quarta-feira, 23 de abril de 2014

CARTA-RENÚNCIA >> Carla Dias >>

O universo transpira ao seu favor, fazendo a vez de fada madrinha emburrada, e ocupadíssima, toda vez que você, desapegado da justiça coletiva, pisa no pé da verdade, jurando que a dor que ela sente é, de fato, afeto desmedido.

O desmedido, e lhe digo isso por experiência na aplicação, nunca faz serviço decente. Não adianta cometê-lo usando a máscara da gentileza, valendo-se dos trejeitos da felicidade. O desmedido é, por definição, desproporcional à empatia.

Mas quem sou eu para alertá-lo sobre os sentidos, não? Alguém que observa a sua rotina de desmazelos, de desculpas impregnadas de suspiros que acabam por enfeitiçar aos que tiraram o dia para se tornarem vítimas da sedução barata da palavra dita em versos, chamada poesia por pura falta de fineza seria gritá-la pelo nome apropriado: repetições.

Sobre as repetições, devo lhe dizer que elas sim têm valor. Repetições são inevitáveis, e podem ser certeiras se às voltas com a sinceridade. Não fosse assim, dizer “eu te amo” a alguém, mesmo amando esse alguém de fato, soaria como o refrão de uma canção ruim. Na repetição das declarações de amor o que vale é o ineditismo do sentimento, o seu frescor, a sua naturalidade. E depois, a sua evolução desapegada da memorização, e completamente entregue ao improviso.

Improvisos enfeitam sentimentos e surpreendem expectativas.

Se quiser, escolada que ando no seu vocabulário, de tanto ficar à mercê da sua existência, posso lhe cantar repetições abrilhantadas pela minha eficaz habilidade em lhe gostar, com direito às repetições inéditas, descarada que me tornei por tanto insistir no que jamais será da minha alçada: você.

Mas antes de sair de cena, devo lhe alertar: a boa sorte anda exasperada de tanta incompetência sua em se fazer merecedor dos seus abrandamentos. Ela não se conforma com esse tratamento que você anda lhe oferecendo, como se ela fosse, na melhor das hipóteses, um direito. De direito ela oferece apenas a oportunidade de cortejá-la, e já a vi se negar a vingar na vida de uns e outros que lhe ofereceram bem mais do que você insiste em dizer ser suficiente.

Quanto ao suficiente, quase sempre ele é insuficiente, e por pura lógica: o que você tem a oferecer nem sempre é o que o outro merece receber. A sincronia entre o oferecido e o merecido é um daqueles pequenos milagres dos quais ignoramos a importância, só porque ele acontece silenciosamente, dando a impressão de que nada mudou, enquanto, na verdade, ele se tornou o alicerce dos melhores acontecimentos da sua vida.

Lamento não poder lhe oferecer mais tempo para lamentar o que falta, oferecendo-lhe meus ouvidos, minha alma e o meu tempo ao embalar seus suspiros oriundos de uma encenação barata de infelicidade que você nem sente, mas gosta de acessar para se sentir confortável com o desconforto alheio.

Sobre o desconforto, em algum momento ele deixa de ser do outro.


carladias.com

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terça-feira, 22 de abril de 2014

ESSA TAL VIDA >> Clara Braga

A vida é assim, gosta mesmo de nos pregar peças e nos colocar em situações nas quais não sabemos exatamente que rumo tomar. Na verdade, não sei até que ponto não sabemos qual o rumo, acho que temos mesmo é receio dos desafios que vamos encarar, então acabamos tendo a tendência de optarmos pelos caminhos mais fáceis. O problema é que nem sempre esses caminhos nos levam para o nosso real objetivo.

A verdade é que não adianta, chega um ponto em que temos que dar um passo para trás para podermos dar vários para frente, por mais difícil que isso seja.
Temos que olhar a situação pelo lado de fora para podermos melhor analisar.
Temos que dizer não, mesmo querendo dizer sim.
Temos que fazer escolhas que nem sempre os outros vão entender.
Temos que voltar e refazer nosso caminho.
Temos que omitir algumas verdades.
Temos que questionar aqueles em quem acreditamos.
Temos que abaixar nossa cabeça e admitir alguns erros, mas temos que saber manter a cabeça erguida quando sabemos que estamos fazendo o que é certo.
Temos que dar prioridade ao que nos faz feliz, mesmo que isso deixe outras pessoas um pouco tristes.
Temos que nos modificar diante de uma decepção.
Temos que encontrar coragem para encarar o desconhecido.
Temos que admitir que precisamos de apoio, e assim vamos encontrá-lo nos lugares menos esperados.

