sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

MAIS UM NATAL ESTRANHO >> Zoraya Cesar

Àquela hora tardia da véspera de Natal, pelas ruas quase desertas circulavam apenas os perdidos, os avessos à festa e os poucos que ainda voltavam para casa. 

Vamos nos ater aos perdidos. Desses, alguns procuravam um lugar, um alguém, um milagre, qualquer coisa que transformasse aquele Natal numa ocasião feliz.

Bem vestido, bem apessoado, bem abatido e acabrunhado, o homem caminhava lentamente, arrastando, como bolas de ferro presas aos pés, o peso de uma decisão desesperada. Tão despercebido estava, imerso em pensamentos sombrios, que nem se deu conta de que entrara em uma Igreja.

Era uma construção antiga, de pedra e madeira, pouco iluminada, cheirando a sândalo e rosas. O homem despertou de si mesmo. Que estranho, notou. Os altares estavam vazios de santos, e os bancos, de fieis. Por que estaria aberta?

Porque, certamente, o padre ceava com os paroquianos, concluiu, ao ouvir vozes vindas da sacristia. Virou-se para ir embora, seu lugar não era ali.

– Entre, meu filho, coma alguma coisa antes de sair – convidou-o a mulher que aparecera à porta. 

Fosse o jeito suave dela, a fome que lhe bateu de repente, ou um impulso irresistível, o fato é que ele aquiesceu e entrou. 

A sacristia era espaçosa. Cabia uma mesa grande, caprichosamente feita, e uma dezena de pessoas, que conversavam animadamente. A mulher oferecia comidas a uns, bebidas a outros, numa azáfama interminável. Colocou-lhe nas mãos um copo de vinho e um prato de rabanadas. Tome, disse, vai se sentir melhor. Ele se sentou a um canto, como um menino obediente em meio a adultos, comeu, bebeu e, verdade seja dita, sentiu-se melhor.

Olhou em volta com olhos menos famintos. Devem ser os atores do auto de Natal, pensou, vendo as roupas extravagantes dos outros convivas. Um Padre, de idade avançada, andava de lá para cá, conversando aqui e ali, sempre acompanhado por um enorme gato preto. “Festa estranha com gente esquisita”. A música veio repentinamente em sua mente. “Eu não tô legal”... e levantou-se para fugir discretamente.

Nesse momento, porém, um senhor alto, de cabeça tonsurada e olhos brilhantes, interpelou-o, sem a menor cerimônia:

– Não faça bobagens. Vai cometer um erro enorme. Tenha fé – sua voz era profunda, e, inexplicavelmente, o homem sentiu que obedeceria a qualquer comando daquele estranho. 

– Os papeis que comprovam sua inocência estão em um envelope no fundo falso da sua bolsa de viagem. Ligue para casa.

O homem assim o fez. Poucos depois, começou a chorar. Os papeis foram encontrados, estava salvo. Não mais iria  à falência, não mais seria  acusado de roubo e fraude, não seria preso, não envergonharia a mulher e os filhos. Não mais pensaria  em se matar na noite de Natal. 

Impulsivamente, abraçou o estranho. Como sabia? Como agradecer? O ator – devia ser um ator – levou-o até a porta.

–  Sou bom para encontrar coisas perdidas. Me agradeça doando alimento aos pobres. Agora vá comemorar com sua família.

E sumiu por entre os convidados.

– Antonio – avisou alguém, aos risos – Francisco e o Padre estão acabando com o tiramisù que Marta fez em sua homenagem você não vai nem saber o gosto!

...


A jovem entrou, trôpega de angústia. O plano de saúde não queria aprovar a cirurgia do pai, internado no hospital, nem permitir acompanhantes. E ela ali, sozinha na noite de Natal, sem ter a quem recorrer. Nem mesmo aos santos, que a Igreja estava com os nichos todos vazios. Que estranho, pensou.

Queria sossego e reza, não festas, mas a luz e os sons vindos da sacristia a atraíram, irresistivelmente.

Mal entrou, uma mulher entregou-lhe um copo de vinho e um prato com bolo de nozes.

– Coma – disse – você vai se sentir melhor. 

