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Mostrando postagens de Março, 2009

A LÔRA E OUTROS MISTÉRIOS ITALIANOS
>> Eduardo Loureiro Jr.

Meu amor que me perdoe, mas passo quase todo o meu tempo, aqui na Itália, pensando na loura. Ou, em bom cearensês, na lôra.

Já são dez dias de viagem, e nenhum deles se passou sem que me falassem da lôra. É, de longe, a pessoa mais citada na Itália. Como o pessoal de Fortaleza chama a prefeita Luizianne de "lôra", pensei até que fosse o caso também aqui. Mas os prefeitos -- aqui se diz "sindaco" -- de Roma, Bologna e Firenze, as cidades por que passei, são todos homens. De todo modo, deve ser uma pessoa famosa, famosíssima, porque se fala na lôra em todas as situações, das mais triviais às mais formais. É a lôra pra cá, a lôra pra acolá. Talvez seja uma dessas mulheres modernas, mulher-macho-sim-senhor, independente, que trabalha três expedientes, bem-sucedida. Mas, às vezes, um homem diz "a lôra" e não fala mais nada, fica com o pensamento suspenso, e nesses momentos eu imagino que a lôra talvez seja uma mulher formidável, feminina, linda... quem sabe uma…

MENINO ANTIGO [Cristiane Maria Magalhães]

O menino não descia as escadas, ele escorregava pelo corrimão de madeira quando os outros não estavam vendo. Os outros eram sempre as pessoas grandes: a avó, o pai enorme, a mãe e Nhanhá. O pai era tão grande e tinha uma voz tão alta que o menino não chegava perto do pai, não. Será que pé de pai bravo mata menino arteiro? A mãe, com a barriga enorme novamente, vivia sempre cuidando do irmão mais novo ou enfiada na cozinha com Nhanhá. “Menino não pode”, “menino não faz”, “menino não grita”, “menino não corre”, “menino não sobe”. O menino aprendeu a conviver com um monte de “não”. Aprendeu também a criar para si um bocado de “sim”, debaixo e em cima dos abacateiros, na margem e dentro do riacho, fingindo que voava na gangorra do pé de manga, vendo estranhos desenhos de assombrações nas nuvens, pulando com os bezerros no pasto molhado de sereno. E o menino corria só pela casa grande inventando brinquedos e amigos. Seria o mais velho de vários irmãos e irmãs, mas ele ainda não sabia. Com…

QUINZE MINUTOS >> Leonardo Marona

Hoje vai ser em quinze minutos. E o que podemos esperar de amanhã senão um pouco mais, um pouco mais de quinze minutos, para podermos ao menos nos situar no esgoto, polir os trapos iluminados, aceitar a própria esfinge e, enquanto pudermos, permanecer no limite do que se mostra impenetrável dentro de cada um? Mas quinze minutos é tudo o que tenho agora e, algum dia, quem sabe, será também de vocês, que agüentarem até o fim... Um espaço para uma baforada calma, tentar alguma coisa com a segunda sinfonia de Beethoven, mas está tudo seco demais e os ônibus que passam pelo Cosme Velho trazem fantasmas que não conseguem migrar, seguir a longa viagem, e para eles o que são quinze minutos? Para mim eu sei que os quinze já não nove minutos, em breve serão menos e terei que deixar isso aqui como está, sem maiores retoques ou bravatas, apenas um outro momento deslocado do seu destino inerte para ser, enfim, inútil porque teve um fim concreto, mas permanece como espaço vazio entre as coisas. Os …

A CRISE >> Ana Coutinho

Todo mundo fala tanto na crise, que eu me sinto um pouco constrangida de dizer que não a conheço. Ou, talvez, ela sempre tenha vivido comigo, a danada, e por isso não a estranho.

Perguntei para o meu marido da nossa crise. Ele insiste em dizer que nunca tivemos. Mas já tivemos, sim. Só eu, contabilizo duas. E sou especialista na mais grave dela, que carinhosamente chamo de crise da tosse.

