sábado, 1 de novembro de 2014

PT X PSDB >> Sergio Geia

E ela se foi, amigo. E nenhuma saudade deixou, tipo Copa do Mundo depois do 7 a 1. Honestamente? Não deveria. Como ponto alto das democracias, uma eleição deveria ser festejada, comemorada, aplaudida. Mas é difícil bater palmas diante dessa gororoba que temos de engolir chamado “Programa Eleitoral Gratuito”. Na boa: serve pra nada, não; a não ser pra jogar confetes em postulantes que são arquétipos de perfeição num mundo de conto de fadas.

Até nas redes sociais a coisa ganhou uma proporção hercúlea. Vi amigos se mordendo no melhor estilo Suárez de ser, cada qual se achando o baluarte da razão. Petistas e tucanos quebrando o maior pau. Gente bem informada, que lê, que acompanha. Mas a verdade, pura, cristalina, límpida e colossal, meus caros, é que ninguém tem razão quando acha que tem razão. Essa consciência mínima deveria servir pra baixarem a bola.

Vamos aos fatos. A Bolívia, por exemplo. Reelegeu Evo Morales. Não dá pra entender, né? Não? Dá. Dá, sim. Desde quando Evo assumiu, o PIB de lá cresce em média 5% ao ano. As reservas internacionais foram multiplicadas por 6. Além disso, também com a ajuda dos programas sociais, eles reduziram a pobreza de 38% para 18%. Mas são só mil maravilhas? Não. A economia é pouco diversificada, a maior parte da mão de obra vive na informalidade. A imprensa sofre restrições; a oposição, perseguições. Mas há uma base pra justificar a reeleição dele.

E o PT? Não tem coisa boa nesses 12 anos de poder que justifique a reeleição da Dilma? Tem. A começar com os programas sociais que reduziram a pobreza. Aliás, pobreza não. Miséria. Estão levando luz até os cafundós. Há o sistema de cotas. Há o FIES, o PRONATEC, o Pro Une, o Minha Casa Minha Vida, os médicos cubanos, e muitas outras coisas. Mas só tem coisa boa? Francamente, né, só se você for míope. Os companheiros sofrem de um processo de vitimização, são sempre coitadinhos, perseguidos e se apoiam na dualidade rico-pobre. A corrupção, o loteamento de cargos, o financiamento partidário pelo assalto aos cofres públicos, tudo isso eles fazem também.  

E o PSDB não presta? Eu mesmo já vi Dilma presidente, não Dilma candidata, jogando louros no FHC. Pois foi ele quem colocou o Brasil na rota, pra desespero dos petistas que não querem enxergar isso. Acabou com a inflação, criou o embrião do Bolsa Família. Mas que poderia ter feito mais, muito mais principalmente pelos pobres. Não fez. Como em São Paulo, onde poderiam ter trabalhado melhor o problema da água, ter cuidado dos mananciais, do tratamento do esgoto, campanhas mais eficazes de redução de consumo, aumento da capacidade dos reservatórios.

Tem gente que votou no PT. Tem gente que foi de PSDB. Cada qual com suas razões e seu modo de enxergar o jogo. Mas não venham me dizer que o seu candidato era o suprassumo dos candidatos e que o outro era um lixo porque não era. Votou no PT? Belezinha, mas não venha me encher o saco dizendo que a Dilma era a oitava maravilha do mundo e o Aécio um mentiroso. Votou no PSDB? Ok, mas não venha me dizer que o Aécio era a perfeição dos candidatos e Dilma uma incompetente.

Passadas as eleições, irmão, vamos ver no que vai dar. Dilminha tá aí, mais 4 anos. O horário de verão já veio. Que venham as chuvas. Que venha um Brasil melhor.


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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

CALIGRAFIA E GARATUJAS >> Paulo Meireles Barguil

— Seu registro geral está vencido! — sentenciou o atendente.

— E ele tem data de vencimento? — indaguei surpreso.

— Não e sim. Oficialmente, não. Mas o seu tem mais de 30 anos. Sugiro você providenciar um novo — foi o que ouvi.

Admito que minha foto no documento não me agrada e que, há muitos anos, cogito trocá-lo.

O motivo de eu ainda não ter materializado tal intento é devido eu ser uma pessoa otimista e paciente, pois acredito que o número único de Registro de Identidade Civil, instituído pela Lei nº 9.454, de 07 de abril de 1997, será implantado quando eu ainda estiver vivo.

A Lei previa, no seu artigo 6º, que "[...] No prazo máximo de cinco anos da promulgação desta Lei, perderão a validade todos os documentos de identificação que estiverem em desacordo com ela.".

Desnecessário dizer que tal dispositivo foi ignorado, tendo sido revogado somente em 2009...

Ou seja, durante 7 anos, os brasileiros utilizamos documentos sem validade!

Advogados de plantão, sirvam-se à vontade dessa informação...

Se a minha vida na Terra tem fim, imagine minha paciência.

Decidi, então, providenciar o novo documento de identidade.

Levei a papelada solicitada, mas minha certidão de nascimento foi recusada, pois estava, segundo o recepcionista, ilegível.

A solução, então, seria providenciar a 2ª via da certidão de nascimento.

Agradecendo, sempre, ao Universo o fato de estar no pleno gozo das minhas faculdades motoras, dirigi-me ao Cartório e pleiteei a dita cuja.

Quando retornei à repartição para receber o documento, encontrei um erro e o comuniquei, imediatamente, ao atendente:

— O nome do meu avô paterno é Dib e não Dile — relatei ao serventuário com pouco mais de 20 anos de idade.

— Espere um momento que eu vou verificar — respondeu-me.

Após alguns minutos, ele retornou e disse:

— No livro está grafado Dile e seu pai assinou a lavratura da certidão.

Atônito, peguei um papel e escrevi o nome do meu avô em letra cursiva. Expliquei-lhe que, naquela época, as pessoas faziam caligrafia — etimologicamente, bela escrita. Enfim, usei todos os argumentos que dispunha, mas nada o demoveu do seu veredito:

— Lamento, mas você vai precisar trazer a sua certidão de nascimento anterior para retificar a nova certidão — explicou-me o atendente.

Gargalhei, silenciosamente, da situação: o documento que eu tenho em casa, que é imprestável para eu tirar um novo registro geral, é o que vai atestar que a leitura do escriba do século XXI está desatualizada, permitindo-me receber uma nova certidão de nascimento, a qual, posteriormente, será usada para solicitar novo registro.

Esse paradoxo até que foi fácil.

Desafio tem sido interpretar as garatujas dentro de mim...



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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

PERDAS E MUDANÇAS >> Mariana Scherma

Uma vez, em uma aula bem frustrante de física, no primeiro dia do curso pré-vestibular, com vários alunos que queriam estar em qualquer lugar menos naquela sala, meu professor disse: “as coisas mudam quando vocês menos esperam, não desanimem”. Pra muita gente ali, soou como blábláblá motivacional, eu fiquei com aquela frase na cabeça ressoando até o fim da aula. Motivo: tinha esperança de ser chamada pela faculdade, já que era a primeira da fila de espera. Para todo mundo, minha situação no cursinho já tinha data pra acabar, mas eu sempre fui do time de São Tomé e só acreditava vendo.

Não se passaram nem dois dias, minha mãe surgiu com o maior sorriso do mundo na janela do cursinho. A faculdade tinha me ligado na sexta-feira e eu precisava me apresentar na próxima segunda. Desde esse dia, tive certeza de que as coisas mudam mesmo – e é quando a gente menos espera. Talvez hoje eu esteja escrevendo sobre mudanças porque estou morrendo de saudade daquele sorriso enorme da mami. Faz dias, semanas que o sorrisão sumiu. Meu tio adoeceu e se foi. Quero que as coisas mudem logo para os meus primos, minhas tias, minha mãe e minha avozinha. Quero que essa tristeza se dissipe no vento, quero que eles fiquem apenas com aquelas lembranças gostosas do meu tio que, aos poucos, tornam a dor da perda menos insuportável.

Sempre achei que a gente era meio egoísta ao querer que alguém tão doente, tão sofrido, continuasse entre nós. Mas talvez não seja egoísmo, seja medo de perder as lembranças, de precisar olhar uma foto para lembrar os contornos do rosto de quem partiu, se esquecer da voz de alguém que tanto amamos, do jeito de olhar, das manias... Esquecer deve ser a maior dor do mundo. Alguém que escapa entre seus dedos, como se fosse água, como se fosse etéreo.


