sexta-feira, 24 de abril de 2015

WILLIAM, O ORDINÁRIO - ÚLTIMA PARTE >> Zoraya Cesar

clique aqui para ler William, o Ordinário parte I

clique aqui para ler William, o Ordinário, parte II


A última incursão do ano tinha que ser primorosa, para coroar um ano de êxitos durante o qual matara e fugira, impune e tranquilamente. 

Preparou-se para dali a dois dias, quando ocorreria, segundo todos os informes meteorológicos, uma chuva torrencial, a última da estação. Resolveu usar a  linha de ônibus e as roupas que utilizara da primeira vez, fechar o ano em grande estilo.

Na noite esperada, olhou-se no espelho antes de sair. William, o Extraordinário, pensou, satisfeito consigo mesmo, com sua vida, com sua argúcia. Uma pena, refletiu, antes de sair, não ter com quem dividir sua glória, a quem mostrar o quanto era especial. Se contasse para alguém teria que matá-lo em seguida, pois ele suportaria tudo, menos ser preso ou voltar à vida ordinária de antes. 

William sentiu um frisson ainda mais poderoso do que sentira em todas as outras empreitadas, como se algo inexplicável e incomum estivesse para acontecer.

A CAÇADA - Sentou-se, como sempre, no fundo do ônibus, fingindo dormir enquanto observava as passageiras. As ruas foram se sucedendo, as pessoas saltando, sem que ele avistasse a mulher ideal. Começou a sentir-se verdadeiramente incomodado. Será que teria de voltar para casa de mãos abanando? Sem fechar sua sequencia de assassinatos bem sucedidos? 

Estava quase desistindo quando ela se levantou. William prendeu a respiração, a adrenalina acelerou seu coração, sua boca ficou seca, as pupilas dilataram. Ela era perfeita.

Baixa, tão magra que parecia um osso para cachorro roer. Os cabelos desalinhados estavam amarrados em um rabo de cavalo mal feito, vestia-se muito simplesmente, parecia humilde e achatada pela vida. A bolsa – o verdadeiro cartão de visitas de uma mulher - era velha e muxibenta. Não usava maquiagem e tinha fundas olheiras, destacadas em sua tez amarela-escritório. Parecia uma boneca quebradiça. William teve um estranho sentimento por ela, como se experimentasse compaixão; ele sabia o que era ser ignorado, o que era ser comum. Admirou-a, extasiado, sentindo uma fibra desconhecida bater em seu coração. Parecia daquelas mulheres cuja idade permanece indefinida ao longo dos anos, que trazem em si um mistério a ser desvendado. Seu aspecto lembrou a William o de uma pequena fada cansada. 

Ele se apaixonou nesse mesmo instante. 

ESTRANHAS FORMAS DE AMAR -Sentiu-se feliz como nunca na vida pensara ser possível. Sentiu que o amor e a morte eram parceiros inseparáveis e era aquilo que procurara por toda sua vida. Teve, então, uma curiosa certeza, que lhe causou tristeza tão profunda, que quase o afogou: aquela seria a sua última vítima. Nenhuma outra jamais lhe bastaria.

Quem sabe, se a tivesse encontrado em outras circunstâncias... Agora era tarde, um verdadeiro caçador não perde o foco de sua presa. Seus sofrimentos, pensou William olhando-a amorosamente, estão prestes a acabar. 

Ela saltou, cabisbaixa, delicada, indefesa. William sentiu vontade de abraçá-la, acabar com aquela angústia. 

Chovia muito, a natureza derramando, talvez, lágrimas pela brevidade da vida, pela veleidade do amor, pelo inescrutável destino.

Ao contrário das outras, essa mulher não correu para escapar do vento frio. Andava lentamente, como que a esperar alguma coisa. William agarrou-a por trás e apertou sua traquéia firme, mas sem a violência que aplicara nas vítimas anteriores. Queria olhá-la de frente, com os olhos ainda vivos, dizer-lhe palavras de conforto antes do aperto final.  

