menininha. Veja bem, não sou dessas que passaram na fila do instinto maternal, nunca carreguei um bebê na vida por medo de ele começar a chorar pra sempre e nunca passei a mão em barriga de mulher grávida porque acho intromissão demais (pobres grávidas, que ganham carinhos de estranhos e ainda têm que sorrir constrangidas só porque estão barrigudinhas...). Já pensou se esse hábito acontecesse também com homens bebedores de cerveja?

Mas aquela bebezinha chamou minha atenção. Ela sorria demais pra mim e é isso que mais gosto nas crianças: esse sorriso ingênuo e sincero pra uma pessoa que nunca viram antes ou mesmo para o apoio de braço da poltrona do ônibus. Pureza e fofurice em estado bruto. De repente, ela pegou minha mão e apertava, dizia “dada” com eloquência. A mãe da fofura olhou pra trás e eu elogiei sua filhota, foi quando ela me fez sinal e descobri que, assim como o marido, ela também era muda.

Aquilo me emocionou de um jeito diferente. Os pais eram mudos, a filha, uma menininha tagarela falando “dada” e “mama” loucamente. Fiquei pensando como deve ser difícil criar uma filha nessa situação. Criança apronta, como eles vão falar “para”, “sai de cima do sofá”, “só ganha sobremesa se comer o brócolis” e essas coisas de pai e mãe? Ensinar o que é certo e errado é das tarefas que mais tiram o sono dos pais (eu imagino que seja, porque não tenho filhos)... E se você não pode falar e, às vezes, berrar? É claro, a bebê vai crescer falando português e a linguagem dos sinais, aí tudo fica fácil, mas e antes disso?

O que mais me emocionou nessa viagem foi ver a menina inquieta, falando, se remexendo sem parar e, com um abraço e um beijo da mãe, ela já se acalmava. Mágica pura entre mãe e filha. Foi desses momentos que me fizeram questionar tudo o que sempre falei e defendi: “não quero ter filhos, o mundo é ingrato. É muita responsabilidade criar uma criança”. Pra essa mulher no ônibus, seria ainda mais difícil ter e criar uma pessoinha. Mas ela teve. E estava se saindo muito bem na criação, pelo menos durante os quilômetros que dividimos no mesmo ônibus.

Meus olhos já tinham juntado uma poça de lágrimas só de presenciar aquela cena, principalmente quando me lembrei do pouco que sei de Libras e disse à mulher que a filha dela era linda. Ela me sorriu em agradecimento, mas quem tinha que agradecer era eu. Essa poderia ser dessas histórias que deixam a gente comovida e tudo mais, mas a cena terminou com risos. A mulher apontou para o bumbum da nenê e fez sinal de que estava cheirando ruim... A fofura tinha enchido a fralda e, pra entender isso, não é preciso falar português nem Libras ou ouvir, basta respirar bem fundo.

Depois dessa, ainda acho que criar uma criança é a maior aventura e responsabilidade do universo. Ainda acho que não é pra mim... Mas admiro todas as mães que fazem a vida ter esses momentos que nos fazem querer guardar no potinho. A vida é difícil e tão linda, tudo ao mesmo tempo.


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quarta-feira, 12 de junho de 2013

APAIXONAMENTO >> Carla Dias >>

Apaixonou-se por ela, antes mesmo de conhecê-la, como no poema de Vinícius de Moraes: “eu te peço perdão por te amar de repente/embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos”.  Apaixonou-se por todas as qualidades que lhe atraiam, pela certeza de que eles coexistiam com os defeitos, que era para condimentar a pessoa construída por isso e aquilo, encontrando o equilíbrio onde?

Por algum tempo, foi nos pés da acrobata.

Seu olhar fora atraído pela capacidade dela de equilibrar-se graciosamente sobre uma linha. Depois, pela sua habilidade em jogar-se ao ar, agarrando-se com destreza em trapézios. Sem contar que era impossível desviar o olhar enquanto ela dançava. Tudo nela fluía belamente, seus gestos eram como fragmentos de uma coreografia de sutilezas. Porém, bastou algum tempo de convivência para que ele compreendesse que uma bela figura nem sempre abriga uma boa pessoa.

Por algum tempo, sentiu-se traído pela vida, desapontado consigo por ter acreditado que seus olhos realmente haviam alcançado a essência da acrobata, mas que alcançaram mesmo a sua capacidade de matar a fome da alma com uma graciosidade interpretada.

Para um capturador de imagens, um colecionador de fascínios, o coração partido dói de uma maneira muito mais profunda. Os amigos o acham dramático demais, que é uma bobagem sofrer por ter sido enganado pelo olhar. Mas para ele, o olhar não é apenas um fisgador de atrativos. Seu olhar já mergulhou em miséria, já marejou de tristeza, já colecionou momentos que não podem ser repetidos. O olhar que lhe cabe não é oriundo de uma criação moldada aos atributos cuspidos pelas capas de revistas de moda. O seu olhar é um compartilhador de cenas capazes de contar uma história, como aquela que surrupiou anteontem, que tinha a cidade como cenário, o sol se (im)pondo à carcaça de um prédio em construção.

 Apaixonou-se por ela aos poucos, como se o amor fosse tecido pelo destino desprovido de pressa. Até reconhecer esse amor, trafegou pelas paixões provisórias, enamorou-se por possibilidades de dar certo, arranhou as paredes frias do desapontamento. E o tempo, que não se preocupa com quanto tempo se leva para se reconhecer o amor, beijou-lhe as faces, levou-o adiante, até onde a memória passa a ser menos acessada, porque é preciso viver o agora.

Apaixonou-se por ela em um passado de sonhos viris e desbravadores, quando quase tudo era possível. Hoje, experiente nos desmandos e nas importâncias, sacudido pela vida de tantas formas, o olhar ainda capaz de contar histórias, reconhece tal amor nesse agora mesmo, quando o olhar dela acarinha o horizonte, e se trança ao dele bem mais adiante.

Não faz ideia de há quanto tempo ela está ali, sentada ao seu lado, pertencendo ao seu momento. Não a esperava em banco de parque, e sim em algum cenário e momento retumbantes. Mas ela sorri, e aquele sorriso é um pelo qual ele se apaixonou sem ainda tê-lo recebido. E assim, silenciosamente, depois de tantos desmandos na sua busca pelo amor, ele a reconhece, como se reconhecesse uma companhia constante. E compreende que ali o seu olhar encontrará a sua própria história. E ele a contará.

Imagem: Ale Frata - alefrata.com.br



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terça-feira, 11 de junho de 2013

FICA A DICA >> Clara Braga

Eis que chega mais um dia dos namorados!! Ahhh, o amor está no ar! Mesmo você não tendo um namorado ou namorada, é difícil ficar indiferente a esse dia, afinal, jornais noticiam, programas falam sobre formas de surpreender seu parceiro ou parceira, vitrines dos shoppings sugerem diversos presentes e no seu trabalho ou sala de aula, alguém vai receber um buquê de flores.

Ninguém gosta de confessar certas coisas, mas vai dizer que não bate aquela invejinha quando alguém do seu trabalho é surpreendido com flores ou caixa de bombom? Só não dá inveja quando é carro de som, ai sim você respira aliviado por não ter sido com você! Ninguém merece carro de som...

Ano passado o dia dos namorados caiu em uma terça-feira, e lá estava eu escrevendo minha crônica e desejando um feliz dia dos namorados para todos, independente de terem ou não um namorado! Lembro que eu comentei da quantidade de críticas que eu li sobre o dia no facebook, diferente desse ano, que ainda não vi nenhum comentário sobre, só não sei se não vi os comentários porque eu tenho entrado muito menos no facebook ou se porque as pessoas que não tem namorado ou namorada resolveram encarar esse dia como um outro qualquer e não criticar.

Lembro-me também que depois de ler minha crônica, um colega meu veio conversar comigo e dizer que era fácil para mim, que tenho namorado, não reclamar da data, o difícil é ser solteiro nesse dia! E é por isso que esse ano, um dia antes do dia dos namorados, eu venho aqui dar uma dica para aquelas pessoas que, assim como esse colega meu, ficam um pouco cabisbaixos na data!

Essa dica eu recebi de uma professora que me deu aula no ensino fundamental. Ela era professora de inglês e, no dia dos namorados, contou para a gente que nos EUA o dia dos namorados é comemorado em fevereiro, é o tal do valentine's day. Só que o valentine para eles não é apenas namorado ou namorada, mas sim uma pessoa por quem você tenha muito carinho, uma pessoa que você goste muito. Depois de explicar isso, ela entregou um papel em forma de coração e falou para a gente escrever uma cartinha para uma pessoa que faça diferença na nossa vida, independente de ser ou não nosso namorado ou namorada.