Assim como todos os outros que lhe antecederam e os que lhe sobrevieram naquela noite, ela obedeceu. E, assim como eles, sentiu-se melhor. 

Reparou, então, nas roupas usadas pelos convidados, no Velho Padre, no gato preto, na calma alegria do ambiente. Certamente o pai gostaria muito de estar ali com ela. Teve vontade de chorar. 

–  Por que, perguntou-lhe um homem negro, vestido de túnica marrom, você não atende o celular? 

Ela se assustou. O celular não funcionara o dia inteiro, mas agora estava tocando. Que esquisito. Atendeu. Era do hospital, comunicando que, inexplicavelmente, o plano de saúde voltara atrás: autorizara todos os procedimentos e também a presença de um acompanhante.

A jovem olhou, extasiada, para o homem à sua frente. Ele sorriu, sem responder às perguntas que ela balbuciava em meio às lágrimas, e levou-a até a saída:

– Acho que você deveria ir ao hospital agora, ficar com seu pai e descansar. 

Ela agradeceu e saiu correndo, mas ainda conseguiu ouvir que o chamavam:

– Benedito, corre aqui pra ver o Menino brincando. 

Que coincidência, pensou, ele tem o mesmo nome do meu avô.

...


Quase amanhecia. Santos, santas e anjos comportadamente instalados em seus respectivos altares, o Velho Padre, com o gato preto ao colo, finalmente descansava, sentado em frente ao presépio. 

Sempre gostara de festas de aniversário. O Natal era mesmo uma data muito especial, disse a si mesmo, sem medo da rima pobre. A única festa na qual o aniversariante é quem dá os presentes. E, feliz por todos os milagres que presenciara, entrou em adoração.

Mais aventuras de Natal do Velho Padre: 

Minuetos de Natal



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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

PREZADO 2014 >> Fernanda Pinho

Sei que nossa convivência já está caducando, mas ainda sigo a te dispensar um tratamento polido, posto que não consegui estabelecer um grau mínimo de intimidade com você. E nem pretendo fazê-lo nos 14 dias que nos restam. Aliás, não pretendo mais nada com você e antes que me acuse de ingrata já me adianto nas explicações. 

Não acho que você tenha sido um péssimo ano. Aliás, nunca tive um péssimo ano. Sempre que eu chegar viva e com saúde ao final de mais um dezembro, considerarei o ano acabado como, no mínimo, “ok”.

É isso. Você, 2014, foi um ano ok. E não sou eu quem estou dizendo. Quer dizer, eu também estou dizendo, mas para não ser leviana (para usar um termo muito repetido nos seus dias) consultei várias outras pessoas. E, sem querer te desanimar nem nada, muitas concordaram comigo. Você foi um ano pesado. Difícil de carregar, difícil de empurrar. Passar pelos seus dias foi como atravessar campos de areia movediça usando salto alto. 

Talvez seja por isso que, em alguns pontos do caminho, fui obrigada a me desfazer de algumas bagagens. Ou de pessoas, caso esteja complicado acompanhar a metáfora. Ok. A quem eu quero enganar? Não somos íntimos mas convivemos intensamente nos últimos 300 e tantos dias. Eu não me desfiz. Se desfizeram de mim. Mas no caminho que a vida é, somos todos bagagem uns dos outros. E, ao ser abandonada à beira da estrada por algumas pessoas, a viagem acabou se tornando mais leve para mim também. Para quem isso foi bom ou ruim, só um tempo que já não cabe mais em você, 2014, é que dirá. Por isso continuo te considerando um ano ok.

Eu tinha planos para nós, sabe. Quando o ano virou naquele 31 de dezembro de 2013 eu tinha desejos sinceros no meu coração, repetidos em cada onda que eu pulei. E você, ao que parece, nem sequer chegou dar uma olhada na minha listinha. Mas, tudo bem, ingratidão foi o sentimento que eu mais abominei nos seus dias e seria muito, digamos, leviana, se eu fosse ingrata também. Você embolou minha listinha de desejos, fez uma bolinha de papel e trinta e uma embaixadinhas com ela mas por outro lado…

