terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

AI, MEU CORAÇÃO! - V >> Albir José Inácio da Silva

Continuação de 6 de fevereiro:

(Tentando trabalhar, Bóssi sentiu crescer a angústia pela falta de notícias. Sua mente divagou pelos antecedentes não muito recomendáveis do pupilo e pelos acontecimentos dos últimos dias.)

Foi assim que Bóssi encontrou Neném há vinte anos, desprezado e ameaçado por toda Tarietá, sem estudo, sem trabalho, sem perspectivas. Mas Bóssi sempre tinha perspectivas para todos.

Neném tinha dezessete anos quando entrou para o time do Tarietense, em mais uma tentativa da mãe zelosa comprar para o filho alguma direção na vida. Bóssi costumava assistir os treinos do clube. Aquele garoto não jogava grande coisa, mas era aguerrido, catimbeiro e disponível. Passava o dia no clube em conspirações e intrigas. Bóssi viu potencial.

De início pediu alguns favores, tarefas simples que o moleque cumpriu com diligência. Neném foi se aproximando com interesse pelo clube e paixão pela camisa.

Entre os amigos da sociedade tarietense não faltaram críticas ao novo ajudante, nada se ouvia de bom sobre ele. Mas como ele não estava procurando um relações-públicas, não deu ouvidos. Em pouco tempo Neném já era o seu braço direito. Tarefas que antes não podia confiar a ninguém encontraram em Neném um despachante determinado e sem escrúpulos. Não que tenha se emendado. Nada mudou na essência. Foi adestrado, dirigido e protegido por Bóssi.

Não se pode dizer que o plano era de Neném - incapaz de elaborações mais complexas. Mas a verdade é que Bóssi tentava superar a derrota nas eleições, quando um inconformado Neném vaticinou:

- Algumas vitórias podem fazer muito mal à saúde.

Daí em diante foi com Bóssi. Essa era sua especialidade. Voltaram ao clube, tinham saído sem falar com ninguém depois da apuração. Cumprimentaram Araquém pela vitória, Bóssi entregou-lhe as chaves e marcou uma reunião para o dia seguinte, antes da posse, para tratarem da transição. O resto já conhecemos.
                                          
Apesar da preocupação de Bóssi com os faniquitos do pupilo, ele se saiu muito bem e desapareceu na estrada. Mas agora a falta de notícias já estava dando nos nervos. Onde se meteu aquele moleque?
                                                                  
                                                                         O ACIDENTE

Naquela manhã Neném pulou na garupa da moto com o coração aos pulos. Era disso que gostava, esse era o seu talento. Quase agradecia a Deus por terem perdido as eleições. E agora agradecia mesmo o sucesso do dia em breves orações acompanhadas pelo sinal da cruz.

Talvez com ciúmes pela traição de uma alma que já considerava sua e agora se desmanchava em preces, uma entidade vingativa trouxe para o asfalto limpo e brilhante, naquela manhã de sol, um paralelepípedo. Por que um paralelepípedo, se não os havia num raio de quilômetros? Não sei, mas há quem diga que isso reforça o caráter sobrenatural do acidente.

Desgovernada, a moto se precipitou pelo declive suave de um bananal à margem da estrada e os ocupantes foram arremessados para cima antes de caírem no chão. O chão pedregoso estava então coberto de folhas e caules de bananeiras da última colheita.

O piloto se examinou sem achar maiores estragos. Só escoriações e uma torção no tornozelo direito. Quando a tonteira passou, pôde ver Neném caído muitos metros abaixo. Usando um galho como muleta, ele mancou até lá.

Neném acordou. Firmou-se nos cotovelos e levantou a cabeça. O piloto pode ver o sangue que lhe escorria do nariz, descia pelo queixo e encharcava o peito.

- Neném, você tá bem?

Neném baixou os olhos para o sangue que pingava no chão e deu um grito:

- Ai, meu coração! – e desmaiou de novo.

O outro entendeu que era dor no peito, pensou em infarto, e viu que o companheiro estava perdendo muito sangue. Era grave, precisava de ajuda.  Neném levantou de novo a cabeça e suplicou:

- Um padre! Preciso me confessar! – disse, já num fio de voz, e apagou.


(Continua em 15 dias)


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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

COMPAIXÃO >> Paulo Meireles Barguil


"Apesar de tudo, Jesus dizia:
'Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo!'”
Lucas 23, 34
 
Depois de várias chicotadas físicas e emocionais, Cristo, embora fragilizado, permaneceu firme.
 
Em meio à máxima dor, Ele continuou a nos ensinar.
 
Somente a Luz consegue ver, através do corpo, singelo véu, a alma.
 
O vício de julgar o outro expressa, cristalinamente, o quão cindido está o censor, embora ignore tal fato.
 
É por esse motivo que Jesus, sem cessar, orvalha sobre nós gotas de compaixão.
 
Somente quem acolhe a si pode abraçar o outro, ao invés de afastá-lo.
 
A mão, antes tão célere para apontar e destruir, agora, apressa-se para aconchegar e cuidar.
 
A língua, outrora demasiada áspera, converte-se em ondas sedosas.
 
A origem e o destino de todos nós é o mesmo: AMOR.
 
Que privilégio é mergulhar, enfim, nesse oceano.


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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

SAIA DO PEDESTAL >> Mariana Scherma

Pôr a mão na massa é vida. Não literalmente a mão na massa porque não sou muito cozinheira, mas viver as experiências ativamente, participando delas, tira você da condição de espectador dos seus dias. Sem contar que isso é ser gente como a gente (amo essa expressão). Você ganha em experiência, em know-how e em respeito.

Sim, respeito. Porque uma coisa é você ser aquele chefe que só manda, manda, manda mais um pouco e, na sequência, cobra agilidade. Outra coisa é você fazer junto (ou já ter feito) e saber exatamente como isso leva tempo e quais as dificuldades que cada tarefa demanda. Minha mãe sempre teve comércio e o que escuto dela é: “não dá pra deixar na mão só dos funcionários”. Ela trabalha mais que todo mundo na sua loja, é a única que não tira férias e explica incansavelmente tudo pra todos. Meu exemplo.

Para trabalhar, optei por algo que não fosse meu. Não sei até quando isso vai durar, mas, enfim, caí numa função de referência. Diferente da minha mãe, confio na equipe, que sempre dá o seu melhor. Mas a posição de líder da equipe não me subiu à cabeça (tal qual minha mãe): eu faço tudo igual às outras, mas um pouco menos, já que tenho outras obrigações que elas não possuem.

Dar uma ordem tem mais sentido quando você sabe o que está fazendo, corrigir alguém é outro esquema quando você entende o erro. Pra tudo na vida, faz mais sentido quando você não senta em um pedestal e fica mandando lá de cima. A gente precisa se juntar com os nossos. É por isso que adoraria que filhos de presidente, governadores e tudo mais usassem o SUS, fizessem Ensino Médio nos colégios estaduais e a faculdade aqui no Brasil mesmo. Seria o máximo.


Pra política ou qualquer outra coisa dar certo, é necessário compaixão e empenho. Se seu chefe possui essas duas qualidades, sorte a sua. Porque nossos governantes, na maior parte das vezes, não têm nem uma nem outra.



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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

VAZIEZ >> Carla Dias >>


Acreditava que morreria cedo.

Mãe, pai, tia e tios e outros tantos parentes e chegados da família viviam a brigar com ela, toda vez em que a menina, franzina de experiências, verbalizava, escolada de certeza, que ela morreria cedo.

Sabendo do tempo o limite, desde que aprendeu como, começou a escrever cartas para quando os irmãos fossem adultos e nascessem os sobrinhos. Também escreveu cartas aos pais, a maioria tentando convencê-los de que já podiam deixar o luto desanuviar e voltarem a sorrir, assim, com alegria presente.

O que mais a incomodava eram as relíquias. Não sabia a quem deixar sua coleção de pedras em formato de coração. No dia em que a professora mostrou a ela a imagem de um coração verdadeiro, o músculo, a menina abriu o maior berreiro. Onde já se viu mudar uma certeza dessa forma? Desde sempre, coração era o do pingente de seu colar, dos livros que ela adorava, dos desenhos que enfeitavam os bilhetes que sua mãe escrevia para ela ler, enquanto tomava café da manhã.

A professora explicou direitinho, e até convenceu a menina de que tudo bem ela adorar o coração que conhecia, que nele tinha uma tal de poesia vivendo. Porém, veja bem, menina, que esse músculo é de beleza ímpar. Quem já o observou batendo compassado, sabe bem de que se trata da vida na intimidade de sua coreografia.

