segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

INFLAMA E ALIMENTA >> André Ferrer

Ela está em tudo: nos conselhos, nas reclamações, nos ataques de inveja e despeito. Definitivamente, já não causa tanta estranheza. Numa conversa, muitos conseguem pronunciá-la na primeira tentativa. Nos textos, alguns até já escrevem corretamente a palavra! Falo de procrastinação.

Até pouco tempo, ninguém sabia o significado. Hoje, todo mundo sabe e ainda se esforça para enfiá-la em qualquer cantilena.

Para o bem e para o mal, a extensão do uso da referida palavra é tão democrática que surpreende: “proclastinação”, “plocrastinação”, “procrastinassão”. Enfim, há de tudo. O mais cuidadoso para e pensa. O mais ladino, sobretudo quando aconselha, escolhe dizer ou escrever “bora lá”. Isto é: opta, justamente, pela vereda procrastinadora do idioma.

A turma do “bora lá” está sempre com o celular a postos. Colado ao ouvido, é sempre uma garantia de sinalizar ocupação e, ao mesmo tempo, presença. Simultaneidade, aliás, é o que fundamenta o “bora lá”. “Bora lá” estar aqui e em nenhum lugar ao mesmo tempo. “Bora lá” partir daqui para onde não se perde tempo enquanto se perde tempo. A procrastinação disfarçada é uma tela sensível ao toque abarrotada de ícones e “gadgets”. A plenitude nunca foi tão respeitavelmente vazia. O trabalho – que não pode esperar –, pode... esperar. E a espera, inclusive, pode ser uma jornada de quarenta e quatro horas semanais. Tudo previsto nas CLT.

Sim. É definitivo e parece duro, mas só é duro para os ingênuos. Aquela mania de empurrar as tarefas com o umbigo estaria mesmo entre as piores faltas? Poderia, inclusive, cerrar as entradas do Éden para você e, também, para este cronista? Não se preocupe. Como subitem do sexto Pecado Capital, a procrastinação também entrou para o rol das ações mais criticadas e praticadas pelo ser humano.

Fique tranquilo(a). Nunca se condenou tanto a procrastinação. Em contrapartida, nunca se procrastinou tanto. A preguiça  bem como os demais tópicos da celestial prescrição  é gasolina pura. Combustível da mais alta octanagem, que inflama e alimenta a hipocrisia.


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sábado, 14 de janeiro de 2017

MEU PASSO ERA UMA FOLHA VADIA >> Sergio Geia

 

