terça-feira, 30 de setembro de 2014

ESPERA >> Clara Braga

Sala de espera, local curioso de histórias que passam enquanto você só espera.

Detesto esperar, sou a agonia em pessoa, mas já que não tem jeito, até que pode ser divertido observar como as pessoas lidam com o tempo forçosamente ocioso. 

Alguns tratam logo de tornar esse tempo um tempo útil, estavam preparados para a situação. Sacam logo um livro ou uma revista da bolsa, ligam um player para ouvir música, fazem cruzadinha ou, para os menos tímidos, tratam rapidamente de puxar um assunto bobo qualquer com a pessoa do lado.

A tv fica ligada, mas quem escuta? E pra ser sincera, a tv não tem sido lá uma boa forma de entretenimento.

O tempo passa e alguns já começam a ficar extremamente impacientes. Levantam para beber água, derrubam o copo e morrem de vergonha, afinal, qualquer coisa diferente que acontece em uma sala de espera chama rapidamente a atenção de todos. Alguns compartilham um sorriso cúmplice, digno de quem sabe exatamente o que é estar naquela situação. Outros preferem ignorar, afinal, a pessoa já está com vergonha suficiente, não precisa de mais um comprovando que todos viram o ocorrido.

Os que foram acompanhados sussurram, os que não foram mexem no celular e rezam para a bateria não acabar no meio da crônica que está escrevendo.

Entre olhadas no celular e olhares perdidos pelo espaço, alguns já começam a tomar a forma da cadeira. A única regra parece ser não fazer contato visual com ninguém!

As figuras que passam por uma sala de espera são as mais diversas, e a única certeza é que a espera uma hora vai acabar, mas não tenha dúvidas, seja lá qual for o evento pelo qual você está esperando, com certeza ele vai ser menor do que o tempo que você esperou por ele, principalmente se você estiver aguardando uma consulta médica em um hospital de emergência. 


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domingo, 28 de setembro de 2014

CALÚNIA >> Whisner Fraga

Não sou pessimista. Para mim, pessimista é aquele sujeito que, ao pressupor que tudo fracassará, sofre prematuramente. Antes, avalio a situação, as pessoas, as variáveis, para então me preparar para o possível desfecho. O importante, acredito, é alcançar a serenidade diante do inevitável. Devemos nos portar com sabedoria diante da felicidade e da desgraça. Assim, depois de muito refletir durante anos, cheguei à conclusão de que não existe elogio ou crítica sinceros. Analisem meus argumentos e não me tomem por pessimista.

É apenas uma advertência: não dê valor ao que dizem sobre o que você faz ou sobre o que você é, pois não existe ser-humano capaz de se livrar daquilo a que chamam de “interesse”. É da nossa natureza misturar estações. Desta forma, não fique tão contente se alguém enaltece alguma característica sua. Olha, você está linda hoje. Puxa, nunca conheci ninguém mais inteligente do que você. Que esperta, ninguém consegue enganar você. Que talentoso! E assim por diante. O que há por trás desses enaltecimentos? Um pouquinho de honestidade e muito de interesse.

O que pode haver de armadilha em tantas frases banais? Muito. Se dizemos que alguém é lindo, queremos algum tipo de vantagem: do inocente puxar o saco até um sexo casual. Há muito, mas muito mesmo nos bastidores de um elogio e basta um cursinho rápido de análise do discurso para sacar tal obviedade. Assim, por que dar crédito a qualquer tipo de aprovação? É bom que você aprenda, caro leitor, que só existe uma opinião que interessa a você nesse mundo: a sua própria. Não veja isso como apologia ao egoísmo, mas o contrário.

As críticas, por atingirem diretamente nossa vaidade, são mais complicadas. Mas também não nos dizem nada. Geralmente são motivadas pela inveja. Quando não, significa que o autor está se pautando por uma seriedade que não leva a lugar nenhum. De que adianta alguém dizer que você escreve mal? Que você cheira mal? Que você não sabe conversar, que seu beijo é horrível, que você é egocêntrica? Tais frases são de uma inutilidade aterradora. Só uma pessoa pode dizer a verdade sobre você: você mesmo.

Mas o caminho até essa verdade é sinuoso e por isso as pessoas costumam dar tanta importância ao que os outros dizem. É muito difícil um ser-humano se enxergar sem o filtro da própria frivolidade. A mais casta presunção do homem mais vil da Terra ainda é maior do que todas as forças humanas somadas. Assim, torna-se óbvio que não há utilidade alguma em se atormentar ou se regozijar com uma opinião alheia. Ninguém nunca encontrou sabedoria na opinião de quem quer que fosse.

Não sou pessimista. Acredito cegamente nos papos de final de noite em botecos precários. Acredito na ínfima parte do pensamento humano que tem origem na honestidade. Acredito no diálogo como uma perda de tempo necessária. Acredito na potência redentora da beleza, da arte e do agnosticismo. Acredito no poder civilizatório do vinho. O resto é calúnia e difamação.

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sábado, 27 de setembro de 2014

INVENÇÃO E SILÊNCIO >> Cristiana Moura

Vez por outra acontece: de tanto ficar dentro de si mesmo, se esvazia de mundo. É assim desde a época de menino lá no seu interior. Enquanto os garotos jogavam bola, haviam períodos que parecia mesmo um retiro. Ele ia subir em árvore e chupar caju. Sempre sem companhia. Precisava de solidão. Mas não era um estar só qualquer. Era coisa de solidão povoada. Enchia-se de si mesmo. Ele lhe era a melhor companhia. Passada a época do caju, voltava a andar com os outros garotos, jogar bola e tudo o mais.

Até hoje é assim. Homem feito. Amores, filhos. Caio se inventa nesta solidão sazonal. Afasta-se dos sons do mundo e no silêncio parece ouvir a si mesmo e a algo maior. Ontem eu o vi. Era uma tal serenidade que lembrei-me do trecho da música de Gil: "Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós...” — deve ser seu mantra.

Depois do seu exílio voluntário, a volta ao mundo sempre causa estranhamento. Sente uma gastura na pele como se olhares e sorrisos, ao mesmo tempo, o invadissem e acolhessem. Ele esboça um sorriso para o qual não encontro adjetivo. É fruto de alegria serena que só se cultiva em recolhimento. É alegria de quem se contenta com a vida. Nem mais, nem menos. O homem é o que é. Aos poucos vai se enchendo de afetos doces em rever os amigos. — Quanto tempo , meu amigo, andava sumido! Já havia se acostumado com estas exclamações. Cumprimenta os amigos com abraços, afetos e silêncio.

Há quem diga que ele é estranho. — Lá vem o  Caio, aquele seu amigo esquisito — dizia a moça de vermelho. Mas não. Caio é presença e solidão. Ele parece cuidar do tempo, como quem reverencia a um Deus. Se é que vivemos mesmo muitas vidas em encarnações diferentes, ele vive muitas vidas em uma só. Quando ele ressurge, reinventado, aguardo seu abraço mudo e pleno e me reinvento  também. Fico aqui imaginando como seria se cada um de nós encontrasse esse silêncio e pudesse ouvir para além dos ruídos do mundo.




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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O CONTRATO - PARTE II >> Zoraya Cesar


Tudo por uma boa causa. Engoliu o medo, a ansiedade, a insanidade que era aquela coisa toda, e seguiu na direção apontada pela exótica bartender.

O homem se levantou para ela, surpreendendo-a. Não estava mais acostumada com esse gesto. Ao sentar-se, reparou que as luminárias haviam sido estrategicamente colocadas de forma a impedir que o semblante dele fosse visto com clareza. 

Sem problemas, pensou ela, os olhos não são as janelas da alma, os olhos mentem tanto quanto a boca, disso ela sabia muito bem. São as mãos que revelam os segredos da alma.

As mãos. Grandes, mas não muito, quadradas, de unhas cortadas rente e – oh, Graças a Deus – sem esmalte. A pele parecia ressecada, como um deserto cheio de cactos, e os nós dos dedos tinham aquela deformidade típica dos praticantes de karatê. Quem quebra tijolos, pensou ela, quebra também ossos.   É por isso que estou aqui. 

- Me apaixonei por um sujeito, e ficamos um tempo juntos, eu o sustentei durante esse tempo. Quando descobri que ele não passava de um cretino, dei-lhe o fora. Acontece que ele filmou nossas transas, sem minha permissão, claro, e há meses me chantageia. Sou assistente de um candidato a governador, se isso vem a público serei demitida e nunca mais arranjo emprego na minha área. Estou endividada, ele quer me extorquir até o desespero. Não posso procurar a polícia. Contratei um detetive particular, mas não deu em nada, o cara é um filho da p**, mas é esperto. Ele disse ao meu advogado que queria uma mesada, pelo tempo que passamos juntos. Dá pra acreditar? Prefiro morrer a continuar sustentando vagabundo. Minhas reservas estão se esvaindo e minhas forças também.... E se ele divulgar os filmes, eu...

