sexta-feira, 21 de julho de 2017

A CRIANÇA FERIDA E A CRIANÇA ILESA >> Paulo Meireles Barguil

Uma estimada leitora me enviou, na semana passada, sucinta postagem sobre a criança ferida, tendo em vista que, há mais de uma década, conversamos muito sobre isso.

Embora o texto fosse bastante interessante e pertinente, pois esclarecia o quanto as nossas experiências frustradas na infância deixam marcas profundas no nosso crescimento emocional, atônito, percebi o quanto eu, durante anos, acreditei, desenvolvi e divulguei um olhar baseado apenas na falta.
 
Sim, essa perspectiva é parcial, assaz tendenciosa, uma vez que enfatiza e valoriza o que não foi satisfatório ou agradável.
 
E os momentos saudáveis?
 
Se estamos biologicamente vivos é porque recebemos o mínimo de afeto para prosseguirmos na nossa jornada.

Não tenho a pretensão de refutar, nem de analisar o impacto das feridas do passado nas escolhas que fazemos, as quais, por vezes, perpetuam o sofrimento, a despeito do nosso discurso de vítima, que soa vigoroso e convincente, mas que revela, de modo categórico, para um ouvinte sensível, o quanto estamos desconectados da criança ilesa.
 
Sim, ela também está intacta!
 
Antes que alguém me alerte que a ausência da consciência desse vínculo é fruto das mazelas pretéritas, eu ouso contestar e declarar que ele não é vivenciado também porque não temos nos dedicado a entender e a celebrá-la da mesma forma como fazemos com a outra.

Uma estratégia  ardilosa da criança ferida é se fantasiar de criança ilesa, na tentativa de que todos, inclusive ela, acreditem que a primeira não existe, apenas a segunda.
 
Ciente sou de que muitas pessoas tentam esconder, de si e dos outros, as suas chagas, de modo especial por não terem recebido, na quantidade e na qualidade por si desejadas, o afeto, o cuidado dos seus responsáveis.
 
Então, vagueiam em florestas urbanas, repletas de zumbis e outras entidades, com a esperança de aplacar seu sofrimento emocional, mediante aplausos, flashes, sorrisos efêmeros, likes e drogas similares ou ainda mais nefastas, pois que degradam corpo e alma.

Como diferenciar uma da outra?

Ah, é bem fácil...

Enquanto uma reclama e fala mal dos outros, a outra agradece e exala amorosidade.

Enquanto uma julga e exclui, a outra compreende e acolhe.

Enquanto uma guarda mágoas e planeja vingança, a outra distribui perdão e emana compaixão.

Enquanto uma vive com fome e acumula, a outra está saciada e partilha.

Enquanto uma está no passado e no futuro, a outra está no presente e na eternidade.

Esclareço que essas realidades não são estanques, definitivas, pois, conforme a Física Quântica explicou no século passado, ondas e matéria são possibilidades da energia.

A criança ferida é a criança ilesa.

Cada um de nós pode vibrar em um padrão ou em outro...

Se você hoje, adulto, não consegue identificar, dar atenção e priorizar a sua criança ilesa, com quem convive ininterruptamente, será que é sensato esperar que outra pessoa, com sua criança ferida, o faça por você?
  
A vida convida você, diariamente, a reconhecer que ambas existem, bem como a assumir a responsabilidade para que elas se (re)encontrem e possa acontecer uma fusão psíquica de imensurável potencial amoroso.

Percebo, com muita alegria, que, cada vez mais, as crianças ilesas estão brilhando.


[Grato sou a Aídda Pustilnik e Cipriano Carlos Luckesi, que, há mais de duas décadas, desenvolvem a deslumbrante vivência Curando a Criança Ferida dentro de nós, a quem dedico essa crônica]


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quarta-feira, 19 de julho de 2017

QUEM SOU É UM MISTÉRIO QUE NÃO SEI RESOLVER >> Carla Dias >>


Quem nunca viu essa cena em algum filme, em uma contemplação forjada pela casualidade, até mesmo como protagonista da mesma? Porque encarar a si no espelho é rotina. Banhar o rosto, faxinar os dentes, alinhar os cabelos. Perceber o que incomoda e o que apraz.

