sábado, 7 de março de 2015

BEM CULTURAL >> Sergio Geia

Patrícia, de São José, já tinha me falado dele. Eu, de Taubaté, não conhecia. Pois dia desses resolvi baixar com uma galera no Jardim Cultural, na Chácara do Visconde, aqui em Taubaté.
 
Não encontrei a Emília, nem Narizinho, muito menos o Visconde de Sabugosa, embora o sítio da Dona Benta ficasse pertinho dali, mas encontrei um bar maneiro, com gente bonita, alternativa, num ambiente um tanto quanto original de quintal de casa com direito a vasinhos de flor pendurados na parede; um quê de lounge. E corujas. Muitas corujas. É que entre as cervejas, petiscos e coisa e tal uma amiga me perguntou o porquê de eu encher minha casa de corujas. Eu confesso que não entendi a pergunta. Aí ela me explicou que tinha percebido a existência de corujas no rack, ao lado do telefone, em cima de livros. E também, não tinha deixado de notar, o peso na porta da cozinha, uma coruja.

Ao som de um rock anos 90, e sob a vista de uma morena que congelara seus lindos olhos verdes na minha direção, muito embora com o namoradão do lado, lá fui eu contar um pouco da minha história com as corujas. Na verdade, nada de muito especial. Só acho a coruja um bichinho pra lá de simpático. É isso. Entre patos, marrecos, ursos e corujas, eu prefiro as corujas. Lembro-me que perto de uma casa onde morei, elas iam pra rua ao anoitecer. Uma beleza.

Expliquei que existe toda uma simbologia por detrás da figura da coruja. A coruja é a ave soberana da noite, e enxerga mais que qualquer um depois que o sol se põe. Para muitos povos a coruja significa mistério, inteligência, sabedoria e conhecimento. Na mitologia grega, Athena, a deusa da sabedoria, tinha a coruja como símbolo.

Os gregos consideravam a noite o momento ideal para o exercício do pensamento filosófico. Como um animal da noite, a coruja era vista pelos gregos como símbolo da busca pelo conhecimento. Havia toda uma tradição que dizia que quem comesse carne de coruja iria adquirir seus dons de previsão e clarividências, mostrando poderes divinatórios. Enquanto todos dormem a coruja fica acordada, com os olhos arregalados, vigilante e atenta aos barulhos da noite, pronta para virar sua cabecinha em até 270°. Por isso, representa para muitas culturas uma poderosa e profunda conhecedora do oculto.

Tenho uma coruja de madeira que fica perto do telefone, criada por um artesão de São Bento do Sapucaí, comprada numa visita à Cachoeira dos Amores. Uma que minha mãe ganhou de um amigo e me deu. Um peso na porta da cozinha, um porta-papel, e mais algumas outras, vai.

Posso lhe garantir que nossa conversa, depois de muita cerveja e de um olhar verde estonteante, ficou muito mais interessante que uma simples conversa de botequim sobre corujas. Mas isso foi depois das tantas... Está certo que a própria arquitetura da casa — o rústico, o verde, os arranjos florais, a sensação de estar no quintal de casa, a natureza viva pulsante — favorecia passeios pseudo-filosóficos por corujas, vacas e afins. É que ao final daquele papo eu emendei sem muito pensar: “Vocês viram a vaca que caiu do céu numa casa em Guarulhos?” “Pelamor” — deu pra ouvir um rapaz falar do meu lado. Só gargalhadas.


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