quarta-feira, 1 de abril de 2015

O QUANTO >> Carla Dias >>


Conversando com um amigo, relembrei alguns momentos que pontuaram nossa amizade. Isso foi antes das mudanças representativas, de quando as estações de metrô entre nós não davam a impressão de que vivíamos em continentes distintos.

Nós conversávamos, sem correria. Na época, eu já batia minhas quase doze horas de trabalho por dia. Mas o tempo... Que gosto tinha? Era mais lento? Eu era menos atarefada? Acho que éramos mais gentis com o tempo, isso sim. Nós o apreciávamos reconhecendo a presença do outro. Nenhum Smartphone ou iPad se intrometia entre nós, e estou certa de que não apenas pelo fato de essas tecnologias não estarem disponíveis na época. A verdade é que adorávamos conversar, e as nossas conversas eram longas, e principalmente sobre música.

Eu já disse, e perdi a conta de quantas vezes e em quais ocasiões, que a música me permitiu ter amigos. Não fosse eu estar envolvida com ela, poucos dos amigos que são realmente presentes na minha vida sequer saberiam de mim.

Neste caso, ainda tínhamos a vantagem de tocarmos o mesmo instrumento, a bateria. Foi esse amigo que me apresentou uma série de bandas, mas sempre acabávamos falando sobre Jimi Hendrix. Em contrapartida, apresentei a ele o Charles Bukowski. Trocar figurinhas sempre foi um gosto nosso, e música, literatura e cinema estavam sempre presentes, não somente como citação de gosto pessoal, como fazemos ao curtir uma fanpage. Trocávamos discos, filmes e livros.

E coisas da vida da gente, obviamente.

Eu tenho uma dificuldade tremenda em fazer novos amigos. É preciso que a outra pessoa seja deveras dedicada para fisgar a minha atenção, e então, a mim. A maioria dos meus amigos o é há mais de uma década. Talvez seja uma questão de geração: eu gosto de conversar e não há celular que me distraia nessa hora. Em relação ao contato por meio de tecnologia, o e-mail ainda é o meu preferido. Eu gosto de escrever mensagens, porque elas me lembram das cartas que eu adorava enviar pelo correio. Para os amigos, elas costumam ser tão longas quanto as que eu enviava pelo correio. A rapidez da comunicação dos dias de hoje é muito interessante, mas quando se trata do amigo, do tipo em que a amizade sobrevive até às grandes pausas entre uma visita e outra, um telefonema e outro, uma mensagem por e-mail e outra, é necessário mais. Pode não funcionar para todos, mas para mim são as longas horas na sala de casa, batendo papo, concordando e discordando com o maior respeito. Um filme, um disco... Dois, três discos. A certeza de que a pessoa está li porque quer, assim como eu. Nada forçado, na conta da diplomacia ou da severidade de se cumprir agenda social.

Essa conversa por e-mail com esse amigo me fez refletir sobre as relações que construímos com as pessoas. Sobre o quanto – considerando as urgências contemporâneas - desejamos conhecer alguém define o como essa pessoa irá figurar nas nossas vidas.

Perguntei como ele estava. Ele respondeu que fazendo o possível para manter o coração batendo, que ele é incapaz de se habituar ao superficial. Que ele é do beijo e do abraço de verdade seja no final da mensagem ou na presença do outro. Essa honestidade sobre o afeto pelo outro demanda tempo, e não está escravizada pela mensagem visualizada e não respondida em trinta segundos, pela necessidade de registrar cada sorriso, pelo escancaro da intolerância mediante a diferença de opiniões e escolhas.

Afeto, meus caros, é trabalho contínuo. Ele até sobrevive à distância geográfica e às estações de metrô. Debruça-se em lembranças, mas daquelas que não se tornam muletas para o presente, e sim inspiração para o agora, para desancorar sorriso, libertar a conversa.

O quanto você quer conhecer o outro?

Eu quero o quanto capaz de manter o coração batendo e o espírito em deslumbramento.

Imagem © freeimages.com

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terça-feira, 31 de março de 2015

NOVAS MANIAS >> Clara Braga

Me peguei com uma nova pequena mania, as vezes fico imaginando a história de vida das pessoas que passam por mim. Imagino o que levam elas a fazerem o que fazem e a serem como são. 

Acho que comecei com isso depois que passei a trabalhar dando aulas para adolescentes. Alguns deles podem ser bem difíceis, as vezes dá uma leve vontade de desistir deles, assim como na vida a gente tem vontade e as vezes até desiste de algumas pessoas.

Então chega o momento do conselho de classe, que você compartilha os casos com outros professores e coordenadores, e então vai entendendo as histórias por trás de cada atitude. É cada coisa que se ouve que os sentimentos gerados são os mais variados, tem hora que você fica com raiva e quer bater na pessoa, tem momentos que você se pergunta o motivo das pessoas terem que passar por certas situações, e outros momentos que você já se questiona porque aquela outra pessoa não passa por algumas situações.

Daí eu comecei a imaginar a história de um monte de desconhecidos, afinal, atitudes e pessoas tão diferentes só podem mesmo ter histórias extremamente diferentes! Comecei a reparar que em 24h consigo passar por pessoas com os mais variados humores, da pessoa que só responde o bom dia com um pequeno sorriso, ao cara que me dá uma fechada no trânsito conscientemente e não pede desculpas, aliás, nem se mostra arrependido do que fez. Até a mulher que mora no primeiro andar e me pede desculpas por estar subindo de elevador e, assim, fazendo com que eu não consiga chegar antes em casa pois vou ter que esperar ela descer no andar dela sendo que ela poderia ter subido de escadas.

Se eu fosse imaginar o dia ou a história dessas pessoas, pensaria na pessoa do sorriso como uma pessoa tímida, retraída, sem muitos amigos e bem caseira. O cara do carro seria um marrento mau humorado, se acha o dono da rua, o rei do camarote, só por ter um carro grande acha que pode entrar na frente de todo mundo. No mínimo tem um ego enorme e também acha que pode passar por cima das pessoas. Já a mulher do elevador seria uma fofa, cheia de amigos, teria uma família linda, uma vida super tranquila e estável.

Bom, mas a verdade é que a realidade tem se mostrado muito diferente. Seria impossível definir o que de fato faz uma pessoa ser como ela é. Hoje já não me surpreenderia se essa mulher do elevador fosse uma pessoa com uma vida super difícil, solitária, que tem dificuldades de conviver em sociedade, assim como não me surpreende descobrir que o aluno que senta no fundo e dorme toda aula não é um preguiçoso, só está tendo que lidar com problemas que nós nunca teremos que passar e está de fato cansado, mas quando ele estudar para a prova, vai se sair muito melhor do que muito aluno que senta na primeira fileira e repete todas as palavras do professor. Também não seria estranho descobrir que o cara do carro é um doce de pessoa, que odeia pessoas que dão fechadas nas outras no trânsito, mas ele não estava em um dia legal e acabou agindo de forma imprudente.

As pessoas são muito mais do que os clichês que já esperamos, o problema é que já não temos mais o tal do tempo para de fato conhecermos as pessoas como elas merecem. Se parássemos para observar, veríamos que toda vida daria um filme, cada um de um gênero diferente. E claro, de uns vamos gostar, e de outros vamos detestar, mas da mesma forma que não podemos julgar um livro pela capa, não podemos dizer que não gostamos de certas pessoas só porque não gostamos de comédia romântica, se é que você me entende.

Depois que comecei com essa nova mania, fiquei me questionando o motivo pelo qual sempre colocamos as pessoas em caixinhas pré definidas se podemos todo dia ganhar novas caixinhas de surpresas! 


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domingo, 29 de março de 2015

O DIA EM QUE A HUMANIDADE PERDEU A RAZÃO >> Whisner Fraga

Eu não defendo que as pessoas devam tentar fazer tudo com amor. Nada mais utópico. Com amor nem sexo se faz mais. Também não professo que se faça tudo com profissionalismo, porque é sofrer à toa. Profissionalismo acabou por se tornar algo muito vago, entre a luta por direitos e as necessidades do mercado. Nesse meio tempo encontram-se a briga pela sobrevivência e o mínimo de conforto.

