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APRENDA A LEVITAR >> Carla Dias >>

Sim, sou eu. Desta vez, não vou bancar a narradora intrometida que só se revela, no escancaro, lá pelo meio da história. Uma vez na vida, quero o começo. Resolvi tomar as rédeas do meu desejo e ver aonde ele me levará.
Não se desesperem. Ele pode parecer meio atormentado com tudo o que anda acontecendo, e dá de falar bobagens, como se fosse letrado no ofício, mas é um disfarce para o que realmente o atormenta. É um disfarçar-se para tapear-se. Só que a indagação o agonia de jeito que nunca foi agoniado antes.
Como será o mundo, depois de amanhã?
O desconhecido já foi tema de reflexão, vítima da ignorância, prisioneiro da imbecilidade, amante da arte, inspirador de brutalidades e amparo para amores rotulados de impossíveis, para citar um resumo do resumo do resumo do roteiro. Agora, o desconhecido o faz pensar em coisas que jamais pensaria, não fosse aquele despertar dos infernos que o leva a repensar de um tudo: gosto, desejo, escolhas, pessoas.
Repensar pessoas tem sido o mais traba…
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FACEBOOK RAIZ >> Clara Braga

Escrever em porta de banheiro é algo que sempre existiu. Lembro bem do banheiro da escola, você ia lá fazer um xixi e ficava lendo as assinaturas das pessoas que, por algum motivo, levavam canetas ou liquidpaper no bolso quando precisavam utilizar o sanitário. Era uma chuva de *Marina_Linda*, =]Paulinha, Aninha-gata e Carolinda ;). Quando rolava briga uma ia lá para apagar o nome da outra. As mais ousadas riscavam o nome e escreviam algum xingamento, mas no geral era só apagar mesmo.
Às vezes, quando a porta ficava muito suja, a diretora tentava identificar as donas dos apelidos e ameaçava colocar para limpar, mas a desculpa era sempre a mesma: não fui eu que escrevi, alguém que foi lá e escreveu meu nome para me prejudicar. E assim os banheiros ficavam cada vez mais repletos de assinaturas.
Em tempos de Twitter imaginei que as portas haviam ficado esquecidas, mas em experiência recente descobri que elas apenas foram reinventadas. A porta do banheiro é o novo mural do Facebook e as r…

A PESTE - final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 23/03/2020)
O fim da escravidão não serviu de nada pra minha mãe, que continuou na cozinha e no porão. Eu era muito pequena, mas dizem que ela morreu de maus tratos pela Sinhá Martina.
No dia da abolição o comendador reuniu a “negralhada”, como ele costumava dizer, e fez a proposta. Eles continuavam lavrando a terra, cuidando do gado e dos serviços da fazenda, só que não seriam mais escravos. Ficavam com um pedaço de terra em que podiam plantar e construir suas casas, depois que acabassem o trabalho da fazenda, claro.
Quando a produção fosse vendida, eles teriam algum dinheiro, mas, desde já, podiam adquirir no armazém da fazenda as coisas de que fossem precisando. Que pensassem bem, não tinham pra aonde ir. O lugar mais perto ficava a três dias de caminhada. E eles, com mulheres barrigudas e crianças, iam morrer pelos matos.
A segunda praga, segundo o rosário de imprecações de Sinhá Martina, foi a seca. Também um castigo pela promiscuidade do Sinhô e dos negros. Ela não…

PRETEXTO >> Sandra Modesto

Haverá algum lugar neste mundo obscuro  Em que todos poderão tatear  Numa mesma sintonia 
Haverá algum acordo  Neste mundo assoberbado  Em que ninguém seja produto 
Haverá algum vestígio  De uma nova aliança  Que nos leve em massa  Aos caminhos adversos 
Haverá algum lugar neste enorme pesadelo  Um canto ao toque uníssono  Para um frevo colorido  Haverá grandes acordes  De uma nova primavera capaz de romper solidão 
Haverá algum sentido nesta vida de merda  Um aroma de jasmim dizendo não!  Agora é sim.  Haverá um rolar  De tempo sem danos  De menos enganos  De conquistas mais longas 
Haverá algum estado de um céu mais brasileiro  Num sotaque sorrateiro  Com suor beirando redes  Haverá alguma hora do abraço querido  Do amor igual  Do respeito igual  Do beijo final  Até que a terra mostre que a moradia chegou. 

(Publicado, originalmente, na RUÍDO MANIFESTO, em junho de 2019)

A LÂMPADA NUM DIA DE CHUVA >> Zoraya Cesar

A chuva caía pesada e fina, cortante como navalhas, machucando o rosto do rapaz. Ele andava distraído, cabeça baixa, as mãos enfiadas nos bolsos, o casaco mais cinza e gasto que o tempo; seu ânimo, tão desconsolado como o do cachorro magro e abandonado, que olhava assustado as pernas que passavam, espremido debaixo da marquise estreita.
Um carro não o atropelou por muito pouco e jogou lama em suas calças.
Ele continuou andando, indiferente, tanto se lhe dava ter um carro passando por cima de seu corpo, a lama na roupa. Atravessou a rua, esbarrando nas pessoas, e, de repente, parou, um pouco aturdido, onde estava mesmo? Olhou em volta, sem ver coisa alguma realmente, o cérebro já embotado de apatia e chuva. 
Uma claridade quente e suave chamou sua atenção. Estava em frente a uma loja. Não se lembrava de já tê-la visto alguma vez. A porta, estreita, era de madeira pintada de azul. Uma grande janela encimava um canteiro de urzes viçosas, que dividiam harmoniosamente o espaço com gerânios …

INSURGÊNCIA >>> Coletivo de Autores do Crônica do Dia

Urgência 
Pelas ruas vazias da cidade, que sempre geraram agrado aos seus, em caso de emenda de feriado, ecoa aquela solidão que costumam creditar ao paulistano, os da metrópole das portas e janelas fechadas, do concreto. Contudo, as varandas nunca foram tão importantes. As janelas se tornaram as portas das casas e apartamentos. Há nada de concreto nos poucos que desfilam pelas ruas, verbalizando, em alto e bom som, as suas agonias, assim como suas extasiantes e raras alegrias. Tudo neles reverbera de forma imprecisa e flácida.  Às vezes, aquela realidade parece uma versão não muito justa dos feriados prolongados. Há quem goste desse vazio, mas não suporta a sua autoria ou o desolamento que vem com ele. Há quem espere, ansiosamente, pelo próximo feriado prolongado, daqueles que permitem que se saia pelas ruas da cidade e se frequente restaurantes, teatros, bares, casas de shows, museus e tantos outros lugares... e tantas outras pessoas. 

Emergência  Não. Não é o hospital onde Sílvia j…

HOMEM-PÁSSARO >> Carla Dias >>

Não entende de poesia. Assim ele pensa, enquanto o olhar atravessa o recinto, lança-se pela janela, sobrevoa prédios e alcança o horizonte, fazendo com que ele questione, sem amaciar sentido de palavra que seja, por que diabos está dentro de casa, se lá fora o dia já deu as caras, é de sol, é convite para caminhar.
Seus pensamentos se embaralham com a fumaça do cigarro que vem tentando largar, mas sem muito esforço. Qualquer hora isso dará certo, assim como a reconstrução da sua reputação de homem que entende neca de poesia.
Não nasceu para ser domesticado pela poesia, principalmente se ela for carente de rimas, amante das metáforas. Mesmo que, ao acordar se equilibrando no fio do devaneio, sinta-se compelido a aceitar que há mais poesia entre o sonho e a realidade do que as inspiradas metáforas possam recitar. E que não consiga se abster de anotar -  agenda comprada há duas décadas, morando em gaveta do criado-mudo -  o que acha que o inquieta e não é tarefa a ser cumprida, trabalho…