sexta-feira, 1 de agosto de 2014

I MALEDETTI >> Zoraya Cesar

Toda vestida de preto, a velha caminhava lentamente, olhando para baixo, não se sabe se preocupada com as armadilhas fatais das calçadas esburacadas, ou se as costas curvadas não a deixavam andar de outro modo.

Colo, mãos e rosto engelhados e cinza como o pescoço de um urubu, ela caminhava lenta e resolutamente, por bares, lojas e pessoas, quase que totalmente despercebida, apesar da aparência extravagante. Ou porque, na azáfama do dia ninguém a via mesmo, ou porque, se a viam, afastavam rapidamente o pensamento e o olhar, como pressentindo algo de pestilento e mortal na sua presença. Um grupo de pivetes passou arrancado algumas bolsas, colares, relógios, e uma das meninas ainda cobiçou a pequena sacola roxa que a velha carregava na mão descarnada, mas preferiu assaltar outra vítima.

Caminhava, clapt, clapt. Caminhava sem parar e assim foi até o entardecer, quando chegou, finalmente, ao seu destino, pouco antes de fecharem as portas.

O funcionário baixou os olhos quando ela atravessou a guarita – se por acaso, ou por já acostumado àquela visita sempre na lua nova, não sabemos. O fato é que ela passou e no instante seguinte os portões fecharam ao público externo. A partir daquele momento, o lugar pertencia aos condôminos vitalícios – se é que tal palavra se aplica ao caso –, aos visitantes que escaparam à vigilância e se esconderam durante o dia, aos que pulavam o muro após o anoitecer e aos poucos que, como a velha, tinham a entrada franqueada. 
Ela continuou caminhando, indiferente ao vento frio e à escuridão - sabia exatamente por onde andar para chegar aonde queria – um tanto ansiosa, talvez, por prosseguir à sua missão.  

Passou pelo grupo de jovens vestidos, como ela, de negro. Passou pelo homem que batia no peito e gritava de dor e saudade. Passou pelo ladrão que procurava algo de valor. Ninguém prestou atenção a ela e a ninguém prestou ela atenção. 

Quando, finalmente, chegou ao seu destino, ficou ali, parada alguns minutos, talvez tomando fôlego, a noite era longa e ela já não era criança. 

Sentou-se ao lado do túmulo do marido, tirou da bolsa uma foto amarelecida pelo uso, um homem de ar severo e orgulhoso, bonito com sua brilhantinha no cabelo e fartos bigodes castanhos. Tirou da bolsa, também, agulhas de tricô, um novelo de linha preta, uma vela da mesma cor. Acendeu-a, apoiou a foto na lápide e começou a fiar. A cada ponto, uma estrofe de uma estranha reza de esconjuros e maldições. 

E assim ficou a noite inteira, e, pouco antes que os primeiros raios de Sol ameaçassem a escuridão, ela, ainda esconjurando, amarrou toda a rede em nós inquebrantáveis e enterrou-a junto à lápide. Antes mesmo de o bem–te-vi soltar seu primeiro gorjeio, ela já estava indo na direção da saída. 

Todo mês, na Lua Nova, a velha praticava aquela antiqüíssima magia italiana, para prender a alma do finado marido no limbo sem luz, onde ele seria torturado pelas agruras do inferno, sem nunca ter paz, assombrando o mundo dos vivos com aparições e obsessões terríveis, que já levara à loucura mais de um inocente que nada tinha a ver com a história. 

A história? Um marido cruel que perpetrou todo tipo de maldade contra a esposa. Uma esposa que, após a morte dele, não mandou rezar sequer uma Missa, mas dedicou sua vida a vingar-se, prendendo a alma do finado eternamente no mundo sem luz. Nenhum dos dois teria salvação. Ele, por não ser perdoado; ela, por não perdoar. I Maledetti – os malditos. Condenados, ambos, à danação eterna. 

Duas almas malditas, dois seres trevosos, duas vezes perigosos: ele, por assombrar o mundo dos vivos; ela, o dos mortos. Todos dois se comprazendo em fazer o que faziam, pouco se importando com as conseqüências de seus atos na vida de outras pessoas, nem com o equilíbrio das Forças, pois, quanto mais seres das trevas existem, pior para ambos os mundos. Assim na terra como no céu. 

