domingo, 29 de março de 2009

A LÔRA E OUTROS MISTÉRIOS ITALIANOS
>> Eduardo Loureiro Jr.

Meu amor que me perdoe, mas passo quase todo o meu tempo, aqui na Itália, pensando na loura. Ou, em bom cearensês, na lôra.

Já são dez dias de viagem, e nenhum deles se passou sem que me falassem da lôra. É, de longe, a pessoa mais citada na Itália. Como o pessoal de Fortaleza chama a prefeita Luizianne de "lôra", pensei até que fosse o caso também aqui. Mas os prefeitos -- aqui se diz "sindaco" -- de Roma, Bologna e Firenze, as cidades por que passei, são todos homens. De todo modo, deve ser uma pessoa famosa, famosíssima, porque se fala na lôra em todas as situações, das mais triviais às mais formais. É a lôra pra cá, a lôra pra acolá. Talvez seja uma dessas mulheres modernas, mulher-macho-sim-senhor, independente, que trabalha três expedientes, bem-sucedida. Mas, às vezes, um homem diz "a lôra" e não fala mais nada, fica com o pensamento suspenso, e nesses momentos eu imagino que a lôra talvez seja uma mulher formidável, feminina, linda... quem sabe uma artista de cinema.

Ontem fui ver um filme, "Diverso da chi?", "Diferente de quem?", e cheguei a pensar que a Claudia Gerini fosse a lôra: ao mesmo tempo, uma mulher moderna, uma fêmea formidável e uma artista de cinema. Mas nunca se sabe se o cabelo dela é apenas pintado. E contra essa hipótese está o fato de que mesmo crianças, ou mendigos de rua, falam sobre a lôra. Não sei se a Claudia Gerini é tão conhecida assim. Então continuo minha busca da lôra.

Esse não é o único mistério aqui na Itália. Hoje mesmo, no café da manhã, eu pedi um pão e a mulher que me entregou o pão acrescentou:

-- Burro?

O sorriso e a gentileza dela não me deixaram pensar, nem por um momento, que ela estivesse me xingando. Foi quando lembrei que as culturas têm hábitos alimentares estranhos. Eu mesmo comi lhama no Peru. Os tailandeses comem insetos. No Brasil, em Belém, se come pato. Então era aquilo mesmo: a mulher queria saber se eu desejava botar burro no meu pão. Quando estou viajando, gosto de experimentar a comida local, e quase disse à mulher "si, burro per favore", mas lembrei que estou tentando me tornar vegetariano e disse "non, grazie".

Outra coisa estranha é que os italianos são fixados em pianos e pregos. Pianos, tudo bem, é até de se esperar de uma civilização que produziu grandes nomes da música clássica. No hotel mesmo em que eu estava em Bologna, o atendente disse que meu quarto ficava no terceiro piano, embora eu não tenha conseguido ver o piano nos três dias em que estive lá. Agora, pregos... Que fixação mais estranhas essa! Todo mundo quer prego. Você não consegue entrar ou sair de um restaurante, de uma lanchonete, de uma sorveteria ou de uma loja qualquer sem que lhe perguntem pelo prego. Se eu fosse empresário e resolvesse abrir um negócio na Itália, seria, sem dúvida, uma fábrica de pregos. Assim que eu vir uma loja de material de construção por aqui, entrarei e comprarei uma mão cheia de pregos. Se é prego o que os italianos querem, prego é o que eles terão.

Agora, mistérios à parte, tirando a lôra famosa e invisível, o burro que se coloca no pão, os pianos escondidos nos hotéis e a falta generalizada de pregos, devo dizer que a Itália, até aqui, tem me parecido um bom país. O que me dá ânimo para continuar a viagem, que só terminará em maio. Quem quiser pegar carona, pode acompanhar meu diário de viagem aqui.

NOTA DO EDITOR:
Não nos responsabilizamos pelas ideias veiculadas nos textos de nossos cronistas, principalmente aqueles que são completamente ignorantes. Em respeito ao nosso leitor, fornecemos um pequeno glossário de palavras italianas:
- Allora > então
- Burro > manteiga
- Piano > plano, andar
- Prego > por favor, não há de quê



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6 comentários:

Juliêta Barbosa disse...

"Allora", Eduardo, quando nos brindará com outro texto tão interessante? Peço-lhe insistentemente, "prego".

albir disse...

Estou com vc, Edu. Vamos nessa pela riqueza do solo e do idioma italianos. Abraço

C. S. Muhammad disse...

Hahaha. Adorei. Parecia até que a Ana (Coutinho) estava aí com você.
(...)Sem falar no tal "eco" que eles ouvem a todo momento, não?

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Prego, Juliêta. Domingo que vem tem mais. :)

Então vamos enricar, Albir. :)

Carla, você percebeu corretamente: Ana tem sido uma influência em minha escrita. E como é que eu fui me esquecer justo do "ecco"? Peccato!

Carla Dias disse...

Eduardo, seu blog de viagem está na minha lista de favoritos. Sempre que sobra um tempinho, corro pra lá para conferir o que se passa com você. E adorei essa sua crônica...

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, oisa boa é viajar com gente boa junto. :)