Mas talvez seja importante um pouco de bom senso no exercício do trabalho. E de esforço. Ainda não estou certo se o ser-humano perdeu o senso ou o cérebro. Levamos Helena a um laboratório, para um exame de sangue. Duas enfermeiras despreparadas para o atendimento infantil nos receberam. Helena não gostou de nenhuma, pois a trataram como se fosse adulta. Lógico, aí ela agiu como criança: fez birra, chorou, gritou, esperneou. Nada a fazia ir até a sala de coleta. Até que, muito tempo depois, muito tempo, a convenci a respeito do exame e a levei no colo. Ficamos lá na sala esperando, eu, Ana e Helena, por vários minutos, torcendo para que a menina não voltasse atrás em sua decisão.

De repente, chegaram as duas enfermeiras, nitidamente estressadas com a reação de Helena. Minha filha se sentou em meu colo, estendeu o braço, mas quando uma delas pegou em seu pulso, ela rapidamente a repeliu. Não queria ser atendida por nenhuma delas. Achei que caberia um pouco de conversa, mas, certamente acostumadas a outro tipo de criação, esperavam que déssemos uma bronca na menina ou mesmo que a forçássemos a estender o braço.

Então, uma das enfermeiras começou um sermão, que não sabíamos o quão difícil era tirar sangue de criança, que o médico dela havia pedido vários testes e que seria necessário muito sangue, que era complicado pegar a veia de criança e assim por diante. Que a vida dela (enfermeira) não era fácil, pois ela ia sair dali para fazer um Papanicolau. Mais um pouquinho e começaria a reclamar do salário e das horas que levava de casa até o trabalho. Reclamações muito justas, mas provavelmente fora de hora.

Já estávamos todos nervosos, Helena jejuando há dez horas e ainda tivemos de ouvir aquilo. Saí imediatamente da sala, resmunguei que era difícil ser pai (não por Helena, óbvio, que é uma menina maravilhosa, mas por ter de escutar aquele tipo de asneira, como se a culpa fosse nossa e a criança uma mimada) e, para que eu não começasse a xingar as duas, contei até dez. Na calçada, liguei para minha esposa e falei para que fôssemos embora imediatamente. Em casa, me lembrei de um vídeo de um enfermeiro tirando sangue e gargalhadas de uma criança, que viralizou no youtube. Fiquei com inveja daquele pai todo bobo de tão contente por ter tirado a sorte grande indo a um hospital com profissionais de bom-senso.

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sábado, 28 de março de 2015

O QUE VESTIR? >> Cristiana Moura


E
ra o casamento de uma amiga, traje esporte fino. Quando me dei conta, não tinha roupa para o tal evento. Todas folgadas. Corri à casa de minha mãe que me emprestou um vestido. São constantes as mudanças no espelho depois que comecei a emagrecer. Por vezes, temo afogar-me como Narciso. Mas preciso olhar. Não se trata de contemplar a própria imagem. Trata-se de reconhecê-la.


As roupas de meses atrás, as perdi todas. Comprei novas. Alguns meses se passaram e ficaram folgadas também. Ontem fui buscá-las no conserto. Experimentei uma a uma ouvindo a opinião da atendente:


 — Tá novinho, você não podia mesmo perder esse vestido!

Tira roupa, põe roupa. Tira roupa, põe roupa. Por vezes penso mesmo que estou trocando de pele. Quando eu já estava saindo ela disse:

— Já tá bom de apertar este que você está usando, vestido folgado já não te cai bem.

— Volto em dois ou três quilos – respondi em concordância. Quando se faz dieta a gente começa a medir tempo em quilos.

Noutro dia, um amigo antigo que há tempos não encontrava, arregalou os olhos ao me ver. Nem precisava tanto tempo assim, dado que emagreci muito em seis ou sete meses.

Espontaneamente ele disse. Ah, antes de contar isto vou esclarecendo que não citarei seu nome para evitar mal entendidos Trata-se de um sujeito sério, bem casado. Desses que fazem a gente acreditar em amores de uma vida inteira.

Bem, enfaticamente ele disse:

— Cris, com todo respeito, como você está gostosa!

Eu olhei de canto de olho, esbocei um sorriso daqueles que combinam com uma face rubra e disse confundindo um jeito sem graça com o mais leve que um tom irônico pode ser:

— Ah, meu amigo, gostosa é com certeza, um dos termos mais respeitosos que conheço.