Hoje, porém, minha rotina parece funcionária do improviso. Percebo-me de um jeito outro. Não me importo com as tarefas usuais de quem se olha no espelho às seis da manhã, enquanto se prepara para o trabalho. Não tento fazer de conta que não percebi os incômodos tatuados em meu rosto pelas marcas de feição, tampouco a opacidade que tomou os meus olhos. Meus dentes desaparecidos em uma boca que se nega a se arreganhar em sorriso. Meus cabelos, seus desgrenhados absolutos, não faço ideia de como o alinho se comportará diante de sua revolta.

O problema é que sinto saudade imensa de mim. Os amigos dizem que é saudade infundada, que não há como sentir falta de quem se é. Eu entendo a gentileza deles, mas ando mais curioso a respeito da aridez de seus verdadeiros pensamentos. Eu sei que eles se cansaram dessa minha espiral de silêncios, suspiros de duração absurda, desejo de fechar os olhos e dormir para acordar daqui a uma década. Todos esses itens que compõe a lista do que atalha a alegria alheia.

Nada mais justo do que me retirar, o que nem foi assim tão difícil. Para quem sente saudade de si, com tal violência, ausentar-se do outro é apenas questão de baixar o olhar e seguir em frente. Assume-se assim a culpa pelo ocorrido, deixando os abandonados com a sensação de que tentaram tudo, mas foi impossível salvar ser tão dedicado ao erro. Já que culpá-los nunca foi meu desejo, deixá-los infelizes pela convivência unilateral, também não, recolho-me.

A saudade que sinto nem é de uma história que já vivi, para a qual rumino o desejo impossível por outro desfecho. Não é sobre o que faria se tivesse escolhido aquilo, em vez daquilo outro. Não é saudade do que fiz, mas de mim. Não é saudade de quem fui, mas de mim.

Saudade dessa pessoa que sou e ainda não conheci.

Imagem: Landscape from a Dream © Paul Nash

carladias.com

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sábado, 15 de julho de 2017

UM SENTIMENTO >> Sergio Geia



A primeira vez aconteceu quando fui levar meu filho pra prestar vestibular no Mackenzie. A faculdade fervia de gente. Os jovens conversavam, fumavam, se beijavam, até que deu o horário e o pátio ficou vazio. Fui então andar. O Mackenzie é bastante arborizado, com bancos para as pessoas sentarem, numa espécie de praça privada bem bucólica numa escola em pleno centrão de São Paulo. Tem o Starbucks, uma praça de alimentação com o Bob’s, o Pão de Queijo, o Rei do Mate, um bom espaço pro aluno estudar, biblioteca, o Itaú. Foi quando o esperava terminar a prova, a faculdade enchendo de novo, os jovens chegando, saindo, alguns de terno, outros tatuados e com cigarros entre os dedos, que o pensamento bateu: “Puxa, no meu tempo não tinha isso. Ou, se tinha (e tinha), eu que não fui atrás. Me contentei com a vidinha controlada e estreita de sempre”.
Outro dia descobri o Oasis. Primeiro, uma amiga me emprestou uns CDs, alguns do grupo britânico. Já conhecia a Wonderwall, que tocava num programa de esportes da televisão. Num domingo de chuva, em casa, fiz o almoço tomando uísque e assistindo a um show deles, em Manchester. Eles tocaram Stand by me e as guitarras de Stand by me me acertaram num lugar que me levou a nocaute; fiquei vidrado. Depois rolaram Live Forever, Don’t look back in anger, Go let it out, Supersonic, não exatamente nessa ordem. Descobri que eles já estiveram no Brasil, em São Paulo, Rio, Curitiba, Porto Alegre; em 2001, tocaram no Rock in Rio. Descobri entrevistas dos irmãos Liam Gallagher (vocalista) e Noel Gallagher (compositor da banda e guitarrista) com o Zeca Camargo para o Fantástico; uma em 1998, outra em 2009. Descobri que a cada show que assistia, mais eu gostava; era uma musicalidade que me dizia coisas, que me tocava fundo. E finalmente descobri que os irmãos Gallagher brigaram e que o Oasis não existe mais. Aí o pensamento bateu de novo: “O que eu tava fazendo no final da década de 90 e início do 2000? Onde eu estava com a cabeça? Como não descobri o Oasis a tempo de curtir um show em Sampa? Como descobri esse som somente agora, quase oito anos depois do fim da banda? Eu estou é muito atrasado.”
Comecei com House Of Cards essa coisa de séries; confesso que nunca curti muito uma série, nem conto ou crônica; nem poesia. Sempre preferi os longas, e, nas livrarias, Roth, Coetzee, McEwan, Tezza, Hatoum, romances, romances, romances. Mas ouvia o pessoal falar, comentar, que insisti e acabei me jogando de cabeça em Breakin bad. A história do professor de química, sujeito comum, inexpressivo, com sentimento de inferioridade, mas gênio, condenado à morte por um câncer no pulmão, e que passa a produzir metanfetaminas, se tornando um dos maiores produtores da droga dos Estados Unidos. Depois descobri que a série é de 2008, que passou no Brasil até em tevê aberta, e eu, nada. Tá, eu sempre dei de ombros para as séries, e, convenhamos, ela só começou a passar no Brasil em junho de 2010 pelo canal pago AXN.
Tudo bem, mas e o que o Mackenzie, o Oasis e as séries têm em comum? Eu. Na verdade, não necessariamente eu, mas um sentimento que brota de vez em quando e que me diz que eu tenho um problema, digamos, de natureza temporal, e de que estou virando meu nariz sempre no tempo errado e pro lugar errado. E uma sensação de que isso é péssimo. E uma sensação de que a vida tá passando e que ela é muito rica pra ser desperdiçada assim. E uma sensação estranha que me remete a um carro que vive andando em marcha à ré. E uma sensação de que sou incapaz de encontrar a sintonia fina do hoje.
Decerto agora, agorinha mesmo, uma cena está rolando (na verdade, milhões de cenas estão rolando em todos os lugares), que seria fantástico conhecer, mas eu tô aqui fazendo um tour pela memória, acarinhando a incúria que o Mackenzie me desperta, vibrando com o Oasis, assistindo séries de 1995. O que tá rolando agora eu vou descobrir quem sabe daqui a uns vinte anos. Quem sabe...


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sexta-feira, 14 de julho de 2017

O AMOR ENTRE O JASMIM E O MAR >> Zoraya Cesar

Ela entrou, elegante, charmosa. Não era jovem. Chegara àquela idade em que as mulheres tornam-se invisíveis aos homens comuns, interessados apenas em pernas, carnes e coxas. Ela, porém, não era mulher para homens comuns. 

Era para ser apreciada ao som de música clássica nas noites de frio, íntimas, quando as vozes ficam baixas e os toques são suaves; ao som do jazz de New Orleans nos dias de verão, alegres, quando as vozes tilintam ao borbulhar do champagne. Uma mulher de classe. Uma mulher para a vida inteira.

Pequena, rechonchuda, lisos cabelos castanhos cortados estilo Chanel. O vestido cinza chumbo, o casaco de lã azul, os escarpins e bolsa pretos, o andar, os maneirismos, tudo nela era pura elegância. Uma bonequinha, não de luxo, mas de outono. No rosto gentil, a maquiagem realçava a beleza, sem tentar esconder os traços do tempo, deixando que as rugas se expressassem livremente. Uma mulher sem artifícios. 

Ela entrou, pois, no restaurante; este, uma raridade não encontrada em qualquer lista de estabelecimentos, sequer no Google. Um clube seleto, criado por um grupo de amigos e aberto apenas para os sócios e seus convidados. Um lugar para encontros secretos, de amor ou de negócios, ou, simplesmente, para fugir do mundo, descansar, apreciar a vista e a boa comida em silêncio. 

A iluminação era natural, vinda das largas janelas pelas quais se via o mar, o céu e o infinito. O salão, amplo, decorado como um convés de alto luxo; havia doze mesas, espalhadas de forma a que não se ouvisse a conversa entre os clientes de uma mesa para outra. Podia-se circular sem receio de esbarrar em outrem. Serviço de linho e prata, copos de cristal e, ao fundo, a voz suave de Sam Cooke. 

De repente, as faces da mulher se rosearam, fazendo-a parecer uma menina. Com as rugas, o ligeiro sobrepeso, as vicissitudes da vida – ainda assim, uma menina. Uma menina feliz. 

Ao fundo do salão, um homem se levantara. Tinha, pelo menos, dez anos a mais que a mulher. Os cabelos brancos, cortados rentes à escovinha, encimavam um rosto severo e sofrido, no qual se viam as marcas típicas de quem trabalhou durante anos ao ar livre. Alto, espadaúdo, forte, um homem no inverno da vida, mas ainda em plena forma. Sua postura ereta e seu porte não deixavam dúvidas de que fora militar. Tudo nele transmitia poder e segurança. Um forte, dir-se-ia, de quem o tempo e o destino não tiveram muita clemência. 

E eis que, ao vê-la, ele, também, rejuvenesce, o coração cheio das esperanças de quem tem a vida toda pela frente, confiante de que sempre terá as mãos da mulher amada entre as suas. Disciplinado por toda uma vida, só Deus sabia o quanto lhe custou não correr até a mulher e apertá-la em seus braços, nunca mais deixá-la ir. Aguardou, silencioso e firme, que sua dama chegasse, flutuando, à mesa. 

Mergulharam nos olhos um do outro por tempos infindáveis, apreciando o momento único, o perfume, as covinhas no rosto, os olhos azuis-céu da manhã, a delicadeza dela; o cheiro de sol e mar, as sobrancelhas hirsutas e graves, a força dele. 

Ele beijou-lhe a mão, longa e apaixonadamente, puxou a cadeira para que ela sentasse. O maître trouxe os pedidos antes mesmo de ser chamado, sabendo bem as preferências de cada um.

Durante todo o almoço conversaram em voz baixa, olhando-se, sorrindo, e, de vez em quando, entrelaçando as mãos suave, suave, suavemente, como temerosos que, a um gesto mais brusco, o outro se desvanecesse, como uma ilusão. Não havia dos arroubos típicos dos apaixonados, só contentamento intenso, profundo, gratos por estarem, mais uma vez, juntos. 

Ao terminarem, ele acenou sutilmente para o maître, que, logo depois, veio à mesa, avisar que o carro da senhora havia chegado.

Um gentleman até a última célula, até o final dos tempos, ele a acompanhou e, mesmo não precisando, olhou para o motorista como se dissesse:“Essa pessoa é muito preciosa para mim. Cuide que ela chegue em segurança, ou é comigo que você vai se haver”. E tenham certeza que o motorista sabia disso. 

Antes de ela entrar, o homem segurou-lhe ambas as mãos, os olhos cheios de mar e solidão. Ela se soltou, mais gentilmente que uma fada, e passou os dedos no rosto dele, puxando as lágrimas para si, como se dissesse não fique assim, meu Amado, as coisas são como são e nós temos a fortuna de, após todos esses longos anos, ainda nos vermos, tocarmo-nos, sentirmo-nos. Eu te amarei até o final dos dias, dos tempos, da eternidade. Não perca as esperanças. 

Quando ele perdeu o carro de vista, voltou para o restaurante. Ficaria a tarde ali, a pensar na sorte madrasta que o impedira de se unir à mulher de sua vida, no sofrimento dela quando obrigada a se separar dele, nos rumos estranhos que suas existências tomaram. Ficaria a tarde ali, a sonhar acordado com a possibilidade de, antes de morrer, passar um dia, um dia apenas, seu último dia sobre a Terra e o Mar, que fosse, ao lado de sua Amada da Vida Inteira, sem segredos, livres das amarras sociais, livres das responsabilidades familiares, livres.

Sentou-se de frente para o mar, seu outro amor. O maître pigarreou baixo, para chamar-lhe a atenção. Entregou-lhe um envelope, pequeno e perfumado a jasmim – o perfume dela! -, sussurrando, a senhora deixou isso sobre a mesa, creio que para o senhor. E afastou-se.

As mãos grandes e nodosas do homem abriram o envelope com a delicadeza de quem manuseia um bibelô de porcelana chinesa. Dentro, havia um bilhete, onde ele leu, com um sorriso escondido no fundo da alma:

- Um dia, em breve...


Sam Cooke
You're always on my mind







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quinta-feira, 13 de julho de 2017

DOCE, DOCE... >> Analu Faria

Eu sou dessas que olha um Querer com a impaciência de quem olha um gato preguiçoso. Eu sou daquelas que só nota que o  Querer se fez carne depois que Ele já anda e fala. Funciona assim: aciono um Querer e O desejo na mesa para ontem. Ele cozinha ali na alma (na cabeça?), às vezes uma vida inteira. Quando vejo,  já está servido.

Foi desse jeito com um louco vício em açúcar, que eu tenho desde que me chamaram pelo nome (e eu respondi). De uma hora para outra, o vício tomou seu rumo, como eu Queria (mas não quando eu Quis).

