sábado, 25 de outubro de 2014

TENTANDO CONSEGUIR >> Cristiana Moura

Não havia cabimento em fingir-se triste ou tensa, mas tanta alegria em tempos adversos a constrangia.

— Tá conseguindo estudar?
— Tô tentando conseguir.

Tentar já lhe bastava. Não exigia muito nem de sei mesma, nem dos outros. Este deve ser o segredo da alegria de Clarice — ela se contenta. Ela só ainda não sabe chorar. Talvez por isso, vira e mexe, senta  falta de ar.

— Viver, por vezes, tira-me o fôlego — ouvi-la dizer certa vez.

Tanto sua alegria, quanto seu desassossego marcaram encontro com aquele moço. Philos mexe com ela. Pode contar nos dedos de uma só mão as vezes em que se encontraram. No entanto, se sente como se o conhecesse há vidas. Ele acredita que o que ela sente é só desejo. Mas como dizer só em se falar em desejo? O moço do Sul não percebe toda a intensidade e urgência de seus sentimentos.

Clarice não tem grandes conflitos. Gosta do trabalho, segue seus estudos. Tem boas relações familiares. Seu filho já é grande e bem encaminhado. Parece uma mulher comum. Mas toda essa parecência não lhe cabe. É que ela, ao mesmo tempo que se contenta, se afoga em desejos querendo o novo, o desconhecido.

— Moram muitas mulheres em mim!

Ah, conviver com família, colegas, amigos é fácil. Complexo é conviver com estas mulheres que a habitam. Todo mundo sabe que muitas mulheres juntas rende muito barulho. Tem a que é caseira, a outra da balada, a focada em trabalho, uma outra que parece uma criança mimada, outra que é a sensualidade em pessoa. Ela já nem sabe quantas é.

Chegou em casa cansada, colocou uma música e todas se aquietaram ao som de Gil. Entre o contentamento e os desejos Clarice vai dialogando com as mulheres que a habitam. Vai tentando conseguir...

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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

INVEJOSO >> Zoraya Cesar

Espichou o pescoço acima do muro e olhou longamente para a grama do vizinho. Que, se não era mais verde, parecia mais apetitosa. (Não que Antonio fosse um ruminante no sentido estrito da palavra – talvez no sentido lato, vejamos). 

Sua esposa seria definida como “mulata sestrosa”, se ainda soubéssemos o que isso significa. Todos diziam que Antonio era um homem de sorte: cama, mesa e banho, ela dava conta de tudo, com louvor. 

Algumas pessoas, no entanto, nascem com o germe da verde, pegajosa, jamais assumida inveja. O invejoso nunca se contenta com suas posses e haveres; mesmo vestindo Armani, cobiça a camiseta Renner do vizinho. Quase uma doença, não fosse mau-caratismo mesmo.

Falávamos de apetites, então, e também de mulheres, gramas, muros e o que mais? Ah, vizinhos. Cortemos as psicanálises e entremos diretamente no terreno alheio. 

Moema, a mulher do vizinho (que, ao contrário da letra do João Bosco, não sustentava  qualquer vagabundo), era uma coisinha franzina e esquálida, loura pálida, de grandes e aquosos olhos azuis que pareciam constantemente espantados com o mundo. Desenxabida que fosse, tinha marido. E que marido! Trabalhador, gentil, bonito. Mais que bonito, usemos de sinceridade, Romualson era gostoso, pronto. E babava de amor por sua branquelinha. (Gosto não se discute. Quem ama o feio, bonito lhe parece. O coração tem razões que a razão desconhece. Nenhuma dessas platitudes explica coisa alguma, mas dão assunto pra conversa).

Escondido atrás da janela, como uma maricotinha qualquer, Antonio se retorcia de inveja vendo Romualson sair, feliz da vida, de mãos dadas com sua lambisgoinha. E a inveja – é bom que vocês saibam – estimula a imaginação. Antonio, mesmo tendo um mulherão em casa, sonhava com o corpo ossudo, mais parecendo o de um menino, a pele branca de Moema, seus vestidos largos, seus olhos desmesurados. 

Começou a cercar a vizinha, cheio de boas atitudes. Vou dar uma volta, D. Moema, quer alguma coisa? Pão quentinho? Jornal? Deixe que eu carrego suas compras. Ao encontrá-la, parava, falava sobre o tempo, a inflação, as eleições. Aos poucos foi se tornando mais íntimo. A senhora parece pálida, ta tudo bem? Seu cabelo, me permita, está mais bonito hoje... e assim por diante. 

