sábado, 14 de julho de 2018

HISTÓRIAS BONITINHAS >> Sergio Geia



  

Estava pensando em escrever algo bacana para vocês. Na verdade, estou aqui, sexta-feira 13, sentado à mesa, na mesa onde costumeiramente trabalho, com a tela do computador aberta, com a sacada aberta, com esse céu cinza, esse frio matinal que faz doer o corpo, essa ressaca de Brasil pós-Copa, imaginando algo bacana pra dividir com vocês.

Mas sabe que nada me vem? Ando pensando: estou com uma dificuldade enorme de encontrar assunto. Talvez ande mais exigente (e estou), e hoje, não é qualquer coisa que me faz sentar à frente do computador e escrever. Também não sou do tipo que pega uma tela em branco e começa a escrever, a história flui, em pouco tempo está lá, nascida, vivíssima da silva. Eu sempre preciso de um esboço, uma ideia, saber o que vou contar. Aí sim, eu sento e escrevo.

Semana que vem estarei em Sampa participando de uma oficina de crônicas com a Ivana Arruda Leite. Vou aprimorar minhas habilidades cronísticas, e aproveitar pra passear um pouco, comer bem, dar umas voltas, quem sabe um museu, ou show, e estudar um pouco.

Espero voltar mais criativo, vivo (Deus! Ultimamente vejo tanta violência na Frei Caneca!) e com histórias bonitinhas para contar.




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sexta-feira, 13 de julho de 2018

RISCOS E RECOMPENSAS >> Zoraya Cesar

O clube era pequeno, escondido por uma porta sem letreiros em uma rua de pouco movimento. Só algumas dezenas de pessoas sabiam onde ficava e seus frequentadores não faziam parte da sociedade comum.   

Piso e mobiliário de madeira, estofamento de couro, luminárias vintage. Tudo caro e de boa qualidade, mas, ainda assim, o ambiente era sóbrio e discreto. Um sofá ocupava todo um lado da parede, deixando espaço, no salão, para a circulação do único garçom e para um ou outro raro casal que se arriscasse a um cheek to cheek ao som que saía dos alto-falantes embutidos. A música era alta o suficiente para evitar que se ouvisse a conversa alheia, mas não tanto que impedisse o colóquio entre os ocupantes de uma mesma mesa. 

Os móveis estavam dispostos de modo a não comportar mais que duas pessoas em cada mesa, seu diâmetro pequeno sugerindo que ali não era lugar para lautas refeições ou pratos elaborados; no máximo, um drinque, uma taça de vinho, uma flûte de champagne e, apenas para matar a fome ou ocupar a boca nos momentos de silêncio, um pequeno prato de massas.

A mulher parecia acuada entre os dois homens,
indefesa e acabrunhada.
As aparências enganam, dizem.
A exceção a essa disposição era a última mesa, onde cabiam três pessoas. Essa mesa, especificamente, era a única ocupada naquela noite. Se o clube acabara de abrir e os outros clientes ainda não haviam chegado, ou se estava prestes a fechar, e aqueles eram os últimos a ficar, não saberia dizer. Mas o fato é que apenas três pessoas ali estavam, ocupadas em seus afazeres e pensamentos.

Perto de um dos homens, uma garrafa de vinho já pela metade e uma taça, apenas para ele. Careca, barrigudo, seu bigode farto e escuro fazia-o assemelhar-se, longinquamente, a uma versão piorada do detetive belga Hercule Poirot. Uma de suas mãos estava sobre a mesa; a outra, aproximava-se, lentamente, do braço da mulher sentada ao seu lado. 

O outro homem falava ao celular, uma das mãos encobrindo a boca, ou para que seu ouvinte o escutasse melhor, ou para abafar a voz, ou, quem sabe, para evitar uma leitura labial, caso estivesse sendo filmado (o que era uma tolice. Ele não sabia, mas, naquele clube, pessoas entravam e saíam sem que nada fosse registrado ou que, depois, pudesse redundar em provas ou testemunhos). Os dois homens se olhavam, num entendimento tácito de que estavam ali por um mesmo interesse. Usavam ternos e gravatas, mas não eram elegantes. Pareciam subalternos, não chefes. O que faziam, então, ali, naquele clube privé? Quem os teria deixado entrar?

Talvez a moça sentada entre eles tivesse alguma explicação. Pois fora ela quem os convencera a entrar ali.

Muito branca, quase leitosa, os braços bem torneados e a curva dos seios à mostra no vestido preto de alças finas e decotado. Bonita. Sensual. Trazia o semblante levemente fechado, no rosto semi-escondido pela grossa franja de cabelos negros. 

Estava ali como profissional da noite. E a noite de cão já começara com aqueles dois, uma noite que ainda não terminara e estava, possivelmente, longe de acabar. 

Ela sabia que o sujeito ao telefone estava combinando entregá-la ao prazer de outro homem, como brinde. Era importante que fossem vistos em companhia de uma escort girl como ela, de luxo, um sinal de status. Oferecê-la e tratá-la como objeto fazia parte do jogo, pensavam eles.

Ela bem sabia o que esperar. Primeiro, teria que aguentar as carícias incômodas e repulsivas daqueles homens até que o convidado chegasse. Teria, então, provavelmente, de aceitar seus beijos e amassos (e, talvez, alguns tapas, conhecia os tipos, gostavam de bater). Tudo bem. O importante era lhes distrair a atenção, não deixar que passassem as mãos frenéticas por entre as pernas dela. O importante mesmo era esperar o convidado chegar, ver o garçom trancar a porta e sair, deixando os quatro a sós. 

A mulher continuava a pensar, tentando abstrair da mão do careca encostando em seu braço e da perna do outro homem roçando na sua. Absorta, calculava. Teria que aguentar tudo calada, representando seu papel, até ter certeza de que o convidado trazia, consigo, o pen drive, ou o cartão de memória contendo as provas que seu empregador precisava, e que garantiria a ela muito dinheiro. Por mais que trabalhasse por prazer, ela gostava de dinheiro. 

Se desconfiassem de algo, iriam matá-la. Já haviam feito isso, matar uma prostituta (ao menos eles
A pequena e valente Sig Sauer P-938.
Perfeita para esconder.
Perfeita para mulheres
que saibam matar. 
pensavam que era essa a profissão dela) a mais não seria problema. Se tudo corresse bem, no entanto, antes do final da noite seriam eles os mortos, e ninguém jamais descobriria os corpos ou a autoria do crime. 

Sem riscos, concluiu, não há recompensas. E, ao ver a porta abrir, apertou mais forte as coxas, confortando-se com a pressão da Sig Sauer P938 escondida entre elas.




Pintura: Risc and Reward, Ben Aronson
Arma: Pinterest Edward New 


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quarta-feira, 11 de julho de 2018

DESCONSTRUÇÃO >> Carla Dias >>


É um engasgo dos mais engasgados que já sentiu.

Está ali, olhar fixo no dele, aquele que passou a vida a cortejá-la em silêncio. Sabe como? Com os lábios secos, pelos eriçados, olhar que já encontrou o alvo dos primeiros toques, eles que nunca aconteceram. Foram calados pela espera. E ela foi corrosiva, imperdoável, rancorosa.

Agora, ali estão: sentados um de cara com o outro, à mesinha capenga do bar da Dona Odete. Entre eles, cerveja e suco de caju, mais uns petiscos que não a interessam em nada.

Ele ainda olha para ela daquele jeito profundo, cativante e, em tom de desnudamento, de fazer muitas corarem. Não ela. Não mais.  Ela dá de ombros, explicitando o desapontamento empoçado em seu espírito que, por tanto tempo, sentiu-se pronto para aceitá-lo.

Agora, sente-se antiga demais para tal aventura.

Então, que desengasga e engata um “não”. Ele murcha, como ela costumava murchar a cada vez que eles se despediam sem que ele pedisse para ela ficar.

Ela sorri, infeliz.

