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Postagens

Anabela >> Alfonsina Salomão

          Em meio aos convidados da festa de casamento, Leandro se destacava. Ali todos eram jovens, bonitos e cheios de vida, mas ele sobressaía, com seu traje original, seus óculos de lentes laranjas, seu sorriso desavergonhado e seguro de si. “Nada a ver comigo”, pensou Anabela, que observava a algazarra de longe, uma taça de champanhe na mão para disfarçar a solidão.             Não que fosse feia, longe disso. Era esbelta, bem proporcionada, os cabelos morenos caíam-lhe sobre os ombros com suavidade. Mas era observadora demais para agir naturalmente. Seu senso crítico deixava pouco lugar para a espontaneidade. No seu canto, Anabela refletia sobre a fragilidade das relações sociais e o ridículo dos ritos de passagem. Ela olhava com desdém os sorrisos embriagados e as gargalhadas vazias dos outros convidados.      Apesar da severidade dos seus pensamentos, ou talvez por causa deles, Anabela sentiu-se estranhamento atraída pelo personagem mais despachado de todos. Não conseguia tirar
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UM PAPO COM SÃO PEDRO E SÃO PAULO >> Sergio Geia

  De um lado vejo Pedro. Do outro, Paulo.    O velho Pedro segura uma bíblia na mão direita. Ele a tem próxima à cintura, como se fosse um caderno. Me lembra um estudante despreocupado indo pra escola. Na outra mão ele traz as chaves do Reino dos Céus. Procuro um cajado, cadê o cajado, Pedro? Não há cajado. Seu semblante é leve, está zen, bem zen, passa a serenidade dos grandes líderes, embora um pouco pálido.    Paulo também tem uma bíblia nas mãos. Diferente de Pedro, ele a traz junto ao coração, como se fosse um objeto precioso e de amor. Vendo a cena de Paulo e sua bíblia, me vem à mente o tio Nilson, Nirsão pros irmãos. Certa vez ele me encontrou numa dessas festas de fim de ano, era só assim que nos encontrávamos. Entre discussões fervorosas sobre temas variados — tio Nilson entendia um pouco de tudo e aqueles encontros em família eram ricos de discussões acaloradas — e um gole de cerveja, ele me disse:    — Serginho, você que gosta de ler, tenho um livro lá. Vou lhe dar de pre

ALARME >> Paulo Meireles Barguil

23h58 A crônica está sem título e eu busco, numa lista imaginária e em branco, um assunto para escrever.  A situação é crítica, pois amanhã de manhã não terei tempo para realizar o meu ofício quinzenal. E, então, o alarme de algum carro toca algumas vezes. Por sorte para quem está dormindo, ele logo desligou. Também sou agraciado, pois ganhei uma inspiração para redigir. Esses sinais, que costumam ser sonoros, indicam que uma situação foi modificada, ou que poderá ser em breve, sendo necessário implementar alguma atitude para restaurar o equilíbrio anterior ou minorar o inevitável prejuízo.  00h14 Consegui avançar na escrita, mas não tenho a menor ideia de como irei concluir esse texto. Uma coruja, então, avisa que está alerta, esperando o alimento incerto. Numa situação de perigo, o organismo libera adrenalina para que uma ação, lutar ou fugir, seja implementada e possibilite a continuação da vida. O único perigo que vislumbro nesse momento é não dormir bem e comprometer a qualidade d

NEVE NEGRA: PARTE 3

A sombra da Rainha Morta    Em seu estarrecimento, o Rei não percebeu o horror no rosto da feiticeira e nem deu-se conta de que Madorno havia fixado seus olhos no espelho, pendurado logo acima da cama, e pronunciado as três palavras que devem ter sido as últimas a tocarem os lábios da rainha: escuridão, sangue e frio.    O rei parou de se mover. As palavras do anão ecoaram em seu peito oco. Tentou fazer um grito desesperado subir pela garganta, mas na verdade não queria gritar. Parecia flutuar em uma banheira de água morna, desprendido de qualquer contato com o solo.  - Morrer é assim? - estranhou-se. Não sentia nada.  Sua visão agora estava embaçada e uma névoa cinza fechou-se ao seu redor, delineando parcamente uma paisagem monocromática. Uma silhueta começou a tomar forma. Logo ele viu a si próprio e os acontecimentos das últimas semanas desenrolaram-se a sua frente. Não sabemos se ela sobreviverá, disseram os médicos. E ele saíra em busca de Angèlle, coração descompassado no peito.

QUANDO SER >> Carla Dias

Vem assim, em uma languidez incomensurável. Carregar corpo é quase fardo. Carregar espírito é um recostar constante em dúvidas, inconveniências, engasgos. Vai se espalhando, na agilidade das interrupções, elas que são ardilosas e primam pela velocidade-corte, aquela que desanca esperanças, desacredita futuros. Tudo muito profundo, como ela tem evitado que seja há uma vida, sem sucesso. Fosse personagem de ficção, ao menos seria interessante para alguém. Porque alguém é sempre o alguém de alguém, ainda que esses alguéns nunca se encontrem. E esse desencontro, que cai na conta do destino, da falta de boa sorte, do não pertencer a uma história que mereça ser contada, desfalece os planos dela. Usurpa a energia das suas vontades, enquanto ela serve o café a conhecidos de quem não sabe os nomes, as histórias, mas que, todos os dias, enfileiram-se diante dela. Não olham para ela, apenas para suas mãos oferecedoras do líquido quente,  o arranque para a rotina deles.  Uma fraqueza intrínseca se

REVOLUÇÕES CIBERNÉTICAS >> Clara Braga

A primeira e única vez que participei de uma live, já estávamos de quarentena à pelo menos 10 meses! Até hoje não sei quem esteve e participou dessa live, pois conversar e ler os comentários ao mesmo tempo, foi simplesmente impossível para mim! Já reuniões online eu participei de duas, ainda é pouco, mas prefiro olhar pela perspectiva que mostra que foi o dobro de lives. Uma era de fato uma reunião e outra era o aniversário de uma amiga. Porém, as plataformas usadas para cada reunião foram diferentes, o que fez com que eu sofresse em dobro, pois quando aprendi a usar uma, já estavam usando outra! O aniversário online, como era mais descontraído, não me preocupou muito! Mas a reunião realmente me deixou um tanto nervosa, pois foram necessários uns 30 minutos no qual eu mal respirava para não atrapalhar quem estava falando e rezava 30 ave marias em 1 minuto pedindo à Deus para que a cachorra não latisse, até descobrir onde ficava o botão para deixar o microfone no mudo! Outra coisa que r

HOME OFFICE >> Albir José Inácio da Silva

                                                                                                Março   O homem certo no lugar certo - era assim que se enxergava o Plínio no trabalho e na vida. Pelo menos até ser atropelado pela “prisão domiciliar”, que era como chamava o isolamento promovido pelos “maricas” que queriam parar o país.   Apesar do medo que assombrava o planeta e da ojeriza que sente pelo “fique em casa”, Plínio não podia dizer que não estava gostando. A mulher, companheira impecável de tantos anos, os filhos, seu orgulho, a quem nunca pôde se dedicar. Precisava recuperar o tempo com as pessoas mais importantes de sua vida.   Homem dinâmico que acreditava no mercado, na pátria e na produção, era também um homem prático, que se adaptava rapidamente às situações.   Ainda mais se a situação não tinha despertador, nem trânsito, nem correrias.   Compras por telefone, reuniões por vídeo, um cafezinho, conversa com os filhos, fotos antigas, nostalgia. Sim, estava g