terça-feira, 19 de agosto de 2014

ALGUÉM CHAMA O MÁGICO DE OZ >> Clara Braga

É, agora é mais do que inegável, as redes sociais definitivamente modificaram a forma das pessoas se relacionarem. Mas o problema maior nem é esse, uma mudança ou outra são até importantes, o problema mesmo é que a mudança tem sido para muito pior. Quando o assunto é rede social a imagem que me vem à cabeça é da educação saindo para fumar um cigarro e nunca mais voltando.

Parece que estamos virando um monte de homens de lata e agora, pra voltar a ter um coração só mesmo o Mágico de OZ. É impressionante como as pessoas não se afetam pela dor do outro. Acho que o distanciamento entre as pessoas que a tecnologia acabou causando, fez com que as pessoas se vissem tão distantes da realidade dos outros que não conseguem se colocar no lugar delas, acham que o que acontece com o outro jamais aconteceria com ele.

Da morte do Robin Williams até a tragédia que matou Eduardo Campos é inaceitável a quantidade de piadas e comentários maldosos que eu já vi. Tem frieza para todos os gostos, dos extremamente desinformados que acham que o ator foi covarde e que a depressão é apenas uma preguiça de sair da cama até os sem noção que foram ao enterro do candidato tirar uma selfie. Sério, que a educação tinha ido dar uma volta eu já sabia, mas que ela tinha levado o respeito, a noção, a compaixão e outros tantos, isso eu ainda tinha esperança de que não tivesse acontecido.

Não acho legal também as pessoas que exageram para o outro lado, acho que o sofrimento extremo por alguém com quem você não tinha a menor ligação não faz muito sentido, também uma consequência da vida através do computador, algumas pessoas sofrem mesmo de carência aguda. Mas ainda assim, acho esse caso menos pior que o primeiro, afinal, não acho que possa ser normal situações como essas que aconteceram não mexerem com a gente de forma alguma!

Acredito que esses casos deveriam servir para que a gente refletisse sobre o quão frágil nós somos. É aquele bom e velho ditado que apesar de duro, é muito real: para morrer, basta estar vivo… E pior do que perder alguém de forma repentina é ficar com a sensação de que você talvez não tenha dito tudo o que queria para a pessoa que se foi, ou demonstrado o quanto gostava dela da forma que ela merecia. Ou seja, esses casos, antes de virarem piada, deveriam fazer com que a gente saísse da frente do computador e fosse pra perto daqueles que fazem falta!


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domingo, 17 de agosto de 2014

COINCIDÊNCIA >> Whisner Fraga

Meu irmão tem muitas histórias e acho que nunca falei sobre nenhuma delas neste espaço. Sei que devia ter feito, mas algum assunto de última hora certamente se tornou mais urgente e deixei os causos do Wildner para depois. Wild, como os amigos o chamam e a família também. Hoje vou esquecer a candidatura de Marina, as questões em Israel, as baixarias em torno das eleições presidenciais, os problemas de minha cidade, para narrar algo mais engraçado.
Naquele dia o Wild olhou para o colega de trabalho e ambos tiveram uma revelação: precisavam de dinheiro para o final de semana. Ninguém consegue se divertir muito com os bolsos vazios neste nosso país e talvez em nenhum outro. Assim, meu irmão propôs que fossem ao banco para sacarem o bastante para as distrações de sábado e domingo. Fecharam as portas da loja e foram rumo a um caixa-rápido. O trânsito estava terrível, como tem acontecido com frequência em muitas cidades brasileiras. Lembrei-me que o bom do engarrafamento é que é mais ou menos democrático: nele param Fuscas maltratados e Porsches tinindo de novos.
Como não havia estacionamento ali perto, meu irmão sugeriu que o colega descesse e sacasse o dinheiro, enquanto ele dava uma rodeada no quarteirão, para pegá-lo em seguida. Então, como estava tudo meio lento mesmo, chegaram à conclusão que era o melhor a ser feito e Roberto saltou. Havia filas lá também, o que de resto não foi grande surpresa, pois o brasileiro é craque em enfrentá-las por todos os cantos, com a paciência avantajada que Deus lhe deu. Alguns bons minutos depois conseguiu os trocados salvadores: o fim-de-semana estava salvo.
Preocupado, Roberto correu para a rua e se deparou com a caminhonete vindo bem em frente ao banco, devagar diante do congestionamento. Não acreditava que tudo dera certo daquela maneira: um relógio suíço! Olhou rapidamente para os lados e, como não vinha nenhuma moto cortando caminho entre os carros, correu, abriu a porta e entrou, esbaforido, consciente de que cumprira com sua obrigação. Quando olhou para o lado, não reconheceu meu irmão. Em seu lugar estava outro: mais gordo, mais velho, mais assustado. Imaginem o que se passou na cabeça daquele motorista: certamente assalto foi uma das alternativas. Que risco! Ainda bem que não é qualquer um que anda armado hoje em dia. Apavorado também, Roberto não se conteve e soltou um grito, que foi logo respondido com outro grito, um pouco mais intenso e mais sobressaltado. Vejam como este mundo violento alvoroça as pessoas!
Não, não haviam roubado o carro de meu irmão. O que aconteceu foi que, naquele momento, passava uma caminhonete Idêntica: cor, ano, modelo, filmes dos vidros, rodas, tudo. Um pouco atrás, o Wild assistia a tudo, passando mal de tanto rir. Como não tinha outra escolha, Roberto abaixou os olhos, pediu desculpas e saiu do assento desconhecido, cabisbaixo, rua afora. Avistou com facilidade o carro certo e entrou, já também não se aguentando de rir.

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sábado, 16 de agosto de 2014

QUANDO O INFINITO CABE NO COLO
> (para Luís Eduardo) >>Cristiana Moura

Ele chegou nesta quinta-feira. Na verdade, já havia chegado. Já era vida vivendo em amor aquático. Ele era ele. Ele era ela. Para nós, do lado terrestre da vida, eram ainda faíscas de amor no corpo e olhar de Fabiana. E, num esperado repente, o pequenino começa a ser, sem pressa, só ele. Seu nome ganha rosto, corpo e sons em altos choros que nos dizem: podem chegar, podem se aproximar.

Luís Eduardo, nome de origem germânica, quer dizer combatente glorioso e guardião das bênçãos. Que seja abençoada esta tão bem vinda vida. Adentra nossos cotidianos que aqui, para você, é só amor.

Talvez este texto fique clichê, enfim, quem não se emociona diante de um bebê? Eu estou assim, boba em sua presença. Já não tenho poder sobre isto. Vê-lo ali, tão miúdo, agarrado com toda força aos seios fartos de minha irmã, faz borbulhar por dentro uma comoção inominável. Vê-lo ali, embalado nos braços tranquilos de seu pai me dá uma sensação de certeza e leveza nem sei direito do que, mas é vida sendo vivida.

Quando está em meu colo, o tempo para. O ar das nossas respirações vira melodia embalando o sono em cadeira de balanço. Revivo o meu tempo de maternagem por vinte e quatro horas do dia e sinto-me tão abençoada quanto Luís Eduardo, por levar comigo uma coleção de boas memórias. E, também, por cada novo encontro que acontece agora e pelos que estão por vir.

Ser tia tem um algo por dentro muito parecido com o de ser mãe. Eu não sabia que não era preciso parir para sentir em mim toda a força do mundo capaz de cuidar de um ser pequenino. A força de um bicho caso ele precise de defesa. Um punhado de emoções de onde me escapolem lágrimas de encontro, cuidado e amor. Na nossa família é assim: todos cuidando de todos. Sou grata por tanto amor desvelado entre nós.

Seja bem vindo, Luís Eduardo. Que o olhar e o canto da sua mãe o aconcheguem agora. Que os sons dos violões do seu pai, irmãos e primo lhe embalem o sono e o façam cantar e dançar. São cinco e meia da manhã e o Sol faz nascer mais um dia desta vida bela. Mas vou logo lhe dizendo que beleza a gente tem que aprender a ver. Há de juntar o olhar ao pulsar para assim descortinar o belo dos raios de Sol adentrando a varanda enquanto que, ao som dos automóveis, se mistura o canto dos pássaros. É assim, menino, cheio de entrelinhas encantadas, este dia a dia que você começa a conhecer.



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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

PAPO DE VENDEDORA >> Fernanda Pinho


Aconteceu quando eu estava em Tiradentes, acompanhada do meu marido e dos meus sogros. Caminhando pelas bucólicas ruas de pedra, entrando e saindo de lojinhas de artesanato, acabamos numa especializada em cachaça. Eu entrei seguindo os três. Os três entraram seguindo o aroma da cachaça que parece fasciná-los. Não me surpreendi. Praticamente todos os programas que fazemos quando eles, chilenos, estão no Brasil envolvem cachaça em algum momento. Acontece também de, vez ou outra, meu sogro me fazer alguma pergunta sobre nossa famosa bebida. Já até pensei em dar respostas fantasiosas que me ocorrem, muito mais frutos da minha imaginação que dos meus conhecimentos. Mas, geralmente, respondo constrangida a verdade: “não sei”. Aliás, o pouco que sei sobre o assunto aprendi com as perguntas que os forasteiros me fazem sobre o tema. Uma vergonha. Afinal, sou brasileira. E o que é pior: sou mineira. Tenho obrigação de apreciar e entender tudo sobre cachaça. Pelo menos foi o que eu compreendi em nossa passagem pela lojinha de Tiradentes.

Meu sogro entrou na frente já fazendo perguntas sobre as cachaças vendidas ali. Meu marido foi atrás traduzindo para a vendedora com seu impecável portunhol. Eu fiquei calada porque: 1) o brasileiro definitivamente dispensa um tratamento mais polido aos estrangeiros do que a nós mesmos, então, por que não pegar carona nos privilégios alheios, não é mesmo? 2) Às vezes, muitas vezes, eu tenho preguiça de falar. Se passar por uma pessoa que não está entendendo nada do que está sendo dito e poder ficar calada sem pressão é muito relaxante. Experimente. 3) Eu realmente não entendo nada de cachaça, o que quer dizer que nem dúvidas sobre o assunto eu tenho a oferecer.

Empolgada com a presença de quatro estrangeiros na loja, a vendedora começou a discorrer sobre os efeitos terapêuticos da cachaça. Falou sobre os benefícios para os doentes, os idosos, os homens, até chegar na parte que me interessava (ou pelo menos deveria me interessar). Disse a moça que as mulheres mineiras tomam uma dose de cachaça diária (opa, tem alguém tomando duas. Uma no meu lugar). Devido a isso elas, as mineiras, não têm TPM (de soslaio vi meu marido arquear a sobrancelha) e nem passam pelos temidos sintomas da menopausa. E, além disso, chegam a viver até, ai ai, 120 anos.

Juro que eu não queria constranger a moça e pretendia manter minha identidade incógnita até o fim da venda. Mas as informações foram tão chocantes que não aguentei e deixei jorrar no estabelecimento toda a minha mineiridade. “Nuuuuuu, cê tá falando sério? Tô de cara. Capaz desse trem funcionar assim...”.

A vendedora ficou vermelha, confirmou o que havia dito e encerrou o discurso. Eu, por via das dúvidas, levei uma garrafa.

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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

PARA NÃO ESTRAGAR O MUNDO >> Carla Dias >>


Falar com o espelho é de praxe. E com a tevê, que se nega a passar os filmes que ela deseja assistir. Também com o beija-flor, que dá uma passadinha no bebedouro pendurado na varanda. Há dias em que fala com o teto, dá de discutir com ele a sua teoria sobre o silêncio.

No silêncio, faz as tarefas cotidianas. Às vezes, até dá espaço à música, mas a maior parte do tempo é o silêncio que acompanha a sua rotina. O que não significa que ela evite os longos monólogos, advertências e conselhos que costuma dar a si mesma, como se fosse outra pessoa que conduzisse a quase intervenção.

Para quem é conhecida por não falar palavra que seja, gerando comentários trágicos sobre sua saúde e apostas sobre uma possível voz tão irritante que melhor deixar no mute, até que ela é faladeira. Veja bem, mesmo com a cafeteira ela fala, porque há dias em que parece que o café fresco leva décadas para ficar pronto. Normalmente, isso acontece na manhã seguinte à noite em que o vinho fez o seu trabalho direitinho.

Fala com os livros que lê, intervindo no desfecho, morrendo de vontade de, às vezes, rabiscar a página e reescrevê-lo. Não raro, anda pela casa, explicando a si mesma que se tal personagem não convence, melhor seria se.

Melhor seria se...

Conversa online, nos finais de semana, com um grupo de ativistas que deseja mudar o mundo evitando estragá-lo. A forma que acreditam ser a mais eficiente de fazê-lo é não saindo de casa. Não é preciso dizer que eles não precisam trabalhar, não é mesmo? E que a geladeira cheia, a internet e a televisão tornam essa função menos desgastante. E que não sair de casa não significa estar proibido de receber visitas. Festas no exílio são recorrentes.

Mas para ela é estudo antropológico, porque gosta de saber o que as pessoas têm a dizer sobre assuntos tão importantes e as redes de salvação das quais dispõem, mesmo quando fazem de conta que elas não existem.

Ela sai de casa cinco vezes por semana, ausentando-se por sessenta horas, nesse período, quando o trânsito colabora com o ir e depois voltar do trabalho. Isso a desqualifica completamente para o grupo “para não estragar o mundo, fique em casa”, e assim, nada de carteirinha de filiada para ela.

Fala com o abajur, principalmente quando ele começa a apagar e a acender sozinho. Ela sabe que uma manutenção bastaria para deixá-lo tinindo de bom, mas ainda assim, discute com ele as facetas da culpa, assim como a sua possível autoria, e a complexidade da relação entre luz e escuridão.

Tem animadas conversas com as flores do jardim vertical que cultiva na parede da varanda. As tais estão escoladas no que diz respeito ao que faz a moça temer, desejar, arrepender-se, ousar. Tem íntimas conversas com as canções dos velhos discos a rodarem na vintage vitrola.

O zelador acredita que ela seja surda e muda, e se sinta tão frustrada com isso, que nem quis aprender Libras. Mas ele, que é homem dedicado ao trabalho, e ao trato com os moradores do prédio, aprendeu.  Já que ela parece não entender patavina do que ele diz, emitindo sons miúdos quando ele pergunta algo, grunhidos, ele se tornou voluntário em uma instituição que precisava de intérpretes. Ficou famoso no bairro como o Zelador Que Fala Com As Mãos. Na verdade, adotou o rótulo feito sobrenome. Ao conhecer alguém, oi, sou o Gregório Zelador Que Fala Com As Mãos.

O síndico, a vizinha do apartamento vinte e três, a assistente da limpeza, assim como o carteiro, todos acreditam que, na verdade, a moça sofra de aguda falta de educação.

Fala com o céu chispado, a lua cheia colada em sua tela. Há “por quê?”, “será?” e “quando?” envolvidos nessa conversa transcendental, e lenços de papel, que, vez ou outra, ela permite ser visitada pelas lágrimas.

Nas noites de sexta, a moça recebe em casa um colega de trabalho. Moço inteligentíssimo, prestativo, interessado, aparece para bate-papo informal sobre as regras que regem o movimento “para não estragar o mundo, fique em casa”. Como na casa dele não tem ninguém com quem compartilhar a experiência, ele exerce a função na casa dela, que fala com ele até a madrugada. Então, caem no sono, um nos braços do outro.

O advogado do apartamento sessenta e sete, a decoradora do quarenta e três, o professor de matemática da cobertura, o pastor do setenta e dois, o guitarrista do cinquenta e quatro, o cientista do quatorze,  todos eles acham que a moça não fala por pura tristeza, que pela insignificância da existência e da figura dela, não há o que celebrar.

O moço acha que a moça tem a voz que ele sempre quis escutar. E para não estragar o mundo, ele passa os finais de semana sem sair da casa dela.



Imagem: Mariana in the South © John William Waterhouse





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terça-feira, 12 de agosto de 2014

AOS GÊNIOS >> Clara Braga

Dei aquela olhadinha rápida no Facebook e fui tomar um banho. É bem verdade que eu não sou de tomar banho muito rápido, mas dessa vez parecia que eu tinha levado uma eternidade. Quando voltei, meu Facebook estava inteiramente tomado pelas notícias e pelos pêsames pela morte de Robin Williams.

Acho muito legal ver quando um artista consegue de fato tocar as pessoas de uma forma tão profunda que a gente acaba se sentindo um pouco íntimo dele. Com certeza Robin Williams foi um desses, pois os comentários são unânimes, uma grande perda. E então nos pegamos parando por alguns segundos em meio a essas nossas vidas extremamente atribuladas para desejar que ele vá em paz e que os que ficam possam ter forças para encarar essa situação tão pesada. No mínimo irônico, justo uma pessoa tão lembrada por nos fazer rir e trazer leveza para dias pesados, partindo em uma circunstância nada confortável.

O pior é que essa situação não tem sido nada incomum. Lembro das diversas vezes em que estava assistindo ao jornal e acabei comentando sobre o fato de eu achar que Deus às vezes sai para tomar um café e perde o controle de alguma situação. Nunca vi ninguém no jornal comentando a morte de alguém e falando: "ele era péssimo, não valia nada, nunca ajudou ninguém". Sempre ouvimos algo como: "ele era uma pessoa maravilhosa, só fazia o bem para todo mundo, fazia caridade, tinha um trabalho social maravilhoso, vivia pelos filhos" etc. E a gente fica do lado de cá se perguntando: será que é castigo morar na Terra? Porque os bons, Deus está levando.

Recentemente também nos despedimos de Ariano Suassuna e João Ubaldo Ribeiro, só comprovando a teoria do café. Isso sem contar o avião que foi derrubado junto com uma possível cura para a Aids e todos os anônimos que não são manchete de jornal, mas até deveriam ser. Os números são assustadores, diariamente morrem várias e várias pessoas que parecem que nasceram para fazer o bem. E para trás ficam as pessoas que tiveram a oportunidade de desfrutar das benfeitorias dos que partiram. 

O importante é que não deixemos que o legado dessas pessoas parta com elas, que sirvam de exemplo para a gente, e que nós possamos parar mais e mais vezes para desejar que todos aqueles que partiram, sejam Robins, Arianos ou Pedros, sigam em paz, e para todos os que ficam, sejam famosos ou não, que tenham força. Vibrações positivas são um dos maiores presentes que podemos dar aos outros e, o melhor, é de graça!

Hoje, peço licença para imitar a homenagem mais bonita das várias que vi para o Robin Williams, mas passo ela para o plural: "Gênios, vocês estão livres! Que descansem em paz!"


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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

AS TRÊS MARIAS (continuação)
>> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de http://www.cronicadodia.com.br/2014/07/as-tres-marias-albir-jose-inacio-da.html)

No sertão de Sergipe uma vila se chamou “Enforcados” desde 1606. Ali eram enforcados os índios durante o seu longo processo de “salvação”. No século XIX o povoado passou a se chamar Nossa Senhora das Dores, um nome sem dúvida mais digno. É claro que lá também chegou a televisão e as novelas, com as lindas imagens do Rio de Janeiro. Maria das Dores se lembra da cena e não gosta mais de novela. Nem da vida. Ela conta por quê:

— Eu queria ter morrido nova, como morreram meus três irmãos. Assim não dava esse desgosto a meu pai. Meu pai é homem bom. Deixava de comer pra dar comida pra nós. Não precisava ter acontecido. Eu nem gostava daquele traste. Pra mim foi o diabo. Eu andava pensando umas bobagens, uns pecados, e não fui me confessar. O tinhoso aproveitou. Agora nunca mais vou ver meu pai. Aqui não é ruim. Madame me trata bem. Tem freguês que é bom. Ruim mesmo é a vida. Sabe de uma coisa: a gente nasce pra sofrer e a vida é muito comprida!

O pai de Maria das Dores não gosta de novela, nem de televisão e não gostou da primeira vez da filha. Não gosta mais da filha, nem de madame. E tem uma versão:

— Cumpri minha obrigação e madame vem me oferecer dinheiro. Vê se sou homem de vender filha. Filha não, que não é mais minha filha. Levei ela pra lá porque não podia ficar mais em casa. Nem no povoado. Lugar dela agora é ali: casa de perdida. Foi o que ela procurou. Até que era uma boa menina antes. Pra mim foi a tal da televisão. Dia antes do acontecido, vi uma pouca vergonha danada naquela caixa do demo. E eram duas criança ainda, da idade dela. Mandei desligar na hora. Depois da desonra, quebrei aquele troço num monte de pedaços. Aquilo não é coisa pra entrar em casa de gente honesta. Bom, agora vou atrás daquele porco. Vai aprender a não desgraçar mais filha dos outros. Vai aprender na faca.

Madame também viu a novela, aliás, vê todas as novelas. Não se lembra mais de sua primeira vez, mas conhece as histórias de primeira vez de muitas meninas. E conhece Maria das Dores:

— Geralmente as meninas chegam sozinhas. Mas Dasdô chegou aqui pela mão do pai. Tinha sido desonrada e ele, pra não matar, trouxe ela pra mim. Disse que tava cumprindo obrigação de homem honesto, e que Dasdô tinha sido boa menina antes. Depois falou umas bobagens sobre televisão. Eu trabalho com mulher perdida há muitos anos e nunca vi ninguém se perder por causa de televisão. O cabra não aceitou o dinheiro que eu dei, inda parece que ficou emputecido. Gente mais maluca! Disse que tinha serviço urgente pra fazer — serviço de sangue. Credo em cruz! Foi embora sem nem se despedir. Bom, o que eu não podia era deixar uma menina assim bobinha na rua, né? Lembro que Dasdô ficou parada no meio do salão e arriou a trouxinha bem devagar. Depois andou até perto da janela e ficou espiando o pai se indo pelo caminho. Cheguei mais perto, mas não tive coragem de falar nada, e a sala ficou naquele silêncio comprido. O pai chegou na curva sem se virar. Dasdô falou baixinho “bença, pai”. O “b” de bença explodiu em mil pedacinhos uma lágrima que tava nos lábios. Tive pena da menina. Boa menina, a Dasdô.

