Pular para o conteúdo principal

A SÓS >> Carla Dias >>


Eu poderia dizer as frases certas, usando palavras adequadas. Até mesmo pronunciar poesia na sofreguidão da felicidade. Envolveria Deus no prelúdio, para que as decisões sofressem de divindade.

Eu poderia lhe dedicar o meu universo, do momento que antecede meu despertar ao suspiro que protagoniza meu adormecer, restando-me viver em nome da feitura desse compromisso.

Seria nem sempre amável, que eu sei que sofro de desatino. Conversaria com as paredes, que elas têm me esclarecido um tanto de coisas escondidas. Atravessaria a rua, olhos fechados, no vermelho. Só para chacoalhar a rotina e assustar o sossego.

A verdade se vê diminuta nos palcos desse meu fascínio, que prefiro inventar acontecimentos, deslizes, machucar minhas certezas em vez de gestar indiferença, para então orná-la com falsos sorrisos. À vida eu dedico o mais longo, cáustico, inspirador, vívido suspiro.

A você eu dedico o pensamento mais íntimo.

E outras tantas intimidades, como a de beber água no mesmo copo, abraçar sua mão, apenas para impedir o gesto, aquele que me chama para visitar precipícios. Mergulhar em silêncio no seu olhar enevoado, nas pálpebras das suas intenções orquestradas por silêncios. Escutar sua voz assanhando os meus carinhos, fazendo com que eu os entregue a você de graça, com a graça desalinhada e rendida.

Acho curioso o que dizem por aí sobre o amor. Ele é isso ou é aquilo. O que fazer, então, se o meu não se rende a um paradeiro? Meu amor se movimenta, é paranormal, bipolar, seduzido por ondas sonoras. Gosta da madrugada de quarta, de nem mesmo dormir, e ainda assim, seguir logo cedo para a lida. Meu amor se arrepia ao toque das possibilidades, sabe bem que as imperfeições são mais reveladoras que as qualidades. Ele não tem pudor, esse meu amor, por isso essa sanha toda por liberdade.

Mais que tudo, meu amor alimenta a minha solidão.

Coloca-me de cara com a televisão, horas por dia, espírito entregue à inércia. Também me inspira a inventar legalidade, como a de roubar desajustes para ajustá-los, só de raiva, só de birra, só de solidão contínua. Essas pausas que a sua ausência financia em longas parcelas, que às vezes duram uma estação inteira.

A sós eu comungo com o aferro das minhas querenças. E da saudade...

Eu desafiaria tendências, rótulos e intolerância em nome da sua companhia. E me endoidecessem as pausas, de quando sua voz não assopra palavra dita nos meus ouvidos. Um poema, um capricho, uma confissão sobre o que eu já sabia. E o meu nome, que na sua boca, ele ganha biografia.



Imagem: The Lovers I © Rene Magritte 

carladias.com

Comentários

Anônimo disse…
Fantastico. Vi um texto teu a pouco em uma agenda. Perquisei e eis aqui uma grata surpresa. Um encontro de sentires e percepções.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …