segunda-feira, 2 de março de 2009

CAI O PANO >> Maria Rachel Oliveira


Passou o carnaval, passou o oba-oba, e dizem por aí que o ano no Brasil só começa hoje. Prefiro acreditar que é apenas uma ‘forma de expressão’, mas de qualquer modo, hoje cumpro a promessa de voltar a escrever nesse canto tão querido.

Várias ideias (alguém sabe se vão lançar algum plug-in pro Word parar de colocar acentos assassinados pela reforma desortográfica?) me passaram pela cabeça, cheguei mesmo a escrever um texto sobre o carnaval. Mas acho que há várias coisas mais importantes a serem abordadas do que bundas nuas e nomes de blocos engraçadinhos que fazem essa festa tão popular e internacionalmente conhecida; como por exemplo, a violência cometida contra a mulher.

Não tô querendo dar uma de partidária, nem dizer que não há mulher doida ou violenta. São como las brujas, que las hay, las hay; mas talvez delas não tenhamos notícia porque não ousam lutar – a não ser que sejam profissionais nesse quesito, como a deputada Cristiane Brasil, que é faixa preta – com seres de peitos cabeludos e músculos mais desenvolvidos que os delas. Quando são violentas é pra ir logo pra capa do Extra, do Dia, e estrelar a página sanguinolenta de algum jornal - geralmente atacam com armas de fogo ou tramam verdadeiros esquemas (mas não são muito de vale-tudo, como os homens equivalentes).

Navegando no blog da Gabi, vi que a Rihanna e o Chris Brown estão se reconciliando. Chamem-me de ignorante, se quiserem – mas só sei quem esses dois são de nome. Arriscaria dizer que ambos são cantores, mas isso é coisa que acho – nem afirmo, só um palpite que fica, recolhido de fragmentos de informações que peguei com o bonde andando. Sucede que o moço andou dando umas porradas nela. Pois. E que agora estão se reconciliando (coabitando! Pode?), com a colaboração de um amigo(!) comum.

Eu, que há tempos não aparecia por aqui, apareço falando justo disso porque, além de tudo, escrevo para psicanalizar a mim mesma, muitas vezes pouco me importando com o que os outros possam pensar disso. Mas desta vez, ao menos dessa vez, eu acho que, além de fazer bem a mim, posso fazer bem a quem porventura der com os costados aqui hoje.

“Quando não se pode perdoar” é o título do post, muito bem colocado pela Gabi, diga-se. Não sei se isso já aconteceu com ela (a moça que escreveu o post, porque há fotos da Rihanna coberta de escoriações), mas já aconteceu comigo; e não, não é uma coisa fácil de lidar. Dormir com o inimigo mistura uma porção de sensações (das quais, normalmente, a que tem o nível mais baixo no coquetel é a auto-estima) e a gente perde a noção do certo e do errado. Perde mesmo. Pode parecer bem fácil apontar o dedão na cara da moça e dizer “ah, você é famosa, tem dinheiro, não pre-ci-sa dele”.

Não, não precisa. Mas agredida, diminuída, sabe-se lá por que, ela acha que precisa. Homem que é covarde a ponto de bater em mulher, é covarde também a ponto de fazê-la acreditar que seu valor é próximo de zero. E não, não é fácil você recuperar a sua auto-estima depois de uma pancada destas.

No meu caso, o ex-namorado mostrava vários indícios de violência (psicológica e física) que eu preferi ignorar. Uma queixa da ex-mulher na delegacia, agressões verbais em um grau muito sério e outras atitudes suspeitas, talvez menos óbvias então.

Para minha sorte, o ápice da violência de tal criatura foi me empurrar no chão – e, mesmo assim, confesso que ultrapassou o limite de coisas que eu permitiria em sã consciência que acontecessem comigo. Até hoje me envergonho enormemente de ter sentido carinho, ternura e até paixão por uma pessoa dessas. Parece fácil olhar pra trás e diagnosticar a baixa auto-estima; mas não foi assim imediatamente. Quando você está envolvido, seja por que motivo for, não consegue juntar lé e cré, e jura de pés juntos que tal pessoa é algo que não é. A realidade é muito feia e, fragilizadas, tudo o que não queremos é ver a cara medonha dela.