E, secretamente, pensei: às vésperas dos meus quarenta e três anos, quinze de divorciada, um tanto menos de respeito até que me caía bem.



Imagem: Mulher no Espelho de Picasso 



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sexta-feira, 27 de março de 2015

WILLIAM, O ORDINÁRIO - PARTE I >> Zoraya Cesar

A rotina se entranhara nele tal qual raízes de figueira-vermelha, estrangulando-o pouco a pouco. Sentia-se inquieto e desassossegado. Tinha a impressão de que havia um corpo estranho dentro do seu, querendo tomar-lhe a vida.

E que vida? Aquela mesma de sempre, tão rotineira e repetitiva que, se ele perdesse a memória de um dia, não faria diferença, porque o dia seguinte seria exatamente igual. Ele poderia resumir a história de sua vida em duas páginas, ambas ordinárias. 

Mesma rotina. Mesmo emprego. Mesmo ônibus. Mesma volta para casa.

Mesma vontade louca de ter uma vida diferente. 

MESMA ROTINA – Desde os tempos de colégio comia pão com manteiga e café sem leite, almoçava feijão com arroz, carne e cenoura, goiabada com queijo de sobremesa. À tarde, um café. À noite, macarrão. Aos finais de semana, fast food. Às vezes se encontrava com os amigos para tomar uma cerveja. Mas os amigos foram casando, tendo filhos e, naturalmente, fizeram novas amizades. William, tímido e solteiro, não coube mais naquelas vidas. 

Aos 30 anos, não tinha o que se poderia chamar de amigos, mas conhecidos, com os quais encontrava de vez em quando, cada vez mais raramente. Desgostava-o a companhia de gente tão comum. Preferia beber sozinho, e ficar a observar as pessoas, imaginar que tipo de vida teriam, se a teriam mais interessante que a sua, se seriam pessoas especiais, se teriam algum segredo.  

William queria muito ter um segredo, algo que fizesse dele uma pessoa especial. 

MESMO ÔNIBUS – Às 6 horas da manhã o ônibus já estava cheio e uma das maiores agonias de William era ter de viajar espremido, sentir corpos estranhos encostando no seu, aquele cheiro de banho recém tomado com sabonete barato, do creme para os cabelos que as mulheres usavam... Ele odiava cada minuto daquele trajeto de ida para o trabalho. 

A volta não era melhor. Cansadas, as pessoas se encostavam umas às outras, dormitavam, algumas babavam ou roncavam. Ele não descansava, alerta, sempre cuidando de não encostar nos outros, os outros encostando nele assim mesmo.

Morava longe, bem longe do centro da cidade, onde trabalhava. À medida em que o ônibus seguia, diminuía o número de passageiros e ficavam os pontos de parada mais escuros, ermos, perigosos.

No fundo de sua mente estrangulada, uma tímida ideia começava a tomar forma; ele, ainda inconsciente dela; mas a ideia, no entanto, totalmente cônscia do terreno fértil que em que nascera.

William desejava mais que tudo vivenciar.algo que fosse só dele. Era isso ou enlouquecer.

MESMO EMPREGO – Bancário. William era bancário, porque esse era o trabalho de seu falecido pai e o sonho da sua mãe, que queria o filho numa profissão garantida e respeitável. 

Formado em contabilidade, tinha cabeça para cálculos, era organizado, meticuloso, nunca faltara. Se perguntassem a qualquer de seus colegas o que achavam dele, todos diriam que era um cara legal, gentil, que não se metia na vida de ninguém e fazia seu trabalho bem feito.  

E o que ele achava disso tudo? William gostava muito de seu emprego, mas ser bancário era o cúmulo da mediocridade. Sentia-se um otário. Sim, era isso. Para William, todo bancário era um otário.

E ele queria tanto ser um cara cool, ter uma vida além do ordinário. 