… montamos nossa segunda casa com todos os detalhes que imaginamos. Realizei meu sonho antigo de mergulhar em alto mar. Trabalhei cada dia mais intensamente que no anterior. Visitei amigos que moram longe. Recebi amigos que moram longe. Retomei amizades interrompidas por outros anos. Li livros que vão me marcar para sempre. Realizei a vontade de me engajar num projeto solidário. Parei de tomar refrigerante. Não dei um espirro, não tive uma dor de cabeça, nem uma dor de dente. Conheci cidades que eu não conhecia. Me viciei (em novas séries, novas músicas e em novos produtos de maquiagem). Não fiz nenhuma dívida. Aprendi a gostar de sushi. Aprendi a comer linhaça. Vi minha irmã ficar noiva. Vi o Galo ser campeão da Copa do Brasil (o que curou qualquer eventual trauma deixado pela Copa NO Brasil). 


Já prevejo você me questionando: “Mas, então, minha filha? O que mais você queria”? Prevejo e, antecipadamente, me envergonho. Talvez eu seja exigente demais mesmo. Mas é que eu só queria mais uma coisinha e, como eu sei que já não há mais tempo para você, venho por meio desta pedir, encarecidamente, que repasse a 2015 aquele meu bilhetinho. Sim, esse mesmo com o qual você fez uma bolinha de papel. Desamasse, desamarrota. Ainda dá para ler. São só três letrinhas. Nada demais. 





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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

SÓ MAIS UMA PERSONAGEM >> Carla Dias >>


Lá vai ela, arrecadando suspiros, cultivando pensamentos nas cacholas alheias. Andando descalça no jardim da vida, dançando ao som da música que mora em sua memória, enchendo os olhos dos curiosos de delicadeza.

Contadora de histórias experiente, já inventou cento e cinquenta e sete personagens, com os quais convive pacificamente. Uns moram na sala de sua alma, outros na cozinha, há aqueles que, apreciadores profundos de certa mordomia, moram no sofá da sala e adoram assistir novela. Há até poeta que se levanta no meio da noite para resgatar poema ignorado durante o dia, só para poder declamá-lo na boca da madrugada.

Lá vai a moça que aprecia uma boa inquietude, que reage a elas a contento, que tem ciência de que amor dá trabalho, mágoa é desperdício de tempo e acerto nem sempre é resultado da escolha feita. Que os erros nasceram para nos abismar com seu jeitinho de cultivar avessos, e para nos mostrar o que pode ser aperfeiçoado. Ela que não tem problema que seja para assumir o erro, repensá-lo, compreendê-lo para que o acerto venha na próxima.

Há quem se desmanche todo diante do sorriso largo da moça que anda por aí sem dar atenção a quem deseja tolher a sua esperança. Esperançosa assumida, ela leva o diariamente em seu coração, que é um cantinho receptivo, onde também moram aquelas dúvidas danadas. Também não tem medo de encará-las, não. Feito olhar seu se cruzando com olhar seu no reflexo do espelho nem sempre seu.

Lá vai a moça vestida nos panos que lhe apetecem, do jeito que lhe apetece, no ritmo que lhe apetece. Distribuindo cores e desfilando em passarela improvisada pelo desejo de conhecer mais sobre o mundo, geográfica e antropologicamente. Já descobriu, por exemplo - assessorada por agente de viagem, e um plano para pagar sonho em 24 vezes, primeira parcela no Carnaval, abençoada pelos Pierrôs e pelas Colombinas, o Samba Enredo mais inspirador de trilha sonora -, que assim como lugares, as pessoas também podem ser cenários. Sabe como? Aquele lugar que é o outro, no qual você deposita os olhares mais afetuosos e exercita abraços, provoca alguns atos mais levados, dependendo do status do relacionamento. Às vezes, até deseja se mudar de vez para lá, só para se enroscar no cenário.

É sabido que a moça, aquela que lá vai, faz uso da sua liberdade da melhor forma: experimentando-a. Por isso escolhe as escolhas que a seduzem, encarando consequências com muita classe, mesmo quando lhe dá vontade de mudar de planeta. Muda-se, então, para o começo da noite, quando acontece aquele momento em que tudo a sua volta silencia. É silêncio prefaciador de bom agouro, que logo mais, chegarão os amigos para uma Roda de Sonho, tamborins e cuícas a postos.

Imagem: The Acrobat © Marc Chagall | www.marcchagallart.net

carladias.com




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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

AUTORRETRATO OU SELFIE?? >> Clara Braga

Lembro de ter estudado sobre o tal do selfie na faculdade. Não exatamente o selfie, até porque na minha época ele tinha outro nome, era autorretrato, mas o princípio parece ser o mesmo. Mas é só o princípio que parece, pois os fins são bem diferentes. Na minha opinião, até o nome autorretrato é mais poético, selfie soa algo um tanto egoísta, mas pode-se dizer que a carapuça serviu.

Lembro de uma professora falar sobre o autorretrato. Resumindo por alto, é mais ou menos a técnica de se autopintar ou fotografar, enfim, se autorretratar dentro de um contexto significativo para você. Ou seja, o autorretrato está ligado à subjetividade, já que o que é significativo para você não necessariamente é significativo para os outros, está relacionado aos sentimentos. E é exatamente nesse ponto que eu me pergunto, onde foi parar o sentimento dos autorretratos?

Frida Kahlo foi uma grande pintora que criou uma quantidade enorme de autorretratos. Agora eu pergunto, você consegue imaginar a Frida sentada com seu cavalete em frente ao café em Sidney, pintando um quadro enquanto o tiroteio rola solto dentro do café? Enquanto várias pessoas são mantidas como reféns, duas acabam mortas, outras tantas feridas, Frida mistura um pouco mais de preto na cor vermelha, pois o vermelho claro não representa a dramaticidade do momento de forma eficaz! Soa bizarro né? Alguns ainda dirão, soa bizarro pois ninguém anda na rua com um cavalete na mão esperando um bom momento para pintar um quadro. Será que ninguém consegue perceber que a bizarrice da atitude é a mesma independente da técnica?

Não tem a menor graça fazer parte de uma tragédia, não tem a menor graça não ter coração suficiente para se compadecer da dor dos outros e não é tranquilo fazer uma selfie só porque o seu smartphone é tão rápido que ninguém nem vai perceber que você fez a tal da foto. Depois ela vai cair nas redes sociais e todos vão achar você uma pessoa sem a menor noção, e quem não achar é porque é tão sem noção quanto você. 

Definitivamente, os smartphones estão ficando cada vez mais smart, e deixando o povo cada vez mais burro. 


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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

"MEIN KAMPF" >> Albir José Inácio da Silva

“Deste tribuna eu querro hoje mostrar parra vocês o meu luta! O meu luta no vida e nesta parlamento! Cala o seu boca que eu não estar gritando, eu ser veemente, esta é a minha temperramento! E chame aquele senhorra que falou bobagem sobre ditadurra, eu precisa repetir parra ela que não a estupro porque ela não merrece.

Devo informar que essa negócio de estupro é uma vingança, eu explica porquê. No infância, durrante o carnaval, uns garrotos, fantasiados de mulher, se aproveitarram de mim. Na horra eu até gostei da brincadeira. Mas depois descobri que erra pecado e eu ia parra o inferno. Fiquei muito mal e me tranquei no armárrio.

Durrante muito tempo eu sofria. Parreceu que não tinha mais jeito. Isso é que nem mordida de vampirro, depois que acontece, a gente se transforma.  A minha sorte é que eu encontrei um psicólogo, o Dr. Marracutaia, que é especialista em curra gay. Além de me currar, ele ainda me casou com um mulher parra evitar recaídas.

Agorra estou tão currado que estupro mulheres. Dizem que estupro é crime, mas, reparrem, ele é só para quem merrece. É assim como prisão, torturra e execução no regime de segurança nacional, só se aplicam a quem discorda, protesta, desobedece, ou seja, quem merrece.

Compreendem a minha luta tentando defender essa povo de ele mesmo? Querrem distribuição de renda! Que absurdo! Ora, se Deus deu o dinheiro parra alguns, e não parra outros, é para ficar com estes a quem ele deu, e não parra ser distribuído parra os outros a quem ele não deu. É simples questão de lógica!

Mas todos querrem igualdade, contrariando nossas tradições que colocam cada um no seu devido lugar. Ficam por aí judeus, negros, gays e nordestinos reivindicando e se rebelando contra a ordem consagrada e o bom andamento da vida em sociedade.

