segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A CANETA >> Albir José da Silva

Fico esperançosa com a nova folha limpa. Quem sabe agora vai? Já começou tantas vezes. Eu ficava animada com a determinação com que era empunhada. De repente, num gesto brusco, tudo riscado. Já perdi a conta das folhas amassadas.

Por que ele não insiste? Por que não acredita? Tem ótimas idéias. Até eu fico inspirada. Sinto vontade de continuar o texto sozinha. Vejo mil possibilidades...

Eu queria não me importar com isso. Se faço o meu trabalho, por que me preocupar com os outros? Por acaso alguém me cita ou pensa em mim quando lê alguma coisa? Nunca falhei, nunca borrei o papel, nunca manchei a roupa de ninguém – isto devia me bastar!

Três palavras, ...quatro, ...a mão está firme, escrevendo rápido. Já são duas linhas e parece que vai continuar. Aleluia! Não pare! Quem já escreveu meia página tem o que dizer. E este personagem pode render muita coisa. É só acreditar...

Traiçoeiramente a mão esquerda vai puxando o papel antes mesmo que eu me levante. Vou deixando um risco involuntário na folha que vai ser amassada. Minha ponta cai desanimada na superfície áspera da toalha.

Contraio-me com todas as forças e tensiono a mola, atirando a tampa no olho deste idiota que deveria ter sido pintor. Desde que eu não fosse pincel, é claro.

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Albir, ainda bem que escrevo direto no computador, senão ia achar que essa crônica era pessoal. :)

Anônimo disse...

acho que o problema é q a caneta tá a fim de se aposentar. eu msm, já não consigo escrever mais nada á mão.
alisson