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Mostrando postagens de Setembro, 2014

ESPERA >> Clara Braga

Sala de espera, local curioso de histórias que passam enquanto você só espera.
Detesto esperar, sou a agonia em pessoa, mas já que não tem jeito, até que pode ser divertido observar como as pessoas lidam com o tempo forçosamente ocioso. 
Alguns tratam logo de tornar esse tempo um tempo útil, estavam preparados para a situação. Sacam logo um livro ou uma revista da bolsa, ligam um player para ouvir música, fazem cruzadinha ou, para os menos tímidos, tratam rapidamente de puxar um assunto bobo qualquer com a pessoa do lado.
A tv fica ligada, mas quem escuta? E pra ser sincera, a tv não tem sido lá uma boa forma de entretenimento.
O tempo passa e alguns já começam a ficar extremamente impacientes. Levantam para beber água, derrubam o copo e morrem de vergonha, afinal, qualquer coisa diferente que acontece em uma sala de espera chama rapidamente a atenção de todos. Alguns compartilham um sorriso cúmplice, digno de quem sabe exatamente o que é estar naquela situação. Outros preferem ignor…

CALÚNIA >> Whisner Fraga

Não sou pessimista. Para mim, pessimista é aquele sujeito que, ao pressupor que tudo fracassará, sofre prematuramente. Antes, avalio a situação, as pessoas, as variáveis, para então me preparar para o possível desfecho. O importante, acredito, é alcançar a serenidade diante do inevitável. Devemos nos portar com sabedoria diante da felicidade e da desgraça. Assim, depois de muito refletir durante anos, cheguei à conclusão de que não existe elogio ou crítica sinceros. Analisem meus argumentos e não me tomem por pessimista.

É apenas uma advertência: não dê valor ao que dizem sobre o que você faz ou sobre o que você é, pois não existe ser-humano capaz de se livrar daquilo a que chamam de “interesse”. É da nossa natureza misturar estações. Desta forma, não fique tão contente se alguém enaltece alguma característica sua. Olha, você está linda hoje. Puxa, nunca conheci ninguém mais inteligente do que você. Que esperta, ninguém consegue enganar você. Que talentoso! E assim por diante. O que h…

INVENÇÃO E SILÊNCIO >> Cristiana Moura

Vez por outra acontece: de tanto ficar dentro de si mesmo, se esvazia de mundo. É assim desde a época de menino lá no seu interior. Enquanto os garotos jogavam bola, haviam períodos que parecia mesmo um retiro. Ele ia subir em árvore e chupar caju. Sempre sem companhia. Precisava de solidão. Mas não era um estar só qualquer. Era coisa de solidão povoada. Enchia-se de si mesmo. Ele lhe era a melhor companhia. Passada a época do caju, voltava a andar com os outros garotos, jogar bola e tudo o mais.

Até hoje é assim. Homem feito. Amores, filhos. Caio se inventa nesta solidão sazonal. Afasta-se dos sons do mundo e no silêncio parece ouvir a si mesmo e a algo maior. Ontem eu o vi. Era uma tal serenidade que lembrei-me do trecho da música de Gil: "Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós...” — deve ser seu mantra.

O CONTRATO - PARTE II >> Zoraya Cesar

clique para ler O Contrato - Parte I
Tudo por uma boa causa. Engoliu o medo, a ansiedade, a insanidade que era aquela coisa toda, e seguiu na direção apontada pela exótica bartender.
O homem se levantou para ela, surpreendendo-a. Não estava mais acostumada com esse gesto. Ao sentar-se, reparou que as luminárias haviam sido estrategicamente colocadas de forma a impedir que o semblante dele fosse visto com clareza. 
Sem problemas, pensou ela, os olhos não são as janelas da alma, os olhos mentem tanto quanto a boca, disso ela sabia muito bem. São as mãos que revelam os segredos da alma.
As mãos. Grandes, mas não muito, quadradas, de unhas cortadas rente e – oh, Graças a Deus – sem esmalte. A pele parecia ressecada, como um deserto cheio de cactos, e os nós dos dedos tinham aquela deformidade típica dos praticantes de karatê. Quem quebra tijolos, pensou ela, quebra também ossos.   É por isso que estou aqui. 
- Me apaixonei por um sujeito, e ficamos um tempo juntos, eu o sustentei durante …

QUINTA >> Fernanda Pinho

Se há um fato na minha vida que me leva a acreditar na lei da atração é o de que eu sempre adorei quinta-feira e, provavelmente por isso, sempre atraí coisas boas para este dia. Eu nasci num domingo, é verdade. Mas meus pais se casaram numa quinta e, para mim, este sim foi meu verdadeiro Big Bang. Mas por que quinta e não sábado, que é um dia de folga e quando acontece os melhores eventos? Ou por que não sexta, este dia que, em tempos de redes sociais, é amada como se isso fosse um mandamento bíblico? Talvez uma explicação seja essa: por que amar um dia que todo mundo já ama? Mas tem mais.
Desde criança eu já curtia muito quinta-feira, porque na sexta era o dia oficial da faxina na minha casa. O que significava basicamente que na quinta podia tudo. Deixar farelo de biscoito na cama, não catar as roupas espalhadas no quarto, deixar o prato na mesa depois das refeições e outras pequenas contravenções domésticas.
Na escola, comecei a ter certeza de que existia uma vibe especial ao redor…

TALVEZ >> Carla Dias >>

Talvez não.
Talvez você não consiga realizar aquele projeto de vida, ao qual dedicou anos de sua vida, muita paciência e, de quebra, suas economias. Tampouco conquiste aquele espaço pelo qual lutou tanto, passando horas de sua vida debruçado em ideias que o levassem até lá, àquele lugar que você acredita piamente que lhe pertença. Pode até ser que, depois de horas na fila, você sobre e não consiga comprar aquele algo com o qual sonhou durante meses, desde que começou a campanha publicitária de lançamento do tal. Mesmo você já se vendo assim, dono dele.
Provavelmente, você não conseguirá conhecer pessoalmente aquele músico que adora de um jeito... E que imaginou tocando sua campainha, entrando na sua sala, sentando-se e servindo-se da sua cerveja, enquanto lhe conta, com a simplicidade que, você imagina, pertença a ele, o que é fazer música pra lá de boa em um mundo onde a mediocridade é celebrada com tanto aprazimento. Pode ser que a lâmpada daquele abajur que você passou o dia sonhando…

MÚSICA PARA MEUS OUVIDOS >> Clara Braga

Um dia uns amigos vieram conversar comigo sobre um assunto que costuma render: música! Não que eu seja lá muito entendida, mas sou curiosa! Então, me perguntaram qual era minha banda predileta. Quer pergunta mais difícil do que essa? Não sei dizer, sei que minha cantora predileta é a Joss Stone, e quando ela se juntou só com artistas geniais para montar o Super Heavy, foi perfeito, conta como banda?
Se não contar não sei, tenho ouvido muito o Jamie Cullum, que músico!! Mas acho que também não conta como banda né, apesar dele valer por uma banda inteira!
 - Tá, escolher uma banda é difícil mesmo, escolhe um show que você foi e te surpreendeu.  - Janelle Monae! Foi a maior surpresa boa que eu já tive em um show. Logo depois já comprei os dois CD’s dela (sim, eu ainda compro CD’s) e não parei de ouvir por um bom tempo. Mas também gostei do show que assisti da Beyoncé, fui sem muita pretensão, mas achei ela uma grande artista. Voz muito potente! 
Aliás, se tem algo que mexe mais comigo d…

O CAMISA-VERDE >> Albir José Inácio da Silva

Siá Maria trouxe a notícia de que tinha gente estranha, fardada e paisana, perguntando por ele em Lages.  O rancho ficava no Km 12 de uma antiga estradinha que a Light tinha aberto durante a construção da Usina de Fontes.
Dito pediu que ela fosse até o comércio vigiar qualquer aproximação. Tão logo ela saiu, Dito enfiou no fogão de lenha a camisa verde e atiçou o fogo. Depois escorregou pelo barranco e correu pela água do riacho para não deixar rastro.
Mas não adiantou. Dali a pouco ele era arrastado de volta por homens a pé e a cavalo.
Dito nasceu Benedito, que Siá Maria chamava Bindito e os vizinhos, desde cedo, maldito. Siá Maria devia ser só ama-de-leite. Logo que ele nasceu, sua mãe, alegando peito seco, pediu a Siá Maria que o amamentasse. Ela já estava desmamando seu último filho, mas água e leite não se nega a uma criatura de Deus. Um dia a mãe não voltou para buscá-lo, e nunca mais se soube dela.
 Ao contrário dos outros filhos, Dito não estudou, trabalhou ou fez qualquer …

A INVASÃO DOS COCURUTOS CALVOS >> Sergio Geia

O cocuruto calvo, amigo, assim como os alienígenas do Independence Day, o smartphone, o tomate-cereja, o Vanish, vem invadindo a vida terrena sem dó nem piedade e tomando conta de tudo. Tal fato eu pude perceber outro dia sentado na última fileira num seminário em Campinas.

Nesses eventos corporativos, sentar na última fileira expressa de modo significativo a velha máxima cristã de que os “últimos serão os primeiros”: serão os primeiros a sair, os primeiros a comer a coxinha do coffee break, a ir ao banheiro, a pegar o copinho d’água, a rir da piada do conferencista, cujo personagem foi nada mais nada menos que seu colega lá da frente, e que nessas alturas já está mais vermelho que dedo-de-moça. Enfim, permite-lhe também uma visão privilegiada de todo o ambiente: quem chega, quem sai, quem está, quem não está, e pequenos detalhes imperceptíveis ao olho humano médio, mas que chamam a atenção de qualquer cronista que se preze: no caso, os cocurutos calvos.

As ilhas brilhantes estavam to…

TRANSFERINDO MEMÓRIAS >> Paulo Meireles Barguil

 Assisti, semana passada, ao instigante filme O doador de memórias.

Uma história repleta de metáforas, as quais não irei aqui listar, pois retiraria de vocês a possibilidade de descobri-las.

Somos, todos, doadores e receptores de memórias, a maioria das quais ignoramos...

Precisamos dos rins para purificar o sangue. O Homem, para evitar a morte quando eles não fazem seu trabalho, inventou a hemodiálise.

Como limpamos as nossas emoções? Ou será que somos tão ignorantes para sequer perceber a influência delas no cotidiano?

Queremos a felicidade, mas desconhecemos os grilhões internos. Por isso, muitas vezes, projetamos, convictos, para fora a responsabilidade do nosso mal estar.

A Biopsicologia nos ajuda a entender as intricadas relações entre sentimentos, ações e pensamentos.

Sem esse conhecimento, o Homem segue desperdiçando energia em variados torpores, que se revelam fugazes e incapazes de conduzi-lo à tão desejada harmonia, a qual expressa a integração das suas dimensões.

Aceito…

O PROTOCOLO DO CECÊ >> Mariana Scherma

Eu tenho total consentimento de que, enquanto estamos suando na academia, não exalamos necessariamente um cheiro de moranguinho ou amaciante de roupa. A coisa é um pouco bruta, sim (para uns mais que outros, vamos combinar), e apesar de os desodorantes se venderem como Incríveis Hulks contra a transpiração, eles não dão conta de segurar o pique vai-com-tudo da malhação, ainda mais no nosso verão que reina até no inverno.

Ok, dito isso, vamos ao dilema. Está difícil frequentar a academia, ou melhor, frequentar a academia respirando pelo nariz. Sei lá, mas, na minha opinião, respirar fundo enquanto você se mata na esteira não faz parte do item luxo. Isso porque existe um sujeito que já chega cheirando mal, mas não é aquele cheiro de depois da corrida, não, ele já chega açoitando as vias respiratórias alheias. É uma mistura aromática de gaveta com roupa mofada que não é aberta há alguns anos com uma pitada generosa de canil molhado. Tem gente que cheira a cachorro molhado, esse cara chei…

TRANSMUTAÇÃO >> Carla Dias >>

Foi uma criança inquieta, daquelas que cutucam chão de terra acreditando que chegará ao outro lado do mundo, e quando descobrem que não é bem assim, cutucam mais um pouco para ter certeza, que ingresso para o outro lado do mundo não anda dando sopa por aí.

Sua inquietude não vem somente de uma infância de liberdade plena. Até porque não tardou para que ele descobrisse que a tal liberdade plena, na verdade, era abandono de incapaz. É que sempre foi assim mesmo, moleque de olhar baixo, desviando de grupos, ficando sozinho com suas divagações, desacelerando na corrida do dia a dia. O pai, mais de muitas vezes, chamou-lhe de inválido, o que, mais tarde, ele compreendeu que uma palavra aplicada de forma equivocada pode virar o jogo da vida. O pai só queria mesmo era chamá-lo preguiçoso, que nunca foi bom nas performances de semáforo. Então, aborrecia-se fácil, achava um jeito de sumir da avenida e das vistas.