Ela manteve a coleção de pedras em formato de coração-poesia. Nasceu com ela a certeza infame de que logo morreria, quando seu coração-músculo decidisse que tempo era coisa que ela não teria mesmo se desejasse muito; que pedisse ajuda extra ao seu anjo da guarda.

Cada minuto de sua vida de menina foi preenchido com um algo a fazer, um desejo incontrolável de conhecer, de aprender, de escutar e responder na lata mesmo. Sua língua sempre foi destravada, e na conta dela, levou puxão de cabelo e soco no nariz.

Padres tentaram convencê-la do pecado horrendo que era esse negócio de prever, ainda mais a morte. Ainda, ainda, muito ainda mais a própria morte. A psicóloga se dedicou à missão de para fazê-la compreender que era uma bobagem esse pensamento. Fez a menina responder umas perguntas que ela nem entendia direito do que se tratavam. No final, nem os servos de Deus ou da ciência a convenceram do contrário.

Há alguns anos, substituiu as folhas de caderno escritas coloridamente pelo documento com assinatura reconhecida em cartório. Não quer estar desprevenida, quando a coisa de fato acontecer. Os pais aceitaram que ela jamais abandonará essa certeza ferina. Hoje, eles ajudam a colocar em ordem papéis e alterar beneficiados do testamento da filha.

Anda pela casa a passos lentos e silenciosos. Ninguém percebe que ela está no recinto. Os pais se acostumaram com a ausência dela, mesmo quando ela está ali, na mesma sala que eles. Às vezes, falam sobre a filha como se ela não existisse mais. Os parentes ignoram a existência dela, o que cria confusão na disposição das mesas das festas de casamento e batizado. Ela acaba sempre na barra da saia da sobra. Aquele lugar desapropriado feito ela.

Trabalha quase doze horas por dia em uma loja de conveniências. Tudo que aprendeu sendo a menina que duraria pouco, calou-se diante do tempo esticado. Treinou a vida toda de menina para que a vida acabasse ali mesmo: na meninice. Nunca treinou para ser adulta e isso a deixa confusa e a mantém isolada.

Transferiu a guarda das suas pedras em formato de coração-poesia para vários homens que alimentaram seu desejo, mas sem saberem. Foram várias alterações no cartório, horas despendidas em amor platônico. Lágrimas derramadas com soluço engolido.

Sua certeza definhada, alinhavada pelas experiências forjadas na experiência dela ter duração que ultrapassou a sua previsão de existência. Pensa no seu coração-músculo, miúdo diante da vida. Tão quieto, sentenciado a uma cadência morna. Não há tempo para reaprender o destino, fazer uma releitura apurada de sua importância de prazo vencido.

Passa horas a tricotar agasalhos que seus irmãos jamais usarão. Come para o corpo responder aos movimentos. Sente-se confortável na invisibilidade que lhe cabe, como pássaros que vivem em gaiolas, sem que lhe percebam a presença ou escutem seu canto. Nada mais lhe assanha o espírito.

Não consegue compreender como pôde ter ido além, tornando-se adulta. A menina acreditava que morreria cedo, mas então que esse cedo se tornou tão longo, que ela não sabe o que fazer com o tempo.

E ao tentar preenchê-lo, esvazia-se.



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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

BEM VINDOS AO FIM, DE NOVO >> Clara Braga

O mundo vai acabar de novo! Você ainda não está sabendo? Pois trate de se preparar, pois temos apenas até o dia 16 para vivermos felizes, depois o mundo acaba!

Aparentemente os cálculos foram feitos por um cientista respeitado, e ele afirma que no próximo dia 16 um meteorito irá colidir com a Terra e acabará com o planeta de uma vez por todas.

Várias foram as vezes que ficamos apreensivos com esse papo de fim do mundo, essa não seria a primeira vez que alguém define o dia que o mundo irá de fato acabar, mas como nas outras vezes a previsão não vingou, talvez seja melhor não mudar muito a rotina.

Continue passando repelente, a situação da febre amarela anda grave mesmo e se o mundo não acabar você não vai querer aproveitar os próximos dias doente, não é mesmo? Principalmente porque se o mundo não acabar significa que teremos carnaval! 

Também não se anime a se arriscar muito, não fique sozinho na rua em lugares escuros, os sequestros relâmpagos estão cada vez mais violentos, principalmente se você for mulher. 

Se decidir passar os possíveis últimos dias de vida viajando, não passe a bagagem de ninguém desconhecido no seu nome e nem leve encomendas de pessoas que você não conhece, essa tem sido há um tempo uma bela tática para transporte de drogas e se o mundo não acabar você vai passar uns bons dias na cadeia. 

Aliás, se for viajar vale fazer uma economia maior, agora até a bagagem vai ser paga, mas o preço da passagem que é bom não cai. Escolher o destino também é uma arte, se quiser ir pro exterior comece a rezar, com Tio Trump pode ser que fique difícil acessar alguns lugares. E com a crise então, são poucos que tem dinheiro para ir a algum lugar. 

Agora, se você quiser ir para algum lugar no Brasil, só tome cuidado com as greves da polícia, nossa sociedade já mostrou ser bem corrupta e precisar de policiamento para garantir a paz e a ordem. 

Pensando bem, acho melhor eu me preparar para o fim do mundo mesmo, pois se esse meteorito não colidir com a terra na quinta-feira, o homem se encarrega de um fim que não aparenta estar tão distante assim!


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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

CERVEJA QUENTE >> André Ferrer

Antes do Carnaval, a Quarta-feira de Cinzas. O boi da realidade é quem puxa o carro alegórico em 2017. Em nome da tradição, o brasileiro insiste. Procura esquecer. Nem pensa que a festa, talvez, não chegue a ser plena. Fareja o fracasso na maioria dos quesitos, mas não deixa de se fantasiar.

É fevereiro e essa gente bronzeada só faz dissimular a ansiedade. Todo mundo atingido naquilo que tem de mais valoroso. Nem mesmo as tardes prolongadas na orla excederão, este ano, ao festejo momesco. Em 2017, o Horário Brasileiro de Verão termina antes do Carnaval e, como tudo indica, é também quando termina o prazo para qualquer adiamento. Apesar de tudo, sustenta-se a tese de que nada suplanta a alegria. Nem mesmo a impossibilidade de adiar um pouco mais o início do ano.

Entre dois carnavais, construiu-se a civilização brasileira. Uma espécie de pele social que, de maneira precária, envolve um arcabouço constituído tão somente pelos dois instintos básicos do ser humano: alimentação e sexo. Feito de adiamentos, jeitinhos e conversa fiada, o couro da civilização brasileira parece, agora, enfrentar uma prova sem precedentes.

Com o grande provedor, que é o governo, desacreditado, a sensação é a de que as necessidades mais básicas, em breve, estarão ameaçadas. De fato, um episódio de cidade sitiada e saques à luz do dia, como o que assistimos direto de Vitória, Espírito Santo, reitera essa preocupação. Incapaz de se livrar do círculo vicioso dos improvisos e de resolver efetivamente os problemas da sociedade, o brasileiro, de repente, descobre-se numa situação-limite. Pior: às vésperas de um Carnaval particularmente avesso a adiamentos.

A vida de um povo como o nosso é orientada pelos instintos básicos. Trata-se de uma falsa civilização já que o aperfeiçoamento, requisito para a verdadeira civilização, é só aparente por aqui. No Brasil, existe um verniz de civilização. Ele é muito... mas muito, delicado. Tão frágil, que se rompe quando a cerveja não está gelada.


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sábado, 11 de fevereiro de 2017

