quinta-feira, 24 de julho de 2014

O BOICOTE NOSSO DE CADA DIA >> Mariana Scherma

Eu não sei você, mas eu vivo me boicotando. É um ciclo sem fim. Estou direto com duas (ou até mais) vozes na minha cabeça, uma sempre tentando me convencer de algo que eu quero. A outra, num som mais baixinho, tentando deixar claro que eu não preciso do que quero. A voz da razão é um sussurro. Começa logo pela manhã, assim que abro meu e-mail:

— Bolsas de franja em promoção. Ai!
— Mas eu já tenho duas bolsas de franja.
— Só que nenhuma nesse marrom caramelo. Olha que linda, imagina usar junto com a calça de onça?!
— Esquece, tá faltando armário pra guardar tanta bolsa.

Ok, venci o round um do boicote. Uma bolsa de franja a menos. O problema é que as tentações do dia nem começaram ainda...

Aí vem a fome no meio da manhã. Depois de você ter malhado com toda a sua energia na academia.
— Vou tomar um copão de água e comer uma ameixa.
— Mas e aquela bolacha de chocolate que você comprou?
— É pro fim de semana.
— Uma só não é pecado, aquele gostinho de mel com chocolate... Hmmm!
Resultado: no meio da manhã fui vencida pela própria gula e me vejo atracada com um pacote de gordura trans deliciosamente saboroso. Quem mandou comprar a bolacha gostosa? Agora, só resta focar na salada da hora do almoço e ficar com gelatina de sobremesa.

Dia de supermercado. Vamos lá fazer essa lista certa: cenoura, alface, berinjela, laranja, pão integral, iogurte. Cheguei no mercado. Onde ficou a lista? Na bancada de casa. Ferrou!
— A maioria das coisas era da parte de verdura, vai ser fácil...
— Nossa! O chocolate aerado tá mais barato. Vou levar duas barras. Vou dar uma passada na parte de perfumaria pra ver se tem alguma cor nova de esmalte. Dois esmaltes novos no carrinho. Ai meu Deus, tem fatia húngara na padaria! E pão de queijo, ai, tá quentinho.

Chego em casa sem nada do que precisava, mas com muito carboidrato e esmaltes novos. Boicote do boicote! Será que aprendo na marra agora que não tem nada decente pra comer no almoço?

 Já gastei demais com roupa nova recentemente. Falta cabide nesse armário, não cabe mais sapato na parte de sapato. Tem sapato no armário da cozinha...

— Ah! Esse mocassim verde está tão barato. Eu preciso de um mocassim verde. Como eu vivi até agora sem mocassim verde? Eu faço caber no armário.

Ok, a voz boazinha perdeu de novo. A voz boazinha deveria ser mais estridente, caramba! Não convence nem a mim mesma desse jeito.

Vamos lá focar nesse texto, eu termino em meia hora, pá-pum!
— Mas antes vou só aqui checar meu Facebook, rápido, prometo.
— Checa o Facebook depois, não acha melhor?
— Oi? Olha, a fulana largou do namorado! Será que ela apagou as fotos com ele? Ai, coitada, apagou, tá feia a coisa, só posta música depressiva. Nossa, parece interessante esse texto que o sujeito compartilhou. Vou ler rápido. Ah, vou aproveitar pra ver as fotos dele, ai, tão lindo. Quem é essa vaca que curtiu a foto dele? Cabelo alisado o dela, hein.

Duas horas depois, nem o primeiro parágrafo do texto que seria feito em 30 minutos foi concluído. A voz da razão gentilmente levantou uma placa: eu já sabia!

Vai ver o autoboicote faz parte. A graça toda da coisa é chegar no fim do dia e analisar os ganhos e as perdas de todos os diálogos com a gente mesmo.
— Tá, vou analisar, mas antes deixa eu dar uma entradinha no Instagram...

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quarta-feira, 23 de julho de 2014

ALGUNS DE ALEXANDER PAYNE >> Carla Dias >>


Alexander Payne é um diretor que me agrada muito. Não somente um diretor, mas também um roteirista que me apetece. Para mim, As Confissões de Schmidt (About Schmidt/2002) e Sideways – Entre Umas e Outras (Sideways/2004) são filmes primorosos. Em Os Descendentes (The Descendantes/2011), ele exercita a delicadeza ao abordar a perda de uma pessoa em processo. Nos três filmes, Payne atuou como roteirista e diretor.

Sabe-se sobre Payne que ele é ótimo quando se trata da seleção dos atores, e eles o adoram. Talvez por isso ele consiga tirar o melhor daqueles que já fazem parte da seleta lista de artistas realmente talentosos. Quem não se lembra de Jack Nicholson em As Confissões de Schmidt? Se você não se lembra, é porque não assistiu ao filme. Por isso, eu o aconselho, veementemente, que o faça. Em Sideways, Paul Giamatti, um ator fantástico, consegue ir além do que já fizera em Anti-Herói Americano (American Splendor/2003), de Shari Springer Berman e Robert Pulcini. Em Os Descendentes, George Clooney aparece vestindo uma fragilidade rara nos personagens que costuma interpretar, o que faz toda a diferença para o filme.

Há algo que Payne faz com maestria: equilibrar o humor e o drama, naquela dose que todo ser humano experimenta. Seus filmes falam sobre pessoas comuns e os seus demônios, encontrando em um cenário árido as riquezas de ser o que somos: humanos. Nesse ponto, ele me lembra de outro grande diretor, por quem também tenho apreço, Robert Altman. Short Cuts – Cenas da Vida (Short Cuts/1993) é um filme revelador. E se você não se lembra da atendente de telessexo trabalhando em casa, atendendo a uma ligação, enquanto troca a fralda do bebê, esse é mais um filme para a lista “eu tenho de assistir e logo”.

Recentemente, assisti ao Nebraska (Nebraska/2013), filme dirigido por Payne, lançado em 2013. Woody Grant (Bruce Dern) é um idoso de Montana, que sofre de uma leve demência, e acredita que ganhou um milhão de dólares ao receber uma carta promocional de uma revista. A fim de reivindicar seu prêmio, ele decide ir a pé à cidade de Lincoln, em Nebraska, o que seria atravessar o país. Depois de várias tentativas, sempre interrompidas pelo filho, o mesmo decide levar o pai até a agência que enviou a correspondência. O que acontece durante a viagem é o que torna Nebraska de uma delicadeza ímpar. Dern é um ótimo ator, que faz com que Woody se torne um personagem interessante em todos os aspectos.

Nebraska é baseado em uma situação pela qual Bob Nelson, o roteirista do filme, passou com seu pai, assim como histórias que ele escutou sobre vários velhinhos que foram até a redação de uma famosa revista, nos anos 90, com as cartas promocionais que receberam, a fim de retirarem os seus prêmios.


Nelson criou um roteiro no qual se encontram personagens interessantíssimos, como a própria esposa de Woody, Kate, interpretada primorosamente por June Squibb. Minha curiosidade girava em torno da participação de Will Forte, um comediante de sucesso, interpretando David, filho de Woody, que tenta conhecer o pai, que ele julgou indiferente a ele, a vida toda, assim como a oferecer a ele alguma dignidade. Só que, durante a viagem, David descobre que o pai é um bom homem, capaz de grandes gestos de gentileza, mas que nunca foi de falar muito. Will Forte foi uma escolha acertada para o papel.

Nebraska - Bruce Dern e Alexander Payne
Um roteiro como o de Nelson não resultaria em um filme brilhante como Nebraska se não fosse o olhar de Payne, que teve de bater o pé para fazê-lo em preto e branco, o que se mostrou um detalhe fundamental para o filme. O diretor também sabe fazer cenas sem diálogos que dizem muito. Em Nebraska, ele abusa disso. Abusa, mas sem passar do ponto, e criando momentos geniais.

Nebraska - Bruce Dern, Will Forte e Alexander Payne
Para mim, Alexander Payne é um dos roteiristas e diretores que melhor sabem contar uma história simples, como é a vida da maioria de nós, trazendo à tona detalhes que a tornam admirável. Criar e dar sentido aos personagens como os que ele vem oferecendo aos espectadores é coisa de quem sabe que a vida é breve, mas pode ser bem divertida, apesar dos pesares.


Clique aqui para conferir Alexander Payne no IMDb.



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terça-feira, 22 de julho de 2014

INSISTIR EM DESISTIR >> Clara Braga

— E você, em algum momento, pensou em desistir?
— Ah, pensei várias vezes, mas ai encontrei apoio nos meus familiares, nos meus amigos, nos meus amores e segui em frente, batalhei muito para chegar até aqui!
— E se você fosse dar um recado para seus admiradores, o que você diria?
— Para nunca desistirem de seus sonhos, tenham fé que vocês irão realizar o que desejam!

