sexta-feira, 20 de março de 2009

VINTE E SETE ANOS >> Leonardo Marona

hoje estou tão distante
do meu próprio nascimento quanto
estou distante do meu pai,
que tinha a minha idade
quando eu nasci.

e nunca estivemos tão longe.

é a era de aquário, eles dizem,
e eu fico satisfeito, nadando
sozinho no meu próprio vidro.

mas o que faz dois distantes,
creio não ser a falta de amor,
mas talvez uma escassez por dentro,
alma vendada diante do penhasco,
que move a parte aventurada do espírito,
cachorro Buck voltando a galope
da expedição que lhe rendeu essa distância
(essa tamanha juventude violentada no chicote),
arrastando sozinho o trenó e outros cães mortos,
que pesam e talvez seja porque a morte
é um perder peso que pesa tanto
sobre os que sobram, sempre os de ternura impávida,
envergonhados do choro que não é emoção contida,
é um espaço feito faca entre corpos de ferro,
é isso que permanece e que não compreendemos,
talvez um desperdício demasiado de vontade cega,
um não saber reter a vida como fonte interminável,
uma coragem literária que murcha na fila do banco,
no lançamento de poetas iconoclastas e com bafo,
no pasto com vacas como as dos potes de requeijão,
no amor, na percepção nítida de que algo em nós
está se afastando, se escondendo para depois voltar
com força, provavelmente em hora inesperada,
quem sabe quando pensarmos outra vez dois juntos,
a carne remota, as políticas que já não interferem:
acho que isso é o que torna as pessoas distantes.

esse estado de se estar de algum modo flutuando,
esbarrando na realidade como algo inverossímil
e ao mesmo tempo prático demais – ah meu pai! –
e você estaria daqui a pouco esperando, como eu,
pelo desconhecido que viria de um ventre ameríndio,
com cara de chinês, quatro quilos e oitocentos gramas,
e apenas aquilo seria a nossa cruz: aquele peso todo.


http://www.omarona.blogspot.com/

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5 comentários:

Jorge disse...

Aehh galeraa!!so iniciante aendaa!!!da um olhadaa!!!

Será um enigma que todos sabemos o segredo mas não sabemos decifrar?

“O amor não se conquista com um simples te-amo, ou iludindo a pessoa, que sem perceber você define em sua cabeça um pensamento de vitória. Não, isso não é aquela sensação de que você está leve, quando está ao lado dela (e), o seu amigo! Mas porque amigo? Acima de tudo o ser humano precisa não apenas desejar ao próximo para dizer que lhe ama, pois desejo é uma palavra que se refere a uma vontade, uma vontade e só. E sim precisa estar ao seu lado naqueles momentos que nenhum de nós queríamos estar, mas estamos lá por um único motivo. Amizade! que logo adiante sem percebermos, se transforma naturalmente em Amor!
Um dia aquela meninona que eu esperava, mas não achava. Onde estás? Enfim apareceu um ser inimaginável, totalmente diferente, não aquela menina mimada, patricinha, irracional. Veio e pá! Mostrou que ali existe sim um coração que pulsa indisparadamente.
Ela não é a mais inteligente, nem a certinha, é aquela que erra e aprende com seus próprios erros tornando-se “a” complexa! Perfeita literalmente? Não! Mas perfeita pra mim!”
(Jorge Luiz Camargo)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

E a gente é que ganha o presente, Léo? :) Parabéns por esse dom da escrita que nasceu, ou que cresceu, com você.

M disse...

"...talvez seja porque a morte
é um perder peso que pesa tanto
sobre os que sobram..."

Genial...

Letti disse...

Tá com maior pinta de aniversário, esta crônica. Felicidade, Leonardo. Que ela venha nas horas inesperadas! :)
beijo!

C. S. Muhammad disse...

Parabéns por tudo.