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O PROFESSOR LOCUTOR E O ESTUDANTE ESPONJA
>> Paulo Meireles Barguil

Depois de várias semanas anunciando para mim mesmo, finalmente escreverei sobre algo que vem me incomodando há muito tempo.

É assaz frequente, infelizmente, a afirmação de que o professor transmite o conhecimento, o conteúdo e o estudante o absorve, o capta.

A tragédia não é escutar esse discurso, mas identificar as seculares tentativas de dar vida a essa crença, mediante práticas mortíferas.

Quando éramos um pouco mais ignorantes do que somos agora, se o resultado não era alcançado tal como planejado, educávamos, com autoridade, torturando as crianças com pisa de cinto ou palmatória, ajoelhando-as em cima de caroços de feijão ou de milho e ainda tendo que segurar, de costas para o quadro e olhando para a parede, uma cadeira na cabeça, levando-as ao desespero com a arguição da tabuada, obrigando-as a copiar dezenas de vezes palavras e números sem qualquer sentido, como se elas fossem pedras duras, que necessitariam de muita água mole para serem furadas...

E o que dizer dos milhares e milhares de recreios roubados das crianças por adultos zelosos?

Não, o conhecimento não pode ser transmitido! Eu não sou locutor!

Não, o conhecimento não pode ser absorvido! O estudante não é uma esponja!

O mundo não tem significado per si. É cada pessoa que o elabora ou não... Numa Educação sem sentidos, é fácil entender o fracasso do modelo atual.

O significante, sim, pode ser transmitido, mostrado, mas o significado é uma tarefa individual, vivenciada com maior ou menor vigor a depender de inúmeros fatores, num ritmo próprio, a despeito da insanidade que deseja – e tenta – tudo controlar.

É tão simples: sem sentido, a informação desaparece em meio à multidão, cada vez mais agitada.

Somos, todos, seres luminosos, capazes de constituir sentido à vida. Ninguém pode fazer isso por mim. Da mesma forma, não posso fazê-lo por ninguém.

Trocar o discurso do professor, o exercício do livro por uma brincadeira, um jogo, um software, um filme ou algo do gênero é insuficiente se o discente continuar sentado e sem o direito de compartilhar o que sabe e sente, bem como se o docente permanecer indiferente à vida que pulsa à sua frente e dentro dele...

Que nos lembremos, contudo, o fato de que o Homem não se reduz à dimensão cognitiva. Uma Educação integral, na escola ou fora dela, precisa contemplar, também, as dimensões corporal, afetiva e espiritual.

Chegará o tempo em que aprenderemos que não temos o direito de invadir o outro, em qualquer dimensão e sob qualquer pretexto.

O nascimento é sempre um processo lento, com muitos detalhes. Somente um olhar transmutado consegue ver o amanhã, mesmo que distante. Essa visão é motivo de alegria, paz e energia.

Dedico-me, todos os dias, a me livrar de armaduras que me impedem de brincar de ser eu.

Que a minha jornada inspire outros, mesmo quando eu não estiver mais expirando...

Comentários

Anônimo disse…
Paulo, fico feliz de ver seu anúncio concretizado!!! Verdade, o significado destes termos para o exercício docente me tem parecido tão "normal/rotineiro" que refletir sobre eles coletivamente levará certo tempo... Ana Paula Tahim

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