sexta-feira, 24 de março de 2017

PASSEIO NOTURNO - 2a e última parte >> Zoraya Cesar


Saímos. Caminhávamos devagar, para que eu apreciasse a natureza. Não. Mentira. Meu sobrepeso e sedentarismo impediam-me de andar lépido e fagueiro. Se me apressasse corria o risco de enfartar na metade do caminho; eu era um velho pré-datado. 

Creio que o Sr. Vilkolakis estava acostumado a turistas como eu, pois cadenciou seu passo ao meu ritmo e pôs-se a contar histórias. Falou sobre pequenos seres que comiam luz e regurgitavam ouro; aranhas sugadoras de sorte; plantas falantes que jogavam feitiços. Sou homem urbano, essas crendices populares nunca me atraíram. Na primeira oportunidade, pedi-lhe que falasse sobre as ruínas que tão estranho fascínio exerceram sobre mim.

Ele pareceu contente com a pergunta. 

- Os antepassados lituanos que migraram para cá trouxeram pedras de um templo que havia nos arredores de nossa aldeia original, e construíram essa estrutura que o senhor vê hoje. 

- Por que fizeram isso?

- Porque quem naquele templo entrasse teria seus pedidos atendidos. Dinheiro, saúde, amor, vingança, morte de inimigos, chuvas, boa colheita, qualquer coisa. 

- E as pessoas acreditavam? – desdenhei.

- Acreditavam porque funcionava. Mas existiam regras. A jornada deveria ser iniciada apenas quando a lua cheia estivesse alta no céu (como fizemos hoje, acrescentou). O caminho era perigoso. Pântanos, crateras, plantas que matavam só de encostar na pele, mosquitos cuja picada apodrecia a carne. Quem chegasse incólume, tinha o direito de fazer seu pedido. 

- Só isso? – não contive uma certa ironia em minha voz. Era muita superstição pra minha mente racional. 

- Não exatamente. Ainda havia um detalhe. Pequeno. 

O Sr. Vilkolakis riu um riso rouco, quase uma tosse. Devia ser o cigarro, pensei.

- A pessoa tinha de chegar antes da meia-noite e ficar no templo até o amanhecer. As regras devem ser seguidas.

- Ou o quê? - Eu estava achando graça naquele crendice toda. 

- Os lobos a comiam. Os homens são gananciosos. Na aldeia, cada vez mais pessoas se arriscavam a chegar ao templo, e, naturalmente, cada vez menos delas voltavam. Foi uma boa época. 

Não entendi o que ele quis dizer com aquilo, e confesso que não tive vontade de perguntar. Tentei mudar de assunto.

- E por que migraram, Sr. Vilkolakis?

Ele não respondeu. Senti pena do velho. Devia estar cansado; afinal, por rijo que fosse, a caminhada era árdua. Havia muitas pedras soltas, depressões de solo, raízes que dificultavam o caminhar. De vez em quando, uma ribanceira aparecia subitamente, como uma boca escancarada e faminta.  

Comecei a ter pena de mim, também. Suava profusamente; minhas pernas, desacostumadas a tanto esforço, tremiam; meu pé doía levemente, após um passo em falso; eu já não ofegava, mas resfolegava, qual um cavalo velho e doente. Pensei em desistir, mas seria muita humilhação. 

De repente, ele voltou a falar:

- Há coisas que devem ser esquecidas. Mas o sangue é mais forte que o tempo, e essas mesmas coisas acompanham todas as gerações – disse, enigmaticamente. Nem tentei entender. Aquela gente do interior era muito esquisita. 

- Veja, estamos chegando. 

Olhei para as ruínas. À luz da lua, branca como um osso descarnado, pareceram-me grandes lápides de um cemitério esquecido e maldito. Notei algo estranho. Tudo em volta estava quieto. Não se ouvia qualquer dos sons comuns à natureza: insetos, sapos, pássaros, nada. 

- Quer voltar? Tenho de perguntar, é a regra. Se você quiser voltar daqui, sou obrigado a levá-lo de volta em segurança. 

Voltar? Depois de tanto sacrifício? Já quase lá? Não. Iria até o fim. De qualquer maneira, descer é sempre mais fácil. Não é?

- Nesse caso, sugiro que você alcance o templo nos próximos cinco minutos, e espere lá até o amanhecer – sua voz soava quase gentil – tenho de avisar, são as regras.