Dos judeus não preciso falar porque nosso grande führer e pensador do século passado disse tudo. Sobre os negros, um grande sábio deste parlamento já esclarreceu que são amaldiçoados por Noé e por isso a África tem fome, misérria, ebola e AIDS. Nordestinos, nem preciso dizer nada porque vivem num lugar quente e seco, e lugar quente e seco é o inferno.

Que é que tem São Paulo? São Paulo é uma lugar abençoado, e se está sendo castigado com seca é por causa do infestação gay. E agora estão querrendo fazer lei que proíbe bater em gays! Onde é que vamos parrar?

Essa gente fala em democracia, mas não sabe votar. Colocam comunistas no poder e depois sofrem as conseqüências. Homens já casam com homens e mulherres com mulherres. Já estão até adotando crianças. Esses crianças vão virrar gays e casar com gays e, em pouco tempo, a humanidade vai desaparrecer. Porque Deus fez Adão e Eva e não Adão e Ivo. E dois iguais não fazem filhos.

Esses gays deverriam ir parra os fornos crematórrios, parra os DOI-CODI, ou parra a casa do morte em Petrópolis. É preciso também avisar a operração condor porque o profilaxia tem de ser feita em todo o Amérrica Latina. Esse praga é que nem rato, se tem na casa do vizinho, volta parra o nossa.

Esse é o meu luta. Mas esse é também o luta de vocês. Está em suas mãos colocar os pingos nos is, o mundo nos eixos e cada macaco na sua galho. Muito obrigada.


Heil..., digo, salve o povo barrasileiro!”


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domingo, 14 de dezembro de 2014

GENTE É OUTRA ALEGRIA >> Eduardo Loureiro Jr.

A alegria do Enzo é assobiar. E fazer caretas. E ouvir o ruído da descarga sanitária a vácuo. E ver um ônibus sanfonado. E contar-lhe as rodas. E passear com seu tio. E rever sua avó.

A alegria de Manu é tocar violão. E assobiar passarinhos. E escrever poemas. E recitar poemas para sua filha. E dizer que seus poemas viraram canção no violão do amigo. E ver uma menina dançar ao som de seu reggae. E ser um interno do pátio. E falar de seus alunos.

A alegria do Fabiano é falar com pessoas. E ouvir histórias. E traficar pó...esia. E ver crianças lendo. E crianças contando. E crianças cantando. E crianças dançando. E crianças rindo. E crianças, crianças, crianças. E tirar fotos. E falar de amores com seu amigo. E contar suas alegrias desde o tempo de menino.

A alegria do Fábio é abraçar seu amigo. E continuar no abraço. E prolongar o abraço ainda um pouquinho. E dizer que estava precisando disso. E ver o sorriso de sua filha. E admirar o som de um novo violão. E dizer uma ou outra ironia. E pedir a noite do Fabiano. E tocar o dia.

A alegria da Luiza é receber visitas. E abraçar seus amigos. E falar da arte. E falar da vida. E pedir uma música. E outra. E outra. E ouvir a chuva do Fabiano. E oferecer chocolates que Manu leva para sua filha. E lembrar seus alunos. E lembrar melodias. E mostrar sua dama da noite. E regar seu jardim.

A alegria deles é a alegria minha.

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sábado, 13 de dezembro de 2014

AONDE QUER QUE EU VÁ... >> Sergio Geia

Campinas. Shopping Center Iguatemi. Livraria Saraiva. Vejo um sujeito de bermuda estampada lendo “Época”. Um japonesinho sentado ao seu lado se lambuzando num McFlurry. Um cara grudado no celular. Uma loura muito das gostosonas com uma porção de livros no colo. Com vontade de ficar na loura, mas já indo, encontro agora, ou reencontro, melhor dizendo, a página 197, que tem no centro a grande frase que dá início ao capítulo: “Amigos são os Paralamas e o Herbert Vianna”.

Estava procurando um livro de crônicas, quando dei com a foto do Marcelo e a frase “Não se preocupe comigo”. Dei uma lida rápida num capítulo escolhido aleatoriamente, e achei que valia a pena prestar um pouco mais de atenção naquilo tudo que ele dizia.