Verdade seja dita que Moema, tímida, respondia a tudo negativa ou monossilabicamente, dependendo da abordagem. E mais a desejava Antonio, que, aliás, passara também a reparar na casa dos vizinhos, achando-a maior e mais bonita que a sua. Pura distorção, claro, uma vez que todas as casas do condomínio eram iguais.

E a mulher de Antonio? Nada percebia? Nada dizia? Ah, percebia sim, não era boba. O marido sempre fora invejoso, mas ganhava um bom salário e lhe dava conforto. Desde que não deixasse de pôr dinheiro em casa, nem abandonasse o casamento, ela deixava o barco correr.

Mas, como tudo na vida, essa história também chega a um fim. 

Dizem que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Um dia Moema, inesperadamente, convidou-o para entrar e tomar um café, numa voz baixinha e musical. Ele vibrou. Mais do que satisfazer sua luxúria com aquela esbranquiçada lavada a sabão em pó, ele queria ver se, por dentro, a casa dos vizinhos era melhor que a sua. 

Moema não pareceu contrariada com a mudança de atitude. Mostrou-lhe a casa toda, cômodo por cômodo, inclusive o banheiro, onde ela o trancou. Começou o pesadelo. Me tira daqui, me tira daqui, gritava ele. Só se você passar toda sua roupa pelo basculante, exigiu Moema, inclusive a cueca. Antonio, desesperado, passou. Espere um instante, ela ciciou. 

O instante chegou junto com Romualson. Que abriu a porta e deu logo duas chapuletadas num desnorteado Antonio, que, nu e apavorado, foi facilmente subjugado pelo forte – tanto mais que irado – vizinho. 

- Tava dando em cima da minha branquela, né palhaço? - Antonio bem que tentou, mas a dor dos tapas e o medo o impediram de responder o que quer que fosse. - Toma aí o que você queria, disse o ofendido vizinho.  

E o inusitado aconteceu. Moema subiu o vestido, desceu as calçolas e deixou à mostra um enorme – digamos – membro viril. 

Sem entrar nos detalhes sórdidos, revelo, no entanto, que a situação fora previamente combinada entre os vizinhos – já cansados do assédio - e a mulher de Antonio, que, parada à soleira da porta, a tudo assistiu e filmou. Depois, Romualson levou Antonio até a porta, jogando suas roupas na calçada.

Morto de vergonha e de outras dores, ele correu pra casa, segurando suas roupas na mão, rezando pra ninguém ver sua ignomínia. 

Sua mulher o esperava, com um banho de assento já pronto, uma pomada para assaduras e uma declaração:

- Se um dia, qualquer dia, você sequer pensar em sair de casa e me deixar sem nada, eu divulgo esse filme pros amigos, pro pessoal do trabalho, pra toda família. Tá entendendo?

Antonio abaixou a cabeça, humilde e arrasado.

Alguns meses se passaram, e, da janela, Antonio viu chegarem novos vizinhos ao condomínio, numa caminhonete já bastante usada. Que pick-up bonita, pensou ele, muito melhor que a Hilux que tenho na garagem...

(..."querer o que é dos outros é o seu gozo, e fica remoendo até o osso, mas sua fruta só lhe dá caroço... " Invejoso, Arnaldo Antunes)




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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O PREÇO DE SER DE VERDADE >> Fernanda Pinho



Acabei de ler um livro que me marcou bastante. Chama-se “A Extraordinária Garota Chamada Estrela”, do autor Jerry Spinelli. Estrela tem um rato de estimação, fica feliz quando seu time faz cesta no basquete (mas quando o outro time pontua, também), distribui cartões de aniversários para desconhecidos, usa as roupas que gosta (e isso pode ser um vestido que esteve na moda duzentos anos atrás), tenta trazer um pouco de alegria tirando canções de seu ukulele que leva sempre a tiracolo. Num primeiro momento, junto com o impacto de sua chegada à escola nova, Estrela desperta simpatias. Afinal, este livro nada mais é que uma delicada e verdadeira metáfora da vida. 

E a princípio somos assim. Grandes admiradores da autenticidade. Capazes de fazer discursos inflamados defendendo a liberdade de cada um fazer o que quiser, respeitar as próprias convicções, seguir o que seu coração manda, persistir nos seus sonhos, manter relações com quem se sente à vontade, construir seu próprio caminho. Lindo, maravilhoso. Se ficar só no discurso, melhor ainda.

