sexta-feira, 27 de maio de 2016

CÓDIGO MATERNO >> Paulo Meireles Barguil

No final do dia, para fugir do calor confinado nas casas, muitas pessoas iam para a praça, o que possibilitava que as crianças gastassem um pouco da sua infinda energia.

Dentre elas, estavam Maria e sua filha Emília.

Instantes depois de chegarem à praça, a menina pediu à sua genitora:

– Eu posso ir brincar com a Glaucinha? – apesar do receio no veredito, ela acreditava que seria positivo, pois a convidada era filha do dentista da família.

– Pode ir – respondeu a mãe, sem demonstrar qualquer contrariedade.

Depois de poucos minutos, Maria chama a rebenta e anuncia:

– Vamos voltar agora para casa!

A criança a obedeceu, mesmo sem entender o motivo do retorno tão prematuro ao lar.

Quando chegaram em casa, a mãe explicou para Emília:

– Quando eu disser "Pode ir" é porque não pode ir!

– Eu não sabia! E qual é a sua resposta quando eu puder ir? – indagou-lhe a atônita criança.

– Vá!

[Crônica dedicada à minha avó materna, Maria Nunes Meireles, a mãe citada na crônica]

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quinta-feira, 26 de maio de 2016

SÓ ACHO >> Mariana Scherma

Eu acho que você anda lendo pouco e sendo ignorante em todas as suas publicações. Quando você se refere à presidenta Dilma, eleita pela maioria do povo, de vagabunda, você perde qualquer direito de retórica. Você também me faz começar a pensar em unicórnios nessa hora, porque eu não vou perder meu tempo discutindo com quem gosta de ser ignorante. A verdade é que você fica no rasinho da discussão política e acha que todo o mal envolve só o PT. O PT fez cagadas, sim. Mas você fez mais e mais fedida ao apoiar um governo só de gente corrupta.

Eu acho que você, pessoa da classe C, D, E... Z, não está percebendo que este governo ilegítimo não foi pensado em você. Diminuição do SUS. Cortes no Minha Casa, Minha Vida. Mensalidades para universidades públicas. Passaportes diplomáticos para pastores. Cortes na Educação. Se você tem casa própria e plano de saúde, desculpa, mas se não tem... Repense. Você não está sendo nada beneficiado. Andam fazendo no governo uma festa estranha com gente esquisita. A verdade é que eu não tô legal e preciso de birita pra aguentar.

Eu acho que você não sabe da missa um terço quando desdenha do Ministério da Cultura. Você critica o fato de a então namorada do Chico Buarque ser beneficiada, assim como a Claudia Leitte, mas sabia que Lobão (desnecessário, porém...) e o instituto FHC também já foram beneficiados? E vamos combinar que eles não têm nadinha a ver com PT, até porque nunca existiu gente mais de direita que esse povo. Você diz que o Brasil não tem e não precisa de cultura, mas quem não tem e parece não querer é você mesmo. Não me coloque no mesmo barco (furado) que você.

Eu acho que você não sabe que seu querido presidente ilegítimo, Michel Temer, é ficha-suja e está inelegível pelos próximos oito anos. Temer fez doação ilegal, como pessoa física, mas, ainda assim, pode assumir a presidência. Ele é nosso primeiro presidente ficha-suja, sabia? Que coisa. Você, essa pessoa que saiu às ruas de verde e amarelo, aceita isso? Nosso presidente em exercício não parece melhorar sua imagem ao dizer que a mulher é advogada e merece assumir um cargo. Marcela Temer não consta na lista de aprovados da OAB. Mas sei lá, né? Mal temos mulheres nesse governo. Deixa ela, não sei se tem como piorar.

Mas eu só acho. Ah, também acho que seu ódio pelo governo do PT é localizado. Você não odeia a corrupção, você sabe bem conviver com a corrupção, caso contrário continuaria se manifestando contra esse novo ministério sujo. Mas eu não vou ter ódio de você, vou focar nas próximas eleições e vou prestar atenção em quem apoiou impeachment – esses não terão meu voto. Chega de ódio. Apesar de que o seu ódio será minha herança. Minha, porque sou brasileira.

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quarta-feira, 25 de maio de 2016

SALA ESCURA >> Carla Dias >>


Houvesse alguma divindade disposta a atender desejos apimentados pela necessidade de saber a respeito, esse contemplador que sou – e que não tem mais o que fazer, a não ser cultivar curiosidade sobre o que não lhe cabe mudar – a tiraria de lá.

Daquele lá onde ela resiste, pausando acontecimentos no ponto em que eles deveriam enveredar pela mudança necessária. Eu sei, atento que sou aos detalhes, que mudanças também podem ser tratadas como item cosmético, apenas para se ajeitar aqui e ali, até que a coisa toda fique aprazível aos olhos, e o resto dos sentidos que se danem. Porém, não é o caso...

Ela vive em sua caixa, como se fosse boneca à espera de se tornar presente para alguém que a tirará desse lugar ao qual pertence em solidão de dar nó. Quando sai para tomar ar, age como personagem em episódio de série estrangeira, som original, sem legenda, assistida em televisor de tubo, valendo-se da falta de tecnologia para se esconder dos olhares, do pertencimento a um mundo de pessoas que se vigiam, que esgueiram olhares aos outros o tempo todo.

Essa privacidade existencial que a ronda, ela abraça feito filho fugido que volta para casa, depois vinte e quatro horas, um boletim de ocorrência e muitas lágrimas.

A pele entrega informação crucial: o sol não lhe toca há tempos. A palidez estampada em sua pele me lembra a necessidade de meu avô em me benzer uma vez por semana, quando eu era menino, garantindo que eu jamais me transformasse em leito de quebranto. No caso dela, não posso deixar de pensar em contradição, daquele tipo em que a tristeza se torna a beleza de uma imagem.

Quando em público, seus passos são cadenciados em Adágio, com aquela vagarosidade e ternura que vivem entre os 66 e 76 BPM. Raramente a notam, que ela tem a sua capacidade em passar despercebida como amiga mais querida, das quais se sente saudade, mesmo quando no mesmo recinto.

Eu que aprecio a observância do díspar, que tenho esse talento nato para cravar olhar naqueles que passam a vida a fugir da lâmina da revelação imposta, e sem vocação para a modéstia a respeito da minha habilidade em ler pessoas, eu sei que ali, naquele universo-ela, há mais do que ela entrega ao mundo.

Assim, descubro, a base de muita contemplação e paciência, que quando não está no mundo, cuidando para passar em branco, ela está em sua caixa, esse pequeno cômodo onde ela espera por quem a resgate, mas não de resgate feito os que acontecem em filmes americanos de ação.

Na sala escura, ela se ilumina. Naquele lugar onde ela se despe de suas máscaras, e dança por horas, não de maneira graciosa como as dançarinas do Bolshoi, ainda assim, primorosa em sua coreografia-catarse.

Na sala escura, ela se comporta como protagonista de si. Há tanta energia a circular pelo espaço. Há tal esperança desavergonhada a gritar vontades ao silêncio. Alguns dos seus desejos deixariam encabulados muitos dos despudorados assumidos. Ela expõe ali cada segredo, até mesmo os que aprendeu a esconder de si. É uma exposição digna das mais badaladas galerias de arte-de-ser.

Ela grita, chora, esperneia, gargalha, descontrola-se em todos os tons, maldiz seus sonhos, para então assumir que eles lhe são caros. Descabela-se, desnuda-se, permite-se ser invadida pela intromissão da consciência em seu estado de espírito de doidivanas. Acalma-se, pranteia. Cobre a nudez com a singeleza do lençol, este que ela anda a arrastar pontas pelo chão, feito a barra de um vestido que alta-costura não reconhece como obra de arte.

Talvez eu não devesse observar de tão perto, espiar essa sala escura na qual ela solta seu ser para ser quem lhe dá na telha. Talvez seja importante para ela manter segredo sobre fascinante criatura se esconde sob a palidez daquela que sai todos os dias de casa para encarar o mundo.

Por que não ser essa criatura lá fora? Por que ater-se à sala escura?

Ocorre-me, então, que também eu tenho minha sala escura, aquela parte de mim que não se misturo ao mundo. Entristece-me pensar que ela possa esconder o mais apaixonante de si pelo mesmo motivo que escondo essa parte de mim. Por medo de que, além dessa sala escura, aquilo que é o melhor, o mais apaixonante de si, não seja reconhecido como tal diante dos olhares observadores, da curiosidade dos censores de plantão, da necessidade de adjetivos para endossar conteúdo, da vitalidade dos profissionais da conversão, amém. Então, melhor manter viva a percepção, ainda que a sós, em sala escura, para si e seus fantasmas.

