quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

MINUTO DE SILÊNCIO >> Carla Dias >>

Sorri, faz reverência e então...

Ao seu redor, boquiabertos e arrítmicos, os outros o observam. Alguns até ousam lançar ao vento seus comentários destecidos: o que pode um ser humano desses querer da vida, dando-se ao desfrute de desfilar tal afronta durante o minuto de silêncio?

Há muito tempo, o minuto de silêncio se tornou a forma mais cativante de angariar compadecimento, vencendo todas as campanhas publicitárias de tarimbadas agências. Quem lançou a moda, e ajudou a torná-la orgulho mundial, foi um ator não muito conhecido, que, por puro partidarismo emocional – era marido da estrela principal – acabou ocupando o cargo de mocinho corajoso em um badalado filme de Hollywood. O fiasco foi inevitável, que não houve roteirista e diretor que desse jeito na falta de talento do moço. O que os envolvidos com o filme não esperavam é que seria ele - quem se tornara a piada da vez e o ex da estrela principal do filme – que mudaria o mundo.

A atriz principal se retirou do relacionamento valendo-se da deselegância gritante de romper com ele durante um popular programa de entrevistas, enquanto o desergenizado mocinho jantava com a mãe, assistindo ao programa. A mãe achou que “até que ela foi fofa, meu filho”. Ele chorou a noite inteira.

Na tentativa de se desculpar pela falta de talento e dedicação à nobre profissão, pediu que o mesmo programa o recebesse, e foi atendido de imediato, que não há nada que dê mais ibope do que lavação de roupa suja de celebridades em programa de tevê ao vivo.

A entrevistadora, uma experiente jornalista, especializada na arte da dramatização da vida alheia, excitadíssima com a exclusiva – e por estar ao lado de tão bem-apessoado ator -, fez logo três perguntas para o moço, que, contradizendo a fama de falar mais do que devia, calou-se, encarando o vazio, como se nunca tivesse se colocado de frente às câmeras.

Todos se calaram com ele. Durante um minuto, devidamente cronometrado, o silêncio foi total e em uma grande parte do mundo. O olhar dolente, o aspecto de quem vem ruminando sofrimento, aquele desalento todo fez com que os olhos da entrevistadora marejassem.

Um minuto depois, o ator se mostrou digno do título, mas foi sem querer. Coração partido, ele levantou os olhos, encarou a câmera e disse, voz rascante, “perdoem-me por existir”.

O ator, que de ator realmente tinha nada, arrebatou os espectadores com a conclusão a qual chegou. Não foi atuação... Era claro que ele se sentia tão desvalorizado, e estava completamente ciente de sua inabilidade como interpretador de personagens, que realmente não via motivo para a própria existência.

Não há nada mais poderoso do que um momento de crendice absoluta a respeito de um absurdo. As pessoas que realmente não mereciam existir – desculpem a honestidade escancarada dessa narradora, mas há pessoas que fazem por merecer serem incluídas nessa categoria –, bom, elas jamais diriam isso ao mundo, tampouco pensariam dessa forma sobre si mesmas.  Mas o ator, por mais desprovido de talento que fosse para o ofício, interpretou sua verdade de forma tão delicada, daquele jeito que faz coração apertar, olhos lacrimejarem (isso nunca tinha acontecido com a apresentadora escolada em escândalos!), consciência ser acessada sem defesas, que suas redes sociais, que sempre foram palco para destilarem as piores frases feitas, foram empanturradas, em horas, com mensagens de apoio.

Após o ocorrido, um político, assumidamente apaixonado por cinema – secretamente, um ator que deu muito certo, mas não nas telas de cinema, e sim nos palanques –, fez um pronunciamento em rede nacional. Todas as emissoras de tevê e canais da internet transmitiram ao vivo... Porque ao vivo é mais emocionante. Com esse pronunciamento, sobre a divindade do espírito do ator, ele alcançou a todos, até porque a sua equipe de tradutores garantiram legendas de primeira. Foi assim que o péssimo ator ganhou não um dia do ano para ser comemorado, mas um dia por semana para ser celebrado... Ainda que por apenas um minuto.

Silenciosamente.

Isso se deu logo após o ator pular do quadragésimo terceiro andar do seu prédio, o que tornou sua declaração no programa de tevê ainda mais significativa. Ficou estabelecido, então, o minuto do silêncio, quando o mundo se cala para escutar esse milagre livre dos sons das britadeiras que nunca param de trabalhar. O momento em que todos lamentam os que já passaram por esse mundo complexo, repleto de programas de entrevistas ao vivo e celebridades tão instantâneas quanto certas sopas. E tão insossas quanto, também...

Com hora marcada para acontecer - uma forma de pagamento adiantado pelas perdas que virão, não importa quais ou as condições do ocorrido -, toda sexta, às três da tarde, o mundo para e silencia durante um minuto.

Esse outro homem, que nunca desejou ser ator e gosta do emprego que tem, ele até que aprecia o silêncio. Porém, cansou-se de silenciar em nome do que ninguém sabe explicar do que se trata. Pobre do ator, que foi uma pessoa que morreu foi de coração partido sendo completado com uma bela queda. Mas esse silêncio... Ele gosta de silêncio, mas os da sexta às três da tarde lhe parece infligido, feito uma lei criada para desamparar cidadão.

Ele sorri, faz reverência, e então começa a cantar. Canção preferida, com mensagem que é uma lindeza. Além de cantar, ele dança pela praça, como se ela fosse palco. Ao seu redor, trinta segundos de pessoas em silêncio, loucas para repetirem refrão, que é mesmo uma ótima canção. Eles se seguram até os quarenta e cinco segundos, quando o homem volta ao refrão, e com eles, milhões soltam a voz.

Ele foi convidado para o programa de tevê ao vivo. Educadamente, não aceitou o convite. Ganhou milhares de amigos íntimos em algumas horas, mas não deu certo. Amigo mesmo ele já tem, e não é fã dos instantâneos. Aos poucos, as pessoas aprenderam a esquecê-lo, apesar de, às vezes, mencionarem a quebra do silêncio magistral que ele protagonizou, durante suas conversas.

O político até tentou inventar um dia inteirinho para ele, com direito a ser incluído no calendário como feriado. O homem sorriu, mais uma vez, e pediu ao político que apenas cuidasse bem do seu ofício, que assim, estaria cuidando bem das pessoas que acreditaram nele.

Às vezes, o cantor se lembra do ator, e faz silêncio durante um minuto, às sextas, às três horas da tarde.

Imagem: The Actor © Pablo Picasso

carladias.com

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

DIA DO AMIGO >> Clara Braga

O facebook quase me enganou! Aliás, eu e muitas pessoas ficamos nos perguntando: mas já é dia do amigo de novo? Ou então: tem mais de um dia do amigo por ano agora? Mas não era nada disso, era apenas aniversário dessa ferramenta que nos aproxima de amigos antigos e perdidos, mas que as vezes nos afasta dos que podiam estar mais próximos.

Dei uma olhada no vídeo que me foi sugerido, provavelmente uma escolha de amigos que se baseia na interatividade na própria rede, o que fez com que algumas pessoas ali nem fossem assim tão amigos, mas valeu pelos momentos que foram relembrados. Mas os insatisfeitos tinham a opção de editar e colocar lá as fotos que eram mais significativas.

Se eu tiraria alguma foto ou algum amigo? Talvez. Mas com certeza adicionaria uma pessoa com quem não tenho contato há muito tempo, mas que é muito significativa: a minha primeira melhor amiga!

Já pararam para pensar na importância do primeiro/primeira melhor amiga/amigo? É com o primeiro melhor amigo que começamos a aprender regras básicas de convivência. Aprendemos a dividir quando compartilhamos nossos brinquedos, aprendemos a ajudar quando sentamos pra fazer a tarefa de casa juntos só para descermos mais rápido para brincar, aprendemos a controlar nossa primeira crise de ciúmes quando aparece uma amiga nova para brincar e sentimos nosso posto de melhor amiga sendo ameaçado, até que percebemos que para brincar tem sempre espaço para mais um. 

É também com o primeiro melhor amigo que compartilhamos as primeiras broncas. Nunca vou esquecer do dia em que eu e minha melhor amiga trouxemos um filhote de cachorro escondido dentro de uma mochila da chácara dela. O pai dela já tinha avisado: nada de levar cachorro da chácara para casa! Mas ele era tão bonitinho que nem pensamos que estávamos quase matando o cachorro sufocado dentro da mochila. Quando chegamos em casa foi só o tempo de dar uma água para o cachorro, levar uma bronca e voltar para a chácara para deixar o bichinho lá. Pelo menos a viagem de volta foi fora da mochila.

Uma vez levamos bronca do porteiro do prédio também, já que toda data comemorativa a gente gostava de colar mensagens de feliz ano novo ou feliz páscoa com papel e durex na parede branquinha. Tenho certeza de que os vizinhos gostavam.