O vício em doces pode ser até que volte, apesar de um sumiço passageiro já ser impressionante. De qualquer forma, o Querer-gato me assusta. Cozinha tão devagar que às vezes o considero desandado. Aparece pronto quando menos se espera.

É claro que isso aconteceu com coisas mais sérias da vida, principalmente depois que fiz o Caminho de Santiago, mas o que parecia impossível mesmo é eu deixar de ser a louca do doce.



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quarta-feira, 12 de julho de 2017

MELANCOLIA >> Carla Dias >>


É que eu não entendo direito. Tento, mas o essencial me escapa. Talvez eu seja – ou esteja – muito distraída para compreender o linguajar que tenta enredar o outro, a fim de minimizar suas tragédias, humilhar suas buscas, distorcer seus direitos. Talvez seja mesmo do signo, e eu desembeste a dizer bobagens. E não quero ser mais uma a dizer bobagens que ofendam, em vez de trazer para a discussão algo que valha a pena ser compartilhado. Não quero verbalizar a ignorância. Não quero propagá-la.

Posso falar sobre delícias. Mas não o farei usando personagens que adoro inventar, porque, hoje, nenhum deles veio me visitar. Estou eu mesma, então que as delícias têm de ser minhas.

Café. A maior delícia de todas. Começar a escrever um livro assim, colado naquele último que adorei escrever. Folhear catálogo de lojas de material de construção e afins. Essas lojas são para mim o que as de roupas e sapatos são para alguns.

Tem o que engasga, também. Feito aquelas mensagens pedindo para assinar petições, que trazem todo tipo de problema que você até tenta, mas não tem o poder de resolver. A impotência me estressa, enverga mesmo. Coloca-me de cara com a vontade de chorar feito criança. Queria poder dizer aos que me mandam tais petições que sinto muito por eles terem de passa por isso. Sinto por seus filhos não resistirem a um sistema que se debruça somente em estatísticas; que lida com a urgência como se ela pudesse prolongar seus prazos e adiar seus desejos.

Sinto mesmo.

Uma pena que eu não entenda direito. Isso não significa que não esteja escutando, observando, tentando mesmo compreender esse imbróglio. Clareza me remete ao justo. Será que é uma percepção equivocada a minha?

Ainda sobre delícias: cultivar aquele afeto que dará em nada, que você sabe que vive da invencionice, mas que ajudou aí na criação de uns poemas daquele livro nascido há pouco. Melhor manter o afeto respirando.

Na falta de conhecimento para me posicionar; de energia para tentar compreender, finalizo essa crônica destrambelhada com um poema de amor que nunca será.

É o que posso oferecer nesse hoje.



Imagem: Melancholy © Jan Zrzavý

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terça-feira, 11 de julho de 2017

PARA SEMPRE >> Clara Braga

Todo mundo, em algum momento da vida, já teve que lidar com o tal do para sempre.

Confesso que, no geral, acho que as pessoas lidam até muito bem com essa conversa de eternidade.

Quem nunca fez uma jura de amor eterno até que conheceu outra pessoa e percebeu que amor eterno é muito mais do que aquilo que se tinha antes?

Ou então jurou que o melhor lugar do mundo para se passar o resto da vida era aquele em que se estava, porém, decidiu olhar para o lado e descobriu que naquele outro lugar poderia ser muito mais feliz.

Tem também as pessoas que dividiram aquele colar de amigas para sempre com a amiga da escola e hoje em dia não fazem ideia do que aconteceu com a outra metade.

E as promessas de que aquele vício ficou para trás para sempre até o fim de semana? Ah, mas fim de semana não conta vai, afinal, ninguém é de ferro.

A verdade é que lidar com o para sempre é relativamente mais fácil do que se parece porque desde cedo aprendemos com nossa querida Cássia Eller que para sempre é uma coisa que sempre acaba.

Eu também já joguei nesse time do que seja eterno enquanto dure, afinal, abrir mão de algo me parece um ótimo caminho para que novas portas se abram, mas há sete meses toda a minha teoria mudou. Fiz um exame de sangue e descobri que seria mãe. Nunca me senti tão confusa, feliz, triste, assustada, indefesa, com medo e destemida antes em minha vida, e o nome disso sabe qual é? Para sempre! 

