quarta-feira, 11 de março de 2015

AQUELAS PERGUNTAS >> Carla Dias >>


Pergunte-se para analisar o que de fato você pensa. Porque questionar o outro é muito mais fácil, ato que, basicamente, sofre de fluência. Aprenda a se questionar, mas não somente em relação aos tropeços mais comuns, necessários para o aprendizado vital de qualquer ser humano.

Faça a si perguntas que você não consegue imaginar ter de responder. Aquelas que, geralmente, definem o que ocorre ao outro, não a você, o que, também com certa frequência, não é verdade. Pergunte-se para responder sem rede de proteção ou máscara.

Você acredita que Deus é responsável pelos seus atos? Por todos eles? Que, então, ele é autor da forma como você se veste e do tipo de comida que você consome, assim como das escolhas que, detentor do livre-arbítrio, você faz?
O quanto poderia influenciar a sua existência, a sua história de vida, o fato de outro ser humano viver o amor com alguém do mesmo sexo? Ou mesmo o mais puro e prazeroso sexo com alguém do mesmo sexo? Até mesmo constituir família, criar filhos? Filhos com dois pais? Filhos com duas mães?

Você realmente deseja que determinada pessoa morra, de preferência de forma trágica e lenta, porque ela definitivamente merece sofrer, já que, de acordo com o grupo de amigos, os familiares ou mesmo os telejornais, ela não faz mais do que prejudicar um sistema que, por si só, não funciona.

Há coisas que aprendemos muito cedo. Vou falar do meu aprendizado, que só ele eu posso defender, lapidar e compartilhar. O fato de eu ser uma pessoa e ter o direito de dizer tudo o que me der na telha, definitivamente depende do meu bom senso. Quando menina, até a adolescência, Deus tinha um poder inigualável na minha vida. Tudo eu fazia era em nome dele e por gosto dele... De acordo com o que o padre dizia. Até o dia em que me dei conta de que ok acreditar e respeitar Deus, mas era irônico não pensar por conta, já que ele tinha me dado o livre-arbítrio. A partir daí, a ficha caiu: Deus não é responsável por tudo o que faço. Há coisas que são minhas, e apenas minhas. Escolhas que faço não por religiosidade, mas por gosto, por necessidade, por desejo de aprender.

Sendo assim, não, eu não coloco na conta de Deus os meus débitos, as consequências oriundas das minhas escolhas. A partir daí, ficou ainda mais claro para mim que quem humilha e fere; quem faz guerra em nome de Deus, não tem coragem de pagar a própria conta.

Eu fui criada para pensar a família de um único jeito. Ao mesmo tempo, minha família sempre foi um pouco mais ampla. Cresci com tios e tias e um monte de primos e primas. Tias que me consideravam filha e eu considerava mães, sem tirar o cargo da minha, obviamente. Primos e primas que foram criados no mesmo quintal, com aquele tom de irmandade. No final das contas, éramos todos pais e filhos e irmãos, e às vezes as funções se misturavam.

Aprendemos que, antes de tudo, estava o respeito pelo outro. E aprendemos a duras penas, que nem tudo aconteceu na plenitude da paz. Mas foi assim que compreendi que o amor é independente, faz suas escolhas. Por isso temos amigos que consideramos irmãos, por exemplo. Para mim, em um mundo caótico como o nosso, e pontuado pele egocentrismo, não há como não endossar a canção: qualquer maneira de amor vale a pena.

Então, por que condená-lo? Apenas por ele não estar de acordo com o que aprendemos a reconhecer assim, no rastro do imediato? Será que não está claro que a vida é mudança constante, mesmo quando sentimos que não estamos saindo do lugar? O amor entre duas pessoas não deveria ser considerado ofensa. Duas pessoas do mesmo sexo se tornarem pais ou mães de uma criança que, sem esse acolhimento, teria uma vida de privações sociais, físicas e emocionais, não é ofensa. Então, por que muitos se ofendem? Por que ensinam suas crianças que ser filho de dois pais ou duas mães é feio, um pecado? Por que a violência?

Incomoda-me, profundamente, o fato de não nos importarmos mais se o que dizemos é completamente contrário ao que desejamos a nós mesmos e aos nossos afetos. Por que para o outro é diferente? Tornou-se extremamente fácil declarar que a morte do outro seria a solução para todos os problemas. Quais problemas? E não digo que eles não existam, apenas percebo que a maioria de nós nem mesmo parou para refletir sobre o motivo de eles existirem. Os xingamentos, a falta de educação escancarada, o despreparo para oferecer resposta à pergunta fundamental para qualquer tipo de batalha que você escolha encarar: por quê?

São apenas algumas perguntas que evitamos responder sinceramente, e que precisam dessa honestidade, porque é muito fácil se tornarem preconceito, desmerecimento, violência. Obviamente, há outros questionamentos tão complexos e difíceis para enfrentarmos. Por isso, ou começamos a obter respostas honestas para essas perguntas; respostas desapegadas de todas as manobras emocionais e culturais com as quais fomos criados e educados, ou nos tornaremos uma geração de hipócritas, de adultos agindo como crianças fazendo birra, porque não ganharam o presente que queriam de Natal.

Imagem: The Hand (The Remorse of Conscience) © Salvador Dalí

carladias.com



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3 comentários:

Matheus Resende disse...

Carla, gostei bastante de sua crônica,
uma reflexão muito importante
sobre nossos atos no cotidiano,
e principalmente sobre questionamentos
que, na maioria das vezes,
nos esquecemos deles ou não pensamos
em momento algum fazê-los a nós mesmos,
apenas o apontamos aos outros.

Maria Cláudia Cabral disse...

Muito bom!

Carla Dias disse...

Matheus... Isso mesmo. Vamos pensar e questionar, assim teremos certeza de que estamos fazendo a melhor escola. E isso vale para todos os aspectos da vida. Abraço!

Maria Cláudia... Grata :)