Começou uma noite qualquer, uma noite normal, quando ele não conseguiu dormir: “estou com uma tossinha chata”, disse, levantando-se na madrugada.

Voltou em alguns minutos e eu achei que estivesse melhor, mas quando meus olhos já estavam fechados, lá vinha: “cof, cof, cof”. Eu, como uma boa esposa, sugeri um mel, me ofereci para fazer um chá, falei doce e calmamente com ele, esperando que adormecesse, mas não aconteceu. Durou horas, talvez a noite inteira, mas acabamos por adormecer, quase de manhã. Dia seguinte, fui logo perguntando:

– Ô, que tosse essa noite hein, amorzão?

– Pois é. Mas já passou, viu? N…

DO OUTRO LADO DA JANELA >> Carla Dias >>

Ao invés de ler a pessoa numa olhada, como dizem fazer super bem muitos dos que conheço, prefiro chegar manso, perceber peculiaridades... Como as várias que habitam a existência dessa pessoa de quem conheço a cadência de cada passo, assim como a inconstância da sua jornada. Disse-me, outro dia, que era seu jeito de mudar as coisas já que, sozinha, jamais mudaria o mundo; que para as ações solitárias é preciso requintar a ilusão e que, ao encontrar outros, essa obra de arte emocional certamente faria seu papel coletivo.

É verdade que assistir ao show da humanidade alheia também cria vínculo com cenários difíceis de se apreciar. Como a pessoa que faz tantas coisas avessas ao que seria benéfico a ela e aos que o cerca, acreditando completamente que sabe mais do que todos a respeito, portanto é juiz, detentor do poder de resolver as questões fundamentais e que dizem respeito não só a ela, mas a outras pessoas. Nessa hora, tento manter a cabeça no lugar e o coração mais brando. Apesar de to…

ANAlisando o BBB -- Paula Pimenta

Não sou fã de televisão, se a minha está ligada, provavelmente é algum filme que está passando nela. As notícias eu leio através da internet e há vários anos não vejo novela, não tenho a menor paciência para seguir uma história que dura vários meses, sou ansiosa, preciso saber logo do final. Porém, um programa me faz quebrar essa resistência: sou completamente viciada em Big Brother.

Todo começo de ano é a mesma coisa. Procuro saber o nome de todos os participantes antes mesmo do primeiro dia, imagino de qual deles irei gostar, já no começo percebo quais merecem a minha torcida e geralmente mantenho minha preferência durante os três meses que duram o reality show. Fazer com que eu saia de casa às terças, quintas e domingos (dias de paredão, prova do líder e indicações) no horário do programa, é muito difícil. Torço mais pelos meus preferidos do que pelo Brasil na copa do mundo.

O time deste ano, na minha opinião, não foi muito bem escalado. Não entendo como no meio de tanta gente que m…

A DEMISSÃO >> Albir José Inácio da Silva

- Amanhã não entro mais por esta porta. Depois de tantos anos! Não, não vou pensar nessas coisas de suicídio. Não é a primeira injustiça nem será a última. Bem que vi os olhares, todos já sabiam e ninguém me disse nada. Isso prova que não existem amigos. Não há solidariedade nem em casa. Vão dizer que já esperavam, que a culpa é minha. Até minha mãe é capaz de falar que me avisou. O cretino do Nildo, se souber, é capaz de achar que eu não sirvo mesmo pra nada. E a Zuleica? Se falar alguma coisa, desmancho na hora. Capaz de ainda dizer que estava comigo por pena. Oh cambada! Eu devia ter saído antes. Aprendido a fazer outra coisa. Foram anos de dedicação, vestindo a camisa. Já era de se esperar: quem trabalha direito não tem valor. Vê se algum puxa-saco vai pra rua. Precisava era ganhar na loteria. Aí eles iam ver. Todos eles!

