Pular para o conteúdo principal

SONHOS TORTOS >> Eduardo Loureiro Jr.

Héctor Sánchez - Flickr.com

Só pra vocês terem uma ideia...

Essa semana sonhei que meu time ganhava de 3 a 0, três golaços, um deles do meio-de-campo. Até me espantei, porque não sou muito de sonhar imagens, sonho mais sentimentos. Se sonho beijando, não vejo a boca, apenas tenho a sensação do beijo. Então eu podia ter sonhado apenas com o sentimento bom de meu time ter ganho, de goleada, e com três golaços. Mas não, sonhei as imagens de cada gol, com direito a replay, e acordei animado, ansioso pra ver o resultado do jogo a que eu não assisti porque fui dormir cedo na noite anterior. Para meu desencanto, o portal de notícias indicava o placar de 1 a 1. Mas, para que eu não pensasse que meu sonho tinha sido inteiramente absurdo, a manchete completa era assim: "São Paulo lidera de novo: 1 a 1 com 3 expulsos". Eu sonhei três golaços enquanto a realidade apresentou três expulsões. Isso é que é sonhar torto!

Minha família, principalmente as mulheres, costumam ter sonhos premonitórios. Minha avó e uma de minhas tias já ganharam no jogo-do-bicho devido a sonhos. Minha mãe e uma de minhas irmãs morrem de medo dos sonhos ruins que têm, pois já viram alguns dos seus sonhos bons se realizarem. Comigo é o contrário. De tanto meus sonhos não acontecerem, desisti de pensar neles como premonitórios e passei a considerá-los como uma espécie de passeio ou viagem, que devo aproveitar enquanto acontecem, ao invés de ficar esperando que aconteçam no futuro. "Sonho é feito paixão, feito sorvete, só faz sentido no presente", tenho repetido pra mim mesmo.

Seria assim também com os sonhos acordados, as pequenas fantasias? Temos que aproveitar enquanto não somos interrompidos por alguém, por um telefonema? Não, assim como há pessoas que têm sonos dormidos premonitórios, também deve haver pessoas que sonham acordadas e veem seus sonhos se realizar. A questão é saber se são as mesmas pessoas, se quem sonha e realiza dormindo também sonha e realiza acordado. Quero saber se tenho salvação, se meus sonhos acordados têm mais chance que meus sonhos dormidos. Porque passo grande parte do meu dia sonhando, envolto em devaneios de coisas maravilhosas que me acontecem, de grandes oportunidades, de milagres mirabolantes, de reviravoltas incríveis do destino. E seria bom saber se devo apenas aproveitá-los enquanto duram em meus pensamentos ou se posso ter esperança de vivê-los.

Ou será que também são tortos meus sonhos de vigília? Se três golaços são três expulsões, no diálogo entre o inconsciente e a realidade, de que maneira se tornarão palpáveis o trabalho ideal, o amor ideal, a família ideal, a vida ideal? Serão todos os meus sonhos transformados — e transtornados — na dura realidade de quase todo mundo?

Comentários

Ana Lucia disse…
Eu também não tenho o mínimo talento para Nostradamus! Mas você devia sonhar é com um queijo... quem sabe assim você não ganha uma mineira? hahaha!
Tia Monca disse…
Sonhando dormindo e acordado, e a gente sendo presenteada com duas crônicas... melhor que isso só outro sonho bom :o)
Um belo domingo para você!
Tia Monca
Anônimo disse…
Sua pergunta lembrou-me aquela parábola dos dois cães, um mau e um bom, que lutam dentro de nós. Sobrevive o que alimentamos melhor.
Sinta-se bem com seus sonhos dormidos ou acordados, amigo querido!
maria
Ana, sabe qual é o meu medo de sonhar com queijo? Acordar com um rato na minha cama. :)

Tia, que bom ser presente para o presente que é você. :)

Maria, e se eu alimentar os dois, será que ainda sobra comida pra mim? :)
Cláudia disse…
Eduardo, durante algum tempo sonhei com uma pessoa que eu não conhecia pessoalmente, mas gostaria muito de saber como ela era. Vários sonhos vieram e sempre que eu ia ver o rosto da pessoa eu acordava. Resumindo, parei de sonhar e fui até a pessoa para conhecê-la. Hoje somos bons amigos! Às vezes é preciso sonhar dormindo para acreditar que o sonhar acordado é possível! Mais uma vez, parabéns pela crônica!
Anônimo disse…
Ah Eduardo,
mas não são todos os sonhos (mesmo os premonitórios das mulheres de sua família) tortos?
beijos

Kika
fernanda disse…
Menino, esse assunto de sonho dá pano p/ manga, não? Algumas coisas ruins que sonhei já aconteram (tipo um acidente de carro com meu pai, com o qual sonhei nos mínimos detalhes, na noite anterior). Mas não é regra. Ainda bem. Senão eu piraria. Agora, os sonhos que eu tenho acordada, esses são tortíssimos! Se eu quero que uma coisa NÃO aconteça é só eu imaginá-la...rs. Nunca acontece. Nem os bons nem os ruins.
Parabéns pelos textos, sempre bons.
Cláudia, grato por complementar a crônica. :)

Kika, você matou a charada. :)

Fernanda, pensei que era só eu que tentava driblar a realidade negativa, imaginando-a antecipadamente. :)
Carla Dias disse…
Tenho comigo que as mais importantes das minhas realizações, até hoje, foram antes sonhadas, dormindo e acordada e sem uma ordem certa. Sonhar dormindo é bom, porque se é sonho ruim a gente pode esquecer dele quando acorda. Sonhar acordado é bom, porque colocamos nosso desejo de sonhar a vida nas mãos dos acontecimentos mais gratificantes do dia, o que nos ajuda a passar pelos mais complicados e, muitas vezes, trazer esses sonhos para a realidade. Ser um sonhador, de sonhos tortos, premonitórios, autorais ou de coautoria de um sonho que alguém te contou... Não importa. Ser um sonhador é tornar a realidade mais feliz.
r a c h e l disse…
Eu fico desolée porque nem sempre lembro dos meus sonhos... às vezes lembro flashes, pedaços de histórias tortas. Podemos juntar bem; ou juntar mal...
Que o quebra-cabeças fique supimpa no final!

Beijo,
Carla, acho que eu estava precisando de um incentivo pra sonhar. E suas palavras foram isso. :) Grato,

Rachel, você é supimpa. :) E eu adoro essa palavra. ;)

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …