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ESPELHOS >> Carla Dias >>

As duas últimas semanas foram, no mínimo, curiosas. Durante esse período, jurei quatro vezes que seguiria a dieta, direitinho, para ficar bonita para o tipo de espelho que não tenho em casa. Contei pra vocês? Tenho espelhos para não apreciar reflexo de mim.

Um fica no quarto e é redondo, pequeno, velhinho, e eu o guardo como lembrança de superações. Mas isso em nada tem a ver com me olhar nele e me sentir linda que só. Atrás desse espelho, na moldura de cortiça, há rabiscos de alguém muito querido sobre isso: superação. Antes de chegar lá, essa pessoa escreveu sobre sua solidão atrás do espelho. Não consegui me desfazer dele.

O outro espelho nem meu é... O do banheiro, alugado com o apartamento, onde olho para mim, já saindo, todos os dias, só para saber se não estou descabelada.

Quando pequena, gostava mesmo era do reflexo meu na Represa Billings, quase quintal de casa; no tanque cheio de água para banho de refrescar da tarde quentíssima, nas grandes bacias que antecederam o chuveiro elétrico. Na verdade, não era o meu reflexo que importava, mas a forma como a água o despenteava, deixando minha imagem com um movimento que me agradava muito mais do que a linearidade que as pessoas teimavam em dar à imagem da outra, sem saber sequer se elas concordavam com ela.

Adolescente, tive uma penteadeira no quarto, herdada de minha mãe, na fase de querer me transformar em adulta de vez. À noite, olhava para o espelho suspeitando de que nele havia algum tipo de magia. Além de chamar relâmpagos para dançar e depois explodir em caquinhos, ouvi dizer que se olhasse no espelho, com a luz apagada, veria o reflexo dos espíritos que me acompanhavam. Por mais sedutora que me parecia a ideia de que o espírito tem uma jornada muito maior do que, na carcaça, podemos imaginar, o medo de me saber tão capaz de ir além do espelho me fazia recuar.

Antes de dormir, ficava em pé perto do interruptor, fechava os olhos e depois corria pra cama, garantindo que meus olhos não alisassem o espelho, durante o caminho.

Os espelhos d’água sempre me fascinaram de uma maneira muito intensa. Se me largarem à beira de uma poça de água, é capaz de eu ficar por lá um bom tempo, observando como o vento vem e reescreve a figura dela. Essa capacidade de mudança e, ao mesmo tempo, de se adequar ao espaço que lhe cabe no momento, tem um poder sobre a minha transformação – ou lapidação – pessoal. Sou uma pessoa melhor por conta das poças d’água que a vida permite observar, pular, secar, à escolha dessa freguesa aqui.

Talvez haja um espelho por aí que não seja cruel como o da bruxa da Branca de Neve, porque, pense bem, ver-se sempre linda, bonequinha, sabendo que basta puxar a máscara e não somente as rugas entrarão no palco, mas também essa coisa letal de acreditar que a imagem refletida deve ser sempre impecável. E durante essa ilusão de que o espelho, aquele enorme fixado na porta do armário ou na parede quarto, é o sábio que abarca a identidade da beleza, perde-se a capacidade de olhar a si mesma com a sutileza da compreensão da própria humanidade.

Sei que nunca tive espelho para comprovar quando e se fui bonita, ou quando e se deixei de ser. Engraçado que você só sabe que é depois de ter sido, o que acho um pleonasmo temporal. E depois que foi, sabe Deus se conseguirá ser novamente, ou se o novo ser que cultivou caberá no espelho-modelo da sociedade. Para mim este espelho-modelo não serve, nunca quis caber nele, tampouco aplico suas regras às outras pessoas. Porém, é fato que seus cacos doem debaixo dos pés até de quem duvida da existência dele.

De vez em quando o espelho me dá uma canseira... Não os d’água... Esses eu gosto de namorar.

Site: www.carladias.com

Talhe - Blog: www.talhe.blogspot.com

Comentários

Juliêta Barbosa disse…
Carla,

O teu espelho são as palavras... E como elas falam da tua beleza! És ímpar!
Carla, quando perdi meu medo dos espelhos de vidro, comecei a perceber que eles não são assim tão diferentes dos espelhos de água. :)
Carla Dias disse…
Juliêta... Que gentileza essa sua com as minhas palavras. Obrigada!

Eduardo... Fico feliz por isso. Quem sabe te encontro lá, mais adiante... Onde todos os espelhos valem um reflexo.

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