terça-feira, 10 de março de 2015

SITUAÇÕES E SITUAÇÕES >> Clara Braga

Situações de sala de aula: outro dia estava explicando para os meus alunos uma atividade do livro que pedia que eles fizessem um desenho no qual eles iriam representar a natureza brasileira usando apenas as cores primárias.

- Professora, posso desenhar a Dilma morrendo?

Preferi, talvez erroneamente, não entrar na questão de que não se deve desejar a morte de uma pessoa. Também decidi, de forma correta, não discutir opiniões políticas, acabei apenas dizendo: Dilma não é natureza, quero natureza nas cores primárias.

- Então pode fazer ela roubando a natureza, como ela já faz?
- Gente, que fixação pela Dilma, deixa ela, pensa em algo que vocês gostem muito na natureza, que vocês achem que é característico do Brasil.
- Professora, acho que você tem que deixar a gente representar a Dilma, afinal, ela é uma vaca e vaca faz parte da natureza!

Bom, chegou em um nível no qual eu não podia simplesmente continuar ignorando os comentários. Como eu disse para os alunos e vou dizer aqui também, não vou usar essa crônica para discutir questões políticas, apesar de ter me surpreendido com o fato de alunos de 10 anos terem demonstrado tão prontamente um envolvimento com o assunto. Mas muito além disso, o que me chamou mais a atenção foi alunos de 10 anos chamando uma pessoa de vaca e, pior ainda, desejando a morte de uma pessoa. Confesso que sou nova nessa questão de dar aula, não sei ao certo a consciência que essas crianças tem do peso do que elas estão dizendo, mas tive que dizer que o que elas estavam falando e desejando não é algo que a gente deve desejar a ninguém, nunca na vida!

Depois que acabou a aula, fiquei refletindo sobre o ocorrido e me questionando se no final das contas eu consegui deixar uma mensagem importante para eles. Se eles entenderam o que são as cores primárias? Se eles fizeram o dever? No momento não me importa muito, me importa que eles tenham entendido que não interessa o quanto a gente não goste de alguém, desejar o mal nunca é a solução.

Continuei refletindo sobre o assunto e cheguei à conclusão de que essas crianças nunca teriam esse discurso se não tivessem ouvido alguém, provavelmente os pais, falando coisas semelhantes. Então comecei a pensar, será que os pais conseguem a todo momento ter consciência de que um leve descuido inocente, uma frase sem maldade dita em um momento de distração, pode fazer com que esse filho passe a proferir discursos por aí sem pensar nas consequências ou no peso do que ele está dizendo? Não estou falando que todo pai e todo professor tem que ser paranóico! Antes de tudo, somos todos humanos e cometemos nossas falhas e deslizes, sem que isso nos torne melhores ou piores do que ninguém. Mas temos que ter consciência de que com uma única frase descuidada hoje, com outra amanhã, com atitudes indevidas no outro dia e assim por diante, estamos contribuindo para a formação de uma criança que vai repetir por aí, as vezes até mesmo sem muita consciência, discursos preconceituosos, agressivos e ofensivos.

As crianças de hoje estão muito espertas, não são bobas, pegam as informações no ar, observam as atitudes daqueles que consideram importantes e imitam, aprendem na velocidade da luz, perderam o medo de questionar. Mas a esperteza pode ser usada para o bem ou para o mal, tudo vai depender, em grande parte, da base que a criança tem. Se hoje uma criança morre após ser espancada só porque era filha de um casal homossexual, todos aqueles que não se preocupam em instruir os filhos, que não acham que as pessoas são livres para amar, que incentivam um discurso preconceituoso, carregam, hoje, uma parcela de culpa por essa morte!

Alguns vão dizer: Clara, se informe melhor, talvez ele nem tenha morrido por causa da agressão, afinal, a briga ocorreu e ele passou mal muito tempo depois. Sim, eu sei! Mas passou da hora de nós pararmos de nos espantar com uma agressão só quando ela chega ao extremo. Se esse menino morreu ou não por causa da agressão não muda o fato de que agressão ocorreu. E agressão não deve ser encarada como algo normal, nunca! Seja a agressão física, a verbal ou só uma olhada torta! Essas crianças são o futuro, o nosso futuro! Estamos agora protestando, pedindo por uma nação melhor e mais justa, mas não vai ser educando as crianças dessa forma que nós vamos conseguir isso. Nós temos que investir no nosso futuro, não apenas jogar nossa esperança nas mãos dele e esperar que ele faça o resto. Quando escuto comentários como esses, fico com medo de que a tão sonhada mudança esteja ficando mais cada vez mais distante. 


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5 comentários:

Anônimo disse...

Boa tarde Clara. Lendo sua crônica pude tirar várias conclusões e aqui explicito duas delas: Primeira: Concordo com você quando diz que as crianças são bastante espertas, sabemos que elas estão sempre atentas ao que falamos e fazemos. O que aprendemos na infância, levamos para vida toda, é nesta fase que aprendemos e formamos muitas de nossas opiniões, por isto é necessário que pais e responsáveis eduquem, e criem seus filhos com carinho, respeito, educação,disciplina, limites, tudo dentro da lei de Deus(Bíblia) e da lei dos homens.Segunda: Discordo de você quando diz que "todos aqueles que não se preocupam em instruir os filhos, que não acham que as pessoas são livres para amar." Sim, devemos respeitar a opção sexual de cada pessoa, não é por isso que irei espancar alguém, mas temos o direito também de descordar da atitude homossexual ou bisexual, não somos obrigados á aceitar um casal de homens ou de mulheres, lógico respeitando, mas não aceitando, as pessoa são livres desde que não "force" que eu aceite sua opção, simplesmente dizendo que é uma liberdade amorosa. Sou um(a) adolescente que está inconformado(a) com as atitudes que predominam em nossa sociedade, que o tempo todo tentam desconstruir o real significado de família!

Anônimo disse...

Boa noite Clara, concordo com você em basicamente tudo que relatou em sua crônica. As crianças e os jovens que vêm construindo pilares na nossa nação, muitas vezes formam suas opiniões, consistindo em relatos ditos pelos familiares ou por pessoas desconhecidas que trocam palavras nas ruas. Não estou querendo dizer que as crianças de hoje são delinquentes ou coisa do tipo, mas como todos sabemos, antigamente a criação de berço era mais severa, os pais conseguiam criar 5 a 15 filhos com dificuldade, mas não se via crianças ou adolescentes matando, roubando ou se prostituindo por aí, casos mais populares. Não apoio a idéia de '' bater'', afinal não é com agressão que se resolve os problemas, mas concordo que o acompanhamento e diálogo entre os familiares poderia sim melhorar a cabecinha dessas pequenas criaturas.

Vitor Aloizio disse...

Essa crônica é muito interessante, nos faz refletir na importância que os adultos tem e, principalmente os pais , na formação de uma criança. Nessa crônica fica evidente que nossa conduta e nosso exemplo serão seguidos: bem ou mal.

Thayse Vitória disse...

Olá Clara.
Realmente, as crianças de hoje são muito espertas para tudo e os pais muito desleixados. Quantas e quantas vezes não se veem crianças cantando musicas pornográficas e os pais apenas ficam admirando? Jogos, seriados e programas de tv violentos. Coisas que nenhum ser em formação deveria ver mas ainda assim assistem.
Em relação ao homossexualismo é uma questão complexa. Alguns jovens de hoje, como eu mesma, cresceram e conviveram com a homofobia todos os dias. Minha irmã, minha mãe, minha avó e meu pai me ensinaram que os homo afetivos estão errados. Mas, será que é verdade? Eu não penso assim. O importante entre qualquer relação Homo afetiva ou Hetero afetiva é o amor.
Vejo tantas crianças xingando uma a outra de "viado", "boiola", "gay". Eles não criaram essa perspectiva do nada, como eles saberiam se ser gay é uma coisa ruim? Ouviram de alguém.
Enfim, eu concordo com o que você disse, temos que cuidar do nosso futuro, das nossas crianças.

Anônimo disse...

Clarinha, parabéns! Belíssima crônica!
Temos que educar nossas crianças para serem adultos que, embora discordando da opinião do outro, das suas atitudes, o respeitem.
Existem maneiras de nos expressarmos educadamente, sem destratarmos o próximo, evitando assim, tanta violência!
Beijo