Por acaso isso soa familiar? Para mim soa muito, é o diálogo básico de 90% das entrevistas feitas com grandes celebridades, seja da música, do teatro, da dança, do esporte, não importa. E convenhamos, sorte a deles que dizem que pensaram em desistir, mas não desistiram. Dá um ar dramático para a entrevista, e a gente, que sabe que muitas vezes nem foi assim, adora um drama! 

Vai dizer que não é um tanto decepcionante quando você está assistindo àquela entrevista com o seu ídolo e ele responde: "Não, nunca pensei não, tudo aconteceu de forma muito natural, eu sabia que essa era minha vida, sempre todo mundo me apoiou muito, nunca tive problemas com a equipe gigante que trabalha comigo, nunca me deparei com uma mulher na TPM que me tirou do sério, nunca tive dificuldades para pagar as contas, nunca fiquei doente durante um mês inteiro, nunca passei por situações constrangedoras, nunca corri risco de vida e não tenho história nenhuma para contar." Em questão de minutos você já está entediado! 

É claro que quando é com a gente, a gente quer é tranquilidade, queremos resolver nossas coisas na paz, sem correria e sem dificuldade, afinal, ainda queremos chegar em casa cedo, tomar um belo banho, deitar  com um balde de pipoca do lado e assistir a um filme tranquilo, daqueles que não exigem muito da gente. Mas as celebridades não, elas têm que passar por situações difíceis para ter o que contar, parece até que só alcança a fama quem, em algum momento, chegou no fundo do poço ou quase lá. E a gente adora, parece até que aumenta nossa admiração pela pessoa, gostamos mesmo de uma boa história de uma pessoa super atalhadora, nada de preguiçosos acomodados!

O que eu não entendo é: qual o problema em desistir? Só se fala em desistir como algo muito distante, que a gente quase faz, mas somos fortes o suficiente para darmos a volta por cima e seguirmos em frente! Para mim, forte mesmo é quem tem coragem para desistir! Forte para dizer: "Não quero mais passar por isso, desisto." E isso não significa que depois você não pode tentar de novo, mas naquele momento é melhor desistir, qual o problema?

Acho que muitas vezes não desistimos para não termos que lidar com aquele sentimento de fracasso, mas por que desistir tem sempre que estar relacionado a fracasso? Acho que fracassado mesmo é quem fica batendo a cabeça na parede sabendo que aquela escolha não foi a melhor, mas não tem coragem de simplesmente largar tudo e começar de novo. Ou então só largar tudo e pronto, seguir outro caminho.

Digo isso pois eu mesma tenho muita dificuldade em desistir, e tendo a admirar mais quem desiste do que quem insiste em algo que todo mundo está vendo que não vai dar certo, pelo menos não agora. A vida é um eterno processo de aprendizagem, e eu aprendi com uma grande amiga que processo é poder voltar e literalmente fazer um novo caminho, ou seja, se permitir desistir de tudo e começar de novo. Depois que entendi isso, algumas escolhas ficaram tão mais leves que convido todos a, de vez em quando, se permitirem desistir, sem peso algum na consciência. É tão bom!


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domingo, 20 de julho de 2014

NÃO SE PISA NA LUA >> Eduardo Loureiro Jr.

Há quem diga que, há exatos 45 anos, o homem pisou na Lua. E há quem diga que não.

Quem sou eu para suspeitar da veracidade dos depoimentos de cientistas, jornalistas e políticos? Mas compartilho com os descrentes algumas dúvidas: se o homem chegou mesmo à Lua, por que não retornou? Por que a corrida armamentista, desenvolvimentista, mercantilista, não fez com a Lua o que faz com todo lugar onde chega? Por que não ocupou, colonizou, extraiu, desnaturou? Sem desconfiar de uns nem me fiar em outros, gosto de pensar que a Lua, a Senhora da Inspiração, permitiu a aproximação do Homem pensando que alguns dos tantos que lhe louvavam em versos estavam chegando. Quando percebeu que se tratavam de militares e não de poetas, que vinham não com penas e papéis, mas com bandeiras e coturnos, a Mulher de Fases decidiu fechar seu corpo. E não há tecnologia que a faça abrir por enquanto. Talvez quando os poetas ganharem asas e puderem pousar lá sem nenhuma parafernália. Talvez, apenas talvez.

E você, que diz que me diz?

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sábado, 19 de julho de 2014

QUANDO O SOL SE PÕE DENTRO DE UM CAFÉ
>> Cristiana Moura


Não havia mesa livre como de costume. Esqueci-me do desconforto da cadeira alta na simpatia larga do rapaz do outro lado do balcão. Tomava meu chá e observava os passantes do lado de fora do café. Alguns paravam para olhar o cardápio através do vidro.  Do lado de cá temos uma impressão divertida de que eles é que estão dentro de uma vitrine.

Sim, uma vitrine de manequins vivos. A luz do Sol adentrando o recinto através do vidro parece não lhes dar permissão para enxergar o lado de dentro. A moça para, olha talvez o cardápio e, por certo, a si mesma. Arruma o cabelo, passa batom. Ela percebe que está sendo observada e o jeito sem jeito da moça se faz diversão pro mundo do lado de cá. Leandro, o rapaz vendendo cafés e simpatia detrás do balcão, ri. Nasce uma descontração solta do tudo igual do trabalho no café.

Leandro conta que é sempre assim quando é antes do pôr do sol. A luz transforma o vidro em espelho e o pessoal se arruma, faz careta e, se percebe que estamos vendo daqui, é um desconcerto só. Vai contando e rindo um riso daqueles de canto de boca. Parece que os narcisos se afogando na vitrine do café contribuem para a simpatia do rapaz que já traz no olhar o cansaço da semana inteira de trabalho.

Eu tomo meu chá. Leandro guarda xícaras, copos e pires com destreza e intimidade, sem perceber que seus utensílios são instrumentos criando música para os chás e cafés de fim de tarde.

O Sol se pôs e fiquei aqui pensando o que será que, nesta vida, de tanta luz, me ofusca também.



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sexta-feira, 18 de julho de 2014

O CASACO - PARTE II >> Zoraya Cesar


Aline vestiu-se discretamente, como sempre. Vestido, meias, sapatos, tudo preto. Está parecendo um urubu, disse a mãe, gentil, como sempre. 

O casaco. Ela o admirou longamente, como era bonito, um amarelo tão vistoso, brilhante, extravagante, até agora não entendia como tivera coragem de comprá-lo. Assim que chegou à rua, vestiu-o. 

E, novamente, daquele momento até o final na noite, a Aline tímida de doer, explorada, amassada, inexpressiva passou a ser mera espectadora do que uma outra Aline fazia enquanto ocupava seu corpo. Aline-do-casaco-amarelo parecia muito à vontade com o mundo. Parou num bar, entornou um copo de vodca e depois pegou um táxi. Desceu no local da festa, um bar-restaurante badalado que a mídia propagava ser ideal para os modernos e antenados. 

O ambiente, lusco-fusco, estilo decadente-chic, estava lotado. Isso vai ser um saco, pensou. Nenhum de seus colegas a reconheceu. Aline viu Cristiana Rosely, que, bêbada, ainda era mais vulgar que sóbria. Viu também o chefe, e não entendeu o que a outra Aline achava de tão especial naquele mauricinho mal vestido com calça de tergal preta e camisa social branca. Coisa mais brega. Mas, enfim, gosto não se discute.

Aline se aproximou dele, insinuante, manemolente, olhos verdes derramados. E um casaco amarelo que traduzia disposição para sexo selvagem — pelo menos foi o que o chefe pensou quando aquela verdadeira Maeve o beijou na boca e o empurrou para o canto mais escuro daquele botequim de luxo duvidoso. (O que eles fizeram não posso contar, esse é um blog familiar.) Depois, simplesmente, Aline o largou lá, embasbacado, sem jamais associar aquela deusa à sua tímida e sensaborona funcionária.

Aline foi ao banheiro retocar a maquiagem, estava na hora de ir embora daquele antro de chatos. Já tinha feito um favorzinho à dona do corpo, agora ia tratar de se divertir. 

Nesse momento entra Cristiane Rosely, disposta a tirar satisfações com a mulherzinha de casaco amarelo escandaloso que ousara pegar seu homem, mas não deu nem para abrir a boca. Aline deu-lhe dois tapas fortes na cara, desconcertando-a, e imobilizou-a com uma chave de braço que a deixou sem fôlego, tal a dor. Ato contínuo, com uma destreza impressionante, abriu a bolsa de Cristiana Rosely, pegou o batom e pintou-lhe toda a cara, descabelou-a, tirou-lhe os sapatos e jogou-os, junto com a bolsa e todo seu conteúdo na privada. Ainda torcendo fortemente o braço da oponente, empurrou-a de volta para o meio do salão. Cristiane Rosely virou a piada da festa, a piada do ano, toda amarfanhada, descalça, pintada como um palhaço, choraminguenta e tonta. Ninguém ria mais que o chefe.

Aline seguiu pela noite, satisfeita por ter prestado mais um favor à outra. Entrou em bares e lugares que a pacata Aline sem casaco jamais suspeitara existir, mas percebia, de dentro de seu corpo, que a persona do casaco amarelo estava em seu habitat natural. Bebeu álcool suficiente para derrubar um cavalo, sem que isso a afetasse um mililitro sequer. Foi cumprimentada como velha conhecida por vários barmen e outros frequentadores, rivetheads, punks, metaleiros, nada lhe parecia estranho. Beijou homens de tatuagens enormes e assustadoras. Fumou do cigarro de travestis bem vestidos. Dançou em cima da mesa de bilhar, tirou a calcinha e rifou-a entre Hell’s Angels, e ninguém, ninguém mesmo, ousou fazer-lhe qualquer mal ou faltar-lhe com o respeito. Voltou para casa de carona com um homem esquisito que teria feito a Aline sem casaco sair correndo, numa Fat Boy Special em que a Aline sem casaco jamais teria coragem de subir. 

A noite acabara. Assim que chegou, a mãe lhe perguntou que vadiagem era aquela. Aline apertou o braço da velha e sussurrou em seu ouvido coisas que nunca saberemos ao certo o que eram. Mas sabemos de certo que a outra Aline nunca mais foi importunada ou explorada pela mãe ou pela irmã.

Tirou o casaco, guardou-o cuidadosamente e dormiu. 

Acordou achando que tudo fora um sonho vivíssimo e muito doido, mas apenas isso, um sonho. No entanto, não conseguiu encontrar a calcinha. Seu cabelo cheirava a cigarro. Sua boca estava intumescida. Dentro da bolsa havia uma faca Jim Bowie que ela nunca vira, e o celular tocava insistentemente. 

Será que dera seu número a um daqueles estranhos? Àquele tal de Jim Bowie? Não atendeu. Mas a pessoa deixou um recado:

Aline? Aqui é Lenora, dona da loja onde você comprou o casaco. Espero que esteja tudo bem com você. Precisamos conversar. Esse casaco tem estranhas propriedades, nem deveria ter sido exposto à venda. Venha me procurar. Pode ser caso de vida ou morte.

Aline não entendeu muito bem, mas não podia duvidar do que vivera. O casaco ou despertava nela uma personalidade selvagem ou permitia a incorporação de alguma entidade. Não fazia diferença, o que importava era que, toda vez que colocava o casaco não se pertencia mais, passava a ser espectadora de si mesma.

Ao passar pela sala, a mãe e a irmã abaixaram a cabeça — não a humilharam, não lhe pediram dinheiro, não nada. Apenas lhe deram bom dia, baixinho e respeitosamente.

Aline parou em frente à loja, agarrada ao casaco, indecisa, lembrando de todos os acontecimentos ferozes das últimas 24 horas e de todos os acontecimentos insossos dos seus últimos 24 anos de uma vida sem horizontes. 

Podia ser caso de vida ou morte. Devolveria o casaco?


(Maeve é uma deusa irlandesa, símbolo da sexualidade plena e impetuosa, da mulher que escolhia seus parceiros sem cair na promiscuidade.)

(Aline, na sua inocência, pensou que “Jim Bowie” era o nome do dono da faca. Na verdade, essa é uma típica e mítica marca de faca norte-americana, que traz o nome de seu mais famoso portador. Sabe Deus onde e como Aline arranjou isso àquela noite.)




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quarta-feira, 16 de julho de 2014

VIOLA DA GAMBA, LITERATURA E VIOLONCELO
>> Carla Dias >>

The Quintet © Otto Piltz

A pesquisa, com o fim de escrever um livro, é algo que faço somente quando definitivamente necessário. Depois que embarco nessa jornada, não há como fugir da pesquisa. É preciso saber se aquele dito popular, que você escutou, durante a infância toda, que decidiu incluir nessa história inventada, é originalmente como lhe disseram. Às vezes, uma palavra que os seus avós pronunciavam de um jeito, não era bem assim, mas você fixou, então tem de reciclar, colocar a palavra em ordem. Mesmo depois de descobrir o dicionário, às vezes me espanto com a lembrança de alguma palavra que aprendi na infância, e que, adulta, descubro que o seu sentido estava correto, mas não a sua grafia.

Obviamente, eu falo sobre uma época em que a informação não era amplamente disponível como hoje. De quando até mesmo o professor mandava a rua brilhar, em vez de ladrilhar; que vaiar Roma fazia muito mais sentido do que a ideia de ir até ela. Nos dias de hoje, a pesquisa ficou mais rápida, apesar de ainda exigir discernimento do pesquisador, para que não caia nas arapucas daqueles que oferecem informações incorretas. Como sempre, a fonte é tudo e mais um pouco.

Meus textos são, na sua maioria, sobre pessoas e suas percepções sobre a vida, e algum ponto de virada que deixa tudo às avessas. Não é por escolha, mas porque assim acontece quando escrevo um livro. Raramente, a pesquisa é mais necessária do que o mergulho interior. Porém, às vezes eu me atrevo a incluir informações no tal sobre o que não conheço muito bem, como ando fazendo no livro que venho tentando finalizar já há algumas semanas, que está mesmo no final, mas que ando protelando, porque dizer adeus aos personagens é sofrível. Mas chegarei lá.

No livro, a personagem principal é apaixonada por arte, principalmente música e literatura. Até aí, tudo bem, eu também sou. Mas essa figura, acostumada a viagens interiores que lhe despertam uma realidade alternativa, é uma pessoa que sabe aproveitar esse conhecimento de um jeito muito mais amplo. Ela tentou aprender a tocar um instrumento, estudou muitos deles, mas sem que surtisse efeito. Tentou cantar, mas desafinada que é, também desandou nessa tarefa. Até o momento em que descobriu que era, antes de tudo, uma ótima escutadora de música, e que assim vinha alimentando o espírito, desde criança, incutindo trilha sonora a sua existência.


O violoncelo é o instrumento musical que apresentou a essa personagem a paixão pela música. A a minha curiosidade sobre ele veio de um belíssimo filme francês, que eu assisti há muitos anos. Todas as manhãs do mundo (Tous les Matins du Monde/1991) conta a história de um talentoso músico que toca viola da gamba, um primo do violoncelo, e que ao voltar para casa, após uma viagem, descobre que sua esposa está morta. A partir daí, ele não sai mais de casa, dedicando-se somente à música e às suas filhas. A beleza de sua música se torna assunto em pauta, sendo convidado até mesmo para fazer parte da orquestra da corte de Luiz XIV, mas ele não aceita o convite. O filme é de uma delicadeza ímpar, um poema.

Pesquisando a viola da gamba, apaixonei-me pelo violoncelo, mas de jeito tímido, ainda que Jaques Morelenbaum já fosse dono da minha admiração. Essa querença ficou na minha alma, quietinha, até eu ter de escolher um instrumento pelo qual a personagem se apaixonasse e que não tivesse habilidade nenhuma de aprender a tocar, o que a levou a se tornar uma ouvinte atenta, coração e mente sempre abertos à música criada e executada com esse instrumento. Ao fazê-lo, conversei com uma amiga violoncelista, que me indicou quem eu deveria escutar. Em meio a essa pesquisa, conheci Adam Hurst, um músico e compositor que, como consta em sua biografia, no seu site, usa seu instrumento como uma voz melódica para criar apaixonada e emotiva poesia musical que fala à alma. Confere.

Só que não bastou essa paixão pelo violoncelo que, desde Adam Hurst, vem sendo a trilha sonora que me permite acessar emoções mais profundas. Eu tive de incluir na história um personagem dual, um violoncelista muito famoso, que se torna amigo e confidente dessa personagem, e que chega a acordá-la tocando, uma metáfora para um despertar muito menos agradável. Mas a música é somente um amparo para a personagem, não a sua história completa. É uma ferramenta para que ela acesse lembranças que escolheu mudar para ser capaz de aceitar determinadas situações.

Diverti-me pesquisando para esse livro, conhecendo músicos e instrumentos. Confesso que pouco entrou na história, mas muito invadiu a minha alma. E se fala diretamente à alma, quem sou eu para não escutar e aprender com o dito?



"Levanta-se e sai do quarto, abandonando-me ao silêncio no recinto e à algazarra das inquietações interiores. Entretanto, volta em seguida, o violoncelo como companhia. Senta-se na cadeira, a janela de fundo. Apruma-se, assumindo a intimidade com o instrumento, mostrando que entre eles há sintonia como raramente há entre as pessoas. Ordena-me, resoluto feito educador austero, que me deite, feche os olhos, permita-me levar. Para mim, nada nesse dia tem feito sentido ou me permito contradizê-lo. Sendo assim, acato a ordem dele e me deito, puxando o lençol até cobrir o nariz. Os olhos eu mantenho focalizados nesse homem que decidiu, sem a minha permissão, colocar seu plano em prática. Ele começa a tocar, a música deslumbrando os meus pensamentos. Então, compreendo que o plano dele, desde o início, era me aquietar a alma." Carla Dias, trecho do livro Aquela que chegou depois, em fase de conclusão.



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segunda-feira, 14 de julho de 2014

HASTA LA VISTA >> Albir José Inácio da Silva

Não comento a copa porque não sei nada de futebol. Mas fiquei à vontade depois de ouvir por uma semana os especialistas tentando explicar a derrocada da seleção. Quase concluí que sabem tanto quanto eu. A própria Alemanha campeã parece nos dar a resposta — investimento nas equipes de base.

Mas a copa acontece vinte e quatro horas por dia, durante um mês, e o futebol apenas algumas horas. E não ia ter copa, nem aeroporto, nem estádio, nem hotel, nem segurança. E ia ser um fiasco, uma risadaria, e os gringos iam ter certeza de nossa incompetência para fazer qualquer coisa que não seja samba e futebol.

E a única coisa que salvava o Brasil nesta copa do mundo era o futebol porque somos pentacampeões, nascemos jogando futebol, e está no nosso sangue, no suingue, na malemolência do drible e do toque de bola.

E os gringos jamais conseguiriam isso porque são muito duros, não têm jogo de cintura, não aprendem futebol na várzea e no paralelepípedo e jogam um futebol burocrático e retranqueiro, sem beleza e arte.

E vieram os gringos e jogaram futebol, muito futebol, e cada partida foi mais emocionante que a outra, e as previsões foram pro espaço. Espanha, Itália e Brasil foram humilhados. E Espanha e Itália estão muito felizes de ter para onde voltar. Porque o Brasil teve de ficar aqui e nada poderá fazer além chorar e crucificar Fred e Felipão, com riscos de recaída no complexo de vira-latas.

Manchete do jornal de hoje informa que faltam setecentos e poucos dias para as Olimpíadas. Amanhã devem começar a dizer que não vai ter Olimpíadas. Depois das eleições, pode ser que se calem por algum tempo, mas dois mil e dezesseis é de novo ano eleitoral e as pragas e maldições recomeçam.

Mas, tirando o futebol, aeroportos funcionaram, estádios estavam prontos, hotéis receberam, e o povo abraçou os convidados. A imprensa internacional chamou de copa das copas e os jogadores das outras seleções declararam amor ao Brasil e prometeram voltar. Alguns turistas disseram, inclusive, que não iam mais embora.

Eufóricos estavam os hermanos, que chegaram ao Rio por terra, mar e ar. Tinha-se a impressão de que brotavam do chão e se reduplicavam, cantando em grupos, carreatas e ocupando todos os espaços. Nuvens azuis e brancas se moviam pela areia, pelas calçadas, restaurantes e supermercados, em número que talvez não coubesse em Buenos Aires.

Mas eram bem-vindos por todos, que se esforçavam em portunhol, o mais próximo de português que se ouvia no calçadão. Acho que, se os argentinos ganhassem da Alemanha, conquistariam sua segunda copa no Brasil. Porque da CopaCABANA já tinham tomado posse há um mês.

Os brasileiros gostaram da copa e dos estrangeiros. E vão gostar das olimpíadas. Alguns mais assombrados e bairristas, paranoicos em seu senso de propriedade e soberania, juram ter ouvido de alguns hermanos: — Bienvenidos,  brasileños!

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