quarta-feira, 25 de março de 2015

A SÓS >> Carla Dias >>


Eu poderia dizer as frases certas, usando palavras adequadas. Até mesmo pronunciar poesia na sofreguidão da felicidade. Envolveria Deus no prelúdio, para que as decisões sofressem de divindade.

Eu poderia lhe dedicar o meu universo, do momento que antecede meu despertar ao suspiro que protagoniza meu adormecer, restando-me viver em nome da feitura desse compromisso.

Seria nem sempre amável, que eu sei que sofro de desatino. Conversaria com as paredes, que elas têm me esclarecido um tanto de coisas escondidas. Atravessaria a rua, olhos fechados, no vermelho. Só para chacoalhar a rotina e assustar o sossego.

A verdade se vê diminuta nos palcos desse meu fascínio, que prefiro inventar acontecimentos, deslizes, machucar minhas certezas em vez de gestar indiferença, para então orná-la com falsos sorrisos. À vida eu dedico o mais longo, cáustico, inspirador, vívido suspiro.

A você eu dedico o pensamento mais íntimo.

E outras tantas intimidades, como a de beber água no mesmo copo, abraçar sua mão, apenas para impedir o gesto, aquele que me chama para visitar precipícios. Mergulhar em silêncio no seu olhar enevoado, nas pálpebras das suas intenções orquestradas por silêncios. Escutar sua voz assanhando os meus carinhos, fazendo com que eu os entregue a você de graça, com a graça desalinhada e rendida.

Acho curioso o que dizem por aí sobre o amor. Ele é isso ou é aquilo. O que fazer, então, se o meu não se rende a um paradeiro? Meu amor se movimenta, é paranormal, bipolar, seduzido por ondas sonoras. Gosta da madrugada de quarta, de nem mesmo dormir, e ainda assim, seguir logo cedo para a lida. Meu amor se arrepia ao toque das possibilidades, sabe bem que as imperfeições são mais reveladoras que as qualidades. Ele não tem pudor, esse meu amor, por isso essa sanha toda por liberdade.

Mais que tudo, meu amor alimenta a minha solidão.

Coloca-me de cara com a televisão, horas por dia, espírito entregue à inércia. Também me inspira a inventar legalidade, como a de roubar desajustes para ajustá-los, só de raiva, só de birra, só de solidão contínua. Essas pausas que a sua ausência financia em longas parcelas, que às vezes duram uma estação inteira.

A sós eu comungo com o aferro das minhas querenças. E da saudade...

Eu desafiaria tendências, rótulos e intolerância em nome da sua companhia. E me endoidecessem as pausas, de quando sua voz não assopra palavra dita nos meus ouvidos. Um poema, um capricho, uma confissão sobre o que eu já sabia. E o meu nome, que na sua boca, ele ganha biografia.



Imagem: The Lovers I © Rene Magritte 

carladias.com

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Um comentário:

Anônimo disse...

Fantastico. Vi um texto teu a pouco em uma agenda. Perquisei e eis aqui uma grata surpresa. Um encontro de sentires e percepções.