quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O CORAÇÃO DO OUTRO >> Carla Dias >>


Hoje, um amigo muito querido passará por uma cirurgia em benefício do seu coração. Muitos são os que têm enviado boas vibrações para ele, já que, em matéria de nos fazer sentir bem, ele é bom à beça. É o toma lá dá cá da benquerença fazendo o seu papel.

Neste momento, não há como eu falar sobre outro assunto que não seja coração. Caso contrário, seria como comentar política e finalizar com “tem coração envolvido?”, para então lidar com olhares políticos estranhando pergunta feito essa, em um cenário feito aquele, onde o coração raramente abre a boca.

E quando a pessoa alimenta o coração alheio, assim, por que sim? Não é só o meu que se curva à beleza da música e da poesia daquele coração. Presenciei muitos se tornarem fãs do artista, para então concluírem, com apreço escancarado, que tiveram boa sorte de conhecê-lo. Porque acontece de conhecermos pessoas que, com seu talento, e gentileza ao compartilhá-lo, influenciam a felicidade da gente a se estender até o adiante, em momento em que tendemos a encerrá-la antes da hora. Isso é ou não algo extraordinário?

Definitivamente, é.

Você até pode pensar que estou enfeitando a situação, que cirurgia no coração é coisa séria e eu deveria ser mais realista a respeito. É coisa séria mesmo, e para mim as emoções são bem realistas. Não há como separar o coração músculo, órgão de importância vital para um corpo funcionar, da essência de quem habita essa importância. Eu não conheço o músculo, mas o quem ele permite existir. E esse quem eu aprendi a admirar profundamente. Trata-se de um quem gentil, e mesmo quando a minha cachola está cheia de caraminholas, ele me mostra, com aquele jeito meio sem querer, e a cada canção, a cada conversa sobre tudo e sobre nada, que a vida tem camadas, e, às vezes, ela sofre de falta de delicadeza. Mas tudo bem, que passa. E que talvez nasçam bons começos no final disso tudo. No finalmente daquilo, pode até nascer catarse. Alívio.

Esse meu amigo tem coração tão valoroso que nem se dá conta do bem que faz a muitas pessoas, apenas sendo quem é, esse poeta navegando pela música, voz reverberando nos silêncios. Porém, posso falar legitimamente somente por mim. Foi escutando os discos dele que escrevi um livro de poemas inteirinho. Ainda assim, mesmo eu dizendo, sendo bem clara, às vezes ele contesta o fato de que suas canções são presentes de valor irrefutável para mim. Que durante elas, eu me questiono, divirto-me, redescubro-me, às vezes encaro o abismo, só para me lembrar que passa.

Muitas pessoas têm mandado mensagens e boas vibrações para ele. Eu mandei mensagem, boas vibrações são prato principal no menu do meu desejo cotidiano aos meus afetos. Mas hoje é dia de observarem o coração do meu amigo como nunca o fizeram antes. E se tenho de escrever uma crônica, que seja sobre a tristeza que sinto pela pessoa que irá contemplar esse coração, no ineditismo do olhar. Que essa pessoa não o conheça da forma que nós, os apreciadores do ser humano que ele é, conhecemos. Lamento não pelo cuidar, que sei que ele será bem cuidado. Mas porque, soubesse essa pessoa do que meu amigo guarda nesse coração, certamente ele se deslumbraria.

E sou completamente a favor de um bom deslumbramento.

Hoje, um amigo querido vai fazer uma cirurgia em benefício do seu coração. Depois, ele escreverá canções em benefício dos nossos corações.

Imagem © freeimages.com

carladias.com

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terça-feira, 30 de setembro de 2014

ESPERA >> Clara Braga

Sala de espera, local curioso de histórias que passam enquanto você só espera.

Detesto esperar, sou a agonia em pessoa, mas já que não tem jeito, até que pode ser divertido observar como as pessoas lidam com o tempo forçosamente ocioso. 

Alguns tratam logo de tornar esse tempo um tempo útil, estavam preparados para a situação. Sacam logo um livro ou uma revista da bolsa, ligam um player para ouvir música, fazem cruzadinha ou, para os menos tímidos, tratam rapidamente de puxar um assunto bobo qualquer com a pessoa do lado.

A tv fica ligada, mas quem escuta? E pra ser sincera, a tv não tem sido lá uma boa forma de entretenimento.

O tempo passa e alguns já começam a ficar extremamente impacientes. Levantam para beber água, derrubam o copo e morrem de vergonha, afinal, qualquer coisa diferente que acontece em uma sala de espera chama rapidamente a atenção de todos. Alguns compartilham um sorriso cúmplice, digno de quem sabe exatamente o que é estar naquela situação. Outros preferem ignorar, afinal, a pessoa já está com vergonha suficiente, não precisa de mais um comprovando que todos viram o ocorrido.

Os que foram acompanhados sussurram, os que não foram mexem no celular e rezam para a bateria não acabar no meio da crônica que está escrevendo.

Entre olhadas no celular e olhares perdidos pelo espaço, alguns já começam a tomar a forma da cadeira. A única regra parece ser não fazer contato visual com ninguém!

As figuras que passam por uma sala de espera são as mais diversas, e a única certeza é que a espera uma hora vai acabar, mas não tenha dúvidas, seja lá qual for o evento pelo qual você está esperando, com certeza ele vai ser menor do que o tempo que você esperou por ele, principalmente se você estiver aguardando uma consulta médica em um hospital de emergência. 


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domingo, 28 de setembro de 2014

CALÚNIA >> Whisner Fraga

Não sou pessimista. Para mim, pessimista é aquele sujeito que, ao pressupor que tudo fracassará, sofre prematuramente. Antes, avalio a situação, as pessoas, as variáveis, para então me preparar para o possível desfecho. O importante, acredito, é alcançar a serenidade diante do inevitável. Devemos nos portar com sabedoria diante da felicidade e da desgraça. Assim, depois de muito refletir durante anos, cheguei à conclusão de que não existe elogio ou crítica sinceros. Analisem meus argumentos e não me tomem por pessimista.

É apenas uma advertência: não dê valor ao que dizem sobre o que você faz ou sobre o que você é, pois não existe ser-humano capaz de se livrar daquilo a que chamam de “interesse”. É da nossa natureza misturar estações. Desta forma, não fique tão contente se alguém enaltece alguma característica sua. Olha, você está linda hoje. Puxa, nunca conheci ninguém mais inteligente do que você. Que esperta, ninguém consegue enganar você. Que talentoso! E assim por diante. O que há por trás desses enaltecimentos? Um pouquinho de honestidade e muito de interesse.

O que pode haver de armadilha em tantas frases banais? Muito. Se dizemos que alguém é lindo, queremos algum tipo de vantagem: do inocente puxar o saco até um sexo casual. Há muito, mas muito mesmo nos bastidores de um elogio e basta um cursinho rápido de análise do discurso para sacar tal obviedade. Assim, por que dar crédito a qualquer tipo de aprovação? É bom que você aprenda, caro leitor, que só existe uma opinião que interessa a você nesse mundo: a sua própria. Não veja isso como apologia ao egoísmo, mas o contrário.

As críticas, por atingirem diretamente nossa vaidade, são mais complicadas. Mas também não nos dizem nada. Geralmente são motivadas pela inveja. Quando não, significa que o autor está se pautando por uma seriedade que não leva a lugar nenhum. De que adianta alguém dizer que você escreve mal? Que você cheira mal? Que você não sabe conversar, que seu beijo é horrível, que você é egocêntrica? Tais frases são de uma inutilidade aterradora. Só uma pessoa pode dizer a verdade sobre você: você mesmo.

Mas o caminho até essa verdade é sinuoso e por isso as pessoas costumam dar tanta importância ao que os outros dizem. É muito difícil um ser-humano se enxergar sem o filtro da própria frivolidade. A mais casta presunção do homem mais vil da Terra ainda é maior do que todas as forças humanas somadas. Assim, torna-se óbvio que não há utilidade alguma em se atormentar ou se regozijar com uma opinião alheia. Ninguém nunca encontrou sabedoria na opinião de quem quer que fosse.

Não sou pessimista. Acredito cegamente nos papos de final de noite em botecos precários. Acredito na ínfima parte do pensamento humano que tem origem na honestidade. Acredito no diálogo como uma perda de tempo necessária. Acredito na potência redentora da beleza, da arte e do agnosticismo. Acredito no poder civilizatório do vinho. O resto é calúnia e difamação.

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sábado, 27 de setembro de 2014

INVENÇÃO E SILÊNCIO >> Cristiana Moura

Vez por outra acontece: de tanto ficar dentro de si mesmo, se esvazia de mundo. É assim desde a época de menino lá no seu interior. Enquanto os garotos jogavam bola, haviam períodos que parecia mesmo um retiro. Ele ia subir em árvore e chupar caju. Sempre sem companhia. Precisava de solidão. Mas não era um estar só qualquer. Era coisa de solidão povoada. Enchia-se de si mesmo. Ele lhe era a melhor companhia. Passada a época do caju, voltava a andar com os outros garotos, jogar bola e tudo o mais.

Até hoje é assim. Homem feito. Amores, filhos. Caio se inventa nesta solidão sazonal. Afasta-se dos sons do mundo e no silêncio parece ouvir a si mesmo e a algo maior. Ontem eu o vi. Era uma tal serenidade que lembrei-me do trecho da música de Gil: "Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós...” — deve ser seu mantra.

Depois do seu exílio voluntário, a volta ao mundo sempre causa estranhamento. Sente uma gastura na pele como se olhares e sorrisos, ao mesmo tempo, o invadissem e acolhessem. Ele esboça um sorriso para o qual não encontro adjetivo. É fruto de alegria serena que só se cultiva em recolhimento. É alegria de quem se contenta com a vida. Nem mais, nem menos. O homem é o que é. Aos poucos vai se enchendo de afetos doces em rever os amigos. — Quanto tempo , meu amigo, andava sumido! Já havia se acostumado com estas exclamações. Cumprimenta os amigos com abraços, afetos e silêncio.

Há quem diga que ele é estranho. — Lá vem o  Caio, aquele seu amigo esquisito — dizia a moça de vermelho. Mas não. Caio é presença e solidão. Ele parece cuidar do tempo, como quem reverencia a um Deus. Se é que vivemos mesmo muitas vidas em encarnações diferentes, ele vive muitas vidas em uma só. Quando ele ressurge, reinventado, aguardo seu abraço mudo e pleno e me reinvento  também. Fico aqui imaginando como seria se cada um de nós encontrasse esse silêncio e pudesse ouvir para além dos ruídos do mundo.




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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O CONTRATO - PARTE II >> Zoraya Cesar


Tudo por uma boa causa. Engoliu o medo, a ansiedade, a insanidade que era aquela coisa toda, e seguiu na direção apontada pela exótica bartender.

O homem se levantou para ela, surpreendendo-a. Não estava mais acostumada com esse gesto. Ao sentar-se, reparou que as luminárias haviam sido estrategicamente colocadas de forma a impedir que o semblante dele fosse visto com clareza. 

Sem problemas, pensou ela, os olhos não são as janelas da alma, os olhos mentem tanto quanto a boca, disso ela sabia muito bem. São as mãos que revelam os segredos da alma.

As mãos. Grandes, mas não muito, quadradas, de unhas cortadas rente e – oh, Graças a Deus – sem esmalte. A pele parecia ressecada, como um deserto cheio de cactos, e os nós dos dedos tinham aquela deformidade típica dos praticantes de karatê. Quem quebra tijolos, pensou ela, quebra também ossos.   É por isso que estou aqui. 

- Me apaixonei por um sujeito, e ficamos um tempo juntos, eu o sustentei durante esse tempo. Quando descobri que ele não passava de um cretino, dei-lhe o fora. Acontece que ele filmou nossas transas, sem minha permissão, claro, e há meses me chantageia. Sou assistente de um candidato a governador, se isso vem a público serei demitida e nunca mais arranjo emprego na minha área. Estou endividada, ele quer me extorquir até o desespero. Não posso procurar a polícia. Contratei um detetive particular, mas não deu em nada, o cara é um filho da p**, mas é esperto. Ele disse ao meu advogado que queria uma mesada, pelo tempo que passamos juntos. Dá pra acreditar? Prefiro morrer a continuar sustentando vagabundo. Minhas reservas estão se esvaindo e minhas forças também.... E se ele divulgar os filmes, eu...

Ela se calou, cansada, visivelmente nervosa, mas ainda assim não chorou. Uma forte, pensou ele. Em situações normais deve até ser bonita, sem as olheiras, a boca apertada, a pele baça. O desespero destrói uma pessoa. 

- E o que você quer? – a voz dele era suave e gentil, contrastando com sua compleição atlética.

- Que ele me deixe em paz. Pra sempre. Antes que eu faça uma besteira eu mesma. Ou mato ele ou me mato, estou ficando sem saída. Tenho um filho de oito anos, estou tomando calmante pra dormir, logo eu, que nao tomo remédio nem pra dor de cabeça.

O homem permaneceu em silêncio por um longo tempo, sem que ela o interrompesse. Gostou disso, demonstra segurança e caráter, pensou. Observou-a, com olhos semicerrados, enquanto ela permanecia imóvel, olhando fixamente para um ponto qualquer acima da cabeça dele. 

Ele jamais aceitara um encontro sem antes investigar a vida do pretenso contratante. Aceitar o contrato era outra etapa. A experiência de anos no ramo lhe ensinou que pessoas comuns, como a mulher à sua frente, jamais deveriam se meter nesse tipo de coisa, contratar gente como ele, nunca dava certo.  O desespero voltava, dessa vez por outra porta, e o medo passava a consumi-las por outros caminhos. Nem todos suportavam o preço a pagar pela liberdade. E, em algum momento, eles acabavam contando para alguém, e isso também não era bom. 

A polícia sabia da existência do Clube, mas nunca chegara perto de seus sócios, por três motivos muito simples: os órgãos oficiais às vezes precisavam de seus préstimos; alguns dos membros pertenciam aos altos escalões da sociedade; e porque eles eram muito cuidadosos. Profissionais.

Ele também sabia que chantagistas daquele nível eram vingativos e escorregadios, não desistiam até verem suas vítimas exangues. Pessoas comuns não tinham defesa contra eles, sangravam até a morte. E morte era a sua especialidade.

- Você tem certeza? Uma vez contratado o serviço, não tem como voltar atrás. E tudo nessa vida, assim como na outra, tem conseqüências. – ele falou, baixo e firme. Ela hesitou.

- Levei meses pra chegar até aqui, fiz o que podia e o que não devia. Mas agora... não sei. Só não posso continuar assim. Não tenho mais a quem recorrer...

Alguém diminuíra o volume da juke box, fazendo a música do Def Leppard mais parecer com Bossa Nova, e aumentara o da televisão; alguns frequentadores prestavam atenção à partida.

- Não acho que você queira realmente isso, não vai aguentar uma morte na consciência. Tenho um amigo hacker que conseguirá apagar todo o conteúdo do computador do seu ex, que não terá mais como te chantagear. Mas digamos que ele tenha os filmes em outras mídias, e, de qualquer maneira, sempre será uma preocupação na sua vida.  Então, eu proponho o seguinte: se o Brasil fizer um gol agora, providencio para que ele nunca mais seja um problema para você. Se o Brasil levar um gol, providencio para que ele nunca mais seja um problema para ninguém. Você jamais saberá como aconteceu. E aceita jantar comigo hoje, sem me ver nunca mais, se não quiser. O que acha?

Ele se inclinou sobre a mesa, deixando-a ver seus olhos castanhos enfeitados por pequenas rugas, os cabelos grisalhos, o sorriso perfeito, estranhamente confortador. Tudo o que ela queria era se ver livre pra sempre do desgraçado, mas matar seria realmente o último ato de desespero. Matar ou morrer, que seja por uma boa causa, sempre acreditara nisso. O cretino era fanático por futebol, por que não deixar o futebol decidir o destino dele, perguntou-se; o homem à sua frente pertencia a um clube de assassinos de elite, e a estava convidando pra jantar... Que mundo estranho, esse.

Ela tomou sua decisão, sabendo que, desistindo ou prosseguindo, teria de arcar com as consequências. Abriu a boca, mas, antes que pudesse responder, o locutor grita: 

- Goooll d...



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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

QUINTA >> Fernanda Pinho



Se há um fato na minha vida que me leva a acreditar na lei da atração é o de que eu sempre adorei quinta-feira e, provavelmente por isso, sempre atraí coisas boas para este dia. Eu nasci num domingo, é verdade. Mas meus pais se casaram numa quinta e, para mim, este sim foi meu verdadeiro Big Bang. Mas por que quinta e não sábado, que é um dia de folga e quando acontece os melhores eventos? Ou por que não sexta, este dia que, em tempos de redes sociais, é amada como se isso fosse um mandamento bíblico? Talvez uma explicação seja essa: por que amar um dia que todo mundo já ama? Mas tem mais.

Desde criança eu já curtia muito quinta-feira, porque na sexta era o dia oficial da faxina na minha casa. O que significava basicamente que na quinta podia tudo. Deixar farelo de biscoito na cama, não catar as roupas espalhadas no quarto, deixar o prato na mesa depois das refeições e outras pequenas contravenções domésticas.

Na escola, comecei a ter certeza de que existia uma vibe especial ao redor da quinta-feira. Me lembro exatamente que durante toda a minha vida escolar, as aulas mais legais eram na quinta: português, literatura, história, artes, espanhol. Física, química, matemática e outros absurdos sempre foi departamento de segunda e quarta. Tudo isso, é claro, porque o poder da minha mente fazia o quadro de horários da minha escola se organizar dessa forma. 

O poder da minha mente agiu, inclusive, neste site que vocês acessam agora, para o qual eu fui convidada, quatro anos atrás, para escrever sempre às quintas. Não fui eu quem escolhi o dia. Juro. Mas se a mente não atua, eu dou meu jeitinho. Dentro da minha organização de trabalho, por exemplo, procuro deixar as atividades que mais me dão prazer para a quinta. Porque as quintas sempre foram legais comigo e eu devo isso a elas.

E quando o feriado cai na quinta? A gente emenda e vira miniférias. E se não der para emendar, não tem problema, porque o dia útil no meio disso é uma sexta e como todo mundo tende a ser feliz na sexta, é um dia fácil de levar. E pelo mesmo motivo, sempre considerei que quinta-feira já é um dia permitido para ficar acordada até mais tarde. São apenas 24 horas nos separando do fim de semana, afinal. E quando tem festa na sexta? Desde a quinta já começo a ser feliz, no melhor estilo Pequeno Príncipe. 

Se for quinta-feira de setembro, melhor ainda. Sim, não é possível que não tenham percebido ainda, mas sou dessas capaz de amar um dia da semana e também um mês inteiro. E conforme eu já contei em outras ocasiões, eu realmente me sinto diferente em setembro. Como se minha vida fosse um musical. Nas quintas de setembro, então, eu canto, danço e flutuo. E quando acontece essa conjunção de fatores de ser quinta-feira, setembro, meu dia de cronicar e meu aniversário, eu transbordo. É tanta coisa boa que não posso guardar só para mim. Hoje é o meu dia de desejar a cada um de vocês: felicidades. 


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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

TALVEZ >> Carla Dias >>

Talvez não.

Talvez você não consiga realizar aquele projeto de vida, ao qual dedicou anos de sua vida, muita paciência e, de quebra, suas economias. Tampouco conquiste aquele espaço pelo qual lutou tanto, passando horas de sua vida debruçado em ideias que o levassem até lá, àquele lugar que você acredita piamente que lhe pertença. Pode até ser que, depois de horas na fila, você sobre e não consiga comprar aquele algo com o qual sonhou durante meses, desde que começou a campanha publicitária de lançamento do tal. Mesmo você já se vendo assim, dono dele.

Provavelmente, você não conseguirá conhecer pessoalmente aquele músico que adora de um jeito... E que imaginou tocando sua campainha, entrando na sua sala, sentando-se e servindo-se da sua cerveja, enquanto lhe conta, com a simplicidade que, você imagina, pertença a ele, o que é fazer música pra lá de boa em um mundo onde a mediocridade é celebrada com tanto aprazimento. Pode ser que a lâmpada daquele abajur que você passou o dia sonhando que iluminaria a sala onde você descansaria a cabeça e o corpo esteja queimada. E que em vez de paz e sossego, você ganhe um pequeno desapontamento e uma ida obrigatória ao supermercado.

Talvez aquela roupa não lhe caiba mais do jeito que lhe coube quando, você acredita, era mais feliz que agora. E que para você, roupa que não cabe mais seja ferramenta perfeita para cimentar a certeza de que mudar é sempre para pior. Nesse estado de espírito, pode ser que você se sente em frente à televisão, esperando assistir a um filme de ação, daqueles de fazer o bandido ser mais querido que o mocinho, que a hora é de extravasar a própria incompetência em viver a vida. Mas aí que, naquele dom de zapear que lhe cabe, você encontra aquele filme que assistiu quando aquela roupa ainda lhe cabia, respira fundo e o assiste, até o fim, fazendo de conta, para si mesmo, que o passado não lhe dói.

De repente, você ter passado a vida com a cara nos livros, pesquisando, esmiuçando o que a ciência oferece, não lhe torne apto a ser a pessoa a descobrir a cura para a doença que acomete alguém que você ama. E, ainda que, durante essa jornada suas descobertas beneficiem a tantos outros, talvez isso não lhe conforte como você esperava que acontecesse.

Pode ser que você nunca conheça a sua pessoa, aquela que vem imaginando, desde que descobriu o amor romântico. Aquela à qual você dedicou os pensamentos mais ternos, com quem se viu vivendo a melhor parte da sua existência, mesmo ela sendo somente habitante de um imaginário que tem por certo que ela chegará a tempo de, junto com você, construir uma história, cultivar intimidade, iniciar família.

Eventualmente, você compreenderá que não é a pessoa capaz de decidir tudo como acreditava ser. Não porque não lutou por isso, não se dedicou a se tornar a pessoa que conduz a sua biografia. Mas simplesmente porque nem sempre o caminho que escolhemos é o mesmo que a vida decide que devemos trilhar. Não à toa encontramos pessoas que desempenham papéis que jamais escolheriam.

E se engana quem pensa que essa impossibilidade de coordenar, de comandar tudo é ruim. Como no jazz, a nossa existência depende de improvisos. Como seres humanos, quase nunca estamos abertos a eles, que adoramos uma rede de proteção. Mas a verdade é que nem sempre as nossas escolhas são as melhores. No susto, muitos de nós aprendemos a felicidade de sermos talentosos em algo que jamais poderíamos sequer imaginar sermos capazes de realizar, e tão bem. Esse labirinto das vontades da vida, às vezes nos mostra que a coisa não é tão importante assim, que destino muda, rotas estão aí para serem experimentadas, é possível sim amar uma, duas, três vezes, e se viver com alguém sem ter filhos, ou ter um time de futebol deles.

O que não compreendemos facilmente é que, quando decidimos como as coisas serão na nossa vida, é que o tempo nos molda. Cada vivência representa um passo adiante na nossa capacidade de nos permitirmos saborear diferenças e apreciar semelhantes. Andamos tão ocupados em nos tornar que esquecemos que somos.

Talvez sim.

Talvez você se torne a pessoa que sonhou... Ontem à noite.


Imagem: Portrait de l’éditeur Eugène Figuière © Albert Gleizes



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terça-feira, 23 de setembro de 2014

MÚSICA PARA MEUS OUVIDOS >> Clara Braga

Um dia uns amigos vieram conversar comigo sobre um assunto que costuma render: música! Não que eu seja lá muito entendida, mas sou curiosa! Então, me perguntaram qual era minha banda predileta. Quer pergunta mais difícil do que essa? Não sei dizer, sei que minha cantora predileta é a Joss Stone, e quando ela se juntou só com artistas geniais para montar o Super Heavy, foi perfeito, conta como banda?

Se não contar não sei, tenho ouvido muito o Jamie Cullum, que músico!! Mas acho que também não conta como banda né, apesar dele valer por uma banda inteira!

 - Tá, escolher uma banda é difícil mesmo, escolhe um show que você foi e te surpreendeu.
 - Janelle Monae! Foi a maior surpresa boa que eu já tive em um show. Logo depois já comprei os dois CD’s dela (sim, eu ainda compro CD’s) e não parei de ouvir por um bom tempo. Mas também gostei do show que assisti da Beyoncé, fui sem muita pretensão, mas achei ela uma grande artista. Voz muito potente! 

Aliás, se tem algo que mexe mais comigo do que ouvir música é ir a um show! A energia de um show ao vivo é diferente, nada se compara! Aerosmith foi emocionante, Paramore foi super animado, Bob Dylan foi uma experiência um tanto diferente, Alanis, Muse, Ozzy, Black Eyed Peas, John Mayer, Jamiroquai, Steve Wonder, Regina Spector, Creedance, Rollings Stones, todos shows memoráveis. Mas claro, bandas brasileiras também fazem shows maravilhosos: Paralamas do Sucesso, Skank, Natiruts, Kid Abelha, Nando Reis, Penélope, Mônica Salmaso, e mais recentemente o show do Titãs foi muito bom, voltaram a fazer um rock mais pesado, como faziam antigamente!

Tem também os shows e bandas que ouvia na adolescência, que hoje gosto de ouvir em momentos nostálgicos. O clássico é Hanson, e confesso que ouvi o último CD deles e gostei muito, achei que amadureceram muito e fiquei triste deles só terem feito show no Rio, se tivesse aqui em Brasília eu teria ido sem medo de ser feliz. Também é extra nostálgico ouvir Green Day, Silverchair, Spice Girls, Guns n’ Roses, CPM 22, Dead Fish, Shakira (principalmente tentando cantar aquelas partes estranhas e rápidas em espanhol), … !

E sabe aquela mania que algumas pessoas tem de fazer lista? Pois é, a minha maior lista é a de shows que eu ainda pretendo assistir: Bruno Mars, Jessie J, Alicia Keys, Kiss, Funk como Le Gusta, Roberta Sá, Jams (sim, a vencedora do Super Star), The Corrs, No Doubt, U2, Leoni, … Ah, e claro, já estou pensando em como fazer para ir a algum dos shows do Foo Fighters que vão ter no Brasil em janeiro! Show do Foo Fighters também é desejo de adolescência!

Bom, sei que o papo foi caminhando e uma lista enorme de bandas e sons foram sendo citados, até que eu ouvi o comentário: nossa, mas que salada hein, difícil entender e acompanhar seu gosto musical.
Até tentei me explicar, buscar alguma referência, mas acho que a explicação é mais simples do que se imagina: eu gosto de música.


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