Enfim, "temos que" muitas coisas e nenhuma delas são fáceis. As vezes magoamos algumas pessoas pelo caminho, da mesma forma que ficamos magoados. Mas com o tempo a gente aprende que se estamos sendo verdadeiros e honestos com nós mesmos, se estamos agindo de acordo com o que acreditamos ser certo, vamos sempre ter apoio. E o mais importante, uma consciência tranquila, e isso, meu amigo, nem mastercard!


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segunda-feira, 21 de abril de 2014

SODAMA II >> Albir José Inácio da Silva

Empresário, cuidando sozinho dos negócios, do pessoal, das finanças, do marketing, Ernesto se considerava merecedor do sucesso. E o sucesso veio rápido. Os clientes foram chegando, timidamente a princípio, mas logo em bandos ruidosos. Os bares da cidade começaram a ficar vazios e a madrugada mudou de endereço.

As moças, proscritas da cidade, nem consideravam gostar ou não dali. Sem ter aonde ir, restava-lhes o Sodama como casa, Seu Ernesto como dono e umas às outras como família.

Seu Ernesto supria-lhes as necessidades da melhor maneira possível. Patrão generoso, ficava com apenas setenta por cento de cada atendimento, para as despesas da casa e outras providências, em benefício das próprias meninas. Não lhes cobrava pela moradia, em que se revezavam para limpeza e manutenção, nem pela comida, que elas também preparavam, mas era ele quem comprava.

Na verdade, como ele dizia, não precisavam de nada. O dinheiro lhes sobrava para pequenos luxos como maquiagem, lingerie, bolsas e sapatos. Luxos que usavam no trabalho e eram providenciados também por Seu Ernesto, já que não podiam ir à cidade. Ele trazia tudo a preço de custo, só para agradar. Elas é que eram gastadeiras e estavam sempre devendo a seu Ernesto.

Mas ele não se importava, queria vê-las felizes. Trouxe celulares novinhos em folha. Caros, como explicou, porque eram de última geração. Além de telefonar, podiam tirar fotos, gravar e ouvir músicas. Bem, telefonar não, porque inexistia ainda sinal por ali, mas já estava chegando. E o Sodama virou uma festa com desfiles, poses e fotos.

Verdade que Seu Ernesto era rigoroso em questões de trabalho, honestidade e obediência, mas, quando se comportavam bem, era só carinho. Poucas vezes, e só quando absolutamente necessário, teve de castigar esta ou aquela faltosa. O que fazia a contragosto e com cuidado, cinto de couro sem fivela, para não marcar a pele em prejuízo da plástica e do trabalho.

Os negócios se expandiram em resposta à boa gestão. Seu Ernesto vendeu lotes no entorno por preços módicos, prazos razoáveis e promissórias. Inaugurou linha de transporte alternativo para facilitar a frequência dos clientes e a mobilidade dos moradores. Chegou a escrever no para-brisa da kombi: CENTRO – SODAMA, mas a secretaria de transportes implicou, e ele teve de trocar para CENTRO - Km 19, que era a altura da estrada em que ficava a, já agora, Vila Sodama.

Primeiro Seu Ernesto cuidou de alimentar as meninas da casa, como vimos, mas logo ampliou a atividade, abrindo portas ao lado para atender clientes e moradores, que assim podiam comer e beber sem ameaçar a discrição do sobrado. Discrição era tudo nessa atividade, mas era difícil mantê-la.

Nos lares da cidade, a coisa não ia tão bem. A falta de comparecimento dos maridos sugeriu às mulheres que eles tinham encontrado outro folguedo. Não precisou muita investigação para saberem do novo lupanar no KM 19. Mobilização, religiosos, donas de casa e administração municipal. Discursos inflamados diziam que na periferia da cidade erguia-se uma nova Sodoma, e invocavam de Deus o mesmo tratamento dado à cidade do velho testamento, ou seja, destruição com fogo e enxofre descidos dos céus.

Os gentios, que não frequentavam igreja nem liam Bíblia nenhuma, corromperam a palavra Sodoma para Sodama, entendendo que o nome se devia ao fato de o lugar ser habitado apenas por mulheres-damas. Começaram por dizer “só damas, só-damas, sodamas” e, pronto, retirar o “s” dos plurais era-lhes tarefa corriqueira. Ficou Sodama, agora não apenas o sobrado, mas uma comunidade com dezenas de pessoas.