As palavras saíram assim, sem oxigênio. Depois desencurvou quanto pôde a cervical e disse que ia procurar emprego. Disse que devia ter estudado mais. Tinha gente…

QUANDO A GENTE PENSA QUE ENLOUQUECEU >> Eduardo Loureiro Jr.

É horrível escrever sobre qualquer coisa quando todo o seu pensamento, e até mesmo o seu corpo estão se ocupando de uma outra coisa. Não, não é sexo. É frio.

Existem alguns ditados sobre Roma – “Quem tem boca vai a Roma”, “Todos os caminhos levam a Roma” – e até mesmo um trava-línguas – “O Rato roeu a roupa do rei de Roma” –, só não entendo por que esqueceram de comentar que aqui faz um frio de secar a boca, de evitar a caminhada e de tornar qualquer roupa dura demais até para um rato.

Tudo bem, talvez essa não seja a forma mais romântica de lhe dizer que estou em Roma, mas com certeza é a forma mais românica: friamente.

Ultimamente tenho imposto a mim mesmo passar por algumas situações desconfortáveis. Não que eu seja masoquista, eu apenas penso que só obterei o melhor pela via do sofrimento, la Via Crucis – deve haver uma rua com esse nome aqui em Roma. Tá, tudo bem, eu sou masoquista. Mas o frio foi só um efeito colateral, eu estava pensando numa situação desconfortável mais frequente…

DITOS POPULARES [Sandra Paes]

Outro dia me peguei pensando sobre o uso e origem de algumas expressões. Tenho uma amiga que está sempre citando um ou outro e percebo que desconheço muitos deles.

Por exemplo: "A cavalo dado não se olha os dentes." Será que alguém hoje em dia dá algum cavalo pra alguém? Me parece coisa do tempo do império isso ai. E olhando para algum caso, em algum ambiente ainda ouço: "Quem semeia vento colhe tempestade." Essa é dificil de localizar.

E fiquei curiosa ainda mais: quem ainda hoje usa no seu corrente falar ou escrever os ditos populares?

Há algumas expressões que, lembro bem, ouvia minha avó falar. Coisas que nunca mais ouvi. E me pego surpresa ao ver programas como novelas de adolescentes, onde literalmente sofro pra entender o que dizem. Não gosto de gírias - de maneira geral, nunca as usei e agora então, nem me dou conta mais do que se usa.

Afinal, idioma muda com o tempo, com os hábitos, com os convivios, com as descobertas e com as turmas. Sinto que não sei mais…

VINTE E SETE ANOS >> Leonardo Marona

hoje estou tão distante
do meu próprio nascimento quanto
estou distante do meu pai,
que tinha a minha idade
quando eu nasci.

e nunca estivemos tão longe.

é a era de aquário, eles dizem,
e eu fico satisfeito, nadando
sozinho no meu próprio vidro.

mas o que faz dois distantes,
creio não ser a falta de amor,
mas talvez uma escassez por dentro,
alma vendada diante do penhasco,
que move a parte aventurada do espírito,
cachorro Buck voltando a galope
da expedição que lhe rendeu essa distância
(essa tamanha juventude violentada no chicote),
arrastando sozinho o trenó e outros cães mortos,
que pesam e talvez seja porque a morte
é um perder peso que pesa tanto
sobre os que sobram, sempre os de ternura impávida,
envergonhados do choro que não é emoção contida,
é um espaço feito faca entre corpos de ferro,
é isso que permanece e que não compreendemos,
talvez um desperdício demasiado de vontade cega,
um não saber reter a vida como fonte interminável,
uma coragem literária que murcha na fila do banco,
no lançamento de poeta…

OS PERNILONGOS >> Ana Coutinho

Eles voltaram. E voltaram com tudo. Parece que, a cada ano, ficam mais fortes. Pois eu acho que deveríamos aprender com os pernilongos. Que tipo de treinamento fazem? Como conseguem sobreviver por todas as gerações, enlouquecendo a todas elas, apesar do avanço tecnológico, do aquecimento global, das células tronco?

Os pernilongos surgem como o Natal. Quando a gente vê, já chegou. Mas é ainda pior do que o Natal, porque se pode evitar. Como uma gravidez indesejável, há tantas formas de nos livrarmos dos seus zumbidos infernais, por que meninas cada vez mais novas ainda ficam grávidas? É a mesma coisa. Mesmíssima. É fácil, fácil, fácil, mas não é tão fácil assim, né?

O Protector da tomada, dizem que dá câncer. Já ouviu isso? Não tem comprovação científica, mas, venhamos e convenhamos, não há comprovação científica pra milhares de coisas óbvias, né? Tem a tal raquete, super na moda de uns tempos pra cá. Mas se você compra a chinesa, ela pifa ou acaba a pilha bem naquela noite insuportável.…

O LIVRO DA CLAUDIA FOI AO TEATRO >> Carla Dias >>

Nem ficar
que o bicho come
Nem correr
que o bicho pega
O negócio é espreitar
pra ver se o bicho cansa.
Claudia Letti


Sexta-feira passada foi 13. Não tenho nada contra sexta-feira, tampouco contra o 13 que até considero um número de sorte, já que única vez em que ganhei coisinhas de rifa foi porque escolhi 3 números que na soma davam 13. E na sexta-feira 13 de fevereiro foi tudo certo... Diazinho do bom!

Mas a semana passada, tive minha primeira quase terrorista sexta-feira 13...

O dia foi daqueles em que a gente pensa em pedir a conta do mundo. Eram tantas coisas para resolver e uma Carla só que não sabia se andava pra frente ou dava pulinhos pro lado. No decorrer do tal dia, teve até quem me insultasse com uma coleção de frases feitas. A tentativa de culpar a mim pela falta de responsabilidade própria, valendo-se de clichezinhos que vou te contar, me irritou tanto que passei o dia sem conseguir engolir nada. Afinal, mais bacana é quando você pisa na bola e assume. Tentar passar seu erro para …

PALAVRAS RASCANTES >> Claudia Letti

Existem palavras e expressões que grudam, tal qual aquelas músicas que nos perseguem da manhã à noite, penduradas que ficam em nossas cordas vocais enquanto zunem na nossa cabeça. Se for uma música antiguinha ou antigona, menos mal, mas quando é um sucesso recente, ruim e popular, aí só recitando mantra pra desfazer o feitiço. Mas eu falava em palavras. Tem sempre uma palavra ou uma expressão da moda que invade todos os textos, papos, anúncios, comerciais de tv e, consequentemente, a nossa cabeça.

Há alguns anos, todos os que queriam ser executivos, empresários ou afinados com o que quer que seja isso, carregavam em suas pastas, além da papelada e dos contratos, um monte de Paradigmas (que vem do grego Parádeigma, segundo soube, e que significa "modelo"). Pois não seria tão mais fácil usar palavras como modelo ou padrão, que expressariam a mesma coisa e são muito mais simpáticas do que usar Paradigma? Mas alguém deve ter escrito um livro em defesa – ou acusação – do Paradigma…

UMA PETRÓPOLIS E 166 MARIAS
>> Maria Rachel Oliveira

(Palácio de Cristal - foto Márcio Pregal)

Pois que 16 de março é o aniversário de Petrópolis, onde nasci e onde moro até hoje – apesar de algumas tentativas de abandono malsucedidas. Acho que a cidade está fazendo 166 anos. Digo acho porque foi impossível checar rapidamente a informação com uma simples googlada – como aliás se resolve praticamente tudo ultimamente. Uma das maiores falhas do município é justamente a qualificação dos profissionais de algumas áreas, entre elas, da Comunicação – e não foi possível encontrar essa informação na página da Prefeitura.

Soube, não me lembro bem em que momento, que a cidade começou a nascer quando nosso então Imperador Dom Pedro I, que ia do Rio de Janeiro para Minas, olhou lá nossas matas e achou um lugar aprazível para parar e apreciar o clima ameno e a vegetação exuberante da região. Bem ao estilo da Coroa, logo tentou comprar a fazenda onde havia se hospedado, na região do distrito hoje conhecido como Corrêas (então fazenda Padre Correia). Não…

MÃE NATUREZA >> Eduardo Loureiro Jr.

Depois do agito de ontem, hoje tudo está mais calmo.

O casal que passou a noite em claro, talvez de festa em festa, bebendo e falando alto, deixa as ondas molharem a saia e a calça. O trio de amigos, também vestidos para a noite que já se foi, troca a embriaguez arriscada por ingênuas cambalhotas no raso.

Eu caminho à beira-mar, no início da manhã, ainda com cara de quem acordou há pouco: sandálias numa das mãos e camiseta jogada sobre o ombro. De calção de banho, eu sou o estranho em meio a trajes de festa e farra.

O mar acalmou também. Ontem ele estava cheio de não-me-entres. Ondas quebrando umas atrás das outras, ao mesmo tempo, demarcando território, provocando medo. Hoje parece que Deus resolveu passar a ferro a superfície do mar: água lisinha de lago. De mar, apenas a renda sutil das ondas — uma de cada vez —, quebrando já pertinho da areia. Entrei, saltei o muro suave de espuma e fiquei naquele lugar tranquilo de mar, antes da onda rebentar. Deu até pra compor pequenos versos ment…

os malditos não choram ou elegia ao pão de cada dia >> Leonardo Marona

dedicado a John Coltrane e Tia Mulata

pão beijo na boca padaria madrugada café na cama ereção matinal namorada filé com fritas tédio fugidio declínio cama levita uivo desejo pálido copula evita destino trágica relação mutante orgulho cálido ovulação andar sobre o pus do sangue presságio casamento.

pão bebum no ralo da sinuca bafo de pinga punho escarro fétido na cara tapa de quem parece própria cara lavada amarga verniz da morte acalentada acende desfiladeiro armas e corações partidos copos de vidro mesas onde brindávamos tudo até o fim da noite amizade nada.

pão passo firme no assoalho ímpeto de mãos vazias prantos pavor pecado bafo frio cigarro longas unhas curvas túmulos dos teus desejos medonhos sonhos cultivados para sempre serem roídos ombros contrações latentes do teu sorriso sujo guardado junto do teu contato em esponjas de sol luz de banho sob olhar preguiça que guardava costas até noite quando sinais repetem sonhos que se repetem inúteis sem tuas sardas sinos no meu travesseiro…

DUAS RODAS >> Ana Coutinho

Já tinha passado da hora. Eu já era grande demais para precisar das rodinhas traseiras da bicicleta. Então alguém – que não lembro quem – tirou as rodinhas da minha bicicleta e anunciou, para quem quisesse ouvir, que a partir de então eu só andaria de bicicleta se fosse como gente grande – ou ao menos não tão pequena. Eu, boba como sempre, fiquei calada e abandonei a bicicleta. Abandonei porque me sabia fadada ao tombo, ao fracasso, a uma inevitável e dolorosa queda, a qual eu evitaria o quanto fosse possível. Mas o marasmo da infância faz mesmo maravilhas...

Era um dia de sol em São Paulo, quando eu passava horas sem fazer nada no térreo. Estava entregue ao ócio há tempo demais, o que me impulsionou a descer à garagem e buscar a minha bicicleta, sem nem saber bem o que eu iria fazer com ela. Não precisou muito tempo paquerando a minha magrela para que eu resolvesse tentar. Foi num susto, um enorme e longo susto que notei: eu conseguia andar sem as rodinhas. Ainda me lembro da emoção d…

ESPELHOS >> Carla Dias >>

As duas últimas semanas foram, no mínimo, curiosas. Durante esse período, jurei quatro vezes que seguiria a dieta, direitinho, para ficar bonita para o tipo de espelho que não tenho em casa. Contei pra vocês? Tenho espelhos para não apreciar reflexo de mim.