Longe dali, Lucrécio Lucas sentiu vontade de dar uma batida no cemitério, ver o que andava acontecendo, ajudar algumas almas, combater outras, limpar o lugar para que este continuasse a ser um solo sagrado. 

Convidaria seu grande amigo, o maior exorcista do país, um dos dez mais do Vaticano. Padre Tércio detestava sair no frio, mas não resistiria a uma dose de um legítimo Sheridan’s de café, seguido de um Bom Combate.

Mais aventuras de Lucrécio Lucas e Padre Tércio:






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quinta-feira, 31 de julho de 2014

AMOR, ESTOU COM SAUDADES DA FITA ISOLANTE
>> Fernanda Pinho



Uma das coisas mais bacanas de estudar outras línguas é descobrir palavras que só existem naquele idioma. Como “saudade” que, dizem, é uma palavra exclusiva do português. Mas de onde vem isso? Qual foi nossa primeira saudade? Pesquisando, descobri que a palavra nasceu junto com o Brasil. Ou, pelo menos, junto com aquele Brasil descoberto pelos portugueses. Já que a palavra, derivada do latim (em que “solitáte” quer dizer “solidão”), passou a ser utilizada pelos nossos patrícios para definir a melancolia causada pela distância de casa.

Na mesmo pesquisa, descobri também que o gaélico é o único idioma que nos oferece uma palavra com conotação textual semelhante: “hiraeth”. Como meu marido não é um escocês do século V, deve ter acontecido de, em algum momento, eu ter inserido a palavra “saudade” em nosso relacionamento. E provavelmente deixei claro que sentir saudades era o mesmo que sentir a falta, sentir a ausência.

Ótima explicação, certo? Precisa e esclarecedora. E quando ele me disse pela primeira vez que estava com saudades de mim, achei de uma fofura infinita. Até eu ser colocada no mesmo patamar de chinelos, fita isolante, faca, cabo HDMI, controle remoto e outros objetos que de românticos não tem nada. Como?

Aconteceu que, depois de um tempo, detectei quão vago é traduzir “saudade” como sinônimo de “sentir falta”. E tornaram-se corriqueiras em minha vida frases, digamos, peculiares do tipo: “Amor, fui tomar banho e senti saudades da minha toalha no banheiro”. “Essa comida está sem gosto. Estou com saudades do sal”. “Ontem eu deixei uns parafusos aqui, estou com saudades deles”. “Você viu o vidro de álcool? Procurei a casa toda. Estou com saudades”. “Essa imagem não está muito boa. Sinto saudades de um pouco de cor aí”. “Cadê o garçom que estava nos atendendo? Estou com saudades”. “Fui ao banheiro e senti saudades do papel higiênico”.

No início eu até tentei explicar que não era bem assim. Isso não é saudade, meu amor. Saudade toca fundo, mexe com todos os sentidos. Não é uma falta qualquer. Como quando você sente o cheiro de álcool e tem vontade de estar de novo na sala de aula, com cinco anos, vendo a professora mimeografar o Para Casa. Ou quando seu bife queima e você se lembra que o da sua avó sempre se queimava também e depois você tem que engolir o almoço com gosto de lágrimas. Ou quando você sente o cheiro do perfume que ganhou aos quinze anos e consegue até sentir o gelo na barriga da adolescência. É como quando eu estava no Chile e chorava depois de conversar com minha mãe pelo Skype. É como quando você foi embora do Brasil, amor, e esqueceu sua camisa lá em casa, me obrigando a dormir com ela. Saudade é isso. É outra coisa.

Mas por ser "saudade" uma palavra tão especial, cuja simples menção mexe com nossas emoções, acabei largando mão das explicações. Ouvir “saudade” a torto e a direito, carregar cada cena trivial com tanto sentimentalismo, torna a vida, no mínimo, mais poética.

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quarta-feira, 30 de julho de 2014

VENTANIA DA SILVA >> Carla Dias >>


Para as meninas da minha vida: Duda, Amanda, Débora e Mayara.

O seu nome é Ventania. Gosta de vento que é uma coisa, mas não é só isso: os cabelos. Já viu cabelos iguais aos dela? Parece até que vão se enroscar nas copas das árvores, enquanto ela caminha desacelerada. Bem se vê que está paquerando pensamento. É de uma lindeza descabida, que faz mais de um, de dois, de cento e cinquenta e sete pessoas desejarem ser Ventania.

