quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

OS DESEJOS >> Carla Dias >>

A gargalhada das crianças brincando no quintal, o barulho das folhas se rendendo ao bailar do vento e o barulho das horas despendidas em sonhos que, realizados, vão gerar benefício não apenas aos seus sonhadores, mas também àqueles que dependiam de um sonho alheio para alcançar as próprias conquistas.

Que nasçam mais pessoas destinadas a serem autores de ideias malucas, pois a loucura – essa definição espevitada ao que sai do eixo do entendimento imediato – tem sido fonte de uma liberdade ímpar e soprado vida em realizações dignas de serem experimentadas.

Banho de chuva em tarde de sol, os pés sendo ponte das corredeiras, abraço de quem não se vê há tanto tempo que nem vale contar, girassol na janela, pôr-do-sol de cara para o mar. Agulha e linha para costurar incertezas, mel para adoçar amarguras, frestas aos que temem a escuridão.

Se peço amor, saiba que o peço a todos. Não o falseado amor, do que se debruça em privilégios, curva-se ao medo, não se importa se fere e sequer aprende com os obstáculos. Amor não falseia... Então, que ele venha em sua bruta forma e seja lapidado pela nossa sabedoria e capacidade de compreender que o amor requer cuidado constante.

Vírgulas em lugares aos quais não pertence, apenas para fazer tropeçar o destinado a ser padrão. Longas pausas em discursos comoventes. Que venha não apenas um ano de cara nova, carregando nossas ansiedades e desejos. Que também venham os menestréis para alegrarem o cotidiano, os poetas para enfeitarem os canteiros da nossa alma, os anjos para aprenderem o gosto do beijo de língua e se darem conta de que é o mesmo que sentem ao devorarem nuvens. As águias a nos ensinarem a emoção dos voos.

A todos eu desejo bons ventos... E rosa dos ventos para com ela poderem brincar de novas jornadas.


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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

NÃO DOU E PRONTO
>> Felipe Peixoto Braga Netto



Há quem tenha castelos, ferraris, iates. Eu, que não tenho nada disso, tenho entretanto um bem mais precioso: um vidrinho de pimenta vinda lá de Corinto, da Fazenda do Dr. Paulo Machado. Não me venham com permutas. Não aceito cavalos, nem ações na bolsa, nem mesmo um lugar no paraíso. Quero apenas a companhia humilde e sublime desse vidrinho, pequeno mas tão grande.


Não é uma pimenta, é A pimenta. Ao leitor — que eu sei que não a conhece — manifesto meus sinceros pêsames. O quê? Quer provar? Do meu vidrinho? É fácil: basta passar por cima do meu cadáver. Depois, contratar uma horda de mercenários para vencer a Guarnição dos Cavaleiros Defensores da Essência Sagrada (minha versão dos cavaleiros do Santo Graal) e, claro, enfrentar os jacarés, as pontes elevadas e uns oitocentos e doze cadeados.


Nem sempre ela fica em casa. Às vezes a levo para passear. Comer fora é bom. Gosto muito. Desde que esteja bem acompanhado. Da minha pimentinha, lógico. Perto dela, a comida é um coadjuvante. Até certo ponto irrelevante. Eu, tantas vezes, melhorei comidas medíocres com a danada da pimentinha.


Claro que a saída exige certas precauções. Aparato de segurança. O mundo anda perigoso, e quando descobrirem o que carrego comigo minha vida não ficará fácil. Estou até pensando em me mudar daqui depois dessa crônica. Não estarei localizável, leitor, ninguém me achará.


O Dr. Paulo Machado Vieira mora numa fazenda com magníficos ipês. Deve ter sido isso. Será que há ipês na fórmula? Ou serão as quaresmeiras? Não faça isso, Dr. Paulo, eu sou um homem de fáceis amores. Os ipês já roubaram meus olhos faz tempo. Se a pimentinha tem, na sua sublime fórmula, algo dessas incríveis árvores amarelas, aí já era, entrego os pontos de vez.


O segredo, meus amigos, não dou porque não tenho. Nem tentem me sequestrar. Também, se tivesse, não sei se daria. Quem sai por aí oferecendo sua mulher aos outros? Egoísmo é bom e eu gosto!




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domingo, 27 de dezembro de 2009

ENTRE O NATAL E O ANO NOVO
>> Eduardo Loureiro Jr.


Às vezes, me sinto um dos personagens das crônicas de Kika Coutinho, principalmente quando ela divide o mundo em tipos, feito em excel e powerpoint ou em ritmos musicais.

Se a Kika estivesse escrevendo essa semana, talvez dividisse as pessoas entre aquelas que preferem o Natal e aquelas que estão mais para o Ano Novo. E eu me sentiria um personagem do primeiro tipo.

As pessoas "do Natal" preferem as reuniões em família, cada um sentado na sua cadeira, conversando miolo de pote, relembrando histórias antigas ou até mesmo contando histórias novas, feito essa que minha avó contou na noite de Natal...

Em visita a uma amiga que começou a manifestar os sintomas de Alzheimer, minha avó foi recebida de maneira muito efusiva. Sua amiga, toda animada, lhe perguntou:

— Ô Izolda, você sabe que agora já existe avião direto para o céu?

Minha avó ficou calada, pensando que se tratava de uma piada ou de uma pegadinha. A amiga continuou:

— Pois hoje mesmo peguei o tal avião e me encontrei com meu falecido marido e com minha saudosa mãe. E ainda voltei antes de escurecer.

Minha avó não soltou palavra. Pagou a história com um sorriso e a guardou para nos contar mais tarde.

Esse é o tipo de coisa que não acontece no Ano Novo, quando as pessoas, todas de pé, estão mais interessadas em vestir determinada cor, em fazer determinada contagem, em comer determinada iguaria, em beber determinado espumante e antecipar o Carnaval.

Então, nesses dias, eu prefiro continuar sentado, quieto no meu canto, mesmo que não haja ninguém contando histórias. Nessa viagem de réveillon, eu não embarco. E só desejo que meus amigos, minhas pessoas queridas, voltem antes de escurecer.




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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

APANHADO FINAL >> Leonardo Marona

"2009"

não quero mais saber de ti, 2009.

já te dei o que podia, não o bastante
pra você lembrar de mim, fora o livro
que perdeu pra Colasanti, mas eu juro
que aqui não farei mais nenhuma métrica,
porque, 2009, foi cansativo desde o começo,
com tuas palavras românticas em bolhas,
com tua edição de livro, tua calma fajuta,
para antecipar objeções tardias dependentes
da válvula que começa a apresentar as falhas
de uma sigla preciosa, um instinto submerso,
que me faz dizer “EU TE NOMEIO, 2009”
como o ano em que os poemas não sairão
mais retos e secos contra a página vadia.

será a coisa mais vaga, não charmosa,
que subirá pelas paredes, verde musgo,
e estaremos em Baden, São Petersburgo,
jogando dados contra nossas mulheres.

te verei arder pelo beco insólito da pele,
te darei de mamar, talvez, farei um muro,
e te levantarei como um bebê natimorto.

as mulheres terão mais o que fazer
e seremos nós a boca do precipício.

estarei atento desta vez, quase brega,
não tamparei os ouvidos à boca maior.

mas nunca mais estarei contigo, 2009,
já que teus fogos só reafirmam aspas,
e a solidão hoje é nossa, e de mais ninguém.

xxx

"elegia ao capote de gogol"

existe, é claro, aquela cor cinza,
o frio inigualável de Petersburgo.
funcionários reles, paredes de musgo
somatizam o fedor dos dentes podres.
o salário pequeno, os feitos seguros,
aos quais nos dedicamos sem comer.
nós todos viemos de ti, e roubados
somos diariamente e nem sabemos
quanto temos da nossa própria loucura,
se o inverno será frio dento de casa,
se os ladrões tomarão a cama doentia.
os espelhos serão ventosas coniventes,
estaremos no fim doutra noite de vodca
e assobiaremos canções folclóricas, rindo,
porque, felizes, não sabemos que hienas
rondam e falam e dizem elogios básicos,
para depois nos arrancarem a imagem
do que nem sabemos que somos e nem
quereríamos saber, não fosse este frio
que faz por dentro da casa às escuras
quando gritamos vossa excelência! –
perdoe-nos por sermos nossa história.

xxx

"poema se esvaindo em sangue"

miseravelmente, dessa vez escreverei em vermelho,
miseravelmente, cavalheiros, pois que me faltam
dentes para a poesia, rarefeitas ficaram as rimas
e os olhos, mitos de cetim, justificam as falhas,
que desabrocham no ar do raciocínio amortizado.
estamos nas ruas ao menos, mas a chuva precipita
o fim dos nossos pulmões, a tísica que, seca, avança
o erro de toda a espécie, e vamos soltos, sem fígado,
colher as flores tardias para uma epopéia perigosa.
somos a reprise de uma antiga estação, mas as roupas
são coloridas, as bandanas franciscanas desempenham
soluções escrupulosas para a completa falta de espaço.
as caras quebradas, a boca de gelo, as curvas fáceis
desafiam o tempo e a saúde, estamos lilases na chuva,
com nossas pernas em transe, à espera do ciclone
prometido por Camus, e quem dera pudesse o Kundera
ver a margem tensa do deslize, tomar o caldo mágico
da fome, quando faltarem as palavras, quando a asma
tomar o corpo, então nós assobiaremos a todo volume,
e pálidos seguiremos com essa tristeza em flor de lótus,
e mais uma vez as senhoras apoiarão nas janelas o busto
com seus lenços na direção dos últimos sobreviventes
que vieram de longe e cuja morte trará a terceira guerra.

xxx

"canção para roberto piva"

parece que recolheram, a pau e pedra, os amigos pederastas,
os barbudos que povoam os mictórios atômicos, estilhaçados
ficaram os versos, continuam encostados na parede, a solidão
permanece nua, amarrada ao poste, e Piero della Francesca
não pode mais dar o abraço plurissexual, o apito disentérico
das fábricas se tornou aquário desordenado da imaginação.

te vejo tão sério na página do jornal marrom, entre as grades
de bambu, dizendo: NÃO SUPORTO SÃO PAULO, e rumo
à extinção da luz mesclamos vozes barbitúricas, e os bolsos
escancarados da mente provocam os anjos de enxofre, e das
janelas do crânio observamos o corpo suicida de Modigliani,
já Garcia Lorca penteia pela última vez o crânio martirizado
enquanto a noite varia, as estátuas doentes, com conjuntivite
borram a nesga preciosa por onde escaparemos feridos, nunca
mortos, e nos arrastaremos satisfeitos na paisagem de morfina.

xxx

“com amor, para meu pai”

no fundo, meu pai, te espero
como o cometa sexagenário
que passa enquanto dormimos
e já nem temos mais os sonhos,
sobrou apenas o suor doente
porque no fundo todos nós
esperamos o cometa tardio,
enquanto, cá na terra, os olhos
se desencontram sob a moral
das opiniões sublimes, e o nó
já não pode mais ser desfeito,
teremos que, sem papel, virar
as páginas do nosso silêncio,
abandonar o resto da ternura,
que dava cor às fotos, água
à sede colorida, ao pensarmos
no quanto ainda nos faltava,
com ansiedade nos largávamos
por entre os becos da fome rara
e avançávamos restritos como
óvnis desalentados, sem rumo
entre extraterrestres perenes,
como nós dois, sem asas, e nem
a boca preciosa dos impropérios,
nem a língua que, com delicadeza,
remediava as feridas inevitáveis
que deveríamos ter com carinho,
mas que nos matam indiferentes.




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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

SEM LAÇO >> Carla Dias >>


"Tem mais presença em mim
o que me falta."
Manoel de Barros



Presente bom, muitas vezes, é presença. Vale agradecer pelas presenças que não partem de nós, independente dos humores, dos desabafos, das erradas. Presente de estar, sem data para sair de cena, sem tendência a deixar na mão.

Quem é presente sabe quando calar, mas também quando colocar a boca no trombone. Estabelecem-se nessa relação – metaforicamente falando, meus caros - os tais tapas e beijos da canção.

Se o profeta se fizesse presente, certamente perceberia dar aquele nó nos seus pensamentos sempre tão profundos. Na teoria, a sabedoria pode ser extremamente elegante, dotada de todos os preceitos da etiqueta. Porém, na prática ela é da simplicidade das salas cheias de gente batendo papo sobre quem, como e quando, despreocupados com previsões, cometendo gafes em favor da benquerença. E ao mesmo tempo, curando o espírito dolente sobre o qual o profeta tece as teorias de fim do mundo, início da era. Sobre os recomeços dos quais fala a poesia tagarela.

Presentes permanecem os que não abrem mão do outro ao sinal de dificuldades. Quem não adota a mentira como fio condutor da união das suas histórias. Ser presente não é tarefa fácil, ainda mais em tempos em que a individualidade impera, apesar de tocantes e constantes ações voluntárias, e das reações aos distúrbios que acossam nossa humanidade.

Ser presente é coisa para quem não se importa em correr o risco de se apaixonar pela pessoa ou pela ideia, quem não cultiva temor por ser assimétrico demais para caber na simetria dos planos traçados.

Porque planos traçados são apenas corrimões na escadaria da nossa vivência. Às vezes nos sustentam no caminho, impedindo-nos de ir de vez ao chão, mas em outras são apenas apoios, uma segurança mínima no momento das escolhas determinantes.

Quem é presente é presente também. Pode não vir com laço, embrulhado em papel colorido. Pode nem mesmo ser tão sorridente quanto como ficamos ao desembrulhar o pacote. Porém é presente de um jeito que às vezes nos dá nó na garganta, tamanha emoção é tê-lo assim: presente.

Para os que apreciam as festas: brindes sinceros. Para os que preferem o seu canto em casa: bons filmes. Para as crianças: playmobil. Para todos: presenças que sejam presentes.

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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A ARTE DE FICAR CALADO
>> Felipe Peixoto Braga Netto

"Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados".
Clarice Lispector

Saber ficar calado. É uma arte. Difícil, exige esforço e experiência. Não digo ficar calado sozinho, pois aí não há muita vantagem. Se sairmos a divagar, em voz alta, as perturbações que nos vão nos pensamentos, não demora estamos divagando num hospício.

Também não falo sobre ficar calado em público. Já fui mais calado em público, hoje nem tanto. Sou até, às vezes, o menos calado. Curioso, isso. Eu achava que era um caso perdido de timidez crônica, de incompatibilidade absoluta com a palavra oral, e hoje me pego, eventualmente, para meu espanto, falante e loquaz.

Queria mesmo abordar a difícil arte de ficar calado a dois. É disso, em essência, que trata a bela frase em epígrafe. Os jovens — falo por mim, pelo que lembro — não sabem, definitivamente, ficar calados a dois. É um desconforto terrível, uma absurda e incômoda sensação de mal-estar, aliada a um desespero tolo em busca de assunto.

Depois, com o tempo, passamos a ser menos severos conosco e nos permitimos, vez por outra, a falta de assunto. Aliás, que necessidade absurda é essa de falar por falar, sem parar? Escrevi, certa vez, uma frase que depois li curioso: "Demorei a perceber que são os calados que têm algo a dizer...".

Não sei que poeta falou — creio que o Quintana — que amizade é quando o silêncio a dois não se torna incômodo, e amor é quando o silêncio a dois torna-se prazeroso e íntimo. Algo assim, com outras palavras. Mas, no fundo, não é isso mesmo? Já experimentaram a sensação de ficar uns minutos calados, depois do amor? É uma conversa com Deus.




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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

ENTÃO É NATAL >> Albir José da Silva


Ninguém precisa me dizer da falta de originalidade deste título. Mas nesta época não quero novidades e essa versão gravada pela Simone é bem exemplo disso. Todos os anos eu a ouço dezenas de vezes e todos os anos espero por ela tão logo dezembro se anuncia.

Quero as repetições de praxe: a música de sempre, os parentes e os amigos de sempre — mesmo que alguns in memoriam — a árvore empoeirada e a comida de sempre, os abraços e as palavras de sempre. Quero as carências de sempre.

Quero as carências que unem, que jogam todos os humanos no mesmo barco. Embora muito se fale em religião e os motivos da festa sejam religiosos, não é a religião que une. A religião divide porque os homens se dividem em religiões. A magia está em que todos se esquecem das fronteiras de sua religião. Os sorrisos e cumprimentos destes dias dispensam saber a quem se dirigem. Uma couraça se rompe e ensaiamos reconhecer uns nos outros a fragilidade humana. O fechamento de um ciclo e a abertura de outro nos obriga a refletir sobre o que estamos fazendo aqui.

Refletimos sobre como foi o nosso ano, mas também como foi o ano dos amigos, dos cariocas, dos paulistas, dos mineiros, dos brasileiros, dos terráqueos, enfim. Refletimos sobre como será dois mil e dez, não só para nós, mas sabendo que o nosso futuro e o dos outros estão entrelaçados. Sabemos nesta época que o que acontecer com o vizinho vai nos afetar. Depois esquecemos e só cuidamos do próprio umbigo. Esquecemos que uma contaminação, por exemplo, não vai se contentar com um único umbigo.

Quero continuar pensando tudo isso em dezembro. Mas, em janeiro, que eu não me esqueça das promessas, das dietas e das ninharias de Copenhague.

Ninharias, mas são o que temos. A camada de ozônio não está grande coisa, mas é a que temos. Os animais estão alguns extintos, outros ameaçados, mas são os que temos.

Os humanos, como sempre, muitos miseráveis, poucos locupletados. Mas são o que temos. Ou são o que somos.

Mas voltemos a Lennon e Simone. E à festa cristã, pro rico, pro pobre, o ano termina, harehama, e nasce outra vez, hiroshima, meu amor, o que você fez, nagasaki, mururoa, copenhague, hare!



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domingo, 20 de dezembro de 2009

O HOMEM DE DOIS MIL E POUCOS ANOS
>> Eduardo Loureiro Jr.


Já imaginaram se Jesus ainda estivesse vivo, vivinho da silva, em carne e osso?

Teria pouco mais de dois mil anos — a idade certa ninguém sabe devido a controvérsias e a mudanças de calendário —, mas que aparência teria?

Se mantivesse a mesma aparência de quando morreu e ressuscitou, seria uma espécie de Highlander, aquele personagem imortal de ficção, próximo dos 40 anos, que atravessa as eras mudando de nome e sobrenome para que ninguém desconfie de que é, na verdade, o mesmo. Talvez fosse o próprio Highlander, ficção que nada, baseado em fatos reais, num homem real, Jesus.

Ou então já seria um velhinho, um velhão, dois mil anos de velhice, uma espécie de Papai Noel em que importam mais a barba e os cabelos brancos do que o rosto enrugado. Seria o homem mais velho do mundo e poderia solicitar inclusão no Livro dos Recordes com uma simples testagem de DNA. Talvez fosse o próprio Papai Noel, a forma que encontrou de continuar por perto, distribuindo presentes e passando seu povo em revista de doze em doze meses.

Poderia ser também uma eterna criança, especialmente nos natais. Iria de família em família, à maneira de um Highlander mirim ou, menos fantasiosamente, feito um menino de rua, um órfão que sai de um reformatório para outro, sempre desafiando as instituições.

Ou ainda, como Deus que é, poderia assumir a forma que achasse mais conveniente de ocasião para ocasião, feito um mutante cuja principal habilidade fosse a metamorfose.

De um jeito ou de outro, por ser capricorniano e não gostar muito de aniversários, deve ter preferido se manter anônimo, mesmo ao preço de atribuírem a Ele uma série de atitudes e identidades absurdas ao longo desses dois mil anos, tal qual este cronista está fazendo agora.

Porque se não estivesse aí, no meio da multidão, disfarçado, o Natal seria um alvoroço ainda maior do que é hoje. Jesus teria que fazer uma grande aparição midiática todo final de ano, feito Roberto Carlos. Aliás, será que Jesus é o Roberto Carlos, comprovando a tese de que Deus é brasileiro? Não, é ridículo pensar Jesus com uma pena no cabelo ou cantando música específicas para baixinhas, gordinhas e coisas do tipo. Jesus entraria, ao vivo, em todos os grandes telejornais, receberia homenagens de metade do planeta, sofreria atentados da outra metade, e, no dia 25, garis teriam que recolher a montanha de presentes à sua porta, presentes que Ele, por ser muito econômico e não se preocupar com o dia de amanhã, nem utilizaria.

É... melhor mesmo é você, Jesus, meu menino, meu velho, meu amigo, continuar comemorando seu aniversário discretamente. Parabéns pelos dois mil e poucos anos de vida. E muitas felicidades por toda a eternidade.




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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

1 e 70 >> Leonardo Marona

Andando na rua. Faz um calor desértico. Tenho as virilhas em carne viva. As coisas ainda poderiam ser piores – eu já sabia disso. Mas, ao me deparar com um homem muito alto, desajeitado, como que deslocado num mundo fora dos seus ajustes, tão mais perto do sol que eu, com a testa brilhando e a cara de pavor canônico, tenho de repente a nítida sensação de que, sim, o mundo havia sido feito para os meus parâmetros.

Pobres seres gigantes, que se cansam tão rápido de sobrevoar o mundo. Ficamos mais por aqui, por entre pêlos e pátios. Os mictórios – aleluia! – ajustam-se às nossas necessidades. E os peitorais não convidam constantemente à tontura ou ao suicídio. São verdadeiros parapeitos, dissuadem o pulo único.

Pela altura – talvez a visão fragmentada, dissolvida nas multidões em polvorosa – seja um perfeito soldado, a média do homem mundano sem deus ou justificativas, a forma da besta milenar. Colho flores, chupo mangas como qualquer um. Apenas me joguem um par de tênis, serei médio, farei com que sirva. Pedirei licença às velhinhas, farei com que me vejam. Entre as migalhas de um mundo esmurrado, sentarei no meio-fio, as pernas ajustadas à exatidão do suplício, verei facilmente calcinhas, terei idéias com que me ocupar.

Foi andando na rua, debaixo de sol forte, que pela primeira vez me senti completamente inserido, uma referência finalmente do tradicional homo sapiens. Os passos não são imensas aventuras cósmicas, são duros, secos, sub-reptícios, escorregam metalicamente pelas calçadas em chamas.

A melancolia vasta de estar sempre pela metade, na média do todo, a aflição leve de ser despossuído de extremos, isto, convenhamos, é realmente de lascar. Mas é recompensador enxergar as plantas distantes da compreensão dos olhos. Automaticamente elas ganham grandeza, e nós, um pouco de humildade.

Chama atenção como, nos veículos muito ligeiros, posso me agarrar ao puta-que-pariu sem tirar o cotovelo da janela.

Tudo bem que Julio Cortázar e Samuel Beckett fossem homens enormes, e que o próprio Ernest Hemingway não fosse nenhum anão de circo, mas sinto que mais pessoas de 1 e 70 conseguem atingir o equilíbrio da vida, que constitui basicamente em não se suicidar e, se for possível, manter o mínimo do que os sensíveis chamam joie de vivre. Cabe às vezes usar uma escada.


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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

DEZEMBRO >> Carla Dias >>


Por mais que eu corra da sensação, é difícil evitar. No final do ano, nos dezembros já com pés na segunda quinzena, não são apenas as faturas do cartão de crédito que aumentam.

A sensação de que em breve será diferente, de que a lista de desejos terá itens diversos ticados; de que a palidez das paixões e o claustro onde reside minha imaginação ganharão cores e janelas abertas... A sensação persiste, nem sei se por mau hábito ou falta do que colocar no lugar.

E a sensação é voraz, bicho faminto e vai me comendo por dentro. E enquanto dói de despreparo para o novo, ainda que seja o ano, aproveita para arar a esperança que guardo comigo, companheira de avessos.

Dezembros me fazem sentir puxada pelos braços, sendo partida em duas essas tantas outras que já sou e há tanto tempo. Porque além do ano que finda e o que chega, eu ganho tempo, um tempo chamado férias, que deveria ser de sombra e água fresca, de diversão desembestada, mas que sempre é do refletir, do interiorizar, do engolir a seco. E, graças, também é dos discos, dos livros e dos filmes.

Dezembros e suas segundas quinzenas são efeito colateral de uma rotina ancestral, com duração apontada por calendário. É quando repensamos o que fizemos, mas com a permissão de recomeçarmos junto com os janeiros. Esse é um sentimento coletivo. Agora, o que sentimos pelos janeiros já é particular, tem a ver com a realidade autoral, as circunstâncias criadas a partir dos desejos de dezembro, onde tentamos plantar certo esquecimento pelos outros dez meses do ano, mesmo sabendo ser impossível.

Há bálsamo nesse esquecimento desajustado.

A verdade é que eu adoro julhos... Julhos me encantam de um jeito que nem sei. É a estação que chegou há pouco e já está mais acolhedora no julho. Fevereiros sabotam a quietude necessária para que eu continue ensimesmando e ruminando minhas ideias sem pé nem cabeça.

Março?

Eu poderia falar sobre o que sinto por todos os meses do ano, até mesmo por um ano inteiro de determinada década da minha vida, mas olha que estamos em dezembro... Segunda quinzena... Inquietação demais me impede de traçar um calendário particular. Janeiro de ano que vem despontando... E férias! Nada a fazer com tanto em pauta.

Quem não sofre da síndrome do dezembro chegando ao janeiro que atire o primeiro calendário.


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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

FRANCAMENTE...
(UMA CRÔNICA COM PÉSSIMA MEMÓRIA)
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Como será o amanhã,
Responda quem puder...
O que irá me acontecer?
O meu destino será como Deus quiser...
(João Sérgio)


Tenho talento para muita coisa; principalmente para esquecer aniversário. É minha especialidade. Também não sou ruim em confundir pessoas, e tenho certa aptidão para perder papéis importantíssimos. E assim é a vida... Esquecendo e perdendo, vou, mal ou bem, vivendo.

Certa vez, porém, meu talento se superou. Uma overdose de talento. Vai ser brilhante assim no inferno! O caso é este, simples e tosco: esqueci meu aniversário. Esqueci mesmo, juraria com a mão na bíblia, se houvesse bíblia por aqui.

Atendo ao telefone, bem cedinho, com um alô desconfiado. Do outro lado, uma ex-namorada:

— Dia especial, né?

— É?

— Hum... Engraçadinho. Onde é a farra?

— Aqui em casa, você vem?

Falei assim, sem dar conta do caso. Achei que era uma cantada em hora imprópria, mas devidamente aceita. Depois, com as cantadas se multiplicando, comecei a achar que estava no paraíso astral, até que minha mãe ligou, e tive que admitir que as conversas eram parecidas. Descartada a hipótese de cantada materna, sobrou o aniversário, logo confirmado por minha mãe com parabéns, muitas felicidades, etc.

Acho que quem esquece o próprio aniversário deveria ser anistiado do esquecimento de aniversários alheios. Afinal, o que são as datas? Uma combinação de números, pouco ou nada mais. Vamos que tenha um valor simbólico. Concordo. Mas esquecer o dia não diminui o sentimento, não acham? Não, não acham...

Está visto que peço indulto em causa própria. Legislo pensando em mim. Porque já esqueci datas importantes e antevejo esquecimentos futuros. Singular talento, que tende a se aprimorar com o tempo. E, francamente, injustificável. Hoje é tudo tão fácil... Agenda eletrônica, computador portátil, celular. Tudo muito simples, tudo muito prático. Se eles ficassem pertos de mim. Sim, porque também consigo perdê-los com rara maestria.

Otto Lara Resende certa vez reclamou: "Devemos a Graham Bell o fato de estarmos em qualquer lugar do mundo e alguém poder nos chatear pelo telefone". Ah, ingênuo Otto, abençoado seja o seu tempo, cujos dias não conheceram o celular. Aí sim, você ia ser apresentado à chateação...

Não que não goste da modernidade, gosto. Há coisas maravilhosas, como, por exemplo, poder desligar o celular. A teoria não é minha, é do velho Machado. Não foi ele quem disse que a melhor coisa do mundo são botas apertadas? Sim, porque, descalçando-as, ah, que alívio e prazer. Atualizando o exemplo... Os celulares são botas apertadas, cuja maior virtude é ficar bem quietinho, desligado e calado.

Pois é... As datas não lembram de mim, nem eu delas. Que mal há nisso? Esqueci meu aniversário, admito. Não me quero mal. Acho até que me quero bem. Meu querer bem é assim, desajeitado e trapalhão.

Meus detratores, eu sei, espalham calúnias. Malvados! Dizem, com veneno escorrendo do canto da boca, que eu faltei, há uns anos, à minha festa de aniversário. E a calúnia ganhou corpo e versões diferenciadas. Já soube do seguinte diálogo, em roda de remotos conhecidos:

— Claro que você conhece, o Felipe!

— Ah, o que faltou ao próprio aniversário? Sim, sei quem é.


Já vou avisando: não adianta reclamar. Nem precisa. Eu me encarrego, com eficiência, da tarefa. Sei reclamar de várias coisas, mas fiz pós-graduação em auto-reclamação. Nem eu agüento. Se eu pudesse, já tinha me despachado. Tinha-me mandado reclamar em outra freguesia.

Também pudera... Tudo é relativo nessa vida. Tempo, espaço, a beleza das moças... Por que que diabo só as datas são preto no branco, precisas e fatais? Por que não abrasileirar as datas? Sim, conceder um desconto — uma semana, digamos — para as datas importantes. Uma espécie de moratória no calendário. Ou um santo para os distraídos.

Eu não entendo patavina de astrologia. Sei que sou de leão. É o que dizem. Soube, faz pouco tempo, que meu ascendente (acho) é libra. Deduzi que quem é assim precisa escrever, pois o "único antídoto para a rigidez e a depressão librianas é a arte. Ela dá sentido e propósito à determinação saturnina de construir um mundo de formas perfeitas e relacionamentos ideais". É o que está escrito no mapa astral que me foi presenteado.

Nasci em 10 de agosto. A certidão diz que às 8 da manhã. Há controvérsias em família. Mas sou assim. Acho que o mapa astral está muito justo. Talvez se dissesse o contrário, também acharia. Sempre que leio qualquer coisa acho que é pra mim. Sou um sujeito impressionável.

Talvez se pudesse inserir o dia da minha morte, o mapa astral ficasse mais preciso. Esse dia não sei. Espero que esteja longe, pois ainda há o que fazer. Se bem que... É... sabendo quando nasci e quando morrerei, o que sobraria de revelação fantástica para o pobre do mapa astral? Talvez dissesse que meu esquecimento crônico tem fundamentos astrais. Seria coisa útil. Esquecido um aniversário, mandaria um bilhetinho, logicamente atrasado, com pungidas desculpas, com uma cópia do meu mapa astral, dizendo-me inimputável.

E não é que a idéia é boa? Pode escrever aí, astrólogo amigo: os nascido em 10 de agosto apresentam curiosíssima compulsão para esquecer datas. Compreende-se: segundo decanato; Júpiter em oposição a Vênus; às oito da manhã, estranhíssima configuração astral. Melhor não nascer nessa hora. Nasceu? Boa sorte. Deus olha por todos.

Nasci, meus amigos, e venho vivendo. Até admito que gosto da coisa. Então, se algum astrólogo, desses bem precisos e exatos, souber, por Saturno ou Marte, quando morrerei, por favor, deixe isso em segredo entre os astros. De Plutão ou Júpiter não entendo, embora lhes ache poéticos os nomes. Nem da lua entendo muito; só espero que ela faça a gentileza de estar bem lunática, branquinha e inteira, no dia da minha morte, clareando meu caminho no meio do mar.

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domingo, 13 de dezembro de 2009

MEIA-BOCA >> Eduardo Loureiro Jr.

Lenir - FlickR.com
"Pelejar pelo exato dá erro contra a gente."
(João Guimarães Rosa)

Tem gente que só quer do bom e do melhor. Para mim, o bom já está bom; só quero do melhor se não der muito trabalho.

Querer ser o melhor — e ter o melhor — normalmente necessita de um esforço que não vale a pena que o próprio esforço criou. A dor é um bom limite. Se está doendo, então já está perto da hora de parar: a partir daquele ponto, um aumento do esforço não vai melhorar muito o resultado.

Sabe aquelas coisas de "vou atravessar a cidade para comer AQUELE bolinho de bacalhau, o melhor do mundo"? Ué, mas se tem um bolinho de bacalhau bom já ali na esquina, por que pegar carro, ônibus, táxi? Sai mais em conta caminhar até o bolinho mais próximo. Em matéria de culinária, não tenho muitas papas na língua. Sou incapaz, por exemplo, de identificar coentro numa comida: e tem gente que detesta coentro, quer lamber o tridente do diabo mas não trisca a língua em coentro. É a turma que quer o melhor, que quer o perfeito, para quem tudo deve ser daquele jeitinho ideal.

Ideal é um bom nome para padarias — Padaria Ideal, o seu paõzinho perfeito — mas, no dia-a-dia, eu prefiro o real. E o real quase nunca é perfeito, está mesmo longe de ser o melhor. Tem gente que compra o mais barato, tem gente que só paga pelo melhor. Eu escolho o mais-ou-menos, o meia-boca, o morno que muita gente vomita.

Praticamente nada do que faço recebeu ou receberá o adjetivo superlativo de bom: o melhor está fora de minhas pretensões. Meus textos — esta crônica, por exemplo —, minhas músicas, minhas aulas, minhas análises de mapa astral, qualquer tarefa que eu desempenhe — de desentupir uma pia a fazer turismo numa nova cidade — traz sempre a marca do "se já 'tá bom, 'tá bom".

Entre a dona Qualidade e a dona Quantidade, fico com as duas — mas não sacrifico a segunda pela primeira. O tempo e a paciência perdidos na tentativa de fazer do bom o melhor poderiam ser empregados em outras coisas. Em vez de gastar o juízo para compor a canção perfeita, faço logo umas dez seguidas e, com sorte, algumas delas ficam bonitas. Não sou um daqueles para quem a busca da perfeição leva à perfeição. O que me aproxima da perfeição é a prática constante e fiel do erro.

E se há mesmo que se fazer o esforço, é bom que se produza muito. Eu que não vou botar óleo numa panela — e depois ter o gordurento trabalho de lavá-la — só pra comer uma cuiazinha de pipoca. Se é pra fazer pipoca, que a espagueteira fique cheia delas. Espagueteira, sim. Só usa pipoqueira quem quer a melhor pipoca, o que, vocês sabem, não é o meu caso.

A única coisa que fica perfeita com o esforço concentrado é o estresse. O que tem de gente perfeitamente estressada é uma beleza. E como é que se saboreia o perfeito bolinho de bacalhau ou a perfeita pipoca quando se está perfeitamente tenso? E como é que se admira a perfeita canção ou o perfeito texto quando se está perfeitamente exausto? Não sei a resposta, nunca fiquei perfeitamente estressado, não faz parte da minha realidade. Para mim, de estresse já basta o ruim, não quero saber do pior.

Essa história de olho clínico, de ouvido absoluto e de paladar sensível no mais das vezes só atrapalha. Não é coisa de mestre nem de gênio. Não é chique, é chato. Porque tem hora que as pessoas que querem o melhor começam a querer o seu — o meu — melhor. E aí é um tal de "faz isso assim", "você devia fazer assado", "o potencial você já tem, basta se dedicar um pouco mais"...

Já foi-se o tempo em que eu era cu-de-ferro, o primeiro da classe. Hoje em dia, gazeio aula para jogar porrinha no pátio e fico contente se passar por média. Que os outros pelejem pelo exato. Eu prefiro passear pelo descabido.




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sábado, 12 de dezembro de 2009

A FORÇA DE UM TRATOR
(OU COMO VENCER O MEDO DE PAPAI NOEL)
[Maria Rita Lemos]

Chovia muito naquele sábado, quase dezembro, logo depois que a primeira parcela do décimo terceiro salário chegara ao bolso de uma parte dos trabalhadores, levando-os às compras natalinas.

O que aconteceu sei que não foi por acaso (não acredito nisso) e foi verídico, por isso passo a narrar do meu jeito, isto é, como aconteceu, mas, principalmente, como eu senti, em meu íntimo, o quanto isso me tocou, e não foi pouco.

Tudo começou de manhã, quando fui a uma loja do centro da cidade reforçar meu estoque de bolas prateadas para a árvore de Natal. Já na fila para pagar, carregada de tubos de enfeites, um garoto chamou-me a atenção. Tinha três anos (disse-me sua mãe depois) e estava literalmente arrancando das mãos de um homem o brinquedo que ele também estava na fila para pagar.

Era um trator muito grande, com retroescavadeira (acho que esse é o nome correto), uma porção de acessórios de um trator de verdade, bem colorido. O garoto, disse-me a mãe, pensou que o homem que segurava o brinquedo era vendedor, e dizia, quase em desespero: “É esse, tio, foi esse que eu pedi para o Papai Noel, deixa eu levar!”

Seus olhinhos bem pretos, redondos, faiscavam em sua morenice brejeira. Não resisti e perguntei: “É isso que você pediu ao Papai Noel? Então deixe que ele vai trazer outro igual para você, esse aí o Papai Noel vai levar para o filho desse senhor, não é?”, interferi, conciliadora.

Pedro, era esse o nome do menino, respondeu imediatamente: “É esse, sim, tia, eu pedi três. Papai Noel vai me trazer três “tratoi” assim” (e mostrou com os bracinhos abertos).

A mãe conseguiu acalmá-lo, eu paguei minhas bolas e voltei para casa para trabalhar em minha árvore. Um dos netos chegaria dali a pouco para almoçar, eu estava atrasada. O dia passou e a chuva intermitente fez com que, de tardezinha, pensássemos em ir ao “shopping” com Leo, meu neto, para um passeio e a porção de batatas fritas que ele adora.

Lá chegando, apesar da multidão que pareceu ter a mesma idéia — de novo era o décimo terceiro chegando aos bolsos e já se esvaindo —, estávamos tentando abrir espaço nos corredores lotados quando eu vejo novamente Pedro e sua mãe. Desta vez, ela estava tentando convencê-lo a entrar na fila para tirar uma foto no colo do Papai Noel, como estavam fazendo uma porção de crianças.

Como meu neto também estava na fila, fui chegando e prestando atenção ao menino moreno dos “tratoi”. A mãe dele me reconheceu, e contou que ele estava terrivelmente dividido: queria muito o brinquedo escolhido, aliás, queria três unidades do mesmo, mas o pavor que tinha de qualquer pessoa fantasiada, inclusive Papai Noel, era de causar pena. Como a mãe queria muito aquela foto — ela me contou que adotara recentemente Pedro, aquele filho muito amado, e era o primeiro Natal que passavam juntos —, ela dissera a ele que teria que pedir o trator ao Papai Noel e tirar a foto, como todas as outras crianças estavam fazendo.

Aí começou minha curiosidade, um pouco por minha profissão, outro tanto pelo vício antigo de escrever. Para convencer Pedro, que estava suando e pálido, olhos vidrados naquele homem absolutamente insólito para ele, sua mãe disse que ela entraria na fila para pedir o que ela própria queria. O menino tentou: “Mãe, pede meu tratoi também?”. “Não, filho, não funciona assim. Aqui, cada pessoa pede o que quer, não pode pedir para mais ninguém, nem para filho. Eu vou pedir o vestido que vi na loja aqui pertinho, se você quiser mesmo o trator, você pede”.

Certa ou errada estivesse a mãe, em seu intento de enganar o garoto para que ele entrasse na fila, não estou nem estava no momento de julgar. Eu apenas observava a luta que acontecia dentro de Pedro, o menino moreno inteligente, dos olhos pretos brilhantes.

Por um lado, o desejo imenso, incomum, o maior desejo de uma criança diante de seu primeiro objeto amado; de outro, a adrenalina causada pelo terror de ter que passar por aquele momento: achegar-se a esse homem esquisito, de roupa quente e vermelha, sentar em seu colo e sorrir para a foto... era tanto pavor que — sua mãe me contou — a mãozinha que agarrava a sua estava úmida de suor, acompanhando a palidez do rosto.

A fila andava, Pedro estava bem pertinho de seu martírio, a mãe saiu e deixou-o com Noel. Minha curiosidade aumentava, à espera do que ele faria. Quem venceria a luta: a força de um desejo ou o medo quase insuportável? Pois bem: Pedro caminhou devagar para o cadafalso — quero dizer, para o colo de Papai Noel. O homem, até muito simpático, cochichou algo em seu ouvido e o menino respondeu dizendo seu nome. Mais algo foi dito, e de novo Pedro disse, desta vez bem alto: “Eu quero o “tratoi”. Aquele grandão, verde, amarelo, azul e “lararanja” (não é erro de digitação, amigos(as), ele falou assim mesmo). E continuou, sua voz infantil cobrindo a balbúrdia em torno: “Mas eu quero só um, viu? Não três. Só um”.

A moça da foto chegou, Pedro sorriu, ou melhor, esticou os cantos da boca para os lados, com o medo ainda nos olhos, para que acabasse o mais depressa possível aquela agonia. No minuto seguinte ele estava fora do colo do Papai Noel, agarrado à mão da mãe. Se alguma expressão havia em seu rosto, era apenas de alívio. Dever cumprido, trator garantido. A mãe o beijou, carinhosa, e eu não pude deixar de conversar com ele: “Pedro, você está aí com essa camiseta, então é corinthiano, não?” Ele acenou afirmativamente, cansado demais da batalha para dizer qualquer coisa... Eu continuei, inspirada: “Pois bem, lindinho, você fez o maior gol que existe”. Ele certamente não entendeu, mas a mãe sim, e eu também aproveitei a presença atenta do meu neto: “Tem horas, Pedrinho, que existem dois times dentro da gente, e ambos são muito bons e fortes: o medo e o desejo. Muitas vezes a gente tem que fazer um ganhar, para o outro sair fora, e isso é muito difícil... você conseguiu, parabéns! Você ganhou de você mesmo, mandou seu medo embora para garantir o brinquedo que quer... Que bom!"

A conversa terminara. Meu pessoal já estava caminhando para outro corredor, e Pedro também já se afastava, agarrado sempre à mão de sua mãe. Aliás, nos olhos de quem, se não me engano, eu vi algumas lágrimas furtivas, enquanto o filho travava sua luta silenciosa. Era apenas uma das batalhas, talvez para ela a primeira, a que as mães apenas podem assistir e torcer, sem nunca fazer pelo filho. Acho que a mãe do menino não sabia, mas ali aconteceu o seu presente de Natal, aliás, o maior presente, para ambos.

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

FERREIRA GULLAR VAI AO SHOPPING >> Leonardo Marona

vejam bem: consta que o poeta Ferreira Gullar foi visto

saindo da livraria nobre, que fica dentro das entranhas

do shopping classe média alta, carcomido, disseram,

às vésperas dos 80 anos, mas ainda elegante, a postura

típica dos guerreiros homéricos, mas só o que importa

é que ele saiu da livraria, desceu pelas escadas rolantes,

repetitivas, tentou talvez observar de soslaio a calcinha

de alguma bela moça desavisada de que havia um poeta

no recinto, um dos grandes, segundo consta, e no andar

de baixo ele, o que escreveu o famosíssimo poema sujo,

deu uma volta inteira, provavelmente pensando no filho

internado no manicômio (estaria ele bem?) e nas dívidas

a serem pagas com prêmios literários frios e aguardados

e, talvez transtornado, sabe-se apenas que o poeta entrou

um tanto confuso, no salão Oficina do Cabelo, e parece

que uma daquelas senhoras muito ricas, mas instruídas,

falou baixinho na orelha da amiga: “aquele não é o poeta

Carlos Drummond de Andrade?”. mas estas são apenas

informações supérfluas, importa mesmo é que ele entrou

no salão Oficina do Cabelo, pediu licença como autêntico

maranhense, então disse, sob a vasta e ainda bela cabeleira:

“por obséquio, senhoritas, queria saber onde fica a livraria”.


www.omarona.blogspot.com

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

SEM AO CERTO OU ACERTO >> Carla Dias >>

Alardearam meus sentidos: as ideias crivadas em minha cabeça-de-vento; os ideais incendiando platéia de sonhos. As mãos no bolso procurando por moedas que paguem as dívidas das culpas.

Vivendo eu esbarrei com a Logosofia.

Dizem que Logosofia é uma ciência nova, mas qual idade tem a busca pelo conhecimento sobre Deus, sobre o universo e sobre nós mesmos? Veja que não afronto a Logosofia... Estou de namoro com ela, porque não há como não desejar algo que tem, entre suas definições, “a ciência do afeto”.

Vou inaugurar uma ciência e chamá-la “nova em folha”: a ciência de pouco saber sobre e pouco se importar a respeito e tampouco querer notícias de onde. O nada é tão encantador quanto o rapaz que, silente, no seu canto de sala de estar, esparrama olhares dengosos pelo recinto e, claro, há sempre quem os pegue no ar. E o nada dura um sopro, uma piscadela, a sensação de paz reverberando dentro de nós que, segundos depois da sua passagem, já nem sabemos mais descrevê-la. E esticamos a saudade por ela durante décadas e muitas sessões de terapia com profissionais e amigos.

O nada é um milagre efêmero.

Gosto de me ocupar de quem serei um dia, mesmo ao me dar conta de que o faço há tanto tempo que me esqueci de ser quem devia no momento que era para ser e agora pareço desconjuntada. “Desconjuntada” é uma palavra que me lembra um filme sobre um cirurgião plástico que, rejeitado por uma bela mulher, decide fragmentá-la, amputando-lhe os membros. Ele crê que a privando de sua beleza, ela perceberá o quanto necessita dele. Pena que ele não compreenda que necessidade é bem diferente de amor.

O “Eu tenho um sonho...” de Martin Luther King me vem nesse agora. Eu tenho um sonho que é diferente daqueles que são platéia. Tenho um sonho que não foi definido. Começou quando comecei. Tem a biografia em cópia-carbono da minha. Pudesse dividi-lo... Mas como dividir o que não pedem? Um sonho que parece de pura benevolência às 17h58, mas às 21h33 pode se tornar pragmático. Um sonho com nuances. E nonsense.

Ontem foi aniversário de morte de John Lennon. Hoje é aniversário de morte de Clarice Lispector. Já comemorei aniversário de morte de afetos fazendo lista de desejos para se apreciar em vida. Quero ser cremada, não enterrada. Quero ser lançada e sair a passeio com o vento.

Hoje acordei nesse frenesi que nem sei... Alguém sabe? Poderia sair por aí a somar números das casas, carros nas ruas, pessoas na calçada. Somar é o tipo de coisa que faço quando estou em frenesi. E se a soma dá no número 7, eu me descabelo.

Número 7 é sagrado, li em algum lugar de numerologia e já dizia o sábio. História, religião ou ciência, lá está... Uma vez a porta do apartamento era 14 = 7 + 7. Era dia 21 (7 + 7 + 7) e eu fiquei por lá, a ver mar da janela. Esse dia foi de sorte, porque não me distraí com dissabores e o mar inundou minha alma.

Não sei ao certo o que quero dizer hoje. Ou se acerto ao dizê-lo.

Disseram-me que de amor não se sobrevive e eu dei graças. Seria triste sobreviver de amor, quando viver dele me parece muito mais divertido. Beber dele pode até matar a sede. Comê-lo pode ser muito mais prazeroso.

Nem sempre sobreviver é de se festejar.

Quando sobrevivo ao dia, ele me dói devagarzinho às portas do seu final. Não é um final feliz... É um final com máscara de oxigênio, sentimento adestrado, condição para o incondicional.

Sobreviver nos ensina o quanto viver é muito, mas muito mais interessante.

Imagem: Unprofound © Jim

www.carladias.com

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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

UM GENTIL FAVOR DIVINO
>> Felipe Peixoto Braga Netto

"A Minas Gerais, (devo) a minha sede, o jeito oblíquo e contraditório, os movimentos de bondade (todos), o hábito de andanças pela noite escura (da alma, naturalmente), a procrastinação interminável, como um negócio de cavalos à porta de uma venda".
(Paulo Mendes Campos)

Coração bobo é assim. Cai de quatro até por um ponto no mapa, com latitudes e longitudes definidas. Bem que podiam inventar um remédio inibidor de paixão. Não sei se tomaria, mas me acalmaria saber que ele existe. Porque eu, meu Deus, me apaixono com a mesma facilidade com que as pessoas tomam ônibus, trocam de roupa. E se fosse só por doces desconhecidas, vá lá! Mas não, também os lugares têm a irritante facilidade de me cativar.

Lembro a primeira vez que vim. Foi, aliás, no meu primeiro dia em Minas. Fiquei num hotel, aqui na Serra, e à noite, com dois amigos forasteiros, conheci esse lugar tão caracteristicamente mineiro: Cozinha de Minas. Minas, nele, está em tudo, não só no nome. Nas paredes, nessa casinha com grandes janelas e bananeiras plantadas na porta; nos pratos nas paredes, com recados de artistas boêmios; nessa esquina tão inclinada, que sempre soube inclinar meu coração.

Lá se vão quase três anos. De lá para cá, tantas e tantas vezes almocei, sozinho, aqui. É um ritual, e um feliz ritual. Saio do trabalho, ando pelo mesmo caminho, e de longe já vejo a casinha na esquina, com sua arquitetura que não sei definir, mas que me diz belas verdades mineiras. Chego, e tudo me acolhe bem, tudo combina comigo, com uma parte boa de mim.

Trabalho próximo, a breves minutos de uma agradável caminhada. Por isso venho tanto. Atravesso a rua Pouso Alto, minha velha amiga, vizinha à rua do Ouro; passo devagar pela praça cujo nome nunca soube, com a gentileza de suas árvores, e chego no Cozinha de Minas, depois de atravessar a avenida do Contorno. E gosto de vir sozinho, admito. Não que os convites fossem desagradáveis; não eram. É que sozinho posso aproveitar o lugar, e pensar em silêncio bobagens mineiras. Agradeço os bons caminhos; penso nos caminhos a trilhar.

São instantes de intenso prazer. De comunhão com Minas Gerais. E a comida... Ah, essa merece um tratado à parte. Uma prova incontestável da existência de Deus. E de que Deus nos fez para a felicidade. Só pode. Com uma comida dessas, sabemos que a infelicidade é uma grande mentira. Que a verdade grande, com v maiúsculo, está na alegria, e comer é um favor divino para nós, pobres criaturas humanas.

Tive muitas mesas prediletas. De uns tempos para cá, no entanto, escolhi com quem casar. Era uma mesinha charmosa, com vista para a rua Gonçalves Dias, de onde almoçava na companhia de duas adoráveis senhoras árvores.

À noite, é engraçado, vim poucas vezes, quase nenhuma. Outros foram meus destinos. Minhas experiências aqui foram diurnas, formam essa coisa banal, mas valiosa, que é o dia-a-dia. Não terá sido aqui que aprendi que a rotina, embora veloz, pode trazer alguma poesia?

Sim, leitores, bem sei que a ninguém interessa meu almoço. Admito que devia me conter, deixar de lado essa mania irritante de querer me contar. Essa confissão envergonhada é, na verdade, um bilhetinho de despedida. Escrevo porque, ao pagar, escuto sem querer uma conversa ao lado. O quê? Vão fechar?

— É, hoje é o último dia de funcionamento.

— Por quê? — indago disfarçando o choque.

— É que vão construir um prédio aqui.

Deviam prender quem fica melancólico ao saber que um restaurante vai mudar de ponto. Mas eu fiquei. Não deve ser sinal de saúde mental, ou deve ser, sei lá, sinal gravíssimo de alguma coisa má. Não sei. Sei que sofri, dignamente, calado. Brigar com prédios não vale a pena. Há até o consolo de que ele continuará em outro lugar. Pode ser. Mas acho que o caminhão de mudança não carregará, junto com as mesas, minhas lembranças. Essas carrego eu; não alugo nem vendo. Quando Deus quiser me mudar de ponto, pedirei (não sei se mereço) uma mesinha lá no céu, parecida com essa onde fui feliz, e lá me sentarei, calado e contente, me irmanando a um divino tutu com celestial couve, vinda de Minas para um saudoso habitante das nuvens.




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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O FANTÁSTICO SHOW DOS PATOS
Felipe Holder


Quarta-feira à tarde eu estava aqui mesmo, sentado em frente ao computador, quando escutei um barulho bem alto de patos grasnando. Não dei importância. Vai ver, eram dois ou três patos que estavam desistindo de esperar pelo frio pra ir embora pro sul. Que nada...

Segundos depois, o barulho aumentou de tal forma que eu me levantei pra ver o que era. Corri para a porta da varanda e vi que o céu estava tomado por patos. Pra onde quer que eu olhasse, só via patos. O barulho, na verdade, era um grasnar coletivo alucinado de patos que estavam deixando o Canadá. Fiquei assustado. Assustado pelo que vi e também pelo frio que — a julgar pelo desespero dos patos — vai chegar logo e com toda força.

Os patos ainda estavam um pouco longe, mas percebi que eles iriam passar exatamente sobre o edifício onde moro. Fiquei na dúvida entre apreciar tudo ou arriscar pegar a máquina pra registrar o fenômeno. E me decidi pela segunda opção. Tinha que mostrar aquilo pra todo mundo!

Mas foi tudo rápido demais. Peguei a máquina, mas esqueci de tirar a tampa que protege a lente, o que me fez perder tempo. Me atrapalhei para abrir a porta da varanda e perdi mais alguns segundos. Quando finalmente me pus na varanda com a câmera na mão, os patos já passavam sobre a minha cabeça. Vou filmar! E apertei o botão. Ainda peguei uma parte emocionante do fantástico show dos patos, mas tudo não durou mais de vinte segundos. Todo contente, fui ver o vídeo que tinha acabado de fazer. Mas na câmera não tinha nada. Na pressa, não pressionei direito o botão. E as imagens que deveriam estar ali ficaram guardadas apenas na minha mente.


Procurei na internet alguma imagem que pudesse representar o que eu vi. E a melhor que eu achei foi essa montagem, retirada do site da De Zeen. Aquilo a que eu assisti não parecia ser de patos; parecia mais uma cena de filme de guerra, daquelas em que a gente vê uma quantidade enorme de aviões voando juntos, em "V", prontos pra soltar suas bombas. No caso dos patos, bem que eles devem ter soltado suas bombinhas, mas nada que uma boa lavada não resolva.

Não dá pra descrever o que eu vi. Eram muitos, muitos patos. Acho que todos os patos do Quebec estavam ali. Incroyable!

Depois do que aconteceu, voltei a pensar numa coisa que me vem à mente de vez em quando, mas que logo esqueço. Às vezes perdemos tanto tempo tentando registrar momentos interessantes e agradáveis em fotos e filmes, que deixamos de aproveitá-los como deveríamos. É verdade que as fotos e os filmes ficam guardados, em alta resolução, para olharmos quando quisermos. Mas não são a mesma coisa. Ver as coisas pelo visor da câmera, por maior que ele seja, não é a mesma coisa de olhar diretamente pra elas.

No ano que vem, certamente os patos vão voltar. O que não é certo é que eu os veja de novo indo embora. Então, desde já, tomo uma decisão: se eu tiver sorte e o fantástico show dos patos se repetir na minha frente, eu vou fazer diferente...

Ah, quer saber? Não vou fazer muito diferente, não. Vou apenas aproveitar melhor o momento. Em vez de perder tanto tempo procurando e ajeitando a câmera... serei mais rápido pra não deixar de filmar! ;)

* * *

Depois de fechar postagem, a grande surpresa: no dia seguinte os patos voltaram! E eu consegui ser rápido o suficiente pra filmar e compartilhar com vocês o fantástico show dos patos. Eles vieram em número bem menor do que no dia anterior, é verdade, mas vieram. E o registro foi feito. É melhor duzentos patos no vídeo do que dois mil voando. Ou não?





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domingo, 6 de dezembro de 2009

SUPER-HOMEM TRAPALHÃO
>> Eduardo Loureiro Jr.

Meu pai, minha mãe, eu e Tia MoncaEm mim mora a memória de minha mãe e de minha Tia Monca. Elas que, quando eu era pequeno, gostavam de me levar ao cinema.

Lembro de minha mãe me levando para ver Super-homem, o filme. E de assistir a Os Trapalhões no Planalto dos Macacos com Tia Monca.

A fila dobrava a esquina do Cine Diogo, em Fortaleza, que hoje já nem existe mais. Depois de mais de hora de fila, só conseguimos um lugar na primeira fila, forçando o pescoço para ver o Super-homem na tela bem próxima. Já no Cine São Luiz, também em Fortaleza — o mais bonito dos cinemas em que já entrei, e que ainda existe — ficamos também na primeira fila, só que de um balcão no primeiro andar.

Naquela época, os filmes eram apenas diversão, mas hoje, olhando para trás, fica claro que era mais que isso. Os filmes revelam o tipo de relação que fui desenvolvendo com minha mãe e com Tia Monca.

Para minha mãe, sempre tentei ser heróico. Menino que era, incapaz de salvar a humanidade, concentrei-me em tirar boas notas e ser um menino inteligente, educado e tímido, à semelhança de Clark Kent. Cheguei mesmo a desenvolver uma pequena mecha de cabelo em forma de S que teimava em pender da minha testa, e que eu recolocava no lugar imediatamente para que ninguém soubesse de minha identidade secreta. Com o passar do tempo, fui realmente acreditando que tinha superpoderes e que poderia fazer qualquer coisa, até mesmo ressuscitar a mulher amada. Embora eu ainda não tenha sido tão bem-sucedido quanto Superman em minha missões, ficou, da minha relação com minha mãe, a fé de que tudo é possível.

O otimismo e o entusiasmo também marcam minha relação com Tia Monca, mas o clima de superprodução hollywoodiano é trocado por uma abordagem mais nordestina e coletiva. Didi, o herói, não está sozinho — aventura-se acompanhado de amigos trapalhões — e não se limita à seriedade que é típica dos salvadores do mundo, como o Super-homem. Com Tia Monca, sempre pude ser atrapalhado, sempre pude fracassar e colher insucessos sem a culpa de que o mundo ruiria se eu não estivesse ali para salvá-lo. Com ela, também aprendi que o vida não se acaba se a gente não se casa com a mocinha do filme.

Tendo minha mãe como exemplo ideal e Tia Monca como amiga inseparável, fui crescendo, aprendendo, desaprendendo, perdendo, ganhando e, muitas vezes, simplesmente empatando. Ainda hoje elas me levam ao cinema, embora não mais àquele das salas de exibição. No filme da minha vida, descobri que tenho que ser o protagonista. Elas são as guest stars, as estrelas convidadas, que frequentemente brilham mais que o ator principal.

Hoje Tia Monca faz 50 anos e a alegria que sinto é tão infantil quanto meu riso na primeira fila do balcão do cine São Luiz. Daqui a alguns dias, será minha mãe a fazer aniversário, e meu pescoço se curvará ainda mais para trás, para alcançar com a vista a sua grandeza de super-mulher.

Essas mulheres que eu tenho o privilégio de poder chamar de minhas — mãe e tia — dão humanidade ao meu super-homem e engrandecem o meu trapalhão. E agora, que lembro disso tudo, não preciso mais ficar oscilando entre um e outro, num eterno desequilíbrio. Posso me permitir — pelo amor de minha mãe e de minha Tia Monca — ser um autêntico Super-homem Trapalhão.



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sábado, 5 de dezembro de 2009

NASCEU SOFIA... [Debora Bottcher]

Então, no fim da noite de quinta-feira, quase naquela hora em que a madrugada começa a se preparar, nasceu Sofia.

Esse espaço acompanhou a trajetória dessa mocinha, com textos e mais textos — belíssimos, quase um livro! — dedicados a ela e a tudo o que ela trouxe desde o momento em que sua concepção foi percebida, descoberta, afirmada. Foi O milagre na vida de outra mocinha — um pouco mais velha, claro, dotada de algo que mora na alma das princesas das lendas infantis: aquele vislumbre e inocência, aquela felicidade terna e eterna que habita nas pequenas coisas que só seres iluminados podem captar.

Sofia, 'embrulhada' dentro de Ana, desejada e amada muito antes de ser Sofia, já vem ao mundo mimada, proprietária de amor incondicional, herdeira de sonhos e alegrias indescritíveis, a parte mais luminosa e gentil da humanidade, como sua mãe descreveu.

Ao longo da evolução em seu ninho de maior conforto, Sofia foi o laço de comunhão de Ana com o mundo: Ana foi afagada, acarinhada, alvo de afeto e amor que não sabia possível — confesso que eu também me surpreendi com suas narrativas sobre esse 'mundo perfeito' que ela afirma existir e sorrir para as grávidas.

E agora Sofia nasceu. Cruzou a barreira do escuro para aportar nesse universo que, para ela, desejo seja sempre azul, mais azul do que sua mãe conseguiu pintar até aqui. Tomara Sofia tenha uma bússula imaginária para nunca se perder — nem de si nem de seus princípios. E que seus caminhos se tracem sempre em condições favoráveis e com mínimos sacrifícios — eu desejaria sacrifício nenhum, mas isso seria utópico: ela nasceu Mulher!

Para Sofia, desejo que sempre possa ser dona do seu Destino, da sua História, e que consiga fazer escolhas sensatas; desejo que nunca seja governada pelo medo e que consiga manter, sempre, um espírito livre, jamais se deixando aprisionar por convenções.

Desejo que Sofia possa separar o bem do mal intuitivamente e que aprenda que algumas coisas não ostentam nenhum valor, mas podem enganar: que ela possa reconhecer a diferença entre pérolas verdadeiras e foscas bolas de vidro.

Desejo que Sofia possa fixar os espelhos, vendo seu próprio rosto olhando-a de volta, e descobrindo, a cada vez, uma face diferente e melhor de si mesma. Que não seja trágica: que consiga olhar para os outros como eles são, sem ilusões ou disfarces, e que desenvolva complacência e perdão para as falhas alheias, mas que saiba reconhecer a verdade e distingui-la da mentira instantaneamente.

Desejo que Sofia consiga realizar todos os seus desejos, mas que quando isso não acontecer, saiba recomeçar, quantas vezes for preciso, e nunca desista de seus sonhos: que extraia do mar sempre seus melhores tesouros e que siga seu coração, sendo sensível para compreender o significado do que realmente importa.

Desejo que Sofia chore pouco, mas sabemos que não será assim: inocências e perdas se confundem e o sofrimento será inevitável. Pessoas chegam e partem, abandonam, morrem. É como as coisas são. Desejo que Sofia consiga superar suas frustrações, enxugar as lágrimas sem prolongar a dor e ter certeza de que, no dia seguinte, o sol brilha novamente e a vida pode mudar num segundo.

Eu sei: esse texto pode parecer parte de um Conto de Fadas, uma Fada Madrinha com varinha de condão — combinaria com sua mãe e eu desejaria que fosse e que estivesse em minhas mãos prever os enigmas dos caminhos de Sofia e fazê-la saltar dissabores. Não tenho esse poder. Mas desejo que Sofia nunca perca a esperança e seja corajosa — o mundo vai exigir isso dela.

E então, num último anseio, abençoo Sofia com saúde, alegria e paz sem fim, desejando que o Vale da Sabedoria exista dentro dela e que todas as suas perguntas tenham resposta.

Para Ana, desejo que ela possa mostrar o melhor do mundo e das pessoas para essa nova e preciosa vida. Que não tenha medo de errar, porque não se nasce sabendo educar um filho. E que essa alegria que foi exaltada nesses nove meses se perpetue até o fim dos dias...

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

OS ÚLTIMOS INSTANTES DE DYLAN THOMAS >> Leonardo Marona




Peço um copo. Não há nada no copo. Encho o copo. Não há nada no copo. Para onde foge a poesia quando falha a confiança? Tremer diante das baionetas me levou ao humilhante detalhe: suar frio quando se apressa o cadafalso. Por favor, mais um, mas não há mais o que encher. A máscara taciturna não suportou vasculhar a alcova de Rimbaud. Um poeta não precisa ser um homem. Mas um homem que deixa de ser homem jamais poderá se manter poeta. Um poeta precisa das pernas e Rimbaud é prova disso, que tanta falta sentiu de uma, quando precisava mais do que nunca seguir andando. Resta-nos cessar toda a música, inaugurar sem pena o canto funesto. Mas sobra este cigarro pendurado como um fígado cinzento entre os dentes. Lá fora vejo pessoas carregando coisas. Não, acontece o contrário. São carros, motos, a ponta de uma faca. Mas apenas dentro de mim, enquanto pendem os cachos de minha tristeza premonitória diante da testa quente, varam as ruas caminhões me perfurando a nuca. Muito mal vai a situação na rádio, dizem que minha voz envelheceu e não condiz com meus “trejeitos ciganos”. As coisas do coração, os desvios da paz truculenta, tudo paralisado, diante do iceberg noturno. Acabou-se a voz. Mais um, por obséquio. Quando eu era um rapaz... Já basta disso! Sinto que nunca me senti tão jovem, assim desnorteado – será isso uma corcunda ou a mochila nas costas? Resta fazer jus ao colete milimétrico, à paz convulsiva que explode feito bomba, deixar cair outro cacho e pedir mais um copo. A cor dentro do copo, esta que busquei. Frente à face efetua-se a brincadeira perigosa, a torre de vidro que em breve não suportará o peso criado para enobrecer o talento. Resta embaralhar palavras como aqueles macaquinhos de caixa que retiram papéis da sorte. Lembro-me bem dos olhos dos animais de circo. Um copo se quebra pelo chão e de repente reparo que olham para mim, olham para mim sempre do mesmo jeito: “Por favor, retirem esse homem daqui”. Mas olhar é senha para o precipício, os ossos precisam semear a dança da morte. Sempre a minha maior habilidade: revelar a tristeza por trás do que faz rir. Mais um, traga dois de uma vez – derrubarei um terceiro. Estamos aqui, afinal, para isso: derrubar e trazer mais. Sou um dos que trazem de muito longe, preciso do cigarro preso como faísca entre os lábios. Um senhor bondoso se inclina: lembra meu pai. “Filho”, ele diz, “não acha que já foi demais?” Alguém suspende minha cabeça e só penso no orgulho da barreira a ser rompida. De qualquer modo, falta-me estômago, é preciso dar um basta nisso, companheiro traga mais uma. Sei que agora ela fala sozinha diante de um muro, com as roupas íntimas à mostra. E quem escutará seus gemidos inconstantes quando minha voz se apagar? Criei os embusteiros, os bêbados desequilibrados com poéticas justificativas. Tenho uma convicção sem culpa. Trouxe a morte mais uma vez para o colo, derreti os candelabros com meu sopro vulcânico. Verdade seja dita: temo que fui traído. E não paro de pensar no bigode, na boca de tartaruga de Igor Stravinsky. Sim, mas é claro, pode me trazer qualquer coisa. Olham-me como um fantasma: é preciso arregalar os olhos para ficar na história. Finalmente lembro que falta pouco para atingir o ápice. Os amigos, aqueles malditos materialistas de Oxford. É da minha alma que se alimentam. E eu, de que me alimento? Peça mais uma, faça o favor. Novamente o insistente senhor se aproxima: “Está querendo se matar, meu filho?” Explico a ele, reitero que sou de uma força vulcânica, que fui traído, sim, mas não se humilha jamais aquele que é humilde por natureza. Agora estou diante da natureza, não há quem possa me questionar. Dou beijos como dou murros, eis a frase verdadeira. As mulheres não entendem isso, as mulheres, as frases que amamos. Realmente, dê-me a dose de qualquer coisa, baterei o recorde, criarei meus filhos. Sei que preferem os delicados de muitas facetas, sei que sou o que não seria “para a família”. Com mais um drinque há gente falando meu nome, dizendo sobre poemas que não escrevi. Mulheres se derretem, estudam meu teatro, me defendem injustamente.

Talvez não seja assim tão mau. Sim, é terrível. Vacilo em pequenos períodos de umidade casta, mal posso olhar a morte nos olhos, ela não me deixa, aquela mulher gorda ali no canto, com feições de Gales, vermelha, aqueles peitos enormes, unidos e saltando para fora como um gigantesco sol, dois, aos quais não tenho mais direito, estou distante como um verme, distante e indissociável, eu o que sabe, principalmente agora, cheio de uísque, olho para os pobres coitados – estão tão contentes, derrotados – que sabem menos ainda que eu, pobres corações dentro desse vácuo entre os homens, e de repente dou por mim: estou no bar, esse é o meu purgatório, devo cumpri-lo, trata-se da passagem para o outro lado, mas num minuto estou aos gritos, em pé sobre a mesa, tentando arcar, pobre de mim, com o mito de William Shakespeare, mas não se deve colocar o demônio no colo, disso eu não sabia até chegar aqui.

Um sujeito gordo com gravata borboleta se aproxima de mim. Sinto raiva, ele se parece com o que me tornei. Sem nenhum escrúpulo ele chega junto, se apresenta como O MAITRE, quer levar dali meus copos, meus troféus magníficos, a essa altura, meu único apego. Obviamente não deixo que ele o faça. Solto em cima dele os meus cachorros, o retrato do cachorro quando velho, puxo o gordo pelo colarinho ensebado, cuspo na cara dele e digo: “Meu amigo, você é capaz de contar quantos copos eu tenho aqui na mesa?”. Aparentemente ele se retrai, nunca viu nada parecido. Olha para mim com os olhos estalados, com uma calma inadequada, imprópria para o momento. “Meu senhor, Senhor Thomas, vejo aqui 15 copos, o senhor já quebrou três, o senhor precisa ir mais leve, se acalmar um pouco, tome um copo d’água, vamos afrouxar esse colarinho, por favor, o senhor é um escritor reconhecido e temos muita satisfação em tê-lo aqui no bar, mas, por Deus, controle-se”.

Aquilo me atingiu feito uma pedrada. Aquele homem, não de todo deselegante, mas muito suado, pedia que eu afrouxasse o meu colarinho e, vejam bem, ele mesmo o fez por mim. Me tratou como criança quando contou os copos – quantos eram? –, 15 copos, então me fez de filho quando disse “tome um copo d’água, controle-se por favor” e, finalmente, me tratou como poeta dizendo que eu era reconhecido e deveria por isso me cuidar. Vejam bem, um verdadeiro nome da cultura ocidental, ele chegou a dizer, e até mesmo convocou Deus, aquele asno, um assunto no qual eu já nem pensava mais... É fato, penso cada vez menos. Pensar é o que faz sofrer e, ao mesmo tempo, impede que eu me suicide. Suando demais... Um papel, preciso imediatamente de um papel! Dê-me aqui um guardanapo!

Oh pure worm of us, do not delight
With the fear of our souls, please don’t fight.
Give us back, in fragments, the gold
That once has been the ground for us to hoe...

“Senhor Thomas, Senhor Thomas, o senhor está bem, Senhor Thomas?” Gritos. Telefonemas. Jornais. Ambulâncias. Autópsia. Hemorragia alcoólica. Eternidade, enfim.






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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

NOVE MESES >> Kika Coutinho


Cheguei, com louvor, ao nono mês. Sempre achei que nesse final haveria uma despedida silenciosa entre mim e a barriga que cultivei. Enganei-me. A despedida existe, mas não é silenciosa. E não é só minha. Também, não é pra menos, foram 9 meses.

Nesses nove meses descobri o conforto de passar por uma fila gigante ilesa, e sem que ninguém possa reclamar. Descobri a delícia de ter sempre uma cadeira para que eu descanse, uma mão para apoiar-me, um mimo para agradar-me. Ainda que eu me sinta mais forte e capaz do que nunca, é a época em que mais te tratam com carinhos e agrado.A barriga é um imã de gentilezas.

Descobri que a grávida comunga com o mundo, ainda que não queira. Na rua, uma grávida atrai os olhares de todos. Dos velhinhos e das crianças então, nem se fala. Os velhinhos sorriem para mim descaradamente. Quanto maior a sua barriga, mais vai sentir essa estranheza que é o olhar alheio tão firme, tão sem vergonha, tão agradavelmente feliz. As pessoas olham para você e – pasmem – chegam a acenar, tal qual um velho conhecido. As mães, com seus filhos, logo falam para as crianças: “Olha, filho, tem um bebê na barriga da moça”. E pronto, eu paro, a moça para, a criança para. Tudo para acariciar minha barriga gigante.

Imagino que ser famoso deve ser assim. Todo mundo te olha e te reconhece. Fingi inúmeras vezes que eu era a Xuxa. Eu era a Xuxa e todo mundo me olhava, eu acenava de volta, sorridente, exatamente como a Xuxa faria. Cheguei a jogar beijinhos para um bebê que deve ter visto meu DVD “Só para baixinhos”.

Descobri, nesses nove meses, que ninguém nunca desconfia de uma grávida, nunca. Todas as catracas se abrem, te isentam de dar o número do documento pra pegar o crachá, te livram de perguntas e fotos. Nenhuma porta giratória de banco barra uma grávida, pode reparar. Inicialmente, pensei que poderia assaltar o Itaú, aqui perto de casa. Entraria com seis metralhadoras e todos ainda sorririam para mim. Desisti só porque não achei um parceiro que topasse e, agora, fiquei um pouco lenta para correr. Se bem que não haveria necessidade, quase que posso jurar.

Agora chegou a hora da despedida. Cada pessoa de quem despeço-me, logo deseja-me boa hora, bom parto, que Nossa Senhora me acompanhe, etc. Na manicure, quando anunciei que semana que vem não viria, elas logo me pediram um abraço, afagaram a minha barriga, chamaram as outras. Emocionei-me com aquela legião de mulheres que me desejavam saúde, sorte, força e todas as coisas boas que se pode desejar a alguém. Emociono-me com as pequenas despedidas do dia-a-dia. Emociono-me com esses desconhecidos luminosos, que sequer falam seus nomes, mas fazem questão de encostar no meu ombro e desejar-me tudo de bom, boa hora, vai com Deus. É uma despedida alegre e emocionante. As pessoas sorriem um sorriso que eu não conhecia, tratam-me com tamanho afeto e consideração que chega a doer..

Nesses nove meses descobri que as pessoas são boas, a humanidade desponta uma luz nova, torna-se luminosa e emociona-se com esse milagre tão cotidiano, que é a gravidez.

Despeço-me da barriga, não sem dor. Essa barriga que eu desejei tanto, essa incômoda companheira contra a qual praguejei todas as vezes em que as roupas não entravam, não estará aqui em breve. No lugar dela, uma menina. Uma pequena criança que não sabe quem é, que não sabe quem sou e nem onde vive. Uma criança que nem sabe que vive. Não conhece a minha língua, nem os meus medos. Ainda assim, confiará em mim. Sorrirá para mim e dedicará a mim seu afeto e carinho. Como os desconhecidos com quem cruzei, essa criança é a parte mais luminosa e gentil da humanidade.




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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O SEU OLHAR ME FAZ BEM >> Carla Dias >>


Acredito - leiga que sou no assunto quando se trata da sua arquitetura - que a arte de fotografar exige de seu autor a autenticidade do seu olhar e uma busca sensível pela paisagem que deseja eternizar, porque registrar na imagem as palavras que não foram ditas é das responsabilidades que interagem com as nuanças de quem somos.

Obviamente, nem tudo é sensibilidade na terra das necessidades, e muitas vezes a fotografia obedece à demanda, como todas as outras linguagens artísticas, e nos habituamos a vê-la somente na sua forma promocional: revistas, jornais, panfletos...

Mas às vezes a desnudamos, buscando a crueza que cada fotógrafo oferece a essa arte, a partir de seus conceitos, ideais, interesses. Contar uma história, através da fotografia, sem se perder no caminho, não é para todos.

Sábado passado, fui até o espaço Reserva Cultural, aqui em São Paulo, para prestigiar a exposição fotográfica de uma amiga que é das que sabem contar uma história. Há anos eu a vejo cultivando esse interesse pelas pessoas do mundo, por isso as viagens frequentes sempre prometem fotos belíssimas na volta.

O tema dessa exposição, que ficou no Reserva Cultural até ontem, também é oriundo de uma de suas viagens. Desta vez, Mônica Côrtes foi até Lusaka, capital da Zâmbia, como voluntária em um projeto de educação.


O título da exposição é “Ubuntu”, e as palavras que abriram esta crônica, explicando o siginificado do título, tratam de algo que a Mônica realmente acredita e busca.

As imagens que compõe a exposição foram colocadas à venda, a fim de se captar fundos para a escola AMSAI, localizada em Emmasdale, uma das regiões menos favorecidas de Lusaka.

Da exposição, a imagem que me pegou pela mão é justamente a que usaram para divulgar o evento. Isso porque a beleza dela está logo ali, aonde chega o olhar da menina.

Foto que compõe a exposição UBUNTU

A exposição pode ter deixado a capital, mas chegará à cidades do interior do estado e a outros estados do Brasil. Em 2010, ela seguira para Zâmbia, permanecendo como registro histórico do projeto.

Quando se coloca em um mesmo projeto o voluntariado, a precariedade educacional de certas regiões, enfim, qualquer tema que remeta a algum tipo de necessidade, nós pensamos logo em relatos tristes. O que a Mônica fez com essa exposição foi justamente o contrário. O que há de mais especial numa pessoa do que a sua capacidade de ser feliz sempre que possível, encarando sua realidade sem se tornar objeto da derrota?

Assim como o olhar dessa pessoa peculiar, de sentimentos tão profundos e belos, acostumada a clicar emoções e sempre se surpreendendo por elas, Lusaka se rendeu à beleza da vida. Viver também requer a aceitação de que podemos ser felizes e, então, sê-lo. E se no meio do caminho necessitamos de ajuda, que aprendamos a aceitá-la sem colocar em pauta nossa condição de ser humano e nosso direito ao respeito, à escola, à saúde, à atenção daqueles que podem nos ajudar na nossa jornada pessoal e coletiva.

Que bons ventos sempre soprem para a minha amiga. E que seu olhar seja sempre bondoso com a nossa humanidade.

Para saber mais sobre a exposição Ubuntu clique AQUI.

Para saber mais sobre Mônica Côrtes clique AQUI.


www.carladias.com


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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

OLHA AS CRIANÇAS AÍ NA SALA
>> Felipe Peixoto Braga Netto


Que pão de queijo é coisa de mineiro, todos sabem. O que talvez nem todos saibam é que um dos melhores do mundo fica numa minúscula casinha perto de onde trabalho. Descobri à toa, e agora, em certas tardes, secretamente fujo do mundo e me refugio lá. Peço um café, que vem num modesto copo de vidro, e, cheio de más intenções, peço também um pão de queijo, esse aqui, ó, o mais branquinho. Depois repito o pedido alguma ou algumas vezes. Precisa mais para ser feliz?

Porque pão de queijo bão é esse, de padaria ou casa honrada. Nada com muita frescura. Não se pode confundir frescor com frescura. Aqui o café vem no copo, naqueles copos bem simples mesmo, grossos e gordinhos, de tomar cerveja, sabe?

Há pães de queijo e pães de queijo. Uns com honrosas maiúsculas, outros bem safados. O leitor vá comendo e tire as próprias conclusões. Aconselho o óbvio: que seja novinho, que haja um café bem quente por perto e, se possível, que a conversa seja boa. Não sei se é pedir muito, mas se houver um fogão a lenha nas proximidades, e umas montanhas fazendo ambiente, aí sim, tudo estará perfeito.