Vai ver, no fundo tudo é meio etéreo. A gente, a dor, a alegria, o choro, a risada, as lembranças. Talvez, as lágrimas, que são etéreas também, quando se secam indicam que a dor está indo com o vento. Quando o choro seca, as coisas ao nosso redor começam a mudar, no ritmo da dor, mas começam. Aí vem o primeiro sorriso, ainda triste, ainda sem coragem de mostrar os dentes, mas vem. Na sequência, a gente vê todo mundo que está em volta, lembra que o amor não deixou de existir e percebe as pequenas mudanças. Só o fato de o sol sempre aparecer todo dia sem se importar com a dor ao redor mostra que o amor não acaba. E eu quero muito que a minha família sinta esse sol sob a pele, sob a alma talvez. Gente que a gente ama não deveria sofrer.


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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A MÚSICA DISSE... >> Carla Dias >>


Minha mãe cantando para nós, os filhos, enquanto lava a louça: “Derrubei pau a machado/ E o mato fino rocei/Depois que o mato secou/Eu botei fogo e queimei”, melodia triste, letra ainda mais triste. Ainda assim, uma lindeza. Meu avô lá na sala, lustrando o seu sapato: “Acorda, Maria Bonita/ Levanta e vai fazer o café/Que o dia já vem raiando/E a policia já está de pé”.

“Marmelada de banana/Bananada de goiaba/Goiabada de marmelo/Sítio do Pica-Pau-Amarelo”, e a minha avó cozinhando feijão no fogão à lenha para o jantar, em tempo de, depois do Sítio, assistir à novela: “Vida de negro é difícil/É difícil como quê/Eu quero morrer de noite/Na tocaia me matar/Eu quero morrer de açoite/Se tu negra me deixar”. Lerê, lerê.

“The warden threw a party in the county jail/The prison band was there and they began to wail/The band was jumpin' and the joint began to swing/You should've heard those knocked out jailbirds sing/ Let's rock, everybody, let's rock/Everybody in the whole cell block/Was dancin' to the Jailhouse Rock”: a primeira vez escutando um idioma desconhecido, entendendo nada, adorando a música e sendo apresentada para o primeiro bad boy do qual tive conhecimento, Vince Everett. E confesso que assisti a todos os filmes do Elvis Presley que passaram na televisão, assim como os de Fred Astaire.

As festas de Natal e Ano Novo na casa dos avós, no mesmo quintal onde morávamos. Nunca fui festeira, costumava me esconder em outro canto da casa, mais quieto. Só que bastava tocar essa música para eu cair na dança. “O mar serenou quando ela pisou na areia/Quem samba na beira do mar é sereia”. Clara Nunes sempre estava sempre presente entre nós, naquela época.

A primeira vez que pensei sobre a hipótese de se perder alguém que se ama para a morte: “Sunshine, on my shoulders makes me happy/Sunshine, in my eyes can make me cry/Sunshine, on the water looks so lovely/Sunshine, almost always makes me high”. Perdi a conta de quantas vezes assisti ao filme “Um dia de sol”. Ainda não entendia o que era dito na canção, mas o filme e a voz do John Denver ajudaram na percepção.

A primeira música a me virar ao avesso: “Só eu sei / As esquinas por que passei / Só eu sei só eu sei / Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar / Sabe lá”. E aquela que toquei em estreia com banda, de pisar em palco, de encarar público: “Nada vejo por esta cidade/Que não passe de um lugar comum/Mas o solo é de fertilidade/No jardim dos animais em jejum”, seguida por “So, so you think you can tell/Heaven from hell?/Blue skies from pain?/Can you tell a green field/From a cold steel rail?/A smile from a veil?/Do you think you can tell?”. Depois, divertindo-me à beça com a banda que resultou dessa estreia: “Não tenho culpa se você engordou/Não pensando que eu vou me casar/Mulher de músico é a música/E a minha vida é o rock’n’roll.”