Ventania da Silva. Batizada aos meandros dos acontecimentos, que a mãe pariu a menina às lufadas do vento, que na hora do registro não saía de sua cabeça essa coisa de ventania. Ventania da Silva escapou de sua boca, e depois disso, não houve quem tirasse o registro da menina.

Ela nasceu inadequada, é preciso que aceitemos isso.

Quer dizer, não é não! E nem devemos tentar.

Nasceu com a inadequação em polvorosa, porque quando não se cabe no provável é dito feio, insalubre, incorreto, desproporcional, inaceitável e mais uma penca de predicados que não fazem sentido quando se trata da celebração da vida de uma pessoa. Sendo assim, Ventania nasceu não cabendo, e o pai se benzeu ao vê-la sorrir mal saída do ventre da esposa, e os seus olhos já vieram arregalados de um jeito indecente. Jeito de quem vê além. Não teve dúvidas o consorte: fez as malas e se mandou dali. Escolheu viver na lonjura de suas meninas.

Ventania não reclama da vida, não. Mesmo tendo de trabalhar duro para alcançar o que almeja — como qualquer ser humano deve fazê-lo, vale lembrar —, continua na sua caminhada de quem passa e desmancha cabelos, derrete olhares, incomoda pela naturalidade com que diz a verdade, sabendo que a sua verdade nem sempre será a do outro.

A mãe tem um orgulho imenso da filha. Gastou muito do seu tempo contando a ela sobre a história de sua família. Inventou a tal inteirinha, que a mãe veio de lugar nenhum, foi meio que cuspida no mundo. Já viveu tanta coisa ruim nessa vida, que delícia de ser mãe de pessoa feito Ventania é a importância mais importante de sua existência.

Saibam que Ventania não é moça de ficar quieta diante de injustiça. Já desceu das tamancas, e muitas vezes, para defender direito sendo arrancado do outro, assim, na maior cara de pau. Fosse pelo povo lá do bairro, Ventania da Silva seria presidente do Brasil, que sabe que todo direito vem com o dever, e que a fome não é só de comida, a sede não é apenas de água. Talvez por isso tenha se tornado professora, a mais famosa do lugar, conhecida por defender o direito de todos de ser pessoa, com histórias distintas, com suas riquezas particulares.

Ventania da Silva nasceu para a beleza dos pequenos gestos que provocam grandes mudanças. Tem a cabeça nas nuvens, mas os pés no chão, sempre que preciso. E os cabelos? Às vezes, eles parecem querer se enroscar nas estrelas, esconder pensamentos, que Ventania cultiva sonhos e mais sonhos na sua cabeça.

Não há como ignorar pessoa nascida sorrindo, com os olhos já arregalados, de saber enxergar além. O pai se assustou e fugiu. A mãe se encantou e cuidou. A escolha de quem foi e de quem ficou não a aflige, porque acredita ter sido abençoada por a terem acolhido. Ainda que lhe digam que ela merecia ser criada por pai e mãe, amada por pai e mãe, festejada por pai e mãe, oras, nem todos são escolhidos para serem amados apesar da inadequação, e ela foi e tem sido.

Que Ventania da Silva não nasceu para ser vítima de si mesma, tampouco da incapacidade do outro em compreender que ser autêntico, às vezes é confundido com ser inadequado.

Lá vai Ventania, rosto sendo beijado pela chuva, carregando sua história com a maior alegria. E os cabelos? Às vezes, parece que eles se enredam à melodia do vento.

carladias.com



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terça-feira, 29 de julho de 2014

DEFEITOS QUE SÃO FALSOS ELOGIOS
>> Clara Braga

— Uma cor?
— Branco, representa a paz.
— Um sentimento?
— Amor.
— Algo que você odeia?
— Racismo.
— Uma frase?
— Não se leve sempre tão a sério.
— Uma qualidade?
— … é… hum… é…

De todos os clichês existentes em uma entrevista no estilo “bate-volta”, sem dúvida o maior de todos é a dificuldade em se autoelogiar. Parece que elogiar é uma das únicas coisas que costuma ser mais fácil fazer para os outros do que para si mesmo. Exatamente o contrário do defeito, que é muito mais fácil falar do próprio do que do alheio. Será?