As cigarras chiavam, não no pátio de cinamomos caiados, mas na ruazinha boba mesmo, de arvoredos chinfrins, a Domingos Cordeiro Gil. Pois bobo também era ele, sentado no chão da sala, sozinho, com o campo sobre o tapete, mirando o ângulo com seu melhor jogador de botão. Na mesa da cozinha havia uma jarra de plástico vermelha com suco de abacaxi que sua mãe deixara pronto; no fogão, arroz e feijão pra esquentar. Seu pai chegava, o encontrava pronto para o colégio; fritava o bife, almoçavam e juntos saíam, por volta das vinte pra uma.
Foram algumas vezes. Estava tremendo, confuso, mas saiu do carro sem cometer gafes; depois de uma reprovação, conseguira enfim a habilitação. Estava tremendo, confuso, mas venceu a timidez e fez seus lábios se colarem ao dela. Estava tremendo, confuso, mas conseguiu digitar o texto e ser aprovado. Estava tremendo, bravo, mas, assim como Caio, conseguira que o Exército Brasileiro o dispensasse, mesmo depois da briga com um milico.
Pois esse cidadão, às vezes melancólico, às vezes perdido, às vezes alegre e entusiasmado e senhor de si, pois esse cidadão que cresceu sozinho, esse cidadão tímido, ansioso, que apesar de calmo não era de levar desaforo pra casa, esse cidadão aí era o Geia; e em todas essas vezes, e em algumas mais, ele experimentou um sentimento tão bom, tão belo e fresco, tão renovador e altíssimo, que seu passo era uma folha vadia, dançando na brisa da tardezinha.
Em que pese o tom imperativo, e com a devida vênia, eu lhe peço, estimado leitor: pare! Neste momento, pare! Agora volte. Volte um pouquinho até o parágrafo anterior e releia saboreando o final da penúltima linha até o fim.
Se você atendeu ao pedido do Geia, deve ter lido “(...) que seu passo era uma folha vadia, dançando na brisa da tardezinha”.
Ah, essa poesia fina que salva tudo o que foi escrito até agora, essa poesia delicada e rica, monumental e simples, não é do Geia, mas do Caio Fernando Abreu, e foi pescada outro dia, em “Morangos Mofados”, no conto “Sargento Garcia”. Era um trecho em que o personagem acabara de ser dispensado do exército: “Pois, seu filósofo, o senhor está dispensado de servir à Pátria. Seu certificado fica pronto daqui a três meses. Pode se vestir. – Olhou em volta, o alemão, o crioulo, os outros machos. — E vocês, seus analfabetos, deviam era criar vergonha nessa cara porca e se mirar no exemplo aí do moço. Como se não bastasse ser arrimo de família, um dia ainda vai sair filosofando por aí, enquanto vocês vão continuar pastando que nem gado até a morte. Caminhei para a porta, tão vitorioso que meu passo era uma folha vadia, dançando na brisa da tardezinha. Abriram caminho para que eu passasse. Lerdos, vencidos. Antes de entrar na outra sala, ouvi o rebenque estalando contra a bota negra. — Sen-tido! Estão pensando que isso aqui é o cu-da-mãe-joana?”.
Não há, certamente não há ― que me perdoem os grandes mestres, literatos, poetas, cronistas, romancistas, contistas —, não há nesse imenso mundo das letras, metáfora tão singela e bela, que represente esse estado de espírito que parece fazer flutuar.
A folha vadia, a folha vagabunda e largada, a folha que voa e pula e sobe, e que dança ao sabor da brisa da tardezinha, essa folha esvoaçante um dia foi o senhor, a senhora, o adolescente que pela primeira vez sentiu o calor da caverna vaginal, o estudante que enxergando nomes e números, descobriu que sua jornada na escola terminara; foi o amigo que se deleitou com uma notícia do jornal, o taxista que se entregou a uma conversa fiada, a estagiária que recebeu um elogio honesto; foi o agreste que se atirou faminto a um prato de arroz e feijão, foi o Geia; são todos aqueles que num instante desta confusa vida, experimentam o gozo de um naco de felicidade, que parece pleno, mas que levará o tempo de uma chama de fósforo para se apagar.
Pois as cigarras não chiavam no pátio de cinamomos caiados — como nos Morangos, mas numa ruela mesmo, em toscas e velhas árvores, a Domingos. E no sol intenso do meio do dia, no calor excessivo do verão, às vinte pra uma ele saía de casa, ao lado do pai, e sentia uma coisa leve, macia, difícil de entender. Hoje ele entende essa coisa que o fazia se sentir um verdadeiro vitorioso, e o deixava tão feliz e tão satisfeito, tão contente da vida, que seu passo era uma folha vadia... 

Ilustração: oglobo.globo.com.rio


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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

EU, A NORA QUE TODA SOGRA PEDE AO DIABO>> Zoraya Cesar

Angélica é o meu nome (Angélica Cândida de Azevedo Lima, muito prazer), e tenho, ironicamente, o physique du rôle compatível com o de uma criatura angelical: pálida, louros cabelos cacheados, olhos azuis, feições delicadas e algo infantis, o corpo pequenino e magro. Meu apelido é, desde criança, ‘bibelô’, tão frágil pareço. 

Marlon Brando, meu marido, por sua vez, nada tinha em comum com o nome. Era ríspido, pouco comunicativo, muitas vezes grosseiro, bebia demais, demais da conta mesmo, chegando às raias da violência. Ora, ora, ora, perguntam vocês - com esses ares de quem nunca foi enganado pela vida, de quem nunca fez uma aposta errada - se ele era assim, casou por quê? 

Por vários motivos que, à época, me pareceram bastante pertinentes. Quando nos conhecemos, Marlon me tratava como a uma princesa, contribuía com minhas despesas, nunca se embebedou na minha frente, era um sonho de homem, sério, trabalhador e ganhava bem. E ainda havia a mãe dele. Caí de amores pela velha mãe de Marlon assim que a vi. Era pequenina e delicada, e sua única família era o filho, de quem dependia financeiramente – tudo igualzinho a mim (talvez, qual Narciso, eu tenha caído de amores pela minha imagem e semelhança). Sempre que ficávamos a sós, ela me abraçava longamente e me aconselhava a pensar bem antes de casar, pois as aparências enganam. Eu não entendia. Eles moravam juntos e Marlon parecia ótimo filho. Não dei trela, portanto, pois estava apaixonada e doida pra sair do muquifo onde vivia e morar num apartamento bom, com o homem que eu amava e com a sogra que me tratava a pão de ló. 

Casei-me, portanto, de papel passado e assinado e fui morar com eles. 

E foi aí que entendi. 

Além de tudo o que já lhes contei, meu marido tratava mal a própria mãe. Apoderava-se de toda a pensão que ela recebia e a deixava quase à míngua – a velha só não tinha morrido ainda porque era sertaneja e, como disse Euclides da Cunha, o sertanejo é, antes de tudo, um forte. Aquilo me mortificava, mas desempregada, sem família e sem ter para onde ir, dependendo do Marlon para tudo, eu pouco podia fazer. Com o dinheiro do seguro desemprego eu ajudava minha sogrinha, tentando aliviá-la um pouco daquela vida miserável. Não tem nada mais triste que um filho ingrato. Mas ela chorava era por mim, arrependida de não ter impedido o casamento, por ter acreditado que meu amor por Marlon o transformaria. Dizia que jamais se perdoaria pela minha infelicidade.

Era eu infeliz? Não sei. Sei que sentia revolta e ódio por tudo. Por ter sido ingênua; por estar sem dinheiro; por ser traída (o cretino tinha um caso com a telefonista do escritório); por ser obrigada a fazer sexo, sob pena de apanhar ou ser expulsa de casa; pelos gritos e empurrões que eu levava quando ele estava bêbado; por ver a maneira abjeta com que ele tratava minha sogrinha. Como todo psicopata cafajeste, ele percebeu meu ponto fraco: cada vez que eu tentava contrariá-lo, ele descontava nela. Na própria mãe! 

Recebi uma proposta de emprego numa outra cidade. Finalmente, teria o que mais precisava: meu próprio dinheiro (não me venham com chorumelas hipócritas de que dinheiro não é tudo. Sem dinheiro você fica de mãos atadas, relegada ao Diabo, que, ainda por cima, toma o que Deus dá). Poderia, portanto, abandonar Marlon Brando, fugir, denunciá-lo, mas isso deixaria minha sogra querida abandonada àquela malsinada sorte. 

Não fiz, portanto, nada disso. Fiz outra coisa. 

Existem vários tipos de monstro. Marlon é de um tipo. Eu, de outro. Sou um monstro com aparência angelical.

Dizem que beber faz mal à saúde.
Faz mesmo.
Peguntem ao Marlon, meu marido.
Pena que ele não possa mais responder.
Um monstro que misturou metanol na bebida do marido. E que assistiu à sua morte, sem mover uma palha, trancando a porta do quarto para que ele não conseguisse sair nem receber socorro médico. 

Eu tinha duas cópias da chave do quarto. Quando vi que Marlon Brando tinha morrido, deixei uma chave nas mãos dele e, com a minha (da qual depois, naturalmente, me livrei), tranquei a porta por fora. Chamei o Corpo de Bombeiros, chorando convulsivamente, vocês precisavam ver, merecia o Oscar. Eles arrombaram a porta, a polícia chegou, a maior confusão. 

Minha sogra ficou estupidificada, ininterruptamente repetindo ‘meu filho, meu filho’... Não sei se ela desconfiou de alguma coisa ou se, no final das contas, preferiria continuar sofrendo, mas com o filho vivo. Acho que nunca saberei, pois ela jamais deu a entender uma coisa ou outra.

A vantagem de ser pobre é que a polícia não se importa muito com mais um ou menos um morto. É só mais um desgraçado que morreu. E morreu porque era um alcoólatra que se trancou no quarto e bebeu o que não devia. Fim de caso.

Aceitei o emprego e fui embora, aliviada, sabendo que ninguém mais ia maltratar minha sogra, velhinha e sofrida. De vez em quando vou visitá-la. Agora ela só se veste de negro, enlutada da cabeça aos pés. E sempre, ao me ver, me abraça, me beija as mãos e me chama de ‘meu anjo’. 

Talvez eu seja um monstro. Não me importo. Tenho uma boa vida, minha sogra querida também, e eu conheci um cara, Rodolfo - vamos morar juntos. Ele parece legal. É bom, pra saúde dele, que seja mesmo.

