Pular para o conteúdo principal

MULHERES, A MINORIA DO SEGUNDO “X” [Maria Rita Lemos]

Embora nem todas as pessoas concordem, as mulheres fazem parte ainda, e praticamente em todo o mundo, de um grupo minoritário. O maior do mundo, mas também um dos mais desunidos. Para ilustrar isso, vou relatar um diálogo ocorrido há pouco tempo.

Estávamos, um grupo de mulheres, conversando sobre um palestrante que, durante sua fala, esforçava-se em dizer: os alunos e as alunas, os leitores e as leitoras, enfim, contemplando os dois gêneros. Uma das mulheres do grupo criticou sua forma de falar, dizendo que "desde que apenas um homem esteja presente, pode-se falar sempre no masculino, não é necessário acrescentar o artigo feminino para dirigir-se também às mulheres que estejam lendo ou ouvindo".

Citei esse fato, verídico, para mostrar o quanto nós mesmas, mulheres, muitas vezes nos acomodamos na condição de "seres de segunda categoria".

Todas as pessoas que pertencem às minorias enfrentam praticamente os mesmos problemas, e um deles é saber o que fazer enquanto minoria: aliar-se aos outros grupos minoritários para que, unindo forças, consigam vitórias ou permanecer distante de seus pares, aceitando o que lhes for reservado? Esta é uma das questões e nenhuma das duas atitudes está completamente correta. A meu ver, e fazendo parte, como faço, de minorias, aprendi que nada que contenha compulsões e obstinação dá bons resultados. Quando se deseja denunciar, apontar, reivindicar, seja o que for, tudo vale, menos impaciência, precipitação e autoritarismo.

Vale, aqui, uma ressalva. Quem faz parte das minorias? A resposta é muito ampla, porque há minorias dentro de grupos, dentro de estados e países. Há minorias dentro das minorias, por mais difícil que possa ser entender isso, basta pensar numa mulher negra. Minoria enquanto mulher, minoria enquanto negra. Se for atriz, então, incorpora ainda outro subtítulo das minorias...

O elemento comum das minorias é o fato de serem dinâmicas. As grandes nações de hoje poderão ser minoria num futuro a médio e longo prazo, assim como os japoneses, que já foram minoria dentro de um grupo oriental, mas já não o são. Outro exemplo claro: se considerarmos uma pessoa negra residindo em países do sul de nosso Brasil, ela será considerada minoria; mas se ela morar em Salvador será maioria - basta visitar essa terra maravilhosa.

Entretanto, nós, mulheres, podemos nos considerar uma minoria permanente, o único grupo minoritário que persiste, independente da raça, nação ou cor: estamos no grupo de “todas as mulheres”, o maior grupo minoritário, embora em algumas nações gozemos de mais liberdade e equanimidade. Há mais de um século lutamos por justiça e isonomia de direitos, porém estamos ainda longe das vitórias que almejamos conseguir. Em mais de cem anos, obtivemos vitórias, conseguindo direitos antes concedidos apenas aos homens: o direito de fazer testamento e gerir nossos próprios bens; de votar e ser votada; de pronunciar-se em reuniões públicas; de trabalhar em bancos e estabelecimentos estatais; de optar por profissões liberais.

Faltam-nos, no entanto (e estou falando apenas da mulher ocidental), receber iguais salários por iguais funções, coisa que ainda não conseguimos totalmente, bem como ter direitos de cidadania absolutamente iguais aos nossos parceiros masculinos.

A luta do eterno feminino foi muito árdua, mas nem por isso está terminada. Vários tipos de discriminações foram derrubados; a mulher suou e chorou muito para ter direito a trabalhar fora do lar sem ser diminuída em seu valor feminino; da mesma forma, as mulheres artistas muito se esforçaram para não serem consideradas, mais, como vulgares e “desfrutáveis” (ah, que palavra horrível!), apenas por terem escolhido esse caminho para suas vidas, o da arte em geral, ou terem sido escolhidas pelas artes.

Apesar de todas as vitórias, continuamos sendo minoria, e talvez isso se estenda, ainda, por algumas gerações. Somos o maior grupo minoritário do mundo, e sabemos disso. Qualquer mulher inteligente sabe, em seu coração, que é assim, e se dói com isso, sofre com isso, sente as oportunidades perdidas apenas por ser mulher. É bem verdade que houve muitas mulheres que levantaram suas vozes, se insurgindo contra isto, mas muitas outras permaneceram caladas, acomodadas, amedrontadas. Como grupo, as mulheres não fizeram revoluções nem greves, apenas movimentos pacíficos e de conscientização, como as feministas norte-americanas na metade do século vinte.

O grande segredo das mulheres sempre foi lutar para eliminar as desigualdades baseadas em seu “segundo X” sem deixar um só momento de cumprir suas tarefas, pelo menos grande parte das mulheres. Basta pensar que, se um filho de um casal adoecer, e ambos trabalharem fora do lar, não precisa imaginar muito para saber qual dos dois, pai ou mãe, voltará para casa para cuidar do filho enfermo.

Enquanto minoria por ser mulher, e enquanto minoria ainda dentro da minoria, não prego qualquer violência, nenhum ressentimento nem revolução alguma - até porque não creio que esses sejam os modos de se conseguir mudanças consistentes e permanentes. Acredito que o melhor método para que seja feita justiça às mulheres é exatamente este: prosseguir a luta, mas com meiguice, com a habitual doçura feminina, sem deixar de lado aquilo que a natureza nos dotou com tanta generosidade, como parir e amamentar nossas crias. Enquanto nós, mulheres, continuarmos nossos trabalhos ao mesmo tempo em que exigimos nossos direitos, com a firmeza necessária, vamos caminhar ao encontro da justiça que desejamos, para nós e nossas filhas.

Para concluir, quero lembrar, neste dia Internacional da Mulher, que o fato de alguém nascer pertencente ao sexo feminino é tão casual quanto nascer negro, branco ou amarelo. No entanto, a discriminação que possa ser feita a esse ser, baseada nessa casualidade, é injusta e odiosa, tanto quanto a discriminação pela raça, orientação sexual ou cor.

Comentários

manu disse…
adorei o texto. muita qualidade e informaçao
RaoNeo disse…
E desde quando mulher é minoria? Pelo que me consta o Brasil tem 4 milhões de mulheres a mais que Homens.

Touché.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …