domingo, 1 de março de 2015

ESTATÍSTICA >> Whisner Fraga

Esta semana um amigo meu se matou. Difícil de entender: tinha dois filhos lindos, uma esposa educada, bonita, inteligente, um emprego bom, estável, uma casa bonita em um condomínio fechado. Olhando de fora, parecia uma vida perfeita, o sonho de muita gente. Aparentemente era feliz, animava todas as festas em que estava presente. Aí resolveu, inesperadamente, dar um tiro na própria cabeça. Aquele método clássico em que o sujeito aloja o cano da arma abaixo do queixo, apontando para o cérebro. Até que um parente dele me contou a motivação: era homossexual e estava cansado de esconder isso. Apaixonara-se por outro homem e não via como desfrutar esse amor sem prejudicar a esposa e filhos.

Ainda sob o impacto dessa perda, vejo as redes sociais inundadas por postagens sobre um projeto de lei de um deputado da bancada evangélica. Ele deseja proibir homossexuais de adotar crianças no Brasil. Não bastasse a confusão que as igrejas promovem a respeito da diferença entre união civil e casamento gay, sou obrigado a acompanhar mais essa. Os cristãos ficam em cima do muro, acuados entre o amor ao próximo e a ordem para segregarem homossexuais. Isso em um país em que há listas intermináveis de crianças esperando por uma adoção.

O projeto do deputado define como célula familiar aquela formada pela união entre um homem e uma mulher. Aí eu me lembro de outro amigo, católico praticante, temente a Deus, como dizem, que tem duas ex-mulheres e quatro filhos. Dois filhos com uma, um com outra e outro com a terceira. Isso aparentemente não é errado em uma sociedade notadamente machista. Mas é errado chamar de família uma união como a de Adriana Calcanhoto, monogâmica, de décadas. Não acho errado qualquer fraternidade ter suas regras para o ingresso de membros. O que acho errado é essas fraternidades se meterem em assuntos que seria do âmbito particular. Essas fraternidades elegerem membros em cargos políticos para disseminarem seus preconceitos. Isso eu acho errado.

Esse amigo se matou porque não se aceitava homossexual, nunca se aceitou assim. E tentou, em nome da religião que seguia cegamente, se converter em um indivíduo normal, homem casado com uma mulher, com filhos e uma casa chique num condomínio de classe média. Não se aceitava homossexual, porque achava isso errado. Até que se apaixonou, aparentemente, contra sua vontade. Viu-se em uma encruzilhada. Me recordo de um padre que deu o seguinte conselho a um outro amigo gay: procure uma boa mulher, case-se, reconstrua sua vida de maneira digna. Como se se moldar a um projeto de sociedade fosse algo digno.

Como eu escrevi ali atrás, se as igrejas não aceitam homossexuais, a solução é simples: que os gays deixem de frequentá-las. Aliás, seria mais simples, se não houvesse dois problemas: muitos gays são religiosos e outros desejam adotar crianças. Atender os primeiros é relativamente fácil: dentro de quatro paredes, todo mundo pode exercer sua crença, sem a necessidade de intermediários. Já os segundos procurarão outras soluções, legais, como se diz. Seguirão o exemplo daquele casal homossexual paraense, que bancou uma fertilização in vitro. Hoje, eles têm duas filhas maravilhosas e normais. O porém é que não é todo mundo que consegue ver uma saída quando está encurralado. Foi o caso deste amigo que se suicidou esta semana.



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3 comentários:

albir silva disse...

É o mesmo discurso de ódio que defende armas para todos, volta da ditadura, pena de morte e espancamento como forma de educação. Depois dirão que a morte de uma ou outra criança é acidente de trabalho.

Ana Gloria B. P. disse...

A pressão sobre o individuo pelo próprio individuo para SER O QUE É A SUA ESSÊNCIA já é um peso enorme, não raro gerando consequências nefastas. A pressão da sociedade para se moldar aos padrões por ela convencionados quando se é MAIS DIFERENTE é um fardo impossível de carregar.

Eduarda Carvalho disse...

Whisner, obrigada por ter escrito sobre algo tão profundo e difícil de ser abordado hoje em dia, sei como e complicado se posicionar sobre esse assunto, pois estamos em um país no qual as diferenças são alvos de discriminação. Por varias vezes não temos soluções para nossos problemas assim nos levando a tomar decisões precipitadas como a de seu amigo, que em minha opinião não deveríamos fazer, pois pra mim tudo tem uma solução.
Em pleno século XXI ainda há dificuldades de se relacionar com as diferenças existentes na sociedade. Mas devemos sim enfrentar nossos medos e ate mesmo as pessoas em nossas voltas para irmos a procura da nossa felicidade.
Um grande abraço.