O senhor se incomodaria, excelentíssimo pão de queijo, se eu o elogiasse um pouquinho mais? Não? Posso mesmo? Então lá vai: pão de queijo é coisa sublime. Prova da superioridade de Minas sobre o resto do mundo. Eu sei que o resto do mundo vai reclamar, mas... Paciência. Eu tenho muita preguiça do resto do mundo. Se quiserem me atacar, ataquem, mas posso pedir um favor? Ataquem aqui, em domicílio, porque a vista compensa.

Se quiserem insistir na guerra, insistam. Saberei me defender. Em defesa do pão de queijo, tudo farei: revoluções, inconfidências, conspirações... Aliás, acho até que os livros de história trazem informações levemente imprecisas. A tal da Inconfidência Mineira não teve nada a ver com tributos, não. Foi o pão de queijo que os portugueses queriam levar. Pesquisem melhor, estudiosos do tempo, e vão ver que tenho razão.

Eu acho melhor ir embora que essa conversa vai ficando boba. Que ideia elogiar pão de queijo! Quem gosta, gosta, quem não gosta, não gosta, e o mundo não parará de girar por isso. Há loucos de todas as cores – haverá, portanto, uns do tipo que não suporta nem ouvir falar de pão de queijo. Que se há de fazer?

Ouço uma perguntinha malvada: "Não tem nada melhor que pão de queijo quente, não?". Tem, leitor, talvez tenha. Mas eu não posso escrever nesse horário. Olha as crianças aí na sala.




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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

LAUDICÉIA >> Albir José da Silva

Laudicéia sentia o bafo quente que entrava pela janela. A blusa azul-claro do uniforme estava azul-escuro e colada no corpo. Tinha sede que a água morna da garrafa pet não saciava. Quarenta minutos com vontade urinar e o ônibus sacolejando no engarrafamento. Finalmente entra na Avenida Atlântica e um vento fresco chega do mar. Um mar azul e branco, comprido que não acaba mais, como se não houvesse ônibus engarrafado, quente, que não chega nunca, e passageiro desaforado. Se pudesse aproveitava esse sinal, saía sem se despedir do motorista, e entrava no mar. Molhava de água fria e salgada a roupa já úmida de suor e esvaziava a bexiga nesse marzão, com um gemido de alívio. Se pudesse, mas não pode.

Não pode porque pela manhã deixou a filha com febre que durou a noite toda. Sua mãe também tossia já há uma semana. Fica até pensando se a febre não tem alguma coisa a ver com a tosse. Lá ficou apenas um litro de leite pela metade e um pouco de arroz. O pedido de vale foi negado de novo. “Só na semana que vem”, disseram.

O sol começa a se esconder mas o calor não diminui. Em frente à boate Help, mulheres e travestis sorriem com saias e shortinhos que parecem revelar muito mais que os biquínis na areia. Estão ali felizes, donos da calçada. Ninguém os incomoda. Ouviu dizer que algumas dessas raparigas chegam a ganhar quinhentos reais por noite. Ela não ganha isso num mês. Até que ainda é jeitosinha, apesar do sofrimento. Uma escova bem feita e não fica devendo nada a essas loiras. Pensa que nem seria difícil: tinha encontrado cada peste de homem na vida – pai, padrasto, tio, marido - que não era possível que na rua fossem piores. E sua filha teria leite, e sua mãe teria remédios.

Tão logo o ônibus saiu da praia eles entraram. Um encostou no motorista e ficou lá, falando baixo. O outro gritou com ela. Que entregasse o dinheiro todo. Que entregasse a bolsa também. E o celular. - Não esconde o dinheiro não, se não vai morrer! Foi pegando as notas, algumas caíram, e ele gritando. Não demorou muito tempo, saíram. Quando deu por si, sentiu as lágrimas no rosto, o coração batucando no peito e a molhadela que descia pro sapato.

Que droga! Agora não sairia às oito, umas três horas na delegacia, só chegaria em casa de madrugada. Nem sabia como é que a filha tinha passado o dia, o telefone sem carga. Agora nem telefone, nem documentos. Preferia que o motorista não desse queixa nenhuma. De que adianta? Amarrou uma blusa na cintura e levantou.

Saiu da polícia por volta de meia-noite. Pensava na filha e tinha fome. Já nem lembrava de boate e de calçadão, quando ouviu a proposta, o convite ou seja lá o que o idiota estava dizendo, e que começava por “leãozinha”. Fechou os olhos, contraiu os lábios e rugiu:

- Tu me respeita, cabra, que eu não sou tua mãe não! Fez sinal para o primeiro dos muitos ônibus que ia pegar até chegar em casa. Na janela, agora, pela segunda vez hoje, rolam suas lágrimas. Ela reza pela filha e pede perdão a Deus pelos maus pensamentos.

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domingo, 29 de novembro de 2009

LIVROS QUE AINDA NÃO ESCREVI
>> Eduardo Loureiro Jr.


Sou platônico até em relação à escrita. Apesar de ter seis (ou sete) livros publicados, fico idealizando mesmo é aqueles que ainda não escrevi...

AS TRÊS DEUSAS. Esse é um livro sobre os três tipos básicos de mulher que os homens procuram: a deusa do amor, a deusa da beleza e a deusa da sabedoria. O livro tem três partes. Na primeira, são apresentadas deusas do amor, da beleza e da sabedoria em várias culturas diferentes. Na segunda parte, discorro sobre os três princípios relacionados a essas deusas: deusa do amor, princípio da satisfação; deusa da beleza, princípio do sonho; deusa da sabedoria, princípio do realidade. Na terceira parte do livro, apresento três textos ficcionais baseados em minha experiência afetiva e sexual com mulheres que representaram para mim os princípios-deusas do amor-satisfação, beleza-sonho e sabedoria-realidade.

AERONAVES NO PÁTIO. Esse é um livro escrito em parceria com meu caro amigo interno do pátio Fabiano dos Santos. Quando eu morava em Fortaleza e ele em São Paulo, descrevíamos um para o outro, em nossas cartas, mulheres lindas, lindas, lindas que encontrávamos. Essas cartas têm um forte teor de fantasia e de erotismo. Algumas delas foram publicadas nos fanzines do nosso grupo literário e musical, Os internos do pátiO. Uma das descrições foi num aeroporto, e essa mulher-avião descrita inspirou o título do livro.

Lembrei desses dois livros ainda não escritos porque hoje pela manhã, participando de uma mesa-redonda (que nunca é redonda) sobre leitura entre pais e filhos, me veio a ideia de escrever mais um livro que talvez não seja escrito tão cedo...

LER PRA QUÊ? Esse livro tem por objetivo destoar do coro de promoção da leitura que está tomando conta do Brasil. Seria composto de vários pequenos ensaios-questões: a promoção da leitura deveria ter preferência sobre a promoção da dança ou da música? Mesmo considerando a importância da leitura, por que se deveria fazer qualquer trabalho de mediação (escolar ou não) no sentido de desenvolvê-la? Por que ninguém chama a atenção para o aspecto anti-social da leitura, que é uma prática essencialmente individualista?

E esse monte de livro que só existe na minha cabeça também está me lembrando de um monte de crônicas não escritas, das quais eu tenho apenas apontamentos de ideias. Mas essas crônicas platônicas ficam para uma próxima ocasião.




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sábado, 28 de novembro de 2009

OCULTOS [Debora Bottcher]

Às vezes, ela se sente moradora de uma casa de cartas de baralho sob um telhado de vidro onde há reflexos que refletem o que não existe... Às vezes, ela julga que está sendo mordida por uma cobra morta e sente o corpo arder, inchar, ir-se no delírio de um segundo antes de amortecer... Às vezes, ela tem saudades de alguém que nem sabe quem é e fica tentando divisar uma imagem que não tem expressão em cada lugar por onde passa. Sonda as flores, toca as brisas, se encanta com as abstrações. Às vezes, ela tem a impressão de que alguém tem saudades dela...

Tem dias que mudam nossas vidas... Tem dias que enganam: prometem um desastre e terminam bem — ou vice versa. Tem dias em que é insuportável viver.

Ela se debate, perde-se entre a lógica e a ilusão: uma mente que desconhece o sossego. Descobre que há pessoas para quem se precisa dizer pouca coisa; outras, com quem se pode ficar sempre em silêncio. E outras para quem por mais que se fale é quase impossível se fazer entender...

Sabe que há desejos que são fáceis de realizar e outros que abandonamos na estrada, deixamos à beira do caminho porque começam a figurar-se difíceis, sem sentido demais. Há desejos que nunca são realizados e vivem ao nosso encalço: esses, roubam a alegria.

Há sorrisos... Ela observa sorrisos que são a pura diversão e tornam o semblante juvenil, criança; outros camuflam a ironia, a maldade, o desprezo, a mentira. Observa sorrisos que retratam a amargura e percebe que, na incapacidade de revelar sua mágoa, são a maneira mais exótica e bonita de ser triste.

Ela vive noites em que uma leveza salta sobre seu espírito e a leva aos delírios do sonho; outras que a fazem descer ao abismo da insônia, mordaz, escuro labirinto de onde não consegue sair. Há noites que são bem comuns e ela pode descansar na tranqüilidade ausente de qualquer disposição afetiva...

Gosta das chuvas. Há chuvas que caem macias sobre nossa pele e brincam marota com nossa lembrança devolvendo-nos à infância; há garoas que levemente nos umedecem e só vêm para refrescar o calor. Mas há tempestades que arrastam tudo ao redor feito um vulcão em erupção: essas revelam a ira dos céus.

Ela aprende: há sentimentos que chegam como madrugada calada, sorrateiros, repentinos, para iluminar nossos olhos, brilhar nosso riso e durar tanto quanto dura uma cascata de fogos de artifícios; outros chegam mansamente, devagar, um dia após o outro e se instalam para ficar. Mas há sentimentos que oscilam entre a calmaria e a destruição e chegam apenas para semear a dor...

Lê muito e descobriu: há livros que contam lendas que penetram em nossos poros e nos faz participantes de algo que não nos pertence; há livros que não nos atingem por mais belas que sejam suas palavras, por mais sabedoria que encerrem, por mais ilustres que seus autores possam ser. Mas há livros que contam nossas próprias histórias, onde podemos ler nosso próprio destino, espelho que nos olha diretamente nos olhos e nos faz olhar para a verdade que, às vezes, desejamos esquecer...

Conhece as lágrimas... Há lágrimas que simplesmente correm pelas faces sem causa aparente, insondável motivo, terrivelmente inúteis; outras são a verdadeira expressão do que transpassa no interior. Mas há lagrimas que ficam contidas na alma, engasgadas, presas na garganta e na incompreensão de si mesmas.

Ela já esteve à mercê dos medos... Há medos infundados, temores imaginários sem qualquer razão de ser; há medos reais, inquietações que nos deixam despertos, ansiosos, eternamente alertas. Mas há medos cravados em nós, eras que cavalgamos num passado remoto, tempo que a memória apagou e a intuição insiste em lembrar...

Há mistérios, pensamentos, músicas, escritos, segredos, ecos... Vozes que o universo sussurra, semente que os ventos depositam na sensibilidade humana. Há vida por detrás da vida, antes e depois dela. Na excitação inocente que feito sombra nos persegue, há o vazio oco das coisas que são, das que não são, das que podem vir a ser...

Há o Amor...



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