Houvesse coragem em mim capaz de manter em curso a beleza de quem ela é, assim, da forma como essa beleza a assola, quando na sua sala escura, eu rezaria aos santos e piscaria aos demônios, depois a tiraria de lá e a levaria para, junto a mim, perder-se por aí. Sem retoques.

Imagem: La Dormeuse © Tamara de Lempicka



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segunda-feira, 23 de maio de 2016

UM OUTONO CATARINENSE >> André Ferrer

Três ou quatro horas antes, em plena madrugada, havia tirado o último peixe da grelha. Entrou, puxou um dos bancos e sentou diante da churrasqueira onde, aqui e ali, a brasa permanecia viva. Por este motivo, a temperatura estava tão agradável na cozinha.

Era sábado e os amigos voltariam, em torno das nove, conforme o combinado.

A ideia partira de Chris, o filho do senhorio. Edu, que morava no térreo, arvorou-se de pronto, desceu as escadas e trouxe os seus apetrechos. Luís Bernardo concordara, mas agora, com o corpo bem aquecido, julgava ter sido uma estupidez. Após vinte dias, a primeira semana livre de avaliações na faculdade estava para começar. Haveria um bom intervalo antes das últimas provas semestrais, no final de junho, e ele já tinha planos para aqueles dias frios.

Luís Bernardo se levantou e espalmou as mãos na tepidez agradável do braseiro. Em seguida, abriu a janela e admitiu que o frio sentido, há pouco, entre o quarto e a cozinha - e também na rápida escala no banheiro -, nem chegava perto da geleira externa. Assim, diante da boca e das narinas, ele viu crescer a nuvem de vapor, o seu hálito. Uma névoa que também se estendia lá fora. Esbranquiçava o mundo próximo. O distante.  A perspectiva. A calçada do outro lado da rua. O topo dos prédios vizinhos.

De repente, escutou a varrição de todas as manhãs. O senhorio, naturalmente, já estava de pé. O corredor, lá embaixo, ou talvez o vestíbulo que dava acesso à escada, recebia as vassouradas do homem e, a intervalos curtos, ouvia-se fragmentos de uma conversa. Um minuto depois, Luís Bernardo reconheceu a voz de Chris. O garoto, logo cedo, levava uma descompostura.

No quarto, Luís Bernardo teve pressa de encontrar uma blusa pesada, mas ficou estático diante da escrivaninha. Vestiu a blusa que, afinal, estava no espaldar da cadeira e se apressou. Queria se livrar do trato. Uma pescaria na Penha, francamente, num dia como aquele! A temperatura e o vento nos costões deviam estar de matar. Ademais, havia o conto inacabado, a crônica mensal para o Líder de Terracota, o planejamento do romance, enfim, a tão esperada trégua dos compromissos estudantis.

Luís Bernardo desceu os quatro lances de escada e deu de cara com Edu e Chris. O velho, que ora varria ora falava, resmungou, olhou direto para o inquilino e apoiou os braços no cabo da vassoura.

"Bom dia moço", fez ele. "Nada de Penha. O Chris e essa peste jogaram o anzol ali em cima."

Do outro lado da rua, havia um sobrado e o ponto indicado pelo homem já era suficiente para que Luís Bernardo compreendesse algo a respeito da façanha dos dois amigos em plena madrugada. No sobrado, residia uma vizinha implicante, que Chris e Edu chamavam de bruxa. "Lá em cima" era a área de serviço dela. Os dois rapazes, de acordo com o velho, tinham "fisgado" uma roupa íntima da mulher com o molinete de Edu. Assim, Luís Bernardo segurou o riso.

"Tudo bem", disse ele. "A gente não vai."

"É justo. Muito justo", disse o velho. "Ontem, vocês compraram peixe e cerveja. Beberam e comeram até altas horas. Eu entendo. Só que vocês precisam respeitar os vizinhos. Por favor! Hoje, nada de pescaria. Nada de Penha!"

"Tudo bem, rapazes. Outro dia. Fiquei de comprar o pão para os sanduíches. Lembram? Pois é! Estava justamente indo à padaria. Tudo bem. Até mais."

Luís Bernardo subiu as escadas, fez café e aninhou-se diante da escrivaninha.

