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FIDELISSIMAMENTE >> Albir José Inácio da Silva

Fidélio empunhava o rastelo para o alto e bradava palavras de ordem ao lado de outros camponeses fiéis ao Suserano. Enxadas, pás, facões e vassouras eram as armas, que coisas mais perigosas não lhes eram permitidas.
A cavalaria que cercava o castelo já ameaçou fazer carga duas vezes, mas foi contida por gritos da torre.
Havia boatos de que o herdeiro poderia estar a ferros ou até morto dentro do castelo. Mesmo sem comunicados oficiais, todos sabiam da disputa envolvendo nobres e famílias. Mas o povo, comandado por Fidélio, não pretendia deixar barato.
Os soldados, com armaduras de ferro ao sol do meio-dia, ansiavam por espetar umas lanças nas barrigas daqueles baderneiros, mas Fidélio estava disposto a morrer pelo seu senhor. E ele foi às lágrimas quando Clemente, o Duro assomou à janela para agradecer a dedicação dos bravos camponeses. Que agora já podiam descansar em suas casas porque tudo estava resolvido.
A solução da corte passava como sempre por redistribuição de terras e inde…
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A MENINA E A MÃE DA MENINA >>> Sandra Modesto

Vejo minha filha quentinha dentro de mim 
Sinto minha filha quietinha dentro de mim 
Vejo uma barriga cansada carregando minha filha 
Sinto uma hora chegando num dia no meio da tarde 
Num calor de janeiro 
É hora de uma barriga explodir 
Não vejo mais uma bola redonda 
Em redondilha maior 
O choro da minha filha 
Cruzando os olhos em mim 
Cravando meus tenores 
Temores da minha primeira vez 
“Eu acordei mãe” 
E foram tantos os caminhos 
Descobertas 
Culpas 
Lutas 
Conquisto o mundo com minha filha gritando dentro de mim 
Percebi que fui mãe assim 
Meus peitos num leite jorrado
Leite seco 
No preparo das mamadeiras 
No meu choro escondido 
Sinto minha filha correndo pra mim 
Olho o mundo com olhos arregalados 
Intuição misturada 
Cortaram minha barriga e um cordão 
Decoro o aflito berço em suaves prestações 
Carrego minha filha em meus braços 
Não programei o nascer da minha filha no mesmo dia que o meu 
Agora e sempre e hoje 
Minha filha é o amor ecoado 
Nesse verão de um acaso 
Ness…

O QUE É O MEDO? >> Cristiana Moura

O menino atravessando a rua. Carros atritando o asfalto Barulho, barulho, barulho.
Um ônibus, um carro, um avião passando. Os prédios altos a beira mar privatizando o vento.
Grito. Você me ouve? Não.
Medo. Tanta gente se confundindo ao cinza e ao cimento.
O que é o medo? É ver o menino que não brincou de mocinho e bandido cruzando a Avenida Leste-Oeste com arma de verdade indo encontrar o traficante.
Medo é o sabonete que escorrega pelos dedos e eu não consigo pegar. É a garganta que não sabe cantar. É o olhar de um outro que me tira a roupa e me deixa nua no meio da rua.
O medo é a voz que cala na escuridão. Medo... medo... O medo é a menina presa do porão.
Desenho mandalas gigantes de areia e vento. Pinto para soltar a palavra sufocada na respiração. Tintas e movimento dando uma outra cor ao medo. Um outro jeito cicatrizando o ferimento.
O medo é não expressar quem sou e por isso não ser.
O medo é o cantor sem voz; O pintor sem tintas; O dançarino sem movimento. Medo é o poeta de p…

UM DESVIO NO CAMINHO É OUTRO CAMINHO - 1a parte >> Zoraya Cesar

A guerra entre os Desestabilizadores e os Caminhantes da Luz chegara ao fim. E, com ela, muitas outras coisas também. Os adeptos do Caos se recolheram e se misturaram ao mundo, indetectáveis. Seus adversários se juntaram em clãs para resgatar e ensinar a Tradição às novas gerações, ajudar pessoas e se preparar para o próximo embate – sabiam que o Equilíbrio Cósmico de Tudo o que Há é uma força dinâmica.
Um desses clãs fundou a Escola de Curandeiria e Artes Mágicas dos Dez Círculos. A melhor. Seu lema: Compaixão e Combate. Seu símbolo: uma caveira e um frasco cheio de ervas. O aluno saía apto a preparar elixires de cura e venenos mortais; a reconhecer e sanar doenças do corpo, do espírito e do campo magnético; a sobreviver em condições extremas. E a lutar quando fosse necessário. 
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A criatura descolou-se do tronco da árvore e desceu, farejando o entorno. Suas garras escavavam a terra, impaciente. Faminto. E sedento por sangue. 
Parecia um grande porco-espinho sem olhos ou…

A OUSADIA DA BAILARINA >>> Nádia Coldebella

Moveu-se. Levemente, pensou.  Shiu! Silenciou. Não se deixou notar. Encolheu-se. Ponteira e sapatilha. Elásticos e fitas Tudo no lugar. Um coque bem preso, Esparadrapo nos dedos. Mordaça nos medos. Iguais, perfeitas, cadenciadas. Todas uma. Esbeltas, eretas - cansadas. Shiu! Ritmadas, disciplinadas. Elevê, relevê, pliês,  Sauté, novos e infinitos plíês Sim senhor, obrigada. Concentradíssimas na ponta dos pés Rosa e branco, branco e rosa. piruetas monocromáticas os sonhos também.
Levantou-se. Espantou. Suspiros no ar. Sapatilhas vermelhas a girar.


Para minha sobrinha, a quem desejo uma vida disciplinada, mas ousada e cheia de cor!

ACORDA, ACORDA, ACORDA >> Carla Dias >>

Ele sonhou aquele sonho.
Não foram muitos a apoiá-lo. Olhavam para ele, aquele mirradinho de pessoa, fisicamente debilitado pela sua natureza, e nele não enxergavam mais do que fragilidade. Temiam por ele. Temiam por ele, mais do que o amavam.
Mas ele tinha aquele sonho, desde antes de o definirem incapaz de sonhá-lo.
Muitos tentaram, com certa doçura, persuadi-lo a se afastar desse sonho:
Sonho é bobagem, meu caro! A realidade é o que importa, e, na realidade, você é um fantástico funcionário de cartório. Sabe lidar com as burocracias, encarar carimbos e assinaturas-garrancho, na hora de reconhecimento de firma.
O pai dele trabalhou no cartório. Os três irmãos trabalhavam no mesmo cartório. Ele trabalhava no cartório. Gostava de trabalhar no cartório e até costumava usar palavras e termos como rubrica, escritura de doação – de órgãos e de bens! –, reconhecimento de paternidade, averbação, tabela de custas e por aí vai, durante conversas banais. As pessoas pensavam que era para parece…

sentados no meio-fio >>> branco

no horizonte da minha infância o sol levanta-se bem cedo e animado eu olhava a grama verde ainda molhada pelo orvalho e ouvia o barulho da carroça que trazia pães e leite o sino da igreja chamando os fiéis para a missa
correr pelas ruas descalço vivendo dentro de um sonho enquanto sonhava outros sonhos - que me fugiriam -  meus amigos - meninos - alegres e sujos sentados no meio-fio de uma rua qualquer a maior criação divina que eu deixei empoeirar
olhem para este homem parado enquanto aguarda na calçada sua vez de atravessar a faixa de pedestres agora ele caminha apressado voltando ao trabalho no qual não pode se atrasar tragado pela maré de um oceano chamado evolução e seu maior desafio será continuar empregado até a velhice
mas a grama molhada ainda persiste o sol continua a nascer todos os dias e os empoeirados meninos sentados no meio-fio um sonho a realizar o barulho da carroça nunca ser engolido pela maré o sino tocando Deus em toda a sua glória e aquele velho  foram felizes para sempre




fotografia : web artwork…