Ela se calou, cansada, visivelmente nervosa, mas ainda assim não chorou. Uma forte, pensou ele. Em situações normais deve até ser bonita, sem as olheiras, a boca apertada, a pele baça. O desespero destrói uma pessoa. 

- E o que você quer? – a voz dele era suave e gentil, contrastando com sua compleição atlética.

- Que ele me deixe em paz. Pra sempre. Antes que eu faça uma besteira eu mesma. Ou mato ele ou me mato, estou ficando sem saída. Tenho um filho de oito anos, estou tomando calmante pra dormir, logo eu, que nao tomo remédio nem pra dor de cabeça.

O homem permaneceu em silêncio por um longo tempo, sem que ela o interrompesse. Gostou disso, demonstra segurança e caráter, pensou. Observou-a, com olhos semicerrados, enquanto ela permanecia imóvel, olhando fixamente para um ponto qualquer acima da cabeça dele. 

Ele jamais aceitara um encontro sem antes investigar a vida do pretenso contratante. Aceitar o contrato era outra etapa. A experiência de anos no ramo lhe ensinou que pessoas comuns, como a mulher à sua frente, jamais deveriam se meter nesse tipo de coisa, contratar gente como ele, nunca dava certo.  O desespero voltava, dessa vez por outra porta, e o medo passava a consumi-las por outros caminhos. Nem todos suportavam o preço a pagar pela liberdade. E, em algum momento, eles acabavam contando para alguém, e isso também não era bom. 

A polícia sabia da existência do Clube, mas nunca chegara perto de seus sócios, por três motivos muito simples: os órgãos oficiais às vezes precisavam de seus préstimos; alguns dos membros pertenciam aos altos escalões da sociedade; e porque eles eram muito cuidadosos. Profissionais.

Ele também sabia que chantagistas daquele nível eram vingativos e escorregadios, não desistiam até verem suas vítimas exangues. Pessoas comuns não tinham defesa contra eles, sangravam até a morte. E morte era a sua especialidade.

- Você tem certeza? Uma vez contratado o serviço, não tem como voltar atrás. E tudo nessa vida, assim como na outra, tem conseqüências. – ele falou, baixo e firme. Ela hesitou.

- Levei meses pra chegar até aqui, fiz o que podia e o que não devia. Mas agora... não sei. Só não posso continuar assim. Não tenho mais a quem recorrer...

Alguém diminuíra o volume da juke box, fazendo a música do Def Leppard mais parecer com Bossa Nova, e aumentara o da televisão; alguns frequentadores prestavam atenção à partida.

- Não acho que você queira realmente isso, não vai aguentar uma morte na consciência. Tenho um amigo hacker que conseguirá apagar todo o conteúdo do computador do seu ex, que não terá mais como te chantagear. Mas digamos que ele tenha os filmes em outras mídias, e, de qualquer maneira, sempre será uma preocupação na sua vida.  Então, eu proponho o seguinte: se o Brasil fizer um gol agora, providencio para que ele nunca mais seja um problema para você. Se o Brasil levar um gol, providencio para que ele nunca mais seja um problema para ninguém. Você jamais saberá como aconteceu. E aceita jantar comigo hoje, sem me ver nunca mais, se não quiser. O que acha?

Ele se inclinou sobre a mesa, deixando-a ver seus olhos castanhos enfeitados por pequenas rugas, os cabelos grisalhos, o sorriso perfeito, estranhamente confortador. Tudo o que ela queria era se ver livre pra sempre do desgraçado, mas matar seria realmente o último ato de desespero. Matar ou morrer, que seja por uma boa causa, sempre acreditara nisso. O cretino era fanático por futebol, por que não deixar o futebol decidir o destino dele, perguntou-se; o homem à sua frente pertencia a um clube de assassinos de elite, e a estava convidando pra jantar... Que mundo estranho, esse.

Ela tomou sua decisão, sabendo que, desistindo ou prosseguindo, teria de arcar com as consequências. Abriu a boca, mas, antes que pudesse responder, o locutor grita: 

- Goooll d...



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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

QUINTA >> Fernanda Pinho



Se há um fato na minha vida que me leva a acreditar na lei da atração é o de que eu sempre adorei quinta-feira e, provavelmente por isso, sempre atraí coisas boas para este dia. Eu nasci num domingo, é verdade. Mas meus pais se casaram numa quinta e, para mim, este sim foi meu verdadeiro Big Bang. Mas por que quinta e não sábado, que é um dia de folga e quando acontece os melhores eventos? Ou por que não sexta, este dia que, em tempos de redes sociais, é amada como se isso fosse um mandamento bíblico? Talvez uma explicação seja essa: por que amar um dia que todo mundo já ama? Mas tem mais.

Desde criança eu já curtia muito quinta-feira, porque na sexta era o dia oficial da faxina na minha casa. O que significava basicamente que na quinta podia tudo. Deixar farelo de biscoito na cama, não catar as roupas espalhadas no quarto, deixar o prato na mesa depois das refeições e outras pequenas contravenções domésticas.

Na escola, comecei a ter certeza de que existia uma vibe especial ao redor da quinta-feira. Me lembro exatamente que durante toda a minha vida escolar, as aulas mais legais eram na quinta: português, literatura, história, artes, espanhol. Física, química, matemática e outros absurdos sempre foi departamento de segunda e quarta. Tudo isso, é claro, porque o poder da minha mente fazia o quadro de horários da minha escola se organizar dessa forma. 

O poder da minha mente agiu, inclusive, neste site que vocês acessam agora, para o qual eu fui convidada, quatro anos atrás, para escrever sempre às quintas. Não fui eu quem escolhi o dia. Juro. Mas se a mente não atua, eu dou meu jeitinho. Dentro da minha organização de trabalho, por exemplo, procuro deixar as atividades que mais me dão prazer para a quinta. Porque as quintas sempre foram legais comigo e eu devo isso a elas.

E quando o feriado cai na quinta? A gente emenda e vira miniférias. E se não der para emendar, não tem problema, porque o dia útil no meio disso é uma sexta e como todo mundo tende a ser feliz na sexta, é um dia fácil de levar. E pelo mesmo motivo, sempre considerei que quinta-feira já é um dia permitido para ficar acordada até mais tarde. São apenas 24 horas nos separando do fim de semana, afinal. E quando tem festa na sexta? Desde a quinta já começo a ser feliz, no melhor estilo Pequeno Príncipe. 

Se for quinta-feira de setembro, melhor ainda. Sim, não é possível que não tenham percebido ainda, mas sou dessas capaz de amar um dia da semana e também um mês inteiro. E conforme eu já contei em outras ocasiões, eu realmente me sinto diferente em setembro. Como se minha vida fosse um musical. Nas quintas de setembro, então, eu canto, danço e flutuo. E quando acontece essa conjunção de fatores de ser quinta-feira, setembro, meu dia de cronicar e meu aniversário, eu transbordo. É tanta coisa boa que não posso guardar só para mim. Hoje é o meu dia de desejar a cada um de vocês: felicidades. 


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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

TALVEZ >> Carla Dias >>

Talvez não.

Talvez você não consiga realizar aquele projeto de vida, ao qual dedicou anos de sua vida, muita paciência e, de quebra, suas economias. Tampouco conquiste aquele espaço pelo qual lutou tanto, passando horas de sua vida debruçado em ideias que o levassem até lá, àquele lugar que você acredita piamente que lhe pertença. Pode até ser que, depois de horas na fila, você sobre e não consiga comprar aquele algo com o qual sonhou durante meses, desde que começou a campanha publicitária de lançamento do tal. Mesmo você já se vendo assim, dono dele.

Provavelmente, você não conseguirá conhecer pessoalmente aquele músico que adora de um jeito... E que imaginou tocando sua campainha, entrando na sua sala, sentando-se e servindo-se da sua cerveja, enquanto lhe conta, com a simplicidade que, você imagina, pertença a ele, o que é fazer música pra lá de boa em um mundo onde a mediocridade é celebrada com tanto aprazimento. Pode ser que a lâmpada daquele abajur que você passou o dia sonhando que iluminaria a sala onde você descansaria a cabeça e o corpo esteja queimada. E que em vez de paz e sossego, você ganhe um pequeno desapontamento e uma ida obrigatória ao supermercado.