E o que inaugurara tudo de bom na vida de Seu Ernesto começou a ficar incômodo. O dinheiro era bom, o prestígio, mas não queria ser conhecido como cafetão. Precisava dissociar seu nome daquele lugar sob pena de ver naufragarem suas pretensões eleitorais.

(Continua em 15 dias)

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domingo, 20 de abril de 2014

QUAL NOSSO PRÓXIMO PLANO >> Eduardo Loureiro Jr.

O leitor fique avisado que eu não tenho moral para falar a respeito do que falarei. Em termos de amor, que é o assunto desta crônica, sou tão fracassado quanto uma pessoa pode ser. Para você ter uma ideia, já fui casado duas vezes e meia. Era pra ser três, mas uma de minhas ex não inclui o nosso casamento na lista de casamentos dela. Então o leitor considere o que vem a seguir como o conselho de um amador vacilante cuja única virtude é ser persistente...

Os românticos que me perdoem, mas “eu te amo” não é suficiente. O repertório de frases de um amor precisa ser maior que esse, e não estou falando aqui de variações envolvendo “eu te adoro”, “meu amor por você é maior que a soma das estrelas do céu e dos grãos de areia na praia”, “você é o amor da minha vida”, “minha alma gêmea”, “meu amor, meu bem, ma femme”...

Pra começo de conversa, o amor não nos exime de frases aplicáveis a outros contextos como “por favor”, “obrigado”, “eu gostaria”, “com licença”... Não é porque “eu te amo e tu me amas” que tu és escravo ou escrava de meus desejos e vontades. Educação e respeito fazem bem até mesmo aos amores mais românticos e predestinados do mundo.

Talvez cada casal, por questão de sobrevivência do amor, precise desenvolver certas frases que permitam que o amor vá além da paixão inicial. Se meus amores até aqui não duraram mais que a eternidade de sua curta ou média duração, talvez tenha sido pela ausência da frase certa.

Esses dias, ouvi uma frase que será útil em minha próxima tentativa. Não é uma frase assim que vá chamar a atenção de um espírito apaixonado, mas a mim, que sou um tanto pragmático, me fez arregalar os olhos num “é isso!”. A frase é, simplesmente, “Qual nosso próximo plano?”. Não é linda? Não é fofa? Não é querida? Não, não, não, a leitora não achará nada disso e ainda pensará que enlouqueci, que com uma frase dessas é que não tenho mesmo a mínima chance de ser feliz para sempre com uma princesa de contos de fadas. Então preciso me explicar, tintim por tintim...

QUAL? Uma frase que começa assim abre as portas da compreensão. Porque embora gostássemos que o amor fosse cheio de certezas, a verdade é que ele não é. De onde vem essa ânsia toda de ouvir “eu te amo” senão da nossa própria insegurança que se expressa em pensamentos musicais do tipo “será que você ainda pensa em mim?”, “será que a gente ainda será aquela história de amor que sempre acaba bem, meu bem?”? Então, em vez de tapar a insegurança com ciúmes e cobranças, melhor é assumi-la logo e começar nossa frase de amor com um pronome interrogativo. Porque precisamos nos perguntar. Tanto no início do amor, quando tudo parece possível, quanto no meio, quando as coisas começam a engrossar. E também no que ameaça ser um desesperador fim. Qual? É preciso estar aberto para algo que ainda não sabemos o que é.

Qual NOSSO? Eu sou eu, nós é nós. “Às vezes parece até que a gente deu nó”. Nós. Nessas horas, a pessoa está sujeita a achar que o nó está no outro, que é o outro que está travando a relação. Mas não é nó, são nós. Usar o NOSSO na frase amorosa chama a consciência para essa construção conjunta. A culpa não é sua nem do outro, a responsabilidade é de ambos. NOSSO é um antídoto para nossa costumeira panaceia que quer que o outro mude, afinal "ele é que está errado, eu sou uma pessoa altamente amorosa que sempre fiz tudo para ele". Isso, claro, vale para o início do relacionamento também. O NOSSO, por exemplo, precisa aparecer na hora de escolher cada programa. Senão fica o programa de um ao qual o outro comparece (por vezes, contrariado).