(Não aguentava mais ver minha nora sofrer. É uma boa moça, poderia ser minha filha, em vez desse capiroto que saiu de minhas entranhas. Ela é jovem, bonita, inteligente. Merece um marido melhor que o excomungado que se diz meu filho. Desconfio que ele matou a primeira esposa, uma moça boazinha também, mas muito fraca. Não vou permitir que ele faça isso com meu anjo. Sei que ela não vai embora por minha causa. Então, diluí rivotril e diurético na bebida dele, que Deus me perdoe. Não sei se foi isso o que o matou, mas, até o dia em que prestarei contas ao Criador, vestirei luto e trabalharei incansavelmente na caridade. Se me arrependo? Não sei. Minha amada Angélica quer que eu conheça seu novo marido. É bom que ele a trate bem, se não...)


Foto: Visor69 in Pixabay


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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

MEDICINA>> Analu Faria

Sempre acontece com uma amiga de uma amiga: gripe, virose, infecção, tosse. Um mês de molho, um mês de arrebentar os pulmões, um mês de médicos-videntes (sim, colegas, a Medicina, no fundo, sabe muito menos do que imagina nossa vã filosofia). O mais divertido: um mês, talvez mais, de medicina de boteco. A amiga da minha amiga (vamos chamá-la de A.L.) não vai a botecos quando está doente, é claro, mas como o termo "psicólogo de boteco" é epifanicamente inteligível e conhecido, A.L. entendeu que seus leitores saberiam o que ela queria dizer com "médico de boteco". 

A.L. entende que todo médico de boteco é um ser humano de coração enorme, com as melhores intenções deste mundo. Médicos de boteco adoram receitar chás e gengibre, e gengibre é vida, gente. Então A.L. gostaria, por meio destas linhas, agradecer a todos que receitaram gengibre. Chá é só falta de café mesmo, mas a amiga da minha amiga agradece ainda assim. É uma atitude bonita você receitar coisas para os outros que nem você tomaria. 

A. L. está, no momento, parte grogue de remédio, parte aceitando o mistério da vida - cuja face mais sarcástica é adoecer o que ainda não morreu -, parte pensando que quem deveria mesmo saber o que ela tem é ela mesma. Já que os médicos parecem ainda tatear no escuro, mesmo depois da inteligência humana ter criado exames quase sobrenaturais como a videonasofibroscopia (Satanás, é você?), resta a A.L. conhecer-se mais profundamente (de preferência, sem o auxílio de uma videonasofibroscopia). E, talvez, nutrir-se do carinho dos médicos de boteco.




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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

ELES NÃO MORAM MAIS AQUI | RONALDO CAGIANO >> Carla Dias >>


Há esse livro de Ronaldo Cagiano que, vez ou outra, eu revisito. Canção dentro da noite tem sido um dos meus preferidos de poesia, desde quando eu o conheci, em 2000. Para mim, ali mora uma beleza que não se abstêm de enveredar pela melancolia e isso me agrada.

Ao ler o Eles não moram mais aqui, livro de contos de Cagiano publicado pela Editora Patuá, percebi o olhar poético a se aprofundar em distâncias geográficas, sociais e emocionais, assim como em abandonos.

Cada conto traz um tema que deságua em desespero silente. Desespero pela impotência diante da tragédia, da indiferença ao lidar com o presente e a persistência em se agarrar ao passado. A ausência faz seu papel, mas nem sempre se trata de alguém que não está mais presente. Às vezes, trata-se da ausência de si, o não se reconhecer diante da própria biografia.

Eles não moram mais aqui é um livro intrigante, porque leva o leitor a uma viagem que passa por várias versões da ausência e do abandono. O primeiro conto, que dá título ao livro, mergulha no vazio que fica quando os filhos deixam o lar. A saudade ferina da infância deles que digladia com as histórias sobre as quais os pais saberão somente por relato, não por terem acompanhado, vivido o momento com os filhos.

O luto se mostra de forma contundente em Sombras. “E com constrangimento e dor, os que ficaram não entendiam ainda o sorriso interrompido, a felicidade interditada pela carreta assassina e seu feixe de madeiras destroçando a nuca.”

A prosa de Cagiano se banha em poesia ao destacar as emoções mais rebeldes, mantidas sob o cabresto da condição do personagem.

Há ainda os assuntos que remetem à completa indiferença pelo outro. Como no conto À maneira de João Antônio e Samuel Rawet, quando um funcionário não aparece há dias para trabalhar e a ausência dele se torna mais representativa do que sua presença.

Eles não moram mais aqui é um livro no qual vale a pena mergulhar. Ronaldo Cagiano criou uma coleção de contos da qual o leitor sairá contemplativo a respeito da própria percepção do mundo. Não há como não se envolver com seus personagens e as situações que eles encaram. Não há como não se identificar com seus desafios, mesmo quando eles escolhem se desviar deles. E ainda há esse algo, que não me atrevo a definir – que ele me apraze assim, em suspenso – que conecta os personagens, apesar de suas experiências e cenários distintos.

Eles não moram mais aqui | Ronaldo Cagiano
Contos | Editora Patuá
Para comprar:
http://editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=378

carladias.com



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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

RITUAL DO PRIMEIRO ENCONTRO >> Clara Braga

Esses dias estava acompanhando uma amiga enquanto ela se arrumava para o primeiro encontro com um cara que havia conhecido. Enquanto conversávamos fui percebendo que essa coisa de primeiro encontro é mesmo um verdadeiro ritual.

Colocamos nossa melhor roupa, aquela que emagrece, disfarça as gordurinhas laterais, aquelas bem difíceis de sair. Além de emagrecer também afina a cintura, combina perfeitamente com um decote que não diz nem que você é santa nem que você é fácil demais. Ou seja, buscamos uma roupa que é o verdadeiro santo milagreiro, mas é bom ela chamar a atenção nessa primeira vez, pois é difícil achar alguém que tenha mais de uma roupa com essas características dentro do armário.

Colocamos uma maquiagem leve, realçamos o olhar, mas nada de batom muito vermelho, vai que rola beijo, vai ficar todo mundo pintado de palhaço. Para compensar a falta do batom chamativo colocamos nossos melhores acessórios e um salto, não muito alto, para não ficar maior que o cara. E na verdade tamanho nem seria problema, você nem tem salto muito alto, afinal, sua melhor amiga mesmo é a bela rasteirinha.

Enquanto se maquia aproveita para olhar a validade dos produtos, já tem um tempo que não usa metade de suas maquiagens. Aliás, você vai ter sorte se conseguir passar o delineador de primeira.

Na hora do encontro repassamos as várias regrinhas que ninguém sabe quem inventou, mas dizem que funciona então é melhor não questionar. E você até se convence de que as regrinhas devem funcionar mesmo, afinal, a tia do vizinho do amigo da vó que é mãe da irmã do primo do meu amigo usou todas as técnicas que falaram para ela usar e está casada com o cara até hoje.

Entre as regras estão as seguintes máximas: não fale muito para não ser tagarela, mas também não fale pouco para não parecer uma pessoa sem papo.

Beba moderadamente para não ter que ficar indo ao banheiro o tempo todo e também para não ficar pagando mico.

Mexa no cabelo de vez em quando para mostrar interesse.

Pergunte sobre a vida dele.

Sorria.

Não assuma ser uma pessoa ciumenta.

Não fale de relacionamentos antigos, principalmente demonstrando ter raiva do ex, raiva parece coisa de gente mal resolvida.

Não fale sobre casamento ou conhecer família. Ou melhor, não fale nada que demonstre que você quer um relacionamento longo e duradouro.

Não fale que está apaixonada, vai parecer desesperada.

Enfim, é quase como ser uma pessoa um pouco bipolar, demonstra que está interessada sem estar.

E se realmente funcionar? Ah, se realmente funcionar reza para a pessoa também se interessar por você quando ela descobrir que você não curte usar maquiagem, sua roupa predileta é short, regata e havaiannas, você adora tomar umas cervejas com as amigas, fala que nem matraca, se enquadra na porcentagem de pessoas que têm ciúmes não delirantes, fica mal humorada quando está com sono e com fome, curte umas músicas que todo mundo acha ruim e não está nem um pouco interessada em se envolver com alguém que não tenha a pretensão de casar e ter filhos. Ou seja, reza para ele gostar de quem você realmente é e não quem você achou que era melhor ser.


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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

AI, MEU CORAÇÃO! - II >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 26/12/16 - O novo presidente do Grêmio Recreativo Tairetense é assassinado assim que tem acesso às contas e contratos da administração anterior, os demais componentes da diretoria eleita se recusam a tomar posse, e o antigo presidente faz discurso de candidato:)

- Uma boa gestão é a melhor maneira de homenagear o presidente assassinado. O Tairetense não se furtará às suas responsabilidades e continuará encantando a vida da cidade – disse Bóssi, já em franca campanha.

                                                                     O DELEGADO

Concluídos os trabalhos na cena do crime, o Dr. Mouro foi pra delegacia com suas anotações instaurar o inquérito policial. Antes intimou Bóssi, mera formalidade, já conhecia a história toda. E Bóssi estava acima de qualquer suspeita. Era seu parceiro em contratos com a prefeitura e outros empreendimentos, apoiador de sua candidatura a prefeito de Tairetá e compadre. A derrota de Bóssi o deixou preocupado.

Desde candidato que Arakém ameaçava vasculhar as contas do clube. Isso podia mexer com coisas muito incômodas pro Bóssi, pra administração municipal e pra muito figurão da cidade, incluindo ele, delegado. Mas o susto passou, os documentos estavam de novo em mãos confiáveis.

Embora lamentando a morte de uma pessoa – sempre lamentável sob todos os aspectos, sabia que Bóssi era o melhor para o clube. Bastava olhar o que era o Tairetense antes de Bóssi e o que se transformou depois.

O aumento das mensalidades e o controle rígido na portaria mudou o perfil dos frequentadores, dos atletas, dos bailes e desfiles de carnaval. Ali se reunia de novo a sociedade tairetense. Não mais  desdentados e pés-de-chinelo, só mensalidade em dia e trajes adequados.

O Dr. Mouro lembrou que Bóssi sempre conduziu com mãos de ferro aquele clube. Há quinze anos ninguém conseguia vencer as eleições e, de uns anos para cá, ninguém ousava se candidatar.

Não que concordasse com tudo na gestão de Bóssi. Aquele seu vice, Neném, por exemplo, lhe dava engulhos. Sujeitinho medíocre, covarde, nervoso e indigno de confiança. Sempre pediu a Bóssi que o deixasse fora dos assuntos mais sérios. Mas sabe que isso não acontecia, o compadre confiava nele e dizia que pessoas de confiança são difíceis de encontrar. Pelo menos, até o momento, ele parecia controlar o estrupício, e tudo ia bem.

Até que surgiu esse Arakém, de uma família de encrenqueiros esquerdistas da capital, e começou a fazer perguntas impertinentes, a andar com estatutos de outros clubes nas mãos e a colocar caraminholas na cabeça de um povo pacífico e ordeiro.

 Avisou ao Bóssi para não permitir alterações no estatuto. Arakém e seus já agora correligionários queriam regulamentar a propaganda e o apoio dos empresários, garantir igualdade das chapas e fiscalização externa das eleições.

Não se mexe em time que está ganhando! Por acaso o Tairetense estava precisando de alguma mudança? Não funcionava bem assim há tantos anos? Mas Bóssi fez concessões, quis agradar, foi fraco, frouxo. Excesso de confiança.

Deu no que deu. Mexeu-se no estatuto, Arakém e sua gente foram  pras ruas, praças, andaram de casa em casa, pediram liminar garantindo voto de inadimplentes, trouxeram gente de fora pra contar os votos. E ganharam.

Bem, mas um “acidente” – como diz um certo jurista - veio resolver o que poderia ser outra tragédia. Deus escreve certo por linhas tortas.

Minutos depois do delegado, Bóssi chegou à Delegacia na condição de testemunha, , distribuindo sorrisos e cumprimentos. Era amigo da polícia. Contou sua versão sem interrupções. No momento mais dramático da narrativa não pôde evitar as lágrimas. O delegado ouviu compassivo e ditou para o escrivão:


(Continua em 15 dias)


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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

COMO ESTÁ O SEU MESENTÉRIO? >> Paulo Meireles Barguil

Há cerca de cinco séculos, Leonardo da Vinci, um traquina inigualável, descreveu o mesentério.
 
Durante todo esse tempo, quase toda a Humanidade continuou a ignorá-lo.
 
Na Medicina, era considerado apenas como uma membrana que une o intestino fino ao abdome.
 
Numa analogia hidráulica, seria um cotovelo.
 
No início desta semana, cientistas iniciaram o resgate existencial do mesentério, descrevendo a sua anatomia e estrutura, bem como o elevando à categoria de órgão.
 
O próximo capítulo será determinar a sua função e, assim, compreender a sua importância para a saúde do Homem, uma vez que possui nervos, vasos sanguíneos e gânglios linfáticos.
 
No início de 2016, as ondas gravitacionais anunciadas cem anos antes por Einstein, foram detectadas, tendo sido considerada a descoberta mais importante da última revolução terrestre ao redor do Sol, e inspiraram uma crônica.
 
Não sei se o mesentério terá o mesmo sucesso, embora seu padrinho seja bastante afamado, mas pelo menos minha crônica ele já garantiu!
 
Sugiro que você o inclua na lista da próxima revisão de saúde... 


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