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Postagens

GOTINHAS DE CHUVA >> Nádia Coldebella

O barulhão das nuvens agitadas fez Aninha olhar para cima. Plim! Uma gotinha caiu suavemente no seu nariz. Era uma coisa pequena. Bem pequena. Praticamente imperceptível. E bem sem importância. Então ela resolveu esquecer e voltou a brincar na areia do parquinho. 
 Cavou um buraco com as mãos e colocou a Barbie deitada dentro. 
 - Fica aí, Flor. Tem gente na porta - Ela havia feito um quadrado no chão e entrara dentro. Brincava de casinha. - A mamãe não está. Dá licença que a Flor tá me esperando.- disse de cara fechada, fazendo de conta que estava brava pelo incômodo. 
 Aninha alisou primeiro seus cabelos há dias sem pentear. Depois, fez o mesmo com os cabelinhos de plástico da boneca, ajeitando sua roupinha. O vento havia trazido algumas folhas que a criança depositou, sistematicamente, sobre ela. 
 - Vamos cobrir você. - e colocou a última folha sobre o rosto da Barbie. 
 Tirou de uma caixinha de plástico o seu achado da tarde: uma colher minúscula, dessas que se usa para mexer ca…
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IGNORE O VAZIO >> Carla Dias >>

Que hoje não é dia de aceitar o vazio.
Comprometeu-se a executar tarefas simples, a fim de manter a mente pronta para a próxima ideia, para a possibilidade seguinte, o porvir. Um empresário de silêncios dramáticos – os filmes estão repletos deles – até se propôs a arquitetar um plano mirabolante para enganar o incômodo e conceder a ela um pouco do conforto da ignorância.
Não aceitou, porque a ignorância lhe parece de um desconforto infinito e ela aprecia desfechos.
Que hoje não vai dar oportunidade para que o vazio a domine e a transforme em um pedaço de carne a se arrastar pelas calçadas da cidade. Vazio faz isso de reduzir a pessoa ao menos que ainda a permita respirar. 
Não é morte, mas abandono nevrálgico.
Porém, ela tem um plano. Acredita que alegria, horror e dor duram um dia. Depois do sono, apaga-se a urgência, desmistifica-se a importância do abatido e a existência volta ao ponto em que não faz diferença. 
Nada pulsa, apenas está ali.
Deita-se no saguão. Lá fora, o sol disfa…

PRECISO DE UM BANHO >>Clara Braga

Tempo é sem dúvida um dos bens mais valiosos e escassos dos últimos tempos! Quem nunca disse a frase: adoraria, mas estou sem tempo, precisa ganhar o Nobel da Paz!
Entre as pessoas que melhor sabem organizar e aproveitar seu tempo estão as mães. Não é que quando o filho nasce a mãe automaticamente se torna uma mágica e dobra o tempo, mas a situação a obrigada a se virar nos 30.
Justamente por isso, quando mães conversam e trocam ideias sobre como otimizar seu tempo, eu sempre paro e escuto atenciosamente, pois a chance da dica ser extremamente valiosa é grande!
Outro dia ouvi uma dica tão sensacional que não poderia deixar de compartilhar. Duas amigas mães conversavam e uma delas disse que tinham algumas comidas que ela ainda não achava adequadas para oferecer para o filho, mas que ainda assim ela comprava e aproveitava para comer quando ele estava dormindo, mesmo que para isso ela precisasse deixar de usar o cochilo do filho para descansar também!
Foi então que a outra mãe disse: nã…

olhos azuis >>> branco

poemas em 6 atos*
ato I
às vezes sentado na poltrona da varanda com meus amigos inseparáveis - a cerveja os cds e o cigarro - ouço vozes que me chamam são vozes que se misturam voz com olhos azuis a voz do raro sorriso ainda outras - amigas -  também me chama a voz do assassinado concentro-me no que dizem percebo que não existem imprecações nelas apenas inúteis lamentos ouço-as enquanto olho para a parede que está em minha frente

uma breve e agradável interrupção me afasta do meu mundo dois seres vivos - a quem também chamo de amigos - chegam trazendo vinho e mais cervejas ajeitam-se em outras poltronas em frente à parede conversamos muito - rimos muito -  com as coisas mais rotineiras mas a noite começa a cair lentamente e o silêncio aumenta agora apenas bebemos

ilustração de Ana Betsa publicado originalmente no livro 7
*seis poemas independentes nos quais personagens e situações se entrelaçam formando o quadro de um desastre

VENDE-SE >> Fred Fogaça

As mãos se agarram a imediates com a força de evitar precipitações: ora, a velocidade - pouca, confessemos - corta o piche à base de más impressões.
Eu tenho medos palpáveis que não consigo controlar.
Esperei um aniversário de tempo por esse dia em que não fosse intermediar as voltas com o cobrador: mas agora é tudo ansiedade e desconfiança.
Seus ferros se correm de rancor.
A maquina que corta as más impressões cospe suas disfunções na minha cara e eu... bem, eu nunca estive em menos poder. Quando giro o contato que lhe vocifera às entranhas incinerações autoinfligidas, eu já lhe estranho os humores.
Devo desfazer-me dessas ameaças.
Às vezes me estranha a selvageria moderada da vida tradicional, essas afrontas na mão mole.
Quando eu paro, às vezes, por um momento só, e perscruto a natureza irremediável da realidade eu só constato o que já deveria e ainda assim me estranha. Explico: é pessoal, seu problema sempre foi eu.
Por isso devo repassá-lo, é por que me afronta, é porque eu lhe …

NUM SÁBADO DE OUTONO >> Sergio Geia

Ela tinha um trabalho. 
Com a retribuição desse trabalho pagava as contas, jantava fora, de vez em quando viajava, tomava uma taça de vinho em casa assistindo a La la land, ou Nasce uma estrela, ou Woody Allen, que ela adorava, renovava o guarda-roupa, pedia pizza, ou chinês, ou árabe, ou japonês, ou mexicano. 
Ela tinha boa saúde. 
Dormia bem, tinha apetite, não sentia dor. Esses componentes presentes em sua vida atestavam para ela que por dentro tudo ia bem. Além do mais, não tinha nenhum problema, desses graves, diagnosticado, não tinha AIDS, nem câncer, nem cardiopatias. Ia ao médico regularmente (embora os médicos tivessem abandonado o seu plano), fazia exames, musculação, corria, comia salada, frutas, deu até pra meditar. 
Ela tinha amigos. 
De vez em quando nos reuníamos pra beber, comer, jogar conversa fora, tínhamos um grupo no whatsapp pra bate-papo, trocar figurinhas, sempre nos comunicávamos sobre velório do pai de um, da mãe, da amiga de outros tempos, consolávamos, conf…

FRUSTRAÇÃO >> Paulo Meireles Barguil

  Ontem de noite, antes de eu dormir, elas estavam aqui.

Eu fui me deitar tranquilo, pois já sabia sobre o que escreveria hoje.

Ao acordar hoje, contudo, descobri que a minha ideia, dessa vez, não se tornaria realidade.

As frutas novinhas estavam no chão.

Algumas abelhas ainda se alimentavam do que elas deixaram antes de cair.

Pode ser que eu consiga fotografar daqui a alguns dias, quando as próximas saírem.

A frustração só não é maior porque consegui redigir uma crônica.

Vida que segue...


[Eusébio – Ceará]

[Foto de minha autoria. 13 de setembro de 2019]