Qual nosso PRÓXIMO? O amor é uma continuidade. Se hoje você não ama algo que amava ontem, então possivelmente não amava aquilo ontem. Podia ser outra coisa: paixão, interesse, empolgação, impulso, vício... mas amor que é amor dura, mesmo que o formato da relação mude. Então é preciso perguntar o que vem a seguir. É como canta o Gil, “quem poderá fazer aquele amor morrer se o amor é como um grão?” Há que se perguntar, dia após dia, o que vem em seguida, de que planta o nosso amor é grão. PRÓXIMO também indica algo que está por perto. O amor não precisa de mirabolâncias, objetivos distantes e quase inalcançáveis. A idealização de si, do outro, da relação, é o que torna o amor longínquo, escapável ou mesmo inatingível. O amor é um passo depois do outro. Um passo, depois o próximo passo, e o próximo, e o próximo...

Qual nosso próximo PLANO? Devido à abertura do QUAL, ao compartilhamento do NOSSO e à continuidade do PRÓXIMO, é preciso traçar um plano. Ter ideias, imaginar caminhos, projetar o futuro que se quer. Mesmo que as ideias mudem ao ser implementadas, mesmo que a imaginação se adapte à realidade, mesmo que o projeto passe por reformulações, é bom ter um plano. O plano nos indica qual o ponto de descanso mais próximo. Estamos aqui, vamos até acolá. Vamos planejando até onde a vista alcança, e, bem no início, ou nos momentos de crise, a vista pode alcançar bem pouco. Então é preciso criar ou refazer os pequenos hábitos do amor: o próximo plano pode ser ver um filme, ouvir um ao outro naquilo que ainda não foi contado, dar um passeio, fazer um livro, ter um filho, plantar uma árvore...

Tendo “por favor” e “com licença” por base, e “qual nosso próximo plano?” por meio, fica muito mais fácil acreditar quando se diz e quando se ouve, enfim, “eu te amo”.

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sexta-feira, 18 de abril de 2014

6ª FEIRA DO AMOR >> Paulo Meireles Barguil

Por que é mesmo que se chama Santa uma 6ª feira em que são lembrados o julgamento, a humilhação, a crucificação, a morte e a sepultura de Jesus Cristo?

Nomear de 6ª feira da Paixão é uma alternativa, mas não expressa adequadamente o que nela ocorreu.

O mais sensato seria adotar uma nomenclatura que manifesta o ocorrido: 6ª feira do Amor.

Cá para nós: a linguagem, muitas vezes, é utilizada para negar a realidade, ao invés de favorecer o seu entendimento pela Humanidade.

De falseados em falseados, a pessoa, quando menos espera, descobre que está perdida, pois está longe demais da verdade.

Há quem acredite que Jesus era filho de Deus. Há quem defenda que ele era um homem, que alcançou a iluminação, tal como outros líderes espirituais: Buda, Maomé... Há, ainda, quem negue que ele viveu na Terra.

Sua mensagem foi resumida por ele mesmo em dois mandamentos: "Ame a Deus sobre todas as coisas." e "Ame o seu próximo como a si mesmo." (Mt 22:37-40).

Desde os primórdios, quando vivíamos na selva, nosso principal objetivo, tal como os outros animais, era nos mantermos vivos. Para alcançar esse intento, alguns dizem que a máxima que impera nesse ambiente é "cada um por si". Outros afirmam que a regra é "juntos somos mais fortes".

Apesar de sermos, agora, civilizados, vivenciamos, a todo momento, situações em que oscilamos entre uma e outra, dependendo das circunstâncias...

Cada vez mais tenho sido invadido pela dúvida: eu cuido primeiro de mim ou do outro? Eu sei que se "as máscaras de oxigênio caírem" eu devo colocar primeiro a minha e depois ajudar o outro. E nas demais situações?

É possível me amar sem amar o outro?

É possível amar o outro sem me amar?

Como conciliar esses amores – por si e pelo outro – de modo harmônico?

Como evitar a armadilha milenar entre Amor e sexo, na qual todos estamos sujeitos a cair ao longo da vida? Sim, eu já li: isso acontece porque projetamos no outro aquilo que só dentro de cada um pode ser encontrado. A paixão é o momento em que acreditamos que a busca é finda: a felicidade eterna teria sido encontrada.

Alguns meses depois, contudo, a verdade vem à tona: o outro já não nos satisfaz como outrora. O sonho se transformou num pesadelo! O que aconteceu? Quem e o que mudou? Muitos de nós acreditamos que a fonte externa secou e é necessário recomeçar a busca do lado de fora...

Afinal, o que é amar?

Seria dar a sua vida pelos outros, tal como fez Jesus?

Já li várias vezes o Sermão de Montanha. Entender com a mente não é tão difícil. Vivê-lo, com todo o meu ser, é um desafio diário.

No momento em que a diversidade se amplia e requer respeito ao diferente, agradeço-lhe, Jesus, porque você ensinou, durante toda a sua vida, a cada pessoa como ela pode interagir de forma amorosa consigo, com o outro e com a natureza.

No momento em que o egoísmo e o materialismo se aprofundam, manifestos num consumo fulgaz, obrigado, Jesus, porque você mostrou que a vida transcende a essa breve viagem na Terra.

No momento em que se propaga o discurso de que não há felicidade nessa vida, mas apenas raros momentos alegres, grato lhe sou, Jesus, porque nos mostrastes que podemos e temos direito de que  todos os dias sejam felizes, amorosos e santos.

No momento em que atos e palavras golpeantes contra a vida daqueles que têm a missão de divulgar sua mensagem se revelam ao mundo, obrigado, Jesus, pelo seu Amor infinito, porque Ele não se abala e continua firme.

No momento em que o conhecimento é fonte de poder e dominação, afastando as pessoas, ao invés de aproximá-las, agradeço-lhe, Jesus, pela Luz que emana de Ti, a qual me lembra que eu também posso recebê-la e partilhá-la, sendo necessário que eu me dispa de todas as certezas que me distanciam da vida plena.

Que eu encontre, cada vez mais, o pequenino que em mim habita e cuide muito bem dele, acolhendo-o na sua dor de abandono, invasão e rejeição.

Que eu perdoe todos aqueles que não cuidaram de mim como eu gostaria e possa, assim, descobrir e usufruir da Verdade: sou filho de Deus.

Que eu continue a jogar na fogueira as máscaras e armaduras, cuidadosamente elaboradas para me proteger do mundo, escondendo, até mesmo de mim, sentimentos, atitudes e pensamentos, que tornam a caminhada insuportável e sem alegria.

Que eu realize com êxito essa passagem e ajude outros a fazer o mesmo. Que aconteça, enfim, a Páscoa!

Ainda bem que tem chocolate todo dia e não somente no próximo domingo, afinal vou precisar de muita energia. ;-)

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quarta-feira, 16 de abril de 2014

ESTREIAS E DESPEDIDA >> Carla Dias >>

Quem me conhece sabe que adoro uma série de televisão, e que o assunto me empolga de um jeito que pedir uma indicaçãozinha pode acabar em uma lista generosa de preferidos. Também sou das que se apegam aos personagens, e sei que faço parte de um grupo bem grande que morre de saudade deles quando a série acaba.

Atualmente, nem sei quantas séries eu acompanho. São muitas, ainda não contei, não fiz lista, e tive até de colocar algumas no modo de espera, que não estava dando conta. Mas isso não significa que, aparecendo uma nova série, eu não vá conferi-la.

Algumas estreias entraram rapidinho para a minha lista de preferidas. Dracula, por exemplo, foi uma das que me deixaram ansiosa pela estreia, por ser baseada no livro de Bram Stocker e por ter o irlandês Jonathan Rys Meyers no papel principal. Eu já gostava de Meyers pelos seus trabalhos no cinema, mas me dei conta do quanto ele é talentoso ao assistir outra série, The Tudors.

Criação de Cole Haddon, os primeiros episódios de Dracula me deixaram meio reticente, mas não tardou para que fosse possível compreender elementos importantes da história, e que Meyers encarnasse, de vez, o sedutor maligno Vlad Tepes, na série conhecido como o empresário americano Alexander Grayson. A série estreou em outubro do ano passado e foi renovada para sua segunda temporada.

nbc.com/dracula

Ainda sobre vampiros, The Originals, criada por Julie Pec, estreou em 2013 e a primeira temporada ainda está sendo veiculada. É da leva das séries que contam com mais vinte episódios por temporada, sendo que a segunda já está confirmada. Derivada da série The Vampire Diaries, ela tira o complexo híbrido (vampiro/lobisomem) NiKlaus Mikaelson do cenário adolescente e o coloca em um muito mais interessante: Nova Orleans.  A série conta a história dos primeiros vampiros, os originais, que ajudaram a construir a cidade da Louisiana. Com Klaus, seguem para Nova Orleans os seus irmãos Elijah (Daniel Gillies) e Rebekah (Claire Holt).

