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CERTO OU ERRADO? >> Eduardo Loureiro Jr.


Dá pra entender por que somos conhecidos por homo sapiens? Quantos homens, e mulheres, realmente sábios você conhece?

Deveríamos nos chamar homo certus. Porque todos nós sempre achamos que estamos com a razão. Eu escrevendo essas ideias malucas, você lendo (se está gostando, acha certo; se não estiver gostando, acha certo estar criticando), o advogado, o médico, o professor... todo mundo se acha certo. A torcida do Flamengo, e a do Vasco também.

Até quem faz a coisa errada se acha certo — basta entrevistar qualquer criminoso que se preze para ver ele se auto-inocentar de qualquer culpa. E mesmo quando o pecador assume o pecado, ele acha que está certo em admiti-lo. Ainda estou pra ver alguém que faça alguma coisa que não está certa sem nenhuma justificativa, sem defender uma ética labiríntica, sem dizer que fez porque quis — pois  fazer o que se quer é considerado certo. Se alguém dissesse que fez algo errado por um motivo errado e que desconfia estar errado de estar contando tudo, possivelmente seria tachado de louco — embora os loucos sejam justamente aqueles que parecem mais certos de si.

E, paradoxalmente, mesmo com esse mania toda de estarmos certos o tempo inteiro, a gente comete mais erros do que seria aceitável. Pelo menos é essa a impressão que dá já que a gente passa muito tempo da nossa vida tentando consertar erros, fazer as coisas direito. Esses dias me peguei querendo fazer tudo direitinho, com vontade de tornar-me um ser humano exemplar, um homem distinto, trabalhador, responsável, gentil, fiel, atencioso, cumpridor dos deveres e das promessas. Fiquei imaginando como teria sido minha vida se eu tivesse me proposto a isso — a ser certinho — mais cedo. E a conclusão a que cheguei é que, se eu tivesse sido mais certinho do que já fui, eu não teria tido vida.

Ou talvez eu esteja apenas doente e, à moda de Alberto Caeiro, pensando o oposto do que pensaria se estivesse são, mas me ocorreu que viver a vida mesmo, a vida vivida, só errando. Não só esses errinhos morais bestas, mas todos os erros possíveis. Errar na alimentação, na educação, no relacionamento, no trabalho... Errar feio até perder a vergonha, até deixar cair a máscara da hipocrisia de que somos bons, de que somos inteligentes, de que sabemos o que estamos fazendo. Não, não sabemos. Nenhuma criança sabe o que está fazendo quando está brincando, e é isso que nós estamos fazendo aqui: brincando. De tanto brincar, a criança acaba acertando, mas não com empáfia. A criança, de tanto errar, acerta com alegria. O parâmetro está bem no meio do nosso peito: um músculo batendo animado, leve, feliz. Certo ou errado, é o coração que diz.

Qual o erro que você cometeu hoje? Eu cometi o erro de escrever duas crônicas — cada uma mais errada que a outra. E o dia está apenas começando...

Comentários

Anônimo disse…
Que belo erro, duas crônicas em uma manhã de domingo! Obrigada!
Anônimo disse…
Ainda bem que parou de querer ser certinho. Pessoas assim são muito chatas e sem graça. Prefiro brincar! :)
Beijo da Maria
Pois é, anônima, parece que um erro equilibrou o outro. :)

Brinquemos, Maria.
Anônimo disse…
bom que as pessoas resolvem errar de vez em quando... obrigada pala crônica... fez-me bem saber que não sou a única a cansar de ser certinha
Anônima, vamos lançar o movimento CSC (Cansamos de Ser Certinhos)? :)
Carla Dias disse…
Olha que os erros que cometi, somente hoje, dariam em uma boa lista... E você em dose dupla não é erro cometido, mas sim gratificação em dobro : )
Cláudia disse…
Eduardo, sabe que você está certo?!rs Se você considera que errou, continue errando assim! Faz bem para mim, faz bem para todos os que leem o que você escreve! Parabéns!
Carla, então vamos continuar errando. :)

Tá bom, Cláudia, continuo errando e mando "a conta" pra você. :)