segunda-feira, 30 de novembro de 2009

LAUDICÉIA >> Albir José da Silva

Laudicéia sentia o bafo quente que entrava pela janela. A blusa azul-claro do uniforme estava azul-escuro e colada no corpo. Tinha sede que a água morna da garrafa pet não saciava. Quarenta minutos com vontade urinar e o ônibus sacolejando no engarrafamento. Finalmente entra na Avenida Atlântica e um vento fresco chega do mar. Um mar azul e branco, comprido que não acaba mais, como se não houvesse ônibus engarrafado, quente, que não chega nunca, e passageiro desaforado. Se pudesse aproveitava esse sinal, saía sem se despedir do motorista, e entrava no mar. Molhava de água fria e salgada a roupa já úmida de suor e esvaziava a bexiga nesse marzão, com um gemido de alívio. Se pudesse, mas não pode.

Não pode porque pela manhã deixou a filha com febre que durou a noite toda. Sua mãe também tossia já há uma semana. Fica até pensando se a febre não tem alguma coisa a ver com a tosse. Lá ficou apenas um litro de leite pela metade e um pouco de arroz. O pedido de vale foi negado de novo. “Só na semana que vem”, disseram.

O sol começa a se esconder mas o calor não diminui. Em frente à boate Help, mulheres e travestis sorriem com saias e shortinhos que parecem revelar muito mais que os biquínis na areia. Estão ali felizes, donos da calçada. Ninguém os incomoda. Ouviu dizer que algumas dessas raparigas chegam a ganhar quinhentos reais por noite. Ela não ganha isso num mês. Até que ainda é jeitosinha, apesar do sofrimento. Uma escova bem feita e não fica devendo nada a essas loiras. Pensa que nem seria difícil: tinha encontrado cada peste de homem na vida – pai, padrasto, tio, marido - que não era possível que na rua fossem piores. E sua filha teria leite, e sua mãe teria remédios.

Tão logo o ônibus saiu da praia eles entraram. Um encostou no motorista e ficou lá, falando baixo. O outro gritou com ela. Que entregasse o dinheiro todo. Que entregasse a bolsa também. E o celular. - Não esconde o dinheiro não, se não vai morrer! Foi pegando as notas, algumas caíram, e ele gritando. Não demorou muito tempo, saíram. Quando deu por si, sentiu as lágrimas no rosto, o coração batucando no peito e a molhadela que descia pro sapato.

Que droga! Agora não sairia às oito, umas três horas na delegacia, só chegaria em casa de madrugada. Nem sabia como é que a filha tinha passado o dia, o telefone sem carga. Agora nem telefone, nem documentos. Preferia que o motorista não desse queixa nenhuma. De que adianta? Amarrou uma blusa na cintura e levantou.

Saiu da polícia por volta de meia-noite. Pensava na filha e tinha fome. Já nem lembrava de boate e de calçadão, quando ouviu a proposta, o convite ou seja lá o que o idiota estava dizendo, e que começava por “leãozinha”. Fechou os olhos, contraiu os lábios e rugiu:

- Tu me respeita, cabra, que eu não sou tua mãe não! Fez sinal para o primeiro dos muitos ônibus que ia pegar até chegar em casa. Na janela, agora, pela segunda vez hoje, rolam suas lágrimas. Ela reza pela filha e pede perdão a Deus pelos maus pensamentos.

Partilhar

5 comentários:

Sam Green disse...

Ótima crônica. Adorei! Um tapa na cara da sociedade.

Ana Lucia disse...

Muito bom! De Laudicéias dessas o Brasil tá cheio!

fernanda disse...

quem só sabe reclamar da vida, não sabe o que é ser uma laudicéia.

albir disse...

Sam Green,
Ana Lúcia e
Fernanda, obrigado.
Todo mundo sabe das Laudicéias. O que não se quer é enxergá-las.
Abraço.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Crua paulada, Albir. Valeu!