Não duvidem quando alguém disser que foi vítima de violência doméstica. Não tratem uma pessoa dessas como se fosse normal sair batendo em mulher ou em qualquer criatura mais fraca que você. Não permitam que agressões verbais passem despercebidas. Não que seja caso de ‘meter a colher’, mas de dar suporte, alertar e ajudar a outra pessoa a reunir forças para ganhar de novo o mundo. Acredito numa rede que ajude as partes prejudicadas a se reestruturarem para renascerem.

Quem tem que ter vergonha é quem bate, quem suporta esse tipo de atitude e quem prefere fingir que não está vendo e acha tudo isso muito normal.

Pelo que li e ouvi dizer, a campanha tem tido bons resultados. É a união que faz a força – do bem, diga-se. E até o Capitão Nascimento aderiu ao movimento. Bora apoiar que a causa é boa!

Para conhecer mais do projeto "Homens pelo fim da violência contra a mulher", cliquem aqui.

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7 comentários:

cArLa disse...

Que bom que você escolheu este tópico. Aqui nos EUA a violencia contra a mulher é algo que eu diria quase banal. Os sinais são sempre ignorados até que alguma tragedia aconteça e vá parar nos jornais. Pior é que, como o talzinho é popular, já imaginou quantos por aí não hão de imitá-lo?

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Rachel, eu não acreditava nessa história do ano só começar depois do carnaval. Mas você ter voltado a escrever me fez pensar que talvez essa história seja verdade. :) Muito boa a reflexão, principalmente pelo caráter pessoal que você deu à crônica.

C Letti disse...

Não conhecia o projeto, obrigada pela dica. A causa é mais que boa, é fundamental. Beijo!!

Anônimo disse...

Rachel,
muito corajosa e oportuna sua crônica. sabe aquela frase, nao me lembro agora do autor, q diz q o mal vence nao pq os maus sejam muitos mas pq os bons deixam pra lá e fingem q nao estao vendo, de alguma maneira compactuando? então, vc não fingiu q nao viu e q nao vê. muito bom e muito oportuno.
adelson

rm disse...

Ei dona Raxel (rss),
como a senhora não consegue atualizar aquela porcaria de feed no blog que assina com o próprio nome, pensei em substituí-lo (nos "Veneninhos") por este blog, do qual tive ótima impressão...

Você autoriza?

(Se não autorizar vou colocar do mesmo jeito (rss) porque, afinal e como diz o capitão, quem manda nessa porra aqui sou eu! rss)

maria rachel oliveira disse...

Oi Carla,

Quer dizer que somos da mesma província? Seja bem vinda por aqui também. E é isso mesmo, tem mais é que pôr a boca no trombone. Bom que você gostou.

Eduardo meu querido, não sou moça de prometer nada, mas quando prometo...

Clau, querida, bom ter você junto, sempre, sabe, né?

Oi Adelson,
Pois eu acho que só com coragem se combate a covardia, né? E como já diz o velho e sábio ditado ‘o pior cego é o que não quer ver’. Mesmo que às vezes a gente não consiga, é sempre bom alertar as pessoas para que nos ajudem a enxergar...

RM,
E eu tenho escolha? E fique com as boas impressões; o povo aqui arrebenta, visse?

Beijos!

Gabi disse...

Olá! Obrigada por ter gostado do texto e recomendado!

Violencia contra a mulher não pode ser tratada em silêncio mesmo... Ainda bem que na tua hitória você conseguiu se livrar do cara antes que acontecesse algo mais sério... =(

Nunca fui vítima diretamente - talvez por sorte - mas conheci pessoas que foram. E a única saída é não permitir que isso passe batido!

Um beijo