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Mostrando postagens de Março, 2015

NOVAS MANIAS >> Clara Braga

Me peguei com uma nova pequena mania, as vezes fico imaginando a história de vida das pessoas que passam por mim. Imagino o que levam elas a fazerem o que fazem e a serem como são. 
Acho que comecei com isso depois que passei a trabalhar dando aulas para adolescentes. Alguns deles podem ser bem difíceis, as vezes dá uma leve vontade de desistir deles, assim como na vida a gente tem vontade e as vezes até desiste de algumas pessoas.
Então chega o momento do conselho de classe, que você compartilha os casos com outros professores e coordenadores, e então vai entendendo as histórias por trás de cada atitude. É cada coisa que se ouve que os sentimentos gerados são os mais variados, tem hora que você fica com raiva e quer bater na pessoa, tem momentos que você se pergunta o motivo das pessoas terem que passar por certas situações, e outros momentos que você já se questiona porque aquela outra pessoa não passa por algumas situações.
Daí eu comecei a imaginar a história de um monte de desco…

O DIA EM QUE A HUMANIDADE PERDEU A RAZÃO >> Whisner Fraga

Eu não defendo que as pessoas devam tentar fazer tudo com amor. Nada mais utópico. Com amor nem sexo se faz mais. Também não professo que se faça tudo com profissionalismo, porque é sofrer à toa. Profissionalismo acabou por se tornar algo muito vago, entre a luta por direitos e as necessidades do mercado. Nesse meio tempo encontram-se a briga pela sobrevivência e o mínimo de conforto.

Mas talvez seja importante um pouco de bom senso no exercício do trabalho. E de esforço. Ainda não estou certo se o ser-humano perdeu o senso ou o cérebro. Levamos Helena a um laboratório, para um exame de sangue. Duas enfermeiras despreparadas para o atendimento infantil nos receberam. Helena não gostou de nenhuma, pois a trataram como se fosse adulta. Lógico, aí ela agiu como criança: fez birra, chorou, gritou, esperneou. Nada a fazia ir até a sala de coleta. Até que, muito tempo depois, muito tempo, a convenci a respeito do exame e a levei no colo. Ficamos lá na sala esperando, eu, Ana e Helena, por v…

O QUE VESTIR? >> Cristiana Moura

Era o casamento de uma amiga, traje esporte fino. Quando me dei conta, não tinha roupa para o tal evento. Todas folgadas. Corri à casa de minha mãe que me emprestou um vestido. São constantes as mudanças no espelho depois que comecei a emagrecer. Por vezes, temo afogar-me como Narciso. Mas preciso olhar. Não se trata de contemplar a própria imagem. Trata-se de reconhecê-la.

WILLIAM, O ORDINÁRIO - PARTE I >> Zoraya Cesar

A rotina se entranhara nele tal qual raízes de figueira-vermelha, estrangulando-o pouco a pouco. Sentia-se inquieto e desassossegado. Tinha a impressão de que havia um corpo estranho dentro do seu, querendo tomar-lhe a vida.
E que vida? Aquela mesma de sempre, tão rotineira e repetitiva que, se ele perdesse a memória de um dia, não faria diferença, porque o dia seguinte seria exatamente igual. Ele poderia resumir a história de sua vida em duas páginas, ambas ordinárias. 
Mesma rotina. Mesmo emprego. Mesmo ônibus. Mesma volta para casa.
Mesma vontade louca de ter uma vida diferente. 
MESMA ROTINA – Desde os tempos de colégio comia pão com manteiga e café sem leite, almoçava feijão com arroz, carne e cenoura, goiabada com queijo de sobremesa. À tarde, um café. À noite, macarrão. Aos finais de semana, fast food. Às vezes se encontrava com os amigos para tomar uma cerveja. Mas os amigos foram casando, tendo filhos e, naturalmente, fizeram novas amizades. William, tímido e solteiro, não co…

A SÓS >> Carla Dias >>

Eu poderia dizer as frases certas, usando palavras adequadas. Até mesmo pronunciar poesia na sofreguidão da felicidade. Envolveria Deus no prelúdio, para que as decisões sofressem de divindade.

Eu poderia lhe dedicar o meu universo, do momento que antecede meu despertar ao suspiro que protagoniza meu adormecer, restando-me viver em nome da feitura desse compromisso.