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sábado, 9 de agosto de 2014

EM UBATUBA >> Sergio Geia

Ligo a máquina. Vou para o e-mail. Branco total. Cadê a senha? Procuro na memória. Nada. Tento uma. Outra. Clico em esqueci a senha. Digito o login, um código. Aparece um lembrete: “VIDA”. Putz! VIDA!? O que eu quis dizer com VIDA? Não me ajuda em nada. Vou tentando até que uma hora a ficha cai. Quer dizer, a senha. Parada sinistra, mermão!

Digito: “Fala Beto! Beleza? Não sei o que você tá aprontando, mas tudo bem. Aí vão algumas impressões sobre os dias que passei em Ubatuba, como você me pediu. Veja lá, hein?” Pulo uma linha e começo meu texto em formato de crônica.

A serra continua a mesma, meu querido. Quem é de Ubatuba, São Luiz ou Taubaté, já sabe. Mas quem não é se assusta. Oito quilômetros penosos, sem acostamento, curvas fechadas, descidão em segunda ou em primeira marcha. Outro dia o Governo duplicou a Tamoios. Quem sabe agora ele não olha pra nossa pobre Oswaldo Cruz. Tá precisando.

Desci a serra principalmente com a intenção de tomar banho de mar. Ah, um banho de mar... Dizem que renova a vida. Pois é. E purga a casca, o que é muito bom. Fui até a praia da Fazenda. Fica no Norte, quase chegando a Paraty. Conhece? Se não, tá na hora. É nela e somente nela que eu consigo ouvir o mar, ler a poesia que brota daquelas areias enfeitadas de sol. Não há barulho de cidade, nem poluição. Há mar. Apenas mar.

Na volta dei uma paradinha em Itamambuca, a praia do surf. Não sou surfista, bem sabe; só parei pra comer um bolo. Não qualquer bolo, mas um belo de um bolo de cenoura. Trata-se de uma vendinha que fica do lado direito da estrada que dá no mar. Recomendo.

Recomendo também as tainhas da Festa do Divino, da Paróquia Exaltação da Santa Cruz, lá na Matriz. Faz anos que venho pra festa. O peixe, que se assa em churrasqueira, recebe apenas sal grosso; acompanham arroz, farofa e maionese. Serve bem, o ambiente é familiar. Durante semana a quermesse é boa. Pouca gente, sem confusão. Tem doces, tem bolinho caipira. Dá pra comer tranquilamente, mas dia de semana!

Sabe que andando pela orla estranhei a ausência do estimado Zé de Anchieta!? É que próximo à feirinha tinha lá uma escultura dele escrevendo na areia. Está certo que os vândalos não deixavam o pobre em paz. Quase sempre o encontrava com um braço faltando, sem um dedo, ou mesmo com o pauzinho quebrado. Dizem que Anchieta escreveu seu famoso “Poema à Virgem” naquelas areias da praia do Cruzeiro. Você conhece o Poema à Virgem?

Numa das manhãs encontrei um homem que se jogou ao mar carregando apenas prancha e remo. Parei pra olhar. Essa visão não só daria uma crônica, mas uma bela de uma crônica. Andei pesquisando. Dizem que se chama stand up paddle. O esporte é sucesso no Rio. Ele avançou, avançou, depois virou um risquinho.

Belas imagens, amigo. Belos dias. Mas tive que interromper a farra antes da hora e voltar a Taubaté, a fim de protocolar uns documentos importantes na Academia Taubateana de Letras. Eles por lá estão recebendo novos acadêmicos, e eu, com meus escritos, minhas crônicas e meu solitário “Confidências”, resolvi oferecer o meu nome; quem sabe vir a integrar tão respeitada instituição. Quem sabe.

Anjão: é mais ou menos isso. Veja aí o que vai aprontar, hein?

P.S.: mudaram Anchieta de lugar. Depois que vi. Ele inteiraço numa fonte!


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