As ruínas estavam numa pequena elevação de pedras soltas, e não tão perto assim. Com a dor que estava sentindo – não só no meu pé torcido, mas no corpo todo - eu demoraria mais de 10 minutos para chegar. 

- Sugiro que você se apresse. 

Sua voz saiu feito um rosnado gutural, como um animal asmático. Olhei para ele. Meu coração falhou algumas batidas. 

Uivou longa e prazerosamente, dando-me
arrepios de pavor.
A criatura era e não era o Sr. Vilkolakis.
Vi uma criatura de pernas musculosas, a face afilada como um focinho – parecia um enorme cão sobre as patas traseiras. Seus olhos amarelados e brilhantes fixaram-se em mim e a criatura grunhiu, deixando à mostra grandes presas pontiagudas. Era o Sr. Vilkolakis e ao mesmo tenpo não era. Levantou a cabeçorra e uivou longa e profundamente, com a alegria típica do preso que se vê em liberdade, do gozo que precede o banquete lauto. 

Minha boca se encheu de saliva ácida e gosmenta; calafrios gélidos me tremiam o corpo. Pensei que fosse desmaiar de medo e urgência. Gritei por socorro, mas de minha garganta saiu apenas um balido trêmulo e esganiçado. Tinha de chegar às ruínas. Dei um primeiro passo, titubeante, uma dor lancinante subindo do meu pé até a alma, os olhos esgazeados de um carneiro que sabe estar caminhando para o abatedouro.

- Corre – rosnou a voz do Sr. Vilkolakis.


Imagem: RaphaelaFotografie - Pixabay



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quinta-feira, 23 de março de 2017

CHUCK BERRY>>Analu Faria

Chuck Berry morreu. Sim, eu sei, o presidente disse que mulher tem valor porque sabe o preço do mercado. Mas Chuck Berry morreu. Pois é, um atentado terrorista horrível aconteceu hoje na Inglaterra. E sábado Chuck Berry morreu. A terceirização foi aprovada na Câmara dos Deputados, mas você sabia que Chuck Berry morreu? Certamente a reforma  o desastre trabalhista sai este ano. E quando sair, Chuck Berry, o pai do rock, estará morto. Chuck Berry que fez música como quem mata aula para  beber cerveja num boteco estranho com gente esquisita. Chuck Berry de "My ding-a-ling", canção que me fez chorar de rir quando tudo ao meu redor era sertanejo idiotizante (que resolveram chamar de "sertanejo").

Chuck Berry morreu, mas foi só isso que se disse dele. Aparentemente, não se fala em seu legado. Sei lá, vai ver que é porque não se fala de cor em época de daltônicos. Chuck Berry revolucionou o mundo ao dar voz a uma era nova, pós-guerra e crente que o mundo seria uma grande esfera de felicidade technicolor. Não foi. E daí? O que importava é que o momento era de espalhar que se podia sim, ser Johnny B. Goode. 

Precisamos falar sobre Chuck Berry , mesmo que nosso tato seja falho, que os olhos só vejam cinza, que o gosto azedo da crise seque a boca, que o olfato só sinta o cheiro de carne podre da Friboi. Se esses sentidos falham hoje - vide Trump, Bolsonaro, Estado Islâmico - que o rock não morra nos nossos ouvidos.


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quarta-feira, 22 de março de 2017

TEMPOLÁBIL >> Carla Dias >>


Ele é do tempo das cartas escritas à mão. É do tempo de lá, mas não nasceu há muitas décadas. É jovem para a alma que veste. Seu corpo é casa de um daqueles casos de alma antiga em corpo jovem. Talvez por isso os desejos se esbarrem, nem sempre estejam em sintonia. Nem sempre a alma guia e o corpo aceita, e vice-versa. Há essa rusga entre seu dentro e seu fora. Porém, ele gosta de pensar que, apesar de parecer afronta, é na verdade equilíbrio.

Batia cartão no bar para virar copos, travar conversas langorosas e tentar esquecer suas esquisitices. O irmão passou a vida a alertá-lo que melhor era se aprumar, que ele ainda comeria muito capim sendo do jeito que era.

Peculiar.

Eventualmente, perdeu o interesse pelo bar, e até o uísque já não lhe caía tão bem, fosse de onde fosse. Viciou-se em chá oolong, bolo de aipim e analgésicos. Às vezes, sentia-se solitário, de solidão que nem mesmo as cartas que escrevia à mão ajudavam a estancar.

Sua alma antiga que só o deixou de cama, adoecido de desespero. O corpo melindrava as dores do dentro, transformando saudade sabe Deus do que em...  como disse o médico? Virose. Sem forças para o que fosse, entregou-se. Pensou mesmo que não duraria o fim de semana.

Não aconteceu.

O irmão foi visitá-lo. Sentou-se na outra beirada do sofá e lá ficaram a assistir televisão. Ele não via nada, apenas permitia o tempo passar, distraia-se com o barulho. O irmão se divertia com o programa, alegando que a vida era simples assim, feito um programa ruim de auditório.

Foi para seu quarto e deixou o irmão se divertindo. Até gostava de escutar as gargalhadas dele, elas muito mais atraentes do que o programa. Deitou-se em sua cama, fechou os olhos, tentou fisgar o sono que fugia dele há dias.

Sua alma antiga, em contraste com sua juventude, tornou-o essa pessoa que não cabe aqui ou ali. Não se enquadrar não o assusta, mas não o poupa de se sentir abatido, de vez em quando. Pode parecer, para os observadores, que ele é ser triste, mas é apenas silente. Sente urgências sem cometer melindres.

Mas a história dele pode não importar tanto assim. Há tantos tão peculiares quanto ele. Daria em mundo. Pessoas que se sentem aprisionadas em seus corpos, em convenções, em tradição.

Ele é do tempo que não é o dele, mas nem por isso o que sente e como se enxerga é motivo de indignação. Ele tem alma antiga assoprada em corpo jovem. Aguarda para descobrir como será quando seu corpo for tão antigo quanto sua alma, mesmo sabendo que sempre haverá esse espaço no meio. Partindo-lhe em dois.

Caminha silente pela cidade em ponto de fervura. Passa despercebido na multidão. Pode até não notar, mas ele se transforma, gradativamente. É o que vê, o que sente, o que o toca, tudo isso fazendo seu trabalho de moldá-lo com o tempo.

Provavelmente, será esquecido pela maioria das pessoas que encontrar pela vida. Porém, pelos poucos que dele se lembrarem, ele agradece de antemão.

Imagem: On The Edge © Paul Lee

carladias.com



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terça-feira, 21 de março de 2017

O CORPO ME PERTENCE, A IDADE NÃO >> Clara Braga

Os trinta não estão mais tão longe quanto já estiveram. Aliás, eles não estão longe de forma alguma. Mas, juro por Deus, isso nunca foi um problema pra mim. Ou pelo menos não tinha sido até muito pouco tempo.

Em uma conversa recente sobre treinos e dietas, comentei que tenho dificuldade para emagrecer. O que tive como resposta? Ixi, se você já está tendo dificuldade para emagrecer agora não queira ver quando ficar mais velha! É quase impossível! O metabolismo é muito mais lento, a prisão de ventre piora e não tem exercício físico no mundo que elimine aquela gordurinha localizada.

Superado o papo da gordura que eu não vou mais perder, em outro assunto, enquanto relembrávamos momentos do passado, mal pude participar da conversa, não lembrava de nada! Então reparei que já tem um tempo que não me recordo de coisas que eram fáceis para mim até pouco tempo como dar recados quando me pedem, saber o número de ninguém de cabeça e decorar letras de música como costumava decorar. Mais uma vez o comentário que ouvi em relação à essa colocação não foi nada amigável: se sua memória já está assim agora imagina quando ficar mais velha! Falta de memória é coisa de gente velha.

Para terminar teve o exame de audiometria que tive que fazer recentemente. Lado direito sem problemas, mas lado esquerdo está com uma leve perda de audição. Nada demais a princípio, mas as pessoas costumam perder a audição quando ficam mais velhas, não é comum na sua idade.

Tudo isso, e mais outras situações que não vou me recordar agora devido ao problema de memória já comentado acima, me fez ficar um pouco apreensiva, cheguei à conclusão que sou uma velhinha de aproximadamente 90 anos no corpo de uma jovem de quase 30. Por enquanto nada que me incomode, mas o que eu devo esperar do futuro? Seria exagero já começar a procurar um geriatra?


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sexta-feira, 17 de março de 2017

CARÊNCIA AFETIVA >> Paulo Meireles Barguil

 
– Como se cura de carência afetiva? – indagou-me uma leitora.
 
Esclareço, inicialmente, que alma e corpo necessitam de aconchego, carinho.
 
Devido à natureza distinta de ambos, os cuidados requeridos também são específicos.
 