O conto era sobre o ano anterior. Estagnara no trecho em que a moça, namorada de um ex-morador do apartamento, também estudante, compartilhava uma cuia de chimarrão com o próprio Luís Bernardo. Felizmente, ninguém mais morava naquela casa além dele. A crônica, por sua vez, era a respeito de um episódio da sua infância e, a exemplo do conto, ele trocara os nomes das pessoas. Mesmo assim, os leitores do pequeno jornal da sua terra saberiam de quem se tratava.

Com o romance, acontecia o mesmo: a incapacidade de simplesmente inventar dominava o incipiente esboço. Entre um verão e outro, Luís Bernardo admitia que precisava experimentar o mundo e, assim, aumentar as páginas do seu livro. No outono, contudo, época de recolhimento e reflexão, podia se dar ao luxo de dispensar uma pescaria.

Luís Bernardo releu a crônica e, finalmente, chamou-a de "Aula de descrição". Puxou a Lettera 32, enrolou uma folha de sulfite no carro da máquina e começou a escrever. De tempos em tempos, bebia um gole de café. O texto seria remetido já na segunda. Estaria na redação do jornal antes do dia 15 de junho. Sairia, como de costume, na página 2 do Líder de Terracota. 


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domingo, 22 de maio de 2016

COMO ESCAPAR DESTE MUNDO (01): JOGOS
>> Eduardo Loureiro Jr.

Nasci a fórceps. Isso talvez explique minha resistência a este mundo e minha vontade de escapar. Esta é uma forma de ver a minha vida: uma série de tentativas de escapar deste mundo. Comecei pelos jogos, depois descobri os filmes, os livros, a matemática, a música, as paixões, a espiritualidade, o sono, a morte, a astrologia, o futuro, o saudosismo e outras coisas que devo estar esquecendo no momento.

Vou tentar recuperar uma pouco dessa trajetória de tentativas de fuga. Em si, esta recuperação de memória é também uma tentativa de fuga: escrever sobre o passado com um fone de ouvido gotejando anestésica música em minha mente é uma fórmula infalível para escapar por alguns minutos. Começarei pelos jogos...

Minhas memórias mais antigas envolvem jogos.

Lembro de jogar damas e firo com tabuleiros artesanais, feitos por minha avó, e talvez também por uma de minhas tias, desenhados em grosso papelão, tendo tampinhas de tubo de pasta de dente ou mesmo caroços de feijão e de milho como peças.

Lembro de ganhar estojos de jogos clássicos de minha mãe: além de damas e firo, ludo, bingo, resta um... Ludo era meu preferido. Eu gostava de lançar dados. Ainda gosto.

Meu pai me iniciou no xadrez. Quando comecei a escapar também por livros, reparava num velho livro de bolso, mas tão grosso que não cabia no bolso, capa dura marrom, um livro de xadrez, com imagens de tabuleiros e combinações de números e letras indicando posicionamentos de peças. Meu pai chegou a contratar um professor para me ensinar xadrez. Minhas aulas duraram até o dia em que meu professor particular chegou lá em casa bem na hora em que eu assistia a "O Mágico de Oz" pela televisão. Naquele dia, larguei o xadrez: ele representava a realidade da qual o filme poderia me fazer escapar.

Uma vez por ano, perto de meu aniversário, eu ia com minha mãe a uma loja de departamentos para comprar jogos. Parentes mais próximos me presenteavam com dinheiro, minha mãe juntava tudo e íamos nós para o dia mais feliz dos meus anos pré-adolescentes: eu olhava as caixas coloridas, minha mãe olhava as etiquetas de preço e eu voltava para casa com três, quatro, cinco jogos novinhos. Nos finais de semana seguintes, e por todas as férias de final de ano, eu jogava com meus primos. Horas muito bem escapadas com War, Detetive, Cartel, Scotland Yard, Escrete (criado pelo Chico Buarque!)...


Depois apareceram os primeiros computadores e os primeiros video games. Eu tive o PC 200 e o Telejogo. Aquela junção de jogo com televisão era uma bela forma de escapar, mesmo com gráficos que não passavam de tracinhos e quadradinhos.

E havia os jogos de carta, desde a infância, com todas as suas muitas variações: pife-pafe, oito-malucos, buraco mole, depois o duro...

Os jogos sempre estiveram por ali. Com os familiares. Com os amigos (como esquecer a primeira aula gazeada para jogar porrinha?). Com desconhecidos, quando surgiram os jogos online via internet. Muitas vezes sozinho.

Quando fiz 30 anos, os jogos voltaram a se tornar minha forma preferida de escape. Eu estava saindo de um profundo escape de paixão e, fazendo um doutorado com bolsa de estudos, tinha tempo e dinheiro suficientes para me dedicar ao hobby. Descobri os jogos de tabuleiro modernos, vindos principalmente da Alemanha, e entrei profundamente nesse mundo, a ponto de retomar estudos do idioma alemão, que eu havia abandonado, para ler as regras dos jogos no original. Comecei a fazer uma coleção dos jogos vencedores de um prêmio alemão anual de jogos de tabuleiro. Todo final de semana, reunia familiares e amigos em casa, formávamos três ou quatro mesas simultâneas e jogávamos desde a tarde de sábado até a madrugada do domingo. Escape perfeito. Durante a semana, havia novos jogos para pesquisar na internet, listas de discussão virtual para conversar e, quando chegava uma nova caixa dos Correios com dois ou três jogos, eu e minha então companheira não esperávamos pelo final de semana, colocávamos uma toalha sobre a cama e aprendíamos um novo jogo: Catan, Adel, Café Internacional...


Quatro anos depois, acabou o doutorado, acabou o casamento e quase acabaram-se os jogos. A morte parecia ser a melhor alternativa de escape, mas, de alguma forma, eu sobrevivi. E os jogos também. Não como protagonistas, mas como coadjuvantes. Hoje vejo com muito espanto a proporção que tomaram os jogos de tabuleiro modernos no Brasil: são sites, canais do Youtube, luderias, jogos nacionais... De vez em quando, dou uma espiada nesse mundo, mas não possuo as condições financeiras para escapar por essa via no momento.

Relendo o que escrevi até agora, percebendo quantos jogos e quantas situações vividas ficaram ainda por registrar, me impressiono com a força dessa forma de escape em minha vida. A forma lúdica. Talvez a mais pura das formas. A forma mais infantil. Mais ingênua. Mais inofensiva (não gosto de jogar apostado). Se eu fosse escapar agora, neste exato momento, por algumas horas, eu gostaria de escapar aprendendo a jogar "CV — O que aconteceria se...", um jogo em que, lançando e alocando dados, vamos acumulando cartas com experiências de vida, desde a infância até a velhice.



Mas é hora de voltar para este mundo. Ele me puxa da forma mais categórica: a fisiológica. Não há mais como escapar escrevendo, ouvindo música e sonhando com jogos de tabuleiro. Preciso ir ao banheiro. Volto outra hora, lembrando e contando como muitas vezes escapei deste mundo com os FILMES.

E você, caro leitor, o que usa para escapar deste mundo? Ou você gosta deste mundo e não tem vontade de escapar dele?

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sábado, 21 de maio de 2016

NA PROFESSOR MOREIRA >> Sergio Geia




No 327 da Professor Moreira existe um prédio largo, vistoso, com muitas janelas, pintura nova, piso de granito, flores, jardim, e um brasão. Na frente, um letreiro informa de que se trata tão pomposo imóvel: Mitra Diocesana de Taubaté.

Há uma mesa logo após a porta de entrada, uma funcionária bem vestida carrega pastas; deve cuidar da burocracia da igreja. Há também uma placa, um pouco menor, com o horário de funcionamento: das 8:00 às 12:00 horas e das 13:00 às 17:00 horas; uma boa garagem; grandes portões cerrados.

Lembro-me de que ali funcionava um pensionato de freiras, cujos quartos, amplos e aprazíveis, eram alugados para moças estudantes que chegavam a Taubaté, atraídas por faculdades. Ali encontravam um teto decente; para pais e família, decente e gerenciado por freiras, o que é bem melhor.

O prédio fica numa região privilegiada, com fundos para a Professor Moreira e frente para a Praça Santa Teresinha. A poucos metros dali está a faculdade de medicina, a faculdade de educação física, a faculdade de comunicação social e a faculdade de fisioterapia. Com um pouco mais de esforço, mas nem por isso longe, chega-se ao campus da Ecase, onde funcionam as faculdades de economia, contabilidade, administração e odontologia, de modo que o lugar, além de bem gerenciado, situa-se num ponto favorável da cidade para quem vai frequentar faculdades. 

Foi com tristeza que vi aquela casa jovial e alegre de outrora, frequentada por moças bonitas e felizes, ser transformada de uma hora para a outra numa sem-graça Mitra Diocesana de Taubaté, e no seu vai e vem de padres.

Recordo-me de que sempre tinha algo bom de ver por detrás daquelas janelas. Eram divertidas as moças, além de graciosas, e regularmente havia conversa fiada quando estavam a espiar a rua. Certa vez executamos uma serenata que foi muito bem recebida por elas, até que uma das freiras, mal-humorada que só vendo, tratou de nos pôr pra correr. Pois hoje sei que vou olhar pra cima e nada verei além de pobres janelas mortas, quando muito, um padre idoso plantado num daqueles aposentos com história.

Mas a vida é assim, o que se há de fazer? Outro dia foi o Colégio Anchieta, que vi parte no chão. A Villa Santo Aleixo dizem que sai reforma. Na Professor Moreira mesmo, no 267, hoje existe um comércio. Pois ali moraram os Castilhos, nobre família da cidade e meus amigos de longa data. Frequentava aquela casa e sempre fui acolhido como filho. Às vezes víamos filmes. Outras, jogávamos detetive ou truco. Ou corríamos ao centro atrás de propaganda comercial para o serviço de som da igreja.

Eram tempos de vadiagem; bons tempos. Vejo que a saleta da residência dos Castilhos se transformou num abafado escritório. Naquele mesmo lugar de tantas histórias, espio um rapaz perguntando o preço de um seguro qualquer. Saio de lá com aperto no peito.


P.S.: foto da rua Professor Moreira, em Taubaté


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sexta-feira, 20 de maio de 2016

A BOA SOGRA >> Zoraya Cesar

O rapaz caíra doente de repente. A prostração foi num crescendo até que passou a não reconhecer as pessoas ou a andar e comer sozinho, numa estranha e inexplicável inconsciência.

Os médicos desistiram, era mais uma daquelas doenças sem nome, sem lenço e sem documento que surgem do nada e desaparecem junto com a vida do desinfeliz. 

Assim que o rapaz apresentou os primeiros sinais de decadência, sua mulher entrou em pânico, não estava acostumada a lidar com doenças. Monica chamou a doce sogrinha para morar com eles e ajudá-la a cuidar do acamado - remédios, alimentação, higiene, atenção e o que mais fosse. Esse acerto trazia duas grandes vantagens à Monica: a consciência tranquila de ver o marido bem cuidado; e a liberdade de viver a vida. Pois era jovem, bonita e rica. E, embora gostasse dele, não estava muito disposta a passar o resto da vida ao lado de um enfermo que sequer a reconhecia. 

Decidiu esperar alguns poucos meses antes de se separar, ou pegaria mal, socialmente falando, abandonar o marido. Era tão bonito ver as amigas espalhando nas redes sociais que ela era um anjo, um amor, uma mulher e tanto por suportar aquela situação!

No entanto, os prazeres da carne despertaram e aquele negócio de ter um vegetal por marido estava começando a incomodá-la. Queria viajar, sair, transar, varar noites sem fim. E como fazer isso sem escandalizar a sogra, os porteiros, os amigos?

Se bem que, com a sogra, ela não se preocupava. D. Cotinha... ah, eu ainda não apresentei a sogra? Pois bem, eis D. Cotinha, magra, de tendões repuxados sob a pele ressecada e pintada de manchas senis, as mãos trêmulas, a aparência frágil, os olhos miúdos atrás das lentes grossas, o olhar cândido e conformado. Tratava a nora como uma deusa e nunca proferiu um lamento, uma recriminação, nada. Uma fofa. Com a sogra, portanto, ela não se preocupava.

Quando  começou a se interessar por seu personal trainer, Monica resolveu dar um jeito naquela situação. Chamou a sogra para uma conversa de mulher para mulher. E disse, sem meios rodeios ou palavras cantadas, que, em breve, daria entrada nos papeis de separação.  Que era hora de D. Cotinha voltar para casa, levando o filho. E calou-se, esperando a reação. 

Que não poderia ser mais terna e compreensiva. Deu-lhe toda a razão, afinal, a nora era moça nova e bonita, tinha que aproveitar a vida, fora uma boa e paciente esposa, merecia seguir em frente. Monica sentiu-se aliviada ao extremo. E livre para viver sua vida. 

Naquela noite mesmo, chegou de madrugada, bastante alcoolizada. D. Cotinha estava acordada, esperando por ela. Disse que estava quase tudo pronto para sua partida, agradeceu-lhe por todo o carinho com seu filho e perguntou se não poderiam beber um uísque de despedida. 

Afagada em sua consciência e em seu ego, Monica aceitou a bebida oferecida pela sogra. Aceitou, bebeu e caiu numa estranha letargia, talvez por conta da noitada, talvez pelo excesso de álcool. Talvez.

Entorpecida, mal notou que D. Cotinha a arrastava até a piscina. Ainda sentiu o baque do mergulho e o choque da água gelada, mas não teve forças para subir à tona, com as mãos fortes da sogra empurrando sua cabeça para baixo.

D. Cotinha deixou o corpo boiando na piscina, voltou à casa e bebeu seu uísque, limpo do poderoso sonífero que oferecera à nora. A polícia concluiria que a jovem, bêbada, ingerira o sonífero e fora para a piscina, ali desmaiando e ali morrendo. Um terrível acidente. 

Pobre Monica, sorriu D. Cotinha, que tola foi você, querida, tão rica e tão ingênua. Manipulei você e meu filho desde o início do namoro para que vocês se casassem, você e meu filho tão forte, tão bonito, tão sexy e tão vazio quanto você, norinha querida.  

Meu filho vai herdar seu dinheiro, Monica. Aí decidirei o que fazer. Se paro de trocar os remédios e o tiro desse estado em que eu mesma o coloquei. Ou não tiro. A lei me instituirá sua curadora legal, e passo a administrar todos os bens. Ou se deixo morrer esse filho ingrato, que seria bem capaz de me passar a perna. Mas, de qualquer maneira, ficarei com toda sua fortuna, queridinha, conforme planejei desde a primeira vez em que os vi juntos.

A polícia concluiu conforme planejara D. Cotinha que, de sua piscina, fazia planos.

O caso, no entanto ainda não fechara.  

Em seu apartamento, Felipe Espada examinava a papelada e as fotos do inquérito. Olhava, olhava, tentando encontrar o que lhe causara estranhamento ao ver o corpo na cena do crime. 

Finalmente. Os calcanhares da morta. Os calcanhares da morta estavam arranhados como se tivessem sido arrastados no cimento. Ou na ardósia, pensou. Dinheiro, concluiu ele. Se fosse chegado a apostas, apostaria seu distintivo que fora assassinato, e assassinato por dinheiro. Jamais confiou em velhinhas fofas.

Preparou-se para agir. Se havia algo que Felipe Espada detestava, era ver um assassino impune. 

Mais aventuras de Felipe Espada









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quinta-feira, 19 de maio de 2016

CULPA DA ADÉLIA PRADO>>Analu Faria

São meus dias de Adélia. Olho o moço sem paletó – nunca o vi sem paletó – e penso: põe de volta, moço, põe de volta...

Sem paletó, o moço mostra a tatuagem mal escondida por uma camisa. E tatuagem costuma arredondar meu quadril. A aliança no meu dedo é de ouro, brilha até quando eu não quero.

Imagino Adélia vendo o moço que acaba de almoçar . Adélia é de Minas, como eu. Adélia vai à igreja e olha moços, como eu. Adélia, sempre fascinada pelo divino, como eu também sou.  Adélia, que tem coração de cadela, como eu tenho.

Um dia vou encontrar Adélia. Quero perguntar se Adélia também é tímida como eu e se consegue conter Eros e Tânatos dentro dela. E se sim, como o faz. Quero saber se Adélia acorda descabelada e xingando a si mesma por ter preferido aquele corte de cabelo totalmente errado para quem tem a juba volumosa. (Procuro fotos de Adélia na Internet, para conferir se tem cabelos volumosos.) Quero saber se Adélia fica olhando os próprios pés e se perguntando como conseguem resistir aos uso contínuo dos scarpins tamanho 35.

O moço pôs de volta o paletó. Mas como Adélia me abriu, há um tempo, o caminho das palavras, vi na tatuagem escondida meu quadril saliente, apontando na direção de um poema concreto. Agora, moço, quem te sente é o verbo e o verbo sempre se faz carne.

Vou à missa e rezo. Graças a Adélia, o moço vive em rima no meu quadril, sem que tivesse me tocado uma só vez. Quando pego o terço, sei que todas as santas me entendem: sou quase sem pecado. 






Adélia Luzia Prado de Freitas, mais conhecida apenas como Adélia Prado, é escritora, educadora e filósofa brasileira. 


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