Um fica no quarto e é redondo, pequeno, velhinho, e eu o guardo como lembrança de superações. Mas isso em nada tem a ver com me olhar nele e me sentir linda que só. Atrás desse espelho, na moldura de cortiça, há rabiscos de alguém muito querido sobre isso: superação. Antes de chegar lá, essa pessoa escreveu sobre sua solidão atrás do espelho. Não consegui me desfazer dele.

O outro espelho nem meu é... O do banheiro, alugado com o apartamento, onde olho para mim, já saindo, todos os dias, só para saber se não estou descabelada.

Quando pequena, gostava mesmo era do reflexo meu na Represa Billings, quase quintal de casa; no tanque cheio de água para banho de refrescar da tarde quentíssima, nas grandes bacias que antecederam o chuveiro el…

DOENÇA INCURÁVEL (parte 2) -- Paula Pimenta

Parece castigo. Exatamente um mês atrás, escrevi uma crônica falando da minha paixão por cachorros. Nela, contei a história de cada um dos seis cachorros que temos em casa, expliquei que muitos deles não foram planejados, e que não duvidava que daqui a pouco aparecessem mais, já que eu não consigo ver um cachorro carente e olhar para o outro lado. Aposto que foi praga de alguém que não gosta de animais (já que eu chamei esses de “sem coração” na tal crônica), porque agora – apenas 30 dias depois – temos mais um habitante canino por aqui.

Sexta-feira passada, meu irmão estava chegando em casa, quando viu um cachorro andando de um lado para o outro em nossa rua. Ele ia para a direita, subia, rodava o quarteirão, voltava... e estava bebendo água suja de uma poça. Nessa hora, meu irmão não aguentou. Eu também não aguentaria. Colocamos o “cachorrinho” pra dentro, onde ele está até o presente momento, terça-feira à noite. Acontece que na verdade ele não é um cachorrinho. Ele é um boxer enor…

À MULHER EM MIM >> Eduardo Loureiro Jr.

Tu, que nasceste comigo — neste tempo e no sem-tempo.

Tu, de quem fui separado por nossa vontade, que se fez minha e tua vontade, nem sempre coincidentes.

Tu, que busco desde então por todos os caminhos, muitas vezes ignorante de que só poderei encontrar-te n'O caminho.

Tu, que tens sido a minha luz quando sou sombra e a minha sombra quando sou luz.

Tu, que te escondes e te revelas em todas que encontro.

Tu, que, minha avó, pariste minha mãe. Tu, que, minha mãe, pariste aquele que muitas vezes penso que apenas sou eu.

Tu, que, tia e tia e tias, encarnaste para mim as musas de todas as artes: oratória, literatura, música, pintura...

Tu, que, minha irmã e irmã, ensinaste-me que não ser o único querido é ser mais querido ainda.

Tu, que, cada amada que amei, me encheste os olhos de encantamento; o peito, de ritmo; a mente, de versos.

Tu, que, Vênus, vieste tão próxima ao meu Sol, vestida de Júpiter, com ares e voares de Deusa e Mulher Maravilha.

Tu, que, minha sobrinha sem ser minha sobrinha, m…

MULHERES, A MINORIA DO SEGUNDO “X” [Maria Rita Lemos]

Embora nem todas as pessoas concordem, as mulheres fazem parte ainda, e praticamente em todo o mundo, de um grupo minoritário. O maior do mundo, mas também um dos mais desunidos. Para ilustrar isso, vou relatar um diálogo ocorrido há pouco tempo.

Estávamos, um grupo de mulheres, conversando sobre um palestrante que, durante sua fala, esforçava-se em dizer: os alunos e as alunas, os leitores e as leitoras, enfim, contemplando os dois gêneros. Uma das mulheres do grupo criticou sua forma de falar, dizendo que "desde que apenas um homem esteja presente, pode-se falar sempre no masculino, não é necessário acrescentar o artigo feminino para dirigir-se também às mulheres que estejam lendo ou ouvindo".

Citei esse fato, verídico, para mostrar o quanto nós mesmas, mulheres, muitas vezes nos acomodamos na condição de "seres de segunda categoria".

Todas as pessoas que pertencem às minorias enfrentam praticamente os mesmos problemas, e um deles é saber o que fazer enquanto minor…

BUKOWSKI >> Leonardo Marona

Você entendeu a inveja, você diagnosticou o ódio, misturou a visão da criança com os becos de rinhas e duelos tomados pelo álcool. Você deu abrigo intelectual a uma quantidade exorbitante de farsantes, canastrões da pior espécie, com grossos cachecóis em pleno verão, namorando mulheres magras e com bafo. Eles batiam à sua porta, eu sei. Atrás de vida. Atrás de uma resposta. Não havia resposta, eles não sabiam. Você chamou a vida para dançar, você apanhou feio e nunca fez nada realmente grandioso. É por isso que você entende os homens, toda a enorme tragédia que envolve a nossa pequeneza, que se resume a muito intestino e algum coração. Muita coisa tem sido falada sobre você, seu velho. Mas tenho a sensação de que nada foi realmente falado. Você mostrou a outra face da moeda, não a face mitológica, mas a menor, a literatura de bolso, a vida em pele gasta. Por causa de você ainda continuamos, uns poucos, vendo alguma beleza na selvageria diária, algo de cotidiano em calçar as botas e pa…

EU IMAGINO >> Ana Coutinho

Então fomos viajar no carnaval. E fomos para um lugar frio. Não, não um pouco frio, muito, mas muito, muito frio. Saímos do verão brasileiro de 30 e tantos graus e descemos no inverno americano, em algo como 6 graus negativos. Passamos 7 dias lá, aquele frio horrível, o corpo chegando a doer tamanho o gelo que entra por qualquer buraquinho dos seus mil casacos e, quando eu falava com alguém no Brasil, e dizia como estava frio, a pessoa me respondia: “Eu imagino”.

A cada vez que eu ouvia esse “eu imagino”, lembrava-me de uma amiga e de uma história que aconteceu há muitos anos: Essa minha grande amiga perdeu o pai numa morte muito trágica (que morte não é trágica?). No enterro as pessoas a abraçavam, diziam que sabiam da sua dor, que sabiam do que ela estava passando, que entendiam o que era aquilo e, lá pelas tantas, ela virou pra mim e disse: “As pessoas podem até entender o que eu sinto. Mas ninguém – ninguém – sente o que eu sinto”. Isso me marcou profundamente e, desde então, nunca…

EU QUERO UMA JANELA >> Carla Dias >>

“Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tú que estás numa cela
abafada, esse ar que entra por ela."
Mário Quintana


Eu quero uma janela... Sem culpa, sem vergonha, sem métrica, com ousadas esquadrias.

Quero uma janela...

Que é para compreender que a vida não passa só para pirraçar a juventude da gente. E que a felicidade não é abobrinha contada por um alguém que não tem o que fazer, além de nos encher de esperanças vazias e nos observar esgotá-las uma a uma.

Quero a janela para debruçar e esperar o tempo que for, mas que caiba no presente e tenha a habilidade de lapidar o futuro, pois estou atrasada para o passado, meus caros, ele que passou feito assopro que me distraiu até despercebê-lo. E desconhecidos não reconhecem afetos, então, quero a aventura da proximidade.

Quero uma janela...

Sem vidro embaçado, do outro lado da rua, no outro rumo do asfalto, escorregando na ponta da língua na hora do monólogo sobre tal sentimento. Que se abra em sorriso cada vez que me debruçar nela, e que…