Nos primeiros meses de vida, o corpo precisa ser alimentado para não morrer.
 
Quanto à alma, ela é bem mais resistente e menos volúvel...
 
O que vivemos durante os primeiros anos nos marca profundamente.
 
Acredito que algumas das inscrições desagradáveis podem ser modificadas, mas para tanto é necessário conhecê-las...
 
Há outras, contudo, que são agradáveis e nos impulsionam, sendo imprescindível que as façamos companheiras da jornada!
 
Não somos apenas o resultado do que (e como) vivemos, pois o corpo e a alma são repletos de memórias de outros espaços-tempos.
 
Quando a maioria diz "Ninguém pede para nascer!", alguns sussurram o contrário...
 
A alma, moradora do Paraíso, sabia que suas férias aqui na Terra não seriam tranquilas, mas aceitou o desafio.
 
Ciente era dos percalços e das tribulações que enfrentaria...
 
Apesar de muitos declararem que "Ninguém escolhe os pais!", ela selecionou cuidadosamente quem poderia exercer essa missão...
 
Aceitou, em seguida, ser encaixada no corpo, seu escudeiro, sabendo da inconstância da sua fidelidade.
 
Esse componente biológico, hoje sabemos um pouco, é herdeiro de várias gerações: de aspectos físicos e psíquicos.
 
Além de todos esses temperos, que tornam a vida ainda mais alquímica, há o fato de que nenhum de nós recebeu dos pais o trato que alma e corpo gostariam, muito pelo contrário...
 
Essa ferida é comum a todos nós!
 
Quando, apesar dela (e, às vezes, graças a ela...), nos lembramos de quem somos e do que viemos fazer aqui, desenvolvemos, cada vez mais, gratidão e compaixão por todas as pessoas – inclusive por aquelas que, de algum modo, nos machucaram – ao mesmo tempo em que assumimos, progressivamente, a responsabilidade pela nossa saúde, por nosso bem estar, que são frutos das nossas escolhas.
 
Entender e aceitar tais aspectos é imprescindível para que alma e corpo diminuam sua carência, relacionada à dependência do outro (que precisa pagar uma dívida infindável de outrem...), e iniciem sua cura, que se expressa no auto-cuidado.


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quinta-feira, 16 de março de 2017

EM ALERTA >> Mariana Scherma

1. Se você não tem nada de bom pra falar sobre alguém, melhor nem falar. 2. As pessoas perdem ótimas oportunidades de ficarem com a boca fechada. Essas duas frases meio que me cercaram a vida toda. Meu pai ama essa segunda. Quantas entrevistas a gente não viu juntos e, quando o entrevistado dizia besteira, meu pai já sentenciava que perder uma chance de falar, às vezes é ouro.

Dia desses, uma vizinha me disse umas coisas que me deixaram com medo. Coisas pequenas, mas que tinham a ver com meu apartamento, um processo e a atual síndica. Coisas que me tiraram o sono, mas, que segundo essa vizinha, era bom eu saber pra ir me precavendo, pensando no que eu ia dizer. Como se fosse normal viver em um estado de alerta. Depois de uns dias e depois de ter digerido o que ela disse, cheguei à conclusão de que ela poderia ter passado sem falar isso. Nada aconteceu. A síndica não me disse nada além de oi-tudo-bom. Ou seja, rugas a mais por nada.

Algumas semanas depois, a mesma vizinha voltou com o mesmo tema e aí eu me vi na obrigação de falar que ela não tinha o direito de vir na minha casa, tomar meu café e me deixar com medo de uma coisa que nem poderia acontecer. Vamos esclarecer que essa vizinha tem mais de 80 anos e pessoas mais velhas se acham no direito de dizer o que vem à mente. Pra mim, a vida acontece e, quando os problemas surgem, você vai contornando. Viver esperando o problema é loucura. Falei numa boa, sem levantar a voz, com a razão do meu lado. Desde então a vizinha me deu um gelo.


A impressão que eu tenho é que seu falasse alto ou com grosseria não a incomodaria tanto. Mas falar tranquilamente é que pegou. Quando as pessoas falam alto, elas têm a desculpa de que estavam com a cabeça quente. Eu poderia ter jogado a culpa no estresse do trabalho. Pode falar verdades com a cabeça quente. Mas não se pode dizer verdades com calma e tranquilidade. Ela, por ser idosa, tem o direito de me dizer coisas nada a ver, coisas que ela bem entender e cabe a mim aceitar. Mas, se eu retruco (sem falar alto, com toda a educação herdada dos meus pais), ela se magoa. O fato de a gente não ser uma ilha é bom, mas nem sempre, viu. 