Achei muito legal a atitude, até porque eu não tinha namorado, mas mandei um bilhetinho e recebi um outro de uma amiga, diminuindo a tal invejinha que sentimos daqueles que naturalmente já receberiam um. Então a dica é essa, se você está triste com a aproximação da data, já pense em uma pessoa querida e faça seu cartão, quem sabe você não recebe um de volta? Fazer com que a data seja especial só depende de nós! Feliz dia dos namorados a todos!


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segunda-feira, 10 de junho de 2013

MILHARES DE PUTOS >> André Ferrer

Ainda que premida entre a espuma de um fone e o tímpano, a música é livre, alforriada dos esforços mentais do ouvinte. O texto, no entanto, carece da prisão dos olhos e do labor cerebral. Essa diferença cruel - e tão capaz de transformar livros em recantos indevassáveis - tem me incomodado. Quisera que o conteúdo dos livros vagabundeasse no ar como a música!

A ideia - vai - nem é tão absurda assim. Este mundo está cheio de gente crédula. Na internet, por exemplo. Textos, fotos e vídeos sobre conspirações. Todo aquele material a respeito de experiências metafísicas e abdutivas. Os iluminati. O G12. O projeto HAARP. Enfim. Por que o meu desejo seria tão absurdo?!

Há muita esperança nas facilidades tecnológicas eu sei. Mas não é o meu caso. Para mim está bom como está. Enquanto nenhum ET aparece aqui na minha rua, o melhor a fazer é lamentar tanta credulidade e preguiça mental. Evidentemente, também é preciso rir - e muito - diante do vaudeville.

Para mim, como está, ficaria. Venço qualquer barreira para ler um livro até a última página. Sou, na verdade, impaciente com os outros. Penso em quem me incomoda todos os dias porque não lê. Ora, como não posso me livrar deles, eu gostaria que se livrassem eles da preguiça. Imagino-os lendo muito e com variedade. Imagino-os dotados de bom senso, educação e cultura.

Mas a tecnologia, pelo menos neste mundo, ainda não resolveu tal estorvo. Quem sabe em outros mundos haja uma plataforma ideal para a literatura. Algo que seja tão penetrante como a mais frívola das músicas terráqueas. Algo capaz de exterminar a preguiça mental e a credulidade prestes a dominar este mundo.

Quem sabe essa tecnologia seja conhecida por uma daquelas quatro espécies alienígenas que, segundo Hellyer, vivem completamente ocultas entre nós! Hellyer, sim, Paul Hellyer. Curiosamente, um ex-ministro da Defesa do Canadá que, agora, escreve livros para completar a renda. Livros a respeito das relações entre os extraterrestres e os homens mais poderosos do nosso planeta.

Aliás, quanto ganha um ex-ministro naquele país? Li outro dia que os políticos ganham muito pouco em lugares megacivilizados como a Suécia. Deve ser pouco, também, no Canadá. E ainda menos no caso de ministros aposentados. Ora, para um deles ter se tornado uma mistura de literato chapa-branca e Eric Von Däniken!

Hellyer é um sujeito de sorte. Vive em um mundo crédulo. Só que Hellyer não traz muitas novidades ufológicas. Quando fala, dá voltas em torno da velha dobradinha EUA-Pentágono-Conspiração. O que há de mais novo é que se trata de um ex-estadista. Mais ou menos como se o Sarney aposentasse (amém!) e começasse a escrever sobre a vida sexual dos botos maranhenses. “Mais ou menos”, é necessário frisar, pois no Brasil, ex-ministro escreve por diletantismo. Não precisa de um só puto mensal de editora porque recebe milhares de putos de aposentadoria.




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domingo, 9 de junho de 2013

O ESCRITÓRIO >> Whisner Fraga

De algumas histórias, apreendemos somente a metade ou menos ainda, apenas flashes, trechos que nos interessam. Perdemos a noção do resto, não temos ideia de onde queriam chegar com a narrativa. A trama está truncada em nossa cabeça. Tenho um arsenal de excertos em minha memória e ora o utilizo em alguns contos, ora o abandono, esperando um roteiro em que se encaixe. Vários destes episódios tiveram origem nas rodas familiares, nas noites de domingos modorrentos em que visitávamos meu avô ou em um fio de conversa que os adultos deixavam escapar até nossos ouvidos. Uma dessas passagens, sem início e sem fim, narro a seguir.

Meu pai, como tantos outros de sua geração, começou a trabalhar cedo. A família pobre precisava dos cobres a mais que levava para o lar: deixava o dízimo no chapéu de meu avô todo início de mês. Assim, unia o útil ao agradável: ia fugindo da escola chata e amealhando os trocados para o cinema e para as paqueras do final de semana. Isso quando tinha seus quinze, dezesseis anos, embora eu desconfie que tenha começado na labuta um pouco antes. Nessa época, fazia o papel de office boy em um escritório de contabilidade.

Havia três secretárias. Uma delas lindíssima, outra, que não era de se jogar fora e a terceira, que ficaria para titia. Dois moleques, meu pai um deles, sonhavam com uma bicicleta enquanto corriam aos bancos da cidade, a pagar contas e a enfrentar filas. Sempre se encontravam no extinto Bemge para matar um pouco do tempo, porque ninguém era de ferro nem mesmo naquela época. Bebiam um refrigerante quando era início de mês, pois ainda podiam se dar ao luxo e falavam sobre as meninas do escritório.

Pois bem, eles eram, como de resto todo adolescente é, peraltas. Combinaram de ficar um pouco depois do expediente, naquele dia, para uma ação inadiável. Havia um único banheiro em todo o primeiro andar do prédio e era utilizado por todos os funcionários. A parte de trás dava para um terreno vazio, tomado pelo mato e pelo lixo que a vizinhança depositava por lá. Por algum conluio entre um péssimo arquiteto e um construtor pão-duro, o vaso ficava bem em frente ao terreno, de modo que os meninos concluíram que um buraco naquela parede lhes forneceria um bom ângulo para espreitar as secretárias. Aquele dia furaram a parede e testaram o ângulo de visão. A coisa ficara melhor do que a encomenda.

No outro dia, foram à feira e trouxeram, para surpresa de toda a repartição, três duzias de laranja. Foi uma festa. Eles se desculparam, não, não queriam chupar não, já haviam feito isso nas barraquinhas. Podiam se esbaldar. E se retiraram, dali a pouco, para o quintal ao lado. Foi uma festa, evidentemente. Se pudessem descolar uma câmera fotográfica, teriam registrado o momento. Aliás, os momentos, porque o banheiro ficou movimentado naquele dia.

Eu sei que houve uma esperta que desconfiou daquele buraco e viu algum olho frenético por trás da parede, mas não sei os detalhes. Parece que foram demitidos, o que não era nenhum drama, pois emprego como aquele havia aos montes na cidade. Mas não sei, posso estar especulando, misturando essa história com outra, inventando, concluindo. Não sei mesmo. Mas que essa parte de descobrirem a cor das calcinhas das meninas foi um sucesso, ah, foi sim.

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sexta-feira, 7 de junho de 2013

CONDOMÍNIO >> Zoraya Cesar

Engraçado como seres civilizados podem se transformar em monstros irracionais quando se trata de reunião de condomínio. Engraçado, também, como estes seres, que chegam quase às vias de fato contra o vizinho, no dia seguinte estão conversando amigavelmente sobre o futebol, a carestia, o tempo lá fora.

O que não é engraçado são os pensamentos escondidos atrás de toda essa fachada. Porque, terminada a reunião, há mágoas que não se apagam junto com as luzes. A verdade, Leitores Amigos, é que todos temos duas caras, e você pode até conhecer a sua própria face oculta, mas nunca imagina que a do vizinho pode ser ainda mais feia.  

D. Julinha iria morrer sem entender por que pessoas – algumas – tão inteligentes votavam seguidamente em D. Glória para síndica. A mulher era uma imprestável, o condomínio estava sempre no vermelho e não havia taxa extra que desse jeito. No entanto, como ela era um tanto quanto rude, muitos achavam que ela tinha pulso forte para levar o condomínio adiante. Levar abaixo, isso sim, resmungava muito internamente D. Julinha, pois tais considerações pouco abonadoras a doce e respeitável velhinha do 8º andar guardava-as para si mesma, discretíssima que era.  

Eu disse que D. Julinha iria morrer sem entender? Talvez, um dia. Mas certamente depois de D. Glória, que foi encontrada pelo faxineiro, às 6 horas da manhã, morta, dura e roxa, caída nos degraus da escada. 

Imediatamente, afazeres importantíssimos e inadiáveis cederam lugar a tantas especulações, conversas e sussurros que, antes mesmo de a polícia chegar, o condomínio inteiro concluíra que D. Gloria andara abusando do malte escocês novamente. 

Malte escocês ou bourbon francês, de qualquer maneira a polícia era obrigada a investigar a morte. E na autopsia descobriram traços de rohypnol, droga que faz parte do coquetel boa noite cinderela. O quê? Como? Então D. Gloria misturava álcool com remédios? Ninguém do prédio podia acreditar na hipótese de assassinato, pois isso implicaria o envolvimento de algum vizinho, e todos ali se conheciam, eram todas pessoas boas... Mas a polícia – que conhece bem os seres humanos - não se prende a essas sutilezas, e sabe que as pessoas matam, em geral, por dinheiro ou para garantir alguma vantagem pessoal. Dinheiro não era, pois D. Gloria não tinha parentes a quem deixar sua herança. 

Então, pensou a polícia, a quem interessaria a morte da síndica?

D. Julinha servia chá com bolo ao investigador, enquanto conversavam O policial soubera ser ela a pessoa mais respeitada do prédio, e, com jeitinho de neto carente, acabou por fazer a discreta senhora revelar alguns detalhes deveras interessantes. 

- Pois é, meu filho, na noite em que Gloria morreu, que Deus a tenha, estivemos eu e ela no apartamento de D. Aurélia, para jogar uma biribinha, você sabe, jogo de velhas – e riu. Aurélia é muito gentil, serviu uns licorezinhos de jenipapo para a falecida, e um chazinho para mim. Eu não bebo...

Amaciada em seu ego de doceira, D. Julinha abriu a guarda e inocentemente discorreu sobre a relação das três senhoras, em como eram amigas, apesar de Aurélia ter inveja de Glória, pois sempre tentara se eleger síndica, mas o máximo que chegava era a subsíndica. 

- Eu mesma me candidatei, uma vez, mas a Gloria era imbatível – confessou ente golinhos de chá. 

O inspetor mal conteve a excitação, até que enfim uma pista! O que aconteceu depois, D. Julinha, perguntou, comendo mais um pedaço do bolo. 

- Depois do jogo eu fui logo embora, mas as duas ainda ficaram mais um pouco.

Alguns dias depois, D. Aurélia foi presa, acusada de homicídio duplamente qualificado, por motivo torpe (assumir o lugar da morta como síndica) e meios vis (drogar a vítima e friamente jogá-la escada abaixo). A mais forte prova dessa tese foi o frasco, encontrado escondido no banheiro da suspeita, contendo resquícios da mesma substância química encontrada no corpo da vítima. De nada adiantou os advogados proclamarem o absurdo do evento, nem d. Aurélia gritar sua inocência dia e noite.  

A síndica, morta; a subsíndica, presa. Uma assembléia de emergência foi convocada para uma nova eleição. D. Julinha queria muito ver se ela não seria escolhida. Se não fosse... bem, o novo síndico que se cuidasse. 

Pois fora tão fácil esperar o momento certo, durante o encontro das três na casa de Aurélia, aproveitar um instante de distração da anfitriã para entrar rápida e despercebidamente no banheiro, e esconder a droga. Sair mais cedo e esperar a síndica no corredor, forjando um encontro casual, e convidando-a para mais uma bebidinha, a cretina nunca resistia a um convite desses, quanto mais de graça. Servir-lhe um bom malte escocês - comprado especialmente para quando a ocasião propícia se manifestasse -, misturado com a droga, esperar o efeito e simplesmente levar a aturdida Gloria para as escadas e empurrá-la. Quebrar o pescoço e morrer era quase certo, cheia de osteoporose como era aquela velha chata. E se não morresse logo, ela, D. Julinha, teria dado uma ajuda extra. 

Afinal, não tinha sido enfermeira a vida inteira antes de se aposentar e a melhor aluna de química da faculdade à toa. Sabia muito bem como misturar as substâncias certas para causar o efeito desejado.

A vitória pertencia aos que sabem esperar, comemorava, bebendo seu chazinho de flor de laranjeira, fazendo um brinde especial à polícia, que caíra tão facilmente em sua artimanha.



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