MESMA VOLTA PARA CASA – William morava numa casa antiga e tinha um quarto só para ele, nos fundos, cuja porta dava para a cozinha, e, esta, para a rua. No armário, camisas pólo, todas cinza, azul-marinho ou pretas, e calças de brim escuro; sapatos de cadarço e meias brancas. Usava o mesmo estilo de roupa desde a adolescência.  Ao lado da cama, encimada por um espelho, uma mesa, sobre a qual ficava seu notebook. A internet e os games eram parte integrante da vida de William. Seus melhores amigos, seus companheiros. 

Morava com a mãe, uma velha cegueta, esquecida pelo destino, que passava o dia vestida com um peignoar desbotado e puído, resmungando sua artrite pela casa. Criara o filho para ser um bom menino, obediente e comum. Incutira-lhe o temor de tudo o que fosse fora do normal, do mundo lá fora, cheio de perigos, de gente má e violenta.

William tinha medo, sim, mas de morrer sufocado pelas raízes da figueira-vermelha que se espraivam em sua alma.

Era um caso de vida ou morte. Diante da pressão, aquela tímida ideia, antes escondida em sua mente, qual violeta no meio do mato, desavergonhou-se e apareceu, nua e esperançosa.

William a recebeu e acalentou. Afofou e adubou a terra onde nascera a violeta-ideia, examinando cada possibilidade. Tudo era uma questão de coragem e planejamento. 

A ESTRATÉGIA – William era observador. Era paciente. E agora tinha um objetivo real a dar-lhe sentido à vida. Começou os preparativos. 

Primeira coisa a fazer era escolher onde encontrar a pessoa certa. Escolheu o ônibus. Sempre havia mulheres cansadas e magras que desciam sozinhas nos pontos finais. 

O segundo passo foi matricular-se numa academia, para reforçar os músculos, melhorar a aparência, ganhar resistência aeróbica. Iria precisar, com certeza, de alguma força física, e talvez fosse necessário correr também. 

E, por fim, pesquisar na internet todas as informações e material dos quais necessitaria para levar adiante seu plano.

Estudava, comprava, lia, preparava-se. Estava por escrever um novo capítulo em sua vida.

William, finalmente, tinha um segredo.

Continua dia 10 de abril



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quarta-feira, 25 de março de 2015

A SÓS >> Carla Dias >>


Eu poderia dizer as frases certas, usando palavras adequadas. Até mesmo pronunciar poesia na sofreguidão da felicidade. Envolveria Deus no prelúdio, para que as decisões sofressem de divindade.

Eu poderia lhe dedicar o meu universo, do momento que antecede meu despertar ao suspiro que protagoniza meu adormecer, restando-me viver em nome da feitura desse compromisso.

Seria nem sempre amável, que eu sei que sofro de desatino. Conversaria com as paredes, que elas têm me esclarecido um tanto de coisas escondidas. Atravessaria a rua, olhos fechados, no vermelho. Só para chacoalhar a rotina e assustar o sossego.

A verdade se vê diminuta nos palcos desse meu fascínio, que prefiro inventar acontecimentos, deslizes, machucar minhas certezas em vez de gestar indiferença, para então orná-la com falsos sorrisos. À vida eu dedico o mais longo, cáustico, inspirador, vívido suspiro.

A você eu dedico o pensamento mais íntimo.

E outras tantas intimidades, como a de beber água no mesmo copo, abraçar sua mão, apenas para impedir o gesto, aquele que me chama para visitar precipícios. Mergulhar em silêncio no seu olhar enevoado, nas pálpebras das suas intenções orquestradas por silêncios. Escutar sua voz assanhando os meus carinhos, fazendo com que eu os entregue a você de graça, com a graça desalinhada e rendida.

Acho curioso o que dizem por aí sobre o amor. Ele é isso ou é aquilo. O que fazer, então, se o meu não se rende a um paradeiro? Meu amor se movimenta, é paranormal, bipolar, seduzido por ondas sonoras. Gosta da madrugada de quarta, de nem mesmo dormir, e ainda assim, seguir logo cedo para a lida. Meu amor se arrepia ao toque das possibilidades, sabe bem que as imperfeições são mais reveladoras que as qualidades. Ele não tem pudor, esse meu amor, por isso essa sanha toda por liberdade.

Mais que tudo, meu amor alimenta a minha solidão.