O golpe foi rápido e eficiente, na altura do seu rim direito. Embora a roupa grossa tenha amortecido a dor, o impacto foi forte o suficiente para que ele soltasse as mãos e se afastasse. titubeante e surpreso. 

A frágil fada reagira! 

Ela deu um passo para trás e puxou uma arma. Como pudera escondê-la, pensou ele, magra daquele jeito? William sentiu um assomo de orgulho, não se apaixonara por uma qualquer. A luz do único poste a iluminava, molhada, olhos esbugalhados, cabelo ainda mais desalinhado, a boca aberta, tentando aspirar todo o ar que escapara na curta refrega, o rosto crispado de medo e susto. Em outras circunstâncias, talvez... Mas nada disso importava agora. William tinha de tomar uma decisão: matar ou correr. 

Pare ou eu atiro, gritou ela. 

William decidiu-se. Jamais seria preso. E avançou, gritando, ele também. 

Ela atirou. Uma, duas vezes.

William foi atirado longe, os pulmões se enchendo rapidamente de sangue, os ouvidos ribombando pelo som do revólver, a consciência se dando conta do que acontecera. Só queria poder dizer o quanto estava feliz por morrer pelas mãos da mulher de sua vida, vida essa que para ele, no fim, fez todo o sentido.

COISAS DA VIDA - Horas depois, o lugar parecia um set cinematográfico, lotado de policiais, jornalistas, curiosos. A moça, ainda trêmula, contava ao inspetor como todo o plano dera certo.

Não, pensou Felipe Espada. Nada dera certo. Mulheres indefesas morreram inutilmente até que chegassem ao assassino dos becos. Sua pupila mais bem treinada poderia ter morrido, pois os agentes que deveriam dar-lhe suporte não chegaram antes que ela tivesse que atirar. Por ele, a jovem policial jamais passaria pela experiência de matar outro ser humano, e o tal sujeito, William, estaria vivo, para pagar com sua liberdade pela morte de pessoas inocentes. 

Não, suspirou o policial responsável pela investigação que encontrou o assassino. As coisas não saíram do jeito que ele queria.

Mas não era assim, a vida?



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quarta-feira, 22 de abril de 2015

A SENHORA DE PIJAMA >> Carla Dias >>


Acredita que nada do que disser servirá para lapidar a ideia do outro. Que sua opinião sobre assuntos diversos não é capaz de influenciar qualquer mudança na certeza alheia. Ele é uma pausa constante, adepto do sedentarismo intelectual.

A solidão faz parte do seu ser, que sabe bem que se envolver em grupos de pessoas pode levá-lo a quebrar promessa feita a si, a de se manter fiel à incapacidade de se tornar autor de consequências. Obviamente, a tática não é completamente eficaz. Às vezes, sem querer, ele esbarra em escolhas que tem de fazer e que respingam na realidade do outro.

Saiu de casa para fazer a compra do mês, que antecipou em cinco dias, pois acabou a cerveja. Ele é web designer conhecido do meio, principalmente por manter quase nenhum contato com o cliente e sempre entregar um trabalho impecável. Ninguém se importa em não encontrá-lo pessoalmente, porque ele sempre cumpre muito bem o seu papel.

Fosse levar à risca seu desejo em viver longe do mundo, cancelaria as compras do mês no supermercado. Por que não fazer as compras online, como qualquer pessoa normal? Mas acontece que ele gosta desse passeio mensal pelos corredores do supermercado. Apreciar aqueles produtos todos ao alcance de suas mãos, não apenas adequadamente visualizados em uma tela. Às vezes, ele aprecia esbarrar o carrinho no de outro cliente, cometer o pecado de comprar um pote de sorvete completamente impróprio para um diabético.

A fila longa o exaspera um tanto. A lentidão com a qual o caixa passa os produtos pelo leitor de código de barras, a criança choramingando por causa de um chocolate caro e oco, a mãe entretida com a revista de fofocas exposta. Por que ele se permite passar por isso uma vez ao mês, já que parece que as pessoas são muitas e as mesmas?

Cutucam-lhe o ombro e ele se vira, dando de cara com uma senhora miúda, com grandes óculos e cabelos meio bagunçados, segurando um pacote de feijão e uma garrafa de vinho. Vê-se que a possível sexagenária não se importa com o visual, já que usa pijama, pantufas e um longo penhoar. “O que diabos estamos fazendo aqui, meu jovem? Veja bem, eu gosto de pessoas, mas toda vez que venho ao supermercado, eu passo a odiá-las... Ao menos até chegar a minha vez no caixa”.

Ele não é de jogar conversa fora, por isso a cara de bravo. Ainda assim, a senhora parece nem se importar com isso, e segue falando sobre a lerdeza do caixa, a criança birrenta, a mãe distraída. Mediante o silêncio dele - e as várias vezes em que ele tenta se desconectar dela, dando-lhe as costas -, a senhora lhe toca o braço, pedindo atenção, e lhe conta histórias sobre quando era jovem, e sobre a velha que se tornou. É assim que ela consegue fisgá-lo, mas de um jeito, que ela é que tem de avisá-lo quando a fila anda.

“É uma questão de perspectiva, meu jovem. Eu sou uma mulher que tem histórias pra contar, porque mergulhei nessa vida, engoli água, até me afoguei, mas olha só! Aqui estou...”

A cada passo que o aproxima do caixa, seu coração se apequena. A senhora, à qual outros da fila lançam olhares curiosos e censores - que onde já se viu vir ao supermercado vestida desse jeito! -, tem tantas histórias hilárias para contar, que ele nem se importa se são verdadeiras ou inventadas. Ela dá vários conselhos a ele: “saia de casa ao menos uma vez na semana. Sei que ficar sozinho em casa é muito bom, mas não podemos ignorar o mundo, não é mesmo? Eu vou ao cabeleireiro uma vez por semana. Tem uma moça lá que vive com problemas familiares e amorosos, e precisa de quem a escute, nem que seja uma vez por semana. Por que não?”

Depois de ser atendido, esperou a senhora passar o pacote de feijão e a garrafa de vinho. Então, ele a acompanhou até a casa dela, duas quadras dali; cinco quadras de sua casa. Ela não aceitou quando ele pediu para carregar sacola dela. Aparentemente, há certa dignidade em carregar suas próprias compras.

A frente da casa da senhora é bem estreita, “mas é comprida pra dedéu...”, tem dois quartos, sala, cozinha, dois banheiros e um quintal com árvore. Antes de entrar, despediu-se dele com um sorriso incitador. “Quem sabe, dia desses, você me conta algumas das suas histórias.” Entrou em casa e ele ficou lá, em pé, fascinado pelas histórias da senhora de pijama.

A compra do mês se tornou a da semana. Uma vez por semana ele vai ao supermercado, esperando encontrá-la novamente. Desde aquele dia, seus pensamentos andam eriçados, desejosos de adquirem mais inspiração. Os clientes têm lhe parabenizado, que apesar de seu trabalho sempre ter sido impecável, pela primeira vez ele também se mostra fascinante.

No caixa, passando barras chocolate nada indicadas aos diabéticos, observa ao redor, buscando por ela. O caixa, o mesmo de sempre, que de horário ele não muda, diz que ela não veio mais, desde o dia em que eles se encontraram. Ele sorri, ensaca suas compras e segue confiante até a casa da senhora. Em pé, à porta dela, ainda leva um tempo até tocar a campainha. Quem lhe atende é um rapaz, lá com seus vinte e poucos anos, o olhar tão azul quanto o da senhora. Pergunta por ela, “a senhora de pijama”, e o outro pergunta quem é ele. “Eu a conheci no supermercado...” O moço lhe devolve um fiapo de sorriso.

A senhora de pijama passou uma semana inteirinha falando sobre ele para a sua família: três filhos e sete netos. Todos ficaram impressionados sobre como ela se tornou falante, já que parecia que jamais se recuperaria da morte do marido, alguns meses antes. A casa parecia estar em festa, os filhos estavam sempre por perto e adoravam trazer as crianças.

Sentado no sofá, defronte aos três filhos da senhora, todos com os olhos azuis, feito os dela, meio chorosos, ele escuta agradecimentos sobre o que ele não sabia ter feito. “Obrigado por ter escutado as histórias dela. Nós já as conhecíamos, e como nosso pai já não estava entre nós, ela não podia contá-las como se ele ainda não tivesse partido”.

Maria Amélia Ferraz de Souza, a senhora de pijama, faleceu há alguns dias, mas foi tudo muito tranquilo. Contou aos filhos que conhecera um jovem amuado, de olhar triste, alma reverberando solidão, e que confidenciou a ele as histórias de sua família. A gentileza do moço em escutá-la, sem se defender da velha doida, como escutou alguns a chamarem, naquele dia, transformou aquele olhar. E as histórias eram todas verdadeiras, até as mais surreais. Aparentemente, antes de se enfiar em pijama e beber uma garrafa de vinho por dia, ela e seu marido viveram muitas aventuras.

Volta para casa, uma tristeza lhe cutucando a alma. Volta aos seus afazeres, impecáveis, sempre. Volta ao silêncio, que é quebrado, vez ou outra, por música. Volta ao pensamento sobre sua existência significar nada para o outro.

Só que ele não se sente mais uma pausa constante. Dentro dele, a vida começa a reverberar diferente. Solta um fiapo de sorriso, lembrando-se da gargalhada tão miúda quanto ela. Faz a compra do mês pela internet, depois sai para uma volta pelo bairro.

Imagem: Le Double Secret © René Magritte

carladias.com



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terça-feira, 21 de abril de 2015

CRIANÇAS SENDO CRIANÇAS >> Clara Braga

Já tem um tempo, comprei um livro encantador chamado Casa das Estrelas, aquele que as crianças definem diversas palavras da forma como as entendem. Algumas definições são mais explicativas do que o próprio dicionário, me lembrou muito aquele livro Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento, da Adriana Falcão, tão encantador quanto, imagino que seja porque a Adriana tem esse lado criança ainda muito aflorado, coisa que a gente infelizmente vai perdendo e ainda acha comum que seja assim.

Já mais recentemente, vi um vídeo de uma campanha lançada pela Noémi, uma associação para pessoas com deficiências múltiplas, que convidava pais e filhos para um experimento. Eles entram em uma sala e ficam separados por um tapume enquanto assistem vídeos de pessoas fazendo caretas. Conforme as pessoas fazem as caretas nos vídeos, a família tem que imitar a careta que estão vendo. Em certo momento, uma garota com deficiência múltipla aparece fazendo uma careta, os adultos imediatamente param de imitar, enquanto as crianças continuam se divertindo com a brincadeira como se nada tivesse acontecido. Então, a associação conclui e convida a todos a olharem para o mundo com os olhos de uma criança. É uma campanha muito delicada, muito bonita, e que faz a gente repensar algumas posturas, vale a pena ver o vídeo.

Alguns dias depois de ver o vídeo dessa campanha, li um texto sobre o garoto que foi contar para o irmão mais novo, contra a vontade dos pais, que ele era gay. Os adultos ficavam receosos da confusão que essa informação poderia causar na cabeça da criança, mas a surpresa foi do lado contrário, quando perguntou ao irmão: você sabe o nome que se dá para pessoas que gostam de pessoas do mesmo sexo? a resposta foi direta e reta: amor!

Poderia seguir com uma lista gigante de vídeos, textos, livros e relatos interessantes que envolvem crianças. Tem a palestra maravilhosa do menino que decidiu estudar na vida e parar de ir para a escola, da menina que dá uma lição de moral sobre a beleza dos cabelos crespos, o experimento que pede que crianças corram como meninas e elas seguem correndo do mesmo jeito, sem clichês, e assim por diante. O que essas crianças tem em comum é uma certa ingenuidade, mas não essa ingenuidade que a gente conhece. A gente fala de ingenuidade como algo pejorativo, mas é isso que faz com que as crianças consigam olhar o mundo sem preconceitos e pré-conceitos. 