Imagem: Sous les Oliviers, Coquetterie © Francis Picabia

carladias.com



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terça-feira, 10 de julho de 2018

BYE BYE BRASIL >> Clara Braga

Acompanhando a copa do mundo, vi muita gente comentando que já não aguenta mais as pessoas que ainda tentam nos convencer de que o Brasil ainda tem o melhor futebol do mundo e também não concordam com a afirmação de que o time brasileiro seja realmente brasileiro já que quase nenhum jogador ainda joga no Brasil.

Entendo pouco ou quase nada de futebol, mas achei as reclamações coerentes, já que desde a copa passada lembro dos comentaristas dizerem que era difícil entrosar o time brasileiro já que cada um jogava em um canto e, por isso, tinham formas diferentes de jogar.

Logo depois de assistir a um debate desses em um programa esportivo, o Brasil foi eliminado dessa copa de uma forma muito menos trágica do que na copa anterior. Uma eliminação quase injusta se futebol fosse um jogo que ganha quem jogou melhor, mas como vence quem faz gol, voltamos para casa sem o título. E junto com o título parece que perdemos o respeito, a coerência, o "patriotismo" e também aquela vontade de cantar o hino nacional com o peito estufado e o coração explodindo, como se fosse a música mais maravilhosa já criada. E como não sabemos lidar com nossas frustrações, escolhemos um culpado e não medimos palavras para deixar clara nossa decepção, principalmente se para isso precisarmos xingar e ameaçar esse que escolhemos como o vilão da vez.

Assim que vi os inacreditáveis comentários violentos e racistas que estavam sendo feitos a respeito do e para o jogador Fernandinho, fui me informar em qual time ele jogava e, indo contra tudo que pensei antes, fiquei aliviada ao saber que ele não joga no Brasil. Quer saber, talvez seja melhor mesmo que os jogadores não desenvolvam suas carreiras por aqui, um país onde todo mundo acredita já nascer phd em futebol e por isso acha que erros são inadmissíveis. É triste saber que o Brasil é  conhecido também como o país da impunidade e, por isso, provavelmente nada vai acontecer a essas pessoas que justificam seus atos com a tristeza de estarem perdendo o sonho do hexa, sonho esse que estava adormecido há quatro anos e, daqui a uma semana, será esquecido por mais quatro. Pessoas que há um mês estavam dizendo que era melhor o Brasil nem ter se classificado, pois precisamos focar nos problemas políticos. Essas pessoas com certeza estão mais tristes por terem perdido a possibilidade de uma folga na terça do que de não ver o time levantando a taça pela sexta vez.

É Fernandinho, quer saber, vai trabalhar longe mesmo, onde você será tratado com dignidade. E com tristeza te digo mais, em um país onde heróis são aqueles que ficam confinados em uma casa bebendo e falando asneira, talvez seja melhor mesmo ser vilão.



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sexta-feira, 6 de julho de 2018

VAZIO >> Paulo Meireles Barguil

Alguém querido que vai embora.

A aprovação que não acontece.

O abraço para sempre perdido.

O sorriso que não surge.

Lágrimas que regam o sedento futuro.

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quinta-feira, 5 de julho de 2018

VÔ GERÂNIO>>Analu Faria

Gê quase lambeu a vitrine. Só de olhar podia sentir o cheio de borracha queimada num dia quente, num meio de estrada qualquer. Deserta. Acima dele, só Deus e a roda da frente. Pedro deu um tapa no ombro do primo. 

"Não dá pra empinar uma moto dessas não, ô animal!". O que é que o primo sabia? Só havia pegado  DT200, XR200, CBX200... E ainda que na real não desse mesmo para empinar uma Fat Boy, nos sonhos de Gê ela seria leve como uma daquelas lambretinhas nacionais fajutas e se encaixaria direitinho nas mãos e nas pernas dele, era só fazer um pouquinho de força com o abdomên e pá... empinadinha. Errado era o Pedro com aquele mania de travar as coisas na mente.

- Tu pensa pequeno demais, Pedrão!

Chegou em casa ainda com a Harley nos olhos. Visita no sofá, como sempre: hoje eram a tia, um outro primo, o vizinho. A mãe contava pela milésima vez a história de vô Gerânio, que tinha nome de flor e era mesmo conhecido por ser educado e culto como uma rosa.