Repare bem, já percebeu que as pessoas, quando vão citar um defeito, nunca dizem aquele defeito cabeludo? Todo grupo de amigos tem pelo menos uma pessoa de que todo mundo pensa: “Fulaninho é ótimo, se não fosse aquela mania de falar berrando, mesmo quando estamos em um local silencioso". Ou: “Adoro Fulaninha, mas ela tinha que ser tão egoísta?” Agora pergunta para o Fulaninho ou para a Fulaninha qual o maior defeito deles, eles nunca vão dizer "falar alto demais" ou "egoísmo", vão dizer “sou muito perfeccionista” ou “tenho mania de arrumação”. A não ser que eles sejam muito bem resolvidos com os tais defeitos.

A verdade é que a maioria de nós sabe de seus maiores defeitos, mas tem tanta dificuldade de encará-los quanto de dizer o quão bom é naquilo que faz. Aliás, vivemos eternamente nessa cultura de que não podemos ser de fato bons em nada, pois se assumirmos isso seremos para sempre as pessoas mais arrogantes do mundo. Ser bom é arrogância e ser muito ruim é falsa modéstia, o que também é ruim, mas é menos pior do que ser arrogante, pelo menos você tentou não ser arrogante. O bom mesmo é ser mais ou menos. Mas não insista muito em convencer os outros de que você é mais ou menos, pois pode parecer que você está querendo ter seu ego massageado por elogios, ou seja, você é arrogante de qualquer jeito.

Essa história de falar sobre defeitos e elogios, erros e acertos, vai longe, o problema é que parece que foi longe demais e virou mania. Antes essas perguntas só eram famosas no programa De Frente com Gabi, e a gente ficava rindo da cara do entrevistado que tinha que rebolar para não ser tachado de arrogante metido. Agora, a gente que ficava só rindo se depara com essa pergunta nas mais diversas situações. Entrevistas de emprego são batata, você precisa se virar nos trinta e dizer seus defeitos e qualidades. Me questiono até que ponto essas perguntas ajudam de fato, afinal, quem é que vai dizer que detesta trabalhar em equipe, odeia acordar cedo, não tem horário para nada, gosta de fazer umas viagens imprevisíveis e deixar o trabalho para depois, etc? Aliás, é tão raro alguém ter coragem de falar essas coisas que se alguém fosse sincero a esse ponto comigo, eu era capaz de contratar só pela sinceridade. Ia me arrepender na primeira vez que a pessoa simplesmente não aparecesse, mas me ganhou pela honestidade.

Acredito que todos nós temos dificuldade em nos elogiar, mas também temos dificuldade em nos criticar, e é por isso que disfarçamos nossas críticas em defeitos que nem são tão defeituosos assim. O perfeccionista pode ser chato, mas é muito útil para trabalhos detalhados e costuma ter muita atenção. A pessoa que tem mania de arrumação só atrapalha quem mora com ela e gosta de largar a toalha molhada em cima da cama, para os colegas de trabalho isso é ótimo. E assim segue, para não sermos nem arrogantes nem perdemos nossa vaga de emprego, não assumimos ser muito bons em nada — o que soa no mínimo contraditório — e disfarçamos nossos defeitos em falsos elogios. O que eu não entendo é: se todo mundo sabe disso, por que não passamos a simplesmente assumir nossos reais perfis?

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segunda-feira, 28 de julho de 2014

AS TRÊS MARIAS >> Albir José Inácio da Silva

Plin-plin. A câmera mostra o céu sem nuvens, desce pra areia dourada e avança sobre o mar calmo e azul. Fecha agora sobre as pedras onde se veem dois corpos bronzeados, esguios e adolescentes, que se beijam. Beijam com ternura, as mãos acariciando os rostos. Lentamente a câmera passeia pelo terreno rochoso, vai até a linha d’água e volta. Agora se beijam com paixão, com fome. As mãos seguram as cabeças como se quisessem fundi-las. Dedos desajeitados afastam uma alça de biquíni. A câmera os deixa rapidamente e para lá longe, onde se encontram céu e mar. O microfone ainda registra o estrépito dos beijos e a respiração convulsa. A música se eleva feito um hino e o ruído das ondas marca o ritmo. O Rio de Janeiro brilha ao sol das dezenove horas. E se um dia deuses se amaram, foi assim.