Na verdade, o que me pergunto é porque a gente insiste que ainda tem tanto para ensinar para as crianças e não se abre mais para aprender com elas?


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segunda-feira, 20 de abril de 2015

RUSIVEL E AS PASSEATAS - Final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 06 de abril de 2015) 


Agora, ao ouvir os televisivos convites para a manifestação - não os pichados em muros durante a madrugada ou em panfletos mimeografados – Rusivel sente brotar o patriotismo, começa a entender a democracia e cantarola o hino nacional.

Rusivel não gostava de política e ainda não gosta. Afinal, a vida o esfregou na política de maneira muito dolorosa. Tentava entender esse ou aquele episódio, mas sem sucesso. Nunca compreendeu esse negócio de esquerda e direita. Um amigo, metido a leituras, falou coisas sobre revolução francesa, jacobinos e girondinos sentados à esquerda e à direita no parlamento, mas isso confundiu ainda mais sua cabeça.

Menos ainda entendia a questão das cores: camisa vermelha, camisa da seleção, partidos azuis, partidos vermelhos, para ele eram apenas cores. É por isso que nenhuma ideologia inspirou a escolha da roupa para a manifestação. O manto sagrado, como ele diz, esteve presente nas grandes emoções de sua vida. A de hoje é a camisa número 3 da coleção flamengo 2015 – toda vermelha com escudo branco em cima do coração.

Um arrepio lhe percorre o corpo ao ver aquele mar de gente gritando palavras de ordem. Não parece perigoso. Não são cabeludos e desgrenhadas com cara de assustados. São famílias inteiras, sorridentes, levando os filhos às costas. É a polícia fazendo cordão para proteger, sendo aplaudida pelos manifestantes e tirando fotos com eles. Nada pode dar errado.

E lá vai ele com o peito estufado de orgulho flamenguista para sua primeira passeata como protagonista, e não como vítima. Nem notou os olhares atravessados e os gestos hostis. Estava de bem com a vida, e achou que aquelas roupas eram um desagravo ainda pelos sete a um da Copa.

O que não dava era pra resistir a uma camisa da seleção por aquele preço – e logo a número dez de Pelé, Zico e Neymar! No momento em que recebia a gloriosa, um manifestante mais exaltado rosnou-lhe gratuitamente:

- Mas que merda é você?

Rusivel pensou que era algum vascaíno ou argentino despeitado. Estava feliz e nenhum raivoso ia estragar o seu dia. Vestiu a camisa por cima da vermelha e ganhou de brinde uma bandeirinha do Brasil.

Longe de ser um provocador, mas perto de alguns provocadores, Rusivel, com camisa vermelha aparecendo por baixo da canarinho, não precisou abrir a boca para atrair impropérios.

- Esse cara é infiltrado! É traidor! É bolivariano! – acusaram alguns.

- Isso não me engana. É coxinha, golpista disfarçado! – responderam outros.

Os xingamentos viraram empurrões e bandeiradas, socos e pontapés. A gloriosa camisa dez foi rasgada porque aquele comuna não merecia vesti-la. A polícia militar, que tinha lá suas preferências, não reconheceu naquele maltrapilho ninguém que merecesse ser protegido. E o cassetete cantou solenemente nas suas costas.

Mancando, com um galo na cabeça e as costas ardendo, Rusivel escapou de sua segunda passeata em 40 anos. E se foi, lembrando da infância e das sábias palavras de sua vovozinha:


- Quem procura o que não guarda, quando acha não conhece!


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sábado, 18 de abril de 2015

QUARTO DE BONECA >> Sergio Geia

Justin abraça um violão preto. Mas o que me chama a atenção mesmo é uma menininha de roxo, bumbum arrebitado, sentada num carrinho de bebê — a imagem é meio turva, eu não enxergo direito. Não. Não dá. Fere a lógica. Naquela posição, não. Sem contar o carrinho. Já teria descido. Espatifado rua abaixo. A artista desprezou as leis da física. Mas tudo bem.

Antes o problema fosse esse. Tudo bobagem. Bobagens. Como bobagem é a imensidão rosa que me cerca. Um quarto de boneca. Um quarto de boneca que me abriga temporariamente. Mas o que importa são as páginas, as páginas visitadas. Ou revisitadas. Não. Isso não importa. Quer dizer, isso é o que importa, mas o que eu estava pensando no momento não é no que importa, mas no problema que reduz acentuadamente o problema do quarto de boneca. Essas batidas. Essas batidas irregulares, fora de hora, que martelam os miolos.

São dez e vinte e seis. Da noite. Uma noite mais fria que as últimas, véspera de um feriado qualquer. Debaixo do cobertor, eu tento voltar às páginas, ao que realmente importa. O artista fala do mar. E de um homem. Um homem e o mar. Que combinação! De sua varanda, ele observa. O homem está a nadar. A primeira vez que deixei meus olhos deitarem na imagem foi em Ubatuba. E me apaixonei. Naquela costa, mar lindo é o que não falta. Bom lugar para se apaixonar. Agora, de novo. Mas não há mais o mar, nem o homem; cá está outro homem, não com suas braçadas pausadas e fortes, mas com suas marteladas, não tão pausadas, mas fortes de arrancar os miolos. A sensibilidade que se multiplica em um, tão ausente noutro.

Eu desvio o olhar por um instante. Volto para Justin. Para o violão. Para a menina de roxo que, apesar do perigo, mostra os dentes numa alegria tipicamente juvenil. Penso em desligar as páginas. Em ligar a música. Em me desligar. E desligar a visão do quarto rosa, do quadro da menina, da fotografia do Justin, das bonequinhas perfiladas que agora, só agora, percebo sobre a mesa. Mas ligaram a furadeira. Ou será uma cortadora de cerâmica?

 O vento é nordeste e pequenas espumas nascem e somem. O homem lá. Nadando. Sem imaginar que alguém, de sua varanda, o observa serenamente, encantado com os movimentos. Sem imaginar que alguém de longe, de muito longe, o imagina flutuando em águas macias, solitário, na bela tarde de sol emoldurando uma praia deserta. Não. Aí eu não sei. O escritor não falou. Falou que o sol resplandecia. Que não havia ninguém na praia. Que o vento era nordeste. Que as espumas nasciam e sumiam. Mas não falou se era uma manhã ou uma tarde de sol.

Não importa. O que importa é que a imagem que eu formo nesta noite fria de marteladas e afins é a imagem de uma tarde de sol. E basta. Não. Não basta. Na verdade, imagino o fim de uma tarde de sol, o vento crispando as ondas, o homem lá, a nadar, a cumprir a sua missão, o seu destino, destino de personagem e autor de sua própria história, personagem real das histórias do mundo. E da minha história.

São dez e quarenta e um. Ao som que gostaria fosse o do mar, das ondas que vem e vão, do nordeste a sacudir folhagens, mas não é, eu desligo. Desligo as páginas. O Justin. A menina. A visão do quarto de boneca. Ou tento.

 


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sexta-feira, 17 de abril de 2015

VALE-CRÔNICA >> Paulo Meireles Barguil

Para ajudar a classe trabalhadora a andar de ônibus, em 1985, a Lei nº 7.418 instituiu o Vale-Transporte.

Para incentivar a permanência das crianças na escola, a Lei nº 10.219/2001 criou a Bolsa Escola.

Para matar a fome, foi criada, pela Medida Provisória nº 2.206, de 2001, a Bolsa-Alimentação.

Em 2002, o Auxílio-Gás, mediante a Lei nº 10. 453, de 2002, incentivou a comida feita no fogão.

Ainda bem que não inventaram o Vale-Lenha!

A festa ficou mais animada com o Programa Nacional de Acesso à Alimentação, conforme a Lei nº 10.689, de 2003.

Em 2004, os quatro programas recentes foram aglutinados na mais famosa brasileira, a Bolsa Família, a teor da Lei nº 10.836.