O britânico Joseph Morgan interpreta Klaus, esse personagem que decide reconquistar New Orleans tendo de encarar situações complicadas. Sua história repleta de injustiças, a anterior a sua transformação, pontua os motivos de Klaus ser tão cruel. O híbrido não suporta traição, e em determinados momentos, o espectador acaba compreendendo a razão disso.

cwtv.com/shows/the-originals
Também estreante em 2013, Almost Human, criada por J. H. Wilman, chega a 2048 com androides como parceiros de policiais. O mais interessante é que uma série desses androides foi descontinuada, depois de os testes revelarem um defeito. O problema é que a alma sintética desenvolvida pelos cientistas deixaram os androides, por assim dizer, sentimentais demais. É um destes androides que se torna o parceiro do detetive John Kennex (Karl Urban).

Depois de voltar do coma, Kennex não se adapta ao modelo de parceiro disponível. Sendo assim, sua chefe, Sandra Maldonado (Lili Allen) lhe oferece Dorian (Michael Ealy), um dos androides que deram defeito.

Almost Human é ficção científica de primeira.

fox.com/almost-human

Criada por Alfonso Cuarón (sim, que recebeu o Oscar de Melhor Diretor por Gravidade) e Mark Friedman, Believe estreou em março, ganhando rapidinho lugar entre as minhas favoritas. O episódio de estreia foi dirigido por Cuarón.

Believe conta a história de Bo (Johnny Sequoyah), que nasceu com dons extraordinários, como comandar a natureza, ver o futuro e por aí vai. Ela foi criada no alojamento de um grupo dedicado a explorar pessoas com esses dons. Agora, aos dez anos de idade, seus poderes estão sendo amplificados, e também mais perigosos. Em mãos erradas, Bo pode se tornar uma arma. Para protegê-la, um grupo de pessoas, liderada por Milton Winter (Delroy Lindo), vive em fuga. Para auxiliá-lo nessa missão, Winter ajuda Tate (Jake McLaughlin), que foi condenado à morte por um crime que não cometeu, a fugir da prisão, contanto que ele cuide de Bo. O que Tate não sabe é que Bo é sua filha.


Eu poderia escrever muito mais sobre outras séries, as que já chegaram à terceira, quarta temporada, e até mais adiante. Mas para fechar essa geral sobre novas séries, vou lamentar o fim de uma delas.

A quinta temporada de Justified já foi ao ar, e a sexta será a final. Baseada no personagem Raylan Givens, do escritor Elmore Leonard, Justified é um faroeste contemporâneo, que se passa em Kentucky.


Timothy Olyphant interpreta Givens, e a própria peculiaridade da atuação dele contribuiu na construção desse personagem. O cowboy moderno, o mocinho sem verniz, o labirinto que se torna as relações afetivas do personagem, e a quantidade exorbitante de tiros, fazem de Justified uma série repleta de atrativos.

Ano passado, Elmore, que também era produtor executivo da série e colaborava como escritor, faleceu. A partir daí, os produtores começaram a considerar o fim de Justified.

Como eu disse no início da minha crônica, há personagens para os quais é muito difícil dar adeus, que o digam Mick St. John, House e Dexter.

Agora, só me resta perguntar: o que será de mim sem Raylan Givens?










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sábado, 12 de abril de 2014

TRAZ A PESSOA AMADA >> Cristiana Moura




Depois de alguns minutos quebrei o silêncio.

— Vou trocar você pela Sarah. Instantes de mais silêncio. — Já viu os cartazes pelos postes?

— Traz a pessoa amada!

— Isso!

E do lado de trás do divã, onde não o vejo, ele riu. Venho deixando no divã linhas e entrelinhas da vida. E as desventuras do amor. Talvez por permitir que a ilusão se faça em véus sobre a minha face. Talvez por amar secretamente, sem confessar ao outro meus sentimentos. Ou por tantas outras nuances que nem sei.

Mas neste dia, levantei-me do divã pensando na Sarah, na Estrela Guia, mãe Jurema, pai Arnaldo. Pensando em buscar algo, fora de mim mesma, capaz de trazer a tal pessoa amada. Não contei isto para o Walmy, psicanalistas não costumam ser afeitos `as buscas místicas.