Porque em algum momento, Estrela vai levantar suspeitas. “Ninguém pode ser tão legal assim”. E da suspeita para a rejeição se passa num piscar de olhos. Por que ninguém pode ser “tão legal assim”? Porque ser legal demais implica em ser diferente e a gente pode até admirar pessoas que fazem tudo o que dá na telha, desde que mantenham uma distância de segurança de nós, por favor. E, veja bem, quando eu falo de gente que faz tudo o que “dá na telha”, eu não estou me referindo a nada que possa machucar ou prejudicar o outro de alguma forma. Estou falando de atitudes inocentes mas que, por sair da previsibilidade, são tratadas quase como se fossem atos imperdoáveis. 

Gente que dança como se ninguém estivesse olhando, que ignora a uniformização das vitrines e faz a própria moda, que se recusa a fazer social em ambientes inóspitos, que fala a verdade quando questionado, que dá abraços de dez minutos, que ri na hora que tem vontade de rir, que chora na hora que tem vontade de chorar, que fala “eu te amo” quando sente que ama, que escolheu não perder tempo com quem lhe faz mal, que muda o rumo da própria vida, que ignora as etiquetas e as convenções. Sabe essa gente louca, sem noção, desvairada, sem juízo, perturbada? Então, elas não são nada disso. São apenas pessoas autênticas e verdadeiras, que se respeitam muito (e só quem se respeita muito é capaz de respeitar o outro).  Elas não estão fazendo nada de mau. Nada que irá prejudicar você ou quem quer que seja.  E por que te incomodam tanto? Bom, apenas porque optaram por fazer o que tinham vontade, e não o que você, preso em seu mundo limitado e previsível, esperava.

Imagem: sxc.hu


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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O DIÁLOGO >> Carla Dias >>

O que mais vem me impressionando nessas eleições é o comportamento de alguns cidadãos brasileiros, os reais detentores do poder de mudança que tortamente defendem. Ofensas são jogadas ao vento sem a menor preocupação sobre a quem elas vão atingir. Opiniões pessoais são tratadas como verdade irrefutável, o que somente colabora com a intolerância.

Dizem que é melhor não se falar sobre futebol, política e religião, porque sempre dá briga. Na verdade, acho que temos mais é de puxar a cadeira e nos aprofundarmos nesses assuntos, já que eles afetam diretamente as nossas vidas. O problema não é discutirmos sobre eles, mas fazê-lo impondo nossas certezas e atuando como provedores de monólogos, não participantes de um diálogo.

É essencial que aprendamos a conversar sobre assuntos complexos, que nos afetam como indivíduos e cidadãos, no pessoal e no coletivo, sem nos armarmos com a ideia de que não há outra saída, além daquela que é apresentada. Antes de chegarmos ao irrefutável, é preciso analisar as possibilidades, estejam elas de acordo ou não com a nossa versão da verdade ou do desfecho esperado.

Disseram-me que é utopia das brabas pensar que podemos chegar a algum lugar apenas com o diálogo, como se a única saída fosse recorrer aos pontapés.  Eu sei que o cenário político é dos menos aprazíveis, assim como sei que, se não nos tornarmos eleitores mais sábios e justos, se não pararmos com a violência verbal e de batermos no peito gritando “você não sabe de nada, eu é que estou certo!”, continuaremos a colocar o nosso destino nas mãos da sorte. E por mais que eu acredite que uma boa parte do que nos acontece seja oriunda da sorte, não consigo aceitar que essa parte - a que temos poder de modificar e o dever de defender - perca-se em meio a nossa incapacidade de defender o que nos é de direito: uma política da qual o país e os seus cidadãos se beneficiem.

O primeiro passo rumo a uma mudança política positiva, pode ser aceitarmos que a nossa realidade não é única, que nós não somos os únicos nessa jornada. Somos mais de 200 milhões e temos o que dizer e o que escutar. Temos de ponderar.



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terça-feira, 21 de outubro de 2014

OBRIGADA LINDSAY LOHAN

Obrigada Lindsay Lohan!

Devo muito te agradecer pelos memes mais engraçados que há muito não apareciam pelas redes sociais e por ter descontraído o assunto mais polêmico - e chato - dos últimos tempos! Não aguentava mais comentários agressivos sobre as eleições. Cheguei a ver comentário mais agressivos que os dos próprios candidatos nesses debates que mais parecem um ringue de luta!

Aliás, os comentários mais agressivos que vi, foram de pessoas que pediam para que os debates não fossem mais agressivos, e sim uma oportunidade dos candidatos mostrarem suas propostas!

Afinal, que mania é essa que a gente tem de pedir paz sendo agressivo, pedir silêncio gritando, pedir que as pessoas sejam pontuais nos atrasando, pedir paciência sendo impaciente?

