quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A TOALHA >> Kika Coutinho

Era uma tarde de verão e, talvez por isso, havia tanta gente na piscina da academia. Quando a aula acabou, o vestiário ficou lotado de mulheres, a sua maioria muito jovem, lutando por um chuveiro à sombra.

Para guardar o meu lugar, tratei de pendurar a minha toalha no primeiro chuveiro que vi e, só aí, fui buscar meu shampoo e afins. Deixei a mochila da academia no armário, e voltei ao chuveiro reservado. Estava tudo normal na minha cabeça, um banho quentinho, um vestiário cheio e eu sempre meio atrasada pra alguma coisa que nem lembro o que era. Já estava do lado de fora, me secando, quando notei a pequena confusão. Uma menina, adolescente pra adulta, dando um piti porque tinha sumido a toalha dela. “Ai, que gente estressada”, eu pensei, secando o cabelo e assistindo à confusão. A menina falava sem parar, que tinha deixado a toalha dela — azul — pendurada no chuveiro, foi na sauna um minutinho e, quando voltou, não estava mais lá, a toalha, e ela precisava tomar banho, e como ia fazer, e que absurdo uma academia daquele nível com as toalhas desaparecendo, enfim. Ela tava tão nervosa que nem falava o plural direito. Era uma tal de “uma acadimia cara dessas e as toalha tudo desaparecendo?!” que eu quase fui lá, falar pra ela: “Amiga, uma acadimia cara dessas e tu não me sabe nem falar os plural direito, mulé?!”. Mas não falei nada, me secava pensando que absurdo aquele daquela nega guardar o chuveiro enquanto ficava na sauna, daqui a pouco iam vender os lugares, ia ter guardador de chuveiro igual vaga na rua, que horror, quem mandou ela se achar espertalhona? Bem feito, se ferrou.

Eu já estava quase no fim, secando entre os dedos dos pés, parcialmente vestida, quando, de repente, vi que num chuveiro vazio, tinha uma toalha pendurada, igualzinha à minha. Que engraçado — pensei. Olhei melhor e vi as letras “NO” bordadas na toalha. Cheguei mais perto, e lá estava bordado em letras grandes: BRUNO. A toalha que era igualzinha à minha tinha o nome do meu marido bordado nela, que coisa né? Eu ainda estava tranqüila quando resolvi ver a toalha melhor, de perto e, num susto, constatei que aquela toalha ali, seca, pendurada no chuveiro, era a minha mesmo. Mas, então, por que eu estava me secando com aquela outra toalha que, na verdade era... Azul? Ai, meu Jesus, não acreditei. Eu entrei no chuveiro que a menina tinha reservado pra ela, peguei a toalha dela e, o pior, me sequei todinha com esse trapo que eu nem sei onde foi que ela pôs... Tive um instante de pânico. Pensei em jogar dentro de um armário, fechar e sair correndo, rápido, rápido, eu tinha que ser rápida, já estava chegando no armário, quando... “ACHEI!” Que voz estridente tinha aquela mocinha. O vestiário todo parou e olhou para mim, que paralisei por segundos. Eu estava com a toalha dela na minha mão, mirada para o armário, um pé de havaiana, o outro vazio, a calça posta e a blusa só enfiada no pescoço, uma situação humilhante. Fui virando, assim, devagar, tentando ganhar algum tempo: “É... É... é sua?”, falei, sem jeito, baixo — quase sussurrando. Ela correu na minha direção e arrancou da minha mão, emendando: “Você usou, está molhada!” Mas o que essa guria tava pensando? Claro que usei ué, eu estava molhada, a toalha seca, no meu chuveiro, usei, oras... “Então, mas, então...’, eu repetia sem cessar, a voz engasgada que não saía, até que tive uma ideia e gritei: “Então cadê a MINHA toalha?!” Quando você não consegue se defender, acuse, é a lei dos fracos, mas eu era fracote mesmo ali e só queria me salvar daquele bando de abutres que me olhavam, fuzilando. Alguma estraga-prazer, sem noção, logo mostrou o chuveiro vazio:

— Não é aquela a sua?

— Aquela... Aquela está escrito Bruno! — eu falei, muito brava, porque achei que estava intimidando a multidão com a minha voz que resolvera ficar firme...

— E você não conhece nenhum Bruno?

— CONHEÇO! — gritei, vendo que estava tudo perdido. Eu estava perdida, socorro, como fazia pra sair dali, simplesmente?

Ficou um silêncio no lugar e eu, tentando abotoar a minha calça, fui andando com um chinelo só até o chuveiro vazio, peguei a toalha seca e entreguei para a menina, determinada:

— Então você usa essa, que tá seca, e leva também essa, molhada. E pronto, ué... — Falei como se fosse óbvio, como se eu fosse a chefa dela, de forma que ela não reagiu nem bem nem mal, ficou calada, segurando as duas toalhas nas mãos. Meu Deus, a dela era azul e a minha branca, como eu não notara?

Voltei ao meu lugar, achei a outra havaiana e liguei o secador, pra fazer algum barulho e disfarçar que as minhas mãos tremiam. Logo, outra menina ligou outro secador, outra outro, e a vida foi voltando ao normal. Eu suava em bicas tentando puxar a blusa pra baixo, no minuto seguinte.

Não calcei o tênis, não sequei direito o cabelo e estava pensando numa forma de pedir a minha toalha de volta quando notei que a menina, quase sádica, secava atrás da orelha bem com a letra U, do bordado feito com tanto carinho. “Credo, vai ver que ela estava toda encardida, eu é que não quero meu marido com a urucubaca dessa daí”, pensei saindo de lá, dando a toalha por perdida, e ainda pisando firme, pra manter minha frágil pose de má...



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4 comentários:

fernanda disse...

Ai, Kika, ri muito imaginando a cena. Sabe, eu sou muito hipocondríaca. Acho que eu entraria em pane se me enxugasse com uma toalha de uma desconhecida...kkkk

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ana, a minha toalha já joguei faz tempo: you are the best. Suas crônicas são como sorvete: puro prazer.

Cristiane disse...

Ana, você é muito engraçada! E se envolve em cada confusão...

albir disse...

Ana,
se sua imaginação basta para essas crônicas, ótimo. Mas se elas exigem que vc entre nesses apuros, vou lhe pedir esse sacrifício. Não podemos é ficar sem as crônicas.
Abraço.