Talvez aquela roupa não lhe caiba mais do jeito que lhe coube quando, você acredita, era mais feliz que agora. E que para você, roupa que não cabe mais seja ferramenta perfeita para cimentar a certeza de que mudar é sempre para pior. Nesse estado de espírito, pode ser que você se sente em frente à televisão, esperando assistir a um filme de ação, daqueles de fazer o bandido ser mais querido que o mocinho, que a hora é de extravasar a própria incompetência em viver a vida. Mas aí que, naquele dom de zapear que lhe cabe, você encontra aquele filme que assistiu quando aquela roupa ainda lhe cabia, respira fundo e o assiste, até o fim, fazendo de conta, para si mesmo, que o passado não lhe dói.

De repente, você ter passado a vida com a cara nos livros, pesquisando, esmiuçando o que a ciência oferece, não lhe torne apto a ser a pessoa a descobrir a cura para a doença que acomete alguém que você ama. E, ainda que, durante essa jornada suas descobertas beneficiem a tantos outros, talvez isso não lhe conforte como você esperava que acontecesse.

Pode ser que você nunca conheça a sua pessoa, aquela que vem imaginando, desde que descobriu o amor romântico. Aquela à qual você dedicou os pensamentos mais ternos, com quem se viu vivendo a melhor parte da sua existência, mesmo ela sendo somente habitante de um imaginário que tem por certo que ela chegará a tempo de, junto com você, construir uma história, cultivar intimidade, iniciar família.

Eventualmente, você compreenderá que não é a pessoa capaz de decidir tudo como acreditava ser. Não porque não lutou por isso, não se dedicou a se tornar a pessoa que conduz a sua biografia. Mas simplesmente porque nem sempre o caminho que escolhemos é o mesmo que a vida decide que devemos trilhar. Não à toa encontramos pessoas que desempenham papéis que jamais escolheriam.

E se engana quem pensa que essa impossibilidade de coordenar, de comandar tudo é ruim. Como no jazz, a nossa existência depende de improvisos. Como seres humanos, quase nunca estamos abertos a eles, que adoramos uma rede de proteção. Mas a verdade é que nem sempre as nossas escolhas são as melhores. No susto, muitos de nós aprendemos a felicidade de sermos talentosos em algo que jamais poderíamos sequer imaginar sermos capazes de realizar, e tão bem. Esse labirinto das vontades da vida, às vezes nos mostra que a coisa não é tão importante assim, que destino muda, rotas estão aí para serem experimentadas, é possível sim amar uma, duas, três vezes, e se viver com alguém sem ter filhos, ou ter um time de futebol deles.

O que não compreendemos facilmente é que, quando decidimos como as coisas serão na nossa vida, é que o tempo nos molda. Cada vivência representa um passo adiante na nossa capacidade de nos permitirmos saborear diferenças e apreciar semelhantes. Andamos tão ocupados em nos tornar que esquecemos que somos.

Talvez sim.

Talvez você se torne a pessoa que sonhou... Ontem à noite.


Imagem: Portrait de l’éditeur Eugène Figuière © Albert Gleizes



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terça-feira, 23 de setembro de 2014

MÚSICA PARA MEUS OUVIDOS >> Clara Braga

Um dia uns amigos vieram conversar comigo sobre um assunto que costuma render: música! Não que eu seja lá muito entendida, mas sou curiosa! Então, me perguntaram qual era minha banda predileta. Quer pergunta mais difícil do que essa? Não sei dizer, sei que minha cantora predileta é a Joss Stone, e quando ela se juntou só com artistas geniais para montar o Super Heavy, foi perfeito, conta como banda?

Se não contar não sei, tenho ouvido muito o Jamie Cullum, que músico!! Mas acho que também não conta como banda né, apesar dele valer por uma banda inteira!

 - Tá, escolher uma banda é difícil mesmo, escolhe um show que você foi e te surpreendeu.
 - Janelle Monae! Foi a maior surpresa boa que eu já tive em um show. Logo depois já comprei os dois CD’s dela (sim, eu ainda compro CD’s) e não parei de ouvir por um bom tempo. Mas também gostei do show que assisti da Beyoncé, fui sem muita pretensão, mas achei ela uma grande artista. Voz muito potente! 

Aliás, se tem algo que mexe mais comigo do que ouvir música é ir a um show! A energia de um show ao vivo é diferente, nada se compara! Aerosmith foi emocionante, Paramore foi super animado, Bob Dylan foi uma experiência um tanto diferente, Alanis, Muse, Ozzy, Black Eyed Peas, John Mayer, Jamiroquai, Steve Wonder, Regina Spector, Creedance, Rollings Stones, todos shows memoráveis. Mas claro, bandas brasileiras também fazem shows maravilhosos: Paralamas do Sucesso, Skank, Natiruts, Kid Abelha, Nando Reis, Penélope, Mônica Salmaso, e mais recentemente o show do Titãs foi muito bom, voltaram a fazer um rock mais pesado, como faziam antigamente!

Tem também os shows e bandas que ouvia na adolescência, que hoje gosto de ouvir em momentos nostálgicos. O clássico é Hanson, e confesso que ouvi o último CD deles e gostei muito, achei que amadureceram muito e fiquei triste deles só terem feito show no Rio, se tivesse aqui em Brasília eu teria ido sem medo de ser feliz. Também é extra nostálgico ouvir Green Day, Silverchair, Spice Girls, Guns n’ Roses, CPM 22, Dead Fish, Shakira (principalmente tentando cantar aquelas partes estranhas e rápidas em espanhol), … !

E sabe aquela mania que algumas pessoas tem de fazer lista? Pois é, a minha maior lista é a de shows que eu ainda pretendo assistir: Bruno Mars, Jessie J, Alicia Keys, Kiss, Funk como Le Gusta, Roberta Sá, Jams (sim, a vencedora do Super Star), The Corrs, No Doubt, U2, Leoni, … Ah, e claro, já estou pensando em como fazer para ir a algum dos shows do Foo Fighters que vão ter no Brasil em janeiro! Show do Foo Fighters também é desejo de adolescência!

Bom, sei que o papo foi caminhando e uma lista enorme de bandas e sons foram sendo citados, até que eu ouvi o comentário: nossa, mas que salada hein, difícil entender e acompanhar seu gosto musical.
Até tentei me explicar, buscar alguma referência, mas acho que a explicação é mais simples do que se imagina: eu gosto de música.


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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O CAMISA-VERDE >> Albir José Inácio da Silva

Siá Maria trouxe a notícia de que tinha gente estranha, fardada e paisana, perguntando por ele em Lages.  O rancho ficava no Km 12 de uma antiga estradinha que a Light tinha aberto durante a construção da Usina de Fontes.

Dito pediu que ela fosse até o comércio vigiar qualquer aproximação. Tão logo ela saiu, Dito enfiou no fogão de lenha a camisa verde e atiçou o fogo. Depois escorregou pelo barranco e correu pela água do riacho para não deixar rastro.

Mas não adiantou. Dali a pouco ele era arrastado de volta por homens a pé e a cavalo.

Dito nasceu Benedito, que Siá Maria chamava Bindito e os vizinhos, desde cedo, maldito. Siá Maria devia ser só ama-de-leite. Logo que ele nasceu, sua mãe, alegando peito seco, pediu a Siá Maria que o amamentasse. Ela já estava desmamando seu último filho, mas água e leite não se nega a uma criatura de Deus. Um dia a mãe não voltou para buscá-lo, e nunca mais se soube dela.

 Ao contrário dos outros filhos, Dito não estudou, trabalhou ou fez qualquer coisa útil. Furtou e infernizou a vida da vizinhança. Não fosse por Siá Maria, ele ganharia uma coça por dia. Mas os motivos iam se acumulando e, quando o pegavam sozinho, não escapava.

Dito foi crescendo e, como não se dava muito bem com esse negócio de trabalho, acabou se envolvendo na política. Os camisas-verdes tinham um discurso envolvente, patriótico, que queria ordem, moral e honestidade.

Dito, se não era muito ligado nessas coisas de moral e honestidade, pelo menos falava nelas com muito entusiasmo.  E logo estava usando verde, saudando com a mão levantada e gritando: anauê!

Quando terminou o “flirt” com os alemães e se voltou para os aliados, Getúlio se viu na obrigação de perseguir os integralistas, que seriam os nazi-fascistas tupiniquins. As camisas verdes desapareceram dos corpos e dos armários, mas o caça-às-bruxas já tinha começado.

E foi assim que o Dito foi arrastado de volta das brenhas daquela encosta de serra com as mãos amarradas. Tiraram-lhe toda a roupa e ele ficou se encolhendo, a ver se escondia ou protegia algumas partes.

Quando os homens da lei desafivelaram seus próprios cintos, Dito estremeceu. A coisa podia ser bem pior que uma morte pura e simples – apavorou-se.

(Continua em 15 dias)


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sábado, 20 de setembro de 2014

A INVASÃO DOS COCURUTOS CALVOS >> Sergio Geia

O cocuruto calvo, amigo, assim como os alienígenas do Independence Day, o smartphone, o tomate-cereja, o Vanish, vem invadindo a vida terrena sem dó nem piedade e tomando conta de tudo. Tal fato eu pude perceber outro dia sentado na última fileira num seminário em Campinas.

Nesses eventos corporativos, sentar na última fileira expressa de modo significativo a velha máxima cristã de que os “últimos serão os primeiros”: serão os primeiros a sair, os primeiros a comer a coxinha do coffee break, a ir ao banheiro, a pegar o copinho d’água, a rir da piada do conferencista, cujo personagem foi nada mais nada menos que seu colega lá da frente, e que nessas alturas já está mais vermelho que dedo-de-moça. Enfim, permite-lhe também uma visão privilegiada de todo o ambiente: quem chega, quem sai, quem está, quem não está, e pequenos detalhes imperceptíveis ao olho humano médio, mas que chamam a atenção de qualquer cronista que se preze: no caso, os cocurutos calvos.

As ilhas brilhantes estavam todas lá, reluzindo em cabeças masculinas mais que espada dourada em dias de sol. Eram dezenas, talvez centenas. Havia ilhas de todo gênero, espécies e tamanhos: ilhas brancas em oceanos brancos, ilhas brancas em oceanos pretos, ilhas em rios no tempo da seca, em lagos nada caudalosos, em lagoas chinfrins, em pequenas cascatas de água rasa.

É triste ver o que nos espera. Claro! Você acha que tá livre disso? A menos que seu pai seja um privilegiado no assunto, que não sofra a falta dos folículos pilosos, você também tá no time, mermão! E ver que o homem, ah!, esse homem, tão sofisticado para certas coisas, tão capaz de criações fantásticas e inusitadas, capaz de inventar maravilhas como os dentes de um garfo, o anticoncepcional que libertou a mulherada, o Viagra, os óculos, a escova de dente, o chuveiro, a agulha, o cortador de unhas, o pente, o canudinho, a parafernália eletrônica toda, capaz de criar um mundo chamado internet, capaz de criar uma ovelha, um órgão, uma máquina que voa, não é capaz de inventar uma merreca de um comprimidinho para dar cabo dessa esfera cada vez mais pujante e irritante que nasce no cocuruto da rapaziada.

Ela começa fraquinha, desnutrida, você nem percebe. Alguém comenta e você diz: “Imagina, eu?”. De repente, você nota que tem mesmo alguma coisa lá, que fulana estava certa, uma pequena falhazinha. E essa pequena falhazinha, um feijão, da noite pro dia vira uma maçã, parece que o homem tá lá, desmatando tudo pra erguer um prédio. A coisa anda rápida. Sem menos você perceber, ela já está existe, vivinha da silva, crescendo na mesma velocidade em que se engorda uma galinha, se alimentando de todo o seu viço e seus folículos, fazendo aumentar sua desgraça na mesma proporção em que ela aumenta de tamanho. Uma fenda aberta no matagal do que um dia foi uma floresta amazônica, mas que agora está mais pra serra pelada.

A outra vantagem de sentar na última fileira, amigo, que esqueci de lhe contar, é que seus colegas não verão a sua ilha. Mas não posso dizer o mesmo quando você está no elevador, com esses espelhos em todas as direções. Cruz credo!



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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

TRANSFERINDO MEMÓRIAS >> Paulo Meireles Barguil



Assisti, semana passada, ao instigante filme O doador de memórias.

Uma história repleta de metáforas, as quais não irei aqui listar, pois retiraria de vocês a possibilidade de descobri-las.

Somos, todos, doadores e receptores de memórias, a maioria das quais ignoramos...

Precisamos dos rins para purificar o sangue. O Homem, para evitar a morte quando eles não fazem seu trabalho, inventou a hemodiálise.

Como limpamos as nossas emoções? Ou será que somos tão ignorantes para sequer perceber a influência delas no cotidiano?

Queremos a felicidade, mas desconhecemos os grilhões internos. Por isso, muitas vezes, projetamos, convictos, para fora a responsabilidade do nosso mal estar.

A Biopsicologia nos ajuda a entender as intricadas relações entre sentimentos, ações e pensamentos.

Sem esse conhecimento, o Homem segue desperdiçando energia em variados torpores, que se revelam fugazes e incapazes de conduzi-lo à tão desejada harmonia, a qual expressa a integração das suas dimensões.

Aceito, com cuidado, a missão de transmutar a herança recebida e partilhá-la, embora ainda pouco saiba sobre essa alquimia.

Divirto-me em pensar que as minhas memórias são tão antigas quanto as suas...

Um dia, quem sabe, elas se encontrarão de novo!

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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O PROTOCOLO DO CECÊ >> Mariana Scherma

Eu tenho total consentimento de que, enquanto estamos suando na academia, não exalamos necessariamente um cheiro de moranguinho ou amaciante de roupa. A coisa é um pouco bruta, sim (para uns mais que outros, vamos combinar), e apesar de os desodorantes se venderem como Incríveis Hulks contra a transpiração, eles não dão conta de segurar o pique vai-com-tudo da malhação, ainda mais no nosso verão que reina até no inverno.

Ok, dito isso, vamos ao dilema. Está difícil frequentar a academia, ou melhor, frequentar a academia respirando pelo nariz. Sei lá, mas, na minha opinião, respirar fundo enquanto você se mata na esteira não faz parte do item luxo. Isso porque existe um sujeito que já chega cheirando mal, mas não é aquele cheiro de depois da corrida, não, ele já chega açoitando as vias respiratórias alheias. É uma mistura aromática de gaveta com roupa mofada que não é aberta há alguns anos com uma pitada generosa de canil molhado. Tem gente que cheira a cachorro molhado, esse cara cheira a canil lotado molhado. E se você acha que estou exagerando, vamos aos fatos...

Dia desses, postei no Facebook que era irônico sarar da crise da rinite e o primeiro cheiro que senti ser o do homem fedido. Pausa necessária: antes de julgar meu desabafo na rede social, é bom saber que não sou amiga dele, nem sei o nome do cara – preservação total da integridade. Mas o mundo é pequeno, um conhecido de academia leu e veio falar comigo, queria saber se eu estava me referindo ao tal fulano, porque ele concorda ser insuportável. Um outro amigo também veio me contar que agora é obrigado a fazer esteira longe da janela, por causa do tal homem, além das vezes em que não termina uma série de musculação quando ele aparece para usar um aparelho perto. Não está fácil pra ninguém, mas sinto mais dó desse sujeito, já que as esteiras ao redor dele ficam vazias – e olha que estão na parte mais ventilada da academia.

Quando vejo o cara por perto, passo rápido sem respirar. E só sorrio um oi a jato. Um dia, fiz isso e vi duas meninas vindo conversando animadas. A animação acabou quando elas passaram por ele. Só ouvi o comentário de uma: “Eu engoli o cheiro enquanto falava. Credo!”. E a outra fechou: “Tem que passar rápido por ele, você ainda não percebeu?”. O cara é simpático e pode ser inteligente, bom papo, mas o aroma mofado está dificultando a vida social fitness dele. Quase um bullying adulto.

Todo esse dilema aí em cima por conta de uma dúvida: qual o protocolo a ser seguido quando a pessoa cheira mal assim, como o Pepe Le Gamba da malhação? Pensei em pedir para algum amigo, frequentador do vestiário masculino, jogar um papel na mochila avisando ao cara, mas é meio complicado todo o esquema – apesar dos benefícios imensos: pra mim e demais frequentadores e pra ele, que poderia fazer amigos. Ou jogar na caixa de sugestões da academia alguma promoção envolvendo ganhar desodorantes potentes nível Os Vingadores da Marvel, sabão em pó e amaciante de roupa cheirosinhos. Talvez descobrir o telefone dele e fazer uma ligação anônima em nome de todos os frequentadores da academia. Sei lá...

Muitas ideias, zero coragem. Enquanto isso, vamos todos nos embolando em um único lado das esteiras. De repente, ter crises sem fim de rinite virou um golpe de sorte. Em um mundo sem desodorante, água e sabão, tenho boas chances de sobreviver graças às condições das minhas vias respiratórias. Mas que é triste, isso é!

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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

TRANSMUTAÇÃO >> Carla Dias >>


Foi uma criança inquieta, daquelas que cutucam chão de terra acreditando que chegará ao outro lado do mundo, e quando descobrem que não é bem assim, cutucam mais um pouco para ter certeza, que ingresso para o outro lado do mundo não anda dando sopa por aí.

Sua inquietude não vem somente de uma infância de liberdade plena. Até porque não tardou para que ele descobrisse que a tal liberdade plena, na verdade, era abandono de incapaz. É que sempre foi assim mesmo, moleque de olhar baixo, desviando de grupos, ficando sozinho com suas divagações, desacelerando na corrida do dia a dia. O pai, mais de muitas vezes, chamou-lhe de inválido, o que, mais tarde, ele compreendeu que uma palavra aplicada de forma equivocada pode virar o jogo da vida. O pai só queria mesmo era chamá-lo preguiçoso, que nunca foi bom nas performances de semáforo. Então, aborrecia-se fácil, achava um jeito de sumir da avenida e das vistas.

Aliás, ele nunca teve a vista boa. Enxergava ralinho do olho esquerdo, por conta de um acidente caseiro, que nem vem ao caso, que ele era tão pequeno quando aconteceu que prefere o esquecimento. Foi essa visão, que uns tantos diziam ser limitada, que lhe ensinou os olhar atento que, posteriormente, inspirou-lhe o olhar atencioso.

A mãe era uma dona grandalhona, de voz miúda, que contava histórias horríveis, das violentas, mas com um tom calmo, um ritmo arrastado, o que fazia com que as pessoas a escutassem como se estivessem assistindo à novela, e não escutando detalhes sobre um fato. Aliás, não havia mulher no bairro que soubesse mais que a mãe dele, a detentora dos detalhes. Bem mais tarde, ele ficou sabendo que ela também era a autora da maioria dos atos vis que apimentavam suas histórias.

A curiosidade o levou à escola. Não a curiosidade sobre o aprendizado, mas sobre se a sopa servida de merenda tinha o sabor tão bom quanto o cheiro. Não tinha, mas de qualquer forma, era muito mais agradável passar o tempo com a cara na lousa e no caderno do de cara com seu pai, que ele veio saber, não tardou, era a matéria-prima do bullying.

Não fez amigos na escola. Fez uma amiga, menininha esquisita, que vivia resmungando que a vida era patética. Anos depois, ele compreendeu, assim, com a clareza que não falta nem mesmo a quem não enxerga como se deve, que tudo o que ela sentia era solidão. Não que a vida não fosse patética - e não foi preciso que ele esperasse muito para engolir esse sapo -, mas não era sempre. Não era uma vida essencialmente patética, mas como ele gostava de dizer: patética quando lhe cabe, pra ver se nos ensina a caber onde devemos.

Sua inquietude se tornou pontual, depois que foi viver sob a custódia do governo. Ensinaram-lhe muito, que, eventualmente, ele aceitou que era pouco para quem tinha o direito à felicidade. Não é isso que os cartões comemorativos dizem? E as cartas de amor, e os pais em potencial, que não lhe escolhem porque você não tem a cor, o corpo ou o cabelo certo? Os criminosos em plena captação de parceiros, os fabricantes de remédios, os amantes eventuais, os vendedores ambulantes?

Inquietude, para ele, é palavrinha curiosa. Talvez sua fama de melancólico, de pessoa que não sabe gargalhar, de quem perde um tempo valioso andando cabisbaixo, como se não fosse autorizado a cruzar olhares, não esteja de acordo com o que, certamente, ele acabaria por descobrir.

Ele chegou do outro lado do mundo. Cutucando o chão de terra, descobriu a paixão pela geografia. Com a sopa quente e perfumada, alimentou um futuro. Com o olho que não cabe no labirinto da perfeição, enxergou além. No abandono, nasceu companheiro daquela que, em nenhum momento, questionou a sua capacidade de ser feliz. E mais, ele viria a perceber, já adulto, alguém que nunca o confinou na solidão.

Imagem: La condition humaine © René Magritte

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terça-feira, 16 de setembro de 2014

VAI ENTENDER >> Clara Braga

Lá estava ela, rezando, pedindo proteção, agradecendo o que já havia conquistado. Quando foi pegar o carro para voltar para casa, haviam roubado os quatro pneus.

Já ele estava indo para o trabalho, após passar o dia anterior todo também trabalhando. O carro para de funcionar e para consertar é quase o preço de um novo.

A outra nem ia sair de casa, ia aproveitar o dia de folga. Decidiu ir só rapidinho na padaria, foi assaltada.

A criança que volta da escola a pé é atropelada andando na calçada.

Aquela outra juntou toda a economia para realizar uma vontade antiga de morar em uma casa, e quando acha que vai finalmente realizar seu sonho, descobre que tem problemas que ela desconhecia e que tornam o caminho até o seu sonho um pouco mais estreito.

Sinto que somos testados todos os dias de nossas vidas, e quando achamos que não pode piorar chegamos no chefão!

Zerar esse video game com todas as vidas é difícil, mas acho que no fim das contas o desafio real é viver a vida com mais leveza.

Porque aquele sacana, que não faz nada por ninguém, só pensa em si, egoísta, está no topo e você que só quer ir rezar tem seu carro roubado? Boa pergunta! Me questiono isso todos os dias! Só mesmo muita fé para acreditar que isso não é o mundo girando ao contrário, mas sim seguindo seu rumo certo.

Mas mesmo sem entender nada a gente segue, afinal juraram para a gente que isso tudo é muito mais do que a gente imagina. Mas que às vezes dá vontade de jogar tudo pro alto e começar de novo, ah, isso dá. Acho até que é por isso que temos o dia e a noite. A noite é sempre uma chance de jogar tudo para o alto e o dia que segue uma chance de recomeçar. E quando um dia não é suficiente, temos a semana, o mês, o ano, a década e assim por diante. Eternos loops que nos dão sempre a chance de buscar um novo caminho.

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domingo, 14 de setembro de 2014

ACERCA DE UM DRAMA PEQUENO-BURGUÊS >> Whisner Fraga

Então a família do colega de classe de nossa filha se prepara para a comemoração de três anos de seu rebento, ansiosa como todos podem imaginar. E convida todos os pais de todas as crianças da sala de Helena. Assim que recebo a convocação, começo a suar frio, já imaginando como enfrentar a fatídica noite em que terei de sorrir para todos, em que terei de ser sociável, em que terei de ouvir trivialidades de desconhecidos, em que terei de fingir preocupação com as acrobacias dos filhos alheios, mas a vida é assim mesmo, cheia de sacrifícios e o que a gente não faz pelas crianças, não é mesmo?

Então sacrificamos nossa noite de sábado, para a alegria de Helena. As festas infantis continuam as mesmas: há sempre o pentelho que é o mentor das maiores barbáries, o líder que contagia e leva os demais enfants terribles a fazerem o que normalmente não fariam se estivessem sozinhas. Alguns especialistas chamam isso de “efeito manada”. Há as mães desesperadas com possíveis tombos, hematomas, cortes e demais traumas, sempre presentes em locais em que se reúnem mais de dois fedelhos.

Ocupamos uma mesa, o que é um abuso, considerando a razão cadeiras versus convidados. Assim, é de se esperar que algum casal compartilhe, sem cerimônia, aquele cantinho de sala que escolhemos com tanto apuro, para ficar, justamente, longe de qualquer ameaça de contato. Vamos lá. Aí o assunto versa sobre o tempo, sobre o desenvolvimento escolar de nossa prole, sobre os avanços cognitivos da molecada, sobre os materiais didáticos que a escola disponibiliza e outras trivialidades. O problema são as trivialidades. Porque é justamente quando chega neste tópico que alguém resolve falar bem de algum político de direita, o que é muito comum no estado de São Paulo. Assim, sem mais nem menos, como se a famigerada classe média tivesse a obrigação de se unir em torno de um ideal conservador e ultrapassado.

Nesta hora é importante respirar fundo. Penso em colocar os fones de ouvido, mas Ana não deixa. Então foco na cerveja, que inclusive havia parado de tomar, mas a pressão é tamanha que não resisto. Na mesa em frente, um casal estranho me encara. Ele, um moleque de dezoito ou vinte anos. Ela, uma balzaquiana, na melhor das hipóteses. Limpo a boca: pode ser que tenha esquecido um pouco de espuma de colgate nos cantos e por isso me olham. Continuam. Começo a ficar constrangido, mas, de repente, decido que olhar não arranca pedaço. E sigo em frente o meu flerte com a Itaipava.