Não gosto muito de falar sobre política, acho que mexe com um lado das pessoas que às vezes é melhor não mexer, mas na minha opinião, esse segundo turno expressa bem essa atitude generalizada de pensar em tudo olhando para o próprio umbigo. Virou briga de interesses pessoais, cada um pensando o que vai ser melhor para si, e não para toda a sociedade.

Agora, vale a pena ser tão baixo a ponto de ofender os outros apenas porque discordam em um tema?

Acredito que nenhum dos dois candidatos têm tido a postura que se espera de um presidente, e, enquanto isso, a sociedade parece seguir os mesmos caminhos e mostrar que talvez não saiba conviver em sociedade!

Estou vendo chegar a hora em que vamos ser retrógrados ao ponto de resolver isso na peixeira, vence quem sobreviver!


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sábado, 18 de outubro de 2014

MÃE E FILHO >> Sergio Geia

“Bacana ver vocês dois”. Ela me olha assustada. “Esse carinho. Mãe e filho. É uma imagem bacana. Sacumé, né, dias de hoje, esse mundo babaca de tão podre, uma imagem dessas faz bem. Olha, daria até uma crônica”. Ela põe o menino no colo. Sorri pra mim. Ele pede para ir ao parquinho.

Fiquei pensando nisso um bom tempo. Uma imagem que fez minha sexta-feira começar com o pé direito, rumo ao final de semana. E foi isso que senti saboreando aquele sorriso no caminho do trabalho. Até o dia despencar em mim como um Niágara de aporrinhação.

Primeiro a tevê, no quilo. O sujeito sendo transportado pro Rio numa operação de guerra. Em Cascavel, pessoas presas num hospital. No elevador, na fila do banco, ebola para todos os gostos. Todo mundo preocupado, índices de mortalidade na ponta da língua, chances de cura, países castigados, formas de transmissão. No dia seguinte se confirmou que não era ebola. No mesmo dia vi o Ministro da Saúde dizer que o Brasil continua sendo um país com pouco risco de contaminação.

E o pior é que a coisa começa a tomar conta das nossas vidas. Vira assunto de botequim, quando a gente vê está procurando notícia, querendo saber se o sujeito desceu ou não desceu em São Paulo, se alguém tá fazendo alguma coisa, pesquisando, procurando uma forma de deter essa praga antes que vire pandemia. Você volta do almoço e o segurança do prédio não perdoa: “É o apocalipse, seu Sergio”.

Outro dia tava no face correndo a timeline quando me deparei com a cena de um taxista transportando um passageiro. A câmera ali, instalada no táxi, talvez para dar mais segurança ao motorista. O taxista, um senhor, um avô com certeza, que precisava estar ali para aumentar a renda da família, cumpria sua obrigação com dignidade. De repente, o rapaz saca uma arma e atira na nuca dele. Fiquei chocado. Aquilo me embrulhou o estômago e serviu de input pra essas barbaridades todas que nutrem nossas almas todos os dias, tipo sujeito no meio do deserto aguardando a cerimônia da morte.

Começo a pensar que a gente se alimenta mal pra burro. E se enfartar depois, não pode estranhar. São carradas de placas de gordura entupindo a vida. Ninguém quer saber de agrião com arroz integral. Quer mesmo é uma picanha bem das mal-passadas. Aí viramos esses bestas trogloditas que por qualquer fechadinha mequetrefe tão xingando até a décima quinta geração do navalha. Vivemos num mundo besta e sem sentido.

Ele sobe no escorregador e sorri. Ela faz que sim com a cabeça. Ele olha meio desconfiado, o sorriso se transmudando em preocupação. Parece calcular a distância. Olha mais uma vez, depois se volta pra ela, agora sem sorriso, clamando por alguma coisa que ele nem desconfia o que é. Ela sente que ele precisa dela. Deixa o caderno no banco e se aproxima: “Vai, filho! Desce! Você vai gostar!”. Mesmo com medo ele se arrisca e deixa o corpo cair. Quando põe os pés no chão corre ao encontro dela. Os dois se abraçam num abraço que derrama amor. Ele diz que quer ir de novo. E vai.

Fecho os olhos torcendo pro sono não chegar, pra que eu possa saborear mais um pouquinho desse agrião com arroz integral.


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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

TRADUZINDO OS MUNDOS >> Paulo Meireles Barguil


O convite do Universo ao Homem é que esse o decifre, interprete, bem como a si mesmo.

A singeleza da convocação é inversamente proporcional à complexidade da sua realização...

Imprevisível que nos fascina. Garantia de brincadeira eterna.

Quem vai? Quem fica?

Quem está de bandeirinha? Quem é café com leite?

Será que a curiosidade é filha do medo?

E haja adrenalina, dopamina, noradrenalina, serotonina, endorfina, acetilcolina...

Abrir as entranhas do mundo e de si.

Macro e micro profundamente vinculados.

Identificar padrões. Descobrir uma lógica. Constituir leis.

O mundo, afinal, muda ou não muda?

Sofremos porque não admitimos que a dor é inerente à vida.

Aceite a vida. Aceite a morte. Aceite a alegria. Aceite a tristeza.

Tão simples. Tão difícil.

Brigamos — muitas vezes literalmente! — com o mundo. Gritamos o quanto ele é injusto.

Agonizamos porque ficamos congelados no episódio dolorido, o qual se eterniza em variadas situações.

Ninguém pode nos libertar dessa calcificação pelo simples motivo que somente cada de um nós é que pode identificar tal cenário e decidir dele sair.

Zumbis emocionais vagamos à esmo: de madrugada, de manhã, de tarde e de noite.

Usamos morfinas variadas para tentarmos esconder, de nós e dos outros, uma diferente septicemia.

Chegará o instante em que entenderemos as intricadas conexões entre emoção, corpo, cognição, alma...

Até lá, continuaremos sujeitos a traduções literais, em virtude do pouco conhecimento ou cuidado,  que tanto empobrecem a realidade.

O belo filme "The Physician" aborda a Medicina no século XI, numa saga memorável em prol do saber.

No Brasil, como exemplo da falta de atenção, o mesmo foi traduzido como "O Físico"...

 


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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

CARTA ABERTA A UM POSSÍVEL AMOR >> Mariana Scherma

Se não for me pedir pra ficar, por favor, não me mande mais mensagem. É crueldade me encher de expectativa, sumir com o vento e me deixar esperando a mensagem que vai dizer que você nunca deveria ter ido embora. Ela não vai vir, eu sei disso, no fundo e na superfície também. Mas a cada mero oi-com-sorriso que eu recebo seu, viro uma boba, esqueço o que já aconteceu e me transformo numa menina de 15 anos que perde a fome fácil, porque se alimenta dos sonhos que brotam ao saber que você ainda pensa em mim. Que não apagou meu número.

Talvez eu nem devesse falar essas coisas e manter minha aparente frieza, que é só aparente, convenhamos, mas talvez você não saiba disso porque eu sempre fui a divertida-desencanada-livre. Meio que continuo sendo, mas com uma pitada de tristeza porque você não quis ficar. Aliás, que mal lhe pergunte, por que você não quis ficar? Eu gostei de você no primeiro abraço, na primeira vez que senti seu perfume. Gostei de você na simplicidade com que nossas conversas aconteciam. Gostei de você na primeira vez que reparei seus olhos piscando e seus cílios volumosos fizeram meu coração sentir uma brisa que eu não imaginei ser possível sentir.

Gostei de você. Básico assim. Mas quem gosta diz que gosta, certo? E eu nunca disse, mas imaginei que você tivesse captado pelo meu olhar, no beijo que nunca quis terminar, nas mensagens nonsense, no silêncio que muitas vezes quis gritar. Não falei, dei bobeira e agora eu sigo tentando me distrair, tendo a certeza de que vai levar um tempo até esquecer como sua boca é vermelhinha e ficava ainda mais vermelha depois dos nossos beijos. Eu era mais feliz com você, agora, um pouco mais triste, ainda disfarço fazendo minhas brincadeiras idiotas com todo mundo ao redor. Essa pode ser a primeira e última vez que eu assuma que gostei de você. Só não vai ser a última se você voltar e ficar. Volta?

Volta porque eu acho que a nossa história ainda pode ter continuação. Como aqueles filmes que acabam e você começa a fazer contagem regressiva até a próxima sequência. A gente, junto, tem potencial. Você se lembra das risadas? Elas eram simples, eram gostosas, vinham fácil. E não é tão bom rir por nada? Não prometo que temos futuro como casal, mas se já foi tão bom, leve, sem briga, sem frescura, vai continuar sendo. Sinto que nossa história foi interrompida com vírgula, nada de ponto final da minha parte. E da sua? Eu gosto de você e, se for recíproco, volta, vai. Por favor. Agora, se você não gostar mais de mim, tudo bem. Sentimento não se força, sentimento acontece. Mas também não me mande mais mensagem. Uma hora dessas , eu esqueço você. Só que vai ser uma baita pena porque poderia virar amor.


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