Saí da terapia disposta a marcar uma consulta no primeiro sinal fechado onde eu encontrasse um desses cartazes. Só então, dei-me conta que tenho medo da Sarah e de seus colegas de profissão. E se me mandar fazer algum ritual macabro? A pessoa amada que não chega, possivelmente já tem uma outra pessoa amada. E se fizer mal a alguém? Faria um vodu da tal mulher? Ai, ai, ai, isso não. Lembro que quando eu era adolescente conheci uma senhora espírita que falava muito da inveja e de como deveríamos resguardar nossas fotografias. Falava do quanto era perigoso alguém mal intencionado ter posse das nossas imagens. Menos de trinta anos depois temos fotos de todas as pessoas disponíveis nas redes sociais. A tecnologia facilitando as maldades oriundas da inveja.

Achei por bem pedir a opinião de uma amiga.

— Ela deve mandar você coar café numa calcinha e servir para ele.

— Como?

— É, diz que amarra o homem.

— Se ele estivesse vindo tomar café na minha casa, eu já teria trazido, sozinha, a pessoa amada.

Instantaneamente imaginei-me repetindo esta última fala para Sarah. Junto veio a minha fantasia de sua resposta:

— Fia, se num tá nem conseguindo levar o homem pra tomar um café é porque tá ruim mesmo. Vai sair mais caro.

Bem, a conversa com esta amiga em nada encorajou-me. Falei com uma outra que me indicou uma cartomante e, por uma hora e meia, contou-me sobre tudo  o que ela havia lhe dito e como havia sido bom. Marquei.

Lúcia não cumpria os estereótipos da profissão. Tinha uma fala simples e ausente de clima de suspense ou adivinhação. Lia as cartas como quem lê um livro ainda a ser escrito. Falou-me de sucesso profissional, de muitos estudos, de cirurgias bem sucedidas que farei. Lúcia não trazia a pessoa amada e, pelo contrário, disse-me que se trata de um amor alheio, que eu o deixasse para trás, ficasse só de verdade para assim poder chegar o “homem do cavalo branco”, um homem para compromisso. – Vai viajar sozinha! – disse Lúcia.

Saí aliviada da consulta. Enfim, eu tinha muitos conselhos e nenhum ritual esquisito a realizar. Mas a cada sinal fechado eu via mais um cartaz. Decidi que, para ser honesta com o título da crônica, deveria, ao menos, ligar para me informar. Apenas para me informar.

O coração palpitou. Até a mais cética das mulheres que, como eu, amasse secretamente um homem que a chama de amiga, ficaria tentada a contratar os tais serviços afetivo-espirituais. Liguei.

— A Tim informa, o número chamado não existe.

Liguei mais duas vezes para ter certeza que não havia digitado o número errado. A mesma gravação.  Mais um sinal fechado. Outro poste, outro cartaz, uma nova tentativa.

— Alô.

— Boa noite, eu gostaria de falar com Pai Arnaldo.

— Moça, pai Arnaldo não mora mais aqui não, voltou pro interior.

— Hum...

— As coisas por aqui andavam difíceis. Só tá atendendo lá. Voltou a morar com a mãe em Quixeré.

Sou uma mulher insistente. Tentei outro cartaz.

— Este número está programado, temporariamente, para não receber chamadas.

Ê, ê... Não é só para mim que esse negócio de amor anda mal.


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sexta-feira, 11 de abril de 2014

O GATO - PARTE II >> Zoraya Cesar


Exatamente naquele momento crucial, um fortíssimo trovão ressoou e um raio caiu perto de onde estavam, cindindo uma árvore ao meio e trazendo consigo uma noite escura de temporal. Silvia, a mulher, gritou e fugiu, sem terminar o serviço. Ele tremia, paralisado, malditos nervos, de repente estava mesmo na hora de trocar de profissão. Vou morrer eletrocutado, pensou. Respirou fundo, tentando recuperar o controle e a experiência que os anos de treinamento lhe ensinaram. Um passo de cada vez, seguiu, sem se perder, até chegar à hospedaria. 

Entrou resolutamente na recepção, procurando por Silvia, mas encontrou apenas a velha que fazia as vezes de recepcionista, cozinheira, porteira e fofoqueira de plantão. 

A velha olhou para ele com olhos remelentos e sagazes, como os de uma ave que olha para um barbante no jardim e não sabe decidir se aquela estranha minhoca era comestível.

