sábado, 15 de dezembro de 2018

BOAS FESTAS >> Sergio Geia



Ainda em novembro a gente olha e o vê chegando, mas ainda um pouco distante, sabe?, como a montanha escondida no nevoeiro; você a imagina perto, mas anda, anda e ela não chega, é apenas uma caricatura no horizonte. Mas também você sabe, ou tem a sensação que, embora distante, ele está mais perto, muito mais que ontem, e sabe também que o tempo voa na velocidade de uma nave alienígena, bem Independence Day, que o fim de semana voa, principalmente por ser apenas dois dias, ou dois dias e meio ― vamos contar a noite de sexta , e a semana seguinte também voa, e a próxima, e assim o tempo vai passando, como a água do rio que desce montanha abaixo, vai corroendo caminhos, deixando marcas, esbranquiçando fios, vincando a pele, e a juventude, a melhor fase da vida ― e não me venha com essa de dizer que a velhice é a melhor idade, ok? Conversa pra boi dormir; como não sou boi, não caio nessa ―, a juventude vai se tornando um ponto equidistante no horizonte, que ficou para trás, mas bem para trás mesmo.
E de repente, pombas, ele chegou!
As noites estão mais bonitas, principalmente mais quentes, iluminadas e alegres, as pessoas mais felizes e solidárias; na esquina, o bom velhinho recebe os pedidos da criançada, com sua veste pesada e vermelha ― bem Coca-Cola, inapropriada para o nosso verão, sua barba espessa e branca ― que horror as postiças, não? Meu caro Papai Noel, se você não tem uma barba natural, branca, que possa crescer, por favor, desista, vai procurar outro serviço, ok?
Quando criança, lembro que nessa época íamos pra cidade ― a gente tem mania de chamar de cidade o centro ― comprar presentes de Natal. Eu parava nas lojas, ficava namorando a bicicleta, às vezes sentava no banco e segurava o guidão, ou um novo jogo da Estrela; era um sonhar delicioso e pueril. E quando encontrava o Noel? Em cada esquina eu o procurava, ansioso, e quando se destacava aquela mancha vermelha ao longe? Nossa, o coração disparava!
Dizem que em dezembro os anjos, inclusive os mais poderosos, tipo Miguel e Gabriel, estão aí, visitando casas, guardando criancinhas, zelando por idosos, harmonizando famílias que brigam, resgatando corações. Ninguém vê, ninguém acredita. Os mais sensíveis, aqueles que ainda conseguem sentir o perfume das flores, percebem. Sem contar os anjos que agem pelo humano. Quantos anjos você já não encontrou em sua vida, hein?
Pois bem. O Natal chegou. E com ele todas as preocupações mundanas: presentes, roupas, ceia, viagens, sete pulinhos no mar.
Este ano, como no ano passado, e no outro, e no outro, vou passar em Taubaté mesmo, na casa da Roseli, com a família, comendo, bebendo, celebrando a vida, dando risadas, relembrando o passado, pegando no pé do Ricardinho do Pânico (gente, pra quem não sabe, o Ricardo é meu primo; ele deu um nó no Carioca e sua trupe; veja lá no YouTube e dê boas risadas), e à meia-noite, rezando juntos, de mãos dadas, vamos celebrar o Natal em nossos corações.
Grato pelo carinho, pelas palavras sempre gentis, pelo amor, pelos anjos que vocês foram em minha vida.
Saio de férias por um mês, isso significa que será um mês sem crônicas Nossa! Será que consigo?
Ano que vem retornamos.
Beijos, feliz Natal e um mágico 2019!
A gente merece.




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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

UMA CARTA PARA MEU FALECIDO AVÔ >> Clara Braga

Vô, 

sei que você se foi faz tempo, mas suas lembranças ficarão para sempre!

Nunca vou esquecer de você inventando melodias para encaixar fórmulas matemáticas e tentar me fazer decorar a tabuada através de músicas. Também não esqueço que eu sempre encrencava com seu jeito de escrever a letra F, não era como eu tinha aprendido na escola e, por isso, dizia que era errado.

Lembro das brincadeiras que tinham que ser sempre de um jeito que você não precisasse sair da sua poltrona e lembro também que no natal você sempre tinha pilhas para colocar nos brinquedos que a gente ganhava, afinal, ganhar um brinquedo e não poder brincar por causa de pilha não é justo com nenhuma criança.

Hoje te escrevo para falar exatamente dessa questão da pilha. Você acredita que, embora muitos brinquedos já funcionem com bateria, ainda existem brinquedos a pilha? Acredito que você tenha acompanhado essas evoluções tecnológicas e todas as outras coisas que acontecem aqui na terra aí do céu, não é mais sentado na sua velha poltrona com seu cigarro na mão, mas com certeza é de camarote. Justamente por isso, deve ter ficado um tanto decepcionado quando eu levei seu bisneto para o evento de natal desse último fim de semana e entreguei para o Papai Noel o presente que ele deveria ganhar.

Sim, o presente precisava de pilha para funcionar e eu não levei as pilhas.

Aí você deve estar pensando: não Clara, o pior não é nem você não ter levado pilhas, o pior é que hoje em dia eu já vi aqui do céu que as lojas de brinquedos te lembram que o produto que você está levando precisa de pilha e oferecem para colocar, e você disse que não precisava pois, como é uma ótima mãe, não deixava faltar pilhas em casa. 

Vô, você não imagina quantas vezes eu pude ouvir sua voz com clareza na minha cabeça dizendo a palavra pilha enquanto eu esperava o tal Papai Noel aparecer para entregar os brinquedos. Nos meus olhos já podia ver a cena do Theo abrindo o brinquedo e não dando a mínima já que o brinquedo não funcionava e tentando brincar com os brinquedos dos outros meninos. Me passei do posto de super mãe das pilhas para o de pior mãe do mundo, e confesso que cheguei a preferir que o Theo ficasse com medo do bom velhinho e não quisesse pegar o presente.

Bom, para minha sorte, alguém aí de cima - que eu acho inclusive que foi você - percebeu meu desespero e fez uma intervenção divina: fez o Theo capotar em um sono profundo antes do aparecimento do Papai Noel. Nós, pais esquecidos, fingimos estar muito tristes, pegamos o presente e levamos para casa, local protegido com várias pilhas a disposição. No dia seguinte, quando o Theo acordou, estávamos prontos para brincar o dia todo.

Como pôde ver vô, a história teve um final feliz, mas sei que nem sempre terei a sorte de ser assim. Por isso hoje te escrevo para renovar a promessa de que presente nenhum será dado sem pilha e, sempre que a moça da loja me perguntar se eu quero pilhas para acompanhar vou dizer um lindo SIM!


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quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

CRIATURAS >> Carla Dias >>


É tempo de falarmos sobre como o tempo anda curto, mesmo o relógio contradizendo a informação, insistindo que anda mais preciso do que nunca. É coisa de fim determinado, de daqui a pouco de frescor que durará cinco minutos apurados por esse relógio enlouquecido que já não conseguimos compreender.

Contabilidade sazonal: quantos horrores foram encarados no último ano? Quantas noites foram gastas em melancolia? Quantas vozes não disseram o que morava no seu desejo? Quantos sorrisos foram coletados pela memória? Quanto amor foi concebido no desvio da determinação de não mais permitir ter o coração partido? Quantos gritos? Quantos medos? Quanto desesperos? Quantos deslumbramentos?

Somos essas criaturas conflitantes, que hoje pensam isso e amanhã requentam o aquilo. Instáveis criaturas. Adoráveis criaturas. Desprezíveis criaturas. Transgressoras criaturas.

No nosso corpo moram necessidades. Na nossa mente vivem questionamentos. No nosso espírito culminam pequenos temporais. Temos de nos agarrar a nós mesmos, diariamente. Precisamos nos esconder de nós mesmos, vez em sempre. Carecemos de nos lamentarmos pelo outro, em nome do alívio de não sermos personagens de tais devassos desencantamentos.

Voláteis criaturas distraídas consigo mesmas. Criaturas acostumadas a delegar ao tempo o desespero que lhes carcome. Divinas criaturas que, vez em quando, entregam-se à generosidade e chegam mesmo a distribuí-la.

Criaturas de flores nos cabelos, armas nas mãos, corpo adormecido pelo medo, o desejo gritando saudade.

Há dias em que somos criaturas de tantas identidades.

Não há culpa que pertença ao tempo. Ela é nossa, pois somos nós que o gastamos com insignificâncias; que o tratamos como moeda; que despimos sua necessidade de cadenciar; que fazemos caber nele um tudo que nele não cabe.

Ah, nós, criaturas perturbadoras, intrigadas com o que não podemos controlar. Rebeladas por sentirem irrefreável necessidade de nos firmarmos como soberanas. Criaturas que somos a nos rastejarmos pelos cantos sombrios de nós mesmas, para então desaguarmos em alegrias febris.

Não é o tempo que passa mais depressa. É a nossa pressa que o atropela. É a nossa urgência que o devora.

Imagem: O Sonho do Pastor © Henry Fuseli

carladias.com



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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

O QUE VOCÊ FARIA? >> Clara Braga

Toda nova fase da vida é marcada por uma mudança. Essas mudanças, não importa se são grandes como a chegada de um filho ou pequenas como um corte de cabelo, sempre precisam de um período de adaptação e podem apresentar consequências tanto boas quanto ruins.

Muito se fala sobre as mudanças mais clássicas que a gente passa na vida como uma formatura, um casamento ou um novo emprego, mas tem uma situação pela qual muita gente passa que eu considero subestimada e que já deve ter gerado tanto conflito quanto um divórcio não consensual: partilha de bens de uma família quando os filhos saem de casa!

Tenho certeza que em algum lugar do mundo existem irmãos que se estranham há anos pois não souberam o que fazer com o computador que foi comprado em parceria, dividido até os centavos. Afinal, como definir quem tem mais direito?

E aquele vídeo game que a mãe comprou no natal para que os dois filhos dividissem? Quem está saindo de casa pode achar que os objetos são de quem sai primeiro, já quem fica acredita que merece ganhar algo nem que seja um prêmio de consolação por ter sobrado sozinho com os pais. Quem está certo?

E os livros que estão nas áreas comuns da casa, é para deixar ou eu posso levar aqueles que eu comprei com meu suado dinheirinho? E os CD's, são de quem ouve mais ou de quem coleciona? E o cachorro, vai ou fica?

São tantas questões que eu poderia ficar aqui durante horas só pensando nessas situações, como definir quem está com a razão e quem não está? Mas a única coisa que me passa pela cabeça é que nas vésperas do natal é ótimo não ser papai noel e não ter que escolher entre dar dois presentes de qualidade inferior para cada um deles ou dar um presente só e esperar o circo pegar fogo. 

O que você faria?




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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

SUSTOS E LENÇÓIS >> Albir José Inácio da Silva


O cansaço desmaiava Willians na cama, mas os acontecimentos do dia não o deixavam dormir. Olhos entreabertos, braços estendidos pra baixo, queria descansar, mas a imagem da velha enrolada no lençol até a cabeça esperando o caixão na casa da frente não o abandonava.

Arrependia-se agora das brigas com Dona Dalva desde que pisou naquela vila. Não se passou
um dia em que não arengasse com a Senhoria. E hoje não tinha sido diferente.

- Nada faz o senhor fechar esse portão, né, Seu Ilha?

- Que Ilha, Dona Dalva? Que Ilha? É Willians! Willians! – gritava. - Metade desse quintal tá sem muro, e a senhora tá preocupada com o portão?

 Willians ainda reclamava com a esposa Aline do inferno que era morar ali, quando se ouviram os gritos de socorro na casa da frente.

- Acode lá, Will! – exigiu Aline.

Dona Dalva estava caída no chão e a filha ajoelhada. Willians pegou a velha no colo e colocou na cama. Mas a SAMU chegou só pra dizer que ela estava morta.

Willians se arrepiou quando soube que carregara um defunto. Não que tivesse medo. Era macho, ex-pqd, fã de Bruce Willis em Duro de Matar e seus heróis todos eram matadores, socadores e explosivos. Mas não gostava dessas coisas.

A sogra de Will, Dona Deca, gostava da Dona Dalva por uma única razão: ela infernizava a vida de Will, que era uma coisa que ela mesma gostaria de fazer pessoalmente, mas a filha Aline atrapalhava.

A noite encontra Will na cama, morto de cansaço, tentando pegar no sono, mas a cabeça errando pelos acontecimentos do dia. O ventilador empurra a porta aberta que encosta na parede com um gemido e um baque ritmados. Haja nervos. Will já percebeu, mas está cansado demais pra levantar e  pensando na defunta que carregou. Não que tivesse medo, mas não gostava dessas coisas.

Embora não tivesse medo, Will reconhecia a conspiração universal para assustá-lo. Defunto na casa da frente e agora um vento que mais parece gemido. Cai a chuva. O trovão foi bem perto. Acaba a luz, deve ter sido todo o bairro. Só os relâmpagos iluminam o quarto. Will se encolhe.

Mais um relâmpago e ele vê um vulto branco de cócoras na porta do quarto, que levanta e se agita em direção à cama. Will quer gritar, mas a voz não sai. Segura o abajur pelo meio e levanta a base de metal.

Baque, grito, novo clarão. Aline acorda.

A luz acende. A sogra está enrolada no lençol, os olhos arregalados e o sangue começa a descer pela testa. Will está em choque.

- O que é isso, mamãe?

A velha urra:

- Maldito cão dos infernos!

- O que a senhora tá fazendo aqui? – pergunta a filha.

- Eu vim prender a porta que o ventilador tá balançando. Não consigo dormir com esse barulho. - o sangue chega na boca e ela grita mais ainda. – Ele quer me matar!

- Mas embrulhada num lençol, mamãe!? Ficou maluca?

- Eu tô de camisola e não ando por aí expondo minhas vergonhas.

Na delegacia Dona Deca quer a prisão de Will por tentativa de homicídio. Aline quer ir pra casa, embora não esteja convicta da inocência de Will.

O delegado queria mesmo era prender todo mundo.

Will diverte-se sabendo que não vai dar em nada. Sente-se corajoso por enfrentar o perigo e se alegra por ter sido a sogra e não a Dona Dalva. Que Deus a tenha!




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sábado, 1 de dezembro de 2018

UM CONTO SOBRE PLANOS FRUSTRADOS >> Sergio Geia



Ele sonhava assim: ...
Não. Sonhava não. Mais planejava do que sonhava. Pode parecer bobagem, mas não é, e há sim uma grande diferença. O sonho tem feições obscuras. Não. Nada disso. Quanta bobagem. Não é isso o que eu quero dizer, que sonhos têm feições obscuras, esse tom que você pensou, exatamente porque eles não têm. Tipo as estantes de livros da minha casa. Sim, os sonhos são das cores de minhas duas estantes que tenho aqui sobre a televisão, cheias de livros coloridos. Sonhos são leves, coloridos, balão voando no céu. Melhor assim, nada de “feições obscuras”. Ai meu anjo, perdoe-me; acho que estou um pouco confuso hoje. Talvez esteja precisando de um gole de uísque. Vamos reformular. Sonhos têm uma feição, digamos, Everest, algo difícil de alcançar, era isso o que eu queria dizer. Sim, muitos alcançam, quantos alpinistas não chegam lá, mas quantos não ficam pelo caminho? Sonhos são desejos a perseguir, lugar que se quer alcançar, e que exige de você. Sonhos iluminam a vida, e não era isso o que eu queria contar; portanto, o sonho, diferente de vida, não cabia aqui, daí toda essa explicação confusa.
Então ele não sonhava. Vamos dizer: ele planejava. Mas antes de dizer o que ele planejava, digo para você que não vou interromper mais, que já está ficando chato. O personagem é ele, não eu. E não vou falar tentando explicar as coisas, visto que (bem juridiquês) quebra totalmente o tesão, faz a história parecer mais uma crônica dessas que eu publico, que você está acostumado a ler, e tudo o que eu não quero é que você se lembre de mim hoje, porque quero que a leitura seja mais conto que crônica, mais ficção que real, água límpida com aquele sonzinho suave que desce a montanha e acalma, embora já ache que o que vai sair de tudo isso é muito menos que um conto, muito menos que uma crônica, um cruzamento mal-acabado dos dois, uma espécie de transmutação literária, bem confuso mesmo.
Então...
Ele planejava assim:
Numa dessas noites, de preferência numa noite fria, ele planejava tirar do armário o Clos de Fous que havia ganhado de uma amiga no dia de seu aniversário. Planejava vestir uma roupa quente — qualquer uma, não iria receber ninguém —, acender incenso, um cigarro, e antes de ouvi-lo, planejava introduzir o momento relax com um conto de Borges, ou de Pirandello, nesse caso não havia decidido, mas não importava, queria apenas entrar no clima, saborear as palavras, a bebida, o cigarro, sem pressa, saborear lentamente o momento especial.
Na última semana, o tempo esfriara. Depois de dias de inverno quente, a temperatura em algumas manhãs chegara à casa dos 8 graus, tornou-se um desespero tomar banho num chuveiro que não esquenta como o seu, até os encontros semanais com Dáfine, que o faziam despender uma boa quantia mensal por elevados interlúdios sexuais, rarearam por causa do frio, do resfriado, da tosse; mas, ainda assim, ainda que o frio trouxesse essas e outras adversidades, ele o preferia, principalmente porque no frio conseguia dormir bem, coisa que não fazia quando as temperaturas batiam o ápice no famigerado verão dos trópicos.
Mas enfim, o inverno chegara. E, pelo correio, também o disco. Foi outro dia. Quando comprava livros pela internet, um novo Ian McEwan, “Onde andará Dulce Veiga”, do Caio, viu a chamada e não teve dúvidas: lançou para dentro de seu carrinho o “Caravanas”, coisa que já devia ter feito há bastante tempo. Desde que chegara ele planejava o ritual. Sim, ouvir discos para ele tornou-se um ritual. E agora, com o frio, o vinho, planejava degustar daquelas preciosidades a seu modo, sem pressa, como fazia com Dáfine, claro, quando ela o permitia, e não exigia, ainda que indiretamente, um gozo rápido para, talvez, correr atrás de outro cliente.
Mas andava cheio de compromissos. Cerveja com amigos numa noite, o lançamento de um livro de uma amiga, a série da HBO que o estava consumindo, (aliás, nunca pensara que ficaria tão escravo dela), cinema, às vezes preguiça mesmo, eram semanas que procurava encontrar um dia, um humilde dia, para vestir sua roupa mais quente, para abrir o Clos de Fous, acender o incenso, depois o cigarro, ler Borges ou Pirandello, e aí sim, colocar o CD no aparelho, pegar o encarte com as letras, e ouvir, ouvir, ouvir, uma, duas, três vezes cada música, degustar o sentido das frases, a história empurrada (e Caravanas tinha dezenas delas).
E planejava que mais uma vez um disco assim iria surpreendê-lo. Assim foi com o outro. “Sem você”, por exemplo. Ela talvez o tenha feito mudar a sua vida, o tempo todo seu, ir ao futebol, ao museu. “Nina” o fez sonhar, e quantas não foram as vezes que bebeu vinho sonhando? “Querido Diário” o remeteu ao Rio, às coisas da cidade grande. Buscando a delicadeza confessional, o pequeno detalhe, a frase solta, perdida, que dizia muito. Alimentava o sonho, ou planos, diariamente, pensava na roupa quente, no frio entrando pela janela, o aquecimento com o Clos de Fous, Borges, as melodias sofisticadas penetrando suavemente, ganhando vida, enchendo-o de emoção.
Mas não foi nada disso.
Numa tarde de sol, temperatura superando os trinta, sentado na frente da tevê vendo uma morosa partida de futebol, comendo pipocas e tomando coca, ele, e até hoje não sabe a razão, abandonou sem qualquer remorso os planos, o ritual de audição tão ansiosamente planejado, apagou a tevê, encheu o copo duplo de coca e gelo, nem pensou em Borges ou Pirandello, de supetão enfiou o CD no aparelho, nem quis pegar o encarte. Ouviu “Caravanas” de enfiada, uma vez, gostou, mas tão logo terminou a última música, desligou o aparelho, ligou novamente a tevê, ajustou na HBO, já sentindo o coração palpitar com o início de outro capítulo de GoT.