Enfim, foi com minha primeira melhor amiga que dormi fora de casa pela primeira vez, mesmo sendo na casa dela e ela sendo minha vizinha de porta parecia que eu estava em uma super aventura de gente grande. Foi com ela que fui ao shopping sem meus pais para assistir a um filme que era proibido para a nossa idade e ainda jogamos pipoca na cabeça das pessoas que estavam sentadas na frente. Foi com ela que gritei até não poder mais naqueles brinquedos super radicais dos parques de diversões, que andei de cavalo, que chupei cana de açúcar, que andei de patins e de bicicleta, que joguei jogo de tabuleiro, que inventei muitas histórias brincando de barbie e mais um monte de coisas que não caberiam em um crônica só, mas o mais importante é que é com a primeira melhor amiga que a gente aprende a ser amiga, e essa é uma das lições mais importantes da vida.

Hoje em dia não tenho mais contato com a minha primeira BFF, mas as vezes acompanho suas fotos no facebook e vi que o tempo passou mesmo, ela já é mãe! Quem diria, parece que faz tão pouco tempo que estávamos brincando no bate bate e comendo promoção do McDonalds por 5 reais apenas. 

O facebook não teria como saber, mas essas sim são lembranças que não devem ser esquecidas, afinal, as que hoje estão registradas lá só foram possíveis por causa dessas que estão registradas em fotos antigas em algum álbum perdido por ai e, claro, na minha memória, que pode ser ruim para muitas coisas, mas essas lembranças não teriam como serem esquecidas! 


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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

REVERTERE AD LOCUM TUUM - 2ª parte >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 25/01)

O telefonema que desencadeou a crise tinha vindo de um Hospital em Angra dos Reis.

Na semana passada, deslumbrado com uma escultura que viu no Cemitério do Caju, Augusto foi à Ilha Grande procurar o artista e encomendar um busto em mármore para coroar o seu chalé.  Disse à família que viajava a trabalho, a verdade só o Durval sabia.

Durval sempre sabia. Era o único que apoiava a empreitada de Seu Augusto. “É o desejo dele. Tem que ser respeitado”, dizia. Numa tarde sonolenta, Augusto tinha chegado à funerária, humilde e falando baixo. Durval, acostumado com a dificuldade desses momentos, também falava baixo, atencioso e prestativo. A conversa avançou e ele descobriu que Seu Augusto não tinha um defunto, mas tinha muitas perguntas.

- Seu Augusto, tem jazigo de todo preço, mas, uma vez adquirido o espaço, o senhor pode ir melhorando, valorizando, é como uma casa.

Augusto não se preocupava com a morte, “todos morreremos algum dia e isso não é bom nem mal, é a vida”, dizia. Mesmo o pós-morte, assunto que considerava mais sério, não lhe tirava o sono. O que lhe coubesse, aceitaria. Também não se importava com roupas, carros e casas. Andava de ônibus, só tinha roupa de trabalho e morava de aluguel.

Mas de alguma vaidade ninguém escapa e a de Augusto, mais que uma vaidade, era uma obsessão: não ser enterrado como viveu, repousar num lugar que recompensasse sua vida de privações. Há anos visitava cemitérios para observar a arte, a arquitetura e a beleza dos túmulos. Em casa, escondido da família, visitava sites especializados, fazia desenhos e planos.

Quando conheceu Durval, foi amizade à primeira vista. Juntos planejaram e executaram, de modo a caber no orçamento de Seu Quincas – não sem sacrifícios - a compra, construção e embelezamento de um “lugar decente, debaixo de uma árvore frondosa, numa alameda discreta, longe da via principal, mas encantadora”, dizia Durval.


                                                                        O NAUFRÁGIO

Agora Dona Quinca estava sedada e algemada numa maca, sem previsão de alta. Tinha apanhado bravamente de policiais e enfermeiros antes que a injeção a tranquilizasse. Já estava sonolenta quando ouviu a voz de prisão por desacato, lesão corporal e dano de mais de vinte mil reais.

Mas onde estava o Augusto?

Na volta da Ilha, Augusto imaginava já a escultura pronta, enfeitando o seu mausoléu, quando a lancha bateu numa pedra e afundou. Felizmente salvaram-se todos, resgatados por outra embarcação, mas Augusto chegou desacordado ao hospital por conta de uma pancada na cabeça durante os embates do naufrágio.


Sem documentos, Augusto acordou três dias depois no Hospital de Angra dos Reis e informou o único telefone que sabia de cor, o da funerária. A assistente social fez a ligação, interrompendo a compra e venda que já estava assinada.

(Continua em 15 dias)


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domingo, 7 de fevereiro de 2016

10 VERGONHAS DUPLAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Estou com vergonha de escrever esta crônica e tenho vergonha de ter vergonha.

Tenho vergonha de dormir enquanto outras pessoas trabalham para mim e tenho vergonha de lhes pagar um salário que eu mesmo não aceitaria se fizesse aquele tipo de serviço.

Tenho vergonha de ganhar dinheiro e tenho vergonha de gastar dinheiro.

Tenho vergonha de me vestir bem e tenho vergonha de ficar nu.

Tenho vergonha ao ser repreendido e tenho vergonha ao ser elogiado.

Tenho vergonha dos meus sonhos e tenho vergonha de invejar os sonhos realizados dos outros.

Tenho vergonha de olhar e tenho vergonha de ser olhado.

Tenho vergonha de dizer o que sinto e tenho vergonha de não sentir o que digo.

Tenho vergonha de escrever coisas bem específicas e tenho vergonha de estar escrevendo coisas genéricas.

Tenho vergonha de falar das minhas vergonhas e tenho vergonha de lhe perguntar: Quais são as suas vergonhas?

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sábado, 6 de fevereiro de 2016

NA FAIXA >> Cristiana Moura

            E por um segundo a menina parou. Doou-me um sorriso. Não sei quem é nem seu nome. É miúda, penso que tenha quatro ou cinco anos aproximadamente. Eu sorri quase que por um reflexo pleno de gratidão.

            Puxada pela mão ela atravessava a faixa de pedestres saltitando. Quase ao fim da travessia olhou para mim novamente como se fossemos velhas conhecidas. Já do outro lado da rua, após uma lenta lambida num picolé cor-de-rosa, seu olhar mais uma vez cruzou o meu com a cumplicidade de quem explicava sua alegria prévia ao atravessar a faixa.


            — Meu Deus, que possamos compartir os sorrisos que nascem das pequenas coisas.


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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

POSSIBILIDADES NO EXISTIR >> Paulo Meireles Barguil



ASSISTIR

CONSISTIR

DESISTIR

INEXISTIR

INSISTIR

PERSITIR

RESISTIR

SUBSISTIR

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

À PROVA DE LÁGRIMAS >> Carla Dias >>


Conversava com um amigo sobre séries de tevê, especialmente sobre uma que outro amigo me indicou e eu não consigo parar de assistir, How to Get Away with Murder.

Acho que devemos ser gentis com uma conversa. Quando entro em uma, estou pronta para seguir o rumo que ela apontar. Nesse acaso, acabamos nos filmes e séries em que a tecnologia impera soberana, como acontece em Black Mirror. A partir daí, as coisas ficaram mais complexas. Entraram na conversa as questões existenciais, e meu amigo começou a me explicar o quão científico é muito do que penso em tom poético.

Black Mirror | Episódio: Fifteen Million Merits | 1ª temporada
Tudo o que remete à inteligência artificial me assusta, não pela descoberta em si, mas pelo hábito do ser humano de se deslumbrar com o poder que adquire e consigo mesmo. Tenho essa impressão, que me incomoda de um jeito, de que não estamos prontos para tratarmos as descobertas que já estão ali, batendo na porta, com a responsabilidade que elas exigem.

Algumas horas depois dessa longa conversa sobre séries, filmes, inteligência artificial e a longevidade do planeta, eu observava outro amigo usando o celular para anotações de voz... Desculpe, mas não sei dizer diferente. Você fala e o aplicativo anota na agenda do celular.

Antes de continuar, e para que vocês entendam o motivo de eu me sentir, como posso dizer... Impressionada, saibam que eu uso o celular como telefone mesmo. Tenho um único aplicativo de mensagens e um para fotos, e pronto. Ah! Às vezes, mentira, muitas vezes, eu me esqueço de que ele existe.

Perguntei se a agenda do celular funcionava para ele, porque eu nunca fui boa com agendas, de papel ou eletrônica. Enquanto me mostrava o funcionamento do aplicativo do celular, botei reparo de que o tal respondia a ele. Comentei que achava interessante e ele decidiu me mostrar uma forma diferente de usar o aplicativo. Ele fez a mesma declaração três vezes:

Hoje estou muito triste.

A moça do aplicativo deu a ele três respostas:

Você pode chorar, se quiser. Minha superfície de vidro de aluminossilicato é à prova de lágrimas.

Eu ofereceria um ombro para chorar... Se eu tivesse um.

Pelo o que eu entendo, a vida é triste, bela, e tudo o que há entre uma coisa e a outra.

Ela (Her)
Depois disso, fizemos alguns testes, mas a moça parece não ter gostado muito das nossas perguntinhas. Mas o que não deu para evitar foi pensar naquele filme, Ela (Her/2013), em que Joaquin Phoenix se relaciona profundamente pela voz que comanda um sistema operacional de seu computador.

Falar sozinha? O tempo todo. Pedir conselhos a si mesma? Idem. Responder ao “Boa noite” do âncora do jornal? Sempre. Aconselhar personagem de filme a não abrir a porta? Definitivamente! Abrir o “Minutos de Sabedoria”, antes de sair para uma viagem ou dar segmento àquela mudança? Pois é...

Lembro-me de quando tive de ligar para o Serviço de Atendimento ao Consumidor de uma operadora de TV a cabo, e me peguei morrendo de raiva, e não pela falta de profissionalismo que reina pelos SACs da vida. As mensagens gravadas, que respondem às informações cedidas pelo cliente, foram gravadas como se uma pessoa conversasse, em linguagem bem informal, na tentativa de criar certa intimidade com quem ligava. Percebi ali que boa parte das pessoas poderiam sim acreditar que falavam com um ser humano presente, não com uma voz emprestada a um software, que tem uma agenda a seguir. Fiquei imaginando as pessoas conversando com as atendentes, sem obter resposta. Mas não é o conforto de não escutar uma voz metálica ao telefone que me intriga, mas sim o fato de que, se com as pessoas já era difícil obter respostas rápidas e justas, com as máquinas, programadas para ignorarem a necessidade do cliente, e guiá-los como desejam, aonde iremos parar?

A tecnologia não me assusta. É natural o caminho da descoberta. O que me assusta profundamente é a forma como o ser humano lida com ela. Assim como oráculos, política, religião e opinião própria, quando o intuito é a manipulação.

E o que será que será? Vou perguntar ao celular do meu amigo.

O que não negocio são as emoções. Não sou à prova de lágrimas, tampouco de gargalhadas. E que assim continue.


BLACK MIRROR






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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

DEPOIS DE TODO AQUELE TEMPO >> André Ferrer

O problema estava naquilo que era ser um professor de Química e sempre discutir a vida em termos de reagentes e produtos. Naquilo que sempre tinha sido transpirar e urinar Lógica. De repente (à luz de um sol que degelava um embrião esquecido), descobriu-se.

Na padaria, inacreditavelmente, deixou passar o tubo de reações "desbalanceadas" do “tiozinho” da caixa. Tolerou, minutos depois, a entrópica ignorância do jornaleiro.

No carro, à “Rádio Que Toca Notícia”, preferiu uma que tocava música e o repórter do helicóptero, dito “fodão do real time”, nem foi lembrado. Trânsito sem oráculo. Dia deixado à ventura.

“Noto que comprou jornal! E que tal?!”, disse o chato na entrada do colégio. “Derrapou, de novo, aquele ‘seu’ herói delator! Hein? Hein? Hein?”

Mesmo sendo minoria – no pátio e na vida –, o bedel não incomodou. Quis. Ardeu. Desejou. E, decerto, como se aquilo fosse o ar de todas as manhãs, aspirou! Inútil. O professor de Química deu de ombros para a política (depois de todo aquele tempo se importando, até que estava feliz).

“Hein?”

Na sala dos professores, uma cordilheira de caninos, molares e incisivos contra um céu escarlate de bocas. Enfim, a matilha. “Tantos anos”, ele não perguntou, “e quando foi mesmo que o macho alfa rejeitou um recém-nascido?”

“As notícias! Ontem. Você já sabe.”

“Lobo”, não disse, “olhe para trás e aprecie a fila de cheiradores de traseiro!”

“Hein?”

Na sua defesa com alma de ataque, o professor de Química disse apenas “bom dia” (porque, afinal, tinha renascido).

“Queridos”, não disse.

“Queridos, a guerra por mim não é.” Com todas as forças, não quis dizer (porque renascer é duro é duro é duro). E foi nessa calma, nesse paraíso, nessa tranquilidade em forma de um cancã de pernas e rabos entremetidos que tudo mais, a manhã e a tarde e o dia, transcorreu.


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