ENTÃO CHEGOU A TECNOLOGIA... >> Sergio Geia



Pode ser um saudosismo bobo, mas tenho saudades do tempo em que se ouvia o futebol pelo rádio. Às vezes, era apenas chiado; às vezes, o chiado se misturava com a narração; às vezes, a estação sumia; sem mais nem menos, voltava, e o jogo parecia tão disputado, mas tão emocionante, repleto de lances espetaculares, que tudo que queríamos no dia seguinte era assistir aos melhores momentos na televisão.
Lembro-me de um Palmeiras e Santos; no gol do Santos havia um uruguaio chamado Rodolfo Rodrigues, um goleiro extraordinário; o Palmeiras tinha um centroavante chamado Reinaldo Xavier, que havia jogado no Taubaté, e que hoje, pelo que sei, vive por aqui. O Santos ganhava, e faltando poucos minutos para o fim da partida, Reinaldo fez um gol espetacular, por cobertura, em cima do quase perfeito Rodolfo Rodrigues. Um gol maravilhoso, que se tornava maior na voz comovente do narrador José Silvério. A torcida gritava: “Rei! Rei! Rei! Reinaldo é o nosso Rei! Rei! Rei! Rei! Reinaldo é o nosso Rei!, e o Geia vibrava de alegria.
Outra lembrança doce que me chega agora era aquele sinalzinho do plantão do rádio informando a ocorrência de gol em outra partida. Você lá, concentrado no jogo do seu time, e o sinalzinho tocava; logo, o plantonista avisava que seu maior rival havia levado um gol; era tudo muito divertido e muito eletrizante.
Hoje todos os jogos são transmitidos pela televisão. Isso é uma coisa esplêndida, mas sepultou a fantasia, a mágica. Trata-se do mesmo fenômeno que ocorre quando a telona faz apequenar tudo o que você constrói de lugares, vilarejos, personagens e situações daquele romance lido.
Agora, que fique claro: em absoluto falo mal da tecnologia. Ao contrário, o avanço tecnológico, principalmente a chegada da internet, trouxe muita coisa boa pra muita gente. Lembro que ainda engatinhava no plano do Direito e se quisesse ter acesso a uma boa jurisprudência, tinha que fazer assinatura. Hoje, está tudo aí, disponível, à farta, de graça.
Esse deus representou uma verdadeira revolução na dimensão do conhecimento humano. Ele democratizou o acesso ao conhecimento. Somente quem viveu numa época em que não havia a internet tem condições de dimensionar o nível de transformação e de reprodução do conhecimento humano que ela representou...
Mas eis que tinha começado a escrever essas coisas havia dias (deixei-as lá, cozinhando), quando fui surpreendido nessa manhã por uma história interessantíssima contada pelo Milton Neves, no jornal “Pulo do Gato”, da Rádio Bandeirantes, que veio bem a calhar.
Eram histórias sobre os radioescutas. Esses jovens (normalmente eram jovens), durante a transmissão de uma partida, ficavam ouvindo os outros jogos da rodada; saindo gol ou ocorrendo algo importante, eles avisavam ao Milton, que, responsável pelo plantão esportivo da rádio, informava no ar. Com a internet, essa figura do radioescuta desapareceu. Eram dez ou doze, apertados, enfileirados, com fone de ouvido, cada um numa estação. Num sábado, José Silvério narrava Palmeiras e Guarani, e Milton, com sua equipe, acompanhava os outros quatro jogos da loteria esportiva, dentre eles, Flamengo e Madureira. Um radioescuta, estreante, de 17 anos, ouvia a rádio Globo, e tão logo começou o jogo, anunciou: “Gol do Madureira”. Milton deu a informação no ar, para susto do narrador. Alguns minutos depois: “Novo gol do Madureira”; o narrador levou outro susto e começou a se irritar (a chance de o Madureira fazer um gol no Flamengo dos anos 80 era remotíssima). Em seguida, o radioescuta levantou o braço: “Gol do Madureira”. Depois de Milton anunciar esse terceiro gol, o Silvério, inconformado, o chamou na técnica para a confirmação do resultado (o narrador não acreditava). Minutos depois de voltar ao estúdio o radioescuta não titubeou: “Gol do Madureira”. Foi quando Milton resolveu checar a informação, e aí a surpresa: “Placar Brahma Chopp no Maracanã informa: Campeonato Carioca de... Aspirantes”. Milton, envergonhado, tentou consertar o imbróglio, mas piorou a coisa dizendo no ar: “Atenção, Silvério: o árbitro no Maracanã acabou de anular os quatro gols do Madureira; o jogo não começou; vai começar daqui a uma hora...”.
Então chegou a tecnologia e tudo mudou... 
Ilustração: www.idocod.com.br


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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A NINFA - Parte I >> Zoraya Cesar

Entrou no sítio sentindo-se como Júlio Cesar na Gália. Imponente, arrogante, vitorioso. Mesmo não tendo, é certo, a grandeza do nobre imperador. Nada tinha, aliás, de honrado.

Ao contrário do avô – homem íntegro ao extremo. Avô esse que nunca o suportara, antevendo e pressentindo a natureza malévola do moleque doce e quieto que todos achavam tão engraçadinho. Após a morte do avô, o neto, fiel à sua natureza, conseguiu, por falcatruas inomináveis, passar a família para trás e herdar-lhe o bem mais precioso. 

O sítio. 

Que valia muito dinheiro, sem dúvida. Ninguém, porém, pensaria em desfazer-se daquele lugar sagrado, distante do mundo, do qual o avô cuidara com as próprias mãos, um sítio que estava na família há gerações. 

E ele? Pretendia vendê-lo? Talvez, depois. Naquele momento, só queria sentir em suas veias, qual lava incandescente, o fervor da vingança, destruindo pelas próprias mãos tudo o que o avô construíra e o resto da família amava. 

Vocês, que são pessoas boas, talvez estranhem sentimento tão torpe, e desejo tão sórdido, mas assim é a natureza humana, não se enganem. 

Havia quem se apaixonasse pelo sítio à primeira vista, caindo de amores pelo enorme bosque, de árvores frutíferas e outras, nativas, de madeira nobre, centenárias, raras. Era sombrio e úmido, o bosque, intenso em seu verdor, em seu cheiro de seiva, em seus sons misteriosos. 

À entrada do bosque, descansava um pequeno lago, de águas escuras e profundas, como os olhos de um cigano. Manacás de cheiro e damas da noite inebriavam os sentidos de quem sentasse às suas margens (mais de uma pessoa relatara experiências místicas ao restar ali por muito tempo). Você poderia passar o dia ali, sentindo a brisa roçando na penugem de seu corpo, como se mínimas asas de borboleta esvoaçassem em sua pele; ouvindo a conversa melodiosa, às vezes, estridente, dos pássaros. Ao anoitecer, você veria, já completamente embriagado pelas maravilhas do dia, a luz dos pirilampos brilhando como estrelas felizes ao seu redor, enquanto o pio da coruja anunciava aos animais noturnos que era hora da caça. Sapos coaxavam harmoniosamente, como se orientados por um maestro invisível, acompanhados por insetos incontáveis. Você poderia, sim, passar o dia ali, conversando com sua Alma (você, talvez; o neto, nunca).

O Aspen, a árvore trêmula,
assombrada por
 medos inexplicáveis
Ou, talvez, você preferisse aventurar-se a entrar no bosque? Perder-se entre as árvores, comover-se com a insistência dos cogumelos orelhas de pau em demonstrar que um tronco morto é um berço de vida, e que nada, na natureza, é desperdiçado. Sentir o cheiro de húmus, penetrante, pungente, quase uma presença física. Você poderia passar ali uma vida, sem conhecer todos os meandros do lugar. 

A casa era um primor à parte. Essencial. Simples. Aconchegante. Toda em pedra, tijolo e madeira, recoberta por trepadeiras que floriam glicínias e buganvílias. Havia grandes janelas em cada parede, de forma que nunca se perdia de vista o lago, o bosque ou o jardim, onde aspens trêmulos
sussurravam seus medos às rosas e girassóis que cresciam ao seu lado.

Se pudéssemos definir aquele lugar mágico, belo, envolvente em uma, e apenas uma, palavra, seria ‘encantador’. 

Uma pessoa, porém nada via naquilo tudo que não um estorvo. Detestou cada milímetro de terra, cada folha caída, cada tronco de árvore, cada canto de pássaro, cada lufada de vento, cada tamborilar de chuva no telhado. Detestou, principalmente, a árvore que ficava de frente para o quarto. A primeira coisa que via ao acordar era o enorme tronco, antigo, alquebrado, a casca rugosa e áspera. Não havia folhas em seus galhos ressequidos, que se estendiam para o céu como se gritassem um último pedido desesperado de socorro. Uma árvore com uma longa história de vida, que fora plantada
Uma árvore antiga,
plantada para resistir ao Tempo
e dele ser confidente.
por mãos desconhecidas, há muito enterradas às margens do rio do olvido. Uma árvore que, deixada por sua conta, ainda manteria, por tempos incontáveis, suas fortes raízes incrustadas nas profundezas da terra.

Seu destino, porém, já fora traçado. O neto decidira que a primeira a ser derrubada seria aquela horrenda árvore maldita, que lhe lembrava o avô. Só não a cortara ainda por causa dos pesadelos.

Continua dia 24/02 a 2ª e última parte.




Foto Aspen: in Pixabay
Foto Árvore:  Frantzou Florine in Unsplash


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