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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

DEBAIXO DO FUNDO DO POÇO >> Paulo Meireles Barguil

Se existem várias espécies de poço, também é verdade para as tipologias de fundo do poço.

Há poços secos, cheios e com nível variável de água ou de outro líquido.

Às vezes, a pessoa está lá por escolha.

Outras vezes, foi colocada contra a sua vontade.

Às vezes, ela consegue sair com vida.

Outras vezes, até o resgate do corpo é difícil.

E o que dizer quando alguém está debaixo do fundo do poço?

Se há um fundo, é porque tem um limite e, portanto, algo debaixo dele...

Durante essa vida, estive nele algumas vezes.

Em todas, eu consegui sair.

Ou será que ainda estou nele há décadas e não sei?

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quinta-feira, 22 de novembro de 2018

O FUNDO DO POÇO>> Analu Faria

Nos três anos em que escrevi aqui, eu quis fazer o que os ditados fazem para se tornarem ditados. Quis pegar umas palavras, juntá-las e arremessá-las de modo que caíssem naquele poço dentro da gente onde as coisas fazem sentido quando atingem o fundo. Eu sei, é muita pretensão.

Não sou escritora, o que fiz aqui no Crônica do Dia foi um exercício de escrita, ainda que parecesse ter pompa e circunstância (prova maior de que não sou, de verdade, uma escritora). Mas mesmo no nível "aprendiz", eu me joguei nessa tarefa de falar de alguma coisa que não fosse o clima, o jantar, o gato dormindo na cadeira, por si sós, ou seja, como aqueles quadros na parede de casa, que a gente, de tanto ver, esqueceu de que estão ali. Eu quis sempre o que era singular, mesmo no corriqueiro e no mínimo. Eu sei, é muita pretensão.

Essa vontade de que a escrita fosse mais (não tem complemento aqui)  deve ter a ver com a forma como tento viver a vida. Entre "louca" e "intensa" eu já ouvi descrições interessantíssimas sobre a minha personalidade. Todas elas, contudo, tinham em comum tanto a fuga da realidade (e por realidade eu quero dizer a solidez desse sistema casa-trabalho-estudo-amigos-conta bancária-família-cachorro-chefe-boleto, com sono e refeições entremeados) como essa estranha busca pelo extraordinário. Eu sei, é muita pretensão.

Agora eu não pretendo mais muita coisa. Não com a escrita. Pode ser que eu lance um livro com os melhores momentos deste tempo em que estive aqui. Considerando que todo mundo lança livro hoje em dia, não acho isso tão aviltante à humildade geral. Pode ser também que eu leve para a terapia o que escrevi e adiante a alta, ou convença o psicólogo de que eu sou mesmo um caso sem jeito.  Mais provável é que eu não faça nada com o que escrevi, porque o escrito já fez muito comigo, e por mim. Se o que escrevi neste espaço, durante estes anos, fez alguma coisa por você também, ainda que seja te causar enfado, eu tenho mais é que agradecer. Na minha sanha por atingir o fundo daquele poço onde tudo faz sentido, esqueci que a trajetória que as palavras percorrem depois de eu lançá-las, seja que forma essa trajetória tenha, é o que mais importa.


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