_ Gê tem o mesmo nome do avô, né não, Gezinho?

_ Rosa e gerânio são flores diferentes, mãe! Que saco!

Trancou-se no quarto. Harley era nome de gente, não era? Ou será que era Davidson? Ou os dois eram nome de uma pessoa só? Será que os filhos desse Harley Davidson tinham o mesmo nome do pai?E os netos, do avô? ...  Não sabia. Mas tinha certeza disto: gerânio era uma flor, pequena e delicada.


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quarta-feira, 4 de julho de 2018

A MULHER NO SOFÁ >> Carla Dias >>


Fecha a porta, atrás de si. O silêncio da casa é acolhedor e a faz respirar fundo. Joga-se, contida, porém eficazmente, aos afazeres do lar, às distrações pessoais, aos devaneios sobre finais preferidos para séries preferidas. Nunca acerta desfecho.

A comida de ontem, sobre a mesa de hoje, parece tão fresca que ela não consegue evitar o pensamento: seria pecado não ter fome? Peca, então, que seu estômago se nega a se render ao desejo do paladar. Quer ficar só, com suas incômodas dores que doem miúdo, mas com constância irritante.

Um banho de no máximo cinco minutos, presteza que desde a infância a faz sentir culpada quando se demora mais que isso, debaixo no chuveiro. Economizar água, antes, porque a conta era quase impossível de se pagar. Hoje, porque a conta continua pesada, mas ainda há a culpa: banhos longos podem acabar com a água do planeta.

Desde sempre, a culpa a conduz. Sabe que isso não é bom, mas o que fazer com o que foi colocado dentro dela, antes mesmo que ela soubesse do que se tratava ou pudesse escolher se queria aquilo? Todos os dias, ela luta um tanto para se desfazer de uma culpa ou outra. Ontem mesmo, conseguiu verbalizar um ressentimento e não se sentiu culpada por isso. Foi uma vitória que ela celebrou, chorando em silêncio no banheiro da empresa. Chorando de alívio raro. Sabe que é um desaprender doloroso e demorado esse. Que pode ser que jamais se livre completamente delas. Mas ainda assim, ainda que entregue à morosidade de sua incapacidade de jogar culpas ao vento, segue tentando.

Cabelos molhados, ralos, um corpo coberto por panos quaisquer e desinteressado por adornos. Sentada à mesa, e desrespeitando o volátil estômago, serve-se de uma taça de vinho barato, enquanto confere extrato bancário e bulas de remédio. Pergunta-se, observada pela sua incapacidade de enfrentar a questão com clareza, por que tudo tem de ser tão só e pesado.

Por que tão silencioso?

Prepara-se para dormir, certa de que não cairá no sonho. Pensará no hoje, olhos fechados. Contará a si algumas mentiras.

A roupa de cama, assim como a roupa que veste, recendem a amaciante concentrado em exagero. Exageros lhe seduzem, não gosta de assumir isso a quem seja, mas é fato. Ela se deleita com alguns deles. Deita-se sob seus cobertores amaciados por amaciante concentrado que recende no recinto. Seu estômago vazio reclama da solidão. Ela se incomoda com a bipolaridade dele.

Antes de fechar os olhos, observa a lâmpada no teto, apagada feito ela. Faz uma oração resumida, para um Deus no qual ela não sabe se acredita ou se o reverencia apenas para preencher agenda existencial e ter assunto para algumas conversas. Declama a oração, que decorou com certa lascívia, enquanto assistia ao filme com aquele ator que sempre faz sua respiração descompassar. Quando pensamentos de opulento descaramento a arrebataram, como se ela fosse dedicada às paixões.

Fecha os olhos e se mantém assim, imóvel. Acredita que isso a ajudará cair no sono. Não é dada aos sonhos, mas aprecia os devaneios que antecedem o sono profundo... que nem sempre é assim tão profundo, porque ela desperta mil vezes em uma noite, em uma inquietude que não sabe decifrar.

Abre os olhos, mais desperta do que estava no horário comercial. Quanto tempo? Pouco.

