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UM DIA DE NÃO >> Albir José Inácio da Silva

  Um dia ele amanheceu sem dores, e a mulher não reclamou de nada. Os filhos não pediram dinheiro nem brigaram antes de sair pra escola. Não recebeu nenhum telefonema de cobrança e, diga-se, o telefone nem estava cortado. Não viu o jogo ontem - nem sabe o porquê - mas seu time não perdeu, ou o vizinho já o estaria sacaneando aos berros. Naquele dia também não teve que sair de madrugada com recortes de empregos para ouvir nãos e voltar com tristeza, cansaço e fome. Não o fizeram acreditar que era um fracassado, e uma espécie de conselho de família e amigos, embora reunido, não concluiu que ele era imprestável e preguiçoso. Passaram apressados e olharam como se, pela primeira vez, se preocupassem com sua doença. Depois de muitos anos não ficou triste ao acordar, não teve vontade de se matar, não rezou sem fé, nem se arrependeu de nada. Bastava! Não ia mais aturar desaforos. Quem pensam que são? Como diz Pessoa em linha reta, estão sempre campeões em tudo? São semideuses? Só ele é

FÉRIAS >> Sandra Modesto

 A cronista Sandra Modesto está de férias.

UM BREVE ADEUS – uma aventura de Marta Atanasiou – espiã e assassina - 2a parte >> Zoraya Cesar - setembro 03, 2021

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A mulher era pequena e magra. Uma aparência frágil que já fizera muitos desavisados pagarem com a vida sua ingenuidade. Por alguns segundos o bar ficou em silêncio. Respirações suspensas, gestos parados no meio do ar: "ela" chegara. Marta Atanasiou, uma lenda da espionagem e das mortes perfeitas. Um dos raros agentes, como o homem que entrara antes dela, que conseguira se aposentar.  Vestia-se de preto e de Chanel, da cabeça aos pés, incluindo a bolsa, na qual trazia sua pistola preferida, a Glock G21, adaptada para canhotos. O elegante corte nos cabelos inteiramente brancos – excetuando uma única mecha preta na franja - deixava à mostra seu pescoço branco, fino como uma palmeira. Intenso brilho luzia por trás das lentes dos óculos de aros azuis. Portava uma bengala de cedro do Líbano, que ocultava uma lâmina forjada pela mais tradicional cutelaria de Toledo. Aquela arma já matara mais gente do que nossa vã imaginação gostaria de pensar. Se a velhice não abatera sua saúde ou

CONFORTO >> whisner fraga

a paineira e um redemoinho de cores, a manhã desliza pelo vento, esperando essa contemplação, as pessoas tombam como gravetos, mas lá fora, os disparos, as fomes, as violências não alcançam o quarto, ao menos hoje, quando a beleza estremece, mesmo com as janelas imitando fronteiras, é tudo macio, a menina e as músicas incomuns, as ninharias inesperadas, e tudo é do tamanho de uma ansiedade, menos o tempo e suas teias derramadas vida afora, a menina ainda não percebeu a brutalidade das horas, a menina e seus desenhos interpretando vastidões, o eco de um ronronar, a ressonância de corpos demolidos, mas lá fora, os dias atravessam o vidro e esmagam cuidadosamente os ciclos, e os olhos se acovardam diante da verdade, o que fazer, menina, se todos caem?, onde arrumaremos mãos para erguer essas carnes desprezadas?, é justo que tudo fique lá fora?.

O AFOITAMENTO DO SUSPIRO >> Carla Dias

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Reprime o suspiro. Sente como se engolisse comida ruim, aceitasse chantagem, tivesse de resumir a si em três palavras que nem sabe quais são. As paredes falam, as horas passam, tudo e todos se manifestam e ela assim, calada por precaução. Vai que deixe escapar suspiro que não sabe se comportar. Está ciente de que precisa tentar domá-lo, pois o dito adora um prolongamento de fazer os olhares dos outros se espantarem com atrevimento sonoro-emocional. No entanto, suspirar não faz parte da pauta da reunião. Só que o suspiro caminha por dentro, atiçando seus sentidos, mostrando-se incapaz de se retirar em silêncio, dar-se por vencido. O suspiro se atraca com elas, as palavras, e as muda de lugar, leva as tais para um passeio proibido em horário comercial, quando um suspiro pode criar instabilidade profissional. Quando vem sem avisar, bancando o amplificador de dor de coração partido, o fôlego se exibe, porque sabe que não é de frequentar esquecimento. Ela sente o suspiro represado se rebela

Saudade azul >> Alfonsina Salomão

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Saudade azul. Desde quando saudade tinha cor? A esperança era verde, a raiva vermelha... Sim, a saudade também deveria ter sua cor, e o azul parecia apropriado. Não dava para ser amarelo, porque saudade nunca amarela... Rosa era uma cor por demais feminina, e o laranja muito ensolarado. Preto e violeta eram fúnebres. É verdade que às vezes a saudade doía tanto que dava vontade de morrer, principalmente quando era saudade de alguém que já se fora. Mas a maior parte do tempo era apenas melancólica.   Então decidiu: saudade azul. E agora, como continuar? Como descrever isso que me acostumei a chamar de saudade, mas desconfio seja mesmo solidão? Seria saudade azul o mal-estar que não me deixa sair da cama quando acordo, fazendo-me relançar o alarme diversas vezes antes de abrir os olhos? Que torna o gesto seguinte, o de colocar os óculos, um esforço? Que me leva a ficar meia-hora lendo bobagens no celular antes de ter coragem de botar os pés no chão?   Depois o dia engrenava e a saudade az

APENAS UM RETRATO >> Sergio Geia

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  Retiro o porta-retratos da estante, desloco-o até minha mesa de trabalho. Quero observar enquanto escrevo. Há dias penso nisso.    Céu branco, o dia era frio. Eu tinha farto cabelo castanho. É possível ver na fotografia os tufos crescendo sobre a nuca e ameaçando descer pelas costas. Uma blusa de moletom azul e branca, a gola de uma camisa escura para fora no pescoço. Nas minhas mãos um violão de tampo bege, eu toco e canto.    Talvez 1988 ou 1989. Tempos em que eu acalentava sonhos, que tocava guitarra e cantava num grupo de rock.    Ao lado, Darci faz um si maior no meu violão, um Giannini comprado do Hugo Cursino, tampo laranja, pequeno, bem jeitoso, gostoso de tocar. Darci era magro e cabeludo, assim como eu, e não usávamos óculos. Ao seu lado, Érito no pandeiro, e o saudoso Fabinho Monteiro no chocalho feito de latinhas de refrigerante. Os quatro tocam instrumentos e cantam, menos Fabinho, que parece carregar um cigarro no canto da boca.    Estávamos num palco erguido no pátio