Aliás, ele nunca teve a vista boa. Enxergava ralinho do olho esquerdo, por conta…

VAI ENTENDER >> Clara Braga

Lá estava ela, rezando, pedindo proteção, agradecendo o que já havia conquistado. Quando foi pegar o carro para voltar para casa, haviam roubado os quatro pneus.

Já ele estava indo para o trabalho, após passar o dia anterior todo também trabalhando. O carro para de funcionar e para consertar é quase o preço de um novo.

A outra nem ia sair de casa, ia aproveitar o dia de folga. Decidiu ir só rapidinho na padaria, foi assaltada.

A criança que volta da escola a pé é atropelada andando na calçada.

Aquela outra juntou toda a economia para realizar uma vontade antiga de morar em uma casa, e quando acha que vai finalmente realizar seu sonho, descobre que tem problemas que ela desconhecia e que tornam o caminho até o seu sonho um pouco mais estreito.

Sinto que somos testados todos os dias de nossas vidas, e quando achamos que não pode piorar chegamos no chefão!

Zerar esse video game com todas as vidas é difícil, mas acho que no fim das contas o desafio real é viver a vida com mais leveza.

Por…

ACERCA DE UM DRAMA PEQUENO-BURGUÊS >> Whisner Fraga

Então a família do colega de classe de nossa filha se prepara para a comemoração de três anos de seu rebento, ansiosa como todos podem imaginar. E convida todos os pais de todas as crianças da sala de Helena. Assim que recebo a convocação, começo a suar frio, já imaginando como enfrentar a fatídica noite em que terei de sorrir para todos, em que terei de ser sociável, em que terei de ouvir trivialidades de desconhecidos, em que terei de fingir preocupação com as acrobacias dos filhos alheios, mas a vida é assim mesmo, cheia de sacrifícios e o que a gente não faz pelas crianças, não é mesmo?

Então sacrificamos nossa noite de sábado, para a alegria de Helena. As festas infantis continuam as mesmas: há sempre o pentelho que é o mentor das maiores barbáries, o líder que contagia e leva os demais enfants terribles a fazerem o que normalmente não fariam se estivessem sozinhas. Alguns especialistas chamam isso de “efeito manada”. Há as mães desesperadas com possíveis tombos, hematomas, corte…

O CONTRATO - PARTE I >> Zoraya Cesar

Era dia de jogo do Brasil com algum outro país do qual ela não lembrava o nome nem fazia questão de saber. Jamais gostara de futebol, coisa de gente louca, que brigava, matava e morria por um time cujos jogadores nem tinham amor à camisa, iam aonde o dinheiro cantasse mais alto. Brigar, matar e morrer, que fossem por uma boa causa. 
(Tênis, golfe, esses eram esportes decentes, onde os jogadores suavam por sua própria camisa e os torcedores não compravam vuvuzelas nem saíam espancando os outros por aí, pensava).
As ruas estavam apinhadas de gente correndo esbaforida, querendo chegar em casa, no bar, no vizinho, aonde fosse, a tempo de ver o maldito jogo. Ela caminhava na contramão do fluxo, esbarrando nuns e noutros, concentrada em não esmorecer nem se acovardar. 
À medida em que se afastava das vias principais e das estações de metrô, a quantidade de pessoas nas ruas diminuía significativamente, tornando mais fácil o caminhar. Entrou num sebo de livros raros e discos de vinil, um luga…

PIXAIM >> Carla Dias >>

Conheço essa menina que é linda, linda. Não é conversa fiada, porque não sou a única que acha isso. Ela é linda e branquinha. Eu também sou branquinha, minhas irmãs, idem. Se bem que, quando o sol era bondoso comigo, na época em que eu ousava brincar debaixo dele, eu era mais parecida com a minha família. Eu era neguinha, neguinha. Eu adorava sê-lo.

Conversando com minha mãe e tias, revisitei o passado com mais curiosidade. Minha tataravó se casou com um bugre, minha bisavó, que era negra, com um português. Meu avô materno tinha olhos azuis. Minha mãe tem olhos verdes... Azuis. A família do meu pai é clarinha, clarinha. Nascemos branquinhas, fomos enegrecidas pelo sol de horas de brincadeira em quintais, o nosso e dos primos e amigos. Quando as brincadeiras infantes cessaram, desbotamos. Uma pena...

Nasci com o cabelo pixaim, com o nariz de tomada. Ao menos foi o que muitos dos meus colegas de escola disseram, mas essa deveria ser uma verdade que não os ofendesse. Sempre fui gordinha…

DIREITO DOS BURROS >> Sergio Geia

Peguei. Folheei. Parei na 99. O início da crônica me chamou a atenção: “Ontem de manhã, indo ao jardim, como de costume, achei lá um burro. Não leram mal, não, meus senhores, era um burro de carne e osso, de mais osso que carne. Ora, eu tenho rosas no jardim, rosas que cultivo com amor, que me querem bem, que me saúdam todas as manhãs com seus melhores cheiros, e dizem sem pudor cousas mui galantes sobre as delícias da vida, porque eu não consinto que as cortem do pé. Hão de morrer onde nasceram”.
Era sábado. Meu olhar em busca de “O cortiço” na estante, para um trabalho de escola de meu pequeno gigante, esbarrou numa coletânea machadiana de crônicas, publicada pela Folha de São Paulo, não sei em que ano. Como estava ocupado trabalhando numa crônica, peguei o livro e o deixei separado para retornar em breve.
Não aguentei. Aquele tal de “Direito dos burros”, aquele bucólico começo, me fizeram largar o trabalho no meio. Peguei a coletânea e voltei à crônica. Machado conversa com um burro…

O PROFESSOR LOCUTOR E O ESTUDANTE ESPONJA
>> Paulo Meireles Barguil

Depois de várias semanas anunciando para mim mesmo, finalmente escreverei sobre algo que vem me incomodando há muito tempo.

É assaz frequente, infelizmente, a afirmação de que o professor transmite o conhecimento, o conteúdo e o estudante o absorve, o capta.

A tragédia não é escutar esse discurso, mas identificar as seculares tentativas de dar vida a essa crença, mediante práticas mortíferas.

Quando éramos um pouco mais ignorantes do que somos agora, se o resultado não era alcançado tal como planejado, educávamos, com autoridade, torturando as crianças com pisa de cinto ou palmatória, ajoelhando-as em cima de caroços de feijão ou de milho e ainda tendo que segurar, de costas para o quadro e olhando para a parede, uma cadeira na cabeça, levando-as ao desespero com a arguição da tabuada, obrigando-as a copiar dezenas de vezes palavras e números sem qualquer sentido, como se elas fossem pedras duras, que necessitariam de muita água mole para serem furadas...

E o que dizer dos milhares e …

PITADINHA BRASILEIRA >> Mariana Scherma

Esta semana a Globo anunciou que passaria Dirty Dancing – O Ritmo Quente na sessão da tarde e eu ri sozinha, como sempre rio dos complementos brasileiros a filmes ou séries gringos, ou mesmo das traduções literais, que passam a impressão de ter mudado o roteiro totalmente. Deve ser uma profissão no mínimo interessante traduzir ou criar esses complementos. Eu sempre quis conhecer alguém que fizesse isso pra ganhar seus trocados, só pra deixar meu currículo, vai que... Imagino uma reunião de pauta entre esses profissionais questionando:

– Como vamos deixar isso um pouco mais brega?
– Hmmm, acrescenta amor. Amor dá ibope!

Que as distribuidoras de filmes têm uma preferência pelas traduções açucaradas, nível alerta de diabetes, é fato. Não existe outro motivo pra Up In The Air, aquele filme ótimo com o George Clooney, ter se transformado em Amor Sem Escalas. Só pela tradução você imagina uma comédia romântica superlotada de comissárias de bordo e pilotos bonitões. Nada a ver. Tem tudo, men…

CAIR NO MUNDO >> Carla Dias >>

Mãe disse a ela, disse de fazê-la encasquetar com o dito, em uma constância que envolveu anos de sua vida, entre o almoço e o jantar, às vezes, antes do café. Enquanto fazia lição de casa, durante sua festa de aniversário, quando ela estava sozinha, quando estava acompanhada, quando estava de mudança. Com carinho, impaciência. Aos berros, aos prantos. Mãe disse a ela: cuidado, menina, que a vida aflora infortúnios com mais frequência do que lhe empresta sorrisos.

Educada essa moça, que estudou direitinho, arranjou um bom emprego, paga suas contas, ela até arca com as consequências de todas as suas escolhas. Tem medo nenhuma delas. Aos domingos, é ela quem puxa a reza, antes do almoço. Depois, é ela quem coloca a casa em ordem, prepara o café da tarde. Senta-se na sala com seus pais e dois irmãos, observando-os detidamente, enquanto assistem ao programa de auditório preferido e com horas de duração. Às cinco em ponto, ela se levanta e anuncia a partida, recebendo acenos longínquos e d…