sábado, 6 de setembro de 2014

DIREITO DOS BURROS >> Sergio Geia

Peguei. Folheei. Parei na 99. O início da crônica me chamou a atenção: “Ontem de manhã, indo ao jardim, como de costume, achei lá um burro. Não leram mal, não, meus senhores, era um burro de carne e osso, de mais osso que carne. Ora, eu tenho rosas no jardim, rosas que cultivo com amor, que me querem bem, que me saúdam todas as manhãs com seus melhores cheiros, e dizem sem pudor cousas mui galantes sobre as delícias da vida, porque eu não consinto que as cortem do pé. Hão de morrer onde nasceram”.

Era sábado. Meu olhar em busca de “O cortiço” na estante, para um trabalho de escola de meu pequeno gigante, esbarrou numa coletânea machadiana de crônicas, publicada pela Folha de São Paulo, não sei em que ano. Como estava ocupado trabalhando numa crônica, peguei o livro e o deixei separado para retornar em breve.

Não aguentei. Aquele tal de “Direito dos burros”, aquele bucólico começo, me fizeram largar o trabalho no meio. Peguei a coletânea e voltei à crônica. Machado conversa com um burro. Não leu mal, não, meu amigo, com um burro de carne e osso, mais osso que carne. E um burro inteligente, sem que isso seja uma contradição, obviamente.

Na 100, o burro fala: “Também não tenho senhoria. Nomes só se dão a cavalos, e quase exclusivamente a cavalos de corrida. Não leu hoje telegramas de Londres, noticiando que nas corridas de Oaks venceram os cavalos Fulano e Sicrano? Não leu a mesma cousa quinta-feira, a respeito das corridas de Epson? Burro de cidade, burro que puxa bonde ou carroça não tem nome; na roça pode ser. Cavalo é tão adulado que,   vencendo uma corrida na Inglaterra, manda-se-lhe o nome a todos os cantos da terra. Não pense que fiz verso: às vezes saem-me rimas da boca, e podia achar editor para elas, se quisesse; mas não tenho ambições literárias. Falo rimado, porque falo poucas vezes, e atrapalho-me. Pois, sim senhor. E sabe de quem é o primeiro dos cavalos vencedores de Epson, o que se chama Ladas? É do próprio chefe do governo, lord Roseberry, que ainda não há muito ganhou com ele dous mil guinéus”. O interlocutor se assusta: “Quem é que lhe conta todas essas cousas inglesas?”. Na 101, ele responde: “No meio de tanta aflição, vale-nos a leitura, principalmente de folhas inglesas e americanas, quando algum passageiro as esquece no bonde. Um deles esqueceu um número do Pruth. Conhece o Pruth?”

Segundo andei pesquisando, “Direito dos burros” foi publicada em 10 de junho de 1894. A crônica é uma crítica machadiana ao tratamento desigual concedido a ricos e pobres, como também ao estudo da língua inglesa nas escolas públicas, aos professores que conferiam ao idioma inglês elevada importância.

Ocorre que estava eu no final da 101, quase terminando a crônica, após ler “morrer um e ficaram três em mísero estado, foi condena-”, eis que viro a folha e a crônica sumiu. Por um equívoco de encadernação, o livro veio sem as páginas 102 e 103. Até procurei no google, sem sucesso. Agora cá estou, amigão, nesta tarde quente, aborrecido, sentindo um gosto de cabo de guarda-chuva na boca.

Faço então desta crônica um pedido: se puder, conto com sua valiosa colaboração. Caso tenha a crônica “Direito dos burros” aí, na íntegra, ou consiga uma cópia, por favor, me envie, me envie por e-mail mesmo, que está louco de bom. Desde já, meu fraterno muito obrigado!

sergiogeia@uol.com.br


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