Eles ficaram um tempo sem inventar nada, até que, em 2012, foi estabelecido, conforme a Lei nº 12.761, o Vale-Cultura.

Nos últimos anos, para impulsionar as vendas, sob o título de incentivos fiscais, eles criaram o Vale-Carro e o Vale-Eletrodomésticos.

A bonança, que tinha data para acabar, final de outubro de 2014, foi boa enquanto durou!

Ainda não inventaram o Vale-Sexo, talvez porque, para alguns, no sexo vale tudo...

Há rumores de que a ideia desse abono foi recentemente considerada, mas, diante da constatação de que haveria muita fraude no cadastro, resolveram abortá-la!

Fica aqui minha sugestão para os zelosos governantes proporem os ecológicos Vale-Ar e Vale-Água.

Eu já estou criando o Vale-Crônica...

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quinta-feira, 16 de abril de 2015

DESESPERO 2.0 >> Mariana Scherma

Meu último sábado fez questão de explodir toda a minha programação matinal. Eu tinha programado até o tempo que levaria pra cada tarefa, mas o controlador de agendas do universo resolveu me zoar. Pra bagunçar meeesmo, meu primeiro plano já foi tchibum abaixo, o que comprometeu todos os seguintes. Ao mesmo tempo, eu saí de mim pra assistir meu leve desespero: bati os pés no chão e fiquei levemente descabelada – mas eu tô sempre descabelada, então, ok. Só consegui pensar: e agora?

A vida anda lotada de planos B, C, D,... Z. Mas quando a gente ficava exageradamente focada e quase noiada numa determinada obrigação, parece que as portas não se abrem, as alternativas deixam de existir. Bem-vindo ao caos das pessoas detalhistas, certinhas e adoradoras de uma ordem. No dia em que meus planos entraram no Titanic, eu custei a rebolar e fazer tudo voltar ao normal. A única certeza que tive foi a de que não quero ser mais assim. Ou não quero ser mais tão assim. Mudar em 180 graus não é das tarefas mais fáceis, não.

Ter sempre uma saída alternativa é necessário pra quase tudo na vida, mas, pra que elas aparecem, a mente precisa de ventilação. Ficar fechada em uma programação não ajuda em absolutamente nada. Naquele sábado, eu custei a me reprogramar, não foi automático como atualizações de aplicativo. E morri de raiva de mim mesma por ser tão metódica. Justo eu, que sempre achei péssimo ser metódica. E desde então, achei bom tomar algumas atitudes, como:

Fazer um plano A e B ao mesmo tempo. Mas tudo bem se der vontade de não seguir nenhum deles ou inventar o C no meio do caminho.

Parar de cronometrar as tarefas. A não ser quando o deadline bata na porta. Não é mais legal aproveitar o caminho, caramba?

Ter foco e saber que perder o foco pode ser importante. A criatividade nem sempre tem hora marcada pra chegar.

Rir do próprio desespero. Depois que o sufoco passa, chega a ser engraçado. Então, porque não pode ser engraçado durante?

Pensar no seu dia como um programa de computador. Sempre aparece uma atualização que vai fazer com que ele rode melhor.


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quarta-feira, 15 de abril de 2015

PALAVRAS E SILÊNCIO >> Carla Dias >>


Vendo a menina crescer assim, saudável, e até bem servida de inteligência e ótima nas tarefas que pedem pela percepção apurada, os pais nunca imaginaram que ela mergulharia naquele mundo íntimo, no qual não cabiam palavras ditas.

Apaixonada pelas palavras ela sempre foi. Aprendeu a ler com muita facilidade, a escrever com apuramento. Ela escrevia cartas porque gostava de escrevê-las, mas os destinatários eram personagens que inventava, porque é um desafio fazer amigos se não falar com eles. Assim, ela as escrevia em um caderninho encapado com papel kraft - que sempre teve uma queda pelo rústico -, sóbrio em nome da beleza que abrigava. Cada caderno guardava as cartas que ela escrevia a um mesmo personagem.

O silêncio dela não se devia a qualquer questão física, de acordo com o diagnóstico de dezenas de médicos que os pais procuraram, quando ainda se agarravam à esperança de escutar a voz da filha. “Parece-me que sua filha escolheu não dizer palavras”, manifestou-se o Sr. Arnaldo, morador do apartamento 34, ex-tarólogo e ainda atuante guru de vários ilustres artistas. “Um dos meus clientes fez isso, certa vez. Decidiu não dizer palavras e se calou por três dias”.

Agarrada à desolação, a mãe ruminou o pensamento: o que são três dias se comparados a uma vida?

Ela foi menina feliz, de sorriso aparente. Tornou-se moça dedicada, apaixonada por etimologia. Os pais, mais conformados com o silêncio escolhido, não compreendiam seu entusiasmo pela origem das palavras combinado à negação em pronunciá-las. A esperança de escutar a voz da filha se dissipara.

“O mundo é barulhento.” Assim ela iniciou a carta número 1.234, escrevendo em um dos caderninhos encapados com papel kraft que ela, caprichosamente, guardava em um baú, aos pés da cama. O mundo é barulhento, as pessoas disputam espaço na percepção do outro aumentando significantemente a sua voz, praticamente aos berros, na verdade. Usam as palavras mais gentis imbuídas em ironias, no desejo nada secreto de ofender o outro. E quando se trata de ofensa, não há quem tenha razão. A ofensa nunca tem razão, mesmo quando saliva verdade.

Não que ela desgoste do som da palavra dita, ao contrário. Aprecia quando elas expõem um pensamento, filosofam sobre qualquer assunto, inclusive os indigestos. Para ela, preferível é admirar quem diz a palavra sendo fluente e justo no dizer.

Mesmo quando os pais morreram, em um acidente de carro, ela disse palavra. Escreveu para cada um deles uma longa carta sobre a felicidade que eles proporcionaram a ela e com tamanha gentileza. Colocou as cartas junto aos corpos, beijou-lhes a testa e, silenciosamente, despediu-se deles.

Chegou o dia em que acordou e sentiu a necessidade de mudança lhe tomar.  Primeiramente, tinha de se desfazer do passado no qual se mantinha ancorada. Foi ao quarto, espalhou os cadernos-carta no chão, contou cento e cinquenta e quatro... Cento e cinquenta e quatro pessoas que não eram pessoas, mas tinham nome. Melhor coisa era arrumar para cada uma delas um endereço.

Sr. Arnaldo, apesar de debilitado pela saúde frágil e a idade avançada, ajudou a moça a escolher as pessoas. Ela escreveu uma carta-explicação e, caprichosamente, envelopou os cadernos, em envelopes de papel kraft, escrevendo nome e endereço de remetente e destinatário. Assim, em alguns dias seus cadernos ganharam um novo código postal.

O ex-tarólogo, depois de décadas longe das cartas, fez um jogo para ela. “É o último dessa vida, que já estou em ponto de descanso.” Durante a leitura, ela se sentiu profundamente agradecida pela gentileza daquele homem que a conhecia desde sempre, e o único a nunca ter lhe pedido para dizer palavra. De certa forma, ele apreciava e compreendia o que silêncio dela dizia.

Durante a sua vida, a moça disse palavra nenhuma. Os únicos sons que ela não pôde deixar de emitir foram o do choro, o da gargalhada e o da dor. Dos cento e cinquenta e quatro cadernos-carta que espalhou pelo mundo, trinta e sete pessoas lhe responderam. Doze delas para contar como se desfizeram do caderno recebido: fogueira no quintal, lago no fundo da casa, trilho em estação de metrô, aterro sanitário e etc. Vinte e quatro pessoas agradeceram, pois acharam as palavras escritas profundamente emocionantes, e juraram guardar seu caderno-carta com o maior carinho. Uma pessoa escreveu e pediu resposta a sua carta. Assim, pela primeira vez, ela postou uma carta e fez um amigo. Pela primeira vez, a pessoa não era personagem.

A carta da mudança.

Imagem: The Letter © Haynes King

carladias.com

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