sexta-feira, 25 de maio de 2018

VIDA >> Paulo Meireles Barguil

  
"– Tudo passa, tudo passará
 
E nossa estória não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contar
 
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás -
Apenas começamos

O mundo começa agora -
Apenas começamos."
(Renato Russo, Metal contra as nuvens)

Às vezes, deslumbrante e sublime.
 
Outras vezes, devastadora e saqueadora.
 
Costuma chegar e sair sem anunciar.
 
Sua duração é incerta, embora sempre tenha prazo de validade.
 
Misteriosa, para uns.
 
Insensível, para outros.
 
E, de repente, pode ser misteriosa para outros e insensível para uns.
 
Ao longo de bilhões de anos, a despeito de oferendas e investigações, ela segue incólume a sua jornada.
 
Seu DNA permanece indecifrável: apenas alguns pequenos trechos foram interpretados.
 
O desconhecido é muito maior do que se acredita saber!
 
Vestida de transitória, ela disfarça a sua permanência.
 
Temos pistas do que podemos fazer para, por instantes, conservá-la ou dizimá-la.
 
Extraordinário aprendizado é aceitar, sem reclamar e com gratidão, o que ela, sem interrupção, nos oferece e retira.
 
Feliz é quem, sereno, sopra para a vida: "– Eis-me aqui!".
 
 
[Foto de minha autoria. 22 de maio de 2018]


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quinta-feira, 24 de maio de 2018

SEGUNDA>>Analu Faria

Manhã de segunda-feira, céu azul, frio. Brasília no inverno é a vida como me gusta. Nesses dias, as árvores do caminho de casa até o trabalho estão mais vivas e mais imóveis. Lembro-me do poema de um amigo: "As árvores por mim passam". Se a gente olhar direitinho, elas passam mesmo por nós, que nos movemos sem vê-las.  

Também me vem à mente a música de George Harrison, rejeitada num álbum dos Beatles:

Sunset doesn't last all evening
A mind can blow those clouds away
After all this my love is up
And must be leaving*

Olho a borra do café na xícara. A amiga que lia o futuro nesses traços hoje mora na Suíça, acho que nunca conseguiu prever que seus sonhos se realizariam assim tão depressa. Trabalha numa organização internacional, a vida como le gusta. Sinto saudades da amizade, penso que seria bom tê-la por perto para juntas lermos um futuro divertido naqueles restos de bebida. Temos o afã de captar em nós o movimento das árvores, como se a imobilidade delas, nesta e em outras épocas, fosse uma impertinência. Por isso as borras de café. Por isso o apego ao futuro.

George Harrison é que era sabido (ele ou o eu lírico que escreveu "All things must pass", porque a gente às vezes escreve o que não sabe, mas o eu-lírico sempre conhece as coisas...). O amor também passa por nós, como as árvores imóveis. Aliás, o amor também passa, dentro de nós, como a descarga elétrica de um desfibrilador - faz renascer, cumpre seu papel e depois de um tempo já não é mais sentido, já não faz mais sentido. Um processo tão natural como as árvores do caminho de casa ao trabalho; tão simples, terno e cheio de lembranças carinhosas como as manhãs de segunda-feira no inverno seco de Brasília.
_____________________________________
*O pôr-do-sol não dura a tarde inteira
Uma mente pode levar aquelas nuvens embora
Depois de tudo, o meu amor está no fim
E deve ir embora.


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quarta-feira, 23 de maio de 2018

ATRAVESSE... >> Carla Dias >>


Noite passada, voltando para casa, esperando o semáforo mudar de cor e me permitir atravessar.

Avistei aquele homem no meio da avenida. Desligada que sou - porque enquanto caminho até em casa, minha mente toma conta de mim e relembro, reinvento, crio e desejo o que não me cabe desejar - e acostumada ao furor das buzinas, de quando as pessoas estão ansiosas para voltar aos seus lares, bares ou arredores, não percebi antes que havia confusão ali.

Sinal verde, atravessei a primeira pista. Na segunda, as pessoas se aproximavam do homem e ele as afastava com um gesto brusco. Na calçada, muitas pessoas observavam e comentavam sobre o que entendi ao alcançar o outro lado e o sinal abrir para os carros.

O homem estava na metade do seu trajeto. Caminhava na faixa de pedestres. Um problema físico o condicionava a dar passos muito miúdos. Mas muito miúdos mesmo. Ele atravancou a passagem dos carros, colocando-se ali, diante do furor de atrapalhar o ritmo, o horário, a pressa do outro.

As buzinas enlouquecidas, os gritos: saí daí!

Houve quem se atravesse a bancar a bola de boliche desviando dos pinos, passando pelo homem a quase relar em seu corpo meio torto. Definitivamente, limitado. Claramente, um desafio para ele.

O atendente da farmácia de esquina saiu de seu posto e foi até o homem. Quem sabe uma roupa branca e um tom ligado à saúde pudesse ser menos ofensivo. Mas não foi assim. O homem balançou os braços, nervoso, distanciando o gentil moço da farmácia, que estava realmente compadecido por ele.

Pensaram que ele estava louco.

Pensei: o corpo... O homem está desafiando as limitações de seu corpo. É busca por certo conforto que a realização de uma tarefa pode oferecer.

Plateia a postos, fui caminhando em direção a minha casa, mas muito inquieta com as buzinas e os gritos.

Saí daí! Vai morrer! Idiota!

Olhei para trás e me dei conta de que o homem dera dois, no máximo três passos miúdos, miúdos. Prestei mais atenção: cada gesto que ele fazia era truncado. Seu caminhar era uma coreografia dolorosa, de movimentos minimalistas, apesar do desejo escancarado dele de se livrar das correntes das suas limitações e se esticar todo.

Agoniei-me ainda mais. Não consegui me juntar aos espectadores, até o final da cena. Demorou para que o homem atravessasse a avenida, porque eu escutava as buzinas enlouquecidas e os gritos dos motoristas, enquanto comprava laranjas no supermercado. Ele ainda estava nessa travessia, quando paguei pela minha compra.

Caminhei até em casa, o coração pesado. Estava claro para mim que aquele homem saiu da casa dele com o objetivo de encarar suas limitações e mandá-las plantar batatas. Realizar um desejo, que também era mágoa, porque quem não quer ter o direito de atravessar a avenida no tempo que o sinal verde oferece? Por conta? É simples, é básico e vivemos a nos esquecer do valor do que é tão nosso, que nem imaginamos como seria não ter isso.

Aquele homem tinha ciência disso.

Sim, o homem atrapalhou o trânsito, e havia muitas pessoas atrasadas para continuar com suas vidas. Eles as atrapalhou. Ele e seus passos miúdos, mas miúdos mesmo. Só que tem dias em que atravessar uma avenida é tarefa árdua, requer mais do que a necessidade ou o desejo de fazê-lo.

O homem atravessou a avenida, sem a ajuda de um alguém que fosse. Eu já estava em casa, quando ele atravessou a linha de chegada. Escutei as buzinas e os gritos silenciarem, assim que entrei no apartamento.

A vida é mesmo frágil, e alguns de nós são fortes, de força que faz com que atravessemos avenidas, apesar dos gritos e xingamentos.

Onde já se viu? Catarse alheia a atrapalhar o trânsito.

E não consigo tirá-lo da minha cabeça: passos miúdos, corpo tremendo, cara feia para afastar compadecidos que tendem a atrapalhar com sua compaixão amansando o que tem direito a ser raiva, ainda que por algum tempo apenas.

A falta de palavras berrando: encontro vocês do outro lado da avenida!

Imagem: The Dinky Bird © Maxfield Parrish

carladias.com



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sábado, 19 de maio de 2018

BALADA DE UM AMOR INABALÁVEL? >> Sergio Geia



Céu azul de outono, sol forte, calorão de verão. Apesar do calor, um ventinho entra pela sacada. Anima. Dá vontade de colocar Skank, de ouvir “Balada de um amor inabalável”. Não ouvir Skank — quer dizer, o álbum todo —, ouvir apenas a “Balada”, somente ela e nenhuma mais. Coloco o CD no aparelho, sento no sofá, respiro fundo, olhar lá fora, no céu azul, no sol que ilumina casas e prédios, a “Balada” vai entrando, tomando conta.
Mistura de céu azul, sol forte, dia quente, não me pergunte que no momento sou incapaz de responder, mas esses elementos sempre me remetem à minha avó, Ita, que todos a chamavam de Ita, mas que se chamava, na verdade, Maria Antonieta. Lembro dela se arrumando pra sair, vestido estampado, toda perfumada, às vezes passava o dedo molhado atrás de minha orelha, eu sentia um geladinho perfumado. Sempre me levava junto, e nessas vezes, certamente na maioria, o céu era azul, o sol forte, o dia quente — pelo menos me vem agora essa ideia. Não se trata de lembranças, “ah, quando eu saía com a minha vó o dia estava assim, assado”, mesmo porque nem lembro concretamente desses passeios. Mas lembro algo do tipo, e se o dia está assim como hoje, lembro dela, que deve estar no céu, costurando para anjos, arcanjos e querubins, ou para os maltrapilhos mesmo, que, de repente, chegam estropiados do Purgatório.
Dona Ita era uma excelente costureira. Costurava todas às segundas-feiras para os mais necessitados no Convento de Santa Clara. Lembro que no quarto de sua casa tinha uma máquina de costura. Vez em quando, eu sentava nela pra pilotar. Ela achava engraçado. Todos os anos ela me presenteava com uma blusa de lã (eu adorava). Certa vez, ela costurou uma blusa parecida com a que o Leão usava no jogo: na frente era listrada, uma lista branca, outra verde, uma lista branca, outra verde, atrás era toda verde.
Outra lembrança: vó Ita ouvia todos os dias o programa de rádio do Silvio Santos. Sim, o Silvio tinha um programa no rádio. Eu chegava em sua casa, lá estava ela na sala costurando, ladeada de seu pequeno rádio que propagava vozes que eram do Silvio, do Nelson Rubens, do Décio Piccinini.
Quase todos os domingos almoçávamos em sua casa, na Barão, a família toda reunida. Minha mãe, meu pai e eu. Vinham de Campos do Jordão tia Tutu, tio Paulo, João, não lembro se Zé já era nascido. Viviane vinha de Pinda com o Neto. Nesse tempo, meu avô ainda vivia. O cardápio era sempre igual: macarronada e frango. Às vezes minha vó fazia doce de abacaxi, ou charlote, de sobremesa.  Lembro de uma mesinha vermelha de madeira que arrumavam pra mim no quintal; eu almoçava lá, e quase sempre o céu era azul.
Escrevo isso hoje e juro, juro por Deus que desconheço a razão que fez minha mente viajar para essas lembranças, que poderiam ser doces, mas que deixam um gosto amargo na boca. Na verdade, apenas queria ouvir a “Balada de um amor inabalável”, coloquei o CD no aparelho, sentei no sofá, foi quando bati o olhar no céu, no sol (você sabe o resto).
O vil metal às vezes mata uma família. Matou a minha. Até hoje me sinto destroçado, e choro às vezes com saudades de tanta coisa.
Vó Ita morreu triste, abandonada por uma de suas filhas, por dois de seus netos, um abandono cruel e totalmente sem sentido.
De inabalável nosso amor não teve nada.  Ele implodiu, como esses prédios velhos colocados abaixo por explosivos abraçados às colunas de sustentação. Em cinco segundos, raízes, laços, afinidades, amores, preocupação, presença, uma história profunda e intensa, tudo virou pó, poeira, como se nunca tivessem existido, e se foram, longe, levados pelo vento.
O mais estranho é pensar que uma balada que fala de um amor inabalável, sublimando um céu pintado de azul, possa despertar tamanhas inquietações.



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sexta-feira, 18 de maio de 2018

O JOGADOR - 2a PARTE >> Zoraya Cesar


Lucio nunca fora tão feliz. Conseguira a vida que pedira a Deus, mas que lhe foi dada pelo Diabo. E queria mais.

Solícito, como sempre, o Sr. Pedro Botelho fez-lhe uma proposta:

- Hoje você vai para um cassino clandestino de alto nível. Eu banco suas apostas. Crédito ilimitado. Só peço uma garantia.– E buscou algo no bolso.

Talvez influenciado pelos filmes de TV, Lucio esperou, sinceramente, ser obrigado a assinar um contrato com sangue. O homem, no entanto, pegou o celular.  

- Enviei o contrato para o seu whatsapp. Basta confirmar que aceita os termos do acordo. Veja bem, amigo, as regras me obrigam a esclarecer: este é um contrato de adesão. Não cabem ressalvas nem apelações. 

Lucio nem se preocupou em ler os termos e condições.
Nada tinha a oferecer.
O que poderia perder?
Como esperado, Lucio mal leu os termos. Que lhe importava uma barganha, com o Diabo que fosse, desde que realizasse seus desejos? O que tinha de seu? Bens? Nenhum, nada. Sua alma? Bobagem. Sua alma já estava perdida mesmo, que o Sr. Pedro Botelho fizesse bom uso dela. Se Lucio soubesse latim, falaria alea jacta est. Como não sabia, falou apenas foda-se. E clicou no quadradinho. 

Mais uma vez, a palavra do Sr. Pedro Botelho foi líquida e certa. Lucio agora jogava apenas nas melhores mesas da cidade. A excitação o tomou por completo, principalmente porque podia faltar dinheiro para tudo, menos para o jogo. Ele não comia, não dormia, não fazia sexo com Juçara (que, finalmente, concedera-lhe seus préstimos afetivos e sexuais. Não sei se por artes do Sr. Pedro Botelho ou se por amor ao dinheiro que Lucio agora ostentava). 

De repente, do nada, o dinheiro desapareceu; seu “empresário” também. E agora? Sem dinheiro, não podia apostar. Passou dias em aflição, a abstinência a consumi-lo. Dias depois, recebeu uma mensagem: "Realmente, eu merecia o céu, por conta da minha paciência. Faça o favor de cumprir a primeira cláusula do contrato. Ou vai se arrepender muito."  

Lucio apressou-se pegar o contrato. Era uma lista de afazeres que começava por pequenos delitos e ia num crescendo de crueldade e barbárie tais que ele não conseguiu ler até o final. Roubar a caixa de doações de uma Igreja; deixar um amigo na miséria; atear fogo em um abrigo de... ele vomitou.  

Depois de alguns dias, porém, Lucio sucumbiu. Precisava daquela vida de luxo e jogatinas intermináveis como o adicto precisa de sua droga. Não aguentava mais fugir de credores, não ter onde jogar e até Juçara saíra de casa. Lucio sucumbiu. 

Suando e tremendo, cumpriu o primeiro item da lista. Assim que viu as coisas voltarem ao normal, ele se sentiu estimulado a ir executando as outras tarefas, cada vez mais complexas e sórdidas. Percebendo que, por algum sortilégio, ele prosseguia impune, ganhou confiança. Até que, forçoso dizer, começou a encontrar um certo prazer na prática da crueldade. Era com olhos ávidos que procurava, no contrato, a próxima missão. 

De novo, nunca fora tão feliz. 

Até o dia em que, hospitalizado por conta de um mal-estar, descobriu que seu corpo fora invadido pelo mesmo câncer que acometera sua alma. 

Lucio tentou implorar por perdão, por uma nova chance, prometia viver em função da caridade...

O Sr. Pedro Botelho, no entanto, desfez suas esperanças. 

- Amigo, só em filmes esse negócio de pedir perdão funciona. Aqui, no mundo real, a lei do retorno é implacável. Além disso, você só está arrependido porque está com medo.

Lucio chorava, barganhava, pedia clemência. Não queria morrer. Faria qualquer coisa.

- Bem, bem, tenha calma. Vejamos, já me diverti tanto com seus crimes, que vou fazer um trato. Aposte a alma de Juçara comigo. Se perder, morre. Se ganhar, Juçara morre. Que tal?

Leitor Amigo, não vou mentir. Lucio não hesitou. Não lhe passou pela cabeça que era um jogador medíocre nem que seu oponente era o próprio Senhor das Trapaças. Muito menos que jogava contra a vida de outra pessoa. 

A partida foi demorada e tensa. Lucio jogava por sua vida. O Diabo jogava por... quem sabe? Sei apenas que, contrariando toda a lógica, Lucio ganhou o jogo..
Lucio ganhou a partida com um incrível
Royal Flush.
Mas, não tendo lido os termos do contrato,
perdeu o jogo.

Se tivesse forças, pularia de alegria, sem se importar, nem por um átimo, que outra pessoa morreria em seu lugar. O Sr. Pedro Botelho também parecia contente, pois gargalhava descontroladamente. Pegou, quase carinhosamente, a mão de Lucio:

- Não me canso de admirar a estupidez humana. Amigo, o bom jogador não joga com quem lhe é superior. E nunca, jamais, aposta o que não tem. Você viu filmes demais. Não se pode entregar a alma alheia. – Ria de se acabar.

- Mas eu ganhei, você disse que Juçara morreria em meu lugar. – Lucio gritava.