Peço mais uma latinha. Resolvo rascunhar o que acontece à minha volta, pensando em guardar um bom material para duas ou três crônicas, para quando estiver sem assunto. Por falar em temas, recebi duas mensagens de leitores, acusando meus textos de inúteis. Ora, sempre acreditei e defendi que a literatura não deve ter utilidade nenhuma. Talvez o calor das eleições que se aproximam faça com que os cidadãos vejam denúncia, oportunidade, picuinha e indício em tudo o que miram. Pode ser que tenham razão. Quem sabe eu escreva, algum dia, algo útil? Por exemplo, qualquer coisa sobre política?

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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O CONTRATO - PARTE I >> Zoraya Cesar

Era dia de jogo do Brasil com algum outro país do qual ela não lembrava o nome nem fazia questão de saber. Jamais gostara de futebol, coisa de gente louca, que brigava, matava e morria por um time cujos jogadores nem tinham amor à camisa, iam aonde o dinheiro cantasse mais alto. Brigar, matar e morrer, que fossem por uma boa causa. 

(Tênis, golfe, esses eram esportes decentes, onde os jogadores suavam por sua própria camisa e os torcedores não compravam vuvuzelas nem saíam espancando os outros por aí, pensava).

As ruas estavam apinhadas de gente correndo esbaforida, querendo chegar em casa, no bar, no vizinho, aonde fosse, a tempo de ver o maldito jogo. Ela caminhava na contramão do fluxo, esbarrando nuns e noutros, concentrada em não esmorecer nem se acovardar. 

À medida em que se afastava das vias principais e das estações de metrô, a quantidade de pessoas nas ruas diminuía significativamente, tornando mais fácil o caminhar. Entrou num sebo de livros raros e discos de vinil, um lugar que sempre lhe trouxera conforto, mas nem se deu conta. Entrara apenas a fim de ler o mapa que desenhara toscamente, pois, da Praça Tiradentes em diante ela deveria seguir por uma sucessão de ruelas desconhecidas, algumas sem placa, e o sujeito com quem deveria se encontrar recusara-se a dar-lhe um endereço que pudesse ser colocado no GPS. Esquisitices, pensou ela. Mas, afinal, o assunto a ser tratado entre eles também não era dos mais normais. 

Seguindo o desenho mapeado por suas mãos trêmulas, seguiu por ruas nas quais só havia construções de dois andares, mal cuidadas, empobrecidas, cinza. Essas casas são como eu, que já fui bonita e agora estou largada, alquebrada, envelhecida, e tudo por culpa de... uma sirene de polícia tocou alto numa rua próxima e ela se assustou, voltando a se concentrar. Se errasse o caminho não conseguiria encontrá-lo de novo e a última coisa que podia acontecer era se perder e chegar atrasada ao encontro. O sujeito fora categórico: um minuto de atraso que fosse, e ele não a receberia; antes da hora aprazada, também não. Pontualidade, dissera ele ao telefone, era condição sine qua non para qualquer negociação. 

Caminhava mais lentamente agora, observando os cômodos das casas de janelas abertas, onde se viam sofás usados, mesas com toalhas de plástico, paredes descascadas, as televisões em alto som; crianças brincavam nos portões, e mulheres de pernas grossas faziam as unhas sentadas nas calçadas, trocando ideias sobre a novela das oito e a vida alheia. Nas biroscas, homens sem camisa bebiam em copos cheios de cerveja aguada, olhando mesmerizados para a tela da TV de tubo, esperando o jogo começar. 

O mapa chegara ao fim, e ela, a uma rua deserta, sem casas, apenas enormes pavilhões fechados. Ficou nervosa. Estaria perdida? Andou cuidadosamente, até encontrar, espremida entre um prédio e um muro, a tal porta verde que procurava. Não havia letreiros, número, nada que identificasse o lugar. 

Ela entrou, amedrontada, mas entrou, agora iria até o fim. 

Uma espécie de inferninho, concluiu. Do outro lado da insuspeita porta verde escondia-se um enorme bar, penumbroso, meio decadente, mas limpo. No ar, cheiros de cigarro, suor, perfumes e bebidas se misturavam ao som de algo que ela não soube identificar, mas era King Crimson, saindo de uma juke box em bom estado.

Os fregueses. Ninguém poderia dizer ter conhecido um lugar verdadeiramente eclético antes de ter passado por ali. Havia um grupo de skinheads, as pesadas botinas em cima da mesa, às gargalhadas com um travesti. Um gótico fumava silenciosamente ao lado de um rapaz que, pela compleição, só podia ser surfista. Metaleiros, heavy metals, andróginos, muitas tribos estavam representadas ali, de todas as idades. Alguns tipos de terno e gravata tinham um ar soturno e perigoso. Que lugar! Ela ficou à porta, paralisada de espanto.. 

Mulheres, apenas ela e a bartender, uma pin up girl lindíssima, como todas são, que, sorrindo, apontou para uma mesa escondida no canto mais escuro:  

– O seu encontro te espera lá – e voltou a conversar com um homem de cabelo escovinha e coturnos militares.

Ela respirou fundo. Levara quase dois anos para acertar aquele encontro, depois de muito perguntar, assuntar, pesquisar e fazer coisas insanas e questionáveis.  De qualquer forma, quem procura acha, mesmo que pague um alto preço por isso, não importa. 

Um dia você chega ao santuário da elite dos matadores de aluguel.

Continua no dia 26 de setembro



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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

PIXAIM >> Carla Dias >>


Conheço essa menina que é linda, linda. Não é conversa fiada, porque não sou a única que acha isso. Ela é linda e branquinha. Eu também sou branquinha, minhas irmãs, idem. Se bem que, quando o sol era bondoso comigo, na época em que eu ousava brincar debaixo dele, eu era mais parecida com a minha família. Eu era neguinha, neguinha. Eu adorava sê-lo.

Conversando com minha mãe e tias, revisitei o passado com mais curiosidade. Minha tataravó se casou com um bugre, minha bisavó, que era negra, com um português. Meu avô materno tinha olhos azuis. Minha mãe tem olhos verdes... Azuis. A família do meu pai é clarinha, clarinha. Nascemos branquinhas, fomos enegrecidas pelo sol de horas de brincadeira em quintais, o nosso e dos primos e amigos. Quando as brincadeiras infantes cessaram, desbotamos. Uma pena...

Nasci com o cabelo pixaim, com o nariz de tomada. Ao menos foi o que muitos dos meus colegas de escola disseram, mas essa deveria ser uma verdade que não os ofendesse. Sempre fui gordinha, então daí vieram muitos apelidos também. Pra piorar, mal abria a boca, apenas escrevia meus poemas. Essa mania eu cultivei cedo e vem me acompanhando, desde então.

Até os dezessete anos, eu não me atrevi a deixar os cabelos crescerem. Era a forma eficaz de deixar de lado essa de cabelo pixaim. Não raro me confundiam com um moleque, mas eu nunca liguei pra isso, que às vezes caprichava nos cortes, o que era divertido. Quando decidi deixar os cabelos crescerem, estava no colégio. Por causa da sociabilidade que estudar música me ofereceu, sentia-me mais corajosa, naquela época. Então, durante algum tempo, enquanto os cabelos cresciam, ganhei mais alguns apelidos, que o meio-termo também não cabia no gosto popular. Em quase três anos, meus cabelos ficaram longos e encaracolados, um pixaim de primeira. Não entendi porque eu o evitei por tanto tempo.

Certa vez, em um almoço em minha casa, o pai de uma amiga, assim, do nada, disse que eu tinha “boca de nega”. Como fiquei magérrima somente por um período da minha vida, obviamente outros nicknames, e me tornei vítima de endocrinologistas de boteco. Cliente na fila do banco, cobrador de ônibus, colega de sala no curso de inglês, prima da amiga da amiga, dono do mercadinho do bairro, e por aí vai, pediram, com delicadeza, devo destacar, para tocar os meus cabelos. “Quero ver se parece mesmo Bombril.”. A conversa era quase sempre a mesma, e a delicadeza do tom da pergunta não amortecia o comentário. Mas dependendo da situação, eu matava a curiosidade deles.

Certo dia, eu estava em um táxi com um amigo, que para caber outro amigo, se ajeitou, colocando o braço sobre o meu ombro, tocando, sem querer, os meus cabelos. “Nossa, eu não imaginava que fossem tão macios!”. A surpresa dele me surpreendeu, afinal, eu sempre cuidei bem dos meus cabelos. De um jeito simples, mas eficaz.

Pois é, meu pixaim é macio. Eu adoro o meu pixaim, mesmo mais curto do que naquela época, quando eles eram longos que só. Além do mais, meus sobrinhos adoravam os meus cabelos quando bebês, o que criou lembranças das mais valiosas para eu carregar pela vida.

Mas como eu dizia, aquela menina é linda. Linda e tem somente quatorze anos, ou seja, uma vida toda para descobrir a si e ao mundo. Ela é inteligente, interessante e interessada, criativa. Há vários motivos para as pessoas gostarem dela. Ela tem cabelos lindos, mas quer fazer chapinha, porque deseja usá-los soltos, eles que só andam domados em coques e rabos-de-cavalo.

Eu pedi a ela que soltasse os cabelos, que queria uma fotografia dela em plena liberdade. Ela se negou, fez cara de ressentida, como se eu quisesse assistir a uma cena ruim, para então rir da inabilidade dela de ser. Achei estranho, que a menina, na sua lindeza, privava-se dos cabelos ao vento, por mais que desejasse isso. É que ela os libertou, certa vez, e a experiência foi das piores. Tentou outras vezes, mas deu no mesmo. Na escola, ninguém entendeu que o pixaim dela é tão lindo quanto ela, por dentro e por fora, e escolheram ofendê-la, ostensivamente, com o que nem deveria ser considerado ofensa.

Eu tentei, mas não sei se consegui convencê-la de que não há motivo nenhum para se sentir mal. Muitas pessoas tentaram alisar os meus cabelos, para que eu ficasse mais bonita. Só que para mim é simples: meu pixaim me apetece. O pixaim alheio, idem. Com o tempo, descobri que se manter fiel ao gosto, à escolha, à ideologia, à verdade, ao sentimento, à capacidade de aceitar o erro, e por aí vai, é como manter o pixaim solto na hora do recreio.

E me desculpem por não tê-los avisado logo no início. Essa crônica não é sobre cabelos.

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sábado, 6 de setembro de 2014

DIREITO DOS BURROS >> Sergio Geia

Peguei. Folheei. Parei na 99. O início da crônica me chamou a atenção: “Ontem de manhã, indo ao jardim, como de costume, achei lá um burro. Não leram mal, não, meus senhores, era um burro de carne e osso, de mais osso que carne. Ora, eu tenho rosas no jardim, rosas que cultivo com amor, que me querem bem, que me saúdam todas as manhãs com seus melhores cheiros, e dizem sem pudor cousas mui galantes sobre as delícias da vida, porque eu não consinto que as cortem do pé. Hão de morrer onde nasceram”.

Era sábado. Meu olhar em busca de “O cortiço” na estante, para um trabalho de escola de meu pequeno gigante, esbarrou numa coletânea machadiana de crônicas, publicada pela Folha de São Paulo, não sei em que ano. Como estava ocupado trabalhando numa crônica, peguei o livro e o deixei separado para retornar em breve.

Não aguentei. Aquele tal de “Direito dos burros”, aquele bucólico começo, me fizeram largar o trabalho no meio. Peguei a coletânea e voltei à crônica. Machado conversa com um burro. Não leu mal, não, meu amigo, com um burro de carne e osso, mais osso que carne. E um burro inteligente, sem que isso seja uma contradição, obviamente.

Na 100, o burro fala: “Também não tenho senhoria. Nomes só se dão a cavalos, e quase exclusivamente a cavalos de corrida. Não leu hoje telegramas de Londres, noticiando que nas corridas de Oaks venceram os cavalos Fulano e Sicrano? Não leu a mesma cousa quinta-feira, a respeito das corridas de Epson? Burro de cidade, burro que puxa bonde ou carroça não tem nome; na roça pode ser. Cavalo é tão adulado que,   vencendo uma corrida na Inglaterra, manda-se-lhe o nome a todos os cantos da terra. Não pense que fiz verso: às vezes saem-me rimas da boca, e podia achar editor para elas, se quisesse; mas não tenho ambições literárias. Falo rimado, porque falo poucas vezes, e atrapalho-me. Pois, sim senhor. E sabe de quem é o primeiro dos cavalos vencedores de Epson, o que se chama Ladas? É do próprio chefe do governo, lord Roseberry, que ainda não há muito ganhou com ele dous mil guinéus”. O interlocutor se assusta: “Quem é que lhe conta todas essas cousas inglesas?”. Na 101, ele responde: “No meio de tanta aflição, vale-nos a leitura, principalmente de folhas inglesas e americanas, quando algum passageiro as esquece no bonde. Um deles esqueceu um número do Pruth. Conhece o Pruth?”

Segundo andei pesquisando, “Direito dos burros” foi publicada em 10 de junho de 1894. A crônica é uma crítica machadiana ao tratamento desigual concedido a ricos e pobres, como também ao estudo da língua inglesa nas escolas públicas, aos professores que conferiam ao idioma inglês elevada importância.

Ocorre que estava eu no final da 101, quase terminando a crônica, após ler “morrer um e ficaram três em mísero estado, foi condena-”, eis que viro a folha e a crônica sumiu. Por um equívoco de encadernação, o livro veio sem as páginas 102 e 103. Até procurei no google, sem sucesso. Agora cá estou, amigão, nesta tarde quente, aborrecido, sentindo um gosto de cabo de guarda-chuva na boca.

Faço então desta crônica um pedido: se puder, conto com sua valiosa colaboração. Caso tenha a crônica “Direito dos burros” aí, na íntegra, ou consiga uma cópia, por favor, me envie, me envie por e-mail mesmo, que está louco de bom. Desde já, meu fraterno muito obrigado!

sergiogeia@uol.com.br


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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O PROFESSOR LOCUTOR E O ESTUDANTE ESPONJA
>> Paulo Meireles Barguil

Depois de várias semanas anunciando para mim mesmo, finalmente escreverei sobre algo que vem me incomodando há muito tempo.

É assaz frequente, infelizmente, a afirmação de que o professor transmite o conhecimento, o conteúdo e o estudante o absorve, o capta.

A tragédia não é escutar esse discurso, mas identificar as seculares tentativas de dar vida a essa crença, mediante práticas mortíferas.

Quando éramos um pouco mais ignorantes do que somos agora, se o resultado não era alcançado tal como planejado, educávamos, com autoridade, torturando as crianças com pisa de cinto ou palmatória, ajoelhando-as em cima de caroços de feijão ou de milho e ainda tendo que segurar, de costas para o quadro e olhando para a parede, uma cadeira na cabeça, levando-as ao desespero com a arguição da tabuada, obrigando-as a copiar dezenas de vezes palavras e números sem qualquer sentido, como se elas fossem pedras duras, que necessitariam de muita água mole para serem furadas...

E o que dizer dos milhares e milhares recreios roubados das crianças por adultos zelosos?

Não, o conhecimento não pode ser transmitido! Eu não sou locutor!

Não, o conhecimento não pode ser absorvido! O estudante não é uma esponja!

O mundo não tem significado per si. É cada pessoa que o elabora ou não... Numa Educação sem sentidos, é fácil entender o fracasso do modelo atual.

O significante, sim, pode ser transmitido, mostrado, mas o significado é uma tarefa individual, vivenciada com maior ou menor vigor a depender de inúmeros fatores, num ritmo próprio, a despeito da insanidade que deseja – e tenta – tudo controlar.

É tão simples: sem sentido, a informação desaparece em meio à multidão, cada vez mais agitada.

Somos, todos, seres luminosos, capazes de constituir sentido à vida. Ninguém pode fazer isso por mim. Da mesma forma, não posso fazê-lo por ninguém.

Trocar o discurso do professor, o exercício do livro por uma brincadeira, um jogo, um software, um filme ou algo do gênero é insuficiente se o estudante continuar sentado e sem o direito de compartilhar o que sabe, bem como se o profissional permanecer insensível à vida que pulsa à sua frente e dentro dele...

Que nos lembremos, contudo, o fato de que o Homem não se reduz à dimensão cognitiva. Uma Educação integral, na escola ou fora dela, precisa contemplar, também, as dimensões corporal, afetiva e espiritual.

Chegará o tempo em que aprenderemos que não temos o direito de invadir o outro, em qualquer dimensão e sob qualquer pretexto.

O nascimento é sempre um processo lento, com muitos detalhes. Somente um olhar transmutado consegue ver o amanhã, mesmo que distante. Essa visão é motivo de alegria, paz e energia.