Aquela que eu adoro, mas não foi trilha sonora de uma boa história, que me ensinou que, às vezes, a realidade se mistura com a ficção e bagunça tudo: “What will you do when you get lonely/And nobody's waiting by your side?/You've been running and hiding much too long/You know it's just your foolish pride/Layla/You've got me on my knees, Layla”. A que me fez chorar durante um show fantástico do Pat Metheny: “This is not America, sha la la la la/A little piece of you/The little peace in me/Will die [This is not a miracle]/For this is not America.” Aquela que decidiu se mudar de vez para o meu dentro e faz seus próprios arranjos em minha alma: “Arrumei a casa, espanei o pó do peito/A tristeza, dei um jeito de escondê-la no capacho/Areei os olhos, me quarei lá no riacho/Tirei a roupa do tacho e botei tudo no lugar/Terça-feira, hoje eu acho que meu amor vai voltar”.

A densa e tensa, com suas camadas e dinâmica, que serviu de trilha sonora para a mais ampla declaração de afeto, com direito às levezas e aos suspiros: “In my time of dying, want nobody to mourn/All I want for you to do is take my body home/Well, well, well, so I can die easy/Well, well, well, so I can die easy”. Para o dia em que compreendi que solidão é condição perfeita para autoenfrentamento: “Solidão é lava/Que cobre tudo/Amargura em minha boca/Sorri seus dentes de chumbo/ Solidão palavra cavada no coração/Resignado e mudo”.

Que minhas tias cantavam e acabou tatuada na minha lembrança. Vez e outra, me pego cantarolando: “Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho/Deixem que eu decida a minha vida/Não preciso que me digam, de que lado nasce o sol/Porque bate lá o meu coração”. Há aquela que me adoça o pensamento, sempre que toca em minha memória: “É sobre-humano amar/'cê sabe muito bem/É sobre-humano amar sentir doer/Gozar/Ser feliz”.

A primeira vez que a escutei, essa música se espalhou pelos meus sentidos e não saiu mais da lista das que moram no meu player. A primeira vez que a escutei ao vivo, com a banda no palco, a banda que eu adoro de paixão, foi como relembrar que música é coisa sem a qual eu não vivo: “Everything's different/My head in the clouds/I hit this corner/With my foot on the gas/I started sliding, I lose it/Everything's different just like that”. Que sem ela, eu não teria aprendido a me permitir inspirar, que gravar uma fita K7 inteirinha, lado A e lado B, com a mesma música, continua sendo bom, só mudou a forma, o formato, mas não a delícia do replay musical. Que tem gente que despe a alma na letra, que é generoso o suficiente para arrancar da gente gritos de satisfação com a música. Que tem gente que faz música para Deus, aos seus demônios, aos amigos e amores, para declarar e para forjar mistério. E almejando alegria, flertando com a tristeza.

Na música cabe um tudo de todos.


AS MÚSICAS CITADAS
  • A rosa e a formiga | Heitor De Barros
  • Acorda, Maria Bonita | Antônio dos Santos
  • Sítio do Pìca-Pau-Amarelo | Gilberto Gil
  • Retirantes | Dorival Caymmi
  • Jailhouse Rock | Jerry Leiber & Mike Stoller (com Elvis Presley)
  • O mar serenou | Antônio Candeia Filho (com Clara Nunes)
  • Sunshine on my Shoulders | Dick Kniss, Mike Taylor e John Denver (com John Denver)
  • Esquinas | Djavan
  • Jardim das Acácias | Zé Ramalho
  • Wish You Were Here  song review | David Gilmour e Roger Waters (com Pink Floyd)
  • Minha vida é Rock n'roll | O. Vecchione (com Made in Brazil)
  • Layla | Eric Clapton
  • This is not America | David Bowie (com pat Metheny)
  • Espera | Kleber Albuquerque
  • In my time of dying | John Bonham, John Paul Jones, Jimmy Page, Robert Plant (Led Zeppelin)
  • Dança da solidão | Paulinho da Viola (com Marisa Monte)
  • Comentário a respeito de John | Belchior (com Bianca)
  • Mais simples | José Miguel Wisnik
  • So Damn Lucky | Dave Matthews




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terça-feira, 28 de outubro de 2014

MAS LOUCO É QUEM ME DIZ >> Clara Braga

Imagina só, um belo dia você está passando por aquele mesmo lugar que sempre passa, mas se depara com algo que não estava ali. Um balanço! Sim, esses balanços de parquinho de criança! Não negue, você não daria pelo menos um sorriso? E se você se permitir ser um pouquinho mais ousado, irá parar o que está fazendo e irá balançar no balanço. Aí sim você irá abrir um belo sorriso!

E se estivesse saindo de casa e se deparasse com uma flor ou uma árvore plantada no seu jardim com o seguinte recado: com amor, jardineira secreta. Com certeza passaria o resto do dia se perguntando quem seria a tal pessoa secreta e porque ela escolheria justo o seu quintal para plantar uma flor?

A verdade é simples assim, algumas pessoas ficam felizes simplesmente por fazerem outras pessoas sorrirem, nem que seja por alguns minutos. E essas pessoas, as que realmente fazem pelo prazer de fazer, não precisam se identificar, não esperam algo em retorno, um prêmio, nem um muito obrigado, elas apenas curtem a sensação de felicidade pura!

A Coca Cola pode ser ruim em muitos aspectos, mas é inegável a habilidade da equipe de criar propagandas criativas. A última da qual tive conhecimento foi essa, que mostra pessoas que saem pelas ruas arrancando sorrisos de outras pessoas com os mais simples gestos. Nada de gastar rios de dinheiro, o pagamento é tão simples quanto o gesto, o sorriso.

O que achei mais curioso nessa história toda é que essas pessoas são chamadas de loucas e nos convidam a enlouquecer mais, como elas! Mas será que louco é mesmo quem vive com um sorriso no rosto ou são as pessoas que vivem reclamando e se incomodam com a felicidade alheia? Não sei não, mas eu tenho a tendência a concordar com a Rita Lee: louco é quem me diz que não é feliz, eu sou feliz!


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domingo, 26 de outubro de 2014

AINDA ESTAMOS LONGE >> Whisner Fraga

Tenho lido intelectuais defenderem que esta eleição nos entregou um país dividido, que os candidatos contribuíram para aguçar posições opostas. Não acho que foi o pleito que segmentou esta nação em pobres e ricos, em analfabetos e letrados, em negros e brancos, em sim e não: foi a sua história. Essa divisão começa com nossa história e talvez a transparência (ainda engatinhando) que vivemos hoje nos tenha alertado para a existência dessas diferenças, tão profundas em um povo que se proclama sem preconceitos.

Notei, por parte dos militantes, que havia uma tentativa de convencer o adversário de que seu candidato era o melhor. Faz parte da democracia. Neste clima de disputa acirrada, ocorreram vários excessos. Amigos se desentenderam, conhecidos brigaram. Espero que, a partir de amanhã comecem a reparar seus equívocos e tentem reatar esses laços. Muitos boatos foram espalhados, revistas e jornais escancararam sua preferência, de um lado e de outro. Esperamos que quem for eleito puna devidamente qualquer abuso.

Mas dizer que a eleição separou de vez os brasileiros, não. Não acho correto. Os brasileiros já estão separados há séculos, alguns dentro de seus condomínios fechados, outros nas favelas, alguns dentro de apartamentos seguros, outros nas ruas, debaixo de viadutos, alguns vestindo uniformes de escolas grã-finas, outros no pátio porque não tem professor para ministrar as aulas, alguns achando que carregam o Brasil nas costas enquanto exploram um imigrante aqui e outro acolá, alguns dentro de restaurantes caros e outros tentando escapar do mapa da fome. O Brasil nasce dividido e explorado, justamente quando um burguês usurpa um índio, há centenas de anos, assim que pôs os pés nestas terras.

Não dá para exigir um sorriso condescendente de um caixa de supermercado ou de um atendente de padaria quando algum dos dois ouve que o sudeste sustenta o resto do Brasil, que só aqui se trabalha. Nosso país sempre foi a nação da desigualdade. Sim, eu consigo respeitar meu amigo que votará no candidato x, consigo acolher um primo que escolheu o candidato y, mas não compactuo com a ignorância. E ignorância é achar que somos um povo cordial, que aceita a manipulação e a humilhação.

Esta eleição não separou o país em dois lados. Quem separou foi a história. E a história, para quem tiver curiosidade de aprender, é cheia de escravos, de pilhagens, de mortes, de manipulação, de injustiça, de corrupção, de roubos, de racismo, de preconceitos, de egoísmo. Eu queria ver sim um país unido, mas creio que um país unido seja aquele em que todos tenham acesso, de maneira equânime, aos mesmos direitos e deveres. E isso ainda não aconteceu por aqui, mesmo depois de mais de 500 anos de tentativas frustradas.

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sábado, 25 de outubro de 2014

TENTANDO CONSEGUIR >> Cristiana Moura

Não havia cabimento em fingir-se triste ou tensa, mas tanta alegria em tempos adversos a constrangia.

— Tá conseguindo estudar?
— Tô tentando conseguir.

Tentar já lhe bastava. Não exigia muito nem de sei mesma, nem dos outros. Este deve ser o segredo da alegria de Clarice — ela se contenta. Ela só ainda não sabe chorar. Talvez por isso, vira e mexe, senta  falta de ar.

— Viver, por vezes, tira-me o fôlego — ouvi-la dizer certa vez.

Tanto sua alegria, quanto seu desassossego marcaram encontro com aquele moço. Philos mexe com ela. Pode contar nos dedos de uma só mão as vezes em que se encontraram. No entanto, se sente como se o conhecesse há vidas. Ele acredita que o que ela sente é só desejo. Mas como dizer só em se falar em desejo? O moço do Sul não percebe toda a intensidade e urgência de seus sentimentos.

Clarice não tem grandes conflitos. Gosta do trabalho, segue seus estudos. Tem boas relações familiares. Seu filho já é grande e bem encaminhado. Parece uma mulher comum. Mas toda essa parecência não lhe cabe. É que ela, ao mesmo tempo que se contenta, se afoga em desejos querendo o novo, o desconhecido.

— Moram muitas mulheres em mim!

Ah, conviver com família, colegas, amigos é fácil. Complexo é conviver com estas mulheres que a habitam. Todo mundo sabe que muitas mulheres juntas rende muito barulho. Tem a que é caseira, a outra da balada, a focada em trabalho, uma outra que parece uma criança mimada, outra que é a sensualidade em pessoa. Ela já nem sabe quantas é.

Chegou em casa cansada, colocou uma música e todas se aquietaram ao som de Gil. Entre o contentamento e os desejos Clarice vai dialogando com as mulheres que a habitam. Vai tentando conseguir...

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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

INVEJOSO >> Zoraya Cesar

Espichou o pescoço acima do muro e olhou longamente para a grama do vizinho. Que, se não era mais verde, parecia mais apetitosa. (Não que Antonio fosse um ruminante no sentido estrito da palavra – talvez no sentido lato, vejamos). 

Sua esposa seria definida como “mulata sestrosa”, se ainda soubéssemos o que isso significa. Todos diziam que Antonio era um homem de sorte: cama, mesa e banho, ela dava conta de tudo, com louvor. 

Algumas pessoas, no entanto, nascem com o germe da verde, pegajosa, jamais assumida inveja. O invejoso nunca se contenta com suas posses e haveres; mesmo vestindo Armani, cobiça a camiseta Renner do vizinho. Quase uma doença, não fosse mau-caratismo mesmo.

Falávamos de apetites, então, e também de mulheres, gramas, muros e o que mais? Ah, vizinhos. Cortemos as psicanálises e entremos diretamente no terreno alheio. 

Moema, a mulher do vizinho (que, ao contrário da letra do João Bosco, não sustentava  qualquer vagabundo), era uma coisinha franzina e esquálida, loura pálida, de grandes e aquosos olhos azuis que pareciam constantemente espantados com o mundo. Desenxabida que fosse, tinha marido. E que marido! Trabalhador, gentil, bonito. Mais que bonito, usemos de sinceridade, Romualson era gostoso, pronto. E babava de amor por sua branquelinha. (Gosto não se discute. Quem ama o feio, bonito lhe parece. O coração tem razões que a razão desconhece. Nenhuma dessas platitudes explica coisa alguma, mas dão assunto pra conversa).

Escondido atrás da janela, como uma maricotinha qualquer, Antonio se retorcia de inveja vendo Romualson sair, feliz da vida, de mãos dadas com sua lambisgoinha. E a inveja – é bom que vocês saibam – estimula a imaginação. Antonio, mesmo tendo um mulherão em casa, sonhava com o corpo ossudo, mais parecendo o de um menino, a pele branca de Moema, seus vestidos largos, seus olhos desmesurados. 

Começou a cercar a vizinha, cheio de boas atitudes. Vou dar uma volta, D. Moema, quer alguma coisa? Pão quentinho? Jornal? Deixe que eu carrego suas compras. Ao encontrá-la, parava, falava sobre o tempo, a inflação, as eleições. Aos poucos foi se tornando mais íntimo. A senhora parece pálida, ta tudo bem? Seu cabelo, me permita, está mais bonito hoje... e assim por diante. 

Verdade seja dita que Moema, tímida, respondia a tudo negativa ou monossilabicamente, dependendo da abordagem. E mais a desejava Antonio, que, aliás, passara também a reparar na casa dos vizinhos, achando-a maior e mais bonita que a sua. Pura distorção, claro, uma vez que todas as casas do condomínio eram iguais.

E a mulher de Antonio? Nada percebia? Nada dizia? Ah, percebia sim, não era boba. O marido sempre fora invejoso, mas ganhava um bom salário e lhe dava conforto. Desde que não deixasse de pôr dinheiro em casa, nem abandonasse o casamento, ela deixava o barco correr.

Mas, como tudo na vida, essa história também chega a um fim. 

Dizem que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Um dia Moema, inesperadamente, convidou-o para entrar e tomar um café, numa voz baixinha e musical. Ele vibrou. Mais do que satisfazer sua luxúria com aquela esbranquiçada lavada a sabão em pó, ele queria ver se, por dentro, a casa dos vizinhos era melhor que a sua. 

Moema não pareceu contrariada com a mudança de atitude. Mostrou-lhe a casa toda, cômodo por cômodo, inclusive o banheiro, onde ela o trancou. Começou o pesadelo. Me tira daqui, me tira daqui, gritava ele. Só se você passar toda sua roupa pelo basculante, exigiu Moema, inclusive a cueca. Antonio, desesperado, passou. Espere um instante, ela ciciou. 

O instante chegou junto com Romualson. Que abriu a porta e deu logo duas chapuletadas num desnorteado Antonio, que, nu e apavorado, foi facilmente subjugado pelo forte – tanto mais que irado – vizinho. 

- Tava dando em cima da minha branquela, né palhaço? - Antonio bem que tentou, mas a dor dos tapas e o medo o impediram de responder o que quer que fosse. - Toma aí o que você queria, disse o ofendido vizinho.  

E o inusitado aconteceu. Moema subiu o vestido, desceu as calçolas e deixou à mostra um enorme – digamos – membro viril. 

Sem entrar nos detalhes sórdidos, revelo, no entanto, que a situação fora previamente combinada entre os vizinhos – já cansados do assédio - e a mulher de Antonio, que, parada à soleira da porta, a tudo assistiu e filmou. Depois, Romualson levou Antonio até a porta, jogando suas roupas na calçada.

Morto de vergonha e de outras dores, ele correu pra casa, segurando suas roupas na mão, rezando pra ninguém ver sua ignomínia. 

Sua mulher o esperava, com um banho de assento já pronto, uma pomada para assaduras e uma declaração:

- Se um dia, qualquer dia, você sequer pensar em sair de casa e me deixar sem nada, eu divulgo esse filme pros amigos, pro pessoal do trabalho, pra toda família. Tá entendendo?

Antonio abaixou a cabeça, humilde e arrasado.

Alguns meses se passaram, e, da janela, Antonio viu chegarem novos vizinhos ao condomínio, numa caminhonete já bastante usada. Que pick-up bonita, pensou ele, muito melhor que a Hilux que tenho na garagem...

(..."querer o que é dos outros é o seu gozo, e fica remoendo até o osso, mas sua fruta só lhe dá caroço... " Invejoso, Arnaldo Antunes)




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