De agora em diante serei para sempre mãe desse pequeno. E não é só esse laço que é para sempre, uma criança une pessoas que muitas vezes nem escolheram estar juntas ou dividir algo na vida, mas não é uma opção, elas estão conectadas para sempre, gostem ou não.

Não gosto de discordar de grandes ícones e sei que falando isso não estou discordando só de um ou dois, mas de muitos. Mas agora, só agora, entendo que para sempre é algo tão grandioso que nunca vão conseguir definir, pois algo só é para sempre quando a gente sabe onde começa, mas daí para frente só Deus sabe no que vai dar.


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segunda-feira, 10 de julho de 2017

CORAGEM! EU ESTOU AQUI >> Albir José Inácio da Silva

Cresceram juntos, mais que irmãos. Nunca pararam pra combinar coisa alguma, mas a sobrevivência impunha a sociedade. Fazia cada um o que sabia no negócio de porcos. Zé do Porco matava porco e Magrelo fazia contas e negócios.

Zé do Porco matava porco desde que se lembra. Como seu pai e, talvez, seu avô, mas não tem certeza. Memória, aliás, ele não tem muita, de nada. Nada dessas coisas de lembrar, pensar,  resolver. Sabia ir vivendo, forte como um touro. Gostava de trabalhar, de comer e de Nalva.

Nalva namorava Zé do Porco há muito tempo, meio desesperançada porque ele era Zé do Porco.

Magrelo era magrelo mesmo. Seco e ágil, não gostava de trabalho duro, mas era manhoso na barganha e nas contas. Fazia, segundo ele mesmo, milagre nas contas.

A questão é que não tinham porco pra matar. Alugavam o trabalho do Zé quando alguém precisava. Mas quem tinha porco matava seu próprio porco. Ficavam na dependência de algum idoso ou viúva que precisasse.

Foi Nalva que teve a ideia, Magrelo gostou, e Zé do Porco não queria.

- Não gosto de cidade! E não quero ficar longe de tu, Nalva.

Mas a coisa estava mesmo ruim. Ninguém matava porco, ninguém vendia porco porque ninguém comprava porco. Comprava-se fubá, farinha, feijão, ovo - quando muito. Pra isso que tomaram o governo? – perguntava-se.

Zé acabou concordando quando Nalva falou que ia junto. Reuniram as economias, e Magrelo partiu na frente pra arrumar lugar. Depois foram Zé, Nalva e as trouxas que pegaram ônibus pro Rio de Janeiro. Alugaram uma casa no subúrbio distante, com um quintal pra Zé do Porco trabalhar.

E Zé trabalhou como nunca antes em sua vida de homem que gostava de trabalhar. Raramente o porco era entregue em sua casa. Procurando preços melhores, Magrelo comprava porcos distantes e sem entrega. Ia o Zé buscar porco nas costas.

Também não pôde mais matar porco no quintal. Os bichos guinchavam muito alto na hora final, de madrugada, e os vizinhos ameaçaram denunciar. Agora Zé carregava porco nas costas até uma clareira afastada, matava o porco, e depois trazia de volta em sacos que pesavam muitas arrobas. Às vezes já era noite quando terminava de cortar a carne que seria entregue no dia seguinte.

E a entrega também era ele que fazia. Magrelo era franzino, não aguentava peso e além disso estava sempre envolvido em negociações, compras e vendas. Mas Zé do porco não reclamava. Não faltava trabalho, então tudo estava bom.

Magrelo comprou umas roupas porque precisava tratar com as pessoas, os comerciantes, os fazendeiros, e não podia se apresentar de qualquer jeito. Deu dinheiro pra Nalva também comprar porque “sabe como é mulher, né?”. Zé disse que pra ele não precisava:

- Só uso roupa de trabalho, suja de sangue, qualquer pano velho serve. Gasta dinheiro com isso não.

Zé do Porco pensou que estava tudo bem. Magrelo não prestava contas porque Zé nunca gostou, não entendia, cansava e dizia pra fazer o que precisasse. Por isso ficou surpreso com a conversa de Magrelo.

 - As coisas tão ruins, Zé. Dinheiro só dá pra pagar, sobra nada. O porco em pé tá muito caro e, na hora de vender, não querem pagar muito. Os frigoríficos vendem mais barato e com documentos, certificados.


(2ª e última parte em 24 de julho)


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