Então, tudo nela estremece: pensamento, corpo e alma. Desperta, bem na hora em que mundo está profundamente quieto. Levanta-se em ritmo comedido, tentando se enganar com a ideia de que ainda sente sono, vontade de ficar na cama. Ignorando a energia que lhe toma, em horário inadequado.

Dá umas voltas pela casa, ajeitando objetos como se eles tivessem mudado de lugar, naquelas poucas horas em que ela dormia.

Senta-se no sofá da sala. Espalha-se sobre ele. Duas horas e cinco minutos. Falta pouco, apenas duas vezes o que já passou do hoje. Então, poderá recomeçar, espaço e tempo conhecidos, trabalho, casa, extrato bancário, bulas de remédio.

Durante a espera pelo conhecido, identificável, preenchedor de rotina, o coração dela se rebela ao reverberar perguntas indecorosas. Ela faz de conta que não escuta o que tal diz, enquanto se delicia com essas aventuras interiores. Pecados secretos e prazeres teóricos.

Pode parecer que não, mas entre amaciante concentrado, culpas, extrato bancário e bulas de remédio, ela cultiva a esperança de dia desses escutar o que seu coração diz, assim, assumidamente. E, quem sabe, então ela seja capaz de realizar os desejos dele.


Imagem: Woman on a Sofa © Kees Van Dongen

carladias.com



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terça-feira, 3 de julho de 2018

VAI BRASIL ... ou não... >> Clara Braga

O que a maternidade tem a ver com a copa do mundo? Nada, você deve estar pensando! De quebra ainda deve achar chato essas mães de primeira viagem que tudo relacionam com a maternidade. Eu entendo perfeitamente, também era exatamente assim, achava chato tudo se tornar motivo para as mães falarem de seus filhos, mas eu assumo: é inevitável!

Desde que comecei a assistir aos jogos achei que eu já tivesse determinado, pelo menos superficialmente, para quem eu ia torcer quando o Brasil não estivesse jogando. O meu critério de escolha seria torcer para times da América Latina. Mas como esse critério pode ser facilmente furado, pensei outros dois: vou torcer para aqueles times que raramente avançam mas que desta vez estão surpreendentemente bem e, por último, torceria para que os grandes rivais do Brasil ficassem para trás.

Tudo ia bem quando a Argentina entrou em campo. Confesso que não me lembro muito bem contra quem estavam jogando, mas sei que entre os critérios que eu poderia usar acabei escolhendo torcer contra a Argentina. Eu estava feliz, a Argentina estava indo mal e foi então que um cinegrafista sem coração decidiu mostrar o quão apreensiva estava a torcida, já que o fim do jogo estava próximo e o time estava perto de ser eliminado. Conforme os torcedores foram aparecendo eu pensei: é gente, é assim mesmo, não dá para ganhar sempre, pode chorar, faz parte. Eis que em um certo momento apareceu uma criança arrasada chorando com a cabeça baixa no colo do pai. Ele estava com a camisa da Argentina e o rosto todo pintado. Pela idade essa deve ser a primeira copa do mundo que ele tem consciência do que está acontecendo, algo que só vai acontecer com o meu filho daqui a quatro anos.

Meu coração se partiu, esse menino deve ter esperado e ansiado muito por esse momento. E foi assim que passei a rezar por um milagre, tinha que ter um jeito da Argentina ganhar, não era possível. Parecia que eu era Argentina desde pequena, fã de carteirinha do Messi. 

Em um dos jogos até que minha mandinga adiantou, mas depois a reza falhou e o time foi desclassificado, e mais uma vez crianças decepcionadas foram mostradas chorando uma das primeiras frustrações de suas vidas.

Desde então, assim que mostram uma criança triste eu esqueço qualquer critério que eu tenha elaborado previamente e passo a torcer pelo time como se fosse o Brasil jogando. Justamente por isso eu gostaria de pedir aos cinegrafistas que no jogo da próxima sexta-feira, caso o Brasil esteja ganhando, não mostrem crianças Belgas chorando, existe uma chance grande de eu mudar minha torcida e acabar torcendo contra o Brasil, e eu não queria chegar nesse ponto.


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