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TIA LURDINHA >> Albir José Inácio da Silva

  Eu tinha sete anos e não me lembro de muita coisa daquele tempo, mas os gritos de Tia Lurdinha à beira do poço eu nunca vou esquecer. Outras crianças chegaram de todos os lados porque não havia cercas, o terreno tinha muitas casas de barro e sapé e os gritos foram ouvidos em todas as direções. - Meu Filho! – dizia ela cada vez que completava uma volta e olhava para o poço. Depois das crianças, chegaram as mulheres, olhos arregalados, arranhando-se nas moitas de vassoura.   Da Tia Lurdinha podia-se dizer muita coisa, que falava demais, fazia fofocas, era chegada num escândalo, mas não que era descuidada com os filhos. Vivia para eles as vinte e quatro horas do dia. Mas nenhuma mãe sabe dos filhos o tempo todo e ela tinha onze, de dois a dezessete anos. Surgiam na hora de comer e dormir. Viviam soltos pelos matos e entre as casas como as outras crianças. Os filhos eram comuns assim como o poço e o varal. Adultos eram autoridades e quem estivesse por perto cuidava de filhos, s
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IMPERATIVO QUE EXCLUI >> Sandra Modesto

Todos os dias o caldo era o mesmo.    O interfone tocava alguém atendia, a negra entrava.    — É preciso limpar melhor as janelas. E a louça? Lave com força, quero brilho nesses copos, não gosto de café forte. Vê se limpa meus sapatos com mais cuidado.    Coitada da empregada. Acordava de madrugada todos os dias e não sabia o que iria encontrar em casa. Marido alcoólatra. A filha que dava pra qualquer um, pra levar dinheiro pra casa, o filho que se drogava e estava preso.    A empregada tem nome. Nem a autora lembrou-se da importância, as manchetes dos jornais? O delegado e os policiais?    Pois é. Aos domingos Ruth (a empregada) era revistada pra entregar um caldo para que Natanael se alimentasse um pouco, nem sol ele queria tomar mais.    Aqueles negros amontoados revoltados com culpas pequenas. A cor da pele: Preta. Quantas barreiras. Quantas marcas nos corpos.    A família no sistema estrangulador de sonhos num país chamado Brasil.    As caravanas de cidade em cidade, becos e rue

AS FÚRIAS NÃO PERDOAM - 2a parte >> Zoraya Cesar

Oréstia envelhecia. Suas artimanhas para provocar discórdias e cizânias ainda eram eficazes; porém, ela desejava ardentemente um último grande golpe antes de morrer.  E eis que o Destino (esse Senhor inescrutável e surpreendente) lhe dá uma neta. Oréstia aboletou-se na casa da filha, sob a desculpa de ajudá-la a cuidar da criança. Que seria criada para ser maleável à sua influência - a última, de uma sucessão de vítimas inocentes, enganadas pela máscara perfeita de ser angelical que Oréstia tecia com a solércia de um Iago.  Oréstia estava feliz como há muito não se sentia. O gozo em desgraçar a vida da mãe, induzir o pai ao suicídio, matar o marido e fazer da vida da filha e do genro um inferno, sem que percebessem, estava distante e apagado. Precisava imolar uma nova vítima em seu altar de atrocidades. Gaia, a neta, seria seu grand finale .  A Pitonisa revira os olhos, serena, sabedora que é das leis da vida e da morte. Nesse mundo ou no Tártaro, os crimes sempre são pesados, medidos

FUNDAMENTOS >> Whisner Fraga

é quarta e maradona morreu.  também quarenta ou mais em algo catastrófico numa rodovia. é quarta e amanhã outros infortúnios serão manchete. um facho relanceia essas dores indecifráveis. a menina me pede para mudar o canal. o que é hellsing? bleach? neon genesis? a menina e a moda da hora: anime. posso assistir a uma série de quatorze anos? me explica como funciona esse sistema de classificação indicativa? por que mataram aquele moço no carrefour? a menina embaralha curiosidades, tristezas e indignações. e ainda é só uma criança. desligo a televisão e começo a explicar.

COHAB >> Fred Fogaça

  Toda hora o sol se põe. Quanto cômodo tem pra gente brigar? Faz calor nos carros velhos e crianças de shorts. Você sabia da precisão do qu'eu pedi. A quitanda vende faltas básicas, os três por dez, o balançar de cabeça devagarinho dizendo opa com o canto dos olhos, mas não litrão, eu esqueci, por favor, umas a mais só. As cadeiras não pertencem se não às calçadas, os portões assim destrancados que a gente confia, os rumores rondam mais fácil. Para de gritar, os vizinhos vão te ouvir. Requintes baratos e quiçá medíocres e te digo: é uma bênção. Você não para de gastar dinheiro à toa. A casa branquinha, branquinha. Asseada. As panelas areadas no esmero de um hobby - porque é mesmo - uma toalha de galinhas de atravessado na mesa de vidro: eu encostado na cozinha, ela sentada lá na sala que também é uma copa, bem na frente na geladeira. A gente não tem tempo pra isso.   Obs.: essa e outras imagens usadas nas minhas crônicas são do meu instagram

A GARÇA E A ENGUIA >> Sergio Geia

  Não sei se você viu. Se não viu, corra, ainda há tempo.    A notícia estava em destaque no portal UOL: “Enguia perfura estômago de garça ao ser engolida e se salva nos EUA”.    Sam Davis, fotógrafo amador, engenheiro de Maryland, nos Estados Unidos, estava na floresta à cata de boas fotos. De repente, percebeu um movimento estranho. No céu, havia duas águias a seguir uma garça, talvez, prevendo boa refeição. Em terra, uma raposa buliçosa também imaginava o mesmo, e mantinha a atenção voltada para as aves.    Segundo a notícia, “inicialmente, Sam pensou que a garça havia sido mordida no pescoço por uma cobra ou enguia. Mas ao chegar em casa para editar as fotos, ele viu que a cena era mais admirável: a enguia estava viva e perfurou o estômago da garça para se livrar da morte”.    A foto está em bom tamanho no UOL, e dá pra perceber o pânico da garça em seu pávido olhar. Acabara de comer o alimento do dia. De repente, esse alimento traiçoeiro, vivo, rompe o seu estômago e pula pra fo

ESCREVER OU NÃO ESCREVER? >> Paulo Meireles Barguil

Escrevo, mas não me considero escritor. Embora as palavras sejam objetos do meu trabalho, não sou tão íntimo delas para assim me declarar. Temos uma relação, na maioria das vezes, cordial e amistosa. Ocasionalmente, ela é turbulenta e ruidosa. A escrita substitui, precariamente, o que não falo. Quanto ao que calo, continuo escondendo. A escrita revela, razoavelmente, o que sonho. Quanto ao que esqueço, permaneço ignorando. A escrita expressa, satisfatoriamente, o que penso. Quanto ao que vislumbro, sigo digerindo. Escrevo porque estou vivo. Escrevo para continuar vivo.