Raras são as novelas que não trazem belas paisagens da Zona Sul do Rio de Janeiro, corpos esguios e bronzeados, e românticas primeiras vezes. Essas cenas alcançam recordes de audiência e ficam na memória de todos.

Maria da Glória, por exemplo, não esquece. Mora na Glória, bairro tradicional do Rio, próximo de onde foram feitas essas imagens. Ela gosta de novelas e gostou da primeira vez:

— A minha primeira vez foi como um conto de fadas. Não. Contos de fadas não têm primeira vez. Foi como uma novela. Aliás, como uma cena que tínhamos visto na noite anterior. Pôr do sol, praia, paixão e amor pra nunca mais se acabar. O garoto ainda namorei uns tempos. Depois acabou. Mas foi bom. Sempre discordo das pessoas que ligam amor a sofrimento. Amor é alegria. Se não, é melhor deixar pra lá. Não há nada que umas compras no shopping não possam curar. Lembro com ternura da minha primeira vez. Lembro com poesia.

Na comunidade da Vila Cruzeiro, Bairro da Penha, uma outra Maria, a da Penha, também se lembra da novela e da sua primeira vez. Ainda gosta de novelas, mas não gostou da primeira nem das outras vezes:

- Não gosto de sexo não. Antes eu achava que ia gostar. Todo mundo falava que era bom. Na primeira vez, tínhamos ficado sozinhos assistindo à novela. Uma cena tão bonita. Nem parecia pecado. Não sei bem porque fiz aquilo. Dá um negócio na gente. Por dentro. A gente não pensa mais em nada. Quando vê, já fez. Mas eu já estava arrependida antes de acabar. Depois gritei com o garoto pra ir embora. Chorei uma semana, não comi, fiquei doente, enjoei, achei que estava grávida. Contei pra minha mãe porque ela tinha dito que eu podia contar qualquer coisa. Teve uma crise de nervos. Contou pro meu pai que gritou e me bateu, depois chorou. Não estava grávida, mas já tinha perdido as provas. Não fui mais à escola. Não fui mais à igreja. Fui expulsa da igreja e só pude voltar depois do casamento. Casamos. Nossos pais tiveram que assinar pra gente casar. Eu podia ter gostado dele. Mas tivemos que casar. Não deu tempo de gostar. Acho que ele também não gosta de mim. Estou ficando feia, maltratada. É essa vida: filhos, pouco dinheiro, tristeza, arrependimento. Sexo só é bom na televisão. Com gente bonita e lugar bonito.

No sertão de Sergipe uma vila se chamou “Enforcados” desde 1606. Ali eram enforcados os índios durante o seu longo processo de “salvação”. No século XIX o povoado passou a se chamar Nossa Senhora das Dores, um nome sem dúvida mais digno. É claro que lá também chegou a televisão e as novelas, com as lindas imagens do Rio de Janeiro. Maria das Dores se lembra da cena e não gosta mais de novela. Nem da vida.

(Continua em 15 dias)

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sábado, 26 de julho de 2014

A ÁRVORE >> Sergio Geia

Foi uma conversa estranha, mas à medida que eu andava, seguindo uma espécie de fila indiana, com a mochila nas costas, o violão, a latinha de coca, ela falou, falou sim, falou no meu ouvido, se apresentando como uma nova amiga. “Olhe pra mim!” E eu olhei. E me senti instantaneamente muito bem. Senti toda a sua força colossal, seu poder extraordinário, sua resistência e sua sensibilidade, uma energia cósmica me invadindo pela epiderme do dedão do pé até a mais profunda das camadas da alma. Ela não parava de falar: “Eei! Irmãão! Estou aqui, viu? Eu vivo também, Tchutchucão!”.

Isso pode parecer maluquice, mas foi real, amigo, eu garanto! Ela me disse que embora centenária, frondosa, enorme, poucos ali a percebiam. “É assim mesmo. Eu já estou acostumada. Somente alguns conseguem sintonizar o meu nível vibratório. E precisa coragem, Tchutchucão! Você tem. Tem muita coragem. Estou feliz com sua presença, meu novo amigo! Faz tempo que não aparece alguém como você. Eu tenho certeza que o renovarei. Mas não se iluda. Não pense que será fácil. Depois que você me enxerga, não adianta mais querer me esconder debaixo do tapete. Seja aqui, na sua terra, em Cartagena ou Paraibuna. Eu vou sempre estar com você. Vou te perseguir... Também, desse tamanho, né? Quer o quê?!”