Dedico-me, todos os dias, a me livrar de armaduras que me impedem de brincar de ser eu.

Que a minha jornada inspire outros, mesmo quando eu não estiver mais expirando...

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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

PITADINHA BRASILEIRA >> Mariana Scherma

Esta semana a Globo anunciou que passaria Dirty Dancing – O Ritmo Quente na sessão da tarde e eu ri sozinha, como sempre rio dos complementos brasileiros a filmes ou séries gringos, ou mesmo das traduções literais, que passam a impressão de ter mudado o roteiro totalmente. Deve ser uma profissão no mínimo interessante traduzir ou criar esses complementos. Eu sempre quis conhecer alguém que fizesse isso pra ganhar seus trocados, só pra deixar meu currículo, vai que... Imagino uma reunião de pauta entre esses profissionais questionando:

– Como vamos deixar isso um pouco mais brega?
– Hmmm, acrescenta amor. Amor dá ibope!

Que as distribuidoras de filmes têm uma preferência pelas traduções açucaradas, nível alerta de diabetes, é fato. Não existe outro motivo pra Up In The Air, aquele filme ótimo com o George Clooney, ter se transformado em Amor Sem Escalas. Só pela tradução você imagina uma comédia romântica superlotada de comissárias de bordo e pilotos bonitões. Nada a ver. Tem tudo, menos amor nesse filme. Ou a comédia Don John, como Joseph Gordon-Levitt e Scalertt Johansson, acabar em Como Não Perder Essa Mulher. Glicose pura, wow!

Mas acho que hoje eu até entendo as distribuidoras. Falta mesmo um pouco de paixão, açúcar, piada bobinha e calda de caramelo na nossa vida. Que venha então nesses títulos pra ver se a gente se inspira. Exemplo? Shane é o título original de Os Brutos Também Amam. Quer coisa mais inspiradora do que saber que, sim, até um cowboy duro na queda pode ficar todo derretido por alguém? Que fofo! Agora, se a pegada é bom humor, a série Beverly Hills 90210 ter se transformado em Barrados No Baile é prova cabal de que algum tradutor adora fazer a piada do pavê no Natal. Se eu fosse ver a série só pelo título em português, imaginaria um grupo de gente que não conseguiu convite pra alguma balada, tentou entrar de bicão, mas ficou na porta. Nada a ver outra vez.

Antes, eu ficava indignada com as traduções. Achava que os tradutores nos chamavam de burro na cara. Desencanei dessa fase e virei uma apreciadora desses títulos tão peculiares. É como se a gente desse nosso toque brasileiro às produções gringas. Acho o máximo The Fresh Prince Of Bel-Air ter virado Um Maluco No Pedaço, acho justo The O.C. se chamar The O.C. – Um Estranho No Paraíso. É mais ou menos como a gente acrescentar uma pitada de leite condensado, tão nosso, às sobremesas que vem de fora. Mas nenhum desses títulos ocupa um espaço maior no meu coração que Alf, o ETeimoso. Um beijo sabor brigadeiro pra quem colocou o "eimoso" depois do ET.



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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

CAIR NO MUNDO >> Carla Dias >>


Mãe disse a ela, disse de fazê-la encasquetar com o dito, em uma constância que envolveu anos de sua vida, entre o almoço e o jantar, às vezes, antes do café. Enquanto fazia lição de casa, durante sua festa de aniversário, quando ela estava sozinha, quando estava acompanhada, quando estava de mudança. Com carinho, impaciência. Aos berros, aos prantos. Mãe disse a ela: cuidado, menina, que a vida aflora infortúnios com mais frequência do que lhe empresta sorrisos.

Educada essa moça, que estudou direitinho, arranjou um bom emprego, paga suas contas, ela até arca com as consequências de todas as suas escolhas. Tem medo nenhuma delas. Aos domingos, é ela quem puxa a reza, antes do almoço. Depois, é ela quem coloca a casa em ordem, prepara o café da tarde. Senta-se na sala com seus pais e dois irmãos, observando-os detidamente, enquanto assistem ao programa de auditório preferido e com horas de duração. Às cinco em ponto, ela se levanta e anuncia a partida, recebendo acenos longínquos e desinteressados, olhos deles seduzidos pela programação da tevê. Voz dela avisando que precisa de dinheiro para comprar a comida do próximo domingo. A moça, educada que só, deixa o dinheiro sobre a mesa e sai.

Caminha para casa, que gosta de gastar tempo vendo a vida acontecendo aos outros, no entorno de si. Quarenta e dois minutos depois, ela abre a porta de seu apartamento. Bolsa sobre a cadeira, casaco pendurado atrás da porta. Controle remoto: música. Pés descalços e a necessidade urgente de um gole de vinho. Escancara as janelas, sala, quarto e cozinha. A cidade se insinua ao olhar curioso da moça, que tenta evitar o delírio, mas é rendida pelo pensamento. Que não lhe atrai somente o ritmo com que ele diz as palavras, mas também o que é manifestado por meio delas. E por mais que tente evitar, seu corpo corresponde a esse gostar, e a zonzeira não é mais somente pelo vinho.

Telefone toca e ela, na embriaguez de moça bem educada, invadida pelo desejo pelo improvável, atende já sabendo quem. É apenas para lhe dar um lembrete, deixa claro, a vida faz isso e aquilo e sempre dá errado. Mas não o dinheiro para o almoço do próximo domingo. Esse tem de estar certinho, não pode faltar centavo que seja. A moça se desculpa com a mãe, que não deve ter contado direito, mas amanhã depositará na conta dela o que falta e mais um pouco. Antes de desligar, a mãe insiste, repete, reverbera que ela, a moça bem educada, vale menos do que pensa. E que a vida, essa meretriz que adora se esbaldar no tormento das pessoas, há de curvá-la até que ela, desprovida da capacidade de ser a pessoa que deseja ser, terá de se mostrar, todos os defeitos em destaque.

Desliga o telefone. Serve-se de mais vinho, aumenta a música, observa a cidade, já de um jeito enevoado. Pensa que, se a vida fosse como a mãe vem jurando que é, desde sempre, talvez fosse hora de ela dar o veredito, que preparada para os seus desmandos a moça já está. Educada que foi sobre os despautérios da vida, sente-se pronta para render-se ao seu destino. Que se ela não vale o esforço da vida para lhe ensinar o aprazimento, melhor que a moça possa encarar de vez os seus abismos. O ponto de espera é o que a deixa em agonia.

Segunda-feira é sempre dia complicado. A moça, ainda meio azoinada devido à garrafa de vinho esvaziada na noite anterior, tenta executar as tarefas com o profissionalismo de sempre. Então, a colega de trabalho vem lhe fazer uma visita, com a usual caneca com café fresco. Senta-se defronte à moça, do outro lado da escrivaninha, e com a acidez de sempre, começa a contar as fofocas do trabalho. A moça sorri, vez ou outra, quando a notícia tem certa graça. Mas quando a outra, claramente chocada, conta que ele, o moço das palavras que a embevecem feito vinho, mudou-se de repente, sem deixar endereço, telefone, nem mesmo esperou para receber o que lhe cabe, assim, fugido mesmo, a moça sente como se tivessem lhe esvaziado.

Bolsa na cadeira, casaco atrás da porta. Senta-se no sofá, a escuridão presente. Passa horas remoendo a perda, que lhe pesa feito a morte de ente querido, que o moço era a única pessoa a quem tinha apreço, que despertou nela muitos desejos, principalmente o de acreditar, que ao contrário do que fora educada para aceitar, a vida, em dias de deslumbramento, oferecia a cortesia da felicidade.

Terça-feira cedinho, telefone toca. A secretária atende e a voz dela se alastra estridente pelo apartamento. Mãe quer saber por que o depósito não foi feito, que onde já se viu a moça colocar em risco o almoço de domingo. Isso não é coisa que filha faça para mãe, sabe?

A mãe diz, repete mais uma vez, e suas palavras ecoam pelo apartamento vazio. A colega de trabalho escolheu pensar que a moça, tomada pela necessidade pungente de experimentar da felicidade, partiu por gosto, escolha. A mãe, depois de reclamar que a ingrata da filha não poderia fazer isso com ela ao policial que atendeu a ocorrência de desaparecimento, respirou fundo, agoniada que está por não saber como fará para pagar as contas.

A vida, por sua vez, manifestou-se. Não do jeito que a mãe prometeu que seria. Não como a colega jurou que aconteceria. E a moça, despida de medos herdados, caiu no mundo, que deseja descobrir o que a vida é para ela, assim, na lida. Vivendo.

Imagem: sxc.hu



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