- Você não entendeu. Não lhe prometi vida eterna. Não tenho esse poder. Você não morrerá agora. Só isso. Porque, amigo, a morte é para todos. Juçara vai morrer, sim, mas no tempo dela. Como você tentou trapacear, apostando o que não tinha, sofrerá penalidade. É a regra. 

Lucio não acreditava. Arranhava o próprio corpo, em desespero. 

- Por quê? Meu Deus, por quê?

O Sr. Pedro Botelho sorriu, educadamente.

- Deus não tem nada a ver com isso, amigo. Trato é trato. Veja – ele colocou esquisitos óculos de leitura e leu, compenetradamente: “Se o contratante apostar algo que não lhe pertence, perde todos os direitos à salvação de seu corpo e alma”

- Assim, não lamento lhe dizer: você vai viver muito, cada vez mais doente. Quando seu corpo definhar, seu espírito enlouquecer e não sobrar mais que um espectro do que um dia foi humano, só então morrerá. Você não vai para o céu, já me informaram. Nem, por tempos incontáveis, para o inferno. Sua alma rota vai penar na Terra, sempre ansiando por uma forma física, sempre desesperado pelo sono eterno, sempre assombrado pelos seus crimes. 

Lucio olhava para ele, paralisado de pânico. O Sr. Pedro Botelho se levantou.

- Foi um acordo justo. Não te forcei a nada.Você teve a vida que pediu e eu consegui o que queria: vício, maldade, sofrimento, dor. É disso que me alimento. E eu não sou sôfrego, sabe? Tenho zilhões de almas como a sua. E a eternidade para esperar por mais uma...

Lucio gritou. Mas ninguém ouviu. 

Pessoal, entro de férias. Volto em meados de junho e, prometo, com uma história levezinha.

Foto: david-k. Pinterest
https://pixabay.com/en/poker-royal-flush-card-game-win-2198117/


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quarta-feira, 16 de maio de 2018

CENA DE CINEMA >> Carla Dias >>


O olhar se bandeou para a cena acontecendo no outro lado da rua. Ele logo pensou em como seria levá-la para as telas de cinema. Qual seria o tom que usaria? Como descreveria o que seu olhar alcançava assim, na rotina? Qual seria a história imaginada para ela?

Decidiu que seria filme em preto e branco, com roteiro muito bem trabalhado e poucos efeitos. As cenas seriam cuidadosamente conectadas por transições sutis. Os atores seriam dirigidos de jeito em que a linguagem corporal diria mais do que um longo diálogo.

Não que ele não preze pelas palavras. Na verdade, construiria diálogos longos, talvez mais longos do que muitos costumam apreciar. Mas a eles dedicaria pausas muito bem colocadas, pontuadas por uma coreografia de gestos que lhe dessem respaldo.

Gestos. Os movimentos. Afinal, é uma cena de cinema e o olhar precisa mergulhar nela. E a sonoplastia: os pés se arrastando pela calçada, a água descendo quente e suja pela garganta, ainda assim, matando sede. Carros, burburinho, o choro de uma criança faminta e cansada. Alguém cantarolando o canto do pássaro.

Pensa na música. Violão? Violão... Música melancólica para cena descabida. Cena que revela as mazelas humanas, explora cenário inquietante, embrenha-se em realidade indigesta.

A música levaria os espectadores pela alma. Deslizaria pelos sentidos deles, que, ao encararem a tela escura, onde vai surgindo um isso e um aquilo, formando essa cena que ele observa agora.

13h58.

Escolheria os atores com esmero. As entrevistas se dariam em um pequeno café, perto de sua casa, e seria uma longa conversa sobre tudo, exceto cinema. O teste seria eles sobreviverem à curiosidade dele. A mesma que não permite que ele desvie os olhos. Para que olhar?  Cena... Não de cinema, mas de realidade leviana.

A mãe tenta acalmar a criança, mas ela não para de chorar a fome. Empanturrada de desalento, a mulher abraça sua cria, como se prometesse um futuro menos cruel, onde o quarto da sua casa não seja na calçada de avenida movimentada, onde sua vida fosse observada com indiferença. Então, ela desnuda o seio, onde a fome da criança é aliviada. Ele consegue ler no olhar dela: até quando?

O homem ao lado dele comenta “que pouca vergonha é essa. Onde já se viu botar o peito pra fora na rua? Só sabe fazer filho mesmo!”.

É que na cabeça dele, esse filme é protagonizado pela esperança. A cena que o outro sujeito assiste é diferente da que ele assiste. Ele enxerga a lei da sobrevivência aos berros, assustando uma tímida esperança. O outro vê a indelicadeza de uma nudez que em nada tem a ver com o desejo dele.

Música aumentando aos poucos, tomando conta da cena. Qual história ele contaria? Quais seriam os nomes desses personagens? Onde seria a rua deles? Qual seria a fome deles?

O semáforo sinaliza em verde. Ele atravessa a rua, refletindo sobre a cena assistida ao vivo e em dores.

Imagem: Bodegón mitificado © Angel Planells


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terça-feira, 15 de maio de 2018

PERGUNTAS DE SALA DE AULA >> Clara Braga

Aluno definitivamente é um bicho estranho. Nem eles sabem explicar o que se passa pela cabeça deles enquanto você está dando sua aula. E é justamente desse inexplicável limbo que surgem as melhores perguntas sem nexo.

Outro dia estávamos em sala discutindo sobre um documentário que havíamos assistido que falava sobre a importância dos africanos para a cultura brasileira. Então um aluno perguntou: professora, sabia que faltar trabalho as vezes faz bem? É bom para refrescar a mente! Hoje só temos a sua aula, os outros professores faltaram, você bem que podia faltar também não é?

Não sei dizer se ele aprendeu algo sobre a cultura afro-brasileira, mas com certeza não gosta muito das minhas aulas.

Já um outro, durante uma atividade prática cujo comando era criar um alfabeto inspirado no alfabeto egípcio, perguntou: professora, você acompanha futebol? – Não! – E seu marido, acompanha? – Sim! – Professora, qual o time dele? – Menino, você não acha que está perguntando coisa demais não? Você tem atividade para fazer! – Ixi, já vi que é vascaíno.

Qual a relação de um hieróglifo e o campeonato de futebol? Eu não sei, mas com certeza entendi o motivo do meu marido estar xingando o vasco há uns dias.

Para fechar com chave de ouro teve a menina que timidamente me chamou à mesa dela para tirar uma dúvida enquanto eu falava sobre a arte indígena. Pela cara dela e pelo fato de ter me chamado tão sem graça até sua mesa já imaginei que perguntaria algo como: os índios ainda existem? Ou então: os índios andam pelados? Perguntas comuns em todas as turmas, para minha tristeza. Mas para a minha surpresa ela não queria saber nada sobre os índios, a pergunta dela foi: professora, mulher virgem pode usar o.b?

É, depois não entendem porque professor é tudo doido, mas até o ministério da saúde já advertiu: buscar relação entre sua disciplina e os questionamentos dos alunos causa danos irreparáveis para sua sanidade mental.



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sexta-feira, 11 de maio de 2018

QUASE... >> Paulo Meireles Barguil

Temos uma vida repleta de quases.
 
Eles se referem a situações do passado ou do presente, as quais são, a depender da perspectiva do narrador, agradáveis ou desagradáveis.
 
As ocorrências de outrora, embora não possam ser objetivamente modificadas, são passíveis de mudança subjetiva no que se refere à interpretação.
 
Um quase choroso, portanto, pode se transformar num quase risonho.
 
A recíproca, como você sabe, é igualmente verdadeira.
 
Os acontecimentos da hora também são suscetíveis dessas alterações.
 
Um relacionamento que quase terminou ou que quase não se findava: "– Se eu (não) tivesse feito ou dito aquilo...".
 
Um livro que está quase pronto: "– Falta só um capítulo...".
 
Uma viagem – de avião, metrô, ônibus, táxi, trem... – que quase (não) aconteceu: "– Foi por um triz!".
 
Uma amizade que está quase se iniciando: "– Será que eu confio?".
 
Uma aprovação no concurso que quase ocorria: "– Se eu estivesse estudado aquele assunto!".
 
Um sonho de décadas que está quase se materializando: "– Junho está aí...".
 
Entre próximos e distantes, vivemos um roteiro que é continuamente reescrito pela vida, pois ela adora uma surpresa e faz de tudo – tudo mesmo! – para evitar que alguém revele o final.
 
Com ela, não tem spoiler, mesmo que alguém, tolamente, diga: "– Eu já sabia!".
 
 
[Pôr do sol no Pico Alto – Guaramiranga – Ceará]
 
[Foto de minha autoria. 23 de agosto de 2017]


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