Eu continuava sem entender. Como aquilo estava acontecendo? Era uma coisa muito louca, tão absurda, tão irreal e tão fantástica. Eu olhava aquelas pessoas e todas, todas alheias, todas em suas vidinhas, em seus movimentos singulares, e eu, simplesmente no meio de um parque lotado, com cara de paisagem, conversando com uma árvore?

“Não se assuste, amigo! Não se assuste! Tem cada coisa aqui que se as pessoas tivessem a mínima ideia, eh... E elas vivem em seus mundinhos. E não querem me enxergar. Talvez algumas até queiram, mas não conseguem. Não encontram a vibe certa, entende? Mas vivem bem. Não pense que sua vida vai ser umas mil maravilhas depois da nossa amizade. Quê!? A diferença é que, depois de mim, você vai enxergar melhor as coisas, com mais nitidez. Ih!, mas dá trabalho... Cê nem imagina como... Toca pra mim, toca. Eu te dei esse presente e você me agradece com uma música, combinado? Toca, vai!”.

Assustado. Eu tava começando a ficar assustado. E com medo. Aquela sensação do início, aquela sensação boa, positiva, tava indo pro espaço. Eu não sabia o que tudo aquilo significava. Pra mim, era tudo muito louco. E ela falava em presente. Que presente? “Ah, meu querido, acorda! Você tá aqui falando comigo, começou a me enxergar, a ver o mundo com outros olhos, e tá se perguntando que presente é esse? Pelamor! Tudo bem, se tá aí meio grilado, meio assustado, é normal, vai. Você precisa de tempo, daqui a pouco as coisas vão começar a se assentar e fazer sentido”.

“Mas que presente é esse? Não dá pra falar?”. “Eh, Tchutchuco! Tá bom, eh... Mania que vocês têm de rotular tudo. Eu chamo de a consciência. Pura. Cristalina. Densa. Ai, que romântico... Pronto. Falei. Satisfeito? Isso tudo que aconteceu aqui, você me ganhou, lindinho. Agora toca, vai. Toca pra mim!?”.

Mesmo sem entender direito o que estava acontecendo, eu cedi. Primeiro tirei os sapatos para sentir o chão gelado. Depois sentei, encostei as costas em seu tronco, arrumei o violão e toquei.

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sexta-feira, 25 de julho de 2014

CRER SEM VER >> Paulo Meireles Barguil

A realidade não pode ser compreendida inteiramente pelo Homem. Brincamos, então, de elaborar sentidos, que nos permitam uma maior aproximação e, assim, aquietem, mesmo que brevemente, o nosso espírito.

A cada descoberta, a pessoa é invadida por sentimentos antagônicos: por um lado, sua percepção do mundo se amplia, por outro, surgem sombras antes sequer imaginadas.

Iluminar, portanto, aumenta não somente a área visualizada, mas, também, a cortinada. Que paradoxo fascinante!

Diante dessa constatação, é compreensível que alguém defenda a inutilidade do conhecer, afinal o ignorado só cresce!

O espírito, contudo, refuta essa proposta e se movimenta, com intensidade variada, em direção ao infinito.

Eu admito: na maior parte das vezes, só consigo ver o que creio e só acredito no que minha mente é capaz de perceber.

Este é um dos fatores que mais influenciam a velocidade do deslocamento, bem como a sua direção.

Somos diferentes  e cada vez mais!  em virtude da herança biológica e da bagagem experiencial.

Ninguém pode ver e sentir o mundo como eu.

Da mesma forma, sou incapaz de olhar e apreciar a totalidade como outra pessoa.

Esse é o maior desafio atual nos relacionamentos, independente de que tipo: afetivo, educacional, profissional...

Acredito, contudo, que é possível  e necessário!  construir um diálogo entre as pessoas, o qual só acontece quando ele é razoavelmente estabelecido internamente, acolhendo, e não sufocando, as diferentes vozes.

A felicidade, tal como falou Cristo para Tomé (Jo 20, 29), reside em crer sem ver.

O convite, portanto, é aceitar que nada há para ser ensinado, apenas partilhado, e nada há para ser aprendido, apenas degustado.

Acreditar e duvidar, ao mesmo tempo, com igual intensidade, tal como foi cantado pelos Engenheiros do Hawaii, em Realidade Virtual, de modo que eles se fundam e me deixem em paz!

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quinta-feira, 24 de julho de 2014

O BOICOTE NOSSO DE CADA DIA >> Mariana Scherma

Eu não sei você, mas eu vivo me boicotando. É um ciclo sem fim. Estou direto com duas (ou até mais) vozes na minha cabeça, uma sempre tentando me convencer de algo que eu quero. A outra, num som mais baixinho, tentando deixar claro que eu não preciso do que quero. A voz da razão é um sussurro. Começa logo pela manhã, assim que abro meu e-mail:

— Bolsas de franja em promoção. Ai!
— Mas eu já tenho duas bolsas de franja.
— Só que nenhuma nesse marrom caramelo. Olha que linda, imagina usar junto com a calça de onça?!
— Esquece, tá faltando armário pra guardar tanta bolsa.

Ok, venci o round um do boicote. Uma bolsa de franja a menos. O problema é que as tentações do dia nem começaram ainda...

Aí vem a fome no meio da manhã. Depois de você ter malhado com toda a sua energia na academia.
— Vou tomar um copão de água e comer uma ameixa.
— Mas e aquela bolacha de chocolate que você comprou?
— É pro fim de semana.
— Uma só não é pecado, aquele gostinho de mel com chocolate... Hmmm!
Resultado: no meio da manhã fui vencida pela própria gula e me vejo atracada com um pacote de gordura trans deliciosamente saboroso. Quem mandou comprar a bolacha gostosa? Agora, só resta focar na salada da hora do almoço e ficar com gelatina de sobremesa.

Dia de supermercado. Vamos lá fazer essa lista certa: cenoura, alface, berinjela, laranja, pão integral, iogurte. Cheguei no mercado. Onde ficou a lista? Na bancada de casa. Ferrou!
— A maioria das coisas era da parte de verdura, vai ser fácil...
— Nossa! O chocolate aerado tá mais barato. Vou levar duas barras. Vou dar uma passada na parte de perfumaria pra ver se tem alguma cor nova de esmalte. Dois esmaltes novos no carrinho. Ai meu Deus, tem fatia húngara na padaria! E pão de queijo, ai, tá quentinho.

Chego em casa sem nada do que precisava, mas com muito carboidrato e esmaltes novos. Boicote do boicote! Será que aprendo na marra agora que não tem nada decente pra comer no almoço?

 Já gastei demais com roupa nova recentemente. Falta cabide nesse armário, não cabe mais sapato na parte de sapato. Tem sapato no armário da cozinha...

— Ah! Esse mocassim verde está tão barato. Eu preciso de um mocassim verde. Como eu vivi até agora sem mocassim verde? Eu faço caber no armário.

Ok, a voz boazinha perdeu de novo. A voz boazinha deveria ser mais estridente, caramba! Não convence nem a mim mesma desse jeito.

Vamos lá focar nesse texto, eu termino em meia hora, pá-pum!
— Mas antes vou só aqui checar meu Facebook, rápido, prometo.
— Checa o Facebook depois, não acha melhor?
— Oi? Olha, a fulana largou do namorado! Será que ela apagou as fotos com ele? Ai, coitada, apagou, tá feia a coisa, só posta música depressiva. Nossa, parece interessante esse texto que o sujeito compartilhou. Vou ler rápido. Ah, vou aproveitar pra ver as fotos dele, ai, tão lindo. Quem é essa vaca que curtiu a foto dele? Cabelo alisado o dela, hein.

Duas horas depois, nem o primeiro parágrafo do texto que seria feito em 30 minutos foi concluído. A voz da razão gentilmente levantou uma placa: eu já sabia!

Vai ver o autoboicote faz parte. A graça toda da coisa é chegar no fim do dia e analisar os ganhos e as perdas de todos os diálogos com a gente mesmo.
— Tá, vou analisar, mas antes deixa eu dar uma entradinha no Instagram...

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