Coloca-me de cara com a televisão, horas por dia, espírito entregue à inércia. Também me inspira a inventar legalidade, como a de roubar desajustes para ajustá-los, só de raiva, só de birra, só de solidão contínua. Essas pausas que a sua ausência financia em longas parcelas, que às vezes duram uma estação inteira.

A sós eu comungo com o aferro das minhas querenças. E da saudade...

Eu desafiaria tendências, rótulos e intolerância em nome da sua companhia. E me endoidecessem as pausas, de quando sua voz não assopra palavra dita nos meus ouvidos. Um poema, um capricho, uma confissão sobre o que eu já sabia. E o meu nome, que na sua boca, ele ganha biografia.



Imagem: The Lovers I © Rene Magritte 

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terça-feira, 24 de março de 2015

PEQUENOS GESTOS >> Clara Braga

Um grupo de amigos estava atravessando a rua fora da faixa, sendo que havia uma a menos de 100m de distância, quando tiveram que parar para dar passagem a um carro que vinha subindo a rua pois havia furado o sinal vermelho, já que não tinha ninguém para atravessar na faixa. O grupo de amigos se exaltou e gritou cheio de razão para o carro: o sinal está vermelho!

Provavelmente, o grupo de amigos decidiu atravessar ali mesmo, fora do sinal e da faixa, pois a rua estava pouco movimentada, já era tarde da noite. Mas não contavam que quando chegassem na metade da rua iriam dar de cara com um motorista que decidiu avançar o sinal vermelho, já que não havia ninguém para atravessar na faixa e hoje em dia já não é seguro parar sozinho em lugar nenhum tarde da noite. O motorista, por sua vez, também não imaginava que, depois que avançasse o sinal, encontraria um grupo de amigos que decidiu atravessar a rua fora do sinal. O grupo, se sentindo certo, reclamou. O motorista, vai saber o que pensou. Mas no final das contas, tem alguém de fato certo nessa história?

Já do outro lado do mundo, uma menina que está fazendo intercâmbio marca de sair com os amigos das mais diversas nacionalidades. O horário é 20:30, mas a brasileira chega às 20:45 e se surpreende ao perceber que seus colegas não esperaram por ela. Posteriormente, durante uma conversa com esses colegas, eles questionaram: os brasileiros sempre chegam uns minutos depois, será que é muito difícil chegar às 20:30 já que esse foi o horário marcado? Os brasileiros deixam os outros esperando, mas não gostam quando devem esperar!

Cada vez mais percebo que temos cultivado essa mania besta de exigirmos o que é certo por parte dos outros, mas, da nossa parte, continuamos a viver o tal do jeitinho brasileiro de ser, e tudo bem, afinal, é da nossa cultura ser assim, quer desculpa melhor que essa? E no final, nem achamos que devemos nos preocupar com esses pequenos deslizes, eles são pequenos mesmo.

Nunca compartilhei da ideia de que essas pequenas irregularidades, se é que posso chamar assim, não causam mal algum. E só confirmei minha opinião após ver um vídeo maravilhoso que foi muito compartilhado esses dias nas redes sociais. Nele, um historiador responde se existe solução para a corrupção no brasil, já que essa já faz morada por aqui. De forma muito tranquila o historiador disse: a solução começa com a educação que a gente dá para as crianças desde cedo. Estamos acostumados a ensinar que fazer o trabalho daquela matéria da escola vale a pena pois o trabalho vale nota. Que usar a moeda de 50 centavos que você encontrou no chão para comprar uma balinha sem ao menos perguntar se aquele dinheiro pertence a alguém é algo tranquilo. Assim como também aprendemos que não tem problema dizer que os 50 centavos são seus, mesmo que não sejam, se ninguém deu falta já era. É o famoso "perdeu, playboy!".

Todos esses atos são pequenos atos de corrupção que, se não analisados e debatidos com a devida importância, vão crescer com a pessoa e vão se adaptando às suas devidas proporções. Nós, que estamos exigindo um país sem corrupção, precisamos cada vez mais colocar nossas mãos na nossa consciência e nos perguntarmos se, além de exigir um país melhor, nós estamos sendo pessoas melhores. Nós temos um papel muito complexo, que é garantir uma geração de crianças que terão a oportunidade de crescer de forma justa, lutando e entendendo seus direitos. Sair da manifestação e furar o sinal vermelho ou atravessar fora da faixa não está com nada e não é a mensagem certa para se deixar para a sociedade em um momento como esses. Lembrem-se sempre, pequenos atos geram grandes consequências.




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segunda-feira, 23 de março de 2015

A BOIA E O CAPITÃO >> Albir José Inácio da Silva

Foi logo depois da guerra que a Light estava fichando – hoje em dia se diz contratando - e só precisava disposição pra trabalhar.  De longe vinha gente que abandonava a dureza do eito nas fazendas em busca de dureza com carteira assinada e boia. E salário-mínimo - que era o mais novo sonho dos boias-frias. A minha sorte foi que naquele tempo menino podia trabalhar.

- Tem que ser menino esperto, ter força e disposição - dizia o funcionário do recrutamento, que falava isso sem olhar pra pessoa e ficou decepcionado quando viu meus quarenta e poucos quilos. Mas consertou: - Às vezes disposição é melhor que força, né garoto? – fez um quase sorriso, e eu ganhei a vaga porque todo mundo ganhava.

Quem ganhou vaga também, com muito mais justiça porque era grande como um touro e trabalhava por três, foi o Zé Gamela.   Gamela vinha das profundezas de Minas e recebeu esse nome ainda criança porque o que tinha de força, tinha de fome e comia na gamela - uma espécie de bacia.

Quando chegamos no canteiro, já lá havia um  encarregado de nome Capitão. Dizem que virou Capitão de tanto o povo repetir, mas começou como capetão, capeta grande, porque era um capataz ruim que nem o diabo. Capitão ele gostava, dizia que era reconhecimento por sua importância e autoridade.

Capitão era um mulato que se embranquecia e não gostava de preto. Era encarregado, mas não era de serviço não, que entendia nada de usina, nem de pedra, nem de dinamite. Era um chefe de disciplina, de segurança, sei lá mais de quê, só sei que implicava com tudo. Andava com um rebenque na mão, que até os patrões gringos estranharam, mas ele explicou que não era chicote não, era um bastão pra bater nos galões de piche e saber quando estavam vazios.

Era uma segunda-feira e Zé Gamela sentia muita fome, tinha comido só uma sopa de banana verde no domingo. Mesmo assim trabalhou duro toda a manhã. Logo da primeira vez pediu pra encher mais o prato e saiu pingando feijão.  De cara feia, o Capitão provocou:

- Parece bicho pra comer!

Zé Gamela não ligou. Comia muito mesmo, e estava feliz com o prato transbordando. Sorriu pro Capitão e foi comer. O Capitão não gostou do sorriso. Não gostava da cor nem do jeito de Gamela.

Zé Gamela entrou na fila pra repetir a bóia com o pedaço de carne espetado no garfo. A gente podia entrar na fila quantas vezes quisesse, mas a carne era só uma, servida na primeira vez. No início a turma devolvia o prato com a carne pra receber mais arroz e feijão. Mas a comunicação era ruim, os caras do rancho não falavam a nossa língua e acabavam raspando o prato no lixo antes de colocar mais comida. A esperteza dos caboclos logo inventou esse expediente: ficar com a carne no garfo enquanto era servido.

Estava o Gamela sorridente com a carne no garfo e o prato estendido, quando Capitão passou por trás dele. Com o bastão bateu no garfo de baixo pra cima e o naco subiu dois metros, quicou nas tábuas do chão e deslizou pela terra. Gamela ainda correu até a carne, mas ela tinha uma lama de gordura e terra preta, e ele jogou de volta no chão.

Sentou no banco com o prato na mão, mas não conseguiu comer. Tinha um nó na garganta e os olhos pregados no chão. Seu Chico foi até lá, achando que ele não queria comer sem carne:

- Toma, Gamela, eu já tô cheio.

- Quero não, Seu Chico, perdi a fome.

Seu Chico voltou pro meu lado no banco de madeira:

- Sabe, menino, eu vivo há muito tempo, mas não consigo entendê as pessoa.


Se o Seu Chico, que era velho e viajado, não entendia as pessoas, imagina eu que era só um moleque.


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