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NÃO SE TORNOU UM ASTRONAUTA >> Carla Dias >>

Tinha tudo planejado. Desde muito antes de agora, devidamente planejado.
Hoje mesmo, riscou de sua lista a visita ao pai, morador na casa de seu tio, figura de humor refinado e afiado, que o fez gargalhar muitas vezes nesta vida. Só que o fez chorar ainda mais, miúdo, escondido debaixo da cama, desejando sumir do planeta, nos dias em que o humor se ausentava para que a violência se aprumasse, e o pai pudesse cobrar de sua companheira de vida - a mãe do menino debaixo da cama -, o que não cabia a ela resolver.

Beija a face flácida do pai de humor ácido, imperando com seu olhar altivo e incapaz de enxergar muito mais do que o suficiente para se guiar entre as camas de seus companheiros de viagem em quarto coletivo. O irmão mais velho o chamou de filho ordinariamente desnaturado, que onde já se viu deixar o pai viver seus últimos anos de vida em um lugar feito aquele. Lugar em que o irmão, filho de casamento prévio, de mãe zelosa e afetuosa, nunca esteve. Ele que ganhou pai postiço que …
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a grande árvore >>> branco

ato final
se algum dia - em uma de sua viagens - você passar por esta - ainda - pequena cidade pare por alguns instantes - desça do carro -  e dê uma olhada para a velha e grande árvore que existe na única praça desta -ainda - pequena cidade
existe uma certeza não estarei sentado à sua sombra existem duas certezas ela guarda segredos que não serão conhecidos e você saberá disso - se puder perceber - a diferença entre gemidos e farfalhar de folhas
uma pedra alojada entre suas grossas raízes
nela eu costumava me sentar para olhar o movimento me esconder da chuva pesada me proteger do sol - em tardes quentes de verão -  e quando com nada para fazer simplesmente me deixava ficar tantas coisas vividas a mulher do raro sorriso sentada no meio-fio vendo seu filho pródigo ir embora -sem sorriso - lágrimas nos olhos e o tempo passa tão vagarosamente  que não percebemos seus sinais tantas coisas imaginadas e não vividas a casa azul deu lugar à um prédio as casas vermelha branca verde e a lilás …

RETRATAÇÃO >> Fred Fogaça

Confesso que me esqueci da crônica pra hoje.
Dentre uma viagem pro lançamento do amigo Whisner, trânsitos e trânsitos e trânsitos e parece que eu já não me lembro de mais nada da rotina.
Até que é bom, mas essas coisas são tardias no vir.
Também frequentemente me esqueço de que os estímulos demoram a virar crônicas, pelo menos pra mim.
Acho que não posso mais confiar minhas lembranças em percursos como esse.
Tirei esses minutos do metrô errei a direção pra fazer essa retratação despropositada.
Sinceramente, nem todo texto foi de metrô, precisei de informações e acabei sabendo de toda uma rede de praticidade e trocas. Gosto dessas histórias comuns.
Meu celular, com sua bateria vacilante, também me deixou esperando um fim pra honesta retratação.
Interrompido apenas por um malabarista, uma banda, algumas tendas, uma bandeira e um café. No último impedimento eu pude dar uma solução rápida.
Parêntese: ainda me choca plenos dois mil anos de tecnologias e a gente encontra dificuldade pra um…

ENTRE FLUTUAÇÕES E A ESCURIDÃO >> Sergio Geia

INQUIETE-SE >> Paulo Meireles Barguil

 Aquiete-se foi o instigante convite da Carla Dias na crônica dessa semana. Sim, eu estou, cada vez mais, tentando me acalmar, pois esse é um dos frutos da maturidade, o que não significa que eles sejam saborosos e/ou saudáveis. O meu grande desafio é descobrir o que preciso agitar para que eu possa, enfim, me apaziguar. As poeiras-mágoas continuam me poluindo, a despeito das inúmeras tentativas de limpar minha alma. Sinto-me sobressaltado num mundo repleto de maldade, falsidade e cretinice. Como posso me tranquilizar se quem eu confiava me abandonou? Como posso amainar se quem riu para mim apunhalou as minhas costas quando me virei? Como posso serenar se quem eu acreditava ser meu amigo não me escutou? Retraído e perturbado, indago: "Em quem posso confiar?". Como posso me pacificar se a vida na Terra é, diariamente, esquartejada  por seres sanguinários? Como não me indignar? Sigo, então, inquieto, por vezes sozinho, "sob a batuta do movimento", conforme o sábio c…

ECLOSÃO >> Whisner Fraga

a menina embala o pingo verde.

uma suculenta não se infiltra pela terra.

não maquina raizes, não quer o chão.

(texto também é fruto, é galho, é tronco, é gênese)

também é pedra.

vistoriamos as plantas.

um sopro arrebenta a semente.

cotilédone, repito. cotilédone.

a menina gargalha a incompreensão.

logo serão árvores. cinco, dez, quinze anos.

a menina tem pressa. quer jabuticabas. quer lichias.

amoras.

que o tempo aprenda o tempo.

a menina suspira o infortúnio nas mãos.

uma semente devora o fim.

a menina suspira e desce para brincar.


AQUIETE-SE >> Carla Dias >>

Aquiete-se.
Habite-se por um instante, de forma que o tempo não lhe cause pânico por causa das rugas, das rusgas, dos apartamentos não quitados, dos títulos não recebidos, dos projetos inacabados: afetos & afins. Que não tema as ideias que verbalizou no quando a incapacidade alheia de compreender diferenças se fez disponível. Nada como encarar defensores apaixonados pela complexidade do que nem nasceu para ser labirinto, e que desfilam seus penduricalhos de assuntos trazidos à baila, nos quais jamais seremos capazes de nos aprofundar, não eu, tampouco você, porque são rasos e apreciamos a profundidade que seduz o interesse.
Aprofundar é necessidade para nós. Sei disso, ainda que você disfarce, apenas para se enturmar ao ritmo dos desinteressados, a fim de observá-los mais de perto, porque a distância que eles mantém do que pulsa o espanta.

Das beiras e do raso vivem aqueles que não se importam de ir com a maré. Nada contra os tais, tampouco contra a maré. Só dispensamos o desespe…