Marcelo Yuka. Baterista d’O Rappa. Época maravilhosa. Projetos. Planos que iam muito além d’O Rappa. Na José Higino. No Rio. 9 de novembro de 2000. 9 tiros. Um deles, na coluna. Estava a caminho da casa do Ed Motta. Iriam assistir a um show. Do Max de Castro. Entrou na José Higino e se deparou com um carro atravessado. Ouviu pipocos. Tentou dar marcha à ré, mas um carro com bandidos estava bem atrás do seu. Evitou um assalto sem querer, mas acabou virando alvo. Tudo muito rápido. E numa fração de segundo, Marcelo foi parar numa cadeira de rodas.

Amigos são os Paralamas e o Herbert Vianna. “Mas que parada é essa?”, pensei. “Por que o Marcelo tá dizendo isso?”. A amargura na sua voz eu conseguia ouvir, eu conseguia sentir, eu conseguia mensurar; aquilo me incomodava de tal maneira que minha vontade era largar tudo o que eu estava fazendo e devorar aquele livro, ali mesmo, no shopping, no meio daquela tumultuada livraria, em uma tarde tumultuada de domingo.

O Herbert, em 2001, sofreu um acidente de ultraleve em Angra dos Reis. O equipamento caiu no mar. Sua mulher, Lucy, ficou presa no cinto e morreu. Herbert sobreviveu, mas ficou paraplégico. A diferença entre Herbert e Marcelo, eu entendi depois de ler o que ele dizia, é que Herbert, na sua opinião, contou com a solidariedade, a amizade e a paciência de seus amigos de Paralamas, Bi Ribeiro e João Barone. A banda está aí até hoje, com Herbert tocando e cantando sentado. Já Marcelo, não. Foi obrigado a se desligar d’O Rappa e teve que canalizar suas emoções através de outros meios.

O livro tem fotos interessantes. O Marcelo com um ano e meio. Na praia, com a mãe, o pai. Alguns shows d’O Rappa. Livre, leve e solto num mar, no sul da França. Deixando a Casa de Saúde São José, no Rio, depois dos tiros. De cadeira de rodas, beijando a mão do Herbert num show. Em casa, na frente de um grafite maneiro feito por um amigo.

Seu olhar está diferente. O olhar de um sobrevivente. Fico pensando, com o Marcelo em mãos, na fila do caixa, como a vida pode mudar tanto de uma hora pra outra. Do nada. De repente, tá tudo diferente. O cara descobre um câncer, ou sofre um acidente, ou fica paraplégico. Escuto a voz do Herbert saindo da caixinha de som da livraria: “Olhos fechados pra te encontrar, não estou ao seu lado, mas posso sonhar. Aonde quer que eu vá, levo você, no olhar”. Que coincidência, penso. Faço imediatamente a conexão Herbert-Lucy. A mocinha do caixa me chama.


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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A VIDA É UM JOGO DE FASES >> Paulo Meireles Barguil


A vida é um jogo de fases.
 
Em cada uma delas, há desafios para serem identificados e superados pelo aventureiro.
 
Enquanto você não cumpre a missão específica, a vida lhe coloca novos cenários e personagens, mas algo permanece inalterado: o que precisa ser aprendido, transformado no seu interior.
 
A maioria das pessoas ignora esse princípio e não entende que o mais importante na vida é o que acontece dentro delas e não do lado de fora.
 
O tempo despendido em cada estágio varia, pois relacionado às habilidades individuais, as quais são usadas para avançar, embora raramente elas sejam suficientes.
 
Suplantar as nossas fragilidades é, via de regra, a tarefa a ser assumida nos diferentes níveis, os quais não têm fim, embora o folguedo sim...
 
O jogo, embora apresente momentos competitivos, é, essencialmente, colaborativo.
 
Quando a pessoa entende isso, a jornada se modifica, tornando-se, ambas, mais leves e bonitas.
 
Afinal, ela descobriu um importante segredo: a riqueza da vida é partilhar o que se é, dividir para multiplicar.

E a gente colhe o que semeia, dentro e fora...
 
[Crônica dedicada a Samuel, meu filho de quase 19 anos, que me inspirou a escrevê-la e a entender um pouco mais sobre a vida.]


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