domingo, 29 de março de 2015

O DIA EM QUE A HUMANIDADE PERDEU A RAZÃO >> Whisner Fraga

Eu não defendo que as pessoas devam tentar fazer tudo com amor. Nada mais utópico. Com amor nem sexo se faz mais. Também não professo que se faça tudo com profissionalismo, porque é sofrer à toa. Profissionalismo acabou por se tornar algo muito vago, entre a luta por direitos e as necessidades do mercado. Nesse meio tempo encontram-se a briga pela sobrevivência e o mínimo de conforto.

Mas talvez seja importante um pouco de bom senso no exercício do trabalho. E de esforço. Ainda não estou certo se o ser-humano perdeu o senso ou o cérebro. Levamos Helena a um laboratório, para um exame de sangue. Duas enfermeiras despreparadas para o atendimento infantil nos receberam. Helena não gostou de nenhuma, pois a trataram como se fosse adulta. Lógico, aí ela agiu como criança: fez birra, chorou, gritou, esperneou. Nada a fazia ir até a sala de coleta. Até que, muito tempo depois, muito tempo, a convenci a respeito do exame e a levei no colo. Ficamos lá na sala esperando, eu, Ana e Helena, por vários minutos, torcendo para que a menina não voltasse atrás em sua decisão.

De repente, chegaram as duas enfermeiras, nitidamente estressadas com a reação de Helena. Minha filha se sentou em meu colo, estendeu o braço, mas quando uma delas pegou em seu pulso, ela rapidamente a repeliu. Não queria ser atendida por nenhuma delas. Achei que caberia um pouco de conversa, mas, certamente acostumadas a outro tipo de criação, esperavam que déssemos uma bronca na menina ou mesmo que a forçássemos a estender o braço.

Então, uma das enfermeiras começou um sermão, que não sabíamos o quão difícil era tirar sangue de criança, que o médico dela havia pedido vários testes e que seria necessário muito sangue, que era complicado pegar a veia de criança e assim por diante. Que a vida dela (enfermeira) não era fácil, pois ela ia sair dali para fazer um Papanicolau. Mais um pouquinho e começaria a reclamar do salário e das horas que levava de casa até o trabalho. Reclamações muito justas, mas provavelmente fora de hora.

Já estávamos todos nervosos, Helena jejuando há dez horas e ainda tivemos de ouvir aquilo. Saí imediatamente da sala, resmunguei que era difícil ser pai (não por Helena, óbvio, que é uma menina maravilhosa, mas por ter de escutar aquele tipo de asneira, como se a culpa fosse nossa e a criança uma mimada) e, para que eu não começasse a xingar as duas, contei até dez. Na calçada, liguei para minha esposa e falei para que fôssemos embora imediatamente. Em casa, me lembrei de um vídeo de um enfermeiro tirando sangue e gargalhadas de uma criança, que viralizou no youtube. Fiquei com inveja daquele pai todo bobo de tão contente por ter tirado a sorte grande indo a um hospital com profissionais de bom-senso.

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