quarta-feira, 4 de novembro de 2009

SENTINDO SEM SENTIDO >> Carla Dias >>

São Paulo

Um calor danado em São Paulo, meus caros. Apesar de preferir os dias de chuva abarcando a metrópole acompanhada daquele ventinho frio, também me deixa feliz a forma como o sol se despeja nesse lugar. Mas esse sol que arde quando nos toca pede balanço de ondas ou quedas d’água. Dentro dos escritórios somos enganados pelo ar-condicionado, mas caímos na real quando temos de dormir em nossas casas.

Esse dia azul me fez lembrar alguns dias que passei em São Thomé das Letras, em Minas Gerais. Lá o azul é ainda mais azul e o céu parece mais largo, mostrando até a lua como se ela estivesse pendurada na janela, feito aqueles célebres mensageiros dos ventos. Na verdade, a primeira vez que estive lá, na primavera de 1995, fiquei surpresa ao ver que as pessoas se reuniam numa parte da cidade apenas para observar a lua, assim como há um lugar perfeito para se presenciar o por do sol.

Por do sol em São Thomé das Letras por Elder Prates


Foi em São Thomé que cliquei o jardim de pedra da pousada, foto que está na capa do meu livro Azul.




Jardim de Pedra da Pousada Paraíso - São Thomé das Letras por Carla Dias

Esses dias de estar fora do meu cenário moram longe. Há muito tempo não saio das ruas asfaltadas ou das facilidades paulistanas, oferecidas pelo perfil 24 horas da cidade. E mesmo olhando lua e sol pela janela do meu apartamento, não é o mesmo de o olhar roçar a imensidão despida de prédios. Também não provoca a delícia de simplesmente parar para se despedir do sol e receber a lua. Não dá pra fazer isso com uma jornada de trabalho que termina depois das 20h.

Não se enganem... Sou urbana. Gosto de São Paulo e aprecio o que ela oferece. Adoro caminhar pela cidade em finais de semana, principalmente quando tem algum feriado colado a ele. Tudo bem que, ultimamente, tenho ficado mais em casa do que bandeado pelas ruas de Sampa. Ando olhando a cidade pela janela.

Mas voltando às lembranças de São Thomé... Quando estive lá pela terceira e última vez, em 1999, atrevi-me e encarei um medo que mantenho e se opõe à profunda fascinação que tenho pelas águas. Eu e minha tia, que me acompanhou nessa viagem, fomos cedinho para a cachoeira Eubiose. Não havia ninguém por perto, o que ajudou, porque um dos meus temores era me dar mal em público (quem nunca teve esse medo é sortudo... ou desencanado mesmo!). Namorei aquela cachoeira durante um bom tempo, até que decidi saber como era a sensação de ficar debaixo dela. Não era uma cachoeira enorme, mas suas águas tinham força suficiente para desequilibrar uma pessoa. E eu já falei sobre o meu medo da água?

Eubiose - São Thomé das Letras por Maura Pires

Quando moleca, e ainda vizinha da Represa Billings, meu pai decidiu que eu e minha irmã deveríamos aprender a nadar. Ele segurou nossas mãos, uma filha de cada lado, e nos enfiou na água, segurando por algum tempo. Não preciso dizer que nem eu, tampouco ela, nunca aprendemos a nadar, não é?

Mora aí o antagonismo que impera em parte da minha existência. O meu fascínio pela água é irrefutável, mas eu a temo com a mesma intensidade.

Lá na Eubiose, decidi que era hora de tomar um bom banho de cachoeira. Já tinha ficado debaixo da fina linha da cachoeira do Vale das Borboletas, um lugar de uma exuberância mística. Mas ali a água não tinha tanta força, ao menos quando estive lá. Na Eubiose ela caía com tanta força que o som que sua queda provocava daria um bom rock’n roll. Mas que fique registrado que ela não é profunda. Meu medo não caberia nos medos de muitos de vocês.

Vale das Borboletas - São Thomé das Letras

A sensação de ficar debaixo da queda d’água, e conseguir me segurar para não correr o risco de cair, foi catártica. A temperatura da água, a força, a limpidez... O medo se transformou em gratidão pelo momento. Na hora, pensei que uma das divindades — que muitos dizem viver em São Thomé — houvesse me pegado pela mão e me apoiado.

O fotógrafo e escritor japonês Masaru Emoto foi responsável por uma experiência em que a água foi submetida ao pensamento humano. Ele alega que as moléculas de água se comportam de forma diferente de acordo com o pensamento ao qual são submetidas. Até onde sei, não há respaldo científico para sua experiência, que foi definida como pseudociência, mas certamente é um tópico interessante. Que a água tem seus mistérios, seus fatos cientificamente comprovados, suas marés, sua poesia ou sua mania de nos fazer poetizá-la, nós sabemos.




Trecho do filme "Quem somos nós"


Comecei essa crônica falando do calor que está aqui na cidade onde vivo há mais de uma década, e pela qual tenho verdadeiro apreço. Aprofundei-me nas nuanças da água, meus medos e afetos por ela. Passei por Minas Gerais, pela espirituosa São Thomé das Letras, uma cidade que cultivou em mim a curiosidade pelas suas lendas e sua beleza.

Finalizo essa crônica com um pensamento que não estava presente quando comecei a escrevê-la, mas que me bate tão forte que se torna impossível não mencioná-lo. Um pensamento que não é meu, mas que peguei emprestado do Paulo Leminski:

acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido


Agora não faço sentido... Talvez mais tarde, quem sabe? Quando as imagens, os cheiros, as lembranças saírem para passear e me deixarem a sós comigo.

Eu ouvindo música do vento em São Thomé das Letras






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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, o sentido é sentido, nem bemol nem sustenido, natural feito uma onda do mar (trechinho de música minha) :)

Carla Dias disse...

Eduardo... deu vontade de ouvir a música : )

Carla Dias disse...

Passando só pra contar que ouvi a música do Eduardo!!! Linda que só : )

Elder disse...

Carla, adorei a sua crônica!!! Parabéns!!! E fiquei muito feliz em ver minha foto postada em seu blog!!
Se tiver curiosidade para ler os meus textos, visite meu site: www.elderprates.com

Graaaaaaaande abraço!!!

Elder Prates.