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quarta-feira, 15 de março de 2017

CIRCO >> Carla Dias >>


Grande circo, esse. Pena que não tem palhaço que fomente alegria, tampouco trapezista que nos faça sonhar com o voo. Não há alegria nessa tenda de dissimulações e injustiças.

Um circo de horrores do qual não somos mais meros espectadores, mas sim os cruelmente domesticados para serem exibidos como curiosas criaturas. Porque, em algum momento, deixamos a sabedoria, que nos concede o milagre de decidirmos nosso caminho, nas melindrosas mãos-prisões dos que cochicham em nossos ouvidos – manipuladores e indiferente ao desfecho que nos espera – o que queremos escutar para acalmar ansiedade e calar questionamento.

Bem-vindos ao circo dos dissabores!

Aqui há uma grande variedade de tragédias para serem ruminadas em tempo infinito. Uma verdade gritante para se encarar com dolência aguda: somos colaboradores ativos da miséria do mundo. Nós, esses bichos amestrados pelo desejo próprio, e por ele fazemos o que é impossível de se desfazer e que, às vezes, leva o outro à lona, para não se levantar mais. Mas como seria diferente? Somos bichos de instinto calcado no egocentrismo e na necessidade intrigante por poder. Pisamos uns nas cabeças dos outros por dinheiro. Matamos em nome do amor e do Deus. Somos indiferentes a quem não desperta em nós curiosidade. Nossa intolerância é inspiração para a arquitetação de extinções espetaculares.

Neste circo, adjetivos são usados para compor uma sonata de ofensas. Predadores da sobrevivência alheia abocanham suas presas de maneira espetaculosa. Os espectadores, agora poucos, ditos escolhidos, assistem a tudo com ar blasé, enquanto, por dentro, celebram suas vitórias diante dos inferiores. Como apreciam subjugar, humilhar, matar de fome, de sede, de carência de direitos.

Esperávamos sim um circo de delícias e gargalhadas; um ponto de encontro para a descontração e o deleite. Por que isso nos seria negado? Acabamos assim: desfilando nossas misérias aos que nos tornaram miseráveis. Dando cambalhotas para entreter o desejo deles por superioridade. Nós, os animais amestrados, bailando ao som do cansaço e da zanga, provocando delícias e gargalhadas naqueles que nos desumanizaram. Os descontraídos e deleitosos diante do nosso show de desesperança.

Bem-vindos ao circo dos horrores! Há aqui justiça mantida em cabresto, respeito qualificado como supérfluo, direito negado com esmero. Os palhaços nem sabem o que é piada. Os trapezistas têm medo de altura. Ao bicho-homem não se dá de comer, que a fome, em todas as suas interpretações, é capaz de mantê-lo prostrado, o serviçal perfeito para quem pouco se importa com as aberrações que propicia.

Imagem © Edward Hopper



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terça-feira, 14 de março de 2017

MAIS DO MESMO >> Clara Braga

No mesmo mundo no qual viveram Joana D’arc, Maria Quitéria de Jesus e Marie Currie, ainda passei o 8 de março recebendo imagens com piadas sobre as mulheres, como a que dizia mostrar o estacionamento do evento em homenagem às mulheres, então você via os carros todos fora da vaga, uns quase capotados, uns por cima dos outros. Se é para fazer piada vamos pelo menos tentar ser originais né?!

No mesmo mundo de Anita Garibaldi e Cleópatra, li no facebook um ser desejando feliz dia das mulheres apenas para as mulheres de verdade, mulheres vindas de fábrica, como ele mesmo dizia. As trans e as feministas que esperassem seus respectivos dias, pois não eram mulheres. Sério?

No mesmo mundo em que vive Maria da Penha, recebi uma mensagem dizendo que o real dia das mulheres era dias 06, mas como elas não conseguiram se arrumar precisaram passar a data para dia 08. Me pergunto de quanto tempo a pessoa precisou para elaborar esse comentário maravilhoso. 

No mundo de Carmen Miranda, Tarsila, Anita Malfatti, Frida e tantas outras, as pessoas ainda falam que ninguém entende as mulheres, nem o whatsapp, que fez todos os emojis andando para um lado e só o da mulher andando para o outro.

Sério gente, esse é o melhor que vocês conseguem fazer? Já tá ficando feio né...


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