quarta-feira, 10 de setembro de 2014

PIXAIM >> Carla Dias >>


Conheço essa menina que é linda, linda. Não é conversa fiada, porque não sou a única que acha isso. Ela é linda e branquinha. Eu também sou branquinha, minhas irmãs, idem. Se bem que, quando o sol era bondoso comigo, na época em que eu ousava brincar debaixo dele, eu era mais parecida com a minha família. Eu era neguinha, neguinha. Eu adorava sê-lo.

Conversando com minha mãe e tias, revisitei o passado com mais curiosidade. Minha tataravó se casou com um bugre, minha bisavó, que era negra, com um português. Meu avô materno tinha olhos azuis. Minha mãe tem olhos verdes... Azuis. A família do meu pai é clarinha, clarinha. Nascemos branquinhas, fomos enegrecidas pelo sol de horas de brincadeira em quintais, o nosso e dos primos e amigos. Quando as brincadeiras infantes cessaram, desbotamos. Uma pena...

Nasci com o cabelo pixaim, com o nariz de tomada. Ao menos foi o que muitos dos meus colegas de escola disseram, mas essa deveria ser uma verdade que não os ofendesse. Sempre fui gordinha, então daí vieram muitos apelidos também. Pra piorar, mal abria a boca, apenas escrevia meus poemas. Essa mania eu cultivei cedo e vem me acompanhando, desde então.

Até os dezessete anos, eu não me atrevi a deixar os cabelos crescerem. Era a forma eficaz de deixar de lado essa de cabelo pixaim. Não raro me confundiam com um moleque, mas eu nunca liguei pra isso, que às vezes caprichava nos cortes, o que era divertido. Quando decidi deixar os cabelos crescerem, estava no colégio. Por causa da sociabilidade que estudar música me ofereceu, sentia-me mais corajosa, naquela época. Então, durante algum tempo, enquanto os cabelos cresciam, ganhei mais alguns apelidos, que o meio-termo também não cabia no gosto popular. Em quase três anos, meus cabelos ficaram longos e encaracolados, um pixaim de primeira. Não entendi porque eu o evitei por tanto tempo.

Certa vez, em um almoço em minha casa, o pai de uma amiga, assim, do nada, disse que eu tinha “boca de nega”. Como fiquei magérrima somente por um período da minha vida, obviamente outros nicknames, e me tornei vítima de endocrinologistas de boteco. Cliente na fila do banco, cobrador de ônibus, colega de sala no curso de inglês, prima da amiga da amiga, dono do mercadinho do bairro, e por aí vai, pediram, com delicadeza, devo destacar, para tocar os meus cabelos. “Quero ver se parece mesmo Bombril.”. A conversa era quase sempre a mesma, e a delicadeza do tom da pergunta não amortecia o comentário. Mas dependendo da situação, eu matava a curiosidade deles.

Certo dia, eu estava em um táxi com um amigo, que para caber outro amigo, se ajeitou, colocando o braço sobre o meu ombro, tocando, sem querer, os meus cabelos. “Nossa, eu não imaginava que fossem tão macios!”. A surpresa dele me surpreendeu, afinal, eu sempre cuidei bem dos meus cabelos. De um jeito simples, mas eficaz.

Pois é, meu pixaim é macio. Eu adoro o meu pixaim, mesmo mais curto do que naquela época, quando eles eram longos que só. Além do mais, meus sobrinhos adoravam os meus cabelos quando bebês, o que criou lembranças das mais valiosas para eu carregar pela vida.

Mas como eu dizia, aquela menina é linda. Linda e tem somente quatorze anos, ou seja, uma vida toda para descobrir a si e ao mundo. Ela é inteligente, interessante e interessada, criativa. Há vários motivos para as pessoas gostarem dela. Ela tem cabelos lindos, mas quer fazer chapinha, porque deseja usá-los soltos, eles que só andam domados em coques e rabos-de-cavalo.

Eu pedi a ela que soltasse os cabelos, que queria uma fotografia dela em plena liberdade. Ela se negou, fez cara de ressentida, como se eu quisesse assistir a uma cena ruim, para então rir da inabilidade dela de ser. Achei estranho, que a menina, na sua lindeza, privava-se dos cabelos ao vento, por mais que desejasse isso. É que ela os libertou, certa vez, e a experiência foi das piores. Tentou outras vezes, mas deu no mesmo. Na escola, ninguém entendeu que o pixaim dela é tão lindo quanto ela, por dentro e por fora, e escolheram ofendê-la, ostensivamente, com o que nem deveria ser considerado ofensa.

Eu tentei, mas não sei se consegui convencê-la de que não há motivo nenhum para se sentir mal. Muitas pessoas tentaram alisar os meus cabelos, para que eu ficasse mais bonita. Só que para mim é simples: meu pixaim me apetece. O pixaim alheio, idem. Com o tempo, descobri que se manter fiel ao gosto, à escolha, à ideologia, à verdade, ao sentimento, à capacidade de aceitar o erro, e por aí vai, é como manter o pixaim solto na hora do recreio.

E me desculpem por não tê-los avisado logo no início. Essa crônica não é sobre cabelos.

carladias.com

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2 comentários:

Anna Christina disse...

Tem certas coisas que a gente só descobre com o passar dos anos, né? Que o nosso cabelo é perfeito, a cor da nossa pele é perfeita, o tamanho do nosso corpo é perfeito - que tudo isso junto forma o nosso corpo, que por ser nosso e levar a nossa alma, o nosso coração, a nossa força interior, é perfeito. Um dia essa menininha vai soltar os cabelos, o sorriso e o orgulho, e vai soltar a língua também, para mostrá-la, rindo, a quem ousar falar que seus cabelos são menos do que maravilhosos :) Beijo, Carlinha.

Carla Dias disse...

Anna... Amém, minha cara. Assim o mundo se torna o devido, lugar de todos nós. Beijo.