quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O PROTOCOLO DO CECÊ >> Mariana Scherma

Eu tenho total consentimento de que, enquanto estamos suando na academia, não exalamos necessariamente um cheiro de moranguinho ou amaciante de roupa. A coisa é um pouco bruta, sim (para uns mais que outros, vamos combinar), e apesar de os desodorantes se venderem como Incríveis Hulks contra a transpiração, eles não dão conta de segurar o pique vai-com-tudo da malhação, ainda mais no nosso verão que reina até no inverno.

Ok, dito isso, vamos ao dilema. Está difícil frequentar a academia, ou melhor, frequentar a academia respirando pelo nariz. Sei lá, mas, na minha opinião, respirar fundo enquanto você se mata na esteira não faz parte do item luxo. Isso porque existe um sujeito que já chega cheirando mal, mas não é aquele cheiro de depois da corrida, não, ele já chega açoitando as vias respiratórias alheias. É uma mistura aromática de gaveta com roupa mofada que não é aberta há alguns anos com uma pitada generosa de canil molhado. Tem gente que cheira a cachorro molhado, esse cara cheira a canil lotado molhado. E se você acha que estou exagerando, vamos aos fatos...

Dia desses, postei no Facebook que era irônico sarar da crise da rinite e o primeiro cheiro que senti ser o do homem fedido. Pausa necessária: antes de julgar meu desabafo na rede social, é bom saber que não sou amiga dele, nem sei o nome do cara – preservação total da integridade. Mas o mundo é pequeno, um conhecido de academia leu e veio falar comigo, queria saber se eu estava me referindo ao tal fulano, porque ele concorda ser insuportável. Um outro amigo também veio me contar que agora é obrigado a fazer esteira longe da janela, por causa do tal homem, além das vezes em que não termina uma série de musculação quando ele aparece para usar um aparelho perto. Não está fácil pra ninguém, mas sinto mais dó desse sujeito, já que as esteiras ao redor dele ficam vazias – e olha que estão na parte mais ventilada da academia.

Quando vejo o cara por perto, passo rápido sem respirar. E só sorrio um oi a jato. Um dia, fiz isso e vi duas meninas vindo conversando animadas. A animação acabou quando elas passaram por ele. Só ouvi o comentário de uma: “Eu engoli o cheiro enquanto falava. Credo!”. E a outra fechou: “Tem que passar rápido por ele, você ainda não percebeu?”. O cara é simpático e pode ser inteligente, bom papo, mas o aroma mofado está dificultando a vida social fitness dele. Quase um bullying adulto.

Todo esse dilema aí em cima por conta de uma dúvida: qual o protocolo a ser seguido quando a pessoa cheira mal assim, como o Pepe Le Gamba da malhação? Pensei em pedir para algum amigo, frequentador do vestiário masculino, jogar um papel na mochila avisando ao cara, mas é meio complicado todo o esquema – apesar dos benefícios imensos: pra mim e demais frequentadores e pra ele, que poderia fazer amigos. Ou jogar na caixa de sugestões da academia alguma promoção envolvendo ganhar desodorantes potentes nível Os Vingadores da Marvel, sabão em pó e amaciante de roupa cheirosinhos. Talvez descobrir o telefone dele e fazer uma ligação anônima em nome de todos os frequentadores da academia. Sei lá...

Muitas ideias, zero coragem. Enquanto isso, vamos todos nos embolando em um único lado das esteiras. De repente, ter crises sem fim de rinite virou um golpe de sorte. Em um mundo sem desodorante, água e sabão, tenho boas chances de sobreviver graças às condições das minhas vias respiratórias. Mas que é triste, isso é!

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