Seria nem sempre amável, que eu sei que sofro de desatino. Conversaria com as paredes, que elas têm me esclarecido um tanto de coisas escondidas. Atravessaria a rua, olhos fechados, no vermelho. Só para chacoalhar a rotina e assustar o sossego.

A verdade se vê diminuta nos palcos desse meu fascínio, que prefiro inventar acontecimentos, deslizes, machucar minhas certezas em vez de gestar indiferença, para então orná-la com falsos sorrisos. À vida eu dedico o mais longo, cáustico, inspirador, vívido suspiro.

A você eu dedico o pensamento mais íntimo.

E outras tantas intimidades, como a de beber água no mesmo copo, abraçar s…

PEQUENOS GESTOS >> Clara Braga

Um grupo de amigos estava atravessando a rua fora da faixa, sendo que havia uma a menos de 100m de distância, quando tiveram que parar para dar passagem a um carro que vinha subindo a rua pois havia furado o sinal vermelho, já que não tinha ninguém para atravessar na faixa. O grupo de amigos se exaltou e gritou cheio de razão para o carro: o sinal está vermelho!
Provavelmente, o grupo de amigos decidiu atravessar ali mesmo, fora do sinal e da faixa, pois a rua estava pouco movimentada, já era tarde da noite. Mas não contavam que quando chegassem na metade da rua iriam dar de cara com um motorista que decidiu avançar o sinal vermelho, já que não havia ninguém para atravessar na faixa e hoje em dia já não é seguro parar sozinho em lugar nenhum tarde da noite. O motorista, por sua vez, também não imaginava que, depois que avançasse o sinal, encontraria um grupo de amigos que decidiu atravessar a rua fora do sinal. O grupo, se sentindo certo, reclamou. O motorista, vai saber o que pensou…

A BOIA E O CAPITÃO >> Albir José Inácio da Silva

Foi logo depois da guerra que a Light estava fichando – hoje em dia se diz contratando - e só precisava disposição pra trabalhar.  De longe vinha gente que abandonava a dureza do eito nas fazendas em busca de dureza com carteira assinada e boia. E salário-mínimo - que era o mais novo sonho dos boias-frias. A minha sorte foi que naquele tempo menino podia trabalhar.
- Tem que ser menino esperto, ter força e disposição - dizia o funcionário do recrutamento, que falava isso sem olhar pra pessoa e ficou decepcionado quando viu meus quarenta e poucos quilos. Mas consertou: - Às vezes disposição é melhor que força, né garoto? – fez um quase sorriso, e eu ganhei a vaga porque todo mundo ganhava.
Quem ganhou vaga também, com muito mais justiça porque era grande como um touro e trabalhava por três, foi o Zé Gamela.   Gamela vinha das profundezas de Minas e recebeu esse nome ainda criança porque o que tinha de força, tinha de fome e comia na gamela - uma espécie de bacia.
Quando chegamos no ca…

BASTA, FABRÍCIO >> Sergio Geia

Com o livro do Fabrício Carpinejar nas mãos, fui pra sala continuar a leitura de “Me ajude a chorar”, minha companhia dos últimos dias. Era um domingo pra lá de quente, a temperatura batia os 36, embora pela sacada entrasse uma brisa refrescante. Já tinha ido tomar café na padaria, ao supermercado, guardado a compra. Liguei o computador pra continuar a revisão de um romance que havia escrito em 2010, mas antes queria ler mais alguma coisa do Fabrício.
Tenho paixão por crônicas cujo protagonismo é exercido por bromélias, pé de feijão, jabuticabeiras e capim; amendoeiras, cajueiros, acácias e afins. O Rubem Braga tem uma crônica deliciosa nessa linha chamada “Um pé de milho”. Normalmente, crônicas desse tipo me arrebatam logo de cara. A sensação é de estar chupando mexerica num banquinho à sombra, de ouvir o marulhar das ondas, o coaxar de sapos, o farfalhar da brisa, de preferência deitado numa rede, de preferência no final de uma tarde outonal, de preferência sob a beleza de um sol poe…

PROTEÇÃO E CRESCIMENTO: DO CONTROLE À ENTREGA >> Paulo Meireles Barguil

Bruce Lipton, em Biologia da Crença, explica que a célula tem dois movimentos principais: proteção e crescimento.
No primeiro, ela foge de tudo que acredita ameaçar sua existência. No segundo, ela vai ao encontro do que julga propiciar a continuidade da sua vida. Conforme esse biólogo, esses mecanismos não podem funcionar ao mesmo tempo. Em determinado momento, portanto, a energia da célula só pode ser direcionada ou para se defender ou para crescer. Por ser o Homem composto de trilhões de células, Lipton defende que esse princípio também acontece em nós. Diante de um mundo repleto de mistérios, é natural que o Homem tenha medo, o qual, em doses moderadas, contribui para que ele reflita sobre os diversos aspectos da realidade e objetive tornar a sua existência mais segura e satisfatória. De modo simplificado, as crenças são frutos de experiências — nossas e/ou de outras pessoas — as quais geram sentimentos e pensamentos. O centro da nossa existência são os sentimentos. É a partir del…

HARMONIA, SUA LINDA >> Mariana Scherma

Harmonia é minha palavra preferida. De toda a língua portuguesa – e isso quer dizer bastante, porque nossa língua tem saudade, pipoca, fofoca, beijo, enfim, várias palavras boas de dizer, palavras que fazem a gente encher a boca pra falar e são igualmente gostosas de ouvir. “Beeeeijo”, “ai que saudade!”, “tem uma panela de pipoca quentinha te esperando”, “para tudo! Tenho uma fofocaaa”, ah, que delícia elas são.
Mas harmonia me conquistou mais pelo significado do que pela sonoridade, um pouco pela grafia também, que tem esse H quase sem função sonora, é um enfeite rococó fofo. Mas voltemos ao significado, harmonia é tudo o que eu quero nessa vida. Harmonia é a melhor definição de felicidade. Viver em harmonia com o que temos, com o que somos, com o que vemos no espelho, com as pessoas ao redor, no trabalho... Harmonia é aceitar e gostar, é uma espécie de paixão mais morna, mas ainda paixão. Paixão que veio pra ficar. Harmonia não é pra qualquer um, não. Haja terapia pra você viver em h…

DEZ MINUTOS >> Carla Dias >>

Promessas vazias e esperanças vãs lhe tiram do sério, assim como se atrasar para o trabalho, que acaba sempre sendo ruim para ele mesmo. Quando se é responsável por diversas funções, torna-se fácil perder o foco, até porque o foco dele não é um, mas vários.

Mesmo com quinhentas e vinte e sete mensagens para responder, o celular apitando seus compromissos na empresa e a assistente repetindo que ele é funcionário como todos ali, às quatro da tarde ele para o trabalho e tranca a porta, fecha as venezianas que dão para o salão - onde trinta funcionários falam sem parar ao telefone -, fecha a janela e apaga a luz. Dez minutos, devidamente descontados da mísera meia hora que tem de almoço, é do que ele precisa.

Em dez minutos, sentado confortavelmente em sua desconfortável cadeira, olhos fechados, de barulho somente um falatório distante, ele reflete a mesma reflexão que lhe acompanha há mais de trinta anos de casa: e se ele não existisse, se não estivesse ali, o que mudaria? As respostas …

GRAÇAS AO PERIGO >> Cristiana Moura

RODOLFO E A CRISE DOS 40 - PARTE II>> Zoraya Cesar

Clique aqui para ler a parte I
Coerente com seu lema “um encontro, um motel”, Rodolfo saiu do restaurante direto para o dito local, ansioso pela noitada que depois contaria, em detalhes, para os amigos.
Caroline Valérie também não deixou por menos. Deixou, isso sim, Rodolfo ver, ao vivo e em cores, o tamanho da enrascada. 
Tarde demais, ele descobriu o que todos – o Amigo Leitor, inclusive – desconfiavam: Caroline Valérie era um travesti. E que não aceitou ser rejeitada, nua e loura, só por conta daquele nada pequeno detalhe. Ajoelhou, tem de rezar, disse, enfezada, as mãos na cintura.
Fugir, nem pensar; lutar, muito menos: franzino do jeito que Deus lhe fizera, Rodolfo ia apanhar como um cão sarnento. Só havia uma saída: negociar. Não houve a consumação do ato libidinoso, mas ele a tratou como uma princesa a noite inteira. E mais não digo, pois esse, repito, é um blog família.
O episódio cairia no olvido se, no dia seguinte, Caroline Valérie não esbarrasse em dois dos amigos que Rodo…