— D. Silvia não gosta de chuva nem de gatos, moço. O marido dela fugiu com a amante, uma jovem recepcionista que tinha um gato detestável. Sumiram os três numa noite de chuva como essa. 

Atônito, ele subiu para o quarto e se preparou para pensar e agir. Tomou banho, praticou tai chi chuan e, ao terminar, começou a entoar estranhos mantras enquanto tirava da mala alguns de seus apetrechos de trabalho: Bíblia, cristais, velas, guias, búzios... Depositou um copo com água no chão, onde traçou o mais poderoso símbolo de proteção da linha Nagô, acendeu velas e colocou-as junto com cristais nos pontos cardeais; posicionando-se no centro do desenho, movimentou o atame no ar, invocou as Forças da Luz, ajoelhou-se defronte à Bíblia, leu alguns trechos de São Paulo, pegou o Rosário e começou a rezar, concentradamente, todas as 220 contas. 

Entrou em meditação profunda, as respostas vindo naturalmente. Começou reconhecendo a canção que ouvira Silvia entoar ao cavar no pé da árvore, uma invocação egípcia aos Espíritos dos Mortos; intuiu o segredo do poço aterrado; o significado de um gato que só ele conseguia ver; a razão de estar ali naquele momento; e o que deveria fazer. 

Chovia torrencialmente. De repente, para além do ruído dos relâmpagos, dos trovões e da água pesada da chuva, algo parecido com os miados selvagens de uma sussuarana romperam o som da noite, seguidos por um gorgolejar pavoroso, temperado de pavor e morte, que só ele ouviu. Continuou imóvel em sua posição de lótus, projetando escudos de proteção para os outros hóspedes, pois, quanto a Silvia, só restava aguardar o curso dos acontecimentos

Veio a madrugada, trazendo, paulatinamente, o silêncio. Cessaram os miados ameaçadores, os trovões e relâmpagos, e, por fim, a chuva. Quando a primeira estrela da manhã brilhou, ele se levantou, desfez o círculo mágico, agradeceu a todos os Espíritos que o ajudaram e guardou tudo. Vestiu-se, apanhou uma lanterna, o celular e foi até o carro, pegar uma pá.

Não esperou o gato mostrar-lhe o caminho, pois agora não existiam mais cansaço ou nervos em frangalhos, nada; só a determinação de cumprir a missão para a qual fora convocado. Chegou ao poço com os primeiros raios de Sol, mas nem precisou da pá. 

O temporal fizera a maior parte do trabalho, espalhando as pedras, abrindo o poço, lavando a terra e expondo os corpos já meio decompostos, mas identificáveis, de um homem de meia-idade e de uma mulher jovem. 

Sem mexer na cena do crime, ligou para a polícia e deu as coordenadas, contando, por alto, a história de uma mulher que, não suportando ser abandonada pelo marido, matou-o e à jovem amante com quem ele fugiria. Nada falou do gato nem das práticas de Magia Negra que prenderam as almas de todas as vítimas à Terra, impedindo-as de descansar em paz. 

Voltou à hospedaria, perfeitamente senhor de si, como se nunca tivesse estado doente,  para encontrar um verdadeiro pandemônio. Todos do lado de fora, uma ambulância, a velha dos olhos de ave perscrutadora enrodilhada numa manta preta, como uma dona Carochinha de cemitério. Assim que o viu, correu ao seu encontro, para contar a novidade:

— O senhor nem sabe, a patroa enlouqueceu, rasgou a garganta toda com as próprias unhas, morreu ontem à noite, eu nunca tinha reparado que as unhas dela mais pareciam garras... — e ficou a falar sozinha, pois ele continuou andando, sem lhe dar atenção. 

Precisava telefonar para um contato na polícia e sumir de cena sem ser interrogado. E precisava, urgentemente, ligar para o Padre Tércio, pois, embora a Deusa Sekhmet, encarnada no gato, tenha feito justiça, todas aquelas almas precisavam de perdão e de um enterro cristão.

Seu nome era Lucrécio Lucas, caçador implacável do Mal que os olhos não veem, que chegara fraco, assustado e cansado, de tanto ver e lutar contra forças que nos fariam enlouquecer de medo. Mas que nunca deixara de entrar em ação e cumprir sua Missão quando chamado.

Ele ainda cogitou em ver se o gato estava enterrado ou não, mas